Pois largamos Abraão lá no meio do campo, os anjos indo embora. Mas vocês já conhecem Abraão, acham que ele deixou os caras irem? Nãaaaaaaaao… Foi atrás pra barganhar com os caras:
— Aê. Tipo, cês vão destruir Sodoma e Gomorra, beleza. Mas e se tiver uns 50 mano sangue bom lá, cês vão fuder com a vida dos caras? Porra, cês não vão fazer isso, né? Os caras nem fizeram nada, tão de boa. Cês não têm coragem.
— Tá, tá, Abraão. Se encontrarmos 50 justos, não destruiremos a cidade.
— Hum… — disse Abraão, desincorporando o mano que tinha baixado nele — Mas pra cinqüenta podem faltar cinco, e aí?
— Se encontrarmos 45 justos, não destruiremos Sodoma e Gomorra.
— Olha, cês me desculpem a chateação, mas e se forem 40, cês vão destruir as cidades?
— Não, Abraão.
— E se forem trintinha, vão detonar tudo?
— Não, Abraão, não.
— Vinte…?
— Os vinte salvam o resto, entendeu?
— Tá, mas e se forem dez?
— Porra, Abraão, cê tá pior que a tua patroa com aquele negócio de “riu”, “não ri”, “riu”, não ri”, “riu”, “não ri”… Não entendeu ainda a lógica da bagaça? Não tamos indo pra lá pra matar gente boa não, compreendeu? Cara chato…
E Abraão, percebendo que tinha irritado as santas, digo, os santos, deixou-os ir.
* * *
E olha a complicação aí de novo. Esse novo capítulo (Genêsis 19) começa assim: “E vieram os dois anjos a Sodoma à tarde”. Cadê o terceiro cara? Foi pra Gomorra? Voltou pro céu pra não perder as Pegadinhas de Jeová? Ou será que esse terceiro era deus mesmo e, como a gente sabe, ele não gosta de botar a mão na massa, muito menos se for pra fazer o serviço sujo?
Bom, deixemos passar. Chegaram os dois e estavam na praça da cidade quando Lot os viu e foi ao seu encontro.
— Bofes, digo, varões, vamos lá pra minha casa, vocês comem alguma coisa, dormem lá e depois continuam sua viagem.
— Não, cara, obrigado. Vamos dormir aqui na praça mesmo.
— Dormir na praça, varões? Ora, deixem de bobagem. Isso aí, além de lembrar título de música brega e irritante, é um risco aqui em Sodoma.
— Não temos medo, o Senhor nos protege.
— Não se fiem nisso! Já vi muitos casos de varões que dormiram na praça aqui em Sodoma e ficaram uma semana sentando de ladinho. Vai, vamos pra minha casa…
Os anjos pensaram bem e concluíram que seria mais fácil enfrentar uma bicha velha e enrustida do que toda uma população de gazelas. Foram então pra casa de Lot. Comeram muito bem (o jantar, seus pervertidos) e preparavam-se para dormir quando ouviram uma algazarra do lado de fora. Olharam e era toda a população de homens de todos os bairros de Sodoma, desde bichinhas impúberes até veadões macróbios. E berravam, as loucas:
— Lot, sua mona! Cadê os bofes que entraram no seu cafofo, que não se fala noutra coisa nessa cidade, menino? Traz eles aqui pra fora, pra gente se divertir um pouco. Faz tempo que não aparece carne nova nesses cafundós!
Dizem que anjo não tem sexo. Mas quem tem cu tem medo, e os dois tremeram na base nessa hora, e nunca ouvi falar que anjo não tivesse cu.
— Minhas irmãs — disse Lot, logo se corrigindo —, digo, meus irmãos! Tenho duas filhas virgens aqui, vocês podem fazer o que quiserem com elas, mas deixem esses meninos em paz, pois vieram para minha casa por que estavam morrrrrrrrrrtas de medo de vocês.
— Sai daí, biba velha! — Gritavam — Veio lá não sei de onde para a nossa cidade e quer decidir tudo, é? Então tá. A gente ia ser carinhoso com os dois meninos, mas agora vamos pegar você e a-ca-bar com essa sua carcaça pelancuda!
E avançaram sobre o pobre do Lot. Mas os anjos, recobrados do susto, puxaram Lot pra dentro e trancaram a porta. Estenderam então a mão e os moradores da cidade ficaram cegos. Cansadas de procurar a porta e de trombarem uns nos outros, as bichas foram embora. E disseram os anjos:
— Lot, quem você tem nessa cidade? Seu genro, seus filhos e suas filhas, né? Então pega todo mundo, porque nós vamos destruir isso aqui. Já sabíamos que o bicho tava pegando e viemos apenas para averiguação. Mas essa foi foda, imagina, voltar pro céu e não passar no teste da farinha. Foi a gota d’água. Vai embora com a sua família, que nós vamos foder essa bicharada de um jeito que eles nunca vão esquecer.

Permitam que eu explique minha relutância em começar logo essa história de Sodoma e Gomorra. Primeiro, é um episódio confuso: Abraão vê três caras, e o narrador algumas vezes se refere a eles apenas como “os varões” e outras como “o Senhor”. Isso, é claro, tem dado nó na cabeça de teólogos das três grandes religiões monoteístas. Para uns são dois anjos e deus, para outros é deus se manifestando na forma de três homens, porque o cara é foda e pode se manifestar do jeito que quiser. Além da confusão, é uma história meio comprida, então vou dividir em partes.
Pois bem: estava Abraão sentado na entrada da tenda, por um lado criando coragem pra encarar Sara pelada (uma mulher de noventa anos, imaginem, e naquela época! Se fosse hoje, era capaz até de a Penthouse chamá-la para um ensaio, feito uma Dercy Gonçalves semítica, mas não naqueles tempos, que eram bem mais respeitosos) e tentar logo fazer o tal do filho que deus tanto prometia; mas no fundo torcendo para que deus olhasse bem para o ridículo da situação e dissesse: “Deixa isso pra lá, vem pra cá, que que tem, já tem o Ismael aí, fica ele e tudo bem”. Pobre Abraão, não tinha como saber que era mera vítima das Pegadinhas de Jeová
Eis que ergueu os olhos e viu três homens embaixo de uma árvore. Como ele soube que se tratava de uma manifestação divina, ou de deus e dois anjos, ou de três anjos, não se sabe, mas correu pra lá pra dar aquela bajulada. “Ô, seus moços, fiquem aí um pouco, eu falo pra velha fazer um bolo, mato uma vitela aí e faço um churrasco, coisa rápida e vocês seguem viagem de barriga cheia, que é sempre melhor”. Os três aceitaram e lá foi o velho preparar tudo “Vai, Sara, faz um bolo aí que temos visita”. Sara fez o bolo, porque não é de hoje que os homens levam amigos pra casa sem avisar antes. Abrão ordenou a um criado que preparasse uma vitela, coisa fina. Tudo pronto, levou a refeição para os varões (não é o que vocês estão pensando com suas mentes poluídas, seus hereges).
Conversa vai, conversa vem, Abraão perguntando como andavam as coisas no céu, os caras perguntando onde tinha um lugar bom pra pescar por ali, essas coisas. Então perguntaram: “E a patroa, Abraão, cadê?”. “Ta ali, ó, na porta da tenda”. Então disse o Senhor (tão vendo? São três caras, e de repente muda e é o Senhor que fala, depois são os três, uma confusão): “Dia desses eu volto aí pra visitar o moleque de vocês que ainda vai nascer”. Ora, imaginem a Dercy, digo, Sara, com noventa anos ouvindo isso. A menopausa já tinha passado fazia muito tempo. E ela pensou: “Como é? Que que esses porras tão falando?”. Ah, não, isso seria a Dercy mesmo. Sara pensou: “Mas eu, com noventa anos, meu velho já nas últimas também, vou eu lá ter vontade de fazer menino com ele a essa altura do campeonato?”, e começou a rir (Vejam que naquela época todo mundo ria de deus, agora não pode mais, vai entender). E perguntou o Senhor (que são os três caras, ou um só, sei lá): “Que negócio é esse? Não se tem mais respeito? Sua mulher ri de mim assim, na cara dura?”. Sara, querendo dar uma de esperta disse que não tinha rido. “Por que ta falando isso agora? Eu vi você rindo”. “Não ri”. “Riu”. “Não ri”. “Riu”. “Não Ri”. Bom, percebendo que a conversa desse jeito ia longe, disseram os anjos: “Sara, ide à merda, eis que temos mais o que fazer além de ficar nessa discussão que mais parece diálogo do ‘Chapolim’”.
Começaram a se afastar, mas Abraão gostava de tomar intimidades e foi seguindo os caras. Porra, tava certo: Três anjos aparecem no seu quintal, comem da sua comida, brigam com sua mulher e depois saem sem falar o que estão fazendo por aqui? Ah, não, inaceitável! E Abraão foi atrás e perguntou o que tava rolando. Os três se olharam, pensaram, e resolveram contar: “Andam falando barbaridades de Sodoma e Gomorra. Dizem que nessas cidades ninguém segura a putaria, tá uma zona aquilo. Então viemos pra ver, se for verdade eles tão na roça, se não for a gente já fica sabendo”. E retomaram o caminho.

Voltemos à bíblia, fariseus.
Depois de tanto tempo no ar e anos sem nada de novo, as Pegadinhas de Jeová começaram a perder audiência para um reality show da concorrência, a Casa dos Capetas. Preocupado com a fuga dos anunciantes, deus convocou uma coletiva para falar das novidades em seu programa.
— Convencerei Abrão a cortar um pedaço do próprio pinto
Gargalhadas e descrença na platéia. Alguns repórteres chegaram a se levantar para deixar a sala. Deus estava delirando.
— Esperem! Ele não apenas fará isso, como cortará um pedaço do pinto de Ismael e de todos os servos e seus filhos.
Diante do tom convincente do velho, criou-se uma expectativa pelo que aconteceria no episódio daquela semana.
E deus não perdeu tempo: foi logo falar com Abrão (bons tempos! Qualquer coisinha que tinha pra resolver, deus ia logo falar com o sujeito. Fosse assim hoje e não teríamos tantos ateus por aí). E foi logo fazendo o que ele mais gostava: mudança de nomes. Abrão (que significa “Pai da Altura”) passaria a chamar-se Abraão (“Pai de uma multidão”), pois seriam incontáveis seus descendentes. Esse era o pacto que deus fazia com Abraão, e a assinatura do contrato seria esta: que cada homem da casa de Abraão (quer dizer, filhos, servos, filhos dos servos, todo mundo) teria cortada a pele do prepúcio. Abraão deu aquela olhadela meio de lado pra ver se não era brincadeira do cara. Aparentemente não era. “Pele de pica…”, pensou ele, e se segurou para não rir na cara de deus.
E deus continuava o discurso: Sarai (não sei o significado, se alguém souber me diga) passaria a chamar-se Sara (“Princesa”, olha que bonitinho) e seria abençoada com um filho. Aí já foi demais e Abraão começou a rir.
— Ô, seu deus, né por nada não. Sei que o senhor é o bom, é o tal, que pode tudo e essas coisas. Mas eu estou com quase cem anos, a patroa tá com noventa, o senhor tem idéia de quanto tempo faz que a gente nem pensa em dar uma? Não me faça passar por isso nessa idade, já tenho um filho, olha aí o Ismael. Deixa sua promessa se cumprir com ele mesmo, ter um filho aos 86 anos já foi milagre suficiente.
Mas deus não se alterou (estava num bom dia, se tivesse acordado de ovo virado cês já viram, Abraão tinha virado um monte de cinzas). Disse que sim, Abraão e Sara teriam um filho dali a um ano, e seria chamado Isaque, que quer dizer “riso”. É, isso mesmo, “riso”. Isso significa que, se nascido naquela época, o Risadinha (cujo nome significa “Meu amigo tocador de berimbau”) chamar-se-ia Isaque. Que coisa, não?
Abraão percebeu a tempo que tinha escapado de boa então aceitou tudo o que deus tinha falado. Sim, sim, filho, pele de pica, tudo bem, tudo bem. Deus foi embora satisfeito, preparado para quebrar recordes de audiência.
E Abraão voltou para o acampamento para dar início ao trabalho. Convocou todos os empregados e anunciou o pacto que acabara de fazer com deus. Mas os homens eram muitos, e as últimas fileiras não ouviam direito. Como esse negócio de telefone sem fio nunca funcionou, a notícia que chegou até lá é que Abraão resolvera cortar o pau de todo mundo, o que fez se formar outra fila, essa no RH, de empregados pedindo as contas.
E nesse ponto surge uma controvérsia: diz a bíblia que Abraão circuncidou a si mesmo, a Ismael e aos empregados. Imaginar que um homem rico e poderoso como ele fosse submeter-se a ficar sentado na frente de uma fila de homens com estrovenga pra fora é surreal demais. O mais lógico é que ele tenha mandado chamar Lot (o sobrinho de Sodoma e das Campinas, lembram?) para fazer o serviço. Aposto que Lot veio todo serelepe para ajudar o titio e deu conta do trabalho em tempo recorde.

Voltemos à bíblia, seus hereges.
Abrão e Sarai já estavam fazendo hora extra na terra (ele com oitenta e seis, ela com setenta e seis) e não tinham filhos, pois ela era estéril. Um dia, sentada em sua cadeira de balanço fazendo crochê, Sarai olhou com atenção para Agar, sua serva egípcia. Reparou que Agar ainda dava um caldo, e que talvez fosse um divertimento bom pro véio. Resolveu então que já era hora de compensar aquele chifre que tinha botado no marido havia tantos anos (que chifre? A história do faraó, lembra? Não??? Ó, cazzo mio. Relembre! Lembrou? Então eu continuo). Chamou Abrão num canto, fez a proposta, e como velho safado que fica de olho na empregada não é coisa recente, ele prontamente aceitou. Foi lá e pegou Agar daquele jeito meio desajeitado (e deus só fazendo crescer a audiência das Pegadinhas de Jeová com essa cena patética, um ancião fazendo sexo).
Bom, esse negócio de mulher querer causar inveja nas outras também não é coisa recente: uma vez grávida do patrão, Agar começou a perder o respeito com Sarai, já de olho na pensão gorda que ia receber, sem falar na herança do filho. E, claro, Sarai foi fazer aquela choradeira na orelha do velho Abrão, que já não tinha mais saco pra essas coisas. Mas homem sempre dá um jeito de tirar o corpo fora, e isso não é de agora: “Mulher, tenho nada com isso não, tô cheio de serviço e ainda tenho que escrever uma carta pro Lot hoje. Resolve aí o que cê vai fazer com sua empregada”. Os olhos de Sarai brilharam, e ela comeu quente sua vingança. Como não ia pegar bem expulsar o filho do marido de casa (da tenda, na verdade), começou a humilhar tanto a pobre da Agar que ela enfiou o rabo entre as pernas e fugiu para o deserto.
Mas eis que um anjo passeava por ali e encontrou Agar junto a uma fonte d’água. Devia ser um anjo patrulheiro, porque foi logo perguntando: “Quem é você? De onde vem? Para onde vai?”. Agar contou a história toda (puxando a sardinha para seu lado, lógico), e o anjo mandou que ela voltasse para a tenda de Sarai e fizesse as pazes com ela. Disse ainda que os descendentes de Agar seriam inumeráveis, e que ela deveria botar no filho que ia nascer o nome de Ismael, que significa “Deus está ouvindo”. E ainda falou que Ismael seria como um jumento bravo, e seria contra todos e todos contra ele.
Levando-se em conta que Ismael é o patriarca dos povos árabes, parecia até que o anjo estava prevendo coisas como a Guerra do Golfo e o Onze de Setembro.
Curiosidade
Aliás, dois nomes muito comuns nos países árabes são Ibrahim e Ismail, que nada mais são do que Abraão e Ismael. Quando da ocupação Árabe da Península Ibérica, esses nomes se propagaram pela região. Com as mudanças que sempre acontecem nesses casos, acabaram dando origem aos nomes Joaquim e Manuel, tão comuns em Portugal.

Voltando à Bíblia, depois de toda essa empolgação besta com a Casa dos Artistas (que foi uma marmelada da porra, mas legal mesmo assim): O faraó do Egito, pra compensar a plantação de chifres que tinha botado na cabeça de Abrão, deu muitos presentes a ele e a Lot. Pois bem, os dois tinham muitos animais e servos e o diabo a quatro, e os pastores de um e de outro começaram a brigar entre si. Então Abrão foi bater um papo com o sobrinho: Que que era aquilo, não precisava essa confusão toda, que ele escolhesse onde queria ficar, se fosse para o leste Abrão iria para o oeste e vice-versa. Pois bem, Lot já andava cansado dessa vida de cigano e achou muito boa a proposta do tio. Olhou para o leste, para as verdejantes campinas do Rio Jordão, e resolveu que ia ficar por ali, próximo às cidades de Sodoma e Gomorra. Vejam só se não era suspeito esse Lot: Gomorra… Sodoma… Campinas…
Pois bem, Abrão achou tudo muito bom, abraçou o sobrinho (mas meio de longe, nada de intimidades) e foi para o outro lado. Os dois voltaram a se encontrar mais tarde, quando houve uma guerra na região e Lot foi levado cativo com propósitos inomináveis, forçando Abrão a largar a vida besta, juntar 318 jagunços e ir resgatar o sobrinho esquisitão. E houve outros encontros, mas ficam para depois.

Chegando a Canaã, disse deus a Abrão que aquela era a terra que seria dada a seus descendentes. Ele ficou meio desconfiado, não ia viver o suficiente pra ver se era verdade ou não. Por via das dúvidas, ergueu um altar, não custava nada e o livrava da ira do hômi. Mas parece que dessa vez não adiantou, porque uma grande fome abateu-se sobre a região e Abrão resolveu ir para o Egito. Reparem bem: Nem começamos a história do cara e ele já foi de Ur pra Haram, de Haram pra Canaã, e agora de Canaã pro Egito. Se Sarai não fosse tão submissa, tinha mandado logo um “Sossega esse rabo, homem! Logo quando a gente já tava se acostumando com a vizinhança!”.
Pois foram para o Egito Abrão, Sarai, Ló e toda a curriola que vocês já conhecem. Por lá Abrão teve uma idéia de jerico (jerico, não Jericó, que é outra história, com paciência chegamos lá). Ah, a idéia: já que Sarai era muito bonita, ele ficou com medo de os egípcios o matarem para ficarem com a mulher, então combinou com ela que diriam que eram irmãos. Achou a idéia estúpida? Pois achou certo: oficiais do faraó notaram a beleza de Sarai e foram fazer a cabeça do soberano. O faraó não pensou duas vezes: mandou trazer Sarai para incorporá-la ao seu harém. Por causa dela Abrão passou a ser bem tratado, recebendo de presentes mais animais e servos do que já possuía. É isso mesmo: ele continuou dizendo que era irmão de Sarai e passou à História como o primeiro corno manso, mas disso ninguém lembra.
No entanto, a audiência das Pegadinhas de Jeová começou a oscilar, o público achando que aí já era humilhação demais, que uma coisa dessas não se fazia e coisa e tal. Então deus resolveu acabar com a festa e castigou o faraó e toda a sua família. Perguntando aqui e ali, o faraó acabou por descobrir a verdade e convocou Abrão: “Porra, Abrão, que que é isso? Então ela é sua mulher e você vem com papo de irmã? Faça-me o favor, que ideiazinha de jumento! Pega sua mulher, some daqui, não quero mais papo”. E Abrão meteu o rabo entre as pernas, abaixou os chifres, e pegou o caminho da roça, ou melhor, de Canaã — Lá vai esse homem viajar de novo.
E eis que a audiência das Pegadinhas de Jeová estabilizou-se novamente, atraindo novos anunciantes. E viu deus que tudo era bom.

Nem vem com chiadeira, é Abrão mesmo. Abraão ele passou a ser depois, e conto outro dia, porque a história desse cabra é tão grande que vou ter que dividir em vários posts. Pra começar, Abrão era de uma terra chamada Ur dos Caldeus, que mais tarde, se não me engano, veio a fazer parte do grande império babilônico. Os caldeus eram famosos por seus conhecimentos dos astros e dos fenômenos naturais, e eram consultados por soberanos de todo canto sobre o futuro, sobre as colheitas, sobre sonhos. Resumindo, eram os discípulos de Omar Cardoso da época.
Pois bem, um dia deu uma coceira em Abrão e ele resolveu sair de Ur. Pegou sua mulher Sarai (mais tarde o nome dela muda também, güenta aí) e seu sobrinho Ló (não sei se ele era padeiro pra fazer pão-de-ló, mas mais tarde foi dar com os costados em Sodoma, onde se queimava rosca adoidado, o que é muito suspeito) e foram todos para Harã.
Foi nesse tempo que deus, entediado como sempre, resolveu inventar a pegadinha. Não, seus podres, não é a pegadinha que vocês estão pensando, essa aí praticava-se muito em Sodoma e Gomorra. Estou falando daquela de câmera escondida e coisa e tal. Pois bem: deus fez um sorteio e Abrão foi o sorteado para ser a primeira vítima de pegadinha da história da Humanidade. As outras somos todos nós.
Mas então deus foi ter com Abrão e o convidou para ir ao boteco. Mas Abrão, que era varão reto (nada disso que vocês estão pensando, seus gomorritas!) disse que não bebia. “Caralho de asa…”, pensou o Senhor dos Exércitos. E convidou Abrão para um chá com bolinhos. No meio do chá, sapecou sua ordem: Abrão deveria sair de sua terra, onde estava muito bem, para vagar pelo mundo em busca da terra que deus mostraria. Abrão coçou a cabeça, certificou-se de que deus não estava brincando e disse “Tá bom”. Tinha Abrão 75 anos quando pegou Sarai, Ló, todos os servos e animais (o cara era rico, tão pensando o quê?) e partiu em direção a Canaã.
E eis que a audiência do programa “As Pegadinha de Jeová” (valeu a dica, ) começou a aumentar.
No próximo capítulo, Abrão no Egito.

Na-na-ni-na-não. Não vou falar de novela outra vez. Essa Torre de Babel é outra história da bíblia. Gerações depois do Dilúvio, um grande grupo juntou-se nas planícies do Oriente. E disse deus: “Eis que os homens juntaram-se nas planícies do Oriente”. E toda a humanidade falava a mesma língua. E disse deus: “Eis que todos falam a mesma língua”. E disseram uns aos outros: “Eia, edifiquemos uma torre cujo topo chegue até o céu e habitemos nela, para que não sejamos espalhados pela Terra”. E disse deus: “Epa…”. Ora, a ordem de deus era justamente essa, que crescessem e multiplicassem e enchessem a Terra. Enfurecido, deus resolveu acabar com tudo. Mas eis que o serviço de Relações Públicas o fez ver que seus atos impensados em momentos de cólera faziam seus índices de popularidade afundarem cada vez mais. Então, sendo sutil pela primeira vez na História, deus confundiu as línguas dos homens que, sem se entenderem mais, desistiram da construção da torre e espalharam-se pela Terra, que era o que o hômi queria desde o começo.
Os lugares bíblicos têm nomes com significado, como Betel, que significa “luz” e Brasília, que significa “Quem tem padrinho não morre pagão”. Esse lugar onde seria erguida a torre passou a chamar-se Babel, que significa “que puta zona virou isso aqui”.

Se logo na sua segunda geração a humanidade já promovia tamanha zona, imaginem a esculhambação depois de dez gerações. E olhe que neguinho vivia muito naquela época. Adão, o primeiro homem, viveu 930 anos! Enoque, que deve estar lá pela sétima geração, viveu 365 anos e foi levado pro céu sem morrer, e seu filho, Matusalém, viveu 969 anos. E pensar que hoje em dia chamamos qualquer um que chegue aos oitenta de Matusalém, pobres velhinhos…
Mas é de Noé que quero falar. Noé é o décimo dos patriarcas, como podemos ver naquelas intermináveis genealogias bíblicas que parecem o Para Todos do Chico Buarque, com Noé cantando: O meu pai era Lameque/Meu avô, Matusalém/ O meu bisavô, Enoque/ Meu tataravô, Jarede, bom vocês já sabem onde isso vai parar, dez caras que viveram pra cacete em ordem cronológica inversa até Adão.
Quando Noé estava com 500 anos (recém saído da adolescência, portanto), deus o chamou para tomar umas e conversar. Perguntou da patroa, das crianças, Noé disse que Sem, Cam e Jafet eram os filhos que ele tinha pedido a deus, aliás queria muito aproveitar a ocasião para agradecer, e sua família, seu deus, como é que vai? E deus disse que não tinha família, aliás, tinha um filho, mas era uma carta que ele queria jogar só em último caso, o que levava ao assunto que o trouxera até ali: Estava arrependido de ter criado o mundo e a humanidade, os homens portavam-se de forma escandalosa, matavam-se uns aos outros, enganavam-se, traíam-se, blasfemavam contra deus, e aposto cem ovelhas com você como botaram água nesse ketchup. Resumindo, deus resolvera destruir tudo com uma grande inundação, matar todo mundo afogado. Mas Noé era um cara legal, boa praça, e deus determinara que ele seria o pai da nova humanidade. Pegou um guardanapo e começou a desenhar: “Tá aqui, ó. Você vai construir essa caixa grande, botar uma porta, uma janelinha, uma rampa e encher a caixa com um casal de cada espécie de todos os animais”. Noé olhou o desenho, olhou pra deus pra ver se ele não estava brincando, olhou pro desenho de novo, coçou a barba e disse “Tudo bem”. Deus ficou muito feliz, pediu outra rodada e deu um prazo de cem anos para que Noé concluísse a empreitada.
No dia seguinte, com mil britadeiras dentro da cabeça e uma sede que dava vontade de beber todo o dilúvio, Noé se deu conta da sinuca de bico em que havia se enfiado. Era tarde demais para lamentar, no entanto, então chamou os filhos e perguntou o que eles achavam de um cruzeiro marítimo só de casais. Os três, claro, acharam supimpa. “Então peguem as ferramentas, que vamos construir o raio do barco”.
E passaram-se cem anos. Na hora de botar os animais dentro da arca, Noé percebeu que ali é que começava o trabalho de verdade. Tomou um porre homérico, embora Homero nem sonhasse em nascer naquele tempo, e foi pegando uns bichos a esmo. Pegou uns cachorros, umas cabras, umas vacas, galinhas, enfim, esses bichos de criação. Deus olhou lá de cima, viu que era trabalho demais pro cara e resolveu dar uma força. Sabia que seria impossível, por mais que quisesse, enfiar tudo quanto era animal na tal arca de Noé. Então fez uma seleção dos bichos que mais gostava, botou todo mundo em fila e foram entrando na arca. Bom, é claro que na arca já viviam os animais de sempre, cupins, formigas, traças, lesmas, baratas de todos os tipos, ratos. E os animais carregavam suas pulgas, carrapatos, vermes. Com essa nem deus contava.
Mas o negócio é que começou a chover, inundou tudo e Noé, sua esposa, seus filhos e suas noras passaram 40 dias navegando sem rumo. Depois desse tempo, as águas começaram a baixar e a arca encalhou no monte Ararat, na Armênia. A família ainda levou um tempo para sair, pois tinham uma partida de pôquer para terminar (“Ninguém sai! Ninguém Sai!”). Mas acabaram por sair, pois precisavam repovoar a terra. Além do mais, o cheiro da bicharada tornava-se insuportável. Saíram e deram de cara com o arco-íris no céu. Deus explicou a Noé que aquele arco representava o pacto que ele fazia com a humanidade a partir de então, de nunca mais destruir a terra pelas águas (inventando aí, de quebra, o contrato com letras miudinhas: “O que não me impede de, quando me der na telha, destruí-la pelo fogo, pelos terremotos, pela fome, pela peste ou outro meio que me aprouver”).
Todos viveriam felizes, se Noé meses depois não plantasse uma vinha, enchesse a cara mais do que nunca e amaldiçoasse um de seus filhos. Viu deus que tudo recomeçava, fez “tsk, tsk, tsk” e começou a se arrepender de novo.
Ah, e Noé viveu até os 950 anos.