Muito bem, pecadores. Já tratamos demais de assuntos diversos, vamos retomar nossa história, que é muito mais legal.
Como vimos, Isaque se casou com Rebeca. Talvez aliviado do antigo peso na consciência, Abraão resolveu arrumar uma mulher também. O velho casou-se com uma tal de Quetura e tiveram seis filhos, cada um com o nome mais bonito que o outro: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Sua. Minha? Não, não. Lá deles. Tenho nada com isso não. Desses aí só ouviremos falar ainda do Midiã, que é o antepassado dos midianitas, povinho que ainda vai nos dar trabalho.
Abraão viveu 175 anos (trinta e cinco anos depois do casamento de Isaque, portanto). Quando ele morreu, deus olhou lá de cima e pela primeira vez soube o que era tristeza de verdade. Abraão tinha sido seu amigo por tantos anos, talvez seu único amigo, e por causa de uma brincadeira de mau gosto eles haviam se distanciado. Deus se arrependeu, mas era tarde. Se pudesse, faria voltar o tempo. Mas como nós todos sabemos, deus não é o Super-Homem.
Isaque e Ismael sepultaram o pai no túmulo que ele havia comprado para Sara, na caverna de Macpela. Ôpa, quando foi que Ismael voltou? Não é possível que Isaque tenha ligado para o celular dele pra avisar, “Ismael, vem pra casa, que o pai morreu”. Ismael morava no deserto, e é claro que o celular dele passava o tempo todo sem sinal. O mais provável é que ele tenha voltado pra casa após a morte de Sara.
Mas é isso. Morreu Abraão, nosso personagem mais importante até agora. Vamos ver o que nos reserva Isaque. Porque sobre Isamel só ficamos sabendo que ele teve doze filhos, que cada um deles foi chefe de uma tribo (tudo isso pra explicar a origem dos povos do sul da Península Arábica) e que Ismael morreu aos 137 anos, ou seja, 86 anos depois da morte de Abraão.
* * *
Nota: Já nos tempos do Novo Testamento (depois do nascimento de Jesus Cristo), surgiu uma tradição que situava essa caverna de Macpela, onde foram sepultados Abraão, Sara e vários de seus descendentes, num determinado ponto de Hebrom, cidade do sul de Israel, que conta hoje cerca de 120 mil habitantes. Os muçulmanos — que vieram a ocupar a área onde fica Hebrom por 1300 anos — incorporaram essa tradição: o túmulo é cercado por paredes de pedra, como uma fortaleza, e é considerado Haram (lugar proibido). Fica abrigado dentro de uma construção que é ao mesmo tempo mesquita e sinagoga, por ser Abraão patriarca tanto dos judeus quanto dos árabes.
Categoria: Bíblia
O casamento de Isaque (ou: Risadinha desencalha)
Deixamos o servo de Abraão na beira do poço esperando que as moças da cidade viessem buscar água. Pois ele mal acabou de estabelecer o critério pelo qual escolheria a noiva de Isaque quando viu Rebeca aproximando-se, carregando um cântaro no ombro. Rebeca, lembrem-se, era neta de Naor, irmão de Abraão. O servo ficou de queixo caído: a moça era linda. Esperou que ela tirasse a água do poço e, quando já estava indo embora, correu até ela.
— Moça! Ô, moça! Tô com uma sede danada, será que a senhorita não podia me dar um golinho d’água?
Rebeca deixou que ele bebesse e se ofereceu para tirar água também para os camelos. Despejou o conteúdo do cântaro no bebedouro dos animais e voltou várias vezes ao poço até que os camelos estivessem saciados (e sede de camelo não é brincadeira, vocês sabem). Enquanto ela ia e voltava com o cântaro, o servo ficou só na miúda, observando a moça. Quando os camelos terminaram de beber, ele pegou uma argola para nariz pesando 6 gramas de ouro puro (vejam que já existia piercing naquela época) e duas pulseiras de mais de cem gramas cada uma, também de ouro, e deu os presentes a Rebeca. Em seguida perguntou:
— Você é daqui? Quem é o seu pai? Será que tem lugar na casa dele para os meus homens e eu passarmos à noite?
Hum… Embora isso não tenha sido dito antes, o servo não foi sozinho. Acho que nem era necessário dizer: Partir para uma viagem longa, passando pelo meio do deserto sozinho seria suicídio. Ou então esse negócio de “meus homens” significa outra coisa, e o servo era coleguinha de Lot. Vai saber…
Mas Rebeca, muito educada, respondeu:
— Meu pai é o Betuel, filho de Naor. Lá na nossa casa tem lugar para dormir e bastante palha para os camelos também.
Ao saber disso, o homem se ajoelhou e adorou a deus, agradecendo por tê-lo guiado até dar de cara com alguém da parentela de Abraão. Olhando lá de cima, deus ficou meio envergonhado: não tinha interferido em nada, e parecia que os homens podiam se virar muito bem sem ele. Pela primeira vez na História, deus duvidou da própria existência.
Rebeca correu para a casa dos pais para contar o que havia acontecido. Notem que ninguém ainda falou em Isaque, então dá pra imaginar que a moça tava de olho era no servo. Pensando bem, aquele negócio de “Pode beber, e vou pegar água para os camelos também” e “Sem problema, vocês podem dormir lá em casa”, sei não… Acho que o tal servo perdeu uma excelente oportunidade de se passar por rico e faturar a donzela. Coitado…
Rebeca tinha um irmão chamado Labão.
— Lobão?
Não, Labão.
— Ah, Lobão!
NÃO, porra, Labão! Prestem atenção nesse cara. Até agora os personagens da bíblia eram ou bonzinhos ou malvados. Creio que Labão é o primeiro a ter um caráter dúbio, o que o torna mais convincente como personagem. Labão viu a irmã com uma argola de ouro no nariz e duas pulseiras enormes, ouviu a história toda, fez uns cálculos rápidos de cabeça e foi depressinha ao encontro do servo de Abraão, que ficara esperando em pé ao lado do poço.
— Meu senhor, como vai? O que o traz até essas quebradas, um homem tão distinto, tão elegante? E por que está aqui ainda? Simbora, já preparei a casa para recebê-los.
O empregado foi com ele até a casa. Lá chegando, Labão descarregou os camelos e lhes deu palha e capim. Depois trouxe água para que os homens lavassem os pés e mandou trazer a comida. Puro interesse, claro.
O servo, no entanto, disse que só comeria depois de contar o que o levara até ali. Doido de curiosidade, Labão pediu que ele se sentasse
— Sou todo ouvidos, senhor.
O servo contou toda aquela história que já sabemos, do juramento para Abraão, do critério que inventara para escolher a moça, do encontro com Rebeca.
— E foi isso. Agora é com vocês.
Nem era preciso dizer. Abraão era aquele tio rico do qual raramente tinham notícias. Era a oportunidade para saírem da pindaíba.
— Meu senhor — disse Labão, todo bajulador — quem somos nós para decidir alguma coisa, se tudo isso veio de deus? Pode levar a Rebeca para que ela se case com o filho do seu patrão, como deus determinou.
Então o servo tirou da bagagem vários objetos de prata e de ouro e vestidos e os deu de presente a Rebeca. Deu também presentes caros para Labão e sua mãe. Vejam que o velho Betuel não apitava nada nessa casa: não tomou parte na decisão de dar a filha em casamento e também não ganhou nenhum presentinho…
Os homens comeram, beberam e passaram a noite na casa de Betuel. No dia seguinte, quando se preparavam para a viagem de volta, Labão veio falar com eles:
— Cês vão levar minha irmã embora? Mas já? Queisso! Acho melhor ela ficar por aqui mais uns dez dias e depois ela vai. Sabe como é mulher, demora pra arrumar as coisas, não pode ser assim, de uma hora pra outra.
Claro que o velhaco do Labão estava querendo mais presentes. Se Rebeca ficasse mais dez dias, os homens também ficariam, porque a viagem era longa e não valia a pena ir para Canaã e voltar depois. Além disso, o servo tinha feito um juramento a Abraão, não queria chegar dizendo “Olha, achei uma noiva para Isaque, lindíssima, virgem e neta do seu irmão, do jeitinho que o senhor queria. Mas deixei ela por lá mesmo”. Já imaginaram a reação do velho? Por isso o servo bateu o pé e disse que estava indo e pronto.
— Tudo bem, tudo bem. — disse Labão — Vamos chamar Rebeca, ela que decida. Rebeeeeeecaaaaaaaa! Ô, Rebeca. Cê quer ir com eles?
Pensando na vida de fartura que levaria dali pra frente, ela não pensou duas vezes:
— Ôpa! Tamozaí!
Rebeca chamou a mulher que havia sido sua babá para ir com ela, montaram nos camelos e começaram a viagem.
* * *
Isaque vinha andando cabisbaixo, no caminho de volta do poço de Laai-Roi (que significa Aquele que vive e me vê). Ele saíra à tardinha para meditar. Ainda estava muito triste com a morte da mãe. Não tinha irmãos que o ajudassem a superar essa dor, e não era de muita conversa com o velho, todos sabemos por quê. Aos quarenta anos de idade, permanecia solteiro, e sem perspectiva de encontrar alguém. Perdido nesses tristes pensamentos, olhou para o horizonte e viu uns camelos se aproximando. Rebeca também olhou e viu aquele homem tão bonito e tão triste, e perguntou ao servo de Abraão quem era aquele.
— É Isaque, filho do meu patrão.
Rebeca pôs o véu no rosto e foram ao encontro de Isaque. O servo contou a ele tudo o que ocorrera desde sua partida, mas Isaque mal ouviu sua história: Estava hipnotizado pela beleza de Rebeca.
Naquele tempo e lugar o casamento não era essa coisa chata de hoje, com uma pilha de papéis para assinar, roupas desconfortáveis para vestir e festas intermináveis para ficar até o fim sem tirar da cara o sorriso de noivos felizes: Isaque apenas pegou Rebeca pela mão e a levou para tenda que havia sido de Sara (e se Sara tinha uma tenda só dela, é mais um indício forte de que ela e Abraão haviam se separado). Isaque foi consolado, enfim, da perda da mãe. Os dois viveram felizes, mas não posso dizer que tenha sido para sempre. Rebeca também aprontou as dela, como veremos mais tarde.
A procura por uma esposa para Isaque
Hoje em dia quando alguém quer te fazer jurar alguma coisa, só diz “Jura?”. Aí você responde “Juro” e a pessoa se dá por satisfeita. Mas nos tempos de Abraão não era assim, como veremos agora.
Abraão já era bem velho. Quando Sara morreu, o patriarca contava 137 anos de vida. Sabendo que ia morrer e Isaque não arrumava mulher de jeito nenhum, e preocupado com a possibilidade de o filho estar indo pelo mesmo caminho cor-de-rosa trilhado por seu sobrinho Lot, Abraão tratou de acelerar as coisas: Chamou seu servo mais antigo, o que administrava tudo o que tinha e disse a ele:
— Põe a mão debaixo da minha coxa para me fazer um juramento.
Coisa mais esquisita essa fórmula de juramento, né não? Bom, tentem entender, Abraão estava viúvo, sozinho, melancólico. Precisava de um pouco de calor humano e foi buscar isso com seu servo mais fiel. Ah, vai, todo mundo está sujeito a uma escorregada… Mas vamos ao juramento:
— Jura por deus que você não vai arrumar mulher pro meu filho aqui na terra dos cananeus, mas irá até minha terra pra trazer pra ele uma namorada que seja da minha família.
O servo, que era bastante prático, levantou logo uma objeção:
— E se a mulher não quiser vir comigo? Vou ter que fazer o Isaque ir lá pra sua terra pra se casar? Trabalheira da porra…
— Não, de jeito nenhum! Deus me tirou de lá há tantos anos, e a terra que ele me prometeu é esta aqui. Vai pra lá, e que deus te ajude nessa empreitada. Mas se a mulher for ranheta mesmo e não quiser vir, paciência, você fica livre do juramento, só não faça Isaque ir pra lá.
Então o servo colocou a mão sob a coxa de Abraão (que coisa!) para fazer o juramento solene. E foi logo tratando da viagem: pegou dez camelos e foi pra Mesopotâmia (Síria), para a cidade onde morava Naor, irmão de Abraão. Chegando perto da cidade, fez os camelos se ajoelharem perto de um poço aonde as moças da cidade iam à tarde para fazer fofoca, trocar dicas de beleza e, claro, tirar água. Pô, o cara era um administrador de fazenda, e não tinha o mínimo dom para alcoviteiro. Então resolveu apostar na sorte mesmo:
— Ô, deus do meu chefe Abraão! Faz assim: quando as moças começarem a chegar eu vou começar a pedir a elas que me dêem um gole d’água. A primeira que me der água e também se oferecer para tirar água para dar de beber aos camelos, essa será mulher do Isaque, beleza?
Bom, era um critério como outro qualquer. O servo ficou em pé perto do poço e pôs-se à espera da caravana de donzelas.
E deus, lá de cima, pensou que esse negócio de arrumar casamento pras pessoas até que daria um bom programa de televisão. Mas pensou melhor, virou para o outro lado e voltou a dormir.
A morte de Sara
Antes de contar mais essa história triste, temos um trecho falando que Abraão recebeu notícias de casa. Naor, seu irmão, tivera oito filhos com Milca: Uz, Buz, Quemuel, Quésede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel. Além desses, Naor ainda tivera quatro filhos com sua concubina Reumá: Teba, Gaão, Taás e Maaca. Qual a relevância disso pra nossa história? Bom, primeiro várias sugestões de nomes para os filhos de meus leitores. Imagina que chique, ter gêmeos e chamá-los de Uz e Buz. Dá até uma dupla sertaneja. Mas o importante mesmo é que Betuel teve uma filha chamada Rebeca. Além de ser a única em toda essa família a ter um nome normal, ela ainda desempenhará importante papel em nossa história. Aguardem.
* * *
Mas é isso, Sara, nossa velhinha encrenqueira, morreu aos 127 anos de idade. Confessem que vocês já estavam criando uma certa simpatia por ela. Ela morreu em Quiriate-Arba e veio Abraão chorar por ela. Reparem nisso, o cara veio. Vejam que aquele negócio do sacrifício de Isaque pode ter sido mais sério ainda, causando a separação dos pais.
Depois de chorar a morte de Sara, Abraão foi falar com o povo de Hete (que era onde ficava Quiriate-Arba) para arranjar sepultura para a morta. E a cena que se segue mostra bem a característica do negociante oriental, cheio de cerimônias:
— Olha, povo de Hete, vocês sabem que eu sou estrangeiro e tal e coisa. O negócio é que morreu minha velha, que ficou a vida inteira comigo, e estou procurando um lugar para sepultá-la.
E o representante deles respondeu:
— Abraão, você é um princípe de deus aqui pra gente. Escolhe a sepultura que você quiser entre as nossas, e será nosso presente.
E Abraão se reclinou em respeito a eles e disse:
— Já que é assim, falem com Efrom, filho de Zoar. Ele é o dono da cova de Macpela; falem com ele para que ele me venda a sepultura pelo preço justo.
O tal Efrom estava no meio dos caras e se manifestou:
— Queisso, Abraão? Você é gente boa, e sua finada esposa também era, todo mundo gostava dela. Eu te dou a cova e o campo onde ela está de presente, deixa de viadagem. Tá todo mundo aqui de testemunha.
— Ah, Efrom, eu agradeço muito — respondeu Abraão, reclinando-se novamente —, mas faço questão. Me fala o seu preço, eu compro o campo e a sepultura.
— Pára com isso, Abraão! — Agora vem a malandragem — O valor dessa tera é de quatrocentos siclos de prata, uma ninharia, o que é isso diante da nossa amizade?
Abraão entendeu o recado: Pesou a quantidade de prata estipulada e pagou a Efrom. E sepultou Sara na cova de Macpela.
Abraão é posto à prova – O fim das Pegadinhas de Jeová
Depois de um breve porém intenso ataque de narcisismo, vamos voltar à bíblia, seus ímpios.
Tantos anos depois de sua estréia, as Pegadinhas de Jeová ainda lideravam a audiência no horário. Mas deus estava cansado, as Pegadinhas tomavam quase todo o seu tempo e, sejamos francos, ele já não era mais nenhum jovenzinho impetuoso. Então ele resolveu que já era tempo de tirar umas férias, de parar de interferir na vida das pessoas e descansar um pouco. Convocou uma coletiva e anunciou à imprensa que o último episódio do programa iria ao ar na semana seguinte. Foi um rebuliço, os repórteres não acreditavam no que estavam ouvindo. Maior ainda foi a reação do público, choviam cartas na emissora pedindo a continuidade do programa, e pela primeira vez na história o servidor de e-mail do céu saiu do ar (tá certo que rodava Microsoft Exchange e ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde). Mas deus mostrou-se irredutível, e na semana seguinte, como prometido, foi ao ar o último episódio das Pegadinhas de Jeová, que passo a narrar agora. Vou ver se consigo deixar a história um pouco mais leve e engraçada, mas é quase impossível, como vocês verão. A crueldade de deus não tem limites.
Estava Abraão dentro da tenda um dia, só ali coçando o saco, e deus veio falar com ele.
— Ô, Abraão, como é que vai?
— Tudo na santa paz de deus. Digo, do senhor. Bom, você entendeu.
— Beleza… Notícias de Agar e Ismael?
— Não, nunca mais deram sinal de vida, não entendo porquê. Fui tão legal com eles…
— Ah, Abraão, a ingratidão é foda. Se eu for te contar todas as vezes em que foram ingratos comigo, a gente não sai daqui hoje.
— Bom, eu não pretendo sair mesmo. Tô na minha casa, esqueceu?
— Não pretende sair, é? Pois é, mas acho que você vai precisar… Como está Isaque?
— Ah, seu deus, esse menino é a alegria da minha vida. É inteligente, é carinhoso, tá crescendo que é uma beleza. Eu e a velha passamos o dia rindo feito bobos das coisas que ele apronta, esse nome foi mais apropriado do que o senhor pensava. E fala cada coisa, cê tem que ver. Ah, nem gosto de falar muito, olha aí, já tô me emocionando. Foi o melhor presente que o senhor podia me dar, nada do que eu fizer será suficiente para agradecer.
— É, né? Pois é… Então… Bom, vou direto ao ponto: Você vai pegar o Isaque agora e vai com ele até a terra de Moriá.
— Pô, deus, outra mudança? Bom, tava demorando…
— Não, não, nada de mudança. Só você e ele. Vocês vão lá pra Moriá e vão subir até uma montanha que eu mostrarei. Em cima da montanha você vai pegar este filho que você tanto ama e queimar como sacrifício a mim.
É muita crueldade, né não? O cara espera até os 100 anos de idade para ter um filho, e quando tem, vem deus e pede pra sacrificar o menino. Isso sem contar que anos antes Abraão já tivera que expulsar de casa seu outro filho, Ismael. É, meu povo, esse é o senso de humor de deus…
Mas Abraão era muito obediente (ou trouxa) e na madrugada seguinte arreou um jumento, rachou lenha, chamou dois servos, pegou Isaque e partiu para Moriá. No terceiro dia de viagem, avistou a montanha e seu velho coração se apertou. Falou para os empregados ficarem por ali, porque ele e o menino iriam à montanha para adorar a deus e logo voltariam. Colocou a lenha no ombro de Isaque, pegou o fogo e uma faca e foram os dois juntos na direção da montanha. Parem para imaginar isso: Isaque andando numa boa, encarando tudo como um passeio, e Abraão consciente de que voltaria sem o filho, alegria de sua velhice. Mas no meio do caminho Isaque, que era inteligente, reparou que havia alguma coisa errada.
— Pai!
— Fala, filho.
— Tô vendo a faca e o fogo, e estou carregando a lenha comigo. Mas cadê o carneiro pra gente sacrificar?
Ah, cambada! Eu no lugar de Abraão responderia: “Isaque, deus quer que eu sacrifique você, mas eu não vou fazer isso. Vamos voltar pra casa, se ele achar ruim, que venha acertas as contas comigo. Já suportei muita coisa desse sujeito, chega, quem ele pensa que é?”. Mas Abraão era obediente, e só respondeu:
— Deus vai dar um jeito, Isaque, e vai providenciar o carneiro pra gente.
E continuaram caminhando. Ao chegarem ao lugar que deus havia indicado, Abraão fez um altar de pedras e arrumou a lenha em cima dele. Depois amarrou Isaque sobre o altar e pegou a faca para matar o menino. Nesse instante, um anjo gritou do céu:
— Abraão!
O velho levou um puta susto.
— Tô aqui.
— Não machuque o menino, não faça nada com ele. Agora sabemos que você é temente a deus. Olha ali praquela caverna, tá vendo a câmera? Você acaba de participar das Pegadinhas de Jeová!
Os repórteres invadiram o cenário nesse momento, fazendo perguntas a Abraão. Deus entrou em cena para anunciar oficialmente o final do programa lendo uma carta que dizia:
Abraão, como você me obedeceu e não me negou Isaque, seu único filho, eu juro pelo meu próprio nome que farei os seus descendentes mais numerosos do que as estrelas do céu e os grãos de areia da praia. Toda a terra será abençoada através dos seus descendentes
Ainda confuso com tudo aquilo, Abraão olhou em volta e viu um carneirinho preso pelos chifres a um ramo de árvore. Pegou o pobre bichinho, que nada tinha a ver com a história, e o ofereceu como sacrifício em lugar de Isaque.
Atordoado pelos holofotes, Abraão esqueceu de fazer o que qualquer um faria: Mandar deus à merda. Mas parece mesmo que essa brincadeira de mau gosto estremeceu as relações entre os dois, porque depois desse capítulo (Gênesis 22), deus some de cena e só vai reaparecer lá na frente, pra falar com Jacó, filho de Isaque. Bom, talvez isso seja por causa das “merecidas” férias…
O capítulo termina dizendo que Abraão voltou para onde estavam seus empregados e foram todos juntos para Berseba, onde Abraão ficou morando. Só isso. A impressão que dá é que ele fez isso para sumir por um tempo, por vergonha de ter saído com intenção de sacrificar o próprio filho. E Isaque deve ter carregado essa mágoa por toda a vida. Pegadinha ou não, acho que Abraão devia ter processado deus por essa.
A expulsão de Agar e Ismael
Ah, Sara… Se vocês pensam que os anos amaciaram essa mulher, estão muito enganados. Estava ela um dia sentada, fazendo a unha e viu Ismael brincando com Isaque. Foi o que bastou pra baixar a paranóia; foi correndo falar com Abraão
— Abraão, vê se dá um fim nessa mulher e no filho dela, porque esse moleque não vai ser herdeiro junto com Isaque porra nenhuma!
Ora, ora, ora, vejam só o que é um coração de pedra! Ismael só tinha nascido por idéia de Sara, estão lembrados? Ah, mulheres…
— Caray, Sara, de novo essa história? O moleque é meu filho, não vou expulsar ninguém, fica na sua, véia, se fecha!
E tudo ficaria por aí mesmo se não fosse essa mania besta de deus de se guiar puramente pela audiência: Ele percebeu que o drama de uma mulher expulsa com o filho despertaria nos expectadores todas aquelas emoções baratas que hoje fazem as pessoas chorarem em frente à TV assistindo ao Arquivo Confidencial do Fausto Silva. E tratou de ir logo falar com Abraão.
— Ô, Abraão, coitada da Sara! Ela tá toda orgulhosa, não é todo dia que você vê uma mulher de 90 anos parindo. Dá esse ponto pra ela, deixa Agar e Ismael irem embora. Além do mais, a promessa que eu te fiz é pra ser cumprida com a descendência de Isaque, mas, como eu já te disse, Ismael também será pai de uma grande nação.
Abraão já devia estar de saco cheio desse negócio de “grande nação” pra lá, “grande nação” pra cá. Porra, como é que ele ia saber se o negócio era verdade mesmo? Por que deus não prometia alguma coisa mais palpável, uma casa na praia, um carro novo, qualquer coisa? Nãaaaao, sempre que o bicho pegava vinha com esse papo de “grande nação”. Mas quem era ele pra discutir? Acatou então a ordem de deus e foi tratar da despedida de Agar e Ismael. Na madrugada seguinte, entregou a Agar um pouco de pão, um odre cheio de água, colocou Ismael no ombro dela e mandou que fosse embora.
Aqui cabem duas observações. Primeira: um homem rico pra cacete, com tantos bens adquiridos ao longo da vida a troco de outros tantos chifres plantados na testa, poderoso, amigo de Abimeleque, vai expulsar o próprio filho junto com sua mãe, e entrega pão e água para eles??? Segunda: Pelo menos um ano antes do nascimento de Isaque, Ismael foi circuncidado, e contava então treze anos de idade. Quando da expulsão, portanto, era no mínimo um adolescente de 14 anos. Imaginem só, então: Abraão faz Agar acordar de madrugada e diz:
— Olha, Agar, você tem sido muito leal e responsável em todos esses anos, e aquela nossa noite juntos foi inesquecível. Mas preciso expulsá-la agora, tudo bem? Nada pessoal, só resolvi isso à noite, do nada, sabe como são essas coisas. Então, toma aqui uns pãezinhos e esse jarro de água, porque estamos no meio do deserto e a viagem vai ser longa para você, deus me livre de te deixar ir embora sem provisões. Tudo bem? Que bom! Então agora eu vou pegar esse marmanjão que já está maior que você e colocá-lo no seu ombro, boa viagem, fica com deus.
Sei não, acho que qualquer outra no lugar dela teria matado Abraão. Mas Agar saiu sem destino, andando pelo deserto de Berseba(*). Quando acabou a água do odre, deixou o menino embaixo de uma árvore e foi sentar-se a uns cem metros de distância, pois não suportaria ver o filho morrer. Ficou lá sentada e Ismael começou a chorar.
Um anjo que ia passando ouviu o choro do moleque.
Já repararam como sempre tem um anjo transeunte nessas histórias? Eita anjaiada desocupada da porra, só flanando pelos desertos da terra. E pensar que hoje em dia quando a gente precisa de um mísero policial não encontra, que dirá um anjo…
Mas o anjo ia passando e ouviu o berreiro
Outra coisa que eu não entendo: com 14 anos o moleque já tava na idade de começar a cuidar da mãe, e não de ficar chorando embaixo de árvore. Não é de hoje que esses filhinhos-de-papai são mimados e chatos pra cacete.
Onde eu estava mesmo? Ah, o anjo passando etc. foi falar com Agar:
— Ô, muié. Que que esse moleque tá chorando tanto? Vai lá e pega ele pela mão, deus ouviu o choro dele e apiedou-se. Deus fará dele uma grande nação.
Talvez por não ter ouvido essa conversa de “grande nação” com tanta freqüência quanto Abraão, Agar se animou com as palavras do anjo e voltou para pegar Ismael. Nesse momento deus fez com que Agar encontrasse um poço, onde ela pôde reabastecer o odre.
Ismael e Agar ficaram morando no deserto de Parã e ele se tornou um grande arqueiro. E Agar arrumou para ele uma esposa egípcia (eis as raízes dos povos árabes: descendentes de semitas com egípcios).
E a todas essas o povo em casa chorando com essa historinha piegas.
* * *
(*)Nota: Bom, vimos que Agar e Ismael peregrinaram por um lugar chamado Berseba. Tempos antes, Abraão tinha reclamado com Abimeleque que uns empregados deste último tinham tomado à força um poço que tinha sido cavado por ele, Abraão. Abimeleque não estava sabendo de nada e ficou indignado, pois os dois eram amigos. Então Abraão separou sete ovelhinhas de seu rebanho e as deu de presente a Abimeleque.
— Pra que que eu vou querer essas ovelhas, Abraão?
— Aceitando esse presente, você estará concordando que fui eu quem cavou este poço.
E os dois resolveram assim a contenda, com Abimeleque aceitando as ovelhas e Abraão recebendo o poço de volta. Ali mesmo Abraão fez um juramento de lealdade a Abimeleque, a seus descendentes e à Filistia, sua terra. Berseba significa “poço do juramento” ou “Poço dos sete”. Contente com o bom andamento das coisas, Abraão plantou uma árvore por ali e adorou a deus.
Entende-se que o poço e a árvore são os mesmos que desempenhariam papel chave tempos depois na história de Agar e Ismael.
O nascimento de Isaque (ou: Quem pariu Risadinha que o embale)
Isaque demorava pra nascer, os patrocinadores cobravam, a audiência caía, boatos de “cabeças vão rolar” espalhavam-se incontroláveis pela emissora celeste. Vendo tudo isso, deus resolveu que era hora de interferir de forma mais contundente e desceu à terra para falar com Abraão. Imaginem, Abraão já com cem anos, e desde jovem falando com deus cara-a-cara. A essa altura, nem ia receber o cara na porta, só gritava “Entra, porra!” e continuava sentado. E deus, que também já não era mais de muita cerimônia com Abraão, foi entrando.
— Repare na bagunça não, senhor.
— Queisso, Abraão? Lá em casa é pior.
— Pois então sinta-se à vontade. Que é que manda, seu deus?
— Abraão, tá foda de segurar esse negócio do nascimento do seu filho. Eu sei que é duro e tal, mas cê vai ter que encarar a Dercy, digo, a Sara. Se o moleque não nascer logo eu vou à falência.
— Ah, deus, pega leve. Olha o estado da patroa, não dá mais não…
— Porra, Abraão, que que eu não fiz por você? Cê é rico, poderoso, amigo do rei, fala comigo de igual pra igual. O que custa cê fazer um favor pra mim, véio?
— Tá bom, beleza. Hoje à noite eu tento fazer o serviço. Mas não garanto nada, hein? Na minha idade já é quase impossível conseguir, ainda mais com uma mulher nessa situação, noventa anos de idade. E o Viagra nem foi inventado ainda.
— Vai lá, Abraão, seu esforço será recompensado.
E foi assim que, pela segunda vez em sua história, as Pegadinhas de Jeová transmitiram ao vivo a cena patética de pessoas idosas fazendo sexo. Este blog, no entanto, tem seus pudores, e não vai apelar em nome da audiência. Vocês podem muito bem imaginar a cena tosca. O importante é saber que Abraão fechou os olhos, pensou na grande-nação-da-qual-ele-seria-o-pai-segundo-a-promessa-divina (não dava pra pensar no Brasil, né?) e cumpriu seu papel.
Nove meses depois nasceu Isaque, cujo nome, todos se lembram, significa “riso”, porque tanto Abraão quanto Sara riram quando deus disse que eles teriam um filho àquela altura do campeonato. Quando estava com oito dias de vida, foi circuncidado. E no dia em que o menino foi desmamado (foi cedo, o moleque enjoou logo das tetas murchas de Sara) Abraão deu uma grande festa. Tudo certo, tudo lindo, família feliz e unida, certo? Ah, vocês não contavam com o talento de Sara para arrumar encrenca… Mas é uma história que fica para o próximo post.
Abraão e Abimeleque (ou: Corno, porém rico)
Vocês acham que o Daniel Sabbá, namorado-quase-marido da Syang, tem vocação pra corno? Ah, vocês ainda não conhecem direito nosso amigo Abraão…
Com toda essa história de Sodoma e Gomorra, deixamos o velho meio de lado. No vigésimo capítulo do Gênesis, a história de Abraão é retomada. Ficamos sabendo que ele saiu de Manre e foi morar entre as cidades de Cades e Sur. Mais tarde foi morar numa terra chamada Gerar, e é em Gerar que se passa esse acontecimento com jeito de dejà-vu: Abraão chegou àquele lugar dizendo pra todo mundo que Sara era sua irmã. Isso lembra alguma coisa? Pois é, a mesma coisa que ele fez no Egito. Só que na época do Egito Sara se chamava Sarai e ainda dava um caldo. Agora ela já estava com 90 anos, e é difícil entender os motivos de Abraão para ainda usar esse estratagema furado. Sei lá, vai ver o negócio estava difícil por lá. Ou talvez Gerar fosse o contrário de Sodoma: todas as mulheres eram sapatas e os homens atacavam qualquer coisa. O mais provável mesmo é que Abraão já estivesse mais do que caduco. Bom, não sei, mas Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscar Sara para casar-se com ela. Um rei! Mal comparando, é como se Roberto Carlos ou Pelé de repente resolvessem desposar Dercy Gonçalves, imaginem o rebuliço.
Naquela mesma noite, deus apareceu em sonho a Abimeleque dizendo:
— Aê, Abimeleque. Cê se deu mal. Pegou a mulher do Abraão, o cara é meu truta, e agora tu vai morrer.
Mas Abimeleque nem tinha encostado em Sara (provavelmente devido a um repentino surto de bom senso) e disse:
— Ô, mano deus, digo, Senhor, não sei do que cê tá falando não. O véio chegou aqui falando pra todo mundo que Sara era irmã dele, que que eu posso fazer se ele gosta de ser chifrudo?
— Hum… É, tô sabendo, essa historinha besta de “minha irmã” pra lá, “minha irmã” pra cá já me deu um trabalho da porra com o faraó do Egito. Faz o seguinte: devolve a mulher do cara. Ele vai orar para que nem você nem sua família morram.
Claro que deus teve que segurar para não rir nessa hora. Pô, Abraão ia orar pra quem, não era pra deus mesmo? E deus não tinha acabado de falar que sabia que Abimeleque não tinha culpa? Pois é, meus amigos, bem vindos a mais um episódio das Pegadinhas de Jeová…
No dia seguinte bem cedinho, Abimeleque reuniu todos os servos e contou o que havia acontecido. Depois mandou chamar Abraão e sapecou:
— Porra, Abraão, cê é doido? Vem com esse papo de falar que Sara é sua irmã, e quase que deus me mata por causa disso. Se eu tivesse comido a véia a essa altura as minhocas é que iam estar me comendo. Que que eu te fiz pra você me aprontar essa? O que cê tava pensando, véio cabeça oca?
— Olha, seu rei, eu pensei que esse fosse um país de ímpios, e que iam me matar para ficar com minha mulher [gargalhada geral]. Além do mais, Sara é filha do meu pai, apenas somos filhos de mães diferentes. Quando deus me fez sair lá da minha terra, que a essa altura eu já nem lembro mais onde era, eu falei pra ela: “Olha, bem, onde a gente chegar você fala que é minha irmã, beleza?”, e assim temos feito.
Ora, ora, ora! Desse a gente ainda não sabia! Quer dizer que Sara era irmã de Abraão por parte de pai? Que confusão! Mas Abimeleque não deve nem ter pensado nisso, devolveu logo a mulher a Abraão e deu a ele ovelhas, bois e escravos. Quanto vale tudo isso? Não responda ainda, porque ele ainda ofereceu a Abraão a terra de Gerar, para que ele habitasse onde bem entendesse. Muito bom, não? Mas não é só! Abraão ainda recebeu doze quilos de prata como uma espécie de tributo à honra de Sara!
Hum… Repararam? Quando o faraó quase comeu Sara, a situação foi parecida, e no final Abraão saiu mais rico. Se, como ele mesmo disse, era um costume do casal contar essa história, então esse negócio está cheirando a golpe, né não? O Conto da Irmã. Que Abraão cara-de-pau! Isso é que é pragmatismo: corno, porém rico.
E uma pérola encerra o capítulo 20: por causa da zona toda, deus tinha feito com que nenhuma mulher daquela terra pudesse ter filhos (o que era uma ironia, num lugar chamado Gerar). Depois que Abimeleque devolveu Sara, Abraão pediu a deus e elas voltaram a poder ter filhos normalmente. Agora, alguém mais inteligente que eu por favor me explique, porque eu não entendi: Como é que eles podiam saber que as mulheres ficaram estéreis, se o episódio todo durou menos de 24 horas???? Ah, tem cara de pegadinha isso aí…
A vingança das filhas de Lot (ou: A antiga arte dos trocadilhos)
Cês tão lembrados daquele episódio em que a bicharada ensandecida de Sodoma cercou a casa de Lot atrás dos dois varões e o cara ofereceu as filhas virgens? Pois vejam o que as duas aprontaram…
Lot tinha ido pra Zoar, como vocês sabem. Mas chegou lá e ficou com meda, a bicha velha, e resolveu ir morar na montanha. É, isso mesmo, choramingou tanto quando os anjos o mandaram pra montanha, e depois resolveu ir pra lá mesmo, morar numa caverna. A mona era de lua, como vocês já devem ter percebido.
Na montanha, a filha mais velha de Lot, que tinha sido criada entre viados, foi atormentada por uma angústia: não havia homens e nem ela nem a irmã tinham filhos. Aí vocês me perguntam: “Mas e os homens de Zoar?”, e eu respondo: Sei lá, vai ver era habitada pela bicharada também, só que essas disfarçavam melhor que as de Sodoma e por isso foram poupadas. E se eu quisesse ser mais infame diria: Os homens de Zoar não queriam nada sério, só queriam mesmo zoar. Tá, parei. E vocês podem perguntar ainda: “Mas e os namorados delas?”. Olha, sei não, mas pelo jeito que a história é contada parece que os dois eram naturais de Sodoma, e a gente sabe muito bem o que se espera dos sodomitas até os dias de hoje. Vai ver até fugiram com os anjos, sei lá.
O que eu sei é que essa filha mais velha teve a idéia de embebedar o pai e se aproveitar da embriaguez do velho. Contou sua idéia para a irmã mais nova, e naquela noite mesmo botou o plano em prática: encheu o rabo do véio de vinho barato e trepou com ele. Lot nem percebeu, de tão breaco que estava. Na noite seguinte foi a vez da mais nova: mandou a birita pra dentro da goela de Lot e montou em cima do pobre viado velho.
Pois Lot podia estar velho, podia ser viado, podia estar bêbado, mas broxa ele não era não. E também não era estéril, porque as duas filhas engravidaram. Nove meses depois a mais velha pariu Moab e a outra deu à luz Ben-Ami.
Bom essa história toda é pra justificar um negócio que vai acontecer muito mais tarde, no tempo de Moisés (lembrem-se que o Gênesis, junto com os outros quatro primeiros livros da Bíblia, são atribuídos a Moisés). É uma história que um dia eu vou contar, mas basta a vocês saberem que os israelitas tinham ódio mortal de dois povos: os Moabitas e os Amonitas. Apesar do ódio, intuíam que esses povos tinham uma origem muito próxima da origem de Israel, eram parecidos e tal. Então essa história que culmina com o nascimento de Moab (pai dos moabitas) e Ben-Ami (pai dos amonitas) serve para explicar que sim, eles são descendentes do sobrinho de Abraão, portanto têm origem parecida com a de Israel, mas não há problemas em odiá-los, já que são frutos de incesto. A história toda guira em torno de trocadilhos: em hebraico, a palavra “Moab” soa parecida com outra que significa “do meu pai”, e “Ben-Ami” se parece com outra que significa “filho do meu parente”.
A Destruição (Sodoma e Gomorra, Epílogo)
E então, onde foi mesmo que deixamos o Lot? Ah, é. Os anjos falaram pra ele juntar seus paninhos de bunda e se picar. Lot foi correndo chamar os namorados das filhas (dormindo na casa das namoradas naquela época, vejam só a putaria que era Sodoma!).
— Acorda, cambada, que deus vai destruir a porra toda aqui. Vambora!
— Ah, sogrão, para com isso… Tudo bem, a gente não dorme mais aqui, tamo abusando, beleza. Mas não precisa contar essa historinha.
E ficaram nesse lenga-lenga. Já era de madrugada quando os anjos — doidinhos para começarem mais um genocídio — voltaram a aperrear o pobre do Lot. Porra, o cara tinha as coisinhas dele, já tava abandonando a casa e os caras ficavam apressando? Ah, mas eram anjos de deus, e cês sabem como essa raça pode ser impaciente: pegaram Lot e toda a família pelas mãos e os levaram para os limites da cidade.
— Vai, cambada, todo mundo correndo. Vão se esconder ali na montanha, se não cês tão na roça.
— Assim não, senhor! (aqui cabe uma observação: pela primeira vez em sua história, Jesus, me chicoteia! transcreve uma frase exatamente como está na bíblia, ou pelo menos na tradução João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida. Podem conferir, Gênesis 19:18. Resolvi escrever igual porque tem o mesmo tom que eu uso para contar essas histórias. Ah, a tradução Na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil traz “Senhor, não me obrigue a fazer isso, por favor!”. Muito chato. Eita parêntese comprido, vamos voltar à fala de Lot, que tá esperando até agora pra concluir) Obrigado, Marco, fofo! Como eu ia dizendo, assim não, senhor! Com todo respeito, a tal montanha fica lá na casa do caralho, só parece perto. Antes que eu chegue lá, já virei churrasco grego.
— Você não é grego, Lot. A Grécia nem existe ainda.
— Porra, não é esse o ponto! Olha, sou muito agradecido por vocês salvarem a gente e tal. Mas fazer a gente ir láaaa pra montanha é sacanagem. Tá vendo aquela cidadezinha ali? É pertinho, e olha como é pequena. É tão pequena que nem tem condição de ter putaria lá feito em Sodoma. Eu vou pra lá com minha mulher, minhas filhas e os canalhas dos meus genros, e fica tudo bem. Que tal?
— Lot, que família ranheta, hein? Ontem mesmo tivemos que aturar o seu tio barganhando, agora vem você com essa historinha. Bom, pra você não falar que somos felasdaputa, pode ir pra tal cidadezinha, não vamos destruir aquela bostinha de nada. Mas vai depressa, que acabo de receber um bipe de deus dizendo não vai autorizar a destruição enquanto você não chegar lá, e a gente tá seco pra fazer churrasquinho de veado.
Os anjos ainda ordenaram que eles não olhassem para trás para ver a destruição, porque ia ser um puta dum marketing negativo para deus, justo quando o ibope das Pegadinhas de Jeová batia nas alturas. E Lot correu para a cidadezinha (que passou a chamar-se Zoar, não porque os anjos zoaram com Lot, mas porque “zoar” significa “pequena”), chegando lá ao nascer do sol. Foi ele chegar e começou o pega-pra-capar em Sodoma e Gomorra. Começou com o tempo fechando com nuvens de cores estranhas. As bichinhas olhavam para cima e comentavam umas com as outras:
— Menina, que céu lindo!
— Ma-ra-vi-lho-so!
— Arrasou Gomorra em chamas!
Logo começou a chuva de fogo e enxofre
— Cuidado, biba, seu cabelo tá pegando fogo!
— Pegando fogo tá seu rabo, mona!
— Tô falando sério, porra, seu viado burro! (deu ataque de macheza nas bichas nos momentos finais)
Era lindo de se ver (de longe, claro). Todo aquele fogo caindo do céu, uma barulheira… A mulher de Lot resolveu olhar para trás nessa hora e virou uma estátua de sal instantaneamente. Lot deve ter ficado muito feliz, imagino o quanto deve ser difícil para uma gazela feito ele manter por tantos anos um casamento de aparências.
Na manhã seguinte, Abraão acordou e foi até o lugar onde tinha falado com os anjos. De lá ele viu o lugar onde antes ficavam Sodoma e Gomorra, agora parecendo uma filial do inferno. E deve ter pensado: “Se a bicha do meu sobrinho escapou dessa, o cara é ninja”.
(PUTA QUE PARIU, TERMINEI A HISTÓRIA DE SODOMA E GOMORRA!!!!!!!)
