Aproveitem que hoje isto aqui está em ritmoooooooooooooo, ritmo de festaaaaaaaaaaaaa. Mais um capítulo novo.
Pois então, como eu disse: os israelitas tinham saído do Egito já fazia quase um ano. E foi sobre isso que deus foi falar com Moisés:
— Ô, Moisés, já vai fazer um ano que vocês saíram do Egito. Sabe o que isso significa?
— Q-que vai t-ter f-festa…
— Sim, vai ter festa. Mas QUAL festa?
— F-festa de a-aniversário, o-oras!
— Ok, ok. Mas qual o NOME da festa?
— S-sei lá, oras! F-festa à f-fantasia?
— Não.
— F-festa do ca-cabide?
— Claro que não, oras.
— F-festa do c-coqueiro, po-pode trepar que n-não tem g-galho?
— Puta merda, eu devia ter inventado um décimo-primeiro mandamento para piadas velhas… Moisés, a partir do pôr-do-sol do dia 14 deste mês cês vão comemorar a Páscoa.
— Ah, é! N-nem l-lembrava.
— Ainda bem que eu fiz você anotar tudo, né? Puta velho esquecido… Bom, avisa o povo aí. Quero todo mundo comemorando a Páscoa do jeito que eu mandei.
Bom, Moisés ia discutir? Claro que não. Tratou logo de lembrar aos israelitas que no dia 14 ia ter a comemoração da Páscoa. E os problemas não tardaram a mostrar sua cara feia: Uns caras tinham tocado num defunto e estariam imundos no dia da Páscoa. O que fazer? Moisés também não sabia, e foi perguntar a deus.
— Encostaram num defunto, foi? Putz… Sei lá o que fazer com esses caras! Mata tudo.
— P-pega l-leve, Ja-Javé…
— Bah! A gente quebra a cabeça pra inventar uma festa legal, cheia de simbolismo e coisa e tal, pra vir meia dúzia de nego e estragar tudo? É foda, viu! Que que eu faço com esses caras agora? Ah, sei lá. Fala pra eles comemorarem a Páscoa mês que vem, também no dia 14.
— T-tá b-bom.
— E pra tomarem cuidado pra não encostarem em nenhum defunto até lá, senão eu vou ficar muito puto. Aliás, já escreve essa lei aí como um adendo pra Páscoa: Se alguém estiver impuro no dia da festa, deverá celebrar no dia 14 do mês seguinte. E a celebração deverá ser completa, com as ervas amargas, o pão sem fermento, o sangue no umbral da porta, tudo.
— A-anotado. E i-isso t-também va-vale p-para a-alguém que e-esquecer de ce-celebrar no d-dia ce-certo?
— Claro que não, oras! Aí vira esculhambação. Posso até abrir uma exceção para quem estiver viajando na Páscoa, beleza. Mas se o cara estiver no meio do povo, não estiver impuro, e ainda assim não comemorar a Páscoa, será expulso. Tão pensando que é festa?
— N-não é?
— Foi uma força de expressão, Moisés.
— A-ah…
— Vê se deixa de ser burro. Ah, e se algum estrangeiro que estiver entre vocês quiser comemorar a Páscoa, poderá fazê-lo sem problemas. Mas terá que seguir todos os rituais à risca. Ok?
— Be-beleza.
— Então tá. Ah, Moisés, e outra coisa: Vai se preparando aí que cês vão começar a viagem daqui a uns dias.
— L-legal. N-não a-agüentava m-mais e-esse ma-marasmo aqui no S-Sinai. Q-quando a ge-gente sai d-daqui?
— Quando eu mandar, oras. Cê viu que tem uma nuvem de fumaça cobrindo o Tabernáculo durante o dia e uma coluna de fogo durante a noite?
— E q-quem n-não viu? Ô Ja-Javé, quer f-fumar s-seu ne-negócio, t-tudo bem, n-não tenho n-nada com i-isso. Mas p-precisa dar e-essa b-bandeira to-toda?
— Bah, desde que eu nasci que eu fuuuuuumo… Além do mais eu sou é deus, tá me ouvindo? DEUS! Eu faço o que eu quiser. Mas então: taí a fumaça durante o dia e a brasa à noite. Quando eu apagar meu baseado, esse será o sinal para vocês levantarem acampamento. Então já sabem: quando não houver nem fumaça nem brasa sobre o Tabernáculo, caminho da roça todo mundo. Tá bom?
— Be-beleza. E q-quando v-vai ser i-isso de-dessa v-vez?
— Logo logo. Depois da Páscoa. Aguarde e confie.

Não sei se vocês se lembram — eu mesmo não me lembro direito — mas no último capítulo os chefes das tribos trouxeram suas propinas ao Tabernáculo para assim garantirem a mamata. Algumas das ofertas que eles trouxeram foram entregues aos levitas, para auxiliá-los no serviço do Tabernáculo. Pois muito bem, agora que os caras já têm tarefas definidas e já têm material de trabalho, só falta mesmo começarem a trabalhar. E é disso que deus vai falar com Moisés:
— Moisés, precisamos organizar o evento de purificação e dedicação dos levitas. Acho que podemos fazer isso semana que vem. Não é nada demais, uma cerimônia simples, tô com tudo anotado aqui e… Mas peraí, tá muito escuro aqui. Arão! Ô Arão!
— Fala, Javé.
— Onde cê tava, porra?
— Mijando.
— Ah. Então. Ô Arão, arruma esse candelabro aí. As lamparinas tão iluminando os fundos da Tenda, puta servicinho porco. Ajusta aí… Isso… Isso, assim tá bom. Bom, Moisés, como eu ia dizendo, será uma cerimônia simples. Vocês vão separar os levitas do resto do povo e purificá-los.
— T-tô fora. N-não vou d-dar b-banho num m-monte de m-macho nem a p-pau.
— Não se empolga não, santa. Não é pra dar banho nos caras. A purificação será feita assim: Você vai só borrifar água sobre eles. Depois eles vão rapar os cabelos e todos os pêlos do corpo e lavar as roupas. É isso.
— Ah b-bom.
— Então. Depois eles trarão um touro novo e uma oferta de cereais, e você trará outro touro novo.
— P-putz. M-mais s-sangue?
— Pô, Moisés. Sem sangue, que graça teria? Mas peraí, que ainda não é agora. Primeiro você vai reunir todo o povo e botar os levitas na frente do Tabernáculo. Então o povo botará as mãos sobre as cabeças dos levitas e aí Arão vai apresentá-los a mim, como se fossem uma oferta. Pronto, a dedicação dos levitas é isso.
— L-legal. Mas e os t-touros?
— Ah, é. Então. Aí os levitas vão botar as mãos sobre as cabeças dos dois bichos e eles serão oferecidos no altar, um como oferta para tirar pecados, o outro para ser completamente queimado. E então os levitas com idades entre 25 e 50 anos poderão começar a trabalhar no Tabernáculo.
— Ce-cerimoniazinha p-pobre essa, n-não?
— Porra, Moisés, a gente tem que começar a simplificar esse negócio. O povo já está aqui no Sinai há um tempão. Cês precisam começar a viagem o quanto antes, senão nunca que vocês vão chegar à Terra Prometida. Bom, você não vai mesmo…
— He-hein?
— Hã?
— O q-quê?
— Que foi?
— E-EU N-NÃO V-VOU CH-CHEGAR À T-TERRA P-PROMETIDA???
— Claro que vai, Moisés, claro que vai! De onde você tirou essa idéia estúpida?
— VO-VOCÊ F-FALOU!
— Er… Falei, foi? Desculpe, me enganei. Relaxa, Moisés, tudo vai dar certo.
— Hu-humpf.
Bom, se Moisés chegará ou não a Canaã é coisa que ficaremos sabendo só lá para a frente. Por enquanto o que nos interessa é que a cerimônia foi feita e os levitas dedicados ao serviço do Tabernáculo. Papo vai, papo vem, e o povo de Israel já está há quase um ano fora do Egito. Como bem lembrou Javé, tá na hora desses negos começarem a se mexer.

Bom, farisaiada, acho que é hora de voltarmos à Bíblia. E não chiem.
Bom, no dia em que Moisés terminou de erguer o Tabernáculo, ungiu tudo, consagrou, fez a bagaça toda, os chefes das tribos vieram trazer suas ofertas.
— Q-que po-porra é e-essa?
— Viemos trazer ofertas para o Tabernáculo, seu Moisés. Pra dar uma força, sacumé.
— S-sei. Cês q-querem é se ga-garantir co-como ch-chefes das t-tribos.
— Hum… Tá, é um pouco isso aí também.
— E-então tá. V-vamos ver. O q-que cês t-tão trazendo?
— Cada um de nós trouxe um boi e meia carroça.
— M-meia ca-carroça??? Q-que eu v-vou fa-fazer com m-meia ca-carroça???
— Porra, Moisés, não somos tão burros. Queríamos trazer uma carroça cada um, mas ficava muito caro. Então nos dividimos em duplas e cada dupla comprou uma carroça.
— E-entendi. P-peraí q-que eu v-vou a-ali fa-falar com o Ja-Javé.
E lá foi ele ver com deus se dava pra fazer negócio com as ofertas que os caras haviam trazido.
— Sei não, Moisés… Doze bois e seis carroças? É pouco. Faz o seguinte: Pega as ofertas deles e entrega pros levitas.
— T-tá bom.
— Mas faz direito. Divide igualmente entre os caras: duas carroças e quatro bois para os gersonitas e quatro carroças e oito bois para os meraritas.
— Q-que po-porra de di-divisão é e-essa? E os c-coatitas?
— Quem?
— Os CO-COATITAS!
— Ah, esses. Então. Eles não vão ganhar nada. As coisas que eles vão transportar têm que ser levadas nos ombros, lembra?
— A-ah é.
— Então. Agora cê vai lá e diz pros caras que eu aceito a oferta deles de bom grado, fico muito feliz e coisa e tal. Mas dê a entender que talvez fosse uma boa idéia trazer uns agrados a mais aí, sabe, só pra garantir, coisa e tal. Eles vão entender o recado.
— T-tá bom.
— E outra coisa: Fala pra eles não virem todos ao mesmo tempo. Olha a zona que tá la fora com tanto boi e carroça. Diz que podem vir um a cada dia, começando pelo Nasom, depois o Netanel, o Eliabe, o Elisur, o Selumiel, o Eliasafe, o Elisama, o Gamaliel, o Abidã, o Aiezer, o Pagiel e por último o Aira.
— P-peraí, tô a-anotando… A-Aiezer… P-Pagiel… P-pronto.
— Beleza. Vai lá, fala com os caras.
Moisés foi, falou com os chefes, explicou a situação e eles entenderam o recado. No dia seguinte Nasom, chefe da tribo de Judá, trouxe ao Tabernáculo uma bandeja de prata de um quilo e meio, uma bacia de prata de oitocentos gramas (tanto o prato como a bacia cheios de farinha e azeite para oferta de cereais), um prato de ouro de cento e quinze gramas cheio de incenso, um touro novo, um carneiro e um carneirinho de um ano para serem queimados no altar, um bode para ser oferecido pelo perdão dos pecados, mais dois bois, cinco carneiros, cinco bodes e cinco carneirinhos de um ano. No dia seguinte o chefe da tribo de Issacar, Netanel, trouxe uma oferta idêntica. E assim fizeram todos os outros chefes. Agora vocês façam as contas: Tudo isso multiplicado por doze. O Tabernáculo ficou bem mais rico nesse dia. E os chefes mantiveram-se chefes. Já naquele tempo uma mão lavava a outra.

— Ah, lembrei de um negócio aqui. A bênção.
— B-bênção de q-quê?
— A bênção que o sacerdote deverá dar ao povo. Aquele lance todo da importância dos rituais e blablablá. Tô com ela num papelzinho aqui. Arão, lê pra mim que é pra eu ver se soa bem.
— Tá. Arram… “Que Javé os abençoe e os guarde. Que Javé os trate com bondade e misericórdia. Que Javé olhe para vocês com amor e lhes dê a paz”. Pô, que bonito. Nem parece coisa sua, Javé.
— Ficou legal, né? Coisa do Duda Mendonça. Minha gestão pode não ser lá essas coisas, mas as peças publicitárias…
— M-muito b-bem, Ja-Javé. M-mas já ch-chega de ri-rituais e l-leis, n-não?
— Nunca é demais, Moisés.
— D-droga.

(Números 6:1-21)
— Narizeus???
Não, porra. Nazireus. É um termo hebraico que significa “consagrado a deus”. Um dia deus acordou sem nada para fazer e resolveu inventar isso de nazireus. E tratou logo de chamar Arão e Moisés para falar de sua nova criação.
— Ó, prestenção cês dois: Tava pensando aqui em instituir uma espécie de irmandade aqui. Um grupo de pessoas dedicadas totalmente ao meu serviço.
— Tá gagá mesmo… Cê já fez isso, Javé.
— Já?
— Claro que já! OS LEVITAS!
— Hum. É verdade… Mas sei lá. Os levitas já nascem dedicados ao meu serviço, sabem? Não tem muita graça. Eu quero que o cara pare e pense: “Taí. Vou trabalhar pro Javé”.
— A-autoestima em b-baixa, Ja-Javé?
— Mané autoestima! Pára de dar palpite na minha vida e anota aí. O homem ou a mulher que decidir tornar-se nazireu não poderá tomar vinho, nem suco de uva, nem poderá comer uvas frescas ou passas. Durante todo o tempo em que for nazireu, não poderá comer nada que venha da parreira.
— Ah, e-então o c-cara não v-vai ser na-nazireu pra s-sempre?
— Só se quiser. Já disse, é um trabalho voluntário. Então. Os nazireus também não cortarão o cabelo nem a barba, e não poderão em hipótese alguma tocar em cadáveres.
— Nem se, por exemplo, morrer a mãe do cara, a Dona Naziroa?
— Cê se acha engraçado, né, Arão? Não, nem em caso de morte de mãe. Se alguém morrer de repente do lado de um nazireu, e assim ele tocar um defunto sem querer, ele deverá rapar a cabeça e a barba para se purificar. Oito dias depois, trará como oferta para o Tabernáculo dois pombinhos para serem sacrificados. Nesse mesmo dia ele voltará a cultivar a barba e a cabeleira. E blablablá etc. e tal.
Não, não, Javé não falou “blablablá etc. e tal”. É que em seguida ele fala o que o nazireu deverá fazer quando acabar o tempo de sua dedicação, o que deverá trazer como ofertas para o Tabernáculo. Aquela ladainha de sempre: carneiros, ovelhas, pães. E, sejamos sinceros: ninguém agüenta mais essas descrições pormenorizadas de sacrifícios de animais inocentes. Além do mais, os nazireus não desempenharão nenhum papel importante nessa história por um bom tempo. Até aparecer Sansão, o nazireu mais famoso do mundo. Mas isso está beeeeeeem lá pra frente.

O livro de Números até que estava indo bem com aquele negócio de contagem do povo, ordem das tribos no acampamento, divisão de tarefas. Só que deus não agüentou por muito tempo: Na primeira oportunidade que teve, desviou o assunto para leis, rituais e castigos, temas que já apoquentaram bastante no Levítico. Veio com aquela ladainha de pessoas impuras, depois o pagamento de prejuízos, e lá vamos nós chafurdar no meio das leis.
Mas a verdade deve ser dita: Vez por outra ele inventa umas leis bem interessantes (para não dizer esdrúxulas). Essa tal prova dos ciúmes, por exemplo, também conhecida como prova das águas amargas.
Desde os tempos mais remotos o homem busca resposta para três questões que não param de incomodá-lo nem durante o sono, quais sejam:
1. De onde viemos?
2. Para onde vamos?
3. Será que aquela feladaputa tá me chifrando?

Para as duas primeiras, deus inventou a religião. E para a terceira (e mais importante), inventou a prova das águas amargas. Era assim: O cara começa a notar a esposa diferente. Mais solta, mais leve, com um sorriso de Mona Lisa na cara o tempo todo. Vendo a transformação da mulher, outrora tão recatada e apagadinha, a desconfiança ganha força a cada dia. Ou então nem isso: Paranóico por natureza, ele começa a desconfiar da mulher sem razão alguma. O que fazer? Conformar-se? Cultivar e polir os novos adereços de cabeça? Ou revoltar-se de vez e matar a piranha desgraçada, correndo o risco de cometer uma injustiça? Em que sinucas de bico pode um corno se enfiar, não?
E aí entra a tal prova: Desconfiado, o candidato a chifrudo leva a esposa até o sacerdote, juntamente com um quilo de farinha. Farinha de cevada, não aquela do Beiramar. Então. Dentro do Tabernáculo, diante do altar, o sacerdote inicia um ritual no mínimo estapafúrdio: Coloca terra do chão do tabernáculo dentro de um jarro com água e entrega a farinha na mão da mulher, depois de soltar os cabelos (da mulher, não do sacerdote, que não é mulher de L’oreal). Feito isso, o sacerdote diz: “Seguinte, minha filha. Teu marido aí tá desconfiado da tua honestidade. Pois vamos fazer o seguinte: Se for só paranóia dele, nada te acontecerá por beber essa água. Mas se ele for corno mesmo, que tua genitália seque e teu útero inche”. Então a mulher diz “Amém” que, como vocês sabem, significa “Que assim seja”.
Muita presepada? Que nada, ainda tem mais! Depois disso, o sacerdote escreve o juramento todo numa tira de couro e lava a tira na mesma água, oferece a farinha no altar, e dá a água para a mulher beber.
O que acontece depois não é bem claro. O que este capítulo do livro de Números diz é que, depois de beber a tal água, nada acontece se a mulher for inocente. Se for culpada, no entanto, a maldição se cumpre, a genitália seca, o útero incha e a mulher fica estéril (além de ser amaldiçoada para sempre). Sobrenatural, hein? Pois bem, mas há uma tradição que diz que o negócio era muito mais simples: A mulher bebia a tal água. Se fizesse careta, era considerada culpada. E eu só queria saber quem é que toma água com terra e tinta sem fazer careta.
— Ô, Chicoteia! E se fosse o contrário? E se a mulher desconfiasse do marido?
Ia chorar na cama, que é lugar quente. Isso é que é justiça, não?

— Bom, seus abestados. É isso. Vou pra casa dar uma cochilada.
— A-até m-mais, Ja-Javé.
— Ô, Javé. Caiu este papel do seu bolso, ó.
— Deixa eu ver… Hum… Ih, porra.
— Q-que foi?
— É sobre pagamento por prejuízos. Guardei esse papel no bolso e acabei esquecendo. Que cabeça, a minha!
— E agora, Javé?
E agora, Javé?/A festa acabou/A luz apag…
— Não começa com essa porra.
— Hehehe. Esquenta não, Arão, isso aqui é bobagem. É o seguinte: Se um israelita passar a perna em outro, será o mesmo que passar a perna em mim. Terá que confessar seu erro, devolver tudo e pagar mais vinte por cento de multa. Mas se o cara que foi engambelado tiver morrido, e não tiver deixado nenhum parente próximo que possa receber por ele, o devedor pagará aos sacerdotes. Aí, além do pagamento mais vinte por cento, deverá levar um carneiro para sacrifício.
— O-outra f-fonte de re-renda pra g-gente.
— Tá aprendendo, Moisés.

Esse negócio de sacanear Moisés e Arão fazendo os caras contarem gente até não poderem mais até que era legal. Mas deus logo se cansou disso. O negócio dele era com leis e castigos. Então resolveu voltar à velha pauta. E sobrou para Moisés e Arão, claro:
— Ô seus sacripantas. Eu tava dando uma olhada aí no acampamento de vocês, assim, como quem não quer nada. E vi um negócio que me deixou muito puto.
— EU SÓ ESTAVA ORDENHANDO A CABRA, MAIS NADA!
— Cabra? Que cabra?
— Hum… Não é disso que cê tá falando?
— Não… Que cabra?
— Cabra? Sei lá do que cê tá falando, Javé…
— Humpf. Tô falando do que eu vi por aí: Leprosos, gente com corrimento, nego que encostou em defunto…
— U-ué. E d-daí?
— Como assim, “e daí”??? Eu não falei que essa gente toda é imunda? Então! Cês têm que expulsar esse povo do acampamento!
— E-expulsar? E p-pra onde e-eles v-vão?
— Cada um com seus pobrema.
Problemas, Javé.
— Isso é pobrema meu. Que cês tão esperando? Podem mandar correr a notícia, ao pôr-do-sol eu quero ver esse acampamento livre das pessoas imundas. Bora, bora!
Moisés e Arão, que há muito já tinham aprendido que não valia a pena discutir com deus, apenas cumpriram a ordem. Ao fim do dia o acampamento estava limpo do jeito que Javé queria.

— E aí, Moisés? Já entregou a prata pro Arão?
— Hu-humpf…
— Hehehe. Bom, vamos definir mais umas coisinhas aqui sobre os deveres dos levitas. Vocês fizeram a contagem por grupos de idades?
— Por grupos de idades? Ué, você não pediu isso…
— Vocês têm que ser mais espertos! Têm que se antecipar! Tão pensando o quê? Tem muita gente de olho nesses cargos. Cês sabem como é o mercado: É um ninho de cobras! Eu mando vocês embora e terceirizo essa porra pela metade do preço!
— T-tá, Ja-Javé. C-calma. O que v-você quer a-agora?
— Eu quero que vocês agora contem apenas os levitas com idade entre trinta e cinqüenta anos. Mas vê lá, hein? Não vão contar surdos, cegos, doidos, aleijados. Porque esses serão os homens que trabalharão diretamente com as coisas do Tabernáculo, têm que ser aptos ao trabalho.
— Bom. Não vai ser tão difícil.
— Eita! Que disposição é essa, Arão? Tudo isso é medo de perder essa boquinha de sumo-sacerdote? Eu tava brincando! Relaxa, nêga! Mas como eu dizia: Vou dividir as tarefas entre os três grupos dos levitas.
— Ah, m-mas i-isso cê j-já p-pode fa-fazer a-agora.
— Hum… Tem razão, Moisés. Até que às vezes essa sua cabeça dura funciona. Então vamos lá. Pra começar, os coatitas. Esses caras serão responsáveis pelas coisas santíssimas do Tabernáculo. Quando vocês forem levantar acampamento, Arão e seus filhos abaixarão o véu que separa o Lugar Santo do Santíssimo, e cobrirão a Arca com ele. Por cima do véu vocês vão colocar uma coberta de peles finas, e por cima da coberta um pano azul. Feito isso, passarão os varais para transportes pelas argolas da Arca. E assim farão com a mesa dos pães, os altares de incenso e de holocaustos, o candelabro e todos os utensílios. Quero tudo embrulhado em pano vermelho e azul e em cobertas de peles finas. Só depois que tiver tudo pronto pra mudança é que os coatitas poderão entrar para começar o transporte da tralha toda. Mas com muito cuidado para não ver nem tocar nada. Se o fizerem, morrerão. Só os sacerdotes podem ter contato com essas coisas. Pra garantir que ninguém faça besteira, Arão e seus filhos vão coordenar todo esse lance aí do transporte. E Eleazar, filho mais velho do Arão, ficará encarregado do azeite da lamparina, do incenso, da oferta de cereais e do azeite de ungir. Tão entendendo?
— Bah, é o de sempre: Ou faz do seu jeito ou morre.
— É isso aí. Bom, aí tem o outro grupo lá. Os gersonitas. Como eu já disse, eles vão ficar encarregados de transportar as cortinas, véus, cordas. Tudo isso sob orientação dos sacerdotes, sempre. Aquele seu outro filho, Arão… Qual é mesmo o nome daquele mané?
— Itamar.
— Esse aí. O Itamar vai coordenar o trabalho dos gersonitas no transporte dos trens sob responsabilidade deles. Bom. Aí tem os outros caras lá. Os meta… mela… me…
— Me-meraritas.
— Isso. Os memeraritas.
— N-não. Me-meraritas.
— Foi o que eu disse. Memeraritas.
— Não s-são m-m-m-me-memeraritas. São ME-MERARITAS.
— Arão, traduz pra mim o que teu irmão tá dizendo antes que eu acabe com a raça dele…
— Meraritas, Javé.
— Ah, é. Então, os meraritas. O trabalho desses caras será o mais pesado: vão carregar todas as tábuas, colunas, estacas, bases. Enfim, todo o madeirame da tenda. O fulano lá… Como é o nome?
— Itamar.
— É. O Itamar vai coordenar o trabalho desses caras também. Deixa ver, deixa ver… É, acho que é isso. Alguma dúvida?
— N-não.
— Então por que ainda estão aqui olhando pra minha cara?
— Não estamos olhando pra sua cara. Aquele que contemplar a face do Senhor, certamente morrerá.
— Bah, cê entendeu. Que cês tão aí parado com cara de veado que viu caxinguelê? Bora contar os caras!
Então Moisés e Arão, auxiliados por aquele bando de manés de nome esquisito dos quais já falamos, foram contar os grupos de levitas. Tudo segundo as instruções recebidas: Homens entre trinta e cinqüenta anos de idade aptos para o serviço. Contaram 2.750 coatitas, 2.630 gersonitas e 3.200 me… mela… Como é mesmo o nome?
— Meraritas, porra!
Isso. 3.200 meraritas porra. Sendo assim, os levitas aptos para o trabalho no Tabernáculo eram em número de 8.580. Eram? Peraí, deixa eu conferir. Hum… É, dessa vez tá certinho.
Muito bem, acharam este capítulo chato? Pois vocês não sabem o que os espera nos próximos quatro capítulos…