Com o povo botando fé em ambos, os irmãos se sentiram motivados e foram falar com o Faraó.
— A-A-Arão, não esquece q-que J-J-Javé fa-falou pra g-g-gente di-dizer ao F-F-Fafa-Faaaaaaaaaaaaa…
— …Faraó
— I-isso, q-que o po-povo vai p-pro de-deserto s-só o-o-oferecer uns sa-sacrifícios e j-j-já volta.
— Deixa isso comigo, Moisés. Sou seu irmão e assessor de imprensa, confia em mim.
Chegando à presença do Faraó, Arão pediu permissão para falar e disse:
— Ó, Faraoó-Ó-Ó-Ó, soberano do Egito-Egito-Ê…
— Ué, já sabia que seu irmão era gago. Mas e você, é gago ao contrário?
— Não, Faraó. É aquela música da Banda Reflexus. Pra quebrar o gelo, sabe?
— Não sei não. Que música? Que banda? Aliás, o que é gelo?
— Hum. Deixa pra lá. Então. Viemos aqui pra pedir uma coisa ao senhor. Javé vai dar uma festa no deserto, uma rave das maiores que já se viu. Ele convidou todos os hebreus para a festa, e deixou bem claro que quer todo mundo lá. Então viemos aqui pedir para o senhor deixar o povo ir à festa.
— Javé? Quem é esse tal Javé, que dá uma festa, não convida o Faraó, mas chama um bando de escravos? Não conheço Javé nenhum, e não vou deixar esse bando ir pra essa tal festa não. Podem esquecer.
— Ô, Faraó. Javé é o deus dos hebreus. Ele é muito brabo, se a gente não for é capaz dele matar todo mundo! Se emputece com facilidade, o Javé. Pô, não custa nada! O lugar da festa fica a três dias de caminhada, quando o senhor perceber, já voltamos.
— TRÊS DIAS DE CAMINHADA??? Cês fumaram maconha mijada, foi? Mas de jeito nenhum que eu vou deixar vocês irem! Era o que faltava… E digo mais! Cês ficam com essa conversinha de festa pra lá e pra cá, por isso que esses hebreus andam mais vagabundos do que habitualmente. Cadê o Ministro da Escravatura? Ah, cê tá aí. Seguinte: A partir de hoje vocês não vão mais dar palha aos hebreus para eles fazerem tijolos. Eles que vão atrás de palha. E vão ter que continuar produzindo exatamente o mesmo número de tijolos, se não o bicho vai pegar aqui nessa porra! Eles andam sem fazer nada, por isso ficam falando em festa no deserto e sei lá o quê. Quanto a vocês, Moisés e Arão, sumam da minha frente, que tá me dando gastura olhar pra cara de vocês!
Os dois saíram com os respectivos rabos entre as pernas. Para piorar, de acordo com a ordem do Faraó, os capatazes pararam de entregar palha aos escravos hebreus, obrigando-os a sair catando palha antes de começar o trabalho de fabrico dos tijolos. E os capatazes apertavam:
— Vambora, seus porras, vambora! Cês têm que entregar o mesmo número de tijolos que antes, tão pensando que é moleza, que a vida é festa? Todo mundo trabalhando!
Os oficiais hebreus que fiscalizavam o trabalho começaram a ser açoitados todos os dias, por entregarem um número inferior de tijolos. Foram chorar para o Faraó.
— Ô seu Faraó, pelamordedeus, assim não dá! Trabalhamos feito burros de carga, e ainda somos açoitados, não há cristão que agüente!
— E desde quando cês são cristãos, porra? Estão apanhando porque merecem: São vagabundos que só querem saber de farra. Em vez de estarem aqui chorando, deviam era trabalhar direito. Vão embora daqui, que eu não tô com saco pra agüentar hebreu hoje.
Os caras saíram do palácio desconsolados, e encontraram Moisés e Arão no caminho.
— Cês viram o que fizeram? Inventaram esse negócio de festa no deserto, e agora o Faraó tá querendo foder a gente de todo jeito. Puta merda.
Os dois ficaram muito sem graça com isso, e Moisés foi queixar-se com deus.
— Ô J-J-Ja-Javé! C-c-cê tá de b-b-brincadeira c-com a g-g-g-gente, é? O p-p-povo tá m-m-muito pu-puto com e-esse n-ne-negócio.
— Relaxa, Moisés…
— R-RE-RELAXA??? O-o-ora, c-cê fala i-i-isso p-porque n-não é em vo-você que e-e-eles tão bo-botando a cu-culpa. É E-EM M-M-M-MIM, PO-PORRA!
— Calma, porra! Eu já não falei que eu sou foda? Então! Eu sou é deus, tá sabendo? DEUS!
— E o q-que cê v-vai fa-fazer?
— Cê vai ver, Moisés, cê vai ver. Vou aprontar cada uma com esse Faraó que no fim ele vai implorar pra vocês irem embora. Aguarde e confie…
Categoria: Bíblia
Aarão?
Algumas traduções da Bíblia grafam o nome do irmão de Moisés como Aarão, e não Arão. Mas ignorem isso, os tradutores escreveram com Moisés ditando, daí a gaguejada no nome do cara.
Moisés volta para o Egito
Moisés bem que tentou se esquivar da missão que deus inventara para ele. Mas não deu, então o jeito era voltar para o Egito. Foi falar com Jetro:
— S-seu Jetro, eu t-ta-tava p-p-pensando em ir até o E-E-E-Eeeee…
— Elefante?
— N-não. Até o E-E-Eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee…
— Elicóptero?
(ARGH!)
— N-NÃO, P-PO-PORRA! Até o E-E-Egito. Ufa. P-pa-para vi-visitar meus p-p-parentes.
— Ah… Pois muito bem, pode ir. Te dou uns dias de folga.
E assim Moisés pegou a família, encarapitou todo mundo no lombo de um jumento e partiu para o Egito. Mal sabia Jetro que a partida era definitiva. No meio do caminho, deus veio falar com ele:
— Moisés, ensaiou as mágicas? Vê lá, hein, não vai me fazer passar vergonha. Se bem que não vai adiantar porra nenhuma, porque mesmo impressionado o Faraó não deixará você partir com o povo de Israel.
— P-pô, então p-p-pra quê eu v-vou f-f-falar com o c-c-cara?
— Calma… Cê vai dar um recado meu pra ele. Vai dizer que Israel é meu filho primogênito, e que eu ordenei que ele deixasse meu povo ir. Mas ele não quer deixar, então eu vou matar o filho mais velho dele.
— E-ei, p-p-peraí, c-c-calma! P-p-recisa ta-tanto?
— Ah, com essa raça é assim, Moisés. E, na boa: Eu gosto mesmo é de ver sangue.
— P-p-porra, mas é o fi-filho do c-c-cara! Que-queria ver s-s-se fo-fosse o seu fi-filho…
— Meu filho? Tá louco??? Nunca que eu ia deixar alguém matar meu filho! Tá pensando o quê? Eu sou é deus!
Dado o recado, deus retirou-se. E deve ter ido beber em algum boteco, porque apareceu mais tarde, muito louco, na espelunca onde Moisés e sua família tinham parado para passar a noite.
— Moisés? Ô, Moisés! Vem aqui que eu vou te matar, desgraçado!
— M-m-me matar? Q-que que eu f-f-fiz a-a-agora?
— Você sabe! E agora vai morrer!
Entenderam alguma coisa? Nem eu, e muito menos Moisés. Mas Zípora, sua esposa, era muito esperta e viu logo o que estava acontecendo. Deus queria matar Moisés porque Gérsou, seu filho, não havia sido circuncidado. Percebendo que o problema era esse, ela pegou uma pedra afiada e cortou o prepúcio do menino.
— Assim que eu gosto
Com sua ira aplacada, deus foi embora cambaleando pelo caminho. E encontrou Arão na estrada.
— Arão! Como é que vai, rapaz?
— E aí, tudo bem? Quem é você? De onde me conhece?
— Eu sou Javé, deus de Abraão, de Isaque e de… Bah, é uma história comprida. Seu irmão Moisés tá hospedado naquele pulgueiro lá atrás. Vai até lá que ele te explica tudo.
Arão foi até a hospedaria encontrar-se com seu irmão, que não via fazia muito tempo.
— Cabeça de Melão! Olha só, casou, tem filho, que beleza!
— C-ca-catota! Q-q-que s-s-saudade!
— Ô, encontrei um cara na estrada que disse que você tinha uma coisa pra me contar. O que cê aprontou, moleque?
— E-e-eu? N-n-não a-a-aprontei na-nada. O n-n-negócio é o s-s-seguinte…
E Moisés contou a Arão tudo o que acontecera: O assassinato do Egípcio, a ameaça de morte, a fuga para Midiã, o casamento com Zípora e o nascimento de Gérson, o encontro com deus no meio de uma sarça ardente no monte Sinai, as instruções de deus para libertação do povo de Israel. Agradeçam-me por não transcrever toda a conversa: Com Moisés gaguejando desse jeito, ia levar mais tempo que o Gênesis todo. Quando ele terminou de contar a história, Arão estava empolgado:
— Moisés, você vê as possibilidades por trás disso? Nós vamos entrar pra História, cara! Imagina as manchetes em todos os jornais do Egito, de Canaã, da puta-que-pariu! Imagina nós dois na Ilha de Caras! Nós vamos dar entrevista no Jô, Moisés! Seremos heróis! Vamos comer muita mulher!
— C-c-cala a b-boca, o-o-olha m-m-minha m-m-mulher aí…
— Ah, mas ela eu não quero, tá meio passada…
— P-p-po-porra…
— Bom, a gente pensa nisso depois. Agora precisamos dormir, para partirmos amanhã bem cedo para o Egito e falar com o povo.
E assim fizeram. Já no Egito, falaram com o povo, fizeram as mágicas todas, e eles acreditaram. Foi uma empolgação geral, todo mundo já pensando na viagem para Canaã, na vida como homens livres. Mas nada foi tão fácil assim, como veremos mais tarde.
Os milagres de Moisés
Ôpa, acho que agora vai:
— …mas se o … o F-Fa-Fa-Fafafafaaaaaa… Faraó [UFA!] não quiser me ouvir? E s-se o po-povo rir d-da mmmmminha ca-cara?
— O povo vai rir da sua cara de qualquer jeito, com essa gagueira. Rá. Hum. Aê, foi mal. O que cê tem na mão?
— U-uma va-vara.
— Ui, santa!
— T-tá me s-s-sa-sa-sacane-neando, J-J-Ja-Javé?
— Arrá, viu como é bom? Vê se agora aprende a não me chamar de moita. Humpf! Bom, joga essa vara aí no chão.
— P-pra quê?
— Faz o que eu tô mandando, porra. Ô gago teimoso…
Ele jogou a vara no chão e imediatamente ela se transformou numa cobra. Moisés ficou com medo e fugiu dela.
— Ué, gosta de vara mas não gosta de cobra? Vai entender… Moisés, pega a cobra pelo rabo.
— E-eu não!
— Vai, Moisés.
— N-não sou d-doido.
— PEGA A COBRA PELO RABO!
— T-tá, t-tá…
Moisés pegou a cobra e na mesma hora ela voltou a ser uma vara.
— C-ca-caramba! S-s-será que o Mi-Mister M explica e-e-essa?
— Mister M é o cacete, Moisés. Eu sou é deus! Cê vai fazer essa mágica aí da vara que vira cobra na frente do povo de Israel, e vão acreditar em você. Mas se ainda assim não acreditarem, tem outra: Bota a mão no peito.
— V-vou vi-virar uma c-c-co-cobra???
— Não, Moisés, vai apalpar suas mamas em busca de caroços. Porra, faz o que eu tô dizendo. Cara chato…
Moisés botou a mão no peito, e quando tirou ela estava leprosa, esbranquiçada.
— A-ai c-c-caralho! T-tô le-leproso! P-p-puta que pa-pariu! F-f-f-f…
— Não fodeu não, Moisés. Bota a mão no peito de novo.
Moisés o fez, e a mão voltou ao normal.
— Viu só? Rá! Eu sou foda! Agora é só ir lá falar com os israelitas. Você tem uma palavra de esperança e duas mágicas para eles, não tem como dar errado. Mas se ainda assim eles não acreditarem, depois de mandá-los todos para a puta que pariu, pegue uma tijela de água do Nilo e jogue no chão.
— P-pra quê? “Ah, v-vocês não aaaacreditam? En-n-tão v-vou molhar s-s-eus pe-pés”. Que c-coisa ri-ridícula!
— Não, porra! Na hora que a água bater no chão, vai virar sangue. Adoro esse truque.
— Hum. Tá. M-m-mas… S-só tem u-u-uma co-coisa…
— Que é?
— E-EU SOU GA-GAGO, PORRA! C-C-COMO QUE EU V-VOU FA-FALAR EM P-P-PÚBLICO???
— Porra, Moisés, cê ainda não percebeu que eu sou foda? Vai lá, fala com os caras, eu dou um jeito.
— N-não, J-J-Ja-Javé! M-m-manda outro!
Deus ficou muito puto. Não estou inventando não, tá lá na bíblia, Êxodo 4:14: “Então o Senhor ficou irritado com Moisés”. Ficou puto de verdade:
— PORRA! CARALHO! COMO VOCÊ É CHATO, MOISÉS! Não quer falar com os caras? Tudo bem, então não fala. Foda-se! Cê não tem um irmão chamado Arão? Seu irmão tem facilidade pra falar, é eloqüente, usa figuras de retórica, conta piadinhas pra relaxar a platéia, prende a atenção do público, um showman. Pois Arão está vindo te visitar aqui em Midiã, então combine com ele assim: Eu falo as coisas pra você, você transmite a ele e ele divulga para o povo. Para ele, você será como deus. E ele será como um assessor de imprensa (valeu, Bárbara!) para você. Tá bom assim ou vai querer motorista particular também?
— T-t-tá bom.
— Então estamos combinados.
— B-b-beleza. P-preciso ir.
— Tá bom. Tchau.
— T-tchau.
— Ô Moisés!
— F-fala.
— Não vai esquecer a vara. SANTA!
Deus fala com Moisés
Moisés levava aquela vida besta em Midiã: Acordava cedo, ia apascentar o rebanho do sogro, voltava para casa, brincava um pouco com Gérson, assistia o Jornal Nacional com Zípora, aquela rotina. Mas um dia ele resolveu levar o rebanho de Jetro para pastar no monte Sinai (também chamado Horebe) e sua vida nunca mais foi a mesma.
— I-i-ih. Que c-co-coisa es-s-s-stranha… Tem uma m-m-mo-moita p-pe-pegando f-fo-fogo ali.
É Moisés, tá bom. Puta que pariu, haja paciência pra agüentar esse cara gaguejando. Mas o que ele viu era de fato muito esquisito: uma moita em chamas que no entanto não se queimava. Ele chegou mais perto para ver melhor que mistério era aquele. E outra coisa mais esquisita ainda aconteceu: Uma voz de trovão saiu de dentro da moita.
— Moisés! Moisés! Ô, Moisés!
— P-p-porra, eu s-s-sou ga-ga-gago, n-n-não su-surdo.
— Moisés, pare aí e… Peraí. Pronto. Pô, comprei esse megafone ontem e tava esperando uma oportunidade de usá-lo. Só que você é um estraga-prazeres. HUMPF! Mas como eu ia dizendo: Pare aí e tire suas sandálias, porque o lugar onde você está pisando é sagrado.
— U-u-é, e d-da-daí?
— Er… Não sei, inventei isso agora. Vai, tira as sandálias, tô mandando.
— Q-q-quem é v-vo-você, d-do-dona m-m-mo-moita?
— Moita é o cacete! Eu sou é deus, tá me ouvindo? Deus! O deus de Abraão, de Isaque e de Jacó!
— N-n-num co-conheço esses ca-ca-caras não.
— Ai ai… Sou deus. Israel é meu povo escolhido.
— …
— ARGH! Depois eu explico. O negócio é que o povo de Israel está se fodendo na mão do Faraó, e eu desci para libertar meu povo e levá-lo para uma terra boa e rica, de onde mana leite e mel.
— C-co-conta outra…
— CALE-SE! Para isso vou precisar da sua ajuda. Você vai liderar esse povo até a terra onde moram os cananeus, heteus, amorreus, perizeus, heveus e jebuseus. Mas antes disso você vai lá falar com o Faraó e dizer a ele que vocês estão saindo.
— O-o-ora! Pra um m-m-matinho você até que é bem e-e-en-engraçado. Co-como eu v-v-vou lá f-f-falar com o F-F-F… Droga! F-Faaaaaa-F…
— …Faraó?
— I-isso. E-e-ele quer me m-m-m-maaaaaaa…
— …Matar, tô sabendo. Mas eu estarei com você.
— Ah, q-q-que bom! Dá aí uma f-f-f-folhinha pra eu b-botar atrás da o-o-orelha…
— Escutaqui! Eu escolhi me manifestar em forma de sarça ardente porque achei que seria um efeito especial de impacto! Eu NÃO SOU uma moita, tá certo? Pára de fazer piada com isso, que eu já tô ficando puto!
— B-b-be-beleza. M-m-mas o p-p-povo vai querer s-s-saber s-s-seu nome, aí o que eu d-d-digo?
— EU SOU QUEM SOU, Moisés.
— P-Po-Popeye???
— Ai caralho, sempre essa confusão… Tô falando hebraico com você, certo? Como fica “Eu sou” em hebraico?
— H-h-hum… Javé.
— Isso aí. Javé. Bom, na verdade não é bem meu nome. Meu nome é feito só de consoantes: YHWH. Mas podem me chamar de Javé, eu até gosto.
— J-ja-javé. B-b-bo-bonito no-nome.
— Obrigado. Bom, então você vai lá falar com os líderes de Israel e dizer que Javé, o deus dos antepassados deles, veio para libertá-los. Diga que os guiarei até uma terra que mana leite e mel, a terra onde hoje moram os cananeus, os…
— T-tá, já s-sei: p-pi-pirineus, f-f-fa-fariseus, m-m-macabeus, S-S-São Mateus, z-z-ze-zebedeus.
— É. Hum. Mais ou menos isso. Bom, detalhes, detalhes… O fato é que o meu povo dará ouvidos a você. Depois você e os líderes vão lá falar pro Faraó que Javé, deus dos hebreus, apareceu a vocês. E que é pra ele deixar vocês irem até o deserto para oferecerem sacrifícios.
— U-u-é, m-m-mas a i-i-idéia n-n-não era ir e-em-embora pra s-s-sempre?
— A idéia é essa, Moisés. Mas cê vai ser doido de chegar na cara do Faraó e dizer que todos os escravos hebreus vão abandonar o Egito assim, de uma hora pra outra? Porra, eu sou deus, mas não dá pra facilitar. Bom, o negócio é que o Faraó não vai deixar.
— E-en-então de que a-a-adianta?
— Relaxa. Eu vou dar um jeito. Tenho uns truquezinhos na manga.
— M-m-m… M-ma-ma… M-mas e s-s-se o F-F-Faaaaaaaaaa. Merda. Se o F-Fa-Faaaaaaa… o F-Fa-Fa-Fafafafaaaaaa…
ARGH! Vamos deixar Moisés aí cantando Psycho Killer. Essa conversa continua, mas só depois que Moisés conseguir engatar uma segunda. Tenham paciência.
Deus acorda e se lembra da promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó
— Miguel! Ô, Miguel! Dá um jeito aqui. Não agüento mais ouvir a choradeira desses caras lá no Egito.
— Choradeira? Que choradeira, Gabriel?
— Bota o fone de ouvido um pouquinho. Tá escutando?
— ARGH! Que gritaria é essa?
— São os hebreus lamentando a escravidão.
— Escravidão? Peraí, não são os caras daquela família?
— Sim, os próprios. Deus prometeu mundos e fundos pra essa família, que seriam uma grande nação e não sei mais o quê.
— Ué, então ele não devia ir lá ajudar os caras?
— Devia, mas tá num sono pesado…
— Há quanto tempo?
— Em tempo terrestre? Sei lá… Que horas são?
— Quatro e vinte.
— Ah, deixa eu ver… Hum… Ele foi dormir estressado por causa daquela história de Jacó não querer ir pro Egito. Isso foi há… Quinhentos anos.
— COMO???
— É. Ele tá dormindo há quinhentos anos.
— Porra, precisamos acordar o velho.
— “Precisamos” o cacete! Eu já tenho que ficar aqui com essa porra de fone de ouvido monitorando a merda toda lá embaixo. Você acorda ele, Miguel.
— De jeito nenhum! Você que é o melhor amigo dele!
— Melhor amigo dele??? Porra, você lembra o que ele fez com o melhor amigo?
— Ah, é verdade… Bom, vamos os dois então?
— Vamos.
Que coisa feia, não? Dois arcanjos das ordens celestes superiores se cagando de medo do mau humor matinal de deus. Lá foram os dois, cu na mão, acordar o velho.
— Seu Jeová… Seu Jeová… Tá na hora…
— Hum? Hein? Hein?
— Somos nós, deus. Miguel e Gabriel. Viemos acordar o senhor.
— PORRA! Quantas vezes eu vou ter que dizer que não quero que vocês me acordem? Eu já botei o rádio-relógio pra despertar, na hora que essa merda tocar eu acordo! Tenho sono leve, vocês sabem! AGORA DÊEM O FORA DAQUI, ANTES QUE EU RESOLVA MANDÁ-LOS PRA CASA DO CAPETA!
— Er… Seu Jeová? Desculpe o mau jeito, mas é que o rádio-relógio já tocou.
— Já tocou??? E como eu não ouvi?
— Ele toca a cada nove anos. Aí o senhor aperta o botão snooze e volta a dormir.
— Puta que pariu… UAAAAAAAAAAAAAAAAH. Hum. Mas e aí, aconteceu alguma coisa enquanto eu dormia?
— De certa forma. Aquela família que o senhor escolheu, lembra?
— Ora, claro que lembro! A família do velho Abraão! Prometi a ele e sua descendência que seriam uma grande nação e coisa e tal. Aí depois veio aquele filho dele, como era o nome?
— Isaque.
— Esse aí. Não ia muito com a minha cara. Aí teve o filho dele, Israel. Saí na mão com ele uma vez, no vale do Rio Jaboque, já contei essa história?
— Algumas vezes, senhor.
— Então. Agora tem esse menino aí, filho dele, meio viado. José. É, José. Governador do Egito, coisa fina. Mas e aí, como é que o velho Israel está se saindo no Egito? A família cresceu?
— Ahn… Jacó já morreu.
— Morreu??? Faz muito tempo?
— Uns quinhentos anos.
— Cáspita! E a família?
— A família se tornou uma grande nação.
— Rá! Eu não disse? Eu sou foda! Eu sou é deus, tão me ouvindo? Deus!
— É, sem dúvida. Mas tem um detalhe. Eles são escravos no Egito…
— ESCRAVOS??? Como?
— Sabe como é, seu Jeová. O tempo passa, as gerações atuais não estudam história, não lêem o Jesus, me chicoteia!, não sabem de nada… Acabou acontecendo isso. E agora o povo de Israel passa os dias e as noites lamentando sua condição.
— E o que vocês fizeram a respeito?
— …
— PUTA QUE PARIU! Será possível que eu tenho que fazer tudo aqui nessa joça? Porra. Saiam daqui, vou dar uma mijada, escovar os dentes, trocar de roupa e daqui a pouco estou lá na sala de controle. Cadê meu chinelo, porra???
Moisés foge do Egito
Ora, seus hereges! Então vocês vêm aqui à cata de fotografias de belas mulheres nuas, não é? Tomem tento! Vocês precisam é do cajado de Moisés. Que na verdade é a vara de Arão, mas isso fica pra mais tarde. Vamos lá.
Moisés cresceu todo bonitão na côrte egípcia. Um dia resolveu sair para um passeio e foi até um lugar onde trabalhavam escravos hebreus. Ele tinha uma vaga consciência de sua condição de israelita, então se condoeu do sofrimento de seus irmãos. E ficou muito puto quando viu um egípcio açoitando um israelita.
— P-p-por que v-v-vo-você es-s-s-stá b-b-bat-t-tendo n-nnnn-n…
— Caralho, é pra hoje?
Ah, eu não contei pra vocês? Pois é, Moisés era gago.
— P-p-pára c-c-com iiiiiiii…
— “Iiiiiii” o quê? Cê é parente daquela tartaruga da Brahma?
— E-e-eu t-t-tô aaaa…
— “AAAA” o quê? É pra examinar sua garganta?
Bom, agora juntem a efervescência de hormônios adolescentes ao nervosismo da gagueira. Não podia dar em outra: Moisés olhou em volta para se certificar que não tinha ninguém olhando (exceto pelo hebreu que estava apanhando, que não ia denunciá-lo), matou o egípcio e escondeu o corpo na areia. No dia seguinte, voltou àquele lugar (“Eles sempre voltam”, diria o Comissário Gordon, ou outro desses policiais aí) e viu dois hebreus brigando. Foi apartar a briga.
— N-n-não br-briguem! V-v-vocês sssão p-p-p-atrícios!
— Ô gaguinho, vai pra puta que pariu! Quem foi que botou você como juiz aqui? Será que vai querer me matar, como matou aquele egípcio ontem?
— F-f-f…
— É, isso aí. Fodeu. Agora sai andando.
Moisés ficou preocupado. E com razão, porque o caso chegou aos ouvidos do Faraó.
— Como é que é? Ele matou um egípcio?
— É isso aí, majestade.
— Eu bem que avisei à minha filha que hebreu é uma raça que não presta. Mas essa menina é cabeça oca, não ouve o que a gente diz. Agora deu nisso, um assassino dentro de casa. Mas não vai ficar assim, ah, não vai!
— O que o senhor vai fazer, majestade?
— Eu? Eu não vou fazer nada, porra! Sou o Faraó, qualé? Você que vai fazer. Vai matar o desgraçado.
— Mas majestade… Ele é seu neto!
— Que neto o cacete! Mata ele, mata, mata!
— Tá bom, Führer.
— Do que que você me chamou?
— Faraó, chefe. Faraó. Vou lá matar o desgraçado. Té mais.
— Falô.
Moisés ficou sabendo que estava com a cabeça a prêmio e fugiu para a terra de Midiã.
* * *
O sacerdote de Midiã, Jetro (também chamado Reuel e Hobabe, não me perguntem por quê), tinha sete filhas. “E daí”, vocês perguntam. E daí que quem manda aqui sou eu, e dou as informações que eu achar relevantes. Bah!
Certo dia as filhas de Jetro foram tirar água de um poço para dar de beber às ovelhas e cabras do pai. Moisés estava sentado ao lado do poço, e ali por perto estavam uns pastores também. A chegada das meninas causou alvoroço entre os pastores:
— Ê, lá em casa!
— Ô terra boa pra eu plantar minha mandioca!
— A ovelhinha tem telefone?
E outras bobagens do tipo. Vendo aquilo, Moisés enfureceu-se. E para não perder tempo falando, tratou logo de botar os pastores para correr. Feito isso, e tendo ajudado as moças a encher os bebedouros, elas voltaram para onde estava o pai. Jetro estranhou a volta das filhas tão cedo.
— Um egípcio ajudou a gente, pai. Tinha uns pastores lá mexendo com a gente, mas ele botou eles pra correr e ainda ajudou com a água.
— E por que vocês deixaram o pobre moço lá? Que falta de educação! Tragam o rapaz aqui. Se ele vem mesmo do Egito deve estar cansado da viagem e precisando de comida e abrigo.
As meninas foram buscar Moisés, que jantou muito bem na casa de Jetro. Depois do jantar, o sacerdote convidou Moisés para ficar morando na casa dele, e Moisés aceitou. E a hospitalidade de Jetro não conhecia limites: Além de casa e comida, ofereceu sua filha Zípora em casamento. E Moisés, como de hábito, aceitou. Tempos depois Zípora teve um filho, e Moisés o chamou de Gérson, que significa peregrino, porque ele era peregrino em terra estrangeira.
A vida de Moisés começava a se acertar, mas os hebreus continuavam sofrendo no Egito. Moisés bem que queria permanecer omisso nessa história, mas nem teve como. Depois eu falo por quê.
O nascimento de Moisés
Pois bem, como foi que Moisés se livrou de ser comida de hipopótamo?
— Hipopótamo???
— É. — ar superior — Existiam hipopótamos no Nilo naquele tempo.
— Hipopótamos são herbívoros, seu herege ignorante!
Hum. Então.
Um homem chamado Anrão, decendente de Levi (filho de Jacó, não se esqueçam), casou com uma mulher chamada Joquebede, também levita. Não, a mulher não levitava. Prestem atenção: Levita é como se chama o descendente de Levi, ok? Beleza.
Joquebede deu à luz um menino. Como já foi dito, a ordem do Faraó era para matar todos os meninos que nascessem entre os escravos hebreus. Mas Joquebede, que não era besta nem nada, não ia sair à rua com o moleque no colo, “Olha, pari um menino, cês vão querer jogar no Nilo ou faço isso eu mesma?”. Então escondeu a criança por três meses.
Uma criança recém-nascida é barulhenta, mas até dá para esconder. Agora um moleque de três meses, bem alimentado, sem chance: Era capaz de o próprio Faraó ouvir os berros do garoto lá do palácio. Não podendo esconder seu filho por mais tempo, Joquebede pegou um cesto de juncos, revestiu com piche e betume, botou o moleque dentro e o largou entre os juncos da margem do rio. Vejam só que engenhosa essa mulher: Fazendo isso, ela cumpria à risca a ordem do Faraó, pois estava de fato jogando o menino no Nilo, mas por outro lado dava uma chance de sobrevivência ao filho, chance que não teria se fosse encontrado pelos soldados. Eita mulher danada!
Tendo depositado seu filho nas águas do rio, Joquebede voltou para casa, e imagino com que peso no coração. Mas Miriam, sua filha, ficou por ali vigiando para ver o que acontecia ao cesto que continha seu irmãozinho. E aconteceu a coisa mais inusitada: A filha do Faraó veio tomar banho no rio, junto com sua comitiva. Viu de longe o cesto no meio dos juncos e mandou uma criada para ver do que se tratava.
— Eita, patroa! A senhora não vai acreditar…
— O que é? Puxa! É um garotinho hebreu. Tadinho, largado assim, chorando, no meio do rio.
— Como a senhora sabe que é hebreu, patroa?
— Olha o pinto dele, a pele cortada.
— E só por isso é hebreu?
— Ai, Osíris… Odeio falar com links, mas vou ser obrigada, a história é comprida. Você quer mesmo saber? Aqui.
— Ah…
Miriam não acreditava na cena que estava vendo. A princesa do Egito dava toda pinta de que tinha intenção de pegar seu irmão para criar. Então tomou coragem e foi falar com a filha do Faraó.
— Alteza! A senhora quer que eu vá procurar uma babá hebréia para o menino? Assim a senhora não vai ter aquela trabalheira toda.
— Hum. Boa idéia. Vai lá.
Miriam sai correndo para chamar sua mãe. Não, caro leitor. Não a sua mãe. A mãe dela.
— Mãe, a filha do Faraó vai criar nosso moleque, e a senhora vai ser babá e ama-de-leite dele.
— O QUÊ??? Cê tá doida, menina?
— Corre, mãe, que a princesa tá te esperando!
Joquebede correu para o palácio, e foi contratada para cuidar de seu próprio filho. Na boa, quantas mães não gostariam de ganhar uma grana para cuidar dos filhos?
Ah, e o moleque foi chamado Moisés, que significa tirado, por ter sido tirado das águas.
E Moisés, hein? Criado na côrte egípcia, provavelmente lado a lado com o herdeiro do trono, na maior mordomia. Vidão! Hum… Não exatamente. Quando já estava grande, aconteceu um negócio que obrigou Moisés a fugir do Egito, deixando para trás toda a pompa palaciana. Mas vou falar disso depois.
A escravidão dos hebreus no Egito
E vamos ao Êxodo, meu povo. A palavra êxodo vem do grego e significa saída (agora que pensei nisso, o inglês exit deve ter a mesma origem), porque conta como os israelitas (ou hebreus, tanto faz) saíram do Egito, escapando assim da escravidão a que tinham sido submetidos. Ué, escravidão? Mas o Faraó não era amigo de José e de toda sua parentada? Pois é, mas as coisas mudam com o tempo…
Já contei sobre a morte de José, que fecha o Gênesis. Todos os irmãos de José morreram também. Claro que morreram, só me faltava essa, esbarrar com o Zebulom na Barão de Itapetininga, trabalhando como homem-sanduíche e assoviando pras moças que passam. As gerações foram se sucedendo, os israelitas se tornaram uma parcela significativa da população do Egito, espalhando-se por todo o país.
Tudo correu relativamente bem, até que subiu ao poder um faraó — provavelmente Ramsés II — que nunca tinha ouvido falar de José e nem lia o Jesus, me chicoteia! para saber de toda a história da bichinha governadora que salvara o Egito da fome. Para ele o povo de Israel era uma ameça à estabilidade do reino.
— Hebreus, hebreus, malditos hebreus! Não param de ter filhos, esses desgraçados. Daqui a pouco vai ter mais hebreu do que egípcio no Egito, e aí? E se eles resolverem entrar em guerra contra nós e tomar nossas terras? Hein? Hein?
Sei não, esse faraó aí devia ser uma encarnação anterior de Adolf Hitler. Começou com essa propaganda anti-israelita, e daí para tomar atitudes práticas foi um pulo: decretou que os hebreus seriam escravos. Assim, sem mais nem menos. O cara tava lá trabalhando na boa e de repente vinha um soldado:
— Larga tudo aí, meu. Agora você é escravo.
— Escrrava??? Que história essa?
— É, escravo, mano. Mão na cabeça, malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos!
— Ô, essa non é Raul Seixas?
— Num interessa, agora cê é escravo e não tem nada que perguntar as coisas.
— Mas quem vai cuidarr do lodjinha?
— ANDA!
Assim os hebreus foram escravizados e, entre outras coisas, construíram as cidades de Pitom e Ramessés, perto da terra de Gósen. Apesar dos trabalhos forçados, porém, o crescimento de sua população continuava incontrolável. Então o faraó sangue ruim bolou outro plano, que envolveria Sifrá e Puá (que nomes!), as parteiras que atendiam os hebreus:
— Parteiras, prestem bem atenção no que eu vou dizer: Quando vocês forem ajudar uma mulher hebréia a parir, se for uma menina, deixem viver. Mas se for um menino, não tenham dó, matem o guri.
Muita crueldade, não? Sifrá e Puá também acharam, e não cumpriram a ordem. O faraó ficou muito puto ao saber disso, e chamou as duas novamente.
— Que porra vocês estão fazendo, hein? Tão querendo morrer? Eu dei uma ordem clara para vocês, porque não me obedecem?
— Nós obedecemos, Faraó. Mas as mulheres hebréias são mais fortes que as egípcias, e dão à luz sozinhas, antes da chegada da parteira. Aí não tem como a gente chegar lá e dizer, “Com licença, eu sou a parteira, eu sei que a senhora já pariu e tudo mais, mas vim só ver se é menino pra eu poder matar, tudo bem?”
— Hum. Que merda isso. Bah, bosta de plano esse meu também, contar com duas parteiras pra controlar o crescimento dos hebreus. Para isso eu vou precisar do meu exército.
Então o faraó ordenou a seus soldados que jogassem no Nilo todos os meninos hebreus que nascessem. O herói do Êxodo, Moisés, nasceu nessa época. Como ele escapou de virar comida de crocodilo? Daqui a pouco eu conto.
O fim da história de José
Com a morte de Jacó, os irmãos de José ficaram com medo do que poderia acontecer com eles. E com razão: A vingança é um prato que se come frio, e o que eles aprontaram com José não era fácil de perdoar, por mais que o tempo passasse. Então se reuniram pra inventar uma historinha minimamente convincente. Acertados os detalhes mandaram um e-mail para José:

Naquela mesma noite, enquanto se deliciava no site da G Magazine, José recebeu a notificação de nova mensagem e foi abrir seu e-mail esperando que fosse um dos milhares de pedidos de emprego que recebia diariamente. Ficou surpreso e comovido ao constatar que era uma mensagem dos irmãos falando do falecido pai. Se emocionou muito, chorou feito uma puta arrependida e respondeu assim:

Com isso os irmãos sossegaram e puderam viver em paz.
* * *
José, seus irmãos e toda a família continuaram morando no Egito, mesmo depois de passada a fome. Afinal, seria muito trabalhoso pegar toda aquela gente e voltar para Canaã. Além do mais, a família era querida por todos, principalmente pelo Faraó, o que não era pouca coisa. Enfim, foram ficando.
Quando estava com cento e dez anos, e já tendo visto os netos de Efraim e Manassés, José se deu conta de que não iria viver muito mais que aquilo. Mas também nem queria, toda pelancuda e acabada daquele jeito. O fato é que ele chamou a família toda para fazer sua despedida.
— Ai, meus queridos! Está chegando a hora de eu bater as sapatilhas!
— Queisso, José? Cê ainda vai viver muito!
— Vira essa boca pra lá, Benjamim! Viver mais pra quê? Pra ficar igual o Cauby Peixoto ou o Clóvis Bornay? Eu, hein! Quero mais é morrer agora, no auge!
— No auge, pois sim…
— O que você disse?
— Nada não. Toca o barco.
— Pois como eu ia dizendo: Tá chegando a hora de virar purpurina. Eu queria muito ser sepultado em Canaã. Mas se quando papai morreu já foi aquele mafuá, aquele furdunço (valeu, Loira!) todo, fico imaginando agora, que nossa família já cresceu tanto. Mas tenho certeza que um dia nossa família voltará a morar em Canaã. Quando isso acontecer, por favor, levem meu corpo para ser sepultado em nossa terra.
— Tudo bem, José.
— Prometem?
— Prometemos.
— Então tooooooooodo mundo com a mãozinha embaixo da minha coxa!
— Tá doido???
— Ué. Foi assim que meu bisavô Abraão fez o servo dele prometer quando…
— Xi, tá delirando já.
— Droga. Nisso que dá não saber falar com links feito o pápi. Bom, então vocês prometeram. Fico muito feliz… Ai… Está tudo ficando escuro… Acho que é hora de dizer minhas últimas palavras.
— Pode dizer, José.
— Só duas palavrinhas: Quem comeu comeu, quem não comeu não come mais.
— Porra, dessa vez cê exagerou.
— …
— Xi. Morreu.
Assim morreu José, aos cento e dez anos de idade. Foi embalsamado e sepultado com grandes honras no Egito.
