Ora, ora, ora! Este blog já estava descambando para a pornografia, meus amigos! Onde ficam a moral, os bons costumes, a tradição, a família, a propriedade? Foi só meter televisão no meio que já virou putaria. Voltemos a bíblia, seus ímpios. Penitenciem-se!
Pois bem, o que foi que aconteceu com Jacó e sua alegre patota? Os filhos acabaram com uma cidade, e o bando todo precisava sumir do mapa, e rapidinho. Foi quando deus (sim, deus, ele ainda é personagem da história) veio falar com Jacó.
— Israel!
— Porra, me chama de Jacó. Não gosto desse nome.
— Jacó, Israel, Zé Mané, te chamo do jeito que eu bem entender. Eu sou é deus, tu tá pensando o quê?
— Tá, tá. Fala, véio.
— Véio é o diabo que te carregue! É o seguinte: Teus filhos aprontaram feio dessa vez e vocês têm que tratar de sair daqui.
— Disso eu já tô sabendo, oras! Se é pra vir me falar o óbvio, melhor nem vir.
— Deixa eu terminar, cabra sem-vergonha! Você vai pegar todo esse povo aí e vai pegar o caminho para Betel, que foi onde eu te apareci quando cê tava fugindo do seu irmão. E lá você vai erguer um altar para mim.
— Ah, tá! Vou simplesmente levantar, dizer “Ô, cambada, simbora pra Betel” e meter o pé na estrada?
— É isso aí.
— Porra, deus, como você mesmo diria, numfode! Os caras das cidades vizinhas de Siquém estão doidinhos pra pegar a gente. Como é que eu vou passar pelas terras deles, hein, sabichão?
— Confia em mim uma vez na vida. Ninguém vai te fazer nada, eu não vou deixar.
Jacó não acreditou muito nessa história. Mas ficar por ali também não era boa idéia, então achou melhor confiar. E para que deus não tivesse um de seus arroubos de prima donna ciumenta e fulminasse a todos, Jacó pediu a sua família e aos servos que trouxessem a eles todos os deuses que tinham.
— E tratem de trazer tudo mesmo! A partir de hoje, todo mundo aqui vai ter um deus só!
Todos trouxeram seus ídolos e Jacó os escondeu (os ídolos, porra) no oco de um carvalho [“No oco de um carvalho”… Fala isso rápido. Mais rápido. Fica engraçado. “No oco de um carvalho”]. Feito isso, pegaram a estrada, e a bíblia diz que “O terror de Deus foi sobre as cidades que estavam ao redor deles, e não seguiram após os filhos de Jacó”. Em outras palavras, deus soltou uma bufa e ninguém teve a manha de sair de casa.
Jacó e os seus chegaram sem maiores problemas a Betel, onde ele construiu o altar que deus solicitara, e chamou o lugar de El-Betel que, como vocês sabem, significa O deus de Betel.
Débora, ama de Raquel, morreu por ali e foi sepultada debaixo de um carvalho que eles chamaram de Alom-Bacute (O carvalho de pranto). E deus apareceu novamente a Jacó.
— Israel!
— Israel de cu é rola, deus! Meu nome é Jacó!
— Peraí, rapaz! Cê é muito encanado com esse negócio de nome, parece até o PAULO Nunes… Então, eu ia dizendo: Quero que você tenha muitos filhos…
— Já tenho.
— Ah, é verdade. Então. Mas é bom que você tenha mesmo muitos filhos, porque farei de você uma…
— … Grande nação, e da minha descendência sairão reis, meus descendentes serão em maior número que as estrelas do céu e os grãos de areia da praia, e darás a eles a terra prometida a Abraão e Isaque. Tô sabendo do leriado todo. Mais alguma coisa?
— Hum… Deixa eu ver aqui no meu palm, peraí… Filhos… Grande nação… Reis… Estrelas, grãos de areia… Terra prometida… Abraão, Isaque… Luana Piovani…
— COMO?
— Ahan… Nada não. Misturei as coisas aqui. Bom, era só isso que eu tinha pra dizer. Tchau.
— Até mais.
Já sabedor das manias esquisitas de deus, Jacó ergueu ali uma coluna de pedra em louvor a ele e voltou para o acampamento.
Categoria: Bíblia
Diná é deflorada: A vingança dos filhos de Jacó
— Na edição de ontem do Mesopotâmia Urgente, falamos do homem que está enriquecendo no Egito graças às cheias do Nilo. Hoje veremos como muitas outras pessoas aproveitaram a idéia e… Esperem, acaba de chegar uma notícia às minhas mãos. Parece que houve uma chacina em Canaã. Aconteceu na cidade de Siquém, onde está nosso correspondente para trazer maiores detalhes.
— Não foi bem uma chacina, seria melhor qualificar o que aconteceu como genocídio. A cidade está destruída e deserta. Apenas um homem foi encontrado no meio dos escombros. Estava bêbado e falando coisas incoerentes. Depois de tomar uma ducha fria e um café forte, acabou confessando à polícia que participou do saque da cidade, ajudando os filhos de seu patrão, um nômade rico chamado Jacó, que morava aqui já havia alguns anos, em um terreno cedido pelo apresentador e empresário Senor Abravanel. Estamos com ele aqui. Para resguardá-lo, sua identidade será mantida em segredo. Você pode nos contar o que aconteceu?
— Peraí, esse negócio de identidade em segredo. Vocês não vão colocar aqueles quadradinhos na minha cara e me deixar com voz de pato?
— Sinto muito, estamos ao vivo e não dá pra fazer isso. Mas posso te garantir que essa máscara de Tiazinha e o prendedor de roupa no nariz são suficientes. Por favor, conte sua história.
— Então, rapaz… Meu patrão, Seu Jacó, tem uma filha muito bonita, chamada Diná. Os irmãos dela são muito ciumentos, não deixavam a menina sair de jeito nenhum. Mas você sabe como são as moças nessa idade, aquele fogo na periquita, então um dia, deve fazer uma semana, ela saiu escondida pra ir conhecer a cidade.
— A família do seu patrão não morava na cidade?
— Não, a gente morava em tendas. Mania da família do Seu Jacó, acho que eles gostam de acampar, sei lá. Pois então, a menina foi conhecer a cidade e o príncipe de lá, Siquém, acho que ficou apaixonado pela menina e levou ela pra casa.
— Siquém? O cara tem o mesmo nome da cidade?
— É, não sei se o pai dele botou esse nome na cidade por causa do filho ou se foi o contrário.
— O pai dele era o manda-chuva por aqui, então.
— Isso mesmo. Hamor era o nome dele. Um senhor muito distinto. E Siquém também era um rapaz muito decente. Mas você não conheceu a Diná, a menina era linda demais. Todo mundo tinha vontade, mas Siquém foi e fez. A menina chegou virgem à cidade, e duas horas depois já não era mais. A história se espalhou, Seu Jacó acabou sabendo e contou pros filhos o que tinha acontecido. Ah, os meninos ficaram muito putos com a história toda e a gente logo percebeu que isso não ia acabar bem. E não adiantou nada Hamor ir falar com o patrão.
— Ah, então ele chegou a ir falar com a família da moça?
— Ôpa, foi sim. Ele e o filho. Foram lá para pedir a menina em casamento. Muito honrado da parte deles, eu achei. Hamor falou pro meu patrão que Siquém estava apaixonado pela filha dele, que não falava noutra coisa e queria casar com ela. Propôs que passassem a conviver, e ele daria a mão das filhas aos filhos do patrão, e nós poderíamos viver na terra deles. Mas o mais bonito foi o menino falando, o Siquém. Tava quase chorando. Disse que Diná era a razão da vida dele e que eles podiam pedir o que quisessem e ele daria, pedindo em troca apenas que deixassem ele ser feliz com a menina. Foi bonito, muito bonito mesmo.
— Mas então, por que tudo não se resolveu?
— Ah, você não conhece os meninos… Inventaram que não podiam deixar a irmã se casar com um homem incircunciso, que seria uma vergonha e coisa e tal. Disseram que só aceitariam a proposta deles se eles e todos os homens da cidade fossem circincidados.
— Circuncidados? Que é isso?
— Ah, um costume da família desde os tempos do velho Abraão, avô do chefe. Eles cortam a pele do… Do… Como é que eu vou dizer?
— Do pinto?!?
— É, isso aí. Todo menino que nasce eles cortam a pele do pinto, e todo empregado que vem trabalhar aqui com eles tem que fazer a mesma coisa.
— Negócio esquisito…
— Também acho, mas eles dizem que foi ordem de um deus aí deles. Eu acho é que esse deus falou o negócio só de sacanagem e o velho acatou. O que importa é que o costume pegou, e os meninos se saíram com essa para cima dos caras de Siquém. Hamor e o filho acharam que não tinha nada demais, foram até a porta da cidade deles e chamaram todos os homens para comunicar a circuncisão geral. Não sei se eles gostaram muito da idéia, eu não gostaria, mas cê sabe como é, ordens do rei, que é que cê vai fazer? Além do mais, fiquei sabendo que Hamor explicou tudo direitinho para eles, que se cortassem a pele do pinto o príncipe da cidade ia se casar com a filha do ricaço, e todo mundo saía ganhando. Bom, só sei que todo mundo foi circuncidado naquele dia.
— Peraí, conseguiram passar a navalha no pinto de todos os homens da cidade num só dia?
— Ah, a cidade era pequena… Para você ter uma idéia, nosso acampamento tinha bem mais habitantes que a cidade, contando os servos todos. A única diferença é que eles viviam num lugar fixo, em casas de pedra, e a gente nessas merdas de tendas cheias de goteira, tendo que cagar no mato, sem água encanada, sem luz elétrica.
— Certo. Mas ainda não entendi: Como é que cortar o pinto levou a tamanha tragédia? Infecção hopistalar?
— Não, você ainda não entendeu o que os filhos do patrão estavam planejando. Tudo isso aconteceu há três dias. Na noite de ontem, aproveitando que todos os homens da cidade estavam meio prejudicados por causa da operação, Simeão e Levi, os mais velhos, convocaram a gente pra invadir a cidade. Chegamos à noite e entramos sem problemas. A ordem era para matar todos os homens, e a gente não era doido de desobedecer. Dava dó de ver aqueles marmanjos tentando correr. Acabou que matamos todos eles.
— Hamor e Siquém também?
— Também, coitados. Esses os meninos fizeram questão de matar pessoalmente, e pelo menos sou feliz por não ter presenciado a cena.
— E por que você ficou por aqui?
— Então… Depois que todos já tinham morrido, os outros irmãos vieram para saquear a cidade. Levaram as mulheres e crianças para o acampamento, roubaram os animais e tudo o que havia nas casas. Terminado todo o serviço, eu e mais uns três colegas encontramos vários odres de vinho numa casa e começamos a beber. Não me lembro de mais nada. Hoje de manhã os colegas tinham sumido e tinha polícia pra todo lado. Foi isso.
— Você sabia que Jacó e seus filhos assassinos fugiram durante a madrugada?
— Não tava sabendo não. É assim a vida, a gente trabalha tantos anos pro cara e quando precisa…
— É, rapaz, infelizmente você se deu mal. Obrigado pela entrevista. Guardas, podem levar. Pois é, meus amigos. Uma tragédia nunca vista aconteceu por aqui e os culpados estão desaparecidos. Vamos esperar que ao menos dessa vez a justiça seja feita. E que alguém explique direito esse negócio de cortar o pinto, que eu nunca vi coisa tão estapafúrdia na minha vida.
O reencontro de Esaú e Jacó
— Não percam hoje, após o Domingo Legal, Silvio Santos apresentando Casa dos Artistas 2. Quem será que vai deixar a Casa hoje? Não percam! Pois bem, chegou a hora do quadro que todo mundo espera, aquele momento em que várias pessoas, íntimas ou não do convidado, levam o pobre coitado às lágrimas, ao absoluto constrangimento, ou ambos. Nosso convidado de hoje é um rapaz que tem uma linda história de vida. Ainda adolescente, saiu fugido de casa, com medo da vingança do irmão. Hoje, vinte anos depois, ele está rico. Mas não foi fácil. Pode entrar, Jacó!
[aplausos]
— Boa tarde, Jacó.
— Boa tarde, Gugu.
— Quem são essas pessoas aí?
— Bom, essas duas são Bila e Zilpa, servas das minhas esposas, e seus filhos, Dã, Naftali, Gade e Aser. Gade, tira o dedo da boca. Atrás deles, vem Léia, minha primeira mulher, com os filhos que tive com ela, Ruben, Simeão, Levi, Issacar e Zebulom.
— Zebulom, Jacó? Que nome é esse?
— Sei lá, Gugu, ela que escolheu, eu não discuto essas coisas. Ah, e tem também a menina, como é o nome dela? Diná. E ali atrás está minha querida Raquel, com nosso filhinho José. Ela é meio tímida, repare não.
— Que bonito, Jacó. Mas por que você enfileirou todo mundo assim? Se Raquel é o amor da sua vida, porque ela não está aqui na frente com você, apesar da timidez?
— Ah, Gugu, não sou bobo não! Meu irmão Esaú está para aparecer, então… Peraí, deixa eu falar baixinho… Então eu organizei assim, comigo na frente. Se Esaú vier pra matar a gente, me mata primeiro, depois as servas e seus filhos, depois Léia e as crianças, e só depois vai chegar até Raquel e José. Assim minha esposa e meu filho preferido têm mais chances de escapar. Entendeu?
— Mas tu é safo mesmo, Jacó. Eu tenho mais perguntas para fazer a você, mas antes eu quero falar aos telespectadores sobre o Kid Vibrator do Gugu®. Se você anda desconfiado do seu filhinho, se ele se tranca no quarto por horas a fio com os amiguinhos, se ele brinca de boneca, para que reprimir um menino que dá tantas mostras de ser perobo mesmo? Dê a ele o Kid Vibrator do Gugu® e faça a vida do seu filho muito mais feliz e cor-de-rosa. Pois então, Jacó, recentemente aconteceu aí uma luta e seu oponente mudou seu nome. Mas você continua usando o nome antigo, Jacó. Por quê?
— Veja bem, Gugu, eu…
— Espera, espera! A produção tá me dizendo que tem um VT com ele aí. Pode soltar o VT!
deus —Pois é, Israel. Tá lembrado de mim? Sou eu, Israel! Jeová! Que bela luta aquela nossa, hein? Nunca vou me esquecer. Você não é fraco não, admito que não foi fácil derrotá-lo. Você é bom, rapaz, tem futuro. Só fiquei chateado com um negócio: Escolhi um nome tão bonito pra você, mas você insiste em continuar se chamando Jacó. Puxa, Israel, que que eu te fiz? Bom, mas tá tudo bem, um abraço para você, te garanto que ainda vou fazer de você uma grande nação.
[aplausos]
— E aí, Jacó, cê quer explicar essa história?
— Puxa, eu quase que não reconhecia o cara. O velho Jeová… Pois é, Gugu, você deve ter visto a luta, o cara roubou na cara dura. Tô mancando até agora, e meu quadril dói quando o tempo está úmido. Além de tudo ainda quer mudar meu nome? Ah, peraí, e a trabalheira de mudar toda a documentação? Ele que vá mudar o nome das negas dele, comigo não!
— Mas ele vai fazer de você uma grande nação!
— Esse é outro negócio que me irrita. É “grande nação” pra cá, “grande nação” pra lá… Porra, deus, vira o disco! Cê já falava isso para o meu avô Abraão, depois para o meu pai, e até agora eu não vi nada!
— Pô, Jacó, mas você enriqueceu, subiu na vida. O VT que vamos mostrar agora é de uma pessoa que diz que te ajudou muito para que você chegasse aonde chegou. Sabe de quem eu estou falando?
— Não faço idéia.
— Então roda VT!
Labão—Ê, Jacó! Esse meu sobrinho é demais! Chegou aqui sem nada, corrido de casa, assustado feito um coelho. Dei emprego pra ele, ensinei uma profissão, dei condições ideais de trabalho, vale-refeição, assistência médica e odontológica, férias uma vez por ano, décimo-terceiro… E ainda deixei o danado se casar com minhas filhas, já que ele queria tanto! Achei que foi um pouco de ingratidão ele ter ido embora, mas entendo. A juventude é assim, impulsiva. Mas sei que onde quer que ele vá sempre carregará com ele tudo o que aprendeu aqui comigo, e mais importante, todo o amor que dispensei a ele. Jacó, meu querido, uma abraço do seu tio e sogro!
[aplausos. Gugu está com os olhos vermelhos]
— Jacó, apesar de tanto sofrimento na vida, cenas como essa fazem tudo valer a pena, não é?
— O que que faz valer a pena? O papo furado desse velho sem-vergonha? Ah, Gugu, faça-me o favor. Esse maldito fodeu minha vida, me fez trabalhar pra ele durante vinte anos, acabou com minha juventude, e agora vem com historinha. Labão, vai à merda!
— Eu devo lembrar, Jacó, que estamos transmitindo em TV aberta para todo o Brasil no horário vespertino, e que sua linguagem é inadequada.
— Inadequada, é? E o que você acha adequado? Essas putas balançando o rabo na frente das câmeras é adequado?
— Arran… Continuando. Outro VT pra você, Jacó.
Rebeca—Jacó, meu filhinho! Eu e papai estamos morrendo de saudades! Vê se acerta logo as coisas com seu irmão e volta pra casa! Mamãe te ama. Beijo no coração!
[aplausos. Uma lágrima furtiva se insinua no olhar do apresentador (valeu, Vavá!)]
— Ah, Jacó, pode confessar: Esse seu coraçãozinho de pedra está começando a amolecer…
— Amolecendo está é o seu cérebro. Tá, ela é minha mãe, mas se eu não tivesse acatado as idéias dela não teria me fodido tanto na vida. Esse negócio todo de enganar meu pai e meu irmão, e depois ainda ir morar com Labão, foi tudo idéia dela. Ô, mãe, não vou xingar a senhora por respeito. Mas que puta sacanagem que a senhora me aprontou!
— Jacó, você é um homem amargurado.
— Amargurado meu ovo! Vai você dormir no meio dos bodes pra ver se não fica amargurado também.
— Hum… Bom, outro VT. Pode soltar, produção.
Isaque—Oi, filho. Estou com saudades. Você foi embora há tanto tempo! Esaú sumiu também, foi morar noutras terras. Sua mãe só vive reclamando. Eu sei que sou só um velho cego e fraco, mas como eu queria a família toda reunida outra vez! Vê se volta pra casa, filho. Não guardo mágoas de você. Você sabe que eu sempre quis seu bem. Você abusou ao se aproveitar do amor do seu pai para levar vantagem, mas isso tudo foi há muito tempo. Volta, filho. Um beijo do papai.
[aplausos emocionados. Jacó não consegue conter o choro]
— Ufa, finalmente! Pensei que você não fosse…
— Cala a boca, biba! Cê queria o quê, porra? É meu pai! Meu pai, que eu tanto fiz sofrer, como se ele já não tivesse sofrido na vida. Eu tenho raiva de deus pelas coisas que me fez passar, mas troço muito pior ele fez com meu pai. Quando ele ainda era uma criança, deus pediu ao meu avô, Abraão, que ofertasse meu pai em sacrifício. Meu avô, com sua fé cega e sua faca amolada, foi correndo obedecer. O sacrifício foi impedido em cima da hora, mas meu pai carregou esse trauma para sempre.
— Que história triste, Jacó. Não sabia disso. Conta mais.
— Conto nada! Leia a bíblia! Ou pelo menos leia a versão do Jesus, me chicoteia!
— Ok, ok… Mas, Jacó, deixamos a surpresa melhor para o final. Tem alguém aí nos bastidores que veio para reencontrar você. Sabe quem é?
— Não faço a mínima.
— Uma pista: Ele não está sozinho, com ele estão quatrocentos homens.
— AI, CARAIDIASA, É O ESAÚ! Rápido, cambada, em fila, do jeito que combinamos. Ai, putaquepariu!
— Calma, Jacó, calma. Pode entrar, Esaú! Deixa seus amigos aí fora!
[Esaú entra e levanta Jacó, que tinha ficado de pernas bambas. Esaú abraça e beija o irmão. Todo mundo chora]
— Ah, meu irmãozinho, que saudades! Quem são essas pessoas que estão com você?
— São minhas esposas, senhor, e os filhos que tive com elas.
[As esposas, as servas e a molecada chegam mais perto e Esaú abraça e beija um por um]
— Tá, Jacó, vamos largar desse negócio de “senhor”. Sou teu irmão, porra! E o que eram aqueles rebanhos todos que você me mandou?
— Ah, uns presentinhos, pra ver se você consegue me perdoar.
— Queisso, Jacó! Tenho bastante, sou rico também, não preciso! Além do mais, não guardo rancor. Pode pegar tudo de volta.
— Não, faço questão. Por favor, Esaú, aceita o meu presente.
— Tá bom, vai. Ê, moleque! Tava se cagando de medo, hein?
— É, um pouquim…
— Imagino.
— Mas também, Esaú, cê vem com quatrocentos homens!
— Ah, esses aí? Porra, estávamos indo assistir a sua luta, mas não deu tempo. Muito longe. Mas ficamos sabendo da roubalheira.
— Não se pode ganhar todas.
— É isso aí.
— Pessoal de casa, vejam que cena emocionante! Os dois irmãos se encontram depois de tantos anos! Que coisa linda! Que maravilha! Que…
— Calaboca, bicha deslumbrada! Jacó, vamos voltar pra casa? Eu vou indo na frente com meu bando, você vem seguindo. O pai vai ficar doidinho de alegria.
— Esaú, acho que não consigo te acompanhar não. Você está só com homens adultos, eu estou com essas crianças e vários animais ainda filhotes. Se eu for andando no seu ritmo, logo logo o rebanho todo morre e os moleques se cansam. Não quero te atrapalhar, então vai indo, que eu sigo andando no passo da molecada. Não tenho pressa mesmo.
— Boa desculpa. Cê não consegue me acompanhar mas é por causa desse seu andar deixa-que-eu-chuto. Tá bom, manquitola. Estou indo, então. Vou dar a boa notícia aos velhos. Vê se vem logo, tá? Tchau.
— Tchau, meu irmão.
[Esaú sai. Gugu vai falar com Jacó]
— Jacó, o Silvio está chamando a gente lá do outro estúdio, quer falar com você. Fala, Silvio!
— Ha-haaaaaaaaai! Boa noite, Gugu.
— Boa noite.
— Boa noite, minhas amigas de casa, minhas colegas de trabalho. Boa noite, Jacó.
— Boa noite, Silvio.
— Jacó, você é de onde?
— Canaã, Silvio.
— Ah, um cananeu! Tem caravana de Canaã no auditório hoje? Ha-haaaaaaaaaai! Jacó, você sabe que eu sou judeu, não é?
— Sei sim. E daí?
— Como assim, “e daí”? Isso quer dizer que eu sou descendente do seu filho Judá. Em outras palavras, sou do povo de Israel.
— Xi… Então esse nome vai pegar?
— Sim senhor, vai se acostumando. Mas eu estava aqui assistindo e me emocionei com a sua história. Eu sei que você é rico, mas vou te dar um prêmio, porque achei que você merece.
— Ai, ai, ai… Deixa eu adivinhar: Carnê do Baú?
— Não, Jacó, que coisa! Ha-haaaaaaaaai! Você acaba de ganhar um terreno no valor de cem peças de prata em Siquém, Canaã, para armar suas tendas e ficar vivendo por lá, perto dos seus pais e do seu irmão!
— Puxa, Silvio, muito obrigado! Não sei como agradecer!
— Não precisa agradecer não. Apenas trate bem dos seus filhos, se não eu nunca vou existir.
— Meio confuso isso aí…
— É, eu sei. Gugu, acho que está na hora.
— Está na hora, Silvio. Amigos de casa, vocês agora ficam com Casa dos Artistas 2. Quem será que vai sair da Casa hoje? Eu fico por aqui. Até semana que cem com mais um programa Domingo Legal!
[A Técnica esquece o microfone aberto, e ainda dá para ouvir Jacó falando]
— Viadão sem-vergonha…
Que porra foi essa?
Cazzo, entraram no meu blog pra narrar luta. Tá, é verdade que Jacó lutou com deus, mas não lembro desse leriado todo não… Jacó ficou sozinho lá perto do rio. Aí veio um homem e lutou com ele quase até o nascer do sol. Quando viu que Jacó estava levando a melhor, tocou na juntura da coxa dele, deslocando o nervo, e disse:
— Porra, me deixa ir embora que já está amanhecendo.
— Deixo nada, rapaz! Só se você me abençoar. Tô numa situação desgraçada, tô apelando até pra benzedura.
— Qual é o seu nome?
— Jacó.
— Ah! É que tá escuro, acho que vim brigar com o cara errado… Bom, a partir de hoje seu nome será Israel.
— E eu te autorizei a mudar meu nome, cabra safado?
— Eu faço o que quero.
— Ôpa, conheço essa voz. Qual o seu nome?
— Não interessa. Quer que eu te abençoe? Tá bom, sê bento. Pronto, tchau.
O homem foi embora. Jacó percebeu que estivera lutando com deus e chamou aquele lugar de Peniel. Bom, el, como vocês já devem ter percebido, é deus em hebraico. Então isso quer dizer que Peniel significa pênis de deus??? Não, seus hereges! Significa rosto de deus, porque Jacó esteve cara-a-cara com o hômi.
Ah, e Israel significa aquele que luta com deus.
Jacó luta com deus
— Muito bem, amigos da Rede Canaã. Interrompemos este blog para transmitir ao vivo com exclusividade, diretamente do Vale do Rio Jaboque, a Luta do Século, entre…
— Gabriel?
— Aqui ao meu lado o nosso comentarista, Arcanjo Miguel. Pode dizer, Miguel.
— É só uma curiosidade que eu tenho: Por que toda luta é chamada de “Luta do Século”?
— Sei lá, Miguel, deve ser para vender anúncio. Mas esta eu posso te garantir que é a Luta do Século, do Milênio, de Todos os Tempos! É pena não terem inventado ainda a televisão para o pessoal de casa poder ver este combate que promete ser sangrento, mas mesmo pelo rádio será emocionante!
— Hum… Gabriel?
— Que foi agora?
— Ainda não inventaram o rádio também.
— Não?
— Não.
— Que que esses caras inventaram até agora?
— Deixa eu ver… A roda. O arado. A escrita. Acho que é isso.
— Porra, tão de brincadeira! Então vamos ter que gravar a transmissão desta luta emocionante para a posteridade?
— Também não. Não existe gravador ainda, esqueceu?
— Ah, cê tá querendo me boicotar. Bom, vamos transmitir a luta, quem puder que ouça. Está bom agora?
— Perfeito.
— Muito bem. Pois bem, meus amigos, estamos aqui para transmitir a luta pela qual todos esperavam. Já no ringue, com um metro e setenta e dois, pesando setenta quilos, o safado, o sem-vergonha, o desonesto, o canalha Jacó, o Usurpador! Estamos esperando a entrada da grande estrela desta noite, campeão absoluto… Ôpa, lá vem ele. A platéia delira. De altura e peso desconhecidos, o Senhor dos Exércitos, o Rei das Nações, o Soberano da Terra, o Criador de Todas as Coisas, o…
— Porra, Gabriel, pára de puxar meu saco! Coisa desagradável…
— Perdão, senhor. Bom, adentrando agora o ringue, Jeová, o Todo-Poderoso! O público não se agüenta! Aplausos ensurdecedores! Duas moças já desmaiaram de emoção! Ele é o ídolo das multidões!
— Ídolo é o cacete, Gabriel! Eu sou é deus, porra!
— Perdaõ de novo, senhor. Muito bem, o juiz está dando as instruções. Vamos ouví-lo.
— Muito bem, aqui vale tudo, desde golpe baixo até puxar o elástico da cueca do adversário. Mas devo adverti-los que não será aceita a utilização de superpoderes de qualquer espécie, sendo imediatamente desclassificado o lutador que apelar para eles. Isso vale para o senhor, Jeová. Fingir que foi atingido por superpoderes também não vale, está ouvindo, senhor Jacó? Não quero saber de malandragem. Entendido?
— Entendido é teu pai.
— Perguntei se os dois compreenderam…
— Ah, entendi sim.
— Eu também.
— Muito bem, meus amigos, soou o gongo. Os adversários se estudam. Nota-se que há respeito de ambas as partes. Olha lá, Jacó tomou a iniciativa do combate, tentando um jab de esquerda, do qual Jeová se esquiva com facilidade. Aproveitando-se da guarda baixa do adversário, Jeová aplica um cruzado de direita no queixo de Jacó. Uh, doeu até em mim. Mas Jacó parece não sentir e passa uma rasteira no Todo-Poderoso. Jeová caiu! Mas olha só, ele mesmo caído conseguiu aplicar um rabo-de-arraia em Jacó. Por essa ele não esperava! É emocionante meus amigos! E este foi o primeiro assalto.
— Peraí, Gabriel, não ouvi o gongo.
— Não, Miguel, foi o primeiro assalto, acabam de levar meu relógio. Ô, situação calamitosa… Bom, de volta à luta: Jacó parece estar aprontando alguma. Está com a mão direita nas costas, o que será. EPA! EU NÃO ACREDITO NOS MEUS PRÓPRIOS OLHOS, MEUS AMIGOS! JACÓ ACABA DE JOGAR UMA TORTA NA CARA DE JEOVÁ!!!
— Gabriel, esta é a primeira vez que ocorre algo assim numa luta de nível internacional.
— É verdade, Miguel. A única coisa que eu já vi parecida com isso foi naquela luta entre Jeová e Lúcifer, quando o Canho botou uma tachinha no banco em que Jeová se sentaria no fim do primeiro assalto. Jeová ganhou aquela luta, mas passou meses sentando de ladinho. E agora está puto da vida com o golpe inesperado de Jacó. Olha lá, Jeová está fazendo alguma coisa… Ah, é o velho golpe da distração! Ele está apontando para alguma coisa atrás de Jacó. Não acredito que ele vá cair nessa. Ah, não! Jacó olhou e Jeová aplicou-lhe um telefone com as mãos em concha nos ouvidos. Ui, isso dói! Jacó está visivelmente atordoado e Jeová aproveita para tentar um fura-olho estilo Três Patetas. Mas Jacó conhece o golpe e se protege colocando o lado da mão sobre o nariz. Que reflexos, meus amigos! Que combate emocionante! Jacó já se recuperou e prepara um novo golpe. Mas Jeová foi mais rápido e deu um beliscão no braço de Jacó, chamando-o de bobo, feio e cabeça de melão! O campeão está ousado hoje! Mas não é só ele, vejam só! Jacó acaba de aplicar um peteleco no nariz do Todo-Poderoso! E outro! E mais outro! Jeová está irritado, o que só faz com que ele perca a concentração. Jacó aplica um joelhaço no saco de Jeová! Pode ser o fim da luta!
— Gabriel, deus tem saco?
— Deve ter, porque está encurvado e arfando feito um cachorro asmático. Jacó não vai perder essa oportunidade. Pronto, Jacó aplica um mata-leão no adversário. Deve ser o final do combate, meus amigos, que emocionante!
— Gabriel…
— Que foi?
— Tem uma luzinha saindo do dedo de Jeová, tá vendo ali?
— É verdade, Miguel! Parece que Jeová está querendo quebrar as regras. O dedo dele está brilhando, parece o ET! O que será que ele vai fazer? Ele está encostando o dedo na coxa de Jacó, na junta do quadril! Jacó urra de dor! Tenta se levantar, mas a perna não se move! Abre o microfone do ringue, vamos ouvir o que o juiz tem a dizer sobre isso.
— Senhor Jeová, eu avisei. O senhor usou superpoderes e está desclassificado. O vencedor da luta é Jacó.
— Juiz?
— Sim, Jeová?
— Quer ir para o inferno, quer?
— E O VENCEDOR É… JEOVÁAAAAAAAAAAAA!
— Assim que eu gosto. Me manda o prêmio via Sedex, que eu preciso ir porque já está amanhecendo. Tchau
— Meus amigos, é inacreditável o que vimos aqui hoje! Jeová trapaceou na cara dura, e mesmo assim manteve o título!
— E que papo foi esse de voltar pra casa porque já está amanhecendo?
— Sei lá, Miguel. Será que o Todo-Poderoso ia virar abóbora?
— Ouvi isso, Gabriel! Espera só até você voltar pra cá!
— Ahan… E é isso, amantes do esporte, Jeová é confirmado mais uma vez como campeão inconteste do Universo! Jacó parece estar se recuperando lentamente, e já consegui ficar em pé. Encerramos por aqui nossa transmissão e voltamos à programação normal. Boa noite, ou melhor, bom dia a todos.
Jacó se isola
Post curtinho.
Naquela mesma noite, Jacó se levantou, acordou as duas mulheres com suas servas e os onze filhos.
— Aê, macacada, é hora. Levanta todo mundo, que vocês vão viajar. Eu fico por aqui.
Depois que todos acordaram, Jacó os levou até o rio Jaboque e os fez atravessar o rio. Feito isso, voltou para onde estava dizendo que precisava treinar.
Treinar? Ué treinar pra quê? Vocês logo saberão…
Jacó envia mensageiros a Esaú
Jacó, como vocês já devem ter percebido, não era besta: Não ia aparecer na frente de Esaú na maior cara-de-pau. Então resolveu enviar mesangeiros ao irmão mais velho, para que dissessem o seguinte:
— Esaú! Que beleza de homem que você está, que olhos, que cabelos, que tórax, que bíceps! Olha, Esaú, temos uma mensagem do teu servo, Jacó. Ele diz que morou com Labão, tio de vocês, esse tempo todo, e trabalhando para ele, enriqueceu. Então ele envia esta mensagem ao senhor, que ele considera como patrão dele, que é para o senhor ficar contente. Ele diz também que vem ao seu encontro, com toda a humildade.
Pois bem, os mensageiros foram dar esse recado a Esaú e voltaram com a resposta:
— Jacó, falamos com Esaú e ele diz que também está vindo te encontrar.
— Ora, mas que beleza!
— É, e com ele estão vindo quatrocentos homens, tudo com sangue nos zóio.
— Epa…
Se Jacó ficou com medo? Se borrou todo! Imaginem, se ele já temia o irmão, que era bem maior que ele, imagine então o medo que sentiu ao saber que Esaú vinha com quatrocentos homens! Certo de que Esaú e seu bando vinham para acabar com tudo, repartiu o povo que andava com ele, assim como os rebanhos, em dois bandos.
— Bom, que Esaú vem pra botar pra foder, disso não tenho dúvida. Mas ele vai destruir um bando e o outro se salva, e espero que seja o meu.
Em momentos assim, a gente sempre busca ajuda onde pode, e por isso Jacó resolveu lembrar-se de deus:
— Ô, deus! Lembra de mim, né? Então. O senhor me prometeu um monte de coisa, que ia me acompanhar pelo meu caminho, que eu seria pai de uma grande nação e tal e coisa. Mas tá vendo agora? Esaú vem aí, e tá com uma raiva danada. Ô, deus, vê aí se me protege, porque tá foda o negócio. Não deixa Esaú me matar não, nem as minhas mulheres ou os meus filhos.
Esse negócio de pedir proteção a deus foi só por garantia. Jacó era um cara prático e sabia que tinha que fazer alguma coisa, e não ficar fiando-se na ajdua divina. Por isso, para amolecer o coração do irmão, reservou para ele um presentinho: duzentas cabras e vinte bodes, duzentas ovelhas e vinte carneiros, trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez touros, vinte jumentas e dez jumentinhos, trinta Audis e duas Mercedes. Entregou cada manada a um servo e deu ordem a eles que fossem na frente, deixando espaço entre as manadas. Assim, o primeiro que encontrasse Esaú diria:
— Esaú, este é um presente do seu servo Jacó, que vem vindo aí atrás.
Certamente Esaú pensaria “O desgraçado pensa que pode me comprar com duzentas cabras e vinte bodes?”. Aí o segundo servo apareceria com a outra manada e contaria a mesma história, que já aplacaria um pouco a ira de Esaú: “Hum… Duzentas ovelhas, vinte carneiros. Já dá um bom rebanho. Talvez eu mate só o Jacó e deixe a família dele em paz”. Ao receber o terceiro presente, Esaú já estaria se contentando em não matar Jacó, só cortar-lhe as pernas e os braços e furar-lhe os olhos. “Isso porque eu sou seu irmão e não te quero mal, hein?”. Resumindo, o plano de Jacó era esse: água mole em pedra dura etcetera etcetera. Quando Esaú visse os Audis e as Mercedes pensaria “Porra, o moleque virou o Silvio Santos! Ah, aquilo tudo foi bobagem de criança, vou deixar pra lá”. Era isso, pelo menos, que Jacó esperava.
Se foi isso que aconteceu? Ah, esperem pelos próximos capítulos!
Jacó resolve voltar pra casa
Onde é que eu estava? Ah, lembrei. Então, como era de se esperar, o sucesso de Jacó começou a causar ciúmes nos filhos de Labão. Pra falar a verdade, o próprio Labão andava meio ressentido com ele. Tentou de tudo: quando viu que a maior parte do rebanho de Jacó era de animais malhados, determinou que o salário dele a partir de então seriam os animais salpicados. Adivinhem? As fêmeas começaram a parir só filhotes salpicados. Aí Labão mudou: agora Jacó ficaria com os listrados, e só os listrados. E claro que começaram a nascer só listrados no rebanho. E assim por diante: Labão toda hora mudava o salário de Jacó para prejudicá-lo, mas o cabra era sortudo que só a peste.
Jacó ainda tentou contornar a situação botando adesivos nas cabras e ovelhas: “A inveja é uma merda”, “Não me inveje porque não sou rico, apenas trabalho”, “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”, “A inveja é a arma dos incompetentes” e assim por diante. Não adiantou nada, então ele resolveu que já era hora de voltar pra casa do pai. Deus, sempre intrometido, veio falar com ele:
— Jacó! Volta para a casa do teu pai e eu estarei contigo!
— Ué, quem é você?
— Deus, porra. Iavé, Senhor dos Exércitos, essa parada toda. Não lembra de mim?
— Hum… Não.
— O deus de Abraão e de Isaque, Jacó!
— Sei, sei… Não me é estranho…
— De Betel, Jacó, prestenção!
— Ah! O cara da escada?
— Esse.
— Efeitozinho especial mais sem-vergonha aquele, hein?
— Não vem ao caso. Estou falando que é pra você voltar pra casa do teu pai!
— Tá, tá, isso eu já tinha decidido. Eu, hein…
— Ah, é? Hum… Então tá. Vai lá. Vou nessa.
— Falou, té mais. Vê se aparece mais.
Pois é, com ou sem ordem divina, Jacó já estava decidido a partir, e chamou Léia e Raquel para conversar.
— Meninas, estou vendo que o pai e os irmãos de vocês já não vão muito com a minha cara. Eu enriqueci, apesar de toda a sacanagem do pai de vocês, sem querer ofender.
— Tudo bem, Jacó — disse Raquel —, a família dele é bem filha-da-puta mesmo. Pra você ter uma idéia, aquela irmã dele aprontou umas que…
— Ôpa, ôpa, peraí! A irmã dele é minha mãe! Pega leve, Raquel. Bom, o caso é esse, Labão tentou me foder de todo jeito, mas eu me dei bem apesar disso. Agora tenho que agüentar esses porras me enchendo o saco. Então decidi ir embora, voltar pra casa do meu pai. O que vocês acham?
— Ah, Jacó! Nosso pai nos vendeu, como se fôssemos escravas. Estamos com você, vamos embora.
Então Jacó juntou a molecada, os empregados, os rebanhos e a tralha toda para iniciar viagem. Mas, ah, as mulheres… Aproveitando que Labão tinha saído para tosquiar as ovelhas, Raquel entrou na tenda dele e roubou os ídolos que encontrou por lá. Voltou toda esbaforida para junto de Jacó, que só esperava por ela para começar a viagem, sem que Labão soubesse de sua partida.
Quando Labão voltou e ficou sabendo que Jacó tinha ido embora sem dizer nada, ficou muito puto. E mais puto ainda ficou quando percebeu que seus ídolos haviam sumido. Rapidinho juntou um pessoal e no dia seguinte partiu no encalço do genro, alcançando-o na montanha de Gileade.
— Gilliard?
— Não começa…
Jacó havia acampado por lá e Labão armou suas tendas ali por perto também. Já acomodado, foi falar com Jacó.
— Ô, Jacó, que porra é essa? Então você sai, leva minhas filhas como que seqüestradas, não deixa eu me despedir dos meus netos… Custava nada me avisar, a gente fazia uma festa de despedida, ia ser bem mais bonito! Mas tudo bem, queria ir embora, estava com saudade do seu pai, entendo isso. Mas uma coisa eu não entendi: Você é rico, por que roubou os meus deuses?
— Labão, saí escondido porque tinha medo que você não deixasse suas filhas virem comigo. Quanto aos seus deuses, pode revistar tudo aí: se achar com alguém qualquer coisa que lhe pertença, essa pessoa será executada.
Labão não se fez de rogado: revirou a tenda de Jacó, das duas servas, de Léia e de Raquel, sem encontrar nada.
— Ô, Chicoteia, cê tá falando bosta. Não foi a Raquel que roubou os ídolos? Como é que o cara não achou nada na tenda dela?
Calma, porra! O negócio é que Raquel era malandra e tinha escondido as estatuetas na sela do camelo e sentado em cima. Se doeu? Ora, vá perguntar pra ela! O quê? Se Labão não teve a idéia de procurar nos camelos também? Claro que teve! Mas quando foi revistar o camelo de Raquel, ela se saiu com essa:
— Pai, desculpa eu não me levantar pro senhor revistar o camelo, mas é que eu estou menstruada, sabe como é. Ainda não inventaram o modess e…
— Tá, Raquel, já entendi. Xapralá. Confio em você.
Besta, esse Labão. Mas o negócio é que ele não achou nada, deixando Jacó fulo da vida:
— Labão, que foi que eu te fiz para você me perseguir tanto? Pra que tanto ódio? Você saiu pelo meu acampamento apalpando aqui e ali, só faltou olhar dentro do cu dos camelos. Agora mostra aí o que você encontrou! Vai, mostra na minha frente e na frente do seu pessoal, pra gente julgar quem é que tá errado. Porra, trabalhei vinte anos para você. Nesse período, suas cabras e ovelhas nunca abortaram e eu nunca comi nenhum dos carneiros, nem mesmo no mau sentido. Se algum carneiro era despedaçado por animais selvagens, eu nem trazia pra você ver, pagava por ele. Você me fazia pagar cada animal furtado, fosse de dia ou de noite. Desse jeito eu não conseguia dormir, e passava os dias me fodendo debaixo de sol e as noites tomando no rabo por causa da geada. Vinte anos sem ganhar um tostão: catorze anos pelas tuas filhas e seis anos pelo rebanho, sendo que você mudava meu salário quando bem entendia. Porra, Labão, tá certo que você é meu tio, mas eu tenho que falar um negócio: Vai se foder!
Labão coçou a cabeça, pensou bem e viu que Jacó, claro, estava com a razão.
— É, Jacó, tá certo. Te sacaneei que só a porra. Vamos fazer um pacto de não-agressão, beleza?
— Hum… Beleza. Vamos erigir uma coluna de pedras aqui. A partir de hoje, nem você passa da coluna pra cá, nem eu passo da coluna pra lá. Assim a gente nem tem mais como brigar.
E assim fizeram. Pronta a coluna, Labão disse:
— Taí, Jacó. Se você fizer algum mal às minhas filhas, ou se arrumar outras mulheres, embora eu não esteja por perto, deus será testemunha. Assim também prometo não passar dessa coluna para lá, em nome do deus de Abraão e de Naor, meu pai.
— Ué, agora cê passou pro lado do deus da minha família?
— Claro, porra, meus deuses foram pro saco!
— Ah, é verdade. Então, tá certo. Também juro pelo deus de Abraão e de Isaque que não vou passar dessa coluna aí para o seu lado.
— Tá certo. Bom, tá tudo acertado, vamos comer alguma coisa.
— Ôpa!
Jacó mandou preparar a comida e todos comeram e beberam. Labão e o pessoal dele passaram a noite na montanha. Na manhã seguinte, Labão se levantou cedo, beijou as filhas e os netos e voltou para sua terra. E Jacó continuou sua viagem, já pensando em como seria o reencontro com Esaú. Mas isso, claro, fica para o próximo capítulo.
Resultado da última enquete
Porra, já ia esquecendo. Ei-lo:
O salário de Jacó
Jacó agora já parou com esse negócio de Florentina, Florentina, Florentina de Jesus… Peraí, que que eu tô falando? Ah, comecei a escrever escutando a música. De novo:
Jacó agora já parou com esse negócio de fazer filhos. Ao menos por enquanto. A preocupação dele: já trabalhara 14 anos para conquistar o direito de se casar com a mulher que amava. Agora era hora de sumir da casa do tio/sogro explorador, Labão.
— Lobão?
ESCUTA AQUI! De uma vez por todas: não é Lobão, nem Lambão, nem LaBamba. O nome do cara é Labão! Entendeu??? LABÃO!
Como eu ia dizendo, Jacó estava cansado do abuso, e foi falar com Labão:
— Tio, vim aqui pra me despedir. Vou voltar pra minha terra. Não fique bravo, deixe-me ir, você sabe o quanto trabalhei para você.
— Mas Jacó! Que que é isso, rapaz? Pelamordedeus, se você gosta mesmo do seu velho tio, fica aqui comigo. Você é um filho para mim! Além do mais, depois que você começou a trabalhar aqui, meus rebanhos têm se multiplicado muito, a ponto de alguns mais maldosos chegarem a insinuar que você anda cobrindo minhas cabras e ovelhas…
— COMO É QUE É???
— Hum… Bem.. Cê sabe… Tantos filhos, quatro mulheres… O povo fala, entende? Mas esquece isso, é tudo maledicência dessa gente invejosa. O que eu quero mesmo é te pedir para ficar aqui comigo.
— Tio, o pouco que você tinha agora é muito, tudo pelo meu trabalho. Estou trabalhando há catorze anos para você, tendo em troca apenas a mão de suas duas filhas, sendo que uma eu nem queria. Já não sou mais moleque, tenho onze filhos (e uma filha!) para sustentar, preciso receber alguma coisa pelo meu trabalho.
— Ah, mas isso é fácil de resolver! Olha, eu tenho uma sobrinha que…
— Não, tio, porra! Se liga! Não quero mais mulher pra me aporrinhar o juízo, já me bastam Raquel e Léia, que herdaram o seu sangue ruim.
— Tá bom, tá bom… Fala aí quanto você quer ganhar.
— Quero dinheiro não.
— Não quer dinheiro?
— Não.
— Tô entendendo mais porra nenhuma.
— Te conheço, tio. Se eu te pedir pagamento em dinheiro eu sei que você vai dar um jeito de me roubar.
— E vice-versa…
— Pois é, e vice-versa. Então, como somos dois ladrões, vamos fazer de um jeito que um não possa roubar o outro: Vou passar pelo seu rebanho separando todas os animais que sejam salpicados, manchados, malhados, xadrezes…
— Peraí, nunca vi cabra xadrez.
— Só para o caso. Como eu dizia, vou separar essas ovelhas e cabras do seu rebanho, e esse será o meu salário, bem como todos os animais que nascerem salpicados, manchados…
— … malhados, xadrezes, estampados, listrados, com bolinhas, já entendi.
— Isso aí. Então não tem como eu te roubar: se você olhar para o meu rebanho e vir qualquer bicho branco, pode me prender por roubo.
— E vice-versa ao contrário.
— Isso aí.
— Aceito sua proposta, me parece muito boa. Você é um cara inteligente, Jacó. Você vai longe!
Mas Labão, como já estamos cansados de saber, era um grande filho-da-puta: Naquele mesmo dia resolveu antecipar parte da herança dos filhos. De que forma? Entregou a eles os animais de seu rebanho que tinham as características especificadas por Jacó para seu pagamento. Grande jogada: deixando para os cuidados de Jacó apenas animais brancos ele reduzia em muito as expectativas do sobrinho/genro, uma vez que um bode branco cruzado com uma cabra branca tinha pequenas possibilidades de gerar uma cria manchada, ou salpicada, ou etc. etc. etc.
Feita a malandragem, para se garantir, mudou suas tendas para um lugar que ficava a três dias de caminhada de onde Jacó ficaria cuidando do rebanho do tio.
No dia seguinte Jacó acordou animado e foi logo para o rebanho para começar a selecionar seus animais. Imaginem a cara do coitado quando viu aquele rebanho todo branquinho… Ficou com raiva, claro, mas também era malandro e sabia reconhecer um golpe de mestre.
— Bom, dei uma de otário, beleza. Agora é correr atrás.
Utilizando-se de seus vastos conhecimentos de engenharia genética, inventou um jeito de forçar os animais a parirem filhotes crioulinhos. Agora, imaginem quão toscos eram os conhecimentos de engenharia genética naqueles tempos… Pois é. Havia uma crença segundo a qual colocar à vista dos animais que estivessem cruzando um objeto de determinada cor podia fazer com que os filhotes nascessem daquela cor. Até hoje fala-se disso às vezes, aí pelo interior e tal. Então: Jacó pegou umas varas e começou a descascar tiras delas, de forma que ficavam listradas. Botou essas varas nos bebedouros do rebanho, que era onde os animais iam beber (obviamente) e comer (no segundo sentido). Assim, os animais cruzavam olhando para as varas listradas e as fêmeas pariam filhotes listrados, malhados, aquela coisa toda.
Depois de um tempo, quando o rebanho já contava com um bom número de crioulinhos, ele fazia suas cabras e ovelhas ficarem na frente dos animais brancos que estivessem cruzando, causando assim o nascimento de mais animais para si.
E Jacó não se contentava apenas com isso: milênios antes de Darwin, ele já sabia que casais fortes gerariam filhotes fortes e casais fracos gerariam filhotes fracos. Então quando via animais fracos cruzando, não colocava as varas listradas em sua frente, nem os fazia olhar para seu rebanho. Assim os animais fortes eram de Jacó e os fracos eram de Labão.
Com tanta esperteza, além de dar um chapéu no tio, Jacó enriqueceu muito, teve grandes rebanhos, servos, servas, camelos e jumentos. E ainda tinha a herança de Isaque para receber, não vamos nos esquecer disso.
O enriquecimento de Jacó, como era de se esperar, causou ciúmes a Labão e seus filhos. Mas falaremos disso outro dia.
