Hum… Acho melhor vocês lerem o último capítulo. É que foi há tanto tempo que é capaz de neguinho nem se lembrar. Leram? Então vamos em frente.
O Faraó pensou, pensou, chegou a uma conclusão e chamou seus conselheiros.
— E então? A idéia da bichinha é boa. Acho que não há ninguém melhor que ele para exercer esse cargo. E vocês, o que acham?
— O que achardes, Majestade.
— Como quiseres, Alteza.
— Sua opinião é a verdade, Soberano.
— Ora, vão puxar o saco das respectivas putas que lhes pariram! Não sei por que perco meu tempo perguntando as coisas a vocês. José!
— S-Sim, Alteza…
— Venha cá! Estou vendo que não há ninguém tão entendido quanto você em todo o Egito.
— Ah, não é pra me gabar, Alteza, mas de fato eu sou o maior entendido da região.
— Não nesse sentido, cáspita! Estou falando de sabedoria, esse negócio todo. Eu resolvi botar você como governador do Egito. Só eu estarei acima de você, e nada será feito sem o seu consentimento.
— Ai, Alteza… Não sei nem o que dizer… Eu… Eu… Ai, acho que vou des-fa-le…
— Vai desfalecer lá no inferno, fresco. Recomponha-se, você agora é governador da porra toda.
— Pois não, Alteza.
E assim José ganhou o maior dos poderes no Egito, abaixo apenas do Faraó. O soberano entregou seu anel sinete a José, de forma que a assinatura dele valesse tanto quanto a do Faraó. Deu ainda a ele um colar de ouro e roupas de linho fino. Como se não bastasse, desfilou junto com o hebreu em carro aberto pelo Egito, ordenando que todos se ajoelhassem perante José. Pense numa bicha feliz. Pois era José.
Depois da presepada toda, com José atirando beijinhos para o povo, voltaram ao palácio.
— José, agora só preciso trocar esse seu nome hebreu para algo mais egípcio.
— Ai, alteza! Pode ser Cleópatra? Pode? Pode?
— Não, José.
— Ah, mas por que não?
— Porque Cleópatra é quase dos tempos de Cristo, e ainda estamos no primeiro livro do Velho Testamento.
— Nossa, que atraso!
— Não me culpe, o tal cara do Jesus, me chicoteia! é que é um preguiçoso e não acelera esse negócio. Mas como eu ia dizendo, vou mudar seu nome. A partir de agora você se chama Safnat-Paneah.
— Ah, Faraó, seu senso de humor é…
— Meu senso de humor é o cacete. Pra sua informação, Safnat-Paneah significa salvador do mundo
— Hum… Não gostei muito não. Que tal alguma coisa mais clean, mais cool, mais in?
— Ué, virou bicha que escreve em jornal agora? Não senhor, seu nome é Safnat-Paneah e pronto. E digo mais: você vai se casar.
— Ah, aqui no Egito é permitido? Posso escolher um rapaz, então?
— Rapaz o cacete, sua gazela deslumbrada. Você vai se casar com Asenate, filha de Potífera, que é sacerdote da cidade de Om.
— Ai, que lindo casal! Safnat-Paneah e Asenate. E aí, vamos ter três filhas, Xerox, Fotocópia e Autenticada?
— É bom você parar, já está me irritando. Amanhã mesmo você se casa e começa seu trabalho. Você vai percorrer todo o Egito armazenando os mantimentos desses sete anos de fartura.
— Tá. Posso pelo menos ir à cerimônia montada?
— NÃO! Agora some daqui!
Como não havia escolha, José (sim, José, não vamos ficar escrevendo aquele nome comprido e feio toda hora) desposou Asenate e começou seu trabalho: Andou por todo o Egito administrando o armazenamento de alimento para os sete anos de fome. Ele tinha lá seus controles de quanto armazenava, mas a fartura era tanta que ele desistiu de contar depois de um tempo. E antes que viesse a fome, José teve dois filhos, Manassés (que significa aquele que faz esquecer, porque José estava esquecendo de todo o sofrimento e do desgosto que tivera com os irmãos) e Efraim (frutífero, porque estava frutificando na terra em que tanto havia sofrido). Quando perguntavam a ele se estava feliz, ele respondia:
— Só digo três palavras: Abalou Paris em chamas!
— Foram quatro.
— Hein?
E então acabaram-se os sete anos de fartura e começou a fome. Quando o povo foi reclamar com o Faraó, ele ordenou que fossem procurar o governador. José abriu os celeiros e vendia o alimento aos egípcios. E não só a eles, porque havia tanta comida armazenada que gente de todo canto vinha ao Egito comprar o que comer. Aliás, vieram uns caras de Canaã também, vocês já devem até desconfiar. Mas isso fica para o próximo capítulo.
Categoria: Bíblia
José interpreta os sonhos do Faraó
Dois anos se passaram. José tinha montado uma tenda na prisão, onde interpretava sonhos, jogava búzios, lia tarô e fazia amarração para o amor por módicas quantias. Não era exatamente o que ele queria, ainda sentia saudade dos tempos de glória na casa de Potifar. Mas pelo menos podia usar um turbante púrpura e um diadema E-NOR-ME na testa sem ninguém falar mal, e isso bastava. Já estava com trinta anos e não esperava que a situação mudasse. Mas mudou, e muito.
Um dia José estava deitado em seu catre, descansando um pouco depois do almoço, quando ouviu uma barulheira no corredor. Instantes depois o carcereiro estava na porta de sua cela, e com ele dois guardas do Faraó.
— José! José! Levanta, menino! O Faraó quer te ver!
— O Faraó quer me ver? Ora, me poupe! Brincadeira besta.
— É verdade, José! Parece que ele teve uns sonhos estranhos e nem os maiores sábios do Egito conseguem interpretar.
— Ué, e como ele ficou sabendo que euzinha interpreto sonhos?
— O copeiro se lembrou de você. Contou pra ele como você interpretou direitinho os sonhos aqui na prisão.
— Ah, copeiro desgraçado! Dois anos depois! Bom, deixa pra lá. Quando o Faraó deseja que eu vá até lá?
— Agora mesmo, José.
— AGORA? Ai, minha santa! Eu estou com umas olheiras horríveis, meu cabelo está um desastre, eu estou um trapo! Será que ele não pode deixar pra outro dia não? Eu passo o dia num salão de beleza e aí…
— José, tem que ser agora.
— Tá bom, tá bom! Credo! Deixa pelo menos eu botar uma roupinha, é rapidinho.
[Três horas e meia depois…]
— VAI LOGO, BICHA!
— Calma, seu guarda, calma! Já estou quase pronto! Só falta a echarpe, cadê minha echarpe, minha echarpe… Pronto, achei! Vamos!
No palácio, o Faraó já estava impaciente, andando de um lado para o outro.
— Enfim, chegaram! Por que a demora? Eu não falei que era assunto urgente?
— Falou, Faró, falou sim. E fomos correndo buscar o hebreu na prisão. Mas a bicha levou uma eternidade para se arrumar. E ainda tivemos que agüentar o viado empolgado cantando “Egito, Egito-ê, Faraó-ó-ó-ó” da banda Reflexus o caminho todo.
— Hum… Então é você o hebreu interpretador de sonhos?
— Às suas ordens, alteza.
— Poupe-me da viadagem. Vamos logo ao sonho: Eu estava em pé às margens do Nilo e vi subir do rio sete vacas gordas e saudáveis. Elas vieram e ficaram pastando entre os juncos. E então subiram do rio outras sete vacas. Mas estas eram magras e feias. Mas feias mesmo. Imagina o Costinha pulando corda [valeu, Pelezinho!]. Imaginou? Pois eram piores. Nunca vi vacas tão feias em todo o Egito, e olha que eu conheço essa terra e suas vacas. Essas vacas horrendas e ossudas vieram e devoraram as sete vacas gordas. Engoliram de uma vez só. Mas depois de comer continuaram magras e horríveis do mesmo jeito. Acordei assustado, mas me dei conta que era só um sonho e voltei a dormir. E sonhei com um pé de trigo do qual brotavam sete espigas cheias e boas. Depois delas, brotaram sete espigas secas, mirradas e queimadas. E as espigas secas comeram as boas. Contei os sonhos aos magos do Egito e não houve quem os interpretasse. E você, hebreu, o que me diz?
— Alteza, isso é coisa muito séria! Os dois sonhos são uma coisa só, percebe? As sete vacas gordas e as sete espigas boas são sete anos, e as sete vacas magras e as sete espigas secas são outros sete anos. O Egito viverá sete anos de fartura. Vai ter comida pra todo mundo, uma festa. Mas depois desses sete anos teremos sete anos de fome, mas uma fome que nunca se viu na terra. Se o sonho foi duplicado, então é porque isso vai acontecer logo, os sete anos de fartura já estão começando.
— Hum… Faz sentido, hebreu. Sete anos de fartura, sete anos de fome. Os próximos sete anos serão uma beleza, mas espero não estar por aqui quando vier a fome.
— Vossa Alteza me permite um comentário?
— Pode falar, o que é?
— Eu se fosse Vossa Alteza nomearia alguém para ajudá-lo a administrar o Egito. Essa pessoa coordenaria a provisão de mantimentos durante os sete anos de fartura, armazenando parte das colheitas, para quando vierem os sete anos de fome. Para essa tarefa o senhor vai precisar de um homem de confiança, que tenha demonstrado capacidade de liderança e administração, que seja jovem e inteligente, que seja justo, bonito, sarado…
— Sua idéia é muita boa, hebreu. Excelente, para falar a verdade. Você é um cara inteligente, vai longe. É José o seu nome, não? Muito bem, José, muito bem. Agora só preciso pensar. Quem é que eu vou nomear para esse cargo tão importante…
José interpreta sonhos na cadeia
Pois muito bem, José foi preso injustamente. Ora, todos já percebemos que ele não ia querer nada mesmo com a mulher de Potifar, ela que era é uma tarada. Mas paciência, o fato é que ele foi pro xadrez.
Tempos depois, o copeiro do Faraó deve ter servido um vinho ruim ao soberano, porque foi parar na cadeia juntamente com o padeiro, que deve ter mandado pão amanhecido para a mesa do rei do Egito. O carcereiro entregou os dois aos cuidados de José, como fazia com todos os presos.
— Fiquem sossegados, meus queridos, vou tratá-los muuuuuito bem.
Naquela mesma noite os presos recém-chegados tiveram cada um um sonho, e ficaram impressionados. Pela manhã, José veio visitá-los.
— U-hu! Meninos! Bom dia, flor do dia! Acordem, seus preguiçosos, trouxe café para vocês, não deixem esfriar. Nooooooossa, que caras são essas? Parece que viram assombração! Contem aqui pro José, estou aqui pra isso.
— Ah, Seu José — começou o copeiro — tive o sonho mais esquisito hoje.
— Sonho? Menino, que coincidência! Adoro interpretar sonhos! Vem, senta aqui do meu lado e me conta tudinho!
— Tá. Foi o seguinte. Tinha uma videira. Nessa videira, três ramos. Aí a videira dava uvas maduras. O copo do Faraó estava na minha mão, então eu espremia as uvas no copo e dava o vinho para o Faraó beber. O que significa isso, Seu José?
— Ah, bobinho, que sonho fácil de interpretar! Olha só: Os três ramos são três dias. Daqui a três dias você estará com o copo do Faraó na mão novamente, quer dizer, ele vai te readmitir como copeiro. Viu que simples?
— Puxa! Obrigado, Seu José.
— Não precisa agradecer. Só te peço uma coisinha de nada: Quando você estiver de novo trabalhando, fala com o Faraó sobre o meu caso. Conta pra ele que estou preso injustamente, para ele me tirar desse lugar hor-ro-ro-so.
— Pode deixar, Seu José! Se isso tudo for verdade mesmo, a primeira coisa que eu vou fazer vai ser falar do senhor.
Impressionado com a interpretação do sonho do colega, o padeiro animou-se a contar o seu também:
— Pois meu sonho tem a ver com trabalho também, Seu José, será que eu vou voltar pro palácio? Sonhei que eu carregava na cabeça três cestos de pão branco. No cesto mais alto estavam os melhores pães, mas vinham os corvos e comiam tudo.
— Ai, padeiro, é muito triste a interpretação do seu sonho! Pobre menino, pobre menino! Os três cestos também são três dias. Daqui a três dias o Faraó vai te mandar executar, e os corvos vão comer a sua carne.
— Porra, Seu José, que merda de interpretação!
— É verdade, padeiro, mas não posso fazer nada. Mas veja pelo lado bom!
— Que lado bom? O Faraó vai me mandar matar, qual o lado bom disso?
— Ué! Cê não vai precisar falar com ele sobre o meu caso, que eu fui preso injustamente e agora estou…
— Ah, vá se sentar num mastruço!
— Quem me dera, menino! Quem me dera…
O caso é que três dias depois era aniversário do Faraó. Ele resolveu fazer uma festa, mas não tinha um copeiro para servir o vinho, então mandou trazer de volta o copeiro que estava preso. Ele voltou todo feliz e serviu bastante vinho. Quando já estava bem manguaçado, o Faraó se lembrou do padeiro.
— Hum… O padeiro… Maldito padeiro! O que foi mesmo que ele me fez? Ah, foi coisa muito ruim. Guardas! Enforquem o padeiro!
— Mas seu Faraó…
— Mas é um cacete! Enforquem!
Assim as interpretações de José mostraram-se verdadeiras. E não precisamos dizer que o copeiro em momento nenhum se lembrou de falar com o Faraó sobre José, porque todos já conhecemos muito bem a magnitude da ingratidão humana.
José é preso
Oquêi, Oquêi! Babado forte agora no programa Chiques, famosos, fúteis & vulgares! Vocês devem se lembrar do José, mordomo de Potifar. Ele saiu na Caras mês passado, e até fizemos uma matéria com ele tempos atrás. Roda o VT da matéria com o José!
[José está ao lado da repórter e olha sorridente para a câmera, com uma sombra discreta para realçar os olhos e vestindo uma túnica muito mais colorida que aquela dada por Jacó e destruída pelos irmãos]
— Estamos aqui na mansão de Potifar, do chefe da guarda do Faraó. Ao meu lado está o hebreu José, que foi vendido como escravo e hoje administra a casa. José é uma das figuras atualmente mais requisitadas na sociedade egípcia, por sua grande cultura e bom gosto.
— Ai, menina, bondade a sua! Sou só um rapaz comum, que teve sorte de conhecer essa pessoa ma-ra-vi-lho-sa que é o Poti.
— Você gosta muito do seu protetor, não é?
— Ah, demais! E ele me a-do-ra também, sabia?
— Sei, sei. E a esposa dele não tem ciúmes?
— Imagina! Ela me adora! Quando eu cheguei isso aqui era um lugar todo cinzento, feioso. Ela me ajudou muito na decoração, e o resultado é esse que vocês estão vendo. Olha ela ali! Vem aqui, menina, deixa de ser tímida!
— Ah, Senhora Potifar, uma linda flor de nossa sociedade. Como é para a senhora a convivência com essa pessoa super popular que é o José?
— É muito boa! José é um amor, muito delicado mas muito másculo também. Olha esse rosto lindo, esses olhos. Esses braços, ai…
— Menina, assim você me deixa encabulado! Já pensou se o Poti vê um negócio desses?
— Que é isso, José? Potifar nem liga…
— Arram… Continuando a entrevista: José, parece que teremos uma rave ao ar livre em frente à Esfinge no próximo sábado e você vai ser o DJ.
— É isso mesmo! Vai ser tudo de bom, vai todo mundo pra lá, cês não vão se arrepender. Duas palavras: Se joga, mona!
— Foram três palavras
— Hein?
Pois é, essa foi a matéria com José. E hoje ficamos sabendo que ele está preso! O que terá acontecido? Nossa repórter está lá na peniteciária, parece que ela conseguiu uma entrevista exclusiva com José. É com você!
[Área de visitantes da cadeia. José veste roupas de prisioneiro, mas não parece muito abatido]
— Está aqui comigo o José, ex-administrador da casa do chefe da guarda, que foi preso em circunstâncias misteriosas. Ao que dizem, ele tentou abusar da esposa do patrão. Você quer nos contar sua versão dos fatos, José?
— Claro, claro… Aquelazinha vivia me importunando. Ficava pedindo pra eu ir dormir com ela, porque o marido dela, aquela mona, não tinha coragem de encarar a feiosa. E, olha bem pra mim, eu ia querer uma fubanga daquela? Nem morrrrrrrrrrrta! Mas a mocréia insistia, era todo dia tentando me agarrar pelos cantos, um inferno. No dia em que fui preso, eu tinha chegado da cidade e não havia ninguém em casa, só ela. Feliz da vida, ela me segurou pela capa e começou a insistir demais. Falei pra ela, ‘Prefiro morrer de silicone inflamado’ e saí correndo, deixando a capa na mão da maldita. Ela guardou minha capa e quando o patrão chegou em casa foi chorando falar pra ele que eu tinha tentado agarrá-la. Pode um negócio desses? O Potifar nem quis me ouvir, me mandou pra cadeia na mesma hora.
— Isso é muito triste José. Mas você até que está bem. Está gostando da vida na cadeia?
— Olha, não é que eu esteja gostando. Aqui eu não tenho meus sais de banho, não tenho minha esponja de estimação, meus livros todos, minhas roupinhas… Mas o carcereiro é um fofo, gosta muito de mim. Me deu até as chaves, acredita? Então eu estou aqui administrando o presídio, e já comecei até uma decoração. É meio pobre, sabe, porque não temos recursos. Mas as celas ficaram tão mais lindinhas com as cortinas nas janelas e as flores… Isso aqui está uma beleza, você não acha?
— Sem dúvida, José, sem dúvida. Mas nosso tempo acabou, precisamos voltar ao estúdio. Você tem algo mais a dizer?
— Tenho sim, só três palavrinhas: Você me paga, mocréia!
— Foram quatro.
— Hein?
Oquêi, Oquêi! Impressionante, não? Se isso for verdade, Potifar vai ficar muito mal falado por aí. Bom, mas não estou aqui para especular, eu aumento mas não invento. Obrigado pela audiência, voltamos amanhã com mais um programa Chiques, famosos, fúteis & vulgares .
Judá e Tamar
Depois a gente vê o que acontece com o José no Egito. Por enquanto vamos contar uma história de Judá, irmão dele.
Um dia, visitando um amigo chamado Hira, na terra de Adulão, Judá conheceu a filha de um cananeu. O nome da moça era Sua, então Judá deve ter pensado “Minha? Beleza!” e levou pra casa. Sua deu a Judá três filhos: Er, Onan e Selá
— Sei lá?
— Porra, cê não vai parar com isso?
— Olha quem fala, depois da piadinha infame com a Sua.
— O blog é meu e eu sou infame quando quiser. Agora suma daqui!
Pois então. Quando Er atingiu a maioridade, Judá escolheu uma mulher para ele, de nome Tamar.
— Não vai fazer trocadilho com o nome dela?
— …
Mas deus não ia com a cara de Er. Não se sabe por quê. Ele devia usar bigodinho, ou deixar a unha do mindinho crescer, não sei. Só sei que deus não gostava do cara de jeito nenhum, tanto que um dia resolveu matar o danado.
De acordo com os costumes de então, toda viúva deveria ter como primeira opção casar-se com um irmão de seu marido. Os filhos provenientes dessa união seriam considerados filhos do finado, garantindo assim sua descendência, mesmo morto. Ora, Onan sabia disso, e não gostava nada da idéia. Então quando ia pra cama (ou sei lá onde, acho que não existiam camas na época) com Tamar, fazia tudo direitinho, mas usava a velha técnica de gozar fora para não dar filhos ao irmão morto.
[Arrá! Perceberam? Daí vem o termo onanismo, que nas origens, como podem ver, não tinha nada a ver com masturbação]
Deus não gostou dessa história e resolveu matar Onan também. Judá, vendo que deus estava a fim de deixá-lo sem filhos, ficou com medo de deixar Selá casar-se com Tamar. E saiu-se com essa desculpa:
— Tamar, o Selá é muito novo ainda. Faz o seguinte: volta para a casa do seu pai e fica de luto por lá até que meu filho atinja a maioridade.
Muito bem, Tamar voltou para a casa do pai e Judá não se preocupou em honrar o trato. Só que um dia, precisando supervisionar seus tosquiadores de ovelha em Timna, chamou o velho amigo Hira e foram para aquela cidade, onde a família de Tamar morava. É claro que ela ficou sabendo. Tratou logo de tirar o luto, colocar um véu e ir postar-se no caminho por onde Judá passaria, porque sabia que Selá já era maior de idade mas mesmo assim Judá não aparecera para cumprir o prometido.
Judá a viu de longe e pensou: “Mulher sozinha, de véu, parada no caminho… É puta!”, e foi falar com ela.
— Ooooooooi…
— Ooooooooi!
— Tudo bem com você?
— Tudo.
— Sabia que você é linda?
— Ah, muito obrigada. São seus olhos. Além do mais, você nem tá vendo minha cara.
— Hum… Bom, então vamos direto ao ponto. Tá a fim de dar uma?
— O que você me dá?
— Te mando um cabrito do meu rebanho.
— Bom. Mas como eu vou saber que você vai mandar mesmo o cabrito? Preciso que você deixe alguma coisa como garantia.
— O que você quer?
— Deixa aí o seu sinete com o cordão e o seu cajado
[Os homens andavam com um cilindro pendurado no pescoço, que tinha um símbolo gravado e era usado como carimbo]
— Tá bom.
Concluída a negociação, fizeram o que tinham que fazer, e Tamar ficou grávida do sogro. Depois que ele foi embora, ela voltou para a casa e enlutou-se novamente.
Chegando aonde estavam seus tosquiadores, Judá escolheu um cabrito dos melhores e pediu a Hira que levasse o animal para a prostituta de Timna. Hira foi para lá, mas não a encontrou, óbvio. Perguntou aqui e ali mas ninguém sabia de prostituta nenhuma. Judá achou estranho, mas como ela tinha ficado com seu sinete e seu cajado como garantia, deixou por isso mesmo. Afinal de contas, ele tentara entregar o cabrito, ela é que não aparecia.
Passados três meses, os fofoqueiros (essa raça sempre existiu) foram contar para Judá que sua nora, Tamar, tinha adulterado e estava grávida. Judá, bonzinho como sempre (não nos esqueçamos que foi dele a idéia de vender José), decidiu:
— Tragam ela para fora, para que seja queimada.
O povo, doidinho por uma execução, foi correndo arrancar Tamar de sua casa. Ela saiu com o sinete e o cajado nas mãos, dizendo que o dono daqueles objetos era o pai de seu filho. Judá reconheceu seu sinete e disse:
— Deixa pra lá, cambada. Ela foi pilantra, mas mais pilantra sou eu, que não a dei em casamento ao meu filho.
Tamar não foi queimada e teve gêmeos, que se chamaram Perez e Zerá.
O paradeiro de José
Estamos no meio do deserto. A caravana dos Ismaelitas continua sua viagem para o Egito. Dentro de uma jaula, choramingando, está nosso viadinho, José. De vez em quando ele fala com o bando:
— Pra onde vocês estão me levando, seus desalmados?
— Para o Egito, coisa fofa. Vamos ver se achamos alguma bicha velha por lá que se disponha a pagar um bom preço por você.
— Como vocês são cruéis!
— Nós? Cruéis são seus irmãos, que venderam você por vinte siclos de prata.
— Isso é coisa do Judá, aquele malvado.
— Pára de reclamar, bichinha. Canta uma música aí pra gente, que o caminho é longo e precisamos de distração.
José, que não resistia ao chamado do palco (mesmo o palco sendo uma jaula imunda), não se fez de rogado e emendou um medley de I Will Survive, Macho Man e It’s Raining Men. Os aplausos entusiasmados dos ismaelitas comoveram seu coração, e ele ficou muito triste quando teve que se separar deles. Porque haviam chegado ao Egito e o capitão da guarda do faraó, um tal Potifar, gostou muuuuuuuuuuuuuuuuito de José e pagou por ele o preço estipulado pelos comerciantes de especiarias.
Coisas in-crí-veis vão acontecer na casa de Potifar. Mas antes eu preciso contar a vocês a história de Judá e Tamar. Acho até que vou contar ainda hoje. Aguardem.
José desaparece
É isso aí, galera, vamos acelerar isso aqui que eu quero ver se até o fim da semana termino o Gênesis.
Pois bem, um dia os filhos de Jacó foram apascentar os rebanhos do pai em Siquém. Cara-de-pau deles, já que eles haviam detonado a cidade, mas não vamos entrar nessa questão. O fato é que foram para lá. José, claro, não ia arriscar quebrar uma unha ou arranhar o joelho num negócio desses, então ficou em casa. Mas Jacó pediu que ele fosse até lá para trazer notícias dos irmãos, e lá foi a bichinha toda saltitante pela estrada que levava a Siquém.
Já em Siquém, uma bicha velha viu aquela gazela feliz que vinha pela estrada e foi falar com José.
— Que que cê tá procurando, bi?
— Ai, mona! Meus irmãozinhos! Disseram que estavam aqui em Siquém mas já procurei por todo lado e não acho os meninos. Cê não viu eles por aí não? São uns meninos lindos, estavam com umas ovelhas.
— Afe, e não vi? Cada bofe, minha filha, nossa! Acho que foram para Dotã, ouvi eles falando que iam para lá.
— Ah, brigadinha. Vou pra lá, então.
O viadinho pegou a estrada para Dotã. Os irmãos, que de fato estavam por lá, o viram de longe (claro, com aquela túnica toda colorida) e começaram a conspirar contra ele.
— Olha, cambada, lá vem a libélula sonhadora. Sabe o que a gente podia fazer? Matar ele e jogar numa cova dessas por aí. Depois a gente diz que algum bicho feroz comeu a bicha, e vamos ver se ele volta a sonhar.
Mas Rúben, o mais velho, ouviu a conversa e não gostou nada daquilo. O irmão viado o irritava também mas, porra, era irmão!
— Calma, meus irmãos, pra que isso? Pra que matar nosso irmão? Por que a gente não joga ele numa cova dessas vivo mesmo?
Não parece muita bondade, né? Mas o plano de Rúben era jogar o moleque numa cova e, quando os outros saíssem, tirá-lo de lá e levá-lo de volta à casa do pai. Os outros gostaram da idéia e logo que ele chegou trataram logo de arrancar a túnica dele.
— Ai! Ui! Não façam isso! Minha túnica não! Ai, tão linda! Cuidado com o strass! Olha as plumas!
Mas os outros não se comoveram: Jogaram a pobre bichinha numa cova e foram almoçar. Enquanto comiam, viram surgir um bando na estrada. Era uma caravana de ismaelitas que vinha de Gileade
— Gilliard?
— Porra, você de novo??? SAI DAQUI!
Ahan… Como eu dizia, a caravana vinha de GILEADE e levava especiarias para o Egito. Judá viu a caravana e teve uma idéia.
* * *
No fim do dia, Rúben voltou à cova para resgatar o irmão, esperando que com isso o moleque tivesse aprendido alguma coisa. Qual não foi sua surpresa ao constatar que José não estava mais lá. Ficou desesperado e rasgou as roupas. Não, seus hereges, não é viadagem: Era o costume da época e do lugar rasgar as vestes em sinal de luto. Rúben foi falar com os irmãos, desesperado:
— O moleque não está na cova! O que eu vou fazer?
Então eles mataram um cabrito, pegaram a túnica colorida de José e a tingiram com o sangue. Feito isso, mandaram a túnica para Jacó, com um recado dizendo que tinham encontrado a túnica e achavam que era de José. Jacó, claro, reconheceu a roupa que ele mesmo fizera.
— Meu filho! Meu filhinho foi despedaçado por algum animal!
Jacó rasgou suas vestes (em sinal de luto, lembrem-se) e lamentou a morte de José por muitos dias. Todo mundo tentava consolá-lo, mas ele não aceitava.
— Quero chorar até morrer, para encontrar meu filho no mundo dos mortos.
Que bicho foi esse que comeu José? Será que os dois se deram bem? Será que foram morar juntos? E existia união civil entre homossexuais naquela terra? Vocês saberão de tudo isso e muito mais no próximo capítulo.
José, a bichinha sonhadora
Desde Lot que a gente não conta nenhuma história de bichinha, né? Então chegou a hora. Com um diferencial importante: Lot foi apenas coadjuvante das aventuras do titio Abraão (E ficava pensando: “Esse corno velho recebe todas as lantejoulas, sendo que eu sou muito mais cool que ele. Morra!”), enquanto José será nosso protagonista daqui até o final do Gênesis.
Pois bem, José era uma bichinha alegre de 17 anos de idade. Sendo ainda jovem, andava com os filhos de Bila (Dã e Naftali) e de Zilpa (Gade e Aser). Os irmãos tinham raiva dele, não por ser viadinho, mas por ser dedo-duro.
— Naftali, batendo punheta de novo? Vou contar pro pápi!
— Conta, viado. Conta, que eu falo pra ele que você vive suspirando pelo tio Esaú e chamando ele de “ursão”.
— Ui, Náfi, quanto veneno! Tava brincando, cruz-credo!
Pra aumentar ainda mais o ódio dos irmãos, José era o preferido de Israel [nota: a partir daqui o texto passa a tratar o cara ora como Jacó, ora como Israel]. Não por alguma qualidade que tivesse, mas por ser o primeiro filho de sua falecida esposa Raquel, a mulher que ele amara de verdade. Atendendo aos pedidos insistentes do filho, Israel fez para ele uma túnica toda colorida e José foi correndo mostrar para os outros.
— Olha só o que pápi fez pra mim! Vejam que tecido, que cores! Quanto brilho, reparem nos detalhes de strass [valeu, Dani!]. E essas plumas, que ar-ra-so!
Por essas e outras a raiva dos irmãos crescia a cada dia. Não conseguiam falar com o moleque numa boa. Batiam nele, mas nem isso valia a pena, porque ele corria pra contar pro “pápi”. E para foder tudo de vez, José resolveu dar para sonhador. Não, seus infames, não é nada disso que vocês estão pensando. Eu, hein? O que eu quero dizer é que José começou a ter uns sonhos cheios de significados. Podia muito bem guardar os sonhos para ele, mas a bichinha era meio burra e ia toda serelepe contar para os irmãos:
— Nosssssssssssssa, vocês não têm i-dé-ia do sonho que eu tive essa noite! Estávamos todos nós amarrando feixes no campo. Aí, olha que coisa mais esquisita, o meu feixe, que era muito mais lindo e vitaminado, todo cheio de paetês, ficava de pé, e os feixes de vocês rodeavam o meu e se inclinavam para ele, como se estivessem adorando ele! Olha que coisa doida! Que será que significa, gentem?
— Ô boiola… Cê tá querendo insinuar que nós vamos servir a você? Que você vai ser superior a nós?
— Ai, calma! Não sei de nada, tô só contando meu sonho! Afe…
Aí sonhou de novo na outra noite e veio contar, dessa vez para os irmãos e o pai.
— Ah, não. Vocês não vão a-cre-di-tar! Outro sonho esquisito, pode? Dessa vez estavam o sol, a lua e onze estrelinhas, todos se inclinando para mim. E eu estava lindo de morrer, com uma tiara deeeeeeeeeeste tamanho na testa, umas pulseiras enooooooooooooormes de ouro puro, uns…
— Queisso, Zezinho? — Repreendeu Jacó — Quer dizer que eu, sua mãe e seus irmãos vamos nos inclinar perante você? Não é muita pretensão sua não?
— Ai, pápi, tô só contando o sonho! Além do mais essa lambisgóia vesga não é minha mãe!
— Respeite Léia, que ela é vesga mas é a única que eu tenho.
Bom, acho que é desnecessário dizer que esses sonhos acabaram de vez com a relação de José com seus irmãos. A raiva que eles sentiam da bichinha era tanta que tramaram um jeito de se livrarem dele. Mas essa história fica pra outra ocasião.
Os descendentes de Esaú
Eu não falei? O capítulo 36 trata exclusivamente dos descendentes de Esaú, aquela coisa chata de Fulano gerou Sicrano que gerou Beltrano que habitou a Casa do Caralho. A única coisa que precisamos saber de todo o capítulo é que Esaú pegou tudo o que tinha e se mudou de Canaã, porque ele e Jacó possuiam bens e a terra ficou pequena demais para os dois. O lugar para onde ele se mudou veio a tornar-se o reino de Edom que, lembremo-nos, era o outro nome de Esaú.
Várias coisas acontecem em meio capítulo
A bíblia tem coisas estranhas. Há histórias que caberiam em dois parágrafos e ocupam capítulos inteiros. Por outro lado, temos trechos como essa segunda metade do capítulo 35 do Gênesis, em que várias acontecimentos da maior importância são contados em poucas linhas. Pela ordem:
1. Jacó e seu povo saíram de Betel em direção a Hebrom, onde Isaque morava. Faltando um pouco para chegarem a Efrata, Raquel entrou em trabalho de parto. O parto foi complicado, e Raquel morreu pouco depois do nascimento do menino. Antes de morrer ela ainda teve tempo de dizer que o nome do moleque seria Benoni, que significa Filho da minha dor. Mas Jacó era um filho da puta mesmo e não respeitou nem o último desejo da mulher que amava: rebatizou o filho como Benjamim, Filho de boa sorte. Boa sorte pra ele, porque a coitada da Raquel… Bom, Raquel foi enterrada no caminho de Efrata, e Jacó erigiu uma coluna ali. Acho que o túmulo de Raquel está lá até hoje. Ah, e mais tarde Efrata teve seu nome mudado para Belém (não, Jô, não é sua terra. É a cidade onde Jesus nasceu.).
2. Ruben, o filho mais velho de Jacó, resolveu dar uns futucos em Bila, mãe de dois de seus irmãos. Jacó ficou sabendo, mas parece que não fez nada. Depois de Abraão e Isaque, alguém precisava manter a tradição chifruda da família.
3. Finalmente Jacó chegou a Hebrom para juntar-se aos pais e ao irmão Esaú. Isaque, nosso anti-herói autêntico (Jacó é só mais um pilantra) morreu aos 180 anos de idade e, assim como ele e Ismael passaram a vida toda separados e se juntaram para sepultar Abraão, foi sepultado por Esaú e Jacó.
