Era bom demais passear com o Rondeli.

Desde filhote, ele nunca foi muito de puxar a guia. Ele ia sempre ao meu lado, sempre do lado esquerdo, andando no meu ritmo. Eu parava, ele parava. Eu andava, ele andava. Eu virava, ele virava. Era como se ele fosse uma extensão minha, nós dois compartilhando uma mente só, um bicho assimétrico de seis patas. Sentia mais do que via o eventual olhar dele para mim, tentando adivinhar meu próximo movimento para se antecipar. Às vezes ele queria um outro caminho, então sinalizava sutilmente e eu ia com ele. Porque tinha isso também: ele andava comigo, mas eu andava com ele.

Durante o passeio, eu muitas vezes ia com a mente longe. Pensava em trabalho, resolvia textos na minha cabeça, elaborava ideias, tinha brigas imaginárias com um bando de gente. Ele não: ele estava ali, 100% passeando, totalmente comigo.

Rondeli morreu no começo deste ano, aos 15 anos. Esta noite, sonhei que passeava com ele. Era uma rua comprida, e precisávamos chegar a um lugar. O tempo todo eu pensava se estava indo na direção certa, se ainda faltava muito. Me preocupava se ele ia ficar cansado, pensava em levá-lo no colo. Aí olhava para ele, e ele estava como sempre nos nossos passeios: imerso na atividade, trotando olhando para a frente, às vezes dando uma olhadinha para mim. Chegamos a um desnível grande da rua, essas coisas de sonho. Precisei pegá-lo no colo para colocar na parte alta da rua e ele se deitou, esperando enquanto o gordo aqui tomava impulso para subir e seguir o caminho. Quando finalmente consegui, ele se levantou com alguma dificuldade e seguimos adiante.

Acordei antes de chegarmos, mas muito feliz de ter experimentado mais uma vez a sensação sublime de passear com meu cachorrinho querido.

A gente lamenta que cachorro viva pouco, mas não sei, não. O cachorro está presente em cada momento, onde ele estiver, ele está. Enquanto isso, a gente pedala ouvindo um podcast, dirige pensando nas contas, lê preocupada com a roupa no varal, estende a roupa repisando erros de vinte e tantos anos atrás.

Quem vive pouco é a gente.