(Post dedicado a Earl Tonon, que cunhou essa expressão tão bonita)
Acho que já tá na hora, né? Estou falando de Jacó desde 26 de março, não há mais quem agüente esse cara.
Pois bem, percebendo que tinha chegado a hora, Jacó mandou chamar os filhos. Pediu a eles que fizessem um círculo em volta de sua cama, pois ele queria revelar o futuro deles. Na verdade esse trecho todo foi incluído bem depois, quando Israel já era um país, e as previsões que ele faz para cada um dos filhos na verdade representa a situação futura das doze tribos de Israel.
— Rúben, eu queria ser mais legal com você, te dar uma bênção boa e tal e coisa. Afinal de contas você é o mais orgulhoso e impetuoso de todos os songo-mongos que são meus filhos. Mas você dormiu com minha concubina, fazendo brotar um belo par de chifres na testa do seu pai, então eu quero mais é que você se foda. De Simeão e Levi nem digo nada, são violentos e dizimaram uma cidade sem remorso algum. Tenho vergonha de vocês. Judá, você ainda é melhorzinho, então da sua descendência sairão reis, seus filhos viverão na mordomia. Zebulom vai morar na praia, viver bronzeado, vai aprender a surfar e catar muita mulé. Issacar é um trouxa, vai deixar que todo mundo monte nele e vai trabalhar feito um jumento de escravo. Dã, apesar de seu nome de retardado, será como uma cobra venenosa na beira do caminho, sempre esperando para picar quem passar, que filho da puta! Gade será atacado por um bando de ladrões, mas depois vai correr atrás deles.
— Como assim, pai?
— Sei lá, porra! Essas previsões nem sempre vêm claras na cabeça da gente. Posso continuar? Humpf. Onde eu estava? Ah. A terra de Aser produzirá alimentos de primeira, pra dar de comer aos reis. Naftali é como uma gazela saltitante solta pelos campos.
— Hum… Pai? Será que essa parte aí não é pro José?
— Calaboca, porra! Não vê que eu tô morrendo? O José é o mais foda, o mais macho de todos, o mais forte, o que resiste a tudo e a todos, e será mais abençoado que seus irmãos. Falta alguém?
— Eu, pai.
— Ah, é. Benjamim. Benjamim… Deixa eu ver… Benjamim é… É como um lobo feroz, de manhã devora a vítima e reparte as sobras à tarde.
— HEIN???
— Foi o que se pode arranjar. Pensam que é fácil? Muito bem, agora que estão todos abençoados, quero que me prometam uma coisa: Que vão me sepultar na cova de Macpela, que meu avô Abraão comprou de Efrom, o heteu. Meus avós e meus pais estão enterrados lá, e foi lá também que eu enterrei Léia. Vocês prometem que vão me enterrar lá?
— Claro, pai. Tá prometido.
— Que bom. Já posso morrer em paz.
José, como era de se esperar, não ficou contente com isso:
— Que negócio é esse de “Ai, vocês prometem, que bom, obrigado”??? Na-na-ni-na-não! Vai, vai, todo mundo botando a mãozinha embaixo da coxa do papai! Só eu passo por isso? Pápi, fala pra eles! Pápi! Pápi…? AI MEU DEUS!!! PAPAI MORREU! MORREU PAPAI! O QUE EU VOU FAZER??? O QUE EU…
— Morri porra nenhuma, José! Estou me fingindo de morto para não ter que agüentar essas suas viadagens. Ora, onde já se viu, o único filho em que eu botava alguma fá virar uma libélula esvoaçante? Você é um desgosto pra mim, José! Olha pra sua cara, começou a chorar e borrou toda a maquiagem. Isso lá é coisa de homem? Bicha! Viado! Tresloucada! Pederasta! Seu… Seu… COF! COF! HHHHHHM! COF! ARGH! ……………..
— É, agora foi.
* * *
José ordenou aos médicos que estavam ao seu serviço que embalsamassem o corpo de Jacó. Os caras fizeram o serviço em quarenta dias, seguindo a tradição egícpia. Fora isso, os egípcios ficaram setenta dias de luto. Passado esse tempo, José foi falar com o Faraó.
— Faraó, pouco antes de morrer meu pai nos fez prometer que o enterarríamos no túmulo de seus antepassados. Sendo assim, peço permissão para levar o corpo para Canaã.
— Claro, José, claro! Seu pai era muito querido aqui, foi um bom amigo para mim. Vá para Canaã, vou destacar uma comitiva oficial para acompanhá-lo.
Então enfiaram a múmia num rabecão e pegaram a estrada rumo a Canaã. Ô estradinha movimentada… Além da família toda, foram várias autoridades egípcias, funcionários do palácio e gente do povo. Uma multidão acompanhou o féretro (féretro, ôba!) de nosso querido Jacó. Quando chegaram a Canaã, numa cidade chamada Atade, a leste do rio Jordão, pararam para fazer o velório, que durou sete dias. Foi uma semana de muito choro, a ponto de os cananeus começarem a chamar aquele lugar de Abel-Misraim, que significa “o choro dos egípcios”. Passados os sete dias de velório, percorreram os poucos quilômetros que os separavam de Macpela, para ali sepultar Jacó, conforme seu desejo.
Depois do sepultamento, todos voltaram para o Egito. Estamos bem no final do Gênesis, só falta uma coisinha de nada. Que, claro, fica para outro dia. Aguardem.
Categoria: Bíblia
Jacó adoece, exige de José um juramento formal, abençoa Efraim e Manassés e dá origem ao título mais longo do Jesus, me chicoteia!
O tempo passou. Claro que passou, ou estaríamos todos naquela época ainda, esperando alguma mente brilhante inventar o computador, a Internet, o telefone, e tudo o mais que seria necessário para este blog poder existir. Pois passou. Dezessete anos depois de sua chegada ao Egito, Jacó já estava com 147 anos, não era mais nenhum rapagão pujante. Caiu de cama, muito adoentado, e percebeu que estava chegando a hora de peidar no fubá. Pensando nisso, chamou José.
— José, meu filho, preciso que você me prometa uma coisa.
— Pode falar, pápi, faço qualquer coisa.
— Tá. Então bota a mão aqui embaixo da minha coxa.
— Ugh! Pra que isso, pápi?
— É a tradição, José! O servo de meu avô Abraão fez um juramento a ele dessa forma, quando foi procurar uma esposa para Isaque, meu pai.
— Pápi, você é um gênio! Como consegue falar assim?
— Assim como?
— Com links! Que chique isso!
— Pára, José, você me deixa encabulado… Um dia cê aprende. Mas agora vem cá, bota a mão embaixo da minha coxa pra fazer o juramento.
— Er… Pápi, será que não era melhor eu chamar os moços do cartório? Eles vêm aqui, trazem a papelada toda, a gente assina… É até mais garantido, e não tem essa história de botar a mão embaixo da coxa e tal.
— José, me obedeça! Sei que estou velho, mas ainda posso te arrebentar. Não sei se você sabe, mas uma vez eu lutei com deus! Eu estava passando pelo…
— … Vale do Rio Jaboque, tô sabendo, tô sabendo… Tá bom, levanta a coxa aí. Ui. Pronto. Aiaiaiai, fala rápido!
— É o seguinte: Eu estou velho. Muito velho. Tenho catarata. Estou meio surdo, então fico gritando com os outros. Confundo as pessoas, esses dias mesmo passei duas horas chamando Rúben de Esaú. Minhas mãos tremem. Meus dentes caíram todos e eu vivo babando na sopa. Meu saco está batendo nos joelhos. Tenho que tomar banho de assento duas vezes por dia com Violeta Gensiana pra aliviar as hemorróidas. Aliás, meu rabo está…
— … Pápi, poupe-me dos detalhes!
— Tá, tá. Resumindo, tô no bico do corvo, e devo bater as botas logo. Quando isso acontecer, quero ser sepultado na terra dos meus antepassados, não aqui no Egito.
— Oquêi, pápi, tudo bem.
— Tudo bem o cacete. Você jura que vai levar meu corpo para ser enterrado em Canaã?
— Juro, juro! Agora deixa eu tirar minha mão, que está tudo pegajoso aí embaixo.
— Ai, a velhice… Pronto, filhinho, pode ir. Aceita um conselho?
— Pode dizer, pápi.
— Lava essa mão aí com creolina. Na boa.
— ARGH!
* * *
José estava mergulhado em seu banho morno com pétalas de rosas dias depois, quando vieram lhe dizer que seu pai estava pior.
— Pior do que já estava? Afe! Então o pápi morreu?
— Ainda não. Mas tá pedindo pro senhor ir até lá com seus filhos.
— Meus filhos? Que filhos???
— Efraim e Manassés, seu José. Tá lembrado que o senhor se casou com a filha do sacerdote, que teve sua noite de núpcias, que uma vez a cada três meses o senhor tem que cumprir seus deveres de marido, ir até o quarto dela, tirar a roupa e…
— Tá, tá, já lembrei! Credo!
— Aliás, quarta-feira é dia…
— Ui! Mas de novo??? Maldita a hora em que assinei aquele contrato! Tá bom, traz lá os moleques e tira meu Cadillac Rabo-de-Peixe bordô da garagem.
O empregado fez conforme ordenado, e meia hora depois José estava com seus filhos no carro, a caminho de Gósen.
— Hum… Não faz bagunça, Efraim!
— Eu sou o Manassés, porra!
— Respeite sua mã… Seu pai, moleque sem-vergonha! E os dois vão se comportar lá na casa do vovô, o velho não agüenta mais nem com ele, não é obrigado a ter paciência com dois diabinhos feito vocês.
Entre cenas de amor familiar, chegaram à casa de Jacó.
— José, meu filho!
— Ai, pápi, falando desse jeito tá parecendo o Gepetto chamando o Pinóquio!
— Não me encha os bagos, José. Quem são esses moleques aí?
— Ué, o senhor não pediu para eu trazer meus filhos? Então, esse aqui é o Manassés…
— EU SOU O EFRAIM!
— Isso, Efraim. E esse é o Manassés.
— Ah, José! Eu pensava que nunca mais ia vê-lo, quem diria que ainda ia viver para ver seus filhos! Traga eles mais aqui perto, para que eu os abençoe.
José empurrou seus dois relutantes filhos para perto de Jacó, deixando Manassés, que era o mais velho, perto da mão direita de Jacó, e Efraim perto da esquerda. Fez isso porque a bênção com a mão direita era reservada ao primogênito, que tinha privilégios de herança, aquela coisa toda. Mas Jacó, como já sabemos, nunca levara muito a sério essa história de direito de primogenitura, e cruzou as mãos, deixando a direita sobre a cabeça de Efraim e a esquerda sobre a de Manassés.
— Deus, seu velho safado, vê se acorda aí em cima para abençoar esses dois meninos! Protege eles como me protegeu, e que eles consigam te engabelar tão facilmente como eu consegui!
José, porém, não gostou de ver as coisas fora de ordem daquele jeito, e tentou corrigir a postura das mãos de Jacó.
— Pai, se eu que não tenho nada a ver com isso aprendi, você também aprende. Prestenção: Esse aqui é Manassés, o mais velho. Esse menorzinho é o caçula, Efraim. Você trocou as mãos.
— Troquei porra nenhuma! Eu quero que se foda esse negócio de filho mais velho! Quem era o mais velho na casa do meu pai?
— Esaú.
— Pois é. E quem é que acabou sendo protagonista de metade do Gênesis?
— Você.
— Então. E lá em casa, quem é o mais velho?
— Rúben.
— Que é um songo-mongo! E quem é que aparece, é governador do Egito, ganha as melhores falas?
— Eu.
— Então cala a boca e deixa eu abençoar seus filhos do jeito que eu quiser.
— Tá bom, vai em frente.
— Bah, agora já terminei! Cheguem mais perto, meninos. Isso. Agora botem as mãozinhas embaixo da coxa do vovô e jurem que serão bons garotos.
Os dois até chegaram mais perto. Mas quando ouviram aquela história de botar a mão embaixo da coxa… Efraim mostrou a língua para Jacó, Manassés meteu-lhe um chute na canela, e saíram ambos correndo para o quintal.
— Porra, José, cê não deu educação pra esses moleques não?
— Ai, pápi, tenho o Egito inteiro pra governar e o senhor ainda quer que eu tenha tempo para cuidar desses pestinhas? Meu cu… Bom, deixa eu ir que ainda tenho uma vernissage hoje à noite. O senhor vai ficar bem?
— Claro que não vou ficar bem, porra. Estou morrendo. Mas pode ir, ainda não vai ser dessa vez.
José saiu, enfiou os filhos no carro e voltou para o palácio. Jacó ficou lá, deitado em sua cama, muito doente e relembrando acontecimentos de sua vida. Principalmente aquela vez em que ele vinha andando pelo vale do rio Jaboque e… Bah, vocês sabem.
O golpe de José
Ok, tudo muito bom, tudo bonito, a família reunida depois de tantos anos, aquela coisa toda. Mas a fome continuava, cada vez pior. O povo de Canaã e do Egito ia comprar comida com José. Agora imaginem: como a terra não produzia nada, os caras não tinham como ganhar dinheiro. E sendo obrigados a comprar comida de um lugar só, foi rapidinho pro dinheiro acabar. Então foram falar com José.
— Seu José, pelamordedeus! Nosso dinheiro já era e a fome continua. O senhor vai deixar a gente morrer de fome?
— Eu, hein? Que que eu tenho com isso? Ficam aí gastando com bobagens, não guardam dinheiro, não investem, e agora é problema meu? Meu cu.
— Mas nós gastamos tudo comprando comida do senhor! O senhor cobra o preço que quer!
— Claro que cobro o preço que quero, oras. Se acham caro, vão comprar na concorrência.
— Não tem onde comprar, só o senhor tem comida pra vender.
— Azar então.
— Seu José, o que vamos fazer?
— Ai minha santa! Olha, vou quebrar o galho pra vocês, tá bom? Tragam os animais de vocês e eu dou comida em troca.
— Puxa, nossos bichos…
— Ué, eu nem devia estar negociando com uns vagabundos esbanjadores feito vocês.
— Tá bom, então. Melhor do que morrer de fome.
Então todos traziam seus animais e trocavam por comida. Foi assim durante um ano, até se acabarem os animais também. E lá foram eles de novo falar com José.
— Seu José, não temos mais animais para trocar por comida. Por favor, nos ajude.
— Ora, e eu tenho cara de Madre Tereza? Na-na-ni-na-não. Se virem.
Desesperados, os egípcios ofereceram suas terras como pagamento e a si próprios como escravos do Faraó.
— Ai, também não é pra tanto, né? Vamos fazer assim: As terras de vocês passam a pertencer ao Faraó. Em troca das terras, dou comida e sementes a vocês, pra poderem semear a terra. Aí de tudo o que colherem vocês dão vinte por cento pro Faraó. Tá bom assim?
O negócio não era muito bom, pensando bem. Do pouco que iam conseguir colher, ainda iam ter que abrir mão de um quinto. Mas para quem tinha acabado de se oferecer como escravo a proposta de José era uma maravilha, e foi prontamente aceita por todos. Com isso, José conseguiu fazer do Faraó, além de soberano do Egito, proprietário de todas as terras do país. Bichinha safada, esse José.
* * *
Essa historinha aí foi só um interlúdio. Ainda temos o que falar da família, como por exemplo do juramento que Jacó exigiu de José. Mas isso só no próximo capítulo.
Jacó e sua família chegam ao Egito
Xô, preguiça! Onde é que estávamos mesmo? Ah, Jacó decidiu mudar-se para o Egito com a parentada toda. Precisou de um empurrãozinho de deus, daquele tipo ou-você-faz-ou-eu-fodo-tua-vida, mas o que importa é que o velho finalmente criou coragem para sair de Canaã.
E lá foram Jacó, os onze filhos com suas respectivas esposas, a molecada toda, os empregados, os animais do rebanho, aquele mundaréu de gente e bicho no caminho para o Egito. A viagem foi aquela chatice de sempre, passando pelo meio do deserto, areia de um lado, areia do outro, areia entrando no nariz, nos ouvidos, nos três olhos, aquela merda. Então vamos pular essa etapa direto para a chegada da família à terra de Gósen, já no Egito. Pois chegando a Gósen, Jacó chamou seu filho Judá.
— Judá! Ô, Judá! Vem aqui, seu songo-mongo.
— Ô pai, cê não vai parar com isso de ficar xingando a gente?
— Vou sim. No dia em que deixarem de ser songo-mongos. Enquanto esse dia não chega, é melhor você aceitar calado se não quiser apanhar.
— Mas pai, vai querer me bater? Com todo respeito, o senhor é um velho e eu sou um homem no auge da forma física.
— Seu imbecil, você por acaso já saiu na mão com deus?
— N-não…
— POIS EU SIM! Então é melhor calar a boca, certo?
— …
— É assim que eu gosto. Judá, você que é o menos songo-mongo dos filhos que deus resolveu me dar pra tirar sarro da minha cara, vai até a capital e avisa pro José que já estou aqui.
— Tá bom. Vou com um dos ônibus ou com a carreta?
— Vai a pé que é pra aprender a deixar de ser besta.
— Mas pai…
— AGORA!
Judá, que era burro mas não tanto a ponto de desafiar Jacó, foi correndo cumprir as ordens do pai.
Quando José soube que o pai já estava no Egito, ordenou que trouxessem seu New Beetle rosa, chamou Judá e pegou a estrada para Gósen levantando poeira.
— Ai, Judá, ainda bem que eu não peguei o Cadillac Rabo-de-Peixe bordô (Valeu, Pedro Nunes!), essa poeira toda ia acabar com minha pele.
— José, você não mudou em nada…
— Como assim?
— Deixa pra lá. Olha, o pai tá ali na beira da estrada.
Ao ver o velho pai depois de tantos anos, José mordeu os punhos para conter a crise de choro que ameaçava acometê-lo e quase bate o carro. Mas conseguiu retomar o controle, parar o carro e sair saltitante para jogar-se no pescoço do pai, quase sufocando o velho.
— Papai! Papai! Pensei que nunca mais fosse te ver. Ai, papai, que saudade!
— Ah, meu filho! Agora eu já posso morrer, porque estou vendo você de novo. Para mim é como você tivesse ressuscitado, porque esses songo-mongos pensavam que você tinha morrido, e eu também.
— Pensaram que eu tinha morrido, é? — Lançando um olhar faiscante aos envergonhados irmãos.
— É. Me trouxeram sua túnica suja de sangue, e claro que eu também pensei que você estivesse morto.
— Tudo bem, papai, isso é passado. Agora a gente vai esquecer isso e pensar no seu futuro morando aqui no Egito, na maior mordomia. Ai, o senhor precisa conhecer o Faraó! Uma pessoa ma-ra-vi-lho-sa, o nosso soberano. O senhor vai a-do-rar.
— Não vejo a hora, filho. Puxa, quem diria que eu ainda ia conhecer o Faraó, hein? Bom, tá certo que uma vez eu lutei com deus, já contei essa história pra vocês?
— Er… Acho que sim, pai. Mas agora não dá tempo, liguei para o Faraó no caminho e ele tá esperando a gente. Vamos, vamos, rápido.
— Então vamos. Hum. José?
— Fala, papai.
— Seus irmãos, da primeira vez que vieram aqui, voltaram pra Canaã dizendo que o governador do Egito era viado.
— Ah, é? Hehe. Que coisa, não?
— Pois é. Olhem bem, seus songo-mongos! Este é José, ele é muito educado, é um homem fino, amigo do Faraó, se veste bem, se cuida, não é um homem da roça feito nós. Isso não quer dizer que ele seja bicha, seus burros!
— Tem pai que é cego…
— O que você disse, Gade?
— Ai, papai, deixa o Gade pra lá, ele é resmungão mesmo. Vamos, não é educado deixar o Faraó esperando.
José enfiou o pai e mais cinco irmãos dentro do New Beetle rosa (“Podem entrar, é igual coração de mãe esse meu carrinho”) e foram todos para o palácio do Faraó, que os recebeu na maior simpatia.
— Eita porra! Vocês de novo por aqui? E esse velho aí que é o pai de vocês?
— Velho é o corno do teu pai, Faraó!
— Ôpa, calma lá! Mais respeito comigo! Sou o Faraó, soberano do Egito, tá pensando o quê?
— Soberano do Egito, grandes merdas! Pois saiba que eu já lutei com deus! Uma vez, quando acampei no vale do Rio Jaboque, um homem veio à noite e…
— Tá bom, tá bom, Jacó! Até eu já ouvi essa história, porra!
— Hunf. Então sabe com quem está se metendo.
— Sei, tá bom, vamos deixar isso pra lá. Fui com a sua cara, apesar de você ser um velho desbocado.
— Olha quem fala…
— Ô, Jacó, quem dera seu filho aqui fosse macho assim, hein?
— Como é?
— Hum… Nada não. Er… Mas e aí, já escolheram onde querem morar?
— Ué, pode escolher?
— Claro que pode! Cês são parentes do meu amigo Zé, é como se fossem minha família. E aí, que vocês acham?
— Olha, aquela terra de Gósen parece bem legal…
— Pois então tá decidido. Cês vão morar em Gósen. E vou ver se descolo uns cargos públicos pra vocês. Que tal?
— Muito bom, seu Faraó. Cê tem cara de filho da puta mas até que é gente boa.
— Ora, bondade sua, Jacó. Agora vão arrumar suas coisas que eu sei que a viagem foi longa e cês devem estar com o rabo cheio de areia.
— Ainda bem que você sabe. Bom, vambora, cambada. Precisamos arrumar as coisas em nossa nova casa.
E foi assim que os primeiros hebreus foram morar no Egito, o que no futuro gerou muita confusão. Mas isso eu vou contar só láaaaaaaa na frente, porque antes ainda tenho que falar da jogada de mestre que José aprontou como governador do Egito. No próximo capítulo. Até mais!
Jacó resolve se mudar para o Egito
Após fazerem mais uma vez a longa viagem (só que dessa vez no maior conforto), os filhos de Jacó chegaram a Canaã sem maiores problemas e foram logo falar com o velho.
— Pai! Ô, pai! Arruma as coisas, chama a cambada toda. Nós vamos morar no Egito!
— Como é que é?
— É isso aí! Estamos de mudança, viemos buscar o senhor.
— Que que eu vou fazer no Egito, seus songo-mongos? Gosto daqui, Canaã é minha terra. Que idéiazinha de jerico essa de vocês.
— De Jericó?
— Não, porra! De jerico! Jericó é lá com Josué, vai demorar ainda pra chegar nessa história. Tô falando dessa idéia de se mudar pro Egito. Pra quê? Pra passar o dia vendo pirâmide?
— Hum… Ainda não tem pirâmide lá não.
— Tão vendo? Nem pirâmide tem naquela merda, que que eu vou fazer lá?
— Pai, cê não tá entendendo nada. A gente tem que ir pro Egito porque o José está lá! O José, pai!
— Dã, não foi à toa que eu te dei esse nome. Cê é um babão retardado mesmo. Não sabe que José morreu já faz muito tempo?
— Não morreu não, pai! A gente pensou que ele tava morto, mas ele tá lá no Egito! E agora é que o senhor não vai acreditar mesmo: Ele é o governador de lá!
— Ah, pelo menos te resta um pouquinho de inteligência. É CLARO QUE EU NÃO VOU ACREDITAR, PORRA! Como é que um de nós ia ser governador do Egito? Ainda mais um defunto? E, caralho, vocês disseram que o governador do Egito é viado. Meu filho era macho!
— Tem pai que é cego…
— Como é que é?
— Nada não. O senhor não acredita, é? Pois então olha ali fora. Olha lá, dois ônibus mais uma carreta de mantimentos, tudo com placa do Egito. Como o senhor explica isso?
— Hum… Não sei… SEI SIM! Isso deve ser aquela porra de Telegrama Legal do Gugu! Desde que eu fui naquela merda de programa pra reencontrar o Esaú que eu tô esperando me aprontarem alguma. Cadê a câmera? Cadê? Acabou a brincadeira, podem ler o telegrama aí, eu choro, vocês choram, tudo bem bonito. Vai logo, quero dormir.
— Mas pai…
— “Mas pai” o cacete! Não vão acabar com a brincadeira? Então saiam da minha tenda, vou dormir. Não sou palhaço.
— Mas… Mas…
— BAH! FORA DAQUI! SONGO-MONGOS!
Os irmãos saíram desconsolados. Pelo jeito não ia ser fácil tirar o velho de Canaã. Passaram a noite em claro discutindo e procurando uma forma de convencer o pai a se mudar para o Egito. Mas nem precisavam disso, porque durante a noite receberam uma ajuda inesperada. Jacó estava dormindo quando ouviu alguém chamá-lo:
— Israel! Ô, Israel!
— Israel é o car… Peraí. Só tem uma pessoa que me chama por esse nome. É você que tá aí?
— Sou eu, Israel! Jeová! Javé! O deus de Abraão, de Isaque, de…
— Tá, tá, já sei quem é. Toda vez você precisa se apresentar? Que é isso, mal de Alzheimer?
— Tá bom, desculpa, foi mal.
— Tudo bem, não tem problema. Mas e aí, deus, que cê me conta? Há quanto tempo!
— Pois é, rapaz. Ando ocupado aí com outros projetos e tal. Mas resolvi te fazer uma visita assim que sobrou um tempinho. Tô aí, na correria. E você?
— Mesma coisa, mesma coisa. Essa fome agora tá foda, a gente tem que trabalhar mais e nem vale a pena.
— É, sei disso. Mas então por que você não vai pro Egito? Lá tem comida sobrando.
— Você também com essa história de Egito?
— Porra, Israel. Você já tá velho, não pode ficar se arriscando por aqui, nessa terra estorricada. E pense nos seus netos, as crianças não merecem isso. Além do mais, José é governador do Egito. O que você tá esperando pra ir lá reencontrar seu filho mais querido?
— Ai, essa história de novo… Cê não sabe que o governador do Egito é bicha? Como é que um filho meu ia virar bicha, deus?
— Tem pai que é cego…
— Como?
— Nada não, deixa pra lá. Eu quero é que você atenda o pedido dos seus filhos e se mude para o Egito.
— Ah, você quer, é? E eu com isso? Pfffffff…
— Escuta aqui! Eu sou é deus, tá me ouvindo? Eu sou é deus, e tô mandando você ir pro Egito! A gente trabalha pra caralho, cria todo um universo, tudo bonitinho, pra vir um hebreu sem-vergonha dar uma de folgado pra cima da gente? Ora, meu ovo! E digo mais: Você me faça o favor de passar a assinar como Israel, que eu escolhi esse nome com o maior carinho.
A voz trovejante de deus intimidou Jacó, e ele achou que era melhor mesmo se mudar para o Egito. E a história de José ser governador podia mesmo ser verdade.
— Tá bom, deus. Eita! Não precisa ficar tão puto. Amanhã mesmo eu junto todo mundo, entramos nos ônibus e vamos embora para o Egito. Beleza?
— Assim é que se fala, Israel. Que beleza! Bom, preciso ir. Nos vemos por aí.
— Falou, deus. Té mais.
No dia seguinte, Jacó chamou os filhos e anunciou que resolvera aceitar a sugestão deles e estava pronto para ir embora pro Egito. Os irmãos quase não acreditavam, e mais que depressa juntaram suas famílias, sua tralhas, e se aboletaram todos nos ônibus. E lá vão eles para o Egito de novo, só que dessa vez para ficar.
José manda buscar Jacó em Canaã
Arrá! Pensaram que não tinha mais, né? Pois sosseguem o rabo, que ainda temos muita história pela frente.
José acaba de revelar sua identidade a seus estupefatos irmãos. Vamos a ele.
— Mas e aí, meninos? Quero novidades! O que me contam do papai? Está bem de saúde? E a terrinha de Canaã, na mesma pasmaceira de sempre? Contem tudo!
— …
— Ai, credo! Que foi, o gato comeu a língua de vocês? Ah, já sei… Cheguem aqui mais perto. Não estão conseguindo acreditar, né? Pois olhem bem, sou eu mesmo, José, em carne e osso. Muito mais osso que carne, com essa pobreza toda. Mas tem seu lado bom, eu não entrava nessa túnica há anos, e agora está até folgada… Ai, desculpem, eu disperso demais. Onde é que eu estava mesmo? Ah! Então, podem acreditar, sou euzinho. Vocês me venderam como escravo e hoje sou governador do Egito. É uma história comprida, não dá pra contar agora. Eu só não quero que vocês se culpem pelo que fizeram. Tá, foi uma puta sacanagem e eu devia estar putíssimo com vocês. Mas não consigo, porque no fim tudo deu certo, então venham aqui abraçar o irmãozinho.
José abraçou os irmãos um a um, e foi aquela choradeira que vocês podem imaginar. E a choradeira aumentou quando abraçou Benjamim, único irmão também por parte de mãe. Bom, não vamos nos perder em minúcias, mesmo porque essa cena de doze marmanjos chorosos e catarrentos é deveras constrangedora. Depois da melação toda, José continuou o papo:
— Mas vocês não falaram nada ainda! Como está papai?
— Ah, tá muito bem, José. Cento e trinta anos, mas nem parece. Xinga a gente o tempo todo, mas acho que no fundo ele gosta da gente.
— Sei não, acho que nem no fundo ele gosta da gente.
— Calaboca, Judá.
— Ai, que saudades de papai! Pronto, decidi um negócio: Vocês vão voltar pra Canaã, pegar o pai e trazer ele e todas as coisas pra cá. Vocês vão morar aqui no Egito, pertinho de mim.
— Ô, José, cê parece que não conhece o pai. É mais fácil fazer o Cristo Redentor ir morar em São Paulo do que arrancar ele de Canaã.
— Ai, é verdade… Faz o seguinte: Explica pra ele que essa fome que já dura dois anos ainda vai se prolongar por mais cinco. Há nove anos o Faraó teve um sonho e eu interpretei, e era isso que o sonho dizia: sete anos de fartura seguidos de sete anos de fome. Por isso que aqui no Egito tem comida, porque a gente já sabia antes e armazenou mantimentos durante a fartura. Então digam lá pro pai que se ele ficar em Canaã, ele, vocês e suas mulheres e filhos vão morrer de fome. A única solução pra vocês é vir pro Egito.
— Tá, nós vamos tentar. Mas não garantimos nada. O velho é cabeça dura.
E foi isso. Ou seria. Os irmãos já se preparavam para mais uma longa e cansativa viagem até Canaã para depois voltar ao Egito quando o Faraó ouviu dizer que os irmãos de José tinham aparecido.
— Irmãos de José? Os irmãos de José? Porra, que legal! Fala pra eles virem pra cá, quero conhecer os caras.
— Hum… Acho que não vai dar, seu Faraó. Parece que o José mandou eles de volta pra Canaã para pegarem o pai, as mulheres, os filhos, a tralha toda e virem morar aqui no Egito.
— Pra virem morar no Egito! Porra, será uma honra! Mas como eles vão pra lá?
— Em lombo de jumento, ué.
— Jumento é meu pau de óculos! Mas nem fodendo que eu vou deixar os irmãos do meu melhor amigo viajarem de jumento. Em quantos são os familiares do José que vão vir pra cá?
— Olha, pelo que ele falou, são sessenta e seis pessoas no total.
— SESSENTA E SEIS??? Porra, aquele povo não tem televisão? Tá, tudo bem. Tava pensando em mandar uma van pra lá, mas acho que não vai dar. E tem os animais também. Faz o seguinte: Freta dois ônibus e mais uns caminhões pra trazer o rebanho todo. Ah, e uma carreta de alimentos também, para a viagem de ida e volta. Quero nossos visitantes no maior conforto.
— Pois não, seu Faraó, tô indo agora providenciar o transporte.
— Hum… Só mais uma coisinha.
— Sim, Faraó.
— Vê se vocês ensinam as mulheres desses caras a tomarem anticoncepcional. Se eles continuarem a se reproduzir nesse ritmo, sinto que teremos problemas…
Tudo foi providenciado conforme as instruções do Faraó, e os onze irmãos foram para Canaã numa mordomia nunca sonhada. Tudo muito bom, tudo muito bem. Agora só precisavam convencer o velho Jacó a trocar Canaã pelo Egito.
A taça de José no saco de Benjamim
Seus hereges pervertidos, não é nada disso que vocês estão pensando! Os dois eram irmãos, esqueceram?
Bom, deixamos a cambada toda jantando na casa de José. Os irmãos de José haviam voltado ao Egito para levar Benjamim para que José libertasse Simeão, lembram? Não? Ah, vão lá reler os capítulos anteriores. Lembraram? Então vamos tocar o barco, que eu quero ver se termino a porra do Gênesis logo. Se eu soubesse o trabalho que isso ia dar, nem começava. Ai meus bagos.
Pois bem. Os irmãos comeram feito uns porcos e chegou a hora de voltarem para casa. Não podiam deixar o velho Jacó sozinho muito tempo. Enquanto arrumavam as coisas para partir, José foi falar com seu despenseiro.
— Menino, depressa! Encha os sacos dos rapazes!
— Tá bom. AÊ, HEBREUS! CÊS SÃO TUDO BOIOLA! U-HU! BANDO DE VIADO! O PAI DE VOCÊS É UM CORNO! A MÃE DE VOCÊS TÁ NA ZONA! VOCÊS LAMBEM CHAP…
— Que que cê tá fazendo, por Osíris??? (Consegui falar “por Osíris”, u-hu!!!)
— Enchendo o saco deles, seu Safnath. Não foi o que o senhor pediu?
— Ai meu cu. Estou falando dos sacos de mantimentos, macaca.
— Ah, de mantimentos… Desculpa aí.
— Toma cuidado, se continuarmos com esse tipo de piadinha manjada, ninguém mais vai ler o Jesus, me chicoteia! Como eu ia dizendo, encha os sacos deles de comida até a boca. E coloquem o dinheiro deles de volta nos sacos. E no saco do mais novo, além do dinheiro dele, coloque aquela minha taça de prata linda.
— Tem certeza, patrão? O senhor gosta tanto daquela taça.
— Calma menino, já pensei em tudo. Você acha que eu ia me desfazer assim da taça que o Faraó me deu? Vai, caminha, faz o que eu mandei. E depois que eles tiverem saído da cidade, você vai fazer o seguinte…
* * *
Amanhecia quando os onze filhos de Jacó começaram a viagem de volta para casa.
— Tão vendo? Tudo deu certo. Quero ver a cara do pai quando a gente chegar com o Simeão, o Benjamim e tudo isso de comida. Agora sim o véio vai confiar na gente.
— Porra, já não era sem tempo. O pai é foda, pega muito no pé, não sei porque isso.
— Hum… A gente vendeu o filho dele como escravo. E depois falou pra ele que o moleque tinha morrido. Não será por isso?
— Ah, mas isso foi há tantos anos! Aliás, por onde andará o José, hein?
— Já deve ter morrido. Escravo não vive muito, cês sabem. Mas imaginem se ele estivesse com a gente agora, pegando essa estrada poeirenta.
— “Ai, esse vento estraga meu cabelo”, “Ui, esse sol vai a-ca-bar com a minha pele”, “Nossa, esses jumentos…”.
— É mesmo, ia ser um inferno. E os sonhos então? “Meninos, sonhei que vocês estavam todos pelados. Aí eu vinha por trás e…”. Ih, quem é que tá vindo ali?
É o despenseiro, porra
— Quem falou isso?
— Foi o Chicoteia. Tá com mania de se meter nas histórias agora. Ignora que ele para. Mas olha lá, é o despenseiro mesmo. Fala, despenseiro!
— Falo porra nenhuma! Eu odeio minha vida, sabiam? Além de ser o único personagem nessa merda a não ter nome, ainda tenho que agüentar desaforo de hebreu. Vocês são loucos? A gente recebe vocês como iguais, serve um banquete farto, vocês comem que nem umas putas velhas, bebem até cair, se divertem. E como retribuem? Roubando a taça de prata do patrão, a taça que ele usa para fazer adivinhações! Vocês não têm jeito mesmo!
— Cê tá bem lôco, despenseiro? Cheirou meia? Porra, pra que a gente ia fazer isso? Voltamos ao Egito com o cu na mão para resgatar o nosso irmão…
— Ô, isso dá samba-enredo! Voltamos ao Egito com o cu na mão/Pra quê, pra quê?/Pra resgatar o nosso irmão/Numa aventura sem iguaaaaaal.
— Calaboca, Issacar. Então, cê tá doido, cara. A gente não era nem besta de roubar nada. Porra, até trouxemos de volta o dinheiro que apareceu nos nossos sacos da primeira vez. Faz o seguinte: revista os sacos e…
— Eu não vou botar a mão nesses…
— OLHA A PIADINHA SEM GRAÇA!
— Ok.
— Revista os sacos. Qualquer um de nós que estiver com a taça que você falou, morre. E digo mais: seu patrão pode pegar os outros dez como escravos. Beleza?
— Ôpa, calma! Não é pra tanto. Se eu achar a taça com algum de vocês, pego o mequetrefe como escravo e os outros podem ir embora.
— Tanto faz. Não roubamos nada mesmo.
O despenseiro começou a revistar os irmãos, do mais velho para o mais novo. E encontrou a taça no saco de Benjamim.
— Ih, cambada, agora fodeu.
— Putz, lá vamos nós falar com o governador do Egito de novo…
Os irmãos voltaram para o palácio de José. Judá era o mais apreensivo de todos. Não era pra menos, já que ele havia se responsabilizado pelo retorno de Benjamim. No palácio, José veio falar com eles:
— Hum. Estou decepcionado com vocês, sabiam? Fiz de tudo por vocês, e pra quê? Pra vocês roubarem minha taça, essa obra de arte que o Faraó me deu. O que vocês estavam pensando? Não sabem que eu sou adivinho, que ia saber do roubo mais cedo ou mais tarde? Vocês me matam assim! Olha, estou pálido! Minhas mãos tremem, minha cabeça dói! Olha isso! Estou passando mal! Meus sais! Meus sais! Hum… Ahhhh…
— Ah, meu senhor, o que podemos dizer? Somos seus escravos, é tudo o que podemos fazer para tentar reparar o mal que causamos.
— Ah… Hum… Ei, peraí, não é pra tanto! Tolinhos… O menino que roubou a taça fica aqui pra ser meu escravinho. Os outros podem voltar pra casa do papai.
Então Judá, quase morrendo de nervosismo, se adiantou para falar com José.
— Meu senhor, não fique puto comigo, mas eu tenho que falar. O senhor sabe que nós éramos doze irmãos, sendo dois filhos da mulher que nosso pai mais amou na vida. Um deles já morreu faz muito tempo, e o outro é esse menino cabeça oca aí que roubou sua taça. Agora o senhor imagine o quanto nosso pai é apegado a esse garoto. É a razão da vida dele. É o único que ele trata bem, que nós outros ele só chama de songo-mongos.
— E com razão.
— Pois é. Mas então. O velho não queria deixar o menino vir de jeito nenhum, porque o irmão dele estava com a gente quando desapareceu, então o pai não confia, sabe? O Ruben, esse grandão aí, que é nosso irmão mais velho, chegou a dizer que o pai podia matar os dois filhos dele se a gente não voltasse com Benjamim são e salvo, e nem assim o velho se convenceu. Então eu, cheio de lábia, sabe como é, joguei uma conversa nele. Dei todas as garantias, falei que a gente fez cagada mesmo com o José (era esse o nome do nosso irmão que morreu), mas isso já foi há muito tempo, e que já era hora dele dar um voto de confiança pra gente, essas coisas. Falei tanto, fiz tantos juramentos, que ele acabou concordando. Mas eu conheço meu pai. Ele deve estar sem dormir há várias noites esperando a gente voltar com o filhinho dele. Se a gente aparecer sem esse menino, meu senhor, nosso pai morre. Não é exagero não, a gente mata o velho se fizer isso. Nós já quase matamos ele quando aconteceu o negócio todo com José, já causamos desgosto demais ao velho, isso não se faz. Então eu proponho ao senhor o seguinte: deixa o Benjamim ir com os outros e eu serei seu escravo. Meu pai não merece tanta tristeza na idade dele.
José ficou comovido com o discurso de Judá. Não sabia que ainda era tão presente na vida da família. Não conseguindo conter a emoção, ordenou que todos saíssem da sala, ficando apenas ele e os irmãos.
— Meninos, vocês não me reconhecem. Tudo aconteceu há muito tempo.
— O que o senhor está dizendo, seu Safnath-Paneah?
— Vocês são burros? Olhem bem para mim! Não reconhecem seu próprio irmão? Eu sou José, porra!
Os filhos de Jacó no Egito (de novo)
— Vai logo, pai! O que você tanto escreve?
— Calaboca, Judá. Estou escrevendo uma carta pro meu irmão pra ver se a raiva passa e eu não esgano vocês, seus imbecis.
— Porra, pai, a gente precisa ir logo pro Egito. A comida já tá acabando. Além do mais, se o senhor não lembra, Simeão continua por lá, e vai saber o que aquela biba egípcia está fazendo com ele a essas horas. Vai ver até obrigou o coitado a se casar com ela. Então vê se termina logo essa merda de carta.
— Tenho que escrever devagar, o Esaú não sabe ler rápido. E não lhe devo satisfações. Se vocês soubessem ficar de bico fechado, o viadinho não saberia da existência de Benjamim e tudo teria corrido bem.
— Ué, como a gente ia saber? “Ah, vocês têm um irmão? Então eu vou prender um de vocês e só vou soltar quando o caçula vier aqui”. Porra, não dava pra adivinhar.
— Tá bom, tá bom. Já que não tem outro jeito, levem o Benjamim. Mas muito cuidado, seus porras. Se acontecer com ele o que aconteceu com José, eu juro que acabo com a raça de vocês.
— Beleza. Estamos indo então.
— Estão indo o cacete! Pensam que é assim? A bicha deve estar muito puta com vocês, achando que são ladrões e espiões. Querem chegar lá de mãos abanando? De jeito nenhum! Tomem, separei uns presentes pra vocês levarem. Nada de mais: Uns perfumes, um estojo de maquiagem, lencinhos, bichinhos de pelúcia, bombons e essa echarpe de seda. Foi assim que eu enrolei Esaú quando ele queria me matar, com presentes. Aprendam a usar a cabeça. E além dos presentes, vocês vão levar o dinheiro em dobro, para compensar o que estava dentro dos sacos de mantimentos.
— Até agora não entendemos isso, pai. Pagamos tudo lá, e quando abrimos os sacos…
— Não me venham com essa conversa pra camelo dormir, que eu não tô com paciência hoje! Se vocês tivessem se lembrado mesmo de pagar, o dinheiro estaria lá no Egito. Ora, onde já se viu? Vão querer que eu chame o Padre Quevedo para esfregar na cara de vocês que isso tudo é una gránde mentira, que dinero que volta para o saco non ecsiste, que vocês son charlatans?
— Tá bom, pai, já entendemos.
— Então é isso. Cuidem bem do meu filhinho, que é o único que vale alguma coisa.
Depois de tantas palavras de carinho e amor paterno, os filhos de Jacó pegaram a estrada de volta para o Egito, lá chegando sem maiores percalços.
Ao ver Benjamim com eles, José chamou o despenseiro.
— Menino, prepare uma festança pra esse pessoal que está vindo aí. Muita comida, muita bebida, quero receber bem esses moços.
O empregado nem estranhou. Achou que o patrão estava planejando uma festinha íntima para os rapazes hebreus, e tratou logo de cumprir as ordens. Depois de tudo pronto, foi chamar os caras e os levou à casa de José. Os irmãos começaram a ficar preocupados. Bah, preocupados é pouco: bateu um baita cagaço danado neles.
— Fodeu, cambada. Isso aí é armadilha, por causa do dinheiro que voltou pros sacos.
— É, e ele vai pegar a gente de escravo.
— Ou pior.
— Como assim, pior? O que pode ser pior que isso?
— Ele pode nos obrigar a prestar favores sexuais a ele pelo resto da vida.
— Puta que pariu, é verdade. Como eu já disse, fodeu, cambada.
Conversa vai, conversa vem, cada um imaginando um destino pior que os esperava, resolveram enfim ir falar com o despenseiro.
— Ôpa.
— E aí?
— Tá lembrado da gente?
— Lembro sim. Cês vieram comprar mantimentos aqui uns tempos atrás e o patrão desconfiou de vocês, achou que eram espiões e tal.
— É isso aí. E olha só que coisa estranha: Daquela outra vez, quando chegamos em casa e abrimos nossos sacos, o dinheiro que a gente tinha pago estava todo lá dentro.
— Eita, peraí. Que negócio esquisito, pra que vocês abriram os sacos? Não doeu não?
— Os sacos de mantimentos, rapaz.
— Ah, esses. E então?
— E então é isso, não sabemos como aconteceu. Mas trouxemos o dinheiro todo de volta, pra vocês não pensarem que a gente é ladrão nem nada assim.
O despenseiro poderia aproveitar a deixa para sacanear os pobres hebreus. Mas ele mesmo tinha colocado o dinheiro de volta nos sacos por ordem de José, e não era nenhum Zezinho pra ficar infernizando a vida dos outros.
— Hum… Estranho isso aí, porque eu mesmo recebi o dinheiro. Deve ter sido algum milagre, sei lá. Bom, deixa isso pra lá. Ôpa, olha quem tá vindo lá! É o irmão de vocês. Viu como meu patrão cumpre o que promete?
De fato, depois de rever o irmão mais novo, José cumpria com a palavra e libertava Simeão. O reencontro dos irmãos foi emocionante.
— Oi.
— E aí.
— Belê.
— Sussu.
— Só.
Após essa cena comovente e enaltecedora dos mais nobres sentimentos fraternais, o despenseiro levou os onze irmãos para lavarem os pés e providenciou forragem para os jumentos (falo das montarias dos caras, longe de mim insinuar características asininas nos filhos de Jacó). Quando José chegou, na hora do almoço, os onze irmãos ofereceram a ele os presentes. A cada embrulho que abria, nossa querida gazela soltava “uis” e “upas” e “uias” de surpresa e felicidade. Abertos os presentes, perguntou a eles:
— E o papai de vocês, de quem falaram da outra vez, está vivo ainda? Está bem?
— Ah, tá bem demais, Seu José. Cabeça dura, mas um coração mole que só vendo.
— É, eu sei.
— Hein?
— Hein?
— Como foi que o senhor disse?
— Não disse nada. Humpf. E esse menino aí é o caçulinha, certo?
— Isso mesmo, Seu José. Cumprimenta o moço, Benjamim.
— Oi.
— Ai, que lindinho! Deus te abençoe, criança linda.
A visão do irmão e a lembrança do pai foram demais para José, que deu um jeito de sair dali rapidinho para chorar. Chorou, espernou, descabelou-se, quase desfaleceu de pranto. Recomposto, ordenou aos servos que servissem a mesa. Já aliviados, os irmãos comeram como porcos. Fazia tempo que não viam tanta comida.
Os filhos de Jacó voltam ao Egito

Os irmãos de José vão ao Egito
Estava Jacó um dia em sua tenda pensando no que fazer. A fome assolava a terra e a família começava a passar apertos. Olhou para fora, viu os filhos de papo pro ar e emputeceu-se.
— Que que cês tão aí de braços cruzados, bando de vagabundos? Ouvi dizer que no Egito tem comida a dar com o pau. Por que vocês não vão até lá para comprar mantimentos em vez de ficarem aí feito uns songo-mongos?
— Mas pai…
— Mas pai meu ovo! Vão logo, os dez. Só Benjamim fica aqui comigo, José morreu porque deixei vocês cuidarem dele, não vou fazer a mesma cagada com outro filho.
Benjamim, lembremo-nos, era o outro filho que Jacó tivera com Raquel, a esposa que amava, e ela morrera no parto. Como o velho dava José por morto, Benjamim passara a ser o filho predileto. Os outros? Ah, um bando de songo-mongos.
Ora, como já estamos carecas de saber (vocês não estão? Droga!), José era o responsável pela administração da venda de mantimentos no Egito. Imaginem agora a cena: Os dez filhos de Jacó vêm até José e se ajoelham perante ele, sem reconhecê-lo. Na hora José se lembrou do sonho. Estão lembrados do sonho? Não? Cazzo, eu tenho que relembrar tudo a vocês? Refresquem a memória aqui.
Pronto? Então vamos tocar em frente.
José, claro, reconheceu os irmãos, mas fingiu que não e falou com eles cheio daquela arrogância que só as bichas muito bichas sabem ter:
— Posso saber de onde é que estão vindo os donzelos?
— Viemos de Canaã, senhor para comprar mantimentos.
— Meu cu. Vocês são espiões, vieram para xeretar nossa vidinha aqui no Egito.
— Não, senhor! Nós, teus servos, somos irmãos e viemos comprar comida.
José a-do-rou o tratamento, mas continuou firme em cima do salto Luís XV:
— Mentira deslavada! Olha, um com mais cara de espião que o outro!
— Seu Safnat-Paneah, nada disso, por favor! Somos doze irmãos filhos de um homem de Canaã. O mais novo ficou com nosso pai e o outro já não existe mais.
— Ai, me poupem! Não são espiões? Então vão ter que provar. Um de vocês vai voltar a Canaã e trazer esse irmão mais novo de que falaram. Os outros vão ficar presos aqui até que o caçula venha. E se não vier, morrem todos.
Dito isso, mandou prender os irmãos até que decidisse qual dos dez voltaria para pegar Benjamim. Quê? Maldade? Maldade nada! Pior foi o que eles fizeram ao nosso pobre viadinho, vendendo-o como escravo. José tinha mais é que deixá-los um bom tempo na masmorra. Mas tinha um coração mole, tadinho, e depois de três dias foi falar com eles.
— Olha, vamos fazer o contrário: Um de vocês fica preso aqui e os outros nove vão buscar o irmão que falta, levando os mantimentos que comprarem. Tudo bem?
Esse “tudo bem?” foi, obviamente, uma pergunta retórica. Quem eram eles para questionarem uma decisão do governador do Egito?
— Tá vendo? — Disse um dos irmãos — Isso é castigo pelo que fizemos com José há vinte anos.
— Eu avisei — Respondeu Rúben —. Falei para vocês não fazerem mal ao menino. Mas vocês me ouviram? Nãaaaao. E agora temos que pagar. Ô, merda.
Começaram a discutir e jogar uns sobre os outros a culpa pelo que tinham feito ao irmão. Nem se importavam com a presençade José, pensavam que não estava entendendo lhufas, mesmo porque ele só falava com eles através de um intérprete. José saiu disfarçadamente da presença deles e chorou. Chorou muito, pobrezinho.
— Ai deus, ai deus! Que ironia cruel do destino! Ai, essa minha vida daria uma novela! Quem eu vou deixar preso agora? O melhor seria deixar o mais velho, mas Rúben foi o único que pelo menos tentou me ajudar. Ah, então vai ser o segundo filho. Ai, tadinho de papai, vai ficar tão sentido com isso tudo!
Depois de muito chorar, retocou a maquiagem e voltou ao cárcere para anunciar sua decisão. Mandou amarrar Simeão na frente dos outros, e ordenou aos servos que botassem o dinheiro dos irmãos de volta em suas sacolas de mantimentos, sem que eles (os irmãos, não os mantimentos) percebessem. Feito isso, os nove irmãos carregaram os jumentos e partiram de volta para Canaã. Nâo, não sairam carregando os jumentos. O que eu quis dizer é que eles pegaram as sacolas e… Bah! Vocês entenderam.
