Este é mais um capítulo que parece ter sido plantado para amenizar o impacto do capítulo anterior. Morreram quase 15 mil pessoas por causa de incenso, aí pra gente esquecer isso vem um capítulo falando de vara.
Putz, isso não vai dar certo. Peraí.

Negócio seguinte: vou precisar da colaboração de vocês para conseguir levar este capítulo até o final. O problema é que falar-se-á muito de vara neste trecho da narrativa. É vara pra lá, vara pra cá, uma loucura. Mas nós somos todos adultos, maduros, há muito tempo abandonamos os risinhos à socapa típico de pré-adolescentes sempre que confrontados com o vocábulo vara. Dito isto, toquemos o barco.

Bom, Javé foi falar com Moisés, como sempre:
— Moisés, conclame os chefes das doze tribos. Cada um deles trará uma vara com seus respectivos nomes escritos. E na vara da tribo de Levi será inscrito o nome de Arão. E então…
— Pffff…
— Que porra foi essa?
— Hnnf… N-nada não. C-continue. GHNF…
— Eu, hein… Bom. Você vai botar as varas
— PFFFFFFFF…
— QUE FOI AGORA???
— Pfff… Nada n-não, Ja-Javé. Ghnnnnnf!
— FALA, PORRA!
— É que… PFFFFfffffffffHAHAHAHAHAHHAAHAHAH… P-PORRA, JA-JAVÉ! HAHAHAHA! V-VOCÊ FA-FALANDO DE V-VARA T-TODA HORA F-FICA E-ENGRAÇADO! HAHAHAHAHAHAHAH!
— Porra, Moisés, deixa de ser retardado! Parece moleque, não pode ouvir falar em vara que…
V-VARA! HAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAH!
— CALABOCA! TÔ FALANDO UMA PARADA SÉRIA AQUI! TÁ QUERENDO ME DEIXAR NERVOSO, MOISÉS???
— …
— Onde é que já se viu! HUMPF… Como eu ia dizendo, cê vai botar as va…
Pffff…
— CONTROLE-SE, CARALHO!
— Tá b-bom, tá b-bom…
— ORAS! Cê vai botar as porras das varas na frente da Arca do Acordo.
— P-posso f-fazer uma p-perguntinha?
— Claro.
— P-pra q-que cê q-quer t-tanta v-vara, Ja-Javé…?
— Moisés. Cê tá me sacaneando?
— L-Longe de m-mim!
— Hum. Sei… Eu vou fazer um milagre aí com essas varas que é pra esse povo aprender a me respeitar.
— Ah, mi-milagre… L-legal. M-mas não v-vai s-sumir n-nenhuma v-vara não, n-né?
— CÊ TÁ ME SACANEANDO, SEU PUTO!
— C-claro que n-não!
— TÁ SIM!
— N-não s-sou nem d-doido, Ja-Javé!
— Grunf. Olha, vai logo fazer o que eu mandei, sem mais perguntas.
Moisés achou que já tinha sacaneado o suficiente, então saiu para cumprir a ordem. Chamou os chefes das tribos, explicou o lance todo das varas, todos fizeram as piadinhas de praxe. Horas depois Moisés entrava no Tabernáculo trazendo as varas dos líderes…
— Pffffffffffffffffffffffff….
CALABOCA!
Pois então, Moisés deixou as varas lá na frente da Arca e foi pra casa cuidar de sua vida. No dia seguinte entrou no Tabernáculo e viu, estupefato (estupefato!), que a vara de Arão tinha brotado. E além de brotos, tinha flores e amêndoas.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!
Porra, assim não dá. Deixa eu contar a história, seu feladaputa!
— …
ORAS! Como eu dizia, a vara de Arão brotou. Moisés então levou as varas de volta aos seus donos, e todos viram o que tinha acontecido. Javé, no entanto, ordenou que a vara de Arão permanecesse na frente da Arca, como lembrete de seu poder e toda aquela coisa megalômana que a gente já conhece.
O povo, vendo aquele sinal sem razão de ser e totalmente fora de contexto, ficou confuso. Além do mais, traumatizados pela seqüência de castigos desproporcionais perpretados por seu deus, entraram em pânico, pensando que talvez o milagre da vara fosse um sinal, e começaram a se desesperar dizendo que iam morrer todos, que quem chegasse perto da Arca morreria, e nóis vamu tudo morrê, nóis vamu tudo morrê. Não me perguntem o porquê dessa histeria coletiva. Talvez eles achassem que todo esse negócio de vara era uma metáfora, e seu significado é que iam todos tomar no cu.
Mas isso não passa de mera conjetura.

— Coré, Datã e Abirão??? QUE NOMES!
Porra, se vocês forem se assustar com tudo que é nome estranho que aparecer na Bíblia, a história não vai pra frente. Humpf…

Esse tal Coré era um coatita. Coatitas, lembram? Um dos três grupos de Levitas. Então. Esse Coré aí começou com umas idéias estranhas e logo conseguiu convencer três caras da tribo de Rúben: Datã e Abirão, dois irmãos, filhos de um tal Eliabe, e Om, filho de Pelete. Esqueçam Om, porque ele não é mais citado no resto do capítulo, então é melhor a gente fingir que ele nunca existiu. Como eu disse, a Bíblia é cheia dessas.
Pois muito bem, Coré, Datã e Abirão começaram a conspirar e conseguiram juntar sob sua liderança 250 homens, todos eles respeitados na comunidade. Sentindo-se seguro com tamanho apoio, Coré juntou os 250 líderes e foi falar com Moisés e Arão.
— Aê, cês dois, tá na hora de parar com essa putaria! Deus escolheu foi o povo inteiro, então quem cês pensam que são pra quererem mandar no povo de Israel?
Moisés já sabia como reagir nessas situações: tratou logo de ficar de quatro e tentar se defender:
— C-calma, gente! A-amanhã ce-cedo a ge-gente faz uma gi-gincana pra v-ver quem é q-que Ja-Javé quer que m-mande a-aqui, ou se e-ele c-concorda com a a-anarquia que v-vocês p-propõem. P-porra! O Ja-Javé deu a v-vocês l-levitas o p-privilégio de s-servirem no T-Tabernáculo. I-isso não b-basta pra v-você, C-Coré?
— Eu só falo na presença de Datã e Abirão.
— Hu-hummmm, s-santa! Tá b-bom e-então, v-vou m-mandar ch-chamar seus a-amiguinhos.
Moisés mandou um moleque com um recado para Datã e Abirão: Ambos deviam comparecer ao Tabernáculo imediatamente. Meia hora depois volta o moleque, sem Datã nem Abirão.
— C-cadê os c-caras?
— Vieram não.
— C-como não???
— Disseram que o senhor e o Arão são dois charlatães, que vocês tiraram o povo de uma terra boa rica só pra todo mundo morrer no deserto e não sei o que mais. E falaram que o senhor não manda neles, e então não vieram.
— P-puta que p-pariu! E-eu n-nunca p-prejudiquei n-nenhum d-d-d-desses c-caras, o que e-eles q-que-querem de mi-mi-mi-mim??? P-P-PO-PO-PORRA! C-Coré, é o s-s-s-seguinte: a-amanhã v-você e s-seus ho-homens vão t-trazer i-incenso pa-para ser q-queimado no a-altar. A-Arão t-também vi-virá. Aí a g-gente vê q-quem é que o Ja-Javé a-ap-ap-appóia.
— Eita, Moisés, tá com medo mesmo, hein? Tá até gaguejando mais do que de costume. Pode deixar, amanhã cedo a gente vem pra cá participar dessa gincana de incenso. Por mim seria hoje mesmo, estou ansioso pela hora em que verei você e Arão destituídos do poder que alcançaram ilegitimamente, explorando as classes trabalhadoras, especulando com os tesouros do Tabernáculo, mantendo uma ditadura baseada no terror e no…
— T-tá b-bom! E-esse p-papo de c-comunista de ú-última hora c-cansa, s-sabe?
— Humpf. Nos vemos amanhã.
No dia seguinte Coré foi com seus seguidores até a porta do Tabernáculo, cada um trazendo seu queimador de incenso. Moisés e Arão já estavam esperando. Depois que todos se acomodaram, a voz de deus foi ouvida de dentro da Tenda Sagrada:
MOISÉS! ARÃO! Saiam do meio desse povo sem-vergonha aí, que é hoje que eu vou matar geral!
— Ô Ja-Javé, t-também não é a-assim…
— Verdade, Javé. Vai com calma. Por causa de meia dúzia você vai acabar com o povo todo? Pô, que exagero!
— Ai meu saco, é sempre assim… Tá bom, tá bom. Mas avisem aos israelitas para se afastarem das tendas de Coré, Datã e Abirão.
Moisés e Arão mandaram a ordem correr pelo acampamento. O povo, que já conhecia bem os ataques de ira de Javé, tratou logo de se afastar das tendas dos três, que ficaram isolados com suas famílias. Fez-se o silêncio no acampamento… Silêncio absoluto. Até o vento parou de soprar… Não se ouvia nada, nem um pio.
— PIU!
CALABOCA, CARALHO! Humpf.
Depois de alguns minutos de desconforto causados pela quietude, Moisés resolveu falar:
— V-vocês v-viram o q-que e-esses c-caras fi-fizeram. P-pois m-muito b-bem: Se n-nada acontecer a e-eles a-agora, e-então é p-porque e-eles e-estão certos e eu não f-fui e-escolhido por d-deus nem n-nada. M-mas se a-acontecer a-alguma c-coisa esquisita…
Moisés não teve tempo de terminar: a terra se abriu enquanto ele gaguejava seu discurso e tragou Datã, Abirão e suas famílias, assim como Coré. O povo entrou em pânico, naturalmente: “A terra vai engolir a gente também”, “Socorro”, “Ai, minha Nossa Senhora!”, que nessas horas a gente apela até para entidades de outros lugares e épocas. Mas o showzinho de Javé ainda não tinha terminado: O gran finale foi uma rajada de fogo que matou os 250 seguidores de Coré.
E assim, da forma pacífica e democrática de sempre, foi resolvido mais um conflito no acampamento dos hebreus. Sempre preocupado com o aspecto ritualístico de tudo, Javé foi falar com Moisés:
— Hehehe. Mandei bem nessa Moisés, fala sério! Muito boa, muito boa! Eu me supero!
— Ja-Javé, o p-povo e-está de l-luto…
— Luto por aqueles mequetrefes? Não merecem! Bom, mas nem é disso que eu quero te falar. Seguinte: fala praquele filho abestalhado do Arão, como é mesmo o nome dele?
— E-Eleazar.
— Esse um. Fala pro Eleazar recolher do meio dos restos do incêndio os queimadores de incenso que os tais revolucionários empunhavam no momento em que morreram. Os queimadores de incenso são sagrados, você sabe. Então vocês vão mandar fundir os queimadores e fazer com o metal deles finas lâminas. Depois vão usar essas lâminas para fazer uma cobertura para o altar. Isso servirá como memorial do que aconteceu aqui hoje. Assim vocês vão se lembrar que só os descendentes de Arão podem queimar incenso aqui. Incenso é coisa sagrada, porra.
Moisés passou a ordem a Eleazar, que começou a recolher os queimadores de incenso do meio das cinzas.
Tudo aparentava voltar à normalidade. Mas quem disse que esse povo consegue viver sem revoltas? Impressionante! Deve ser por causa do tédio no meio do deserto, sei lá. O fato é que já no dia seguinte começou a agitação no acampamento. O povo acusava Moisés e Arão pela morte de Coré, Datã e Abirão (e o tal de Om, hein? Tá, tá, esqueçam o Om), além dos 250 “revolucionários”. Não deixavam de ter razão: Moisés sabia de antemão que Javé levava muito a sério esse negócio de incenso — lembremo-nos de Nadabe e Abiú — então por que desafiara os caras para um torneio de queima de incenso? Se o incenso queimado por mãos erradas fôra a causa da chacina — era o que aparentava — então de fato Moisés e Arão podiam ser considerados culpados.
É, mas quem tem padrinho não morre pagão: Vendo que o povo se revoltava novamente, deus não quis nem saber do que se tratava. Foi logo gritando:
MOISÉS! ARÃO! Agora não adianta vocês implorarem pela vida desse povinho aí, que é hoje que eu acabo com tudo.
Dessa vez parecia tudo perdido mesmo. Javé estava mais disposto do que nunca a cumprir sua ameaça de acabar com o povo que escolhera. Porém Moisés, numa súbita inspiração, resolveu tentar um último truque:
— Arão, rápido! Pega seu queimador de incenso, bota umas brasas do altar nele e vai pro meio do povo oferecer incenso pra acalmar o Javé. Ele gosta tanto desse cheiro que é capaz de desistir de matar todo mundo.
— Moisés! Cê não tá gaguejando!!! MILAGRE!
— O q-quê? C-como???
— Nada não, esquece.
— V-vai r-rápido, A-Arão, que a e-epidemia já e-está co-começando.
Uma cartada desesperada, é verdade, mas como bem disse o apóstolo Paulo milênios depois, o que é um peido para quem está cagado? Além do mais, algumas pessoas já começavam a passar mal, a vomitar e desmaiar. Em poucos segundos a epidemia mandada por deus já fazia seus primeiros mortos.
Arão, que de besta só tinha a cara e o jeito de ser, correu o mais que suas octagenárias pernas permitiam para fazer logo o que o irmão propusera. Já no meio do acampamento, com o queimador de incenso erguido acima da cabeça, esperava aplacar a ira de deus:
— Oooooolha, Javé! Incenso! Incenso cheiroso! Ó, que gostoso o incenso. Agora calma, Javé… Caaaaaaaaaaaaalma… Caaaaaaaaaaalma… Caaaaaaaaaaaalma…
E não é que a idéia estapafúrdia de Moisés deu resultado? A epidemia parou de se alastrar, deixando um saldo de catorze mil e setecentos mortos. Coisa pouca! Ah, e não nos esqueçamos dos 250 de antes, além de Coré, Datã, Abirão e Om.
Não, Om não. Tem nenhum Om nessa história.
Ahan.
Então. E tudo isso por causa de incenso, vejam vocês! Eu se fosse hare-krishna tomava mais cuidado…

Este é um capítulo estranho do livro de Números. Com tanta coisa acontecendo, de repente volta-se a falar de leis. Esquisito? Sim, mas nem tanto. A Bíblia é cheia desses saltos e pausas abruptas na narrativa. Além do mais, depois da última mancada do povo e do castigo imposto, deus deve ter percebido que talvez o problema fosse de comunicação, então resolveu reforçar uma coisinha aqui outra ali. Apenas especulação de minha parte, claro.
Bom, o negócio é que mais da metade deste capítulo é uma descrição detalhada de como/quando/por quê/onde sacrificar animais. Já estamos cansados de saber tudo isso, e quem não se lembrar pode pegar o PDF do Levítico para refrescar a memória. Sendo assim, pulo esta parte sem maiores crises de consciência.
A seguir, como que para sublinhar que a Lei era coisa séria, é contada a história de um homem que foi pego em flagrante recolhendo lenha no sábado. O sábado, lembrem-se, é o dia de descanso para os judeus, e Javé fez questão de frisar isso sempre que possível. Pois então, o cara estava lá pegando lenha, foi surpreendido no ato e levado até Moisés e Arão. Perguntaram a deus o que fazer, e ganha uma mariola quem adivinhar qual foi a resposta. Isso, muito bem! Mata! Apedreja! SANGUE! SAAAAAAAANGUEEEEEEEEEE!
No final do capítulo, outro trecho que não guarda relação alguma com o restante, a não ser a ênfase no cumprimento da lei: deus manda dizer aos israelitas que todos eles deverão passar a usar pingentes com cordões azuis em suas roupas. Esses pingentes serviriam como lembrete: sempre que um israelita olhar para os pingentes deverá se lembrar das leis de deus. Se não me engano, até hoje os judeus ortodoxos usam os tais pingentes.
E é isso aí o 15º capítulo de Números: não acrescenta nada, nada acontece. Mas não se desapontem, que no próximo capítulo tem mais revolta do povo.

Como eu ia dizendo, o desânimo do povo com as más notícias trazidas pelos espiões não demorou a transformar-se em revolta. Naquela mesma noite o que mais se ouvia no acampamento dos israelitas era nego choramingando. Então foram reclamar com Moisés e Arão. E estavam MUITO putos:
— Então foi para isso que vocês tiraram a gente do Egito? Para morrermos nas mãos dos cananeus?
— Onde é que Javé estava com a cabeça??? Agora nós vamos todos morrer na guerra e nossas mulheres e filhos serão levados como prisioneiros.
— Seria muito melhor a gente desistir enquanto há tempo e voltar pro Egito.
— Boa idéia! Por que a gente não escolhe outro líder e volta pro Egito?
A idéia foi ganhando corpo entre os hebreus. Moisés e Arão, percebendo que o negócio não estava nada bom pro lado deles, jogaram-se de joelhos e cara no chão implorando a piedade do povo. Que velhos bundões! Ainda bem que novos líderes começavam a surgir: Calebe, o único dos espiões que vira a conquista de Canaã com bons olhos, e Josué, que resolvera passar para o lado dos otimistas.
Aliás, permitam-me corrigir um erro: Lembram no último capítulo, quando eu disse que Moisés trocou o nome de um tal de Oséias para Josué? Pois tratava-se daquele mesmo Josué que já conhecemos faz tempo, office-boy de Moisés. Desculpem a falha, mas é que essas idas e vindas da narrativa bíblica às vezes me confundem a cabeça.
Mas como eu dizia, Josué e Calebe tiveram uma atitude de homens de verdade, ao contrário de Moisés e Arão:
— Filhos de umas quengas! A terra que a gente foi espionar é muito boa. Se Javé ajudar, a gente entra lá e chuta a bunda dos cananeus.
— É, mas cês têm que têm que tomar mais cuidado, porra! Cês ficam aí falando de voltar pro Egito e não sei mais o quê. Javé teve um trabalhão pra tirar a gente de lá, e vai ficar muito puto se vocês continuarem com essa choradeira. E vocês sabem como é quando ele fica bravo, pode acabar sobrando pra todo mundo.
O discurso continuaria, mas o povo começou a pegar pedras para jogar nos quatro. Agora imaginem: Quatro homens (sendo que dois eram velhos e estavam na posição em que Napoleão perdeu a guerra) diante de milhares de homens furiosos e de pedra na mão. Parecia tudo perdido, o povo ia voltar para o Egito por bem ou por mal.
Mas eis que todos viram um clarão sobre o Tabernáculo. Era deus que acendia seu baseado.
Vãopará com essa putaria aí! Moisés, vem aqui que eu quero conversar com você.
Moisés levantou a cara do chão e respondeu:
— Daqui a pouco, Javé.
Eu disse AGORA!
— É q-que… S-sabe c-como é… D-deixa eu p-pelo me-menos ir a-a-a-até a minha t-tenda t-trocar de t-t-túnica. Acho que me c-c-ca… c-ca-caaaaa…
— Tá, tá, já entendi. Puta que pariu. Vai lá, e toma um banho.
Quinze minutos depois, já limpo, Moisés dirigiu-se à Tenda Sagrada.
— P-pode dizer, Ja-Javé.
Moisés, eu já fumei unzito aqui e nem assim me acalmei. Dessa vez foi a gota d’água. Eu não agüento mais, para mim chega. Vou mandar uma epidemia mais forte que aquela última, e matar esse povo todo. Mas você, Moisés, vai sobreviver, e aí eu começo todo o meu projeto de novo: Vou fazer dos seus descendentes uma grande nação, muito maior e mais forte do que esse povinho sem-vergonha de Israel.
— Hum… F-fico m-muito ho-honrado, Ja-Javé, m-mas…
— Mas…?
— V-você já i-imaginou a re-repercussão d-disso?
— Repercussão???
— É. I-imagina os j-jornais do E-Egito: “D-DEUS I-INCOMPETENTE M-MATA S-SEU P-POVO NO D-DESERTO”. E o p-povo das t-terras p-por o-onde p-passamos até a-agora? V-vão dizer q-que vo-você m-matou os i-israelitas p-porque não foi c-capaz de l-levá-los até o s-seu d-destino.
— Hum…
— P-pensa bem, Ja-Javé. P-perdoa o p-povo, e-esquece i-isso.
— É, Moisés, acho que você tem razão… MAS ISSO NÃO PODE FICAR ASSIM! Já que você me pediu para perdoar, e considerando que você é meu truta, eu perdôo. MAS SÓ POR SUA CAUSA! Mas é o seguinte: Nenhum desses homens viverá para entrar na Terra Prometida. Esse povo me viu fazendo as coisas mais extraordinárias e mesmo assim vive me torrando o saco. Então ninguém vai entrar em Canaã porra nenhuma.
— N-ninguém?
— Hum… Bom, o Calebe vai. Esse cara tem colhões.
— E o J-Josué?
— Josué, Josué… Bah, depois eu vejo. O Josué só mudou de idéia depois, não sei se ele é confiável.
— E A-Arão e eu?
— Vocês dois? Sei lá, depois eu vejo isso! Agora tenho coisa mais importante para falar: Os israelitas não ficaram com medo dos amalequitas, dos cananeus e de todos os outros caras? Pois diga a eles que podem dar meia volta. Vocês vão voltar para o deserto, na direção do Mar Vermelho.
— U-ué. V-vamos v-voltar pro E-Egito???
— Depois do trabalho que foi pra tirar vocês de lá? Tá louco? Não, tenho outra coisa em mente. Como eu disse, esses homens aí não vão entrar na Terra Prometida. Ninguém com mais de vinte anos sequer verá Canaã. Exceto pelo Calebe. E pelo Josué, vá lá. Esses dois eu deixo. Os outros vão ficar vagando pelo deserto durante quarenta anos, um ano para cada dia em que os espiões ficaram em Canaã a troco de nada. Vão todos morrer no deserto, e não haverá memória da existência deles.
— P-porra, Ja-Javé, p-pega l-leve.
— PEGA LEVE É O CARALHO! Ainda tô dando chance a vocês! Além do mais, quarenta anos passam voando. Pelo menos para mim… Hehehe.
— Hum… M-mas e os e-espiões? E-eles já v-viram a T-Terra P-Prometida.
— Ah, isso eu resolvo rápido.
— C-como?
— Oras, como! Vou matá-los todos, menos Calebe e Josué, é claro.
De fato, os outros dez espiões foram atacados por uma doença e morreram em pouco tempo. Mas ninguém deu trela, porque a triste notícia já corria o acampamento: Israel era um povo condenado a vagar pelo deserto por quarenta anos, sem direito a apelação. Uma perspectiva lúgubre. Alguns israelitas resolveram, como se diz, tentar botar a tranca depois do arrombamento:
— Vamos consertar nosso erro! Vamos entrar na região montanhosa e conquistar aquela terra. Javé vai ver nosso arrependimento e vai voltar atrás.
Moisés, que conhecia Javé como ninguém, ainda tentou dissuadi-los dizendo que já não adiantava nada, que Javé já decidira e agora cabia a eles apenas cumprir sua condenação. Mas eles foram mesmo assim. E é claro que a tentativa foi um fiasco; os amalequitas e cananeus botaram os rebeldes para correr, e eles correram até um lugar chamado Horma.
Triste situação a do povo de Israel. Chegaram tão perto de Canaã e agora, condenados pela ira de um deus temperamental, deveriam voltar quase o caminho todo, e passar os quarenta anos seguintes andando em círculos pelo deserto. Isso é que é deus bom e misericordioso, o resto é conversa!

Pois muito bem: O povo estava acampado no deserto de Parã. Dêem uma olhadinha no mapa aí ao lado. Localizaram? Então, um pouco ali para o norte, nas cidades de Gaza e Jericó já começa Canaã. O povo estava chegando perto da Terra Prometida, portanto, e era hora de se começar a pensar em estratégias sérias e providências práticas para a invasão. E foi nisso que deus pensou quando chamou Moisés:
— Moisés, está chegando a hora da tomada de Canaã. Mas antes disso vocês precisam de informações sobre aquela terra.
— T-tá bom, Ja-Javé. P-pode f-falar.
— Falar o quê? Tá doido? Vocês que se virem para pegar informações, tá pensando que tomar a terra dos outros é moleza, que deus ajuda e pronto? Oras! Você vai é escolher espiões para irem até lá. Escolha um de cada tribo e me traga a lista.
Moisés assim o fez: Escolheu dentre os líderes das tribos aqueles que achava mais aptos ao trabalho de espionagem. E esta foi a lista que entregou a Javé:

Como sempre, um monte de caras com nomes estranhos. Tinha até um Setur, vê se pode. Setur parece nome de agência de turismo. Pois não é que no meio de todos esses aí, Moisés foi implicar justo com o nome mais normal, Oséias? Verdade! Mudou o nome do cara pra Josué, sabe-se lá por quê…
Bom, discussões onomásticas a parte, os espiões partiram de Parã com instruções claras: Deveriam ir pelo sul e subir as montanhas. E lá chegando deveriam prestar atenção em tudo: como era a terra, se o povo era forte ou fraco, se eram muitos ou poucos homens, se as cidades eram muradas, se a terra era boa para o cultivo, se havia matas. Deveriam também trazer algumas frutas da terra.
Com essas indicações em punho, foram para Canaã. Espionaram a terra de cabo a rabo. Subiram pela região sul e foram até Hebrom, onde encontraram três caras não muito comuns com nomes piores ainda: Aimã, Sesai e Talmai, que eram descendentes de uma raça de gigantes chamados anaquins. Muito cuidado aqui: quando a Bíblia fala em “gigantes”, não se refere a seres descomunais. Os três anaquins deviam ser da altura de jogadores de basquete. Mesmo assim, o suficiente pra assustar uma dúzia de israelitas baixinhos e narigudos. Depois os espiões desceram para um vale para colherem amostra de uvas. E cortaram um cacho tão grande que foi necessário pendurá-lo numa vara, que foi levada nos ombros de dois homens. Ficaram tão impressionados com o tamanho do cacho que botaram naquele lugar o nome de vale de Escol, que significa “cacho de uvas”.
Depois de 40 dias espionando a terra, os 12 líderes voltaram ao deserto de Parã para contarem as novidades. E as notícias que eles traziam não eram das mais animadoras:
— Moisés, você e Arão tão doidos se acham que a gente vai invadir aquela terra.
— P-por quê? A t-terra é r-ruim?
— Não, muito pelo contrário: a terra é excelente, olha o tamanho do cacho de uvas que trouxemos.

[Pausa para admiração de Moisés e Arão ante o tamanho do cacho dos caras.
DO CACHO DE UVAS, SEUS PODRES!]

— E-então q-qual o p-problema.
— O problema, Moisés, é que os caras de lá são grandes, fortes, sarados, espadaúdos, uma loucura! AFE!
— Menos, Nabi. Deixa que eu continuo. Mas então, os caras são grandes lá. Vimos até uns gigantes em Hebrom. As cidades deles são fortificadas, nem o capeta entra lá. Os amalequitas vivem ao sul, os heteus, os jebuseus e amorreus nas montanhas, os cananeus perto do Mediterrâneo e às margens do Jordão.
— P-perto do M-Mediterrâneo? M-moram bem e-esses c-cananeus, o c-condomínio lá d-deve ser uma f-fortuna. Mas q-quer dizer e-então que t-tem a-até ET n-naquela t-terra?
— ET? Que ET, Moisés?
— N-nas m-montanhas. V-você que d-disse.
— HETEUS!
— Ah… M-menos m-mal.
— Menos mal mas não ajuda em nada. Essa invasão é impossível, Moisés. Melhor a gente desistir.
Os curiosos, como era de se esperar, foram se juntando ao redor dos líderes conforme a conversa prosseguia. Não demorou para começarem os rumores. “O que ele disse?”. “Fala mais alto, porra!”. O desconforto ia aumentando enquanto os espiões despejavam seu balde de água fria. E o povo começou a fazer o que mais sabia: reclamar. E a reclamação toda podia se resumir em “Xi, fodeu…”. Mas Calebe, o espião da tribo de Judá, pediu a palavra e conseguiu se fazer ouvir no meio da balbúrdia geral:
— Ô, cambada, não é bem assim. Esses caras tão exagerando! Se a gente for agora e atacar de surpresa, vai dar certo. Eles são fortes, é verdade, mas nós também somos. Bora atacar aqueles mequetrefes!
— Cê andou fumando aquela planta lá deles, né, Calebe? Tá bem louco? Os caras acabam com a gente! Sem chance.
O discurso de Calebe, embora cheio de boas intenções e fé, não surtiu efeito. O povo preferiu acreditar nas informações trazidas pelos outros. E como sempre acontece nessas ocasiões, a notícia ia ficando pior conforme corria de boca em boca:
— Parece que a terra não produz o suficiente nem para os moradores de lá, imagine pra nós.
— E os caras são grandes, gigantes, pelo que disseram.
— É isso mesmo, gigantes! Um dos espiões me disse que eles se sentiam como gafanhotos perto deles.
— Nossa!
— Pois é, menina.
Como podemos ver, a rádio-peão existe desde aquela época. O desânimo do povo logo transformou-se em revolta. Mas falaremos disso no próximo capítulo.

Entre uma lei aqui, um mandamento ali, um ritual acolá, Moisés acabou se casando com uma mulher etíope. E era um chamego só com aquela nêga, uma beleza. Mas sabe como é família, né? Logo Arão e Miriã, irmãos de Moisés, começaram a criticar o cara.
— Que vergonha! Casado com uma crioula!
— Pois é, Miriã. Ele acha que pode fazer o que quiser só porque fala com deus.
— Ué, e daí? Ele é profeta, tudo bem. Mas nós também não somos?
— Claro que somos!
— E deus deixa ele viver nessa pouca vergonha? E a outra mulher dele, fica como?
— É o que eu digo! Mas ele me ouve? Claro que não! A nêga mexeu com a cabeça dele.
— Então! Ontem mesmo eu fui até a tenda dele e…
— EI! VOCÊS DOIS AÍ!
— Ô. Javé. Tudo bem com você?
— TUDO BEM É O CARALHO! VÃO OS DOIS PRO TABERNÁCULO AGORA!
Os dois obedeceram rapidinho, envergonhados. Enquanto isso, deus ligou para Moisés e o chamou para ir ao Tabernáculo também. Quando estavam todos lá, deus começou a falar, muito puto:
— Ô Moisés, seus irmãos tavam falando merda a seu respeito. Tão com inveja porque você já casou pela segunda vez e eles não desencalham.
— N-não é p-possível! É v-verdade isso, A-Arão?
— …
— Q-QUE V-V-V-VE-VE-VER-V-V…
— É isso mesmo, Moisés. Que vergonha! Estão falando aí que são profetas tanto quanto você. Escutem aqui os dois: Profetas eu escolho quantos eu quiser aí no meio do povo. Profeta pra mim é gado. Agora um cara que nem o Moisés é mais que um profeta! O cara até já viu minha bunda, porra! Eu falo com o cara como um camarada mesmo, tão sabendo? MOISÉS É MEU TRUTA! Não falem mal dele! Entenderam?
— S-sim, Ja-Javé…
— Ah, agora cê também gagueja, Miriã? Velha invejosa! Seu problema sabe qual é? É FALTA DE RÔLA!
Então Javé saiu pisando duro. Bateria a porta, se porta houvesse no Tabernáculo. E foi ele sair pra Miriã imediatamente ficar totalmente branca, coberta de micose dos pés à cabeça.
— Moisés! Olha o que Javé fez comigo!
— Ah, cê n-não f-falou mal da m-minha n-nêga? E-então! A-agora cê tá b-bem b-branquinha…
— Ô Moisés, ela é nossa irmã! Eu sei que a gente falou merda, desculpa, mil perdões, mas a gente não pode deixar nossa irmã ficar assim. Quebra essa, pô! Fala com o Javé.
— T-tá b-bom, vai. V-vou ver o q-que p-posso f-fazer.
Moisés pegou o celular e ligou para deus para ver se dava um jeito de Miriã voltar ao normal.
— Ah, Moisés, sei não… Fiquei puto com essa sua irmã aí. Mas como é você que está pedindo, vou quebrar seu galho. Só que é o seguinte: Ela vai ter que obedecer o ritual e ficar fora do acampamento por sete dias.
— T-tá bom. V-valeu, Ja-Javé.
E assim fizeram: Miriã ficou sete dias exilada, e durante esse período o povo permaneceu em Hazerote. Quando ela voltou, já curada, partiram de lá para acamparem no deserto de Parã.
Parã-pã-pã.
Tá, parei.

Como é de se imaginar, a multidão dos israelitas atravessando o deserto não demorou a chamar a atenção de aventureiros. Depois de mais de um ano fora do Egito, era normal que houvesse entre os hebreus muitos estrangeiros. Isso era bom por um lado: mais soldados para as guerras que viriam. Havia, no entanto, algumas desvantagens, como o fato de não terem o menor compromisso com o deus esquisito de Israel.
E foram justamente os estrangeiros que começaram a crise reclamando da falta de carne. Ah, se tivéssemos carne para comer… Ah, um bom filé agora… Ah, uma coxinha de galinha… Em pouco tempo os israelitas se deixaram contaminar pela insatisfação:
— Puxa vida, é verdade. Uma carninha agora ia bem.
— Verdade. Lembra do Egito? Lá a gente comia peixe à vontade.
— E de graça!
— Pois é! E não era só isso. Lembra dos melões que a gente comia lá?
— Hum…. E as verduras? Um alho, uma cebolinha…
— … um pepino…
— Ai, bicha!
— Não enche, porra.
— Hehehe. Pois é. Mas e agora, o que é que a gente come?
Maná! O tempo todo é só maná!
— Um inferno! Maná com leite de cabra de manhã. Maná com água no almoço. Maná puro no jantar. Aos fins-de-semana, pão de maná.
— Maná, maná, maná! Eu quero saber quem é o nutricionista desta porra aqui. Meus filhos estão ficando amarelos de tanto comerem maná.
E etcetera e coisa e tal e blablablá. A choradeira do povo foi ficando insuportável. Moisés, um velho com mais de oitenta anos encarregado de liderar um povo tão chato até a Terra Prometida, resolveu que era demais para ele e foi queixar-se ao patrão:
— Ja-Javé, é o s-seguinte: E-eu te f-fiz a-alguma c-coisa? P-porque i-isso aqui só p-pode ser c-castigo. S-sacanagem. Ô p-povinho ch-chato! P-por a-acaso eu p-pari essa ge-gente t-toda? E-então p-porque vo-você q-quer que eu ca-carregue e-esse p-povo no c-colo até a C-Canaã? A-agora tão q-querendo c-carne, e o-onde é que eu v-vou a-arrumar c-carne pra t-tanta gente? Na b-boa, eu s-sozinho não d-dou c-conta. Se é p-pra me t-tratar a-assim, tem dó e m-me m-mata l-logo. A-assim não d-dá.
Javé, que como vimos há pouco já andava meio puto com aquele povo, respondeu:
— Puta que pariu, Moisés, que cê quer que eu faça? Cê não tá agüentando liderar o povo sozinho? E por que não falou antes, porra? Seguinte: Você vai reunir setenta homens competentes, escolhidos dentre os mais respeitados dos israelitas. Então você os levará até o Tabernáculo, eu virei falar com você e darei a eles um pouco do talento que dei a você, para que o ajudem nesse trabalho. Quanto a esse povo aí, cê vai falar pra eles tomarem um bom banho e vestirem suas melhores roupas. É carne que eles querem? Pois pode dizer que amanhã eles vão comer carne. Não vão mais lembrar do quanto era bom no Egito, porque aqui será melhor. E vão comer carne amanhã, e depois, e a semana toda. Ah, quer saber? Eles vão comer carne sem parar por um mês, até que comece a lhes sair pelos narizes e que peguem nojo de carne. E vão ter que comer, hein? Se não comerem, enfio-lhes cu adentro. Esse povinho bunda só aprende assim mesmo…
— Ô Ja-Javé, não vi-viaja. E-estou le-levando 600 mil ho-homens adultos, s-sem contar m-mulheres n-nem c-crianças. O-onde é q-que eu v-vou achar t-tanto bi-bicho pra m-matar e d-dar c-carne por um m-mês a e-esse p-povo t-todo?
Moisés, cê tá me tirando??? Tá achando que eu sou suas negas? Eu sou é deus, tá me ouvindo? DEUS!!!
— Tá, tá, c-calma… S-santa…
— O QUE VOCÊ DISSE???
— N-nada n-não.
— Humpf. Some da minha frente antes que eu acabe com a tua raça. Vai logo escolher os setenta líderes.
E assim fez Moisés, que não era besta nem nada, tratou logo de escolher seus auxiliares. Uma vez escolhidos, foram todos reunir-se ao redor do Tabernáculo. Então deus veio, deu uma olhada, fez uns passes de mágica e pronto: Os líderes adquiriram os talentos de Moisés. Começaram até a falar gaguejando, mas isso só por um tempo.
Acontece que dois dos ajudantes que Moisés havia escolhido — chamados Eldade e Medade — acharam melhor ficarem em casa do que irem até aquela reunião chata no Tabernáculo. Apesar disso, começaram a gaguejar também. Um moleque dedo-duro que viu o que acontecia foi correndo contar o que estava acontecendo a Moisés. Josué — de quem não ouvimos falar há muito tempo, mas que continuava como ajudante de Moisés — não se conteve:
— Aí, Seu Moisés, os caras tão te imitando lá no acampamento. Vai deixar? Vai deixar?
— P-porra J-Josué, n-não e-enche. Se c-cada g-gago que t-tiver no m-meio do po-povo vier me a-ajudar, e-eu quero mais é q-que t-todo mundo s-seja g-gago. Hu-Humpf.
Enfim, apenas um incidente sem importância, e voltaram todos para suas barracas.
No dia seguinte logo pela manhã começou uma ventania repentina, seguida pelo barulho de coisas caindo. O que é? O que será? Cada um saiu de sua tenda para ver, estupefato, codornas sendo trazidas pelo vento e caindo por todo lado. Era codorna que não acabava mais: se espalharam por uma área de uns 900 km², formando pilhas que chegavam a um metro de altura. Por dois dias inteiros o povo todo trabalhou catando codornas, e não houve um que juntasse menos de uma tonelada. E assim começaram a comer carne até enjoar.
Pois vejam só, Javé cumpriu sua promessa. Que deus bom, não? Isso é que é deus, o resto é conversa!
Hum… Não é bem assim. Porque ainda havia muita codorna pra se comer quando Javé teve um de seus inexplicáveis ataques de ira e castigou os israelitas com uma epidemia. Muitos morreram, e aquele lugar foi batizado de Quibrote-Ataavá, que em hebraico significa “As Sepulturas do Desejo”. Aliás, belo nome para um filme de terror pornô.
De uma forma ou de outra, serviu para o povo calar a boca por um tempo. Saíram dali em silêncio e foram acampar num lugar chamado Hazerote.

Desculpem, esqueci que para alguns leitores eu tenho que deixar tudo bem explicadinho, mastigar todas as informações, senão eles não entendem. É o seguinte: Eu disse que o CAPÍTULO ORIGINAL é engraçadíssimo. O ORIGINAL, não falei nada da minha versão. Aliás, eu disse até que corro o risco de escrever uma versão MENOS ENGRAÇADA QUE A ORIGINAL.
Além disso, se vocês lerem o título do último post, verão que ele conta apenas os TRÊS PRIMEIROS VERSÍCULOS do 11º capítulo do livro de Números. Mas mesmo que não reparem nesse detalhe, eu creio (corrijam-me se estiver errado) ter deixado BEM CLARO que haverá uma CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO.
Entenderam? Não prometi escrever nada engrçado, só disse que o capítulo 11 é engraçado. Só isso! E escrevi só o comecinho, ainda falta um pedação. Tá bom? Ficou claro agora? Cabecinhas doendo? Não? ÓTIMO!
(É por gente assim que às vezes eu perco o tesão de escrever esta merda…)

Falei em Taberá no final do último capítulo, né? Então. No meio da jornada do deserto, como era de se esperar, o povo começou a chiar. E Javé, que não andava no melhor dos humores, jogou a ponta de seu baseado aceso no meio deles, começando um incêndio numa das pontas do acampamento. Imaginem o deus-nos-acuda rebuliço: Os israelitas corriam de um lado pro outro feito baratas tontas, até que um deles teve a idéia de ir falar com o líder. Moisés, já conhecedor dos ataques histéricos de Javé, foi direto:
— Ô, Ja-Javé. M-menos.
— Porra… Esses caras só reclamam, sempre o mesmo nhenhenhém!
— Mas é o p-povo que v-você e-escolheu…
— Droga. Tá bom, tá bom, já apaguei o incêndio, pode ver lá. Mas que não se repita.
Devido a esse episódio o lugar onde estavam acampados recebeu o nome de Taberá, que é “incêndio” em hebraico.
Depois de uma dessa, o povo deveria ficar um tempinho na miúda, né? Mas não foi o que aconteceu, como veremos na continuação.

O povo não agüenta mais ficar parado na planície do Sinai esperando alguma coisa acontecer. Sabedor disso, deus orienta Moisés nos últimos preparativos para a partida:
— Moisés, eu quero que você faça duas trombetas de prata.
— V-vai m-montar um n-naipe de m-metais, Ja-Javé?
— Mané naipe de metais, vê lá se eu tenho tempo pra essas coisas! Essas trombetas vão servir pra reunir o povo. Quando as duas forem tocadas ao mesmo tempo, todo o povo virá para a entrada do Tabernáculo. Quando só uma for tocada, é sinal para reunião do staff, apenas os chefes dos grupos virão.
— S-só i-isso?
— Não, tem mais. As trombetas servirão também para sinalizar a partida da caravana, pra não embolar todo mundo e virar aquela zona. Então quando vocês forem levantar acampamento, as trombetas deverão ser tocadas assim: Pá-pá-pá-pá. Ao ouvirem esse som, as tribos acampadas no lado leste deverão sair. Aí as trombetas serão tocadas novamente: Pá-pá-pá-pá, e então será a vez das tribos acampadas ao sul, e assim por diante, seguindo a seqüência determinada.
— T-tá. M-mas co-como é que o p-povo v-vai sa-saber q-quando é pra v-vir se r-reunir aqui e q-quando é pra p-preparar a p-partida?
— Ah, bem lembrado: Eles vão saber pela diferença do toque. O toque para reunião do povo será mais longo, algo assim: Parapapáaaaaaaaaaaaaa. Entendeu?
— E-entendi. P-p-p-p-parap-p-pa-páaaaa.
— Hum. Ainda bem que não vai ser você o corneteiro, ia demorar pra caralho…
— Hu-humpf… Q-quem vai t-tocar as t-trombetas?
— Pois é, acho que vou deixar isso pros filhos de Arão.
— T-tá bom. S-só i-isso?
— Tá apressadinho hoje, Moisés? Calma, cês já tão aqui há mais de um ano, meia horinha não vai fazer diferença. Se você continuar assim vou te dar uma boa sugestão do que fazer com as duas trombetas cruzadas…
— …
— Assim que eu gosto. Bom, as trombetas serão tocadas também durante a batalha. Porque, sabe como é, eu gosto de tirar meus cochilos e pode ser que eu esteja dormindo na hora que vocês estiverem guerreando. Aí os sacerdotes tocarão as trombetas bem alto, para garantirem que eu esteja acordado para acudir vocês. E nas festas as trombetas também deverão ser tocadas, que é pra eu lembrar que é dia de festa e botar uma roupa maneira. Beleza?
— B-beleza.
— Então já manda uma mala direta pra todo mundo explicando o negócio das trombetas, que amanhã mesmo cês vão picar a mula daqui.
E assim fez Moisés. No dia seguinte, a fumaça sumiu de cima do Tabernáculo.
— A-Arão, o Ja-Javé apagou o b-baseado. F-fala p-pros s-seus fi-filhos co-cornetarem pra a-avisar o po-povo da p-partida.
— Podexá. Ô, seus songo-mongos! Ao meu sinal, toquem Pá-pá-pá-pá.
— Em que tom, pai?
— Como assim, em que tom? Porra, sei lá. Sol.
— Maior ou menor?
— QUE IMPORTA O TAMANHO??? Toquem logo e não torrem!
Então os filhos de Arão tocaram as trombetas em qualquer tom. Eles não tiveram tempo para tomar aulas de música, então vocês podem imaginar o sonzinho de taquara rachada que saiu. Mas o povo já estava preparado, e todos começaram a marcha seguindo a ordem estabelecida: Primeiro saiu o grupo que marchava sob a bandeira da tribo de Judá, acampados a leste. Então o Tabernáculo foi desarmado e os gersonitas e meraritas saíram carregando a tenda. Depois foi a vez do grupo da tribo de Rúben, seguidos pelos coatitas, que carregavam os objetos sagrados do Tabernáculo. Esse intervalo era importante, para que quando os coatitas chegassem ao novo acampamento já encontrassem os gersonitas e meraritas com a tenda armada. Sem trocadilhos, por favor. Bom, depois dos coatitas partia o grupo da tribo de Efraim, e por último o grupo de Dã.
Dã.
Dãaaaa.
Dã!
Hehehe.
Tá, parei.
Bom, no meio daquela multidão toda Moisés encontrou Hobabe filho de Jetro, e midianita assim como ele.
— Ô cu…
— Hã?
— Ô c-cu…
— OLHA O RESPEITO, MOISÉS! TE QUEBRO A CARA! JÁ NÃO BASTA COMER MINHA IRMÃ???
— D-deixa eu t-terminar, p-porra! Ô c-cu-cuuuu-cunhado…
— Ah, bom.
— A ge-gente tá i-indo prum l-lugar aí que Ja-Javé p-prometeu. E-ele p-prometeu também f-fazer de I-Israel uma n-nação g-grande e ri-rica. Q-quer ir c-com a ge-gente?
— Hum… Nah. Cês são tudo sem terra, eu não participo desses movimentos comunistas. Vou voltar lá pra Midiã, que lá eu tenho minha casinha, minha vidinha…
— M-mas que b-bobagem, r-rapaz! V-você precisa s-sonhar a-alto! O-olha, v-vamos fazer o s-seguinte: v-você é um c-cara que c-conhece muito bem o d-deserto. Se v-você topar ser n-nosso g-guia, q-quando ch-chegarmos a C-Canaã vou a-arrumar um p-pedaço b-bom de t-terra pra v-você.
— Ué, mas vocês não vivem dizendo que esse deus aí vai guiar vocês pelo deserto e coisa e tal?
— Hum. É, a ge-gente d-disse. Mas, c-cá e-entre n-nós: n-não c-confio m-muito no Ja-Javé. Capaz de e-ele se p-perder e a-atrapalhar n-nossa viagem. E aí, v-você vem ou n-não?
— Bah. Vamos aí, vai. Tô precisando mesmo viajar um pouco.
— I-isso aí, Ho-Hobabe! V-você não vai se a-arrepender.
— Espero mesmo.
E foi assim a partida do povo de Israel, depois de um ano no Sinai, agora com um guia para auxiliá-los na longa jornada até Canaã. Além do guia, tinham também a fumaça do baseado de deus, que ia à frente do povo. Essa primeira etapa da viagem foi uma caminhada leve de três dias. Toda vez que eles levantavam acampamento Moisés dizia:
— A-acorda, Ja-Javé do céu / q-que a t-trombeta já t-tocou / O p-povo já tá s-saindo / E vo-você ainda n-não a-acordou.
E quando resolviam acampar nalgum lugar, cantava outra musiquinha:
— B-bicho papão / S-sai de ci-cima do t-telhado / De-deixa o Ja-Javé / D-dormir s-sossegado.
E a viagem foi assim, feliz e harmoniosa. Pelo menos por um tempo. Porque quando o povo chegou em Taberá… Bom, depois eu falo de Taberá.