Pois bem, onde estávamos? Ah, sim: Jacó casou-se com suas duas primas, Léia e Raquel, esta por amor, aquela por pilantragem de seu tio — e agora sogro — Labão. Ia me esquecendo de dizer que cada uma delas levou consigo uma serva: Léia levou Zilpa e Raquel levou Bila. Essas duas serão importantes na história que segue:
Até agora Jacó viveu sua vidinha, e deus não interferiu em nada, só lançou mão de uns efeitos especiais para impressionar o cara. Como já vimos, Jacó amava Raquel, e só se casou com Léia também por força das circunstâncias. Mas deus não gostou desse negócio e resolveu meter o nariz onde jamais fora chamado, tornando Léia fértil e Raquel estéril, para que Jacó passasse a amar também a primeira esposa.
E Léia pegou a parir um atrás do outro: primeiro foi Ruben (que significa eis um filho), porque comemorou seu nascimento dizendo: “Arrá! Deus me ouviu, agora o Jacó vai passar a me amar”. Parece que não, porque quando nasceu o segundo rebento, ela disse “Deus viu que eu era desprezada, e me deu mais este” e chamou-o Simeão (deus ouviu). Mas Jacó continuou com aquele xamego com Raquel, e quando nasceu o terceiro moleque, Léia o chamou de Levi (unido), dizendo: “Agora vai, porra! Jacó vai se unir a mim!”. Nada mudou, e o quarto menino foi chamado de Judá (louvor), porque ainda esperava que o marido lhe desse atenção: “Dessa vez eu vou louvar ao senhor, será o Benedito?”.
Além de ter que conviver com esta mulher à qual não amava (mas que comia com certa freqüência, pelo visto), Jacó tinha também que administrar o gênio ruim da esposa amada, Raquel, que um dia veio falar com ele:
— Jacó! Se for pra eu não ter nenhum filho, eu prefiro morrer!
Jacó, claro, ficou muito puto:
— Porra, Raquel! Minha parte eu estou fazendo, e muito bem! Se você não engravida, isso é problema seu com deus, tenho nada com isso não!
Relevando esse negócio de “minha-parte-eu-faço-muito-bem” (homem sempre se engana quando o assunto é desempenho sexual, todo mundo já sabia disso naquela época), Raquel propôs que Jacó dormisse com Bila, sua serva, para que ela parisse sobre os joelhos dela. Sim, é isso mesmo que vocês leram: Bila ia ter o filho sobre os joelhos de Raquel. Bem pior que o tal juramento com a mão sob a coxa, né não? Mas era uma forma de simbolizar que a criança nascida naquele momento não pertencia legalmente à mulher que lhe dera à luz, mas sim à outra, que a recebera nos joelhos. Puta negócio desagradável, que poderia ser perfeitamente contornado com um simples contrato de adoção. Mas quem sou eu para criticar a cultura alheia? O fato é que Jacó mandou o bilau na Bila (argh!) e ela ficou grávida. Esse primeiro filho de Raquel foi chamado Dã. Não, Dã não significa retardado! Significa fazer justiça, porque Raquel disse: “Deus me julgou, viu que minha irmã era mesmo uma mocréia, e me deu um filho”.
Nosso amigo Jacó começou a gostar desse negócio de variar as parceiras: mandou ver com Bila de novo e a guria embuchou mais uma vez. Raquel disse “Tô lutando feito uma condenada com a minha irmã, mas tô ganhando!” e chamou o filho de Naftali, que quer dizer lutando. Não sei qual é a relação com a naftalina. A luta contra as baratas, talvez… Bom, não vem ao caso. O que nos interessa é que Léia viu que estava perdendo mais terreno ainda — se é que tinha algum para perder — e entregou a Jacó sua serva Zilpa para que ele a engravidasse, para depois ela dar à luz sobre os joelhos dela, aquele mesmo lenga-lenga. “Ôpa, é pra já”, disse Jacó, e não perdeu tempo: Zilpa ficou grávida e Léia disse “Que sorte, puta que pariu!” e chamou o filho de Gade (boa sorte). Jacó se deu bem com Zilpa também, tanto que ela teve outro filho, que Léia chamou de Aser (feliz), pela óbvia alegria que mais este filho lhe causou.
Depois de tanto pular de cama em cama, Jacó ficou meio prejudicado. Qualquer uma das quatro vinha com muito nhenhenhém, e ele logo dava um jeito de escapar, inventava uma desculpa qualquer, dizia que estava cansado, essas coisas. Pois então: um dia Rúben, o primogênito, saiu para o campo e trouxe umas mandrágoras para Léia. Ora, as mandrágoras eram consideradas afrodisíacas, e Raquel veio logo falar com Léia:
— Léia, me dá essas mandrágoras aí.
— Ah, sua piranha! Acha pouco ter me tomado o marido, agora quer também as mandrágoras do meu filho?
— Marido? Faz-me rir! Jacó anda broxa que só ele! Vamos fazer o seguinte: você me dá essas mandrágoras e pode dormir com ele esta noite.
O trato foi feito, e no fim da tarde, quando Jacó vinha voltando do campo, Léia foi ao seu encontro, toda serelepe. Olhou-o bem nos olhos (ou seja, olhou para algum ponto à direita do ombro de Jacó, tadinha da vesguinha) e disse:
— Jacó, hoje você não escapa: vai dormir comigo, porque eu te aluguei por esta noite.
A primeira reação dele, claro, foi tentar inventar logo uma desculpa. Mas aquela coisa toda das mandrágoras era muito parecida com a história do guisado de lentilhas. Se ele não aceitasse a negociação feita entre suas duas mulheres, corria o risco de mais tarde ouvir alguma delas questionando a forma como obtivera seus privilégios de filho mais velho. Então foi e deitou-se com Léia. Esta engravidou, é claro, e deu ao seu quinto filho o nome de Issacar (presente), porque considerou que era um presente de deus por ela ter mostrado desprendimento ao entregar Zilpa a Jacó. E ainda teve mais um filho e chamou o pequerrucho de Zebulom, que significa eita nome feio da porra. Brincadeira. Zebulom quer dizer morada porque ela achou que agora, com seis filhos, Jacó ia finalmente morar com ela. Depois ela ainda teve uma filha, mas como o nascimento de uma menina não era motivo pra comemoração naquele tempo, ela não disse nada e apenas pôs na garota o nome de Diná (julgada).
Só a essa altura deus se lembrou de Raquel e resolveu que era hora de ela ter um filho também. Raquel engravidou e teve um menino a quem chamou José (aquele que acrescenta), porque pensou, aliviada: “Puxa, finalmente deus se lembrou de mim! Tomara que ele me acrescente outro agora”.
Recapitulando: além de Diná, que não era levada em conta pelos padrões da época e do local, os filhos de Jacó até agora são Ruben, Simeão, Levi, Judá, Dã, Naftali, Gade, Aser, Issacar, Zebulom e José. Ainda falta um para completar as famosas Doze Tribos de Israel. Mas isso é mais para a frente, por enquanto guardem apenas o nome de José (não é difícil, podem chamá-lo de Zé). Esse cara ainda vai ser importante na nossa história.

Acho que já demos bastante tempo pro Jacó pensar, né? Pois o bicho pensou bastante. Labão tinha duas filhas: Léia e Raquel. Algumas traduções da Bíblia dizem que Léia tinha os olhos ternos, outras que os tinha enfermos, outras ainda se referem aos olhos de Léia como “sem brilho”. Vamos falar a verdade: Era vesga, zaroia, olhava o peixe e fritava o gato, a pobre da moça. Em compensação, sua irmã Raquel era bonita e gostosa (“formosa de porte e de semblante”, mas é sempre bom atualizar as coisas). Jacó, é claro, estava apaixonado por Raquel, e se saiu com essa:
— Tio, vou trabalhar para você por sete anos, e o único pagamento que quero em troca é a mão de sua filha Raquel.
— Ué, que que você vai fazer com a mão da menina, Jacó?
— Ah, tio, piada velha não! Cê entendeu: quero me casar com Raquel.
Os olhos de Labão brilharam. Ia ter um empregado trabalhando de graça por sete anos, e no fim ainda ia casar a filha com um sobrinho rico. Sua irmã, Rebeca, já fazia parte daquela família. Se Raquel entrasse nessa também, quando Isaque morrese boa parte de sua gorda herança seria da família dele, Labão. Mas é claro que ele não ia deixar transparecer sua alegria com a proposta de Jacó:
— Hum… Casar com minha filha? Sei não… Bom, melhor entregar minha filha a você do que a outro vagabundo. Digo, a qualquer vagabundo. Beleza, negócio fechado.
E assim Jacó trabalhou de graça por sete anos para poder casar-se com Raquel, e esse tempo todo passou como se fossem poucos dias, de tanto que ele a amava.
Cumpridos os sete anos, Jacó foi falar com Labão:
— Tio, já trabalhei o tempo estipulado, agora falta o senhor honrar sua parte no contrato.
— Beleza, Jacó! Beleza!
Mas Labão ficara mal acostumado. Os lucros que obtivera com um jovem robusto trabalhando com entusiasmo sem pagamento algum eram bastante atraentes. E ele pensava em ter em sua família uma fatia maior ainda da herança de Isaque. Então chamou todos os homens do lugar e preparou um banquete. Todo mundo comeu e bebeu até cair pelos cantos. No fim da tarde, adivinhem o que Labão fez? Exatamente: entregou Léia a Jacó, aproveitando-se da bebedeira do sobrinho. Jacó levou Léia para sua tenda e mandou ver, claro. Deve ter gritado “Raquel, Raquel!” a noite toda, e a vesguinha lá, firme. De manhã, com uma ressaca desgraçada, Jacó olhou para o lado e levou um susto ao ver Léia olhando para ele, ou melhor, olhando para o outro lado da tenda, bom, vocês entenderam. Ficou puto, claro, quem não ficaria? Foi correndo falar com Labão.
— Ô, seu velho filho-da-puta! Que porra é essa? Então eu trabalho sete anos de graça para você, só para poder me casar com Raquel, e você me entrega a Léia? Tá querendo morrer?
Mas Labão era macaco velho:
— Jacó, Jacó, não é nada disso. Aqui na nossa terra o costume é casar a filha mais velha primeiro, então eu não podia casar Raquel antes de Léia.
— Porra, você teve sete anos para arrumar um marido pra vesguinha!
— E você acha que eu não tentei, Jacó? Ninguém quis a menina, tenha piedade! Vamos fazer o seguinte: Você cumpre a semana das bodas com Léia, e depois pode se casar com Raquel, desde que trabalhe para mim os próximos sete anos.
Jacó quis matar o tio ali mesmo. Mas era um homem apaixonado, coitado, e aceitou a sacanagem toda só para poder casar-se com a mulher que amava. E dessa vez Labão cumpriu a palavra (não era nem louco de não cumprir, se aprontasse mais o sobrinho lhe comia o fígado): depois da semana das bodas, entregou Raquel como esposa a Jacó, que em troca trabalhou mais sete anos para ele. E, claro, amou Raquel muito mais do que Léia.
Isso é que é amor, né não? O cara trabalhou catorze anos pela mulher! E a gente com preguiça até de mandar umas flores…

Jacó continuou sua viagem e chegou às vizinhanças de Harã, onde havia um poço. Três pastores conversavam por ali, e traziam com eles suas ovelhas e cabras. Este poço era tapado por uma pedra grande; quando todos os pastores chegavam ali, tiravam a pedra, davam de beber aos rebanhos e tapavam o poço novamente. Jacó foi falar com os pastores:
— Tarde.
— Tarde.
— Cês são aqui de perto?
— Somos sim, de Harã.
— Hum… Vocês conhecem o Labão?
— Lobão??
— [suspiro]. Não. Labão. Filho de Naor.
— Ah, conhecemos sim!
— E ele vai bem?
— Ah, muito bem. Olha, espia ali, é Raquel, filha dele.
Jacó olhou para onde eles apontavam e quem estava vindo, apascentando umas ovelhas, era a mulher mais linda que ele já vira. Ficou embasbacado, aquela família de sua mãe era pródiga em mulheres bonitas, até Rebeca, apesar de já ter uma certa idade, conservava sua beleza. Jacó quis dar um jeito de ficar sozinho com a moça, e disse aos pastores:
— Mas, meus amigos, ainda é cedo para recolher o rebanho! Por que vocês não dão de beber às ovelhas e depois as levam de volta ao pasto, em vez de ficarem aqui jogando conversa fora?
— Ah, não podemos fazer isso não. Temos que esperar que todos os pastores e suas ovelhas e cabras estejam aqui, para que a pedra seja retirada. Aí sim daremos água aos animais.
— Ô, merda…
O plano de afastar os pastores não dera certo, e Raquel (que era pastora de ovelhas, como já devem ter percebido) já havia chegado com o rebanho de seu pai. Jacó partiu para o plano B: Impressionar a moça. Correu para tirar a pedra do poço (o que deve ter rendido uma hérnia ao pobre coitado) e deu de beber aos animais. Depois disso, beijou Raquel e começou a chorar (é sempre bom demonstrar sensibilidade e esse blá-blá-blá todo, mas acho que Jacó forçou a mão nessa).
— Raquel, eu sou sobrinho do seu pai! Sou filho de Rebeca!
Mas Raquel não se deixou levar pelas lágrimas de Jacó: ela sabia que tinha primos morando em Canaã, mas nada garantia que aquele chorão ali fosse um deles. Então voltou correndo para casa e contou a Labão o que havia acontecido. Ele ouviu com atenção e foi ao encontro de Jacó, o cumprimentou e o levou para casa. Lá Jacó contou o que o levava ali e tudo o que ocorrera no caminho, incluindo a impressionante visão da escada para o céu.
— Essa eu conheço, Jacó — disse Raquel. — É do Led Zeppelin!
— Liga pra minha filha não, Jacó, é meio tapadinha. Por essas malandragens que você andou aprontando, só pode mesmo ser meu sobrinho! E esse tal deus maluco, chegado nuns efeitos especiais, tenho certeza que é o deus de Abraão. Seja bem-vindo, Jacó!
Jacó foi ficando, ajudando com os rebanhos (desculpinha esfarrapada pra ficar perto de Raquel). Ele já estava morando com Labão fazia um mês quando o tio veio falar com ele:
— Jacó, não é porque você é parente que vai ficar aqui trabalhando de graça, não é justo. Fala aí quanto você quer ganhar, e a gente negocia.
Jacó pensou bem. Não precisava de dinheiro, tinha uma gorda herança esperando por ele, principalmente depois de ter se tornado o primogênito. Ali na casa de Labão ele era tratado como um filho, não precisava comprar comida nem pagar aluguel. Então pensou numa forma de pagamento bastante original, da qual falaremos no próximo capítulo.

E as férias de deus acabaram. Já era hora! Não que alguém tenha sentido falta: durante sua ausência, as coisas aqui embaixo continuaram a zona de sempre. Mas o cara resolveu voltar, quem é que ia impedir?
Só que deus logo percebeu um detalhe: Jacó não era bobo feito seu avô, Abraão. Chegar só prometendo uma grande descendência e o lero-lero de sempre não seria suficiente pra impressionar o cara. Deus pensou, pensou, fez brainstorms com sua equipe, encomendou pesquisas e concluiu que ia ter que apelar para os efeitos especiais.
O momento era perfeito. Jacó saíra de Berseba a caminho de Harã, na Mesopotâmia, onde morava seu tio Labão. No fim da tarde do primeiro dia de caminhada, resolveu dormir onde estava e continuar a viagem de madrugada. Escolheu uma pedra para servir como travesseiro e dormiu. E sonhou com uma escada que ia da terra ao céu, e os anjos subiam e desciam por ela.
— Nossa — pensou Jacó —, parece cenário da Broadway!
— Puta que pariu — pensou deus — o desgraçado descobriu. Tenho que ficar esperto com esse cara.
Deus pigarreou, e caprichou na voz de trovão:
— Jacó! Ô, Jacó! Quem fala com você é Jeová!
— Quem?
— Jeová! Javé! O Senhor dos Exércitos! O Todo-Poderoso!
— Hum… Nunca ouvi falar não.
— Ô caraio… Aquele sacrifício foi a pior idéia que já tive, Isaque ficou com raiva de mim e não me apresentou a você. Eu sou o deus de seu avô, Abraão. Estou aqui para renovar a promessa que fiz a ele. Seus descendentes serão mais numerosos que a areia da praia! Toda a Terra será abençoada através de seus filhos! Você voltará a esta terra, e ela será a terra de seu povo. E não vou te abandonar até que todas essas promessas se cumpram!
— Nem quando eu for ao banheiro?
— Você entendeu. Tá feita a promessa, é isso aí. Tchau.
Deus retirou-se meio frustrado. Aparentemente não causara em Jacó a impressão desejada.
Jacó acordou do sonho e pensou: “Porra, que foi aquilo? Esse lugar até parece assombrado! Quem será esse tal de Jeová? Bom, por via das dúvidas, não custa nada dar uma bajulada nele, quem sabe o negócio todo é verdade. Não tenho nada a perder”.
Pegou então a pedra que tinha usado como travesseiro e a pôs em pé como um pilar. Depois derramou azeite sobre a pedra, dedicando-a ao deus que acabara de conhecer. E aqui entra mais uma vez a esperteza de Jacó. Vejam só a promessa que ele fez a deus:
— Se o senhor me acompanhar nessa viagem, e me der água e comida, e me fizer voltar na boa pra casa do meu pai, então o senhor será o meu deus.
Deus, tão acostumado a ser obedecido sem questionamentos, ficou confuso ao levar essa invertida. Não bastava dizer que era deus, que era o tal, que mandava e desmandava, que tinha a seu serviço anjos coreógrafos da Broadway. Com Jacó o negócio ia ser bem mais difícil. O vigaristazinho safado o estava tratando como se ele fosse o gênio da lâmpada. Pela primeira vez em sua vida (se é que se pode chamar de vida) deus pensou seriamente em aposentar-se

Esaú ficou muito puto da vida mesmo. Peludo e carrancudo daquele jeito, parecia um gorilão revoltado. E fez um plano: Isaque não ia viver muito. Depois que o velho morresse e se cumprissem os dias de luto, ele, Esaú, mataria seu irmão. Simples assim. Ah, e vocês pensando que eles iam só ficar sem se falar por um tempo…
Porém Rebeca, que podia ter todos os defeitos mas de besta não tinha nada, ficou sabendo desse plano de Esaú e chamou Jacó para avisá-lo.
— Escuta aqui, moleque: seu irmão quer se vingar de você, ele vai te matar por causa daquela presepada que você aprontou.
— Que eu aprontei?! Mas mãe, foi idéia sua, eu só…
— Cala a boca, não discute com a mamãe! Presta atenção: Você vai embora agora mesmo para a casa do meu irmão Labão.
— Lobão?
— LABÃO, Jacó! Ele mora em Harã, você sabe. Fica por lá um tempo, até seu irmão esquecer do que você fez com ele.
— Mas mãe, Harã é tão longe…
— Cê tá ousado hoje, hein, moleque? Obedece a mamãe que você ganha mais, se você me obedecesse sempre, não tinha caído nessa confusão, pra começo de conversa.
— Mas mãe, foi justamente porque eu te obedeci que o Esaú…
— Chega de “mas mãe” pra lá, “mas mãe” pra cá! Parece papagaio!
— Mas mãe, nem existe papagaio aqui!
— Tá querendo apanhar, Jacó?
— Não, mãe.
— Então cala a boca e presta atenção! Quando Esaú estiver mais calmo, eu mando te chamarem de volta.
— Mas mãe, o pai também deve estar puto com a gente, quer dizer, comigo, não vai me deixar ir.
— Disso eu cuido.
Depois desse diálogo cheio de amor e carinho com seu filho predileto, Rebeca foi falar com o marido.
— Isaque do céu, não agüento mais essas hetéias do Esaú. Vivem me infernizando, falam mal de mim, não gostam da minha comida, dizem que nossa tenda é uma bagunça, criticam minhas roupas. Se Jacó se casar com uma hetéia ou qualquer mulher dessas de Canaã, eu me mato!
Isaque, sabendo do temperamento da esposa, nem discutiu. Além do mais, imaginem o desgosto na vida desse homem: o pai ameaçara matá-lo, além de privá-lo da convivência do irmão mais velho, o filho mais novo era um velhaco vigarista sem-vergonha e o mais velho ameaçava tornar-se um fratricida. Mais por apatia do que convencido pelo argumento de Rebeca, chamou Jacó, o abençoou e disse:
— Jacó, não quero que você se case com um dessas mulheres aqui de Canaã. Pega suas coisas e vai para a Mesopotâmia, para a casa do seu avô Betuel e seu tio Labão, vê se consegue se casar com uma de suas primas. Que deus te abençoe, meu filho.
E Jacó mais que depressa se mandou para a Mesopotâmia, viagenzinha rápida, oitocentos quilômetros em lombo de camelo.
* * *
E vejam vocês como era o Esaú: vendo que o pai abençoara Jacó novamente, não ficou com raiva do velho. Seu negócio era com Jacó, e isso seria resolvido mais tarde. Ficou sabendo que Isaque não queria que Jacó se casasse com uma mulher de Canaã e compreendeu que o pai não via as cananéias com bons olhos. Então, foi até as terras de Ismael, seu tio paterno, e casou-se com Maalate, filha de Ismael. Esaú pretendia com isso apenas agradar ao pai, casando-se com uma prima, exatamente o que Isaque ordenara a Jacó.

Às vezes eu reclamo do Beto, mas meu irmão caçula é gente boa. Já o Esaú não podia dizer a mesma coisa. Vejam só o que aprontaram com ele e o pobre do Isaque, nosso amigo tocador de berimbau.
Isaque já estava bem velhinho e tinha ficado cego. Um dia chamou Esaú para conversar.
— Esaú, já estou velho demais, posso bater as botas de uma hora pra outra.
— Mas pai, nem inventaram as botas ainda, o máximo que o senhor pode fazer é bater as sandálias.
— Não me interrompe, moleque. Como eu ia dizendo, estou prestes a peidar no fubá, como já dizia Earl Tonon. Então eu queria te pedir um negócio: pega aí o seu arco, vai lá para o mato caçar algum bicho. Voltando pra cá, prepare um guisado daquele jeito que eu gosto, que é pra eu te dar a minha bênção.
Esaú saiu logo para o campo. Gostava muito do velho e era um prazer para ele satisfazer esses pequenos caprichos de Isaque. Mas o que nenhum dos dois sabia era que Rebeca tinha escutado toda a conversa atrás da tenda. “E daí?”, perguntarão vocês. Ah, os ardis femininos… Rebeca foi correndo contar pra Jacó o que tinha ouvido.
— Então essa é sua chance, meu filho. Vai até o nosso rebanho e pega dois cabritos bons. Traz os dois pra cá. Eu vou preparar um guisado do jeitinho que seu pai gosta, você leva pra ele, e ele te abençoa em vez de Esaú.
— Mas mãe, como é que o pai vai acreditar que eu sou o Esaú? Ele é peludo feito o Tchaca do Elo Perdido, e eu sou liso. Se o pai me apalpar, aí fodeu, vou pegar fama de salafrário e ainda corro o risco de ser amaldiçoado.
— Primeiro, olha a linguagem na frente da tua mãe, moleque. E se ele te amaldiçoar, que a maldição caia sobre mim. Só faz o que eu te mandei, não discute com a mamãe.
(Pra vocês verem, os judeus ainda não existem nessa altura, mas já temos aqui uma idiche mamma).
Jacó fez tudo conforme a orientação da mãe e ela preparou o guisado. Depois Rebeca pegou as melhores roupas de Esaú e fez com que Jacó as vestisse. Para dar o toque final, pegou a pele dos cabritos e com elas cobriu os braços e o pescoço do filho.
— Pronto, filho, agora vai lá levar o guisado para o seu pai, duvido que ele não caia nessa.
Jacó pegou o guisado e levou para a tenda de Isaque.
— Pai!
— Oi. Qual dos dois que está aí, é Jacó?
— Sou Esaú, pai, tá lesado das idéias? Vai, levanta o rabo velho daí e vem comer o guisado que eu preparei pra você.
— Ué — a desconfiança aumentando —, como foi que você encontrou caça tão rápido?
— Ah, o seu deus mandou o bicho ao meu encontro, nem tive trabalho.
Isaque ainda pensou “Meu deus o cacete!”, mas deixou passar. Estava com uma pulga do tamanho de um hamster atrás da orelha.
— Chega aqui perto, filho, pra eu te apalpar e ver se é Esaú mesmo.
Jacó nem titubeou (Rá! Consegui usar mais essa palavra! Quero ver quem me segura agora!).
— É, filho… A voz e a falta de respeito são de Jacó, mas o cheiro é de Esaú, os braços também. Fala a verdade pra mim, meu pai foi vítima de umas pegadinhas que abalaram nossa relação, por isso que eu sou assim desconfiado: Você é Esaú mesmo?
— Sou, pai! Tá ficando doido?
— Tô não, filho.
— Tonon?
— Eu disse TÔ NÃO! Só me faltava essa, cego e com um filho surdo. Agora só me falta Jacó ficar mudo. Hum… Não seria mal. Mas desculpe, estou divagando. Chega pra cá esse prato, deixa eu comer essa caça que meu filho preparou com tanto carinho.
Jacó entregou a ele o prato e trouxe também vinho (não se pode contar sempre com a sorte, embebedar a vítima é sempre uma boa estratégia). Isaque comeu, bebeu e disse:
— Chega mais perto, meu filho, dá um beijo aqui no seu velho.
Jacó veio e o beijou. Vejam só que esse negócio de traidor beijoqueiro não foi invenção de Judas. Sentindo de perto o cheiro do filho, Isaque não teve mais dúvidas e deu sua bênção:
— Ah, filho, você tem o cheiro do campo! Que deus faça seu campo farto, que nunca te falte nada. Que as nações se curvem diante de você, que seus irmãos te sirvam. Malditos sejam aqueles que o amaldiçoarem, benditos os que o abençoarem.
Ah, a vida… Foi Jacó sair da tenda do pai, feliz pelo sucesso de sua trairagem, e Esaú chegou do campo. Com o animal que caçara preparou no capricho um guisado para o velho e foi levar para ele.
— Pai! Ô, pai! Levanta daí, vem comer o guisado que eu fiz pro senhor.
— Quem é que tá aí?
— Como assim, quem é? Sou eu, pai, Esaú, seu filhão! Não lembra que o senhor me pediu um guisado do que eu caçasse?
Isaque começou então a tremer, com aquela sensação que temos quando alguém trai nossa confiança, mas ainda não queremos acreditar que seja verdade.
— Quem foi então que acabou de sair daqui? Quem foi que me trouxe um guisado e foi abençoado por mim?
Ao ouvir isso, Esaú deu um grito cheio de amargura, feito algum bicho pego numa armadilha.
— Ô meu pai, por favor, me abençoa também!
— Mas filho, seu irmão veio aqui, me enganou, e levou a bênção que eu tinha guardado pra você.
— Ah, mas não é à toa que o nome desse moleque é Jacó! Já é a segunda vez que ele me engana: primeiro roubou minha primogenitura, agora veio até aqui, na crocodilagem, e roubou minha bênção. Porra, pai, cê não reservou bênção nenhuma para mim?
— Esaú, eu já coloquei você para servir Jacó na bênção que dei a ele, e ainda o abençoei com a promessa de fartas colheitas. Que que eu vou fazer por você, meu filho?
— Caralho, pai, será possível que você tem uma bênção só? Vai, te vira, dá seus pulos, quero ser abençoado também. Me abençoa, pai.
Esaú começou a chorar alto. E vocês sabem como é de partir o coração ver um homem crescido chorando. Isaque pensou, pensou, e se saiu com essa:
— Você viverá longe das terras boas e da chuva. Você vai viver da sua espada, e será escravo do seu irmão. Mas quando você se revoltar, será livre.
Tá, tá, não é grande coisa como bênção. Mas foi o que Isaque pode arranjar. O quê? Se Esaú ficou bravo com o irmão? Bravo é pouco! Esperem só pra ver…
* * *
NOTA: A bênção plena que Isaque deu a Jacó e a bênção capenga que deu a Esaú são, na verdade, bênçãos para seus descendentes. Quando ele diz que Esaú servirá a Jacó, portanto, significa que os edomitas servirão aos israelitas (Jacó ainda vai se chamar Israel, tenham paciência que a gente chega lá).

Esse é um post rapidinho. Esaú se casou com duas hetéias (não, as hetéias não são fêmeas dos ETs, são mulheres da terra de Hete): Judite e Basemate. A bíblia só diz que as duas infernizaram a vida de Isaque e Rebeca, pra vocês verem que esse negócio entre noras, genros, sogros e sogras não é coisa recente não. E essa rixa em particular ainda vai desempenhar seu papel em nossa história.

Nosso amigo Isaque não tinha tempo para prestar atenção nas negociações dos filhos sobre primogenitura. Uma preocupação maior o afligia: a fome que começava a assolar Canaã. Vendo que a situação não ia melhorar tão cedo, levantou acampamento e foi para Gerar, na Filistia, onde Abimeleque continuava firme e forte como rei.
Vocês sabem que certas coisas são hereditárias, né? Por exemplo, meu pai é cabeçudo, minha mãe também, então só por um milagre eu teria uma cabecinha normal. Meu pai é careca, eu também, só que tô ficando mais que ele, o que não é nada legal. Pois então, parece que a vontade de ser corno também é hereditária. Não que eu ou meu pai tenhamos essa vontade, tô falando de Isaque: chegando a Gerar, temendo que os habitantes da terra o matassem para ficarem com Rebeca que, como já foi dito, era muito bonita, disse a todo mundo que eram irmãos, a mesma coisa que seu pai Abraão fizera no Egito e em Gerar. Só que Abimeleque ficou desconfiado, já conhecia as manias esquisitas dessa família. Então, antes de tentar alguma coisa com Rebeca, ficou de olho nos dois por um tempo. E não deu outra: olhando pela janela do palácio um dia, viu Isaque e Rebeca trocando carícias no jardim (vejam só, um homem de mais de sessenta anos! Esse Isaque era sangue bom demais, e só se fodeu na vida). Mais que depressa, chamou Isaque à sua presença.
— Porra, Isaque, que história é essa? Então de tanta coisa boa que cê tinha pra aprender com seu pai, foi logo aprender o que não presta? Será que você não sabe que esse golpe não dá certo? Já imaginou se alguém come sua mulher? Cê não ia poder reclamar com ninguém, e ainda era capaz de o seu deus querer destruir a gente!
— Ô, Abimeleque, desculpa aí, foi mal. Mas é que Rebeca é tão bonita, olha só pra ela! Era capaz de me matarem por ela, entenda minha situação.
— Tá, mas cê não sabe que eu sou rei dessa porra aqui e amigo do seu pai? Era só chegar aqui e me dar um toque que eu providenciava proteção pra vocês. Aliás, é o que eu vou fazer.
E Abimeleque baixou um decreto determinando que qualquer um que fizesse alguma coisa contra Isaque ou Rebeca seria morto. Como já dizia Mel Brooks no filme História do Mundo, é bom ser o rei…
* * *
Isaque ficou muito tempo morando em Gerar, e conseguiu ficar mais rico do que já era. Os filisteus sentiram inveja dele e, por não poderem fazer nada com Rebeca, resolveram tapar os poços cavados por Abraão naquelas terras (todos esses lugares de que estamos falando situam-se nas redondezas do que hoje é o Estado de Israel, onde a terra é desértica e a água tem muito valor).
A situação foi ficando delicada, até que um dia Abimeleque resolveu que o melhor era convidar Isaque a se retirar de suas terras. O cara era rei, então Isaque nem discutiu e foi morar num vale ali perto. Desentulhou os poços que os filisteus haviam tapado e colocou neles os mesmos nomes que Abraão havia posto.
Mas a briga por causa de água não parou por aí: um dia os empregados de Isaque cavaram e encontraram uma mina d’água. Mas os pastores filisteus discutiram com eles, dizendo que a água pertencia a eles, que negócio era aquele, onde é que estávamos, essas coisas. E Isaque botou o nome de Eseque (que significa discussão) no poço. Os servos cavaram mais adiante e econtraram mais água. E lá vieram os filisteus com a mesma ladainha, e esse poço Isaque chamou de Sitna (inimizade). Antes que seus servos cavassem outro poço e os filisteus viessem encher o saco de novo, obrigando-o a batizar o poço de Pequepê ou Caraidiasa, Isaque mudou-se para mais longe. Nesse lugar conseguiram cavar um poço em paz, e foi chamado de Reobote, que significa terra espaçosa.
Depois de um tempo, Isaque mudou-se para Berseba, lugar onde Abraão e Abimeleque haviam feito um juramento de cooperação mútua no passado. Abimeleque saiu de Gerar com um amigo chamado Auzate e com Ficol, comandante de seu exército, para ir até Berseba falar com Isaque. Ao ver quem o chamava na porta da tenda, Isaque nem se levantou:
— Ah, então você me expulsa da sua terra, eu tenho que agüentar seu povo me enchendo o saco por causa de água, e agora vem aqui com a maior cara lavada? Ah, Abimeleque, vai à merda.
— Ô, Isaque, não é bem assim. Vim aqui pra pedir desculpas. Mas a situação lá em Gerar não estava boa pro seu lado, cê sabe como é inveja. Com decreto real ou sem decreto real, mais cedo ou mais tarde alguém ia acabar com a tua raça. Quer saber? Pedir que você saísse de lá foi um favor que eu te fiz.
Isaque pensou bem e viu que Abimeleque podia até estar com a razão. Estando ou não, Isaque era gente boa, e mandou preparar um banquete para as visitas. Já de madrugada Isaque e Abimeleque firmaram um juramento semelhante àquele firmado entre este último e Abraão, e Abimeleque, Auzate e Ficol voltaram para Gerar sem maiores problemas.

Hoje em dia ser irmão mais velho não é grande coisa. Pra falar a verdade, é uma merda. Mas naquele tempo era bem melhor: Os outros irmãos deviam respeito ao mais velho, e ele ainda recebia porção dobrada da herança. Ah, quem me dera meus irmãos me respeitassem só um pouquinho, já que herança não vai rolar mesmo…
Pois então, a regra era essa, mas Jacó era um vigarista cara-de-pau, e resolveu dar um golpe pra cima de Esaú.
Jacó estava na tenda e tinha acabado de preparar um guisado. Esaú chegou do campo morto de fome e cansaço, viu o prato na mão do irmão e pediu, ou melhor, mandou, porque irmão mais velho naquele tempo tinha voz:
— Ô, moleque. Me dá esse negócio vermelho aí que cê tá comendo. Tô cansado, com uma fome da porra, e você tá na boa, passa o dia inteiro só aí nas prendas domésticas.
— Quer comer, é? Nem a pau! Te dou o guisado mas só se você me der em troca seu direito de irmão mais velho.
— Direito de irmão mais velho de cu é rôla! Me dá isso aí, seu boiola!
— Nem fodendo! O direito de primogenitura primeiro!
— Tá, tá, moleque, tô com fome, não tenho tempo pras suas babaquices. Cê pode brincar de irmão mais velho, tá bom? Agora me dá esse guisado aí.
— Só se você jurar!
— O moleque do caralho! Juro, juro, me dá aí esse negócio vermelho pra eu comer, que eu tenho que voltar pro meio do mato.
Satisfeito com o juramento, Jacó entregou ao irmão um pão e o guisado de lentilhas. Esaú comeu com pressa, levantou-se e voltou para o campo.
Bom, que eu saiba lentilha é verde, então Jacó deve ter caprichado no colorífico Hikari pra deixar o guisado vermelho. E por causa da cor desse prato, Esaú ganhou o apelido de Edom, que significa vermelho.

Bom, aconteceu o que sempre acontece: Isaque e Rebeca tentaram e tentaram até que ela conseguisse engravidar. Isaque devia ser meio devagar, porque isso só foi acontecer quando eles já estavam casados havia quase vinte anos. Mas Rebeca ficou grávida, e logo de gêmeos. Os dois brigavam dentro da barriga e ela foi perguntar a deus por que isso acontecia. Deus, feliz por finalmente alguém se lembrar dele, respondeu logo:
— Rebeca, há duas nações dentro de você, dois povos inimigos. Um deles será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.
— Puxa, deus, que maluquice! Espera até o Isaque saber disso.
— Não, não, Rebeca, não fala nada pra ele. Aliás, nem conta que você andou conversando comigo.
— Ué, deus, por quê?
— Seu marido não vai com a minha cara. É uma longa história.
Depois de nove meses de gravidez, como geralmente acontece, os gêmeos nasceram. O primeiro a sair era ruivo e todo peludo, feito um casaco de peles, e por isso o chamaram Esaú, que significa peludo. O outro nasceu agarrado ao calcanhar do irmão, e por isso foi chamado Jacó, que quer dizer usurpador, suplantador. Esse Jacó ainda vai nos dar muito trabalho e é um dos personagens mais legais da bíblia. Isaque estava com sessenta anos quando eles nasceram.
Os meninos cresceram. Esaú era macho de verdade, caçador, vivia no campo. Jacó já era mais sossegado, gostava de ficar em casa ouvindo uns CDs de Jazz e navegando na internet. Esaú era o preferido de Isaque, porque o pai também gostava de caça. Rebeca era mais apegada a Jacó. Com tantas diferenças, era de se esperar que o conflito entre os irmãos atingisse um ponto insuportável. E atingiu mesmo, mas isso fica para outro dia.