Não. De uma vez por todas: Os levitas NÃO SÃO caras que levitam. Levitas são os descendentes de Levi, filho de Jacó. Dito isso, vamos em frente.
O terceiro capítulo começa dizendo que Arão tinha quatro filhos: Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar. Nadabe e Abiú, como já vimos, foram mortos por deus num ataque de baitolagem congênita. Eles não tinham filhos, então Eleazar e Itamar serviram como sacerdotes durante a vida de Arão. Guardaram bem isso? Mas bem mesmo? Então tá. Podem esquecer, que não vai servir pra nada.
Bom, então deus chamou Moisés e Arão:
— E aí, seus songo-mongos. Lembra que eu falei que os levitas seriam dedicados ao serviço do Tabernáculo?
— T-toda hora cê f-fala isso, Ja-Javé.
— Falo quantas vezes eu quiser. Oras. Então é o seguinte: Cês vão chamar os levitas e dizer a eles que acabou a vida mansa: a partir de agora eles são funcionários de deus. Vão cuidar de tudo que for relativo ao Tabernáculo. Qualquer não-levita que resolver trabalhar aqui será morto.
— …
— Ué! Não vão reclamar? Não vão falar que condenar uma pessoa à morte por uma bobagem dessas já é demais?
— Nah. Já estamos acostumados.
— Isso aí! Assim que eu gosto. Mas deixa eu explicar esse lance dos levitas: Quando eu tirei vocês do Egito, matei todos os primogênitos egípcios, tão lembrados? Então. Aí depois eu disse que todos os primogênitos do povo de Israel seriam dedicados a mim, assim como as primeiras crias de todos os animais. Lembram disso?
— C-claro.
— Então eu tava pensando: Controlar isso vai ser um inferno. Então vamos fazer assim: Os levitas serão dedicados a mim no lugar dos primogênitos, e seus animais todos serão dedicados em vez das primeiras crias dos animais do povo.
— Boa saída.
— Eu sou foda, Arão. Mas para fazer esse negócio direito, vou precisar de uma ajuda de vocês…
— Ai… Lá v-vamos nós c-contar m-macho de no-novo…
— Como é que cê adivinhou??? Pois é. Cês vão contar todos os levitas com mais de um mês de idade.
— Com mais de um mês??? Puta merda, vai dar um trabalho do cão isso aí.
— Não chia…
— Tá. E depois?
— Façam a contagem primeiro. Depois a gente vê.
Então Arão e Moisés começaram a contar os levitas. Para facilitar o trabalho, dividiram a tribo em três grupos. Essa divisão foi feita baseada na genealogia de Levi, que teve três filhos: Gérson, Coate e Merari. Então assim foram divididos os levitas, de acordo com o filho de Levi do qual descendiam: gersonitas, coatitas e meraritas. Não reclamem, eu não inventei esses nomes. A contagem ficou assim (o Excel tem sido uma mão na roda pra escrever o livro de Números):

O chefe desses três líderes aí em cima era o Eleazar, filho de Arão. E a distribuição desse povo ficaria assim: Os gersonitas acampariam atrás da tenda (que ficava a oeste), coatitas ao sul, meraritas ao norte e as famílias de Moisés e Arão ao leste, que era onde ficava a porta do Tabernáculo.
Bom, dadas todas essa informações profundamente inúteis, resta dizer que os dois foram levar o resultado da contagem para Javé. E ele, claro, já inventou outra coisa para eles fazerem:
— Bom. Muito bom. Agora cês vão fazer outra coisinha: Contar todos os primogênitos do povo com mais de um mês de idade. Quantos levitas vocês contaram?
— Vinte e dois mil e trezentos.
— Pois bem. Se o número de primogênitos for maior que o número de levitas (e eu tenho quase certeza que é), você, Moisés, pagará a Arão e seus filhos cinco moedas de prata para cada primogênito excedente.
— P-por que eu???
— Bah! Arão, cê tá de acordo?
— Claro.
— Dois a um, votação encerrada.
— M-mas…
— Mas nada. Vão lá contar os caras, que eu tenho pressa.
Os dois foram fazer a contagem e voltaram com um resultado não muito bom.
— 22.273?
— É. T-tem mais le-levita que p-primogênito. E a-agora?
— Ué, quem falou que tem mais levita que primogênito? São 22.273 primogênitos contra 22 mil levitas.
— V-vinte e d-dois mil e t-trezentos!
— Que porra é essa? Luiz Gonzaga? “Eu lhe dei vinte mil réis/Pra pagar três e trezentos/Você tem que me voltar…”
— V-VINTE E D-DOIS M-MIL E T-TREZENTOS!
— Não, não é assim a música.
— N-não tô fa-falando da m-música! N-nós contamos 22.300 le-levitas!
— Foi mesmo? Pra mim eram 22 mil. Arão, cê lembra quantos levitas eram?
— Hum… 22 mil. Tá aqui, ó.
— A-Arão, cê t-tá r-roubando!
— Porra, Moisés, cê já tá bem velho pra ficar brigando com seu irmão por causa de bobagens. Paga logo pro Arão a prata correspondente aos 273 primogênitos a mais. Sendo cinco moedas de prata por cada um… Quanto dá isso, Arão?
— Arredondando, dá quinze quilos e meio.
— Legal. Moisés, pesa a prata aí e paga seu irmão.
— M-mas…
— TÔ MANDANDO, PORRA!
Moisés, sabendo que não valia a pena discutir, saiu para pesar a prata.
— HAHAHAHAHA! Boa essa, Javé!
— Eu sou o melhor, Arão! Então, vamos dividir essa prata aí. 60% pra mim, 40% pra você e seus filhos.
— Porra, Javé. Por que não meio a meio?
— E por que não fulminar você com um raio agora mesmo?
— …
— Sabia que você ia concordar.

Na tarde do dia posterior ao recenseamento, Moisés e Arão foram até o Tabernáculo para falar com deus.
— Boa tarde, Javé.
— Opa. E aí, tudo beleza?
— T-tudo certo. O q-que vo-você q-quer da ge-gente a-agora?
— Ah, um outro censo. Eu quero que vocês contem os grãos de areia do deserto.
— HEIN????
— Hehehe. Brincadeira, Arão. Relaxa. Eu chamei vocês aqui pra falar um pouco sobre a ordem no acampamento. Tá uma zona isso aí, cada um acampa onde quer, assim não dá.
— Ah, mas ontem cê falou aquele lance de cada um acampar perto da bandeira de sua tribo. Já vamos implantar isso aí.
— Muito bom, mas não basta. Cês têm que acampar numa certa ordem, que é pra quando chegarem a Canaã já terem uma estratégia de invasão. Então fiz esse esqueminha aqui. Não reparem não, é só um rascunho pra dar uma idéia de como será a distribuição das tribos pelo acampamento:

— A-até que t-tá bem f-feitinho, Ja-Javé.
— Valeu, Moisés. Bom, cês dois são meio burros, então deixa eu explicar algumas coisas: As letras nos quatro lados são os pontos cardeais. Leste, Oeste, Norte, Sul. O “T” no centro é onde vai ficar o Tabernáculo. A área hachurada é onde os levitas vão acampar. Tão entendendo?
— Claro.
— F-fácil.
— Tá. Então como vocês podem ver, dividi os homens das doze tribos em quatro exércitos. Aqui ao leste vai acampar o exército de Judá, formado pelas tribos de Judá, Issacar e Zebulom. As três tribos juntas perfazem um total de… Moisés, cadê o resultado do censo? Obrigado. Deixa eu ver… Um total de 186.400 homens. Esse exército é muito importante, porque será o primeiro a marchar quando vocês levantarem acampamento. O segundo exército a marchar será o de Rúben, acampado ao sul do Tabernáculo e formado por Rúben, Simeão e Gade, num total de 151.450 homens.
— Tá, Javé. Já entendemos. Os exércitos vão sair em sentido anti-horário, fácil: Judá, Rúben, Efraim e Dã. Não precisa explicar.
— Ah, é? E os levitas, Arão? Vão ficar pra trás?
— …
— Cê se acha muito esperto… Melhor calar a boca e prestar atenção, que depois cês vão ter que explicar tudo isso pro povão lá fora. Bom, depois do exército de Rúben, sairão os levitas carregando o Tabernáculo desmontado. Os levitas marcharão no meio dos exércitos, para ficarem bem protegidos. Aí sim, depois dos levitas marchará o exército efraimita de 108.100 homens das tribos de Efraim, Manassés e Benjamim. Por último, o exército de Dã, formado pelos 157.600 homens das tribos de Dã, Aser e Naftali. Entenderam?
— S-sim, Ja-Javé. M-mas p-por que essa c-coisa toda?
— Porque vocês têm que começar desde agora a se preparar para a tomada de Canaã. E isso vai exigir estratégia e disciplina militar dos seus homens.
— E-então acabou a-aquele p-papo de ri-rituais e c-coisa e tal?
— Claro que não! Eu quero garantir que vocês vão puxar bastante o meu saco. Mas não vai adiantar nada se não tiverem uma terra para morar, por isso tenho que dar uma aliviada na parte de religião por enquanto, pra enfatizar assuntos militares e políticos. Mas logo logo eu passo outras leis para vocês, podem esperar.
— S-saco…
— Não chia.

Terminado todo aquele lenga-lenga de leis e castigos do Levítico, Moisés e Arão resolveram descansar um pouco. Merecido descanso, diga-se: Imaginem o stress de lidar diariamente com uma divindade com alma de prima donna.
Mas é claro que Javé não ia deixar os dois descansarem por muito tempo. Uma noite estavam os dois jogando Doom em rede (ainda não existia Counter Strike naquela época), quando Moisés ouviu o inconfundível “Oh-oh” do ICQ. Era deus:

O fodão (08:45 PM) :
E aí, Moisés. Blz?
Moisa (08:45 PM) :
Blz.
O fodão (08:47 PM) :
Jogando Doom, né?
Moisa (08:48 PM) :
Como cê sabe?
O fodão (08:48 PM) :
Eu sei tudo. Eu sou é deus, porra. DEUS!
Moisa (08:48 PM) :
É, tô ligado. Que que manda, Javé?
O fodão (08:52 PM) :
Pois é, rapaz… Tava pensando num negócio aqui. Acho que seria importante a gente fazer um censo aí no acampamento, ver quantos homens em idade para o serviço militar nós temos.
Moisa (08:52 PM) :
Ué, pra quê?
O fodão (08:55 PM) :
Oras, pra quê! Cê acha que entrar em Canaã vai ser um passeio? Vai ser pedreira o negócio lá, os caras não vão entregar as terras deles de graça pra vocês. Cês vão ter que guerrear.
Moisa (08:56 PM) :
É, faz sentido. Mas então cê quer que eu e o Arão contemos o povo todo, é isso?
O fodão (09:00 PM) :
Porra, Moisés, cê tem uma puta imagem negativa a meu respeito. Nunca que eu ia botar dois velhos caducos feito vocês pra fazerem esse trabalho sozinhos. Escolhi um cara de cada tribo pra ajudar vocês. Quer anotar?
Moisa (09:01 PM) :
Não preciso anotar, porra. ICQ tem histórico.
O fodão (09:08 PM) :
Ah, é. Então lá vai:
Ruben – Elisur, filho de Sedeur
Simeão – Selumiel, filho de Zurisadai

Moisa (09:08 PM) :
Eita nomezinhos… rs…
O fodão (09:13 PM) :
Moisés, esse negócio de “rs” me irrita profundamente. Deixa eu continuar essa porra…
Judá – Nasom, filho de Aminadabe
Issacar – Netanel, filho de Zuar
Zebulom – Eliabe, filho de Helom
Efraim – Elisama, filho de Amiúde

Moisa (09:13 PM) :
Peraí! Sério que o nome do pai do cara é Amiúde?
O fodão (09:18 PM) :
Pois é, não sei de onde tiraram esse nome. Deve ser daquela música do Zé Ramalho. Mas pára de me interromper, caralho…
Manassés – Gamaliel, filho de Pedasur
Benjamim – Abidã, filho de Gideoni
Dã – Aiezer, filho de Amisadai
Aser – Pagiel, filho de Ocrã
Gade – Eliasafe, filho de Deuel
Naftali – Aira, filho de Enã
Pronto, são esses.

Moisa (09:20 PM) :
Legal. Então, quando começamos?
O fodão (09:20 PM) :
Com assim “quando”??? Amanhã mesmo!
Moisa (09:20 PM) :
Bah.
O fodão (09:21 PM) :
Não reclama… Ô, Moisés. Gosto de falar com você pelo ICQ.
Moisa (09:21 PM) :
É mesmo? Por quê?
O fodão (09:25 AM) :
Porque aqui pelo menos você não gagueja. Sua gagueira me irrita… Bom, vou nessa. Té mais.
Moisa (09:26 PM) :
Falô.

— Ô A-Arão!
— Quié?
— P-pára de a-atirar em m-mim, po-porra! O Ja-Javé tem um t-trabalho p-pra n-nós.
— Mas já??? Que trabalho?
— P-peraí que v-vou t-te m-mandar o hi-histórico do ICQ… R-recebeu?
— Vixe. Contar macho? E ainda com a ajuda de um monte de nego com nome esquisito? Trabalhinho feladaputa…
— P-pois é. M-mas cê v-vai q-querer di-discutir com o c-cara?
— Eu não.
— N-nem eu. B-bom, vou d-dormir. A-amanhã va-vamos precisar a-acordar b-bem ce-cedo.
— É, também vou.
No dia seguinte, Moisés, Arão e os doze chefes tribais reuniram o povo e começaram a contagem e cadastramento de todos os homens com mais de vinte anos. Findo o trabalho, tinham nas mãos este resultado:

— U-ufa… D-demorou mas t-terminamos.
— É. Hum… 603.550 homens. É homem a dar com o pau. Mas… Moisés, não tá faltando nada não?
— A-acho que n-não.
— Claro que tá! Cadê a nossa tribo? Esquecemos de contar os levitas!
— A-ai ca-caralho… P-peraí, vou li-ligar pro Ja-Javé… Alô, Ja-Javé?
— Fala, Moisés.
— Sa-sabe a-aquela li-lista que cê me pa-passou?
— Sei. Que tem ela?
— Cê e-esqueceu de i-incluir os le-levitas nela.
— Esqueci nada, Moisés. Cê não lembra daquele negócio que a gente combinou sobre a tribo de Levi? Que eles não iam ter um território para eles em Canaã, porque vão ser totalmente dedicados ao trabalho do Tabernáculo? Putz, isso deu uma trabalheira, tive até que dividir a tribo de José em duas, Efraim e Manassés, para permanecerem doze tribos no mapa. Mas então: Os levitas são sacerdotes, não soldados. Eles não vão lutar quando vocês chegarem a Canaã, então não precisam ser contados.
— Ah… E-entendi.
— Eu não dou ponto sem nó, Moisés. Mas avisa pros levitas que nem por isso a vida deles vai ser mole. Quando a tenda tiver que ser desarmada pra vocês viajarem, os levitas farão esse trabalho, assim como a rearmação dela quando acamparem novamente. E ao contrário dos outros israelitas, que acamparão cada um perto da bandeira de sua tribo, os levitas vão acampar ao redor do Tabernáculo, para guardá-lo.
— T-tá bom e-então.
— Mais alguma dúvida?
— N-não.
— Então já tá pronto o censo?
— J-já.
— Assim que eu gosto, Moisés! Eficiência. Bom, então já podemos partir pra outras atividades.
— Q-que que é a-agora?
— Ah, vai descansar um pouco. Vai com o Arão até o Tabernáculo amanhã à tarde, aí a gente conversa.
— Be-beleza.
— Até amanhã, Moisés.
— T-tchau.

Números é o quarto livro da Bíblia. Tem esse nome porque nele existem dois censos, um feito no segundo ano depois da saída do Egito e outro, já perto do final, quando os israelitas estavam prestes a chegar a Canaã. Entre os dois censos, muitas historinhas interessantes, que eu espero que rendam mais caldo do que aquela monotonia sem fim do Levítico. E que eu termine logo, porque o livro seguinte, Deuteronômio, é uma pedreira quase tão dura quando o Levítico, ainda mais por causa das repetições.

— Pois então, meus filhos, é isso aí.
— A-acabou, Ja-Javé?
— Quase. Só falta uma coisinha… Esse negócio todo que eu falei pra vocês precisa de infraestrutura. E pra termos infraestrutura, precisamos de dinheiro. Então pra encerrar de vez, vamos ver aqui um jeito desse negócio de Tabernáculo, sacrifícios, leis e o diabo a quatro dar dinheiro. Hum… Por exemplo, as pessoas podem se dedicar ao serviço do Tabernáculo. E quem fizer esse tipo de compromisso, além de trabalhar de graça, vai ter que pagar pra se libertar.
— Bah, Javé! Quem é que vai entrar numa fria dessa?
— Vai por mim, Arão. É só dizer que é um negócio sagrado, que á para o serviço de deus; insinuar que isso trará recompensas na outra vida, e pronto: Vai fazer fila de neguinho aí na porta do Tabernáculo, todo mundo doido pra se dedicar a deus.
— Hum… Mas e aí, suponha que o cara resolva que não quer mais? Vai ter que pagar quanto?
— Boa pergunta. Bora fazer uma tabela, peraí. Hum… Hum… Pronto, taí:
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— O q-que s-são e-esses n-números?
— Moedas de prata. Por exemplo, se um cara de 25 anos se dedicar ao trabalho do Tabernáculo e depois perceber que é roubada, só poderá sair pagando 50 moedas de prata.
— Mas Javé… Isso aí dá mais de meio quilo de prata. É uma boa grana.
— A idéia é essa, Arão. Precisamos de dinheiro. Se o cara não tiver essa prata toda, podemos até quebrar um galho: Ele vai, bate um papo com o sacerdote, e aí os dois acertam um preço que o cara possa pagar. Mas de graça é que não vai sair.
— Saquei. Então vai ser essa nossa fonte de receita?
— Sim, mas não a única! Tô bolando outras coisas aqui. Olha só: Se alguém prometer um animal que pode ser oferecido em sacrifício, o bicho passa a ser considerado sagrado. A partir do oferecimento, não poderá ser trocado por outro melhor ou pior. Se o cara quiser dar uma de espertinho e trocar, os dois animais passam a ser dedicados a mim.
— B-boa e-essa…
— Eu sou foda, Moisés. Mas continuando: Se o animal que o cara for oferecer for impuro, então levará o bicho ao sacerdote, que avaliará o preço de acordo com sua condição. Se o dono quiser comprar o bicho de volta, deverá pagar esse preço mais vinte por cento.
— Pô, mas pra que a gente vai querer um animal impuro, que não se pode oferecer em sacrifício nem comer?
— Oras, o quê! Vender para os estrangeiros! Ganhar dinheiro!
— Espertinho você…
— Espertinho é porra nenhuma, eu sou é deus! E vamos em frente: Se um fulano aí resolver que quer dedicar sua casa a mim, o sacerdote fará a avaliação da casa e pagará o preço. Se o cara quiser a casa de volta, pagará este preço acrescido de vinte por cento.
— T-taxa p-pesada, hein?
— Claro, Moisés! Senão fica fácil! E olha que ainda tem mais: Se alguém quiser oferecer um terreno que recebeu de herança, o sacerdote avaliará a terra de acordo com a quantidade de sementes necessárias para semeá-la. O valor será de 570 gramas de prata para cada cem quilos de cevada.
— Pô, então vai dar pra ganhar uma grana com isso aí.
— Nem sempre, porque esse será o preço máximo possível. Porque preço final será calculado de acordo com o tempo que falta para o próximo Jubileu, percebe?
— Ah, faz sentido.
— Pois é. E aí se o cara quiser o terreno de volta, a mesma pataquada de sempre: o preço mais vinte por cento.
— M-mas aí no p-próximo Ju-Jubileu o t-terreno v-volta pro do-dono, n-né?
— Claro que não! Só me faltava essa… No Jubileu o terreno passa a ser definitivamente dos sacerdotes. Precisamos de patrimônio, Moisés! O cara só vai ter direito ao terreno no Jubileu no seguinte caso: Ele oferece a terra ao sacerdote, e paga o preço estipulado.
— Peraí! O cara vai pagar para dar o terreno pra gente???
— Não, oras! Vai pagar pelo direito de ter o terreno de volta no próximo Jubileu.
— Que sacanagem…
— Ixe, cê ainda não viu nada… Vamos continuar. Bom, a primeira cria dos animais não poderá ser oferecida a mim porque, como vocês sabem, já é minha segundo a lei. A não ser, é claro, no caso da primeira cria de animais impuros. Com essas a gente até faz negócio.
— Zóio de lula, hein, Javé?
— Porra, Arão, tô ajudando vocês! Sacerdote vai ter a vida mansa com essas leis aí. Ainda mais que a gente vai cercar essas coisas dedicadas a mim de uma aura sagrada e coisa e tal. Nego vai respeitar muito isso aí, e vocês vão ficar numa boa. E ainda tem o dízimo…
— T-tava de-demorando…
— Ô, Moisés, não tem coisa mais eficiente pra se ganhar dinheiro do que o dízimo! É proporcional, todo mundo pode dar, uma beleza! Dez por cento de todas as colheitas e de todos os rebanhos serão dedicados a mim. Ou seja, vai pros cofres do Tabernáculo. Putz, essa religião nova aí vai ser um sucesso, cês vão ver!
— Se-será m-mesmo?
— Pode acreditar, Moisés! E se alguma coisa der errado, eu mando meu fi…
— M-manda q-quem?
— Er… Meu fi… Meu fisioterapeuta, já falei dele. Oras. Bom, acho que podemos parar por aqui. Muito obrigado a vocês, viu? Me ajudaram bastante.
— Bom, então quer dizer que acabou?
— Acabou nada! Cês podem tirar umas férias, descansar um pouco. Mas ainda tenho muito o que falar com vocês.
— Quando?
— Pode deixar que eu telefono.

— B-bom, Ja-Javé. V-vamos co-continuar?
— Vamos sim, Moisés. Mas antes eu quero dar uns toques aí pra vocês. Só reforçando umas coisinhas. Seguinte: Não façam imagens para adorarem. Guardem o sábado e respeitem o lugar de adoração.
— Javé, cê não acha que já falou bastante isso aí?
— Eu falo quantas vezes eu achar necessário. Eu sou é DEUS, porra! Arão, prestenção no que eu tô falando e fica quieto. Humpf. Bom, continuando: Se vocês me obedecerem direitinho, vão ter uma vida boa bagarai. As colheitas de vocês serão boas demais, tão boas que ainda estarão colhendo cereais quando chegar o tempo das uvas, e colhendo uvas quando chegar o tempo de semear os campos. Vocês viverão em paz, dormirão sossegados. Ninguém vai incomodar vocês. Nada de inimigos nem de animais selvagens. E se alguém mexer com vocês, será derrotado facilmente.
— Q-que be-beleza, hein Ja-Javé?
— Bota beleza nisso! Olha, as colheitas vão ser tão grandes que vocês vão ter que jogar fora o trigo velho pra poder armazenar o novo. Eu vou ser camarada de vocês, amigão mesmo. Vamos assistir futebol juntos no fim-de-semana. Jogar dominó e truco. Tomar umas. Vai ser muito bom. Porém…
— Ai ai…
— Pois é. Porém, se vocês resolverem me desobedecer, tão fodidos. Vou mandar doenças pra vocês. Não vai adiantar nada plantar, porque seus inimigos é que vão comer os alimentos produzidos pela sua terra. Eu vou ficar de mal de vocês e farei com que os inimigos os derrotem. E se mesmo assim vocês continuarem me desobedecendo, mandarei um castigo sete vezes pior. Acabarei com a força de vocês, não vou mais mandar chuva e o chão vai ficar duro. Vocês vão trabalhar o quanto quiserem, porque o campo não vai produzir nada. Quem sabe assim vocês se arrependem. Mas se não se arrependerem, tudo bem.
— Tudo bem? Opa!
— Tudo bem pra mim, é claro. Porque pra vocês o bicho vai pegar. Vou mandar animais selvagens invadirem as cidades de vocês. Eles vão matar seus filhos, vão acabar com seu gado. E se vocês continuarem teimando, o negócio piora: Vou mandar seus inimigos atacarem vocês. E se vocês se juntarem nas cidades para escaparem deles, eu farei com que sejam atacados por doenças graves, e serão capturados de qualquer forma. Vocês vão ter bem pouca comida, a fome vai acabar com vocês. Mas se mesmo assim…
— P-peraí, Ja-Javé! Aí j-já é d-demais! Ni-ninguém a-agüenta tanto c-castigo.
— Quer apostar, Moisés? Eu sei do que tô falando, vocês são um povinho muito do sem-vergonha e cabeça dura. E continuo: Se mesmo assim vocês continuarem me desafiando, a fome será tanta que vocês vão acabar devorando seus próprios filhos. E eu vou destruir os ídolos que vocês tiverem construído, e jogarei seus corpos sobre eles. Destruirei suas cidades e templos, e não aceitarei os sacrifícios de vocês. Vou arrasar tanto a terra de vocês que quem vier ocupá-las depois ficará até assustado. A guerra vai acabar com tudo, e vocês serão espalhados pelas outras terras. A terra de vocês vai ficar abandonada.
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve é o cacete, ainda não terminei. Mesmo os que sobreviverem em outras terras não terão paz: Viverão com medo, assustados com qualquer barulhinho. Vão fugir mesmo sem que ninguém os persiga. Vão morrer em terras estrangeiras e lá serão enterrados.
— P-putz… Q-que t-triste i-isso, Ja-Javé.
— Eu sei, eu sei. Mas não se desespere tanto assim! Porque os descendentes de vocês vão se arrepender e voltar a obedecer minhas leis. Aí eu vou me lembrar do acordo que fiz com Abraão, Isaque e Jacó, e de como tirei vocês do Egito.
— Opa, Javé. Eles vão se arrepender? Cadê a condicional??? Quer dizer que essa desgraceira toda vai acontecer mesmo? Nossos descendentes vão sofrer tudo isso?
— Er… Hum… Veja bem…
— Fala, porra!
— Nah. Só um erro de construção de frase. Tô cansado, sabe…
— Sei, sei…
— Vão por mim, vai dar tudo certo. A vida de vocês em Canaã vai ser muito boa. Uma beleza. Uma maravilha. Bacanérrima. Supimpíssima. Sensacional.
— M-menos, Ja-Javé.
— Tá, parei.

Ah, vocês já estavam achando que não tinha mais, né? Pois não se iludam, filisteus incrédulos! Depois de apedrejarem o cara lá, Moisés e Arão voltaram para o Tabernáculo para continuarem a conversa com deus.
— Aê, Ja-Javé. J-já ma-matamos o c-cara. V-vamos c-continuar? Ja-Javé? JA-JAVÉEEEEEEEEEEE!
— Te fresqueia, Moisés. O cara deixou um bilhete, olha aqui. Tá falando pra gente encontrar ele no Monte Sinai.
— N-no Si-Sinai? P-porra!
— Pois é. O feladaputa esquece que temos mais de oitenta anos, não temos mais pique pra ficar subindo montanha. Mas cê vai querer discutir com ele?
— E-eu n-não.
— Então vambora.
E os dois irmão partiram em direção ao monte. Chegaram ao topo quase mortos de cansaço.
— Ô, seus maricas! Não agüentam nem uma subidinha dessa?
— P-ra vo-você é f-fácil f-falar, Ja-Javé. V-vai pra o-onde q-quer q-quando q-quer. Co-como v-você f-faz isso?
— Ah, copiei de Star Wars. Aquele negócio lá de teletransporte que o Doutor Spock usa.
Javé mal acabara de falar quando um sujeito surgiu de trás de uma pedra. Cabelinho cuidadosamente penteado, roupinha engomada, óculos presos com um elástico na nuca.
— Aham… Perdoem-me interromper a conversa, mas tenho algumas correções a fazer. Primeiro, é Star Trek, não Star Wars. E é Senhor Spock, não Doutor Spock. Além do mais, o…
Ele não teve tempo de terminar: Foi reduzido a cinzas por um raio.
— Odeio trekkers. Ô raça. Mas onde é que a gente estava?
— Você eu não sei, Javé. A gente tava apedrejando um cara lá embaixo.
— Ah, é. Mas vamos continuar com as leis. Deixa eu ver aqui… Ah, o Ano Sabático. Seguinte: Lá em Canaã cês vão cultivar a terra normalmente por seis anos. Mas o sétimo ano será como um sábado para o solo: Vocês vão deixar a terra descansar. E será assim a cada sete anos: Nada de cultivo. E mesmo que cresça alguma coisa na terra por si só, vocês não vão poder colher.
— Péra, e a gente vai comer o quê? Maná?
— Mané maná! Chega da maná, dá um trampo danado fazer isso. Só de pensar que vou ter que mandar maná pra vocês por quarenta anos já me dá desgosto e…
— Q-QUÊ? Q-QUARENTA A-ANOS??? Cê t-tá di-dizendo que a-ainda v-vamos fi-ficar Q-QUARENTA A-ANOS va-vagando p-pelo de-deserto?
— Er… Aham… Claro que não Moisés, claro que não! Foi um erro de cálculos. Tenho que produzir maná por quarenta anos por razões contratuais, essas complicações legais, sabe?
— Hum.
— Então. Mas respondendo à primeira pergunta: No ano anterior ao Ano Sabático, a terra produzirá o suficiente para alimentar vocês no ano seguinte.
— É? E se não produzir?
— Porra, Arão, vai por mim. Eu sou é deus, tá me ouvindo? DEUS! Se eu tô dizendo que cês vão ter boas colheitas antes do Ano Sabático, é porque vão ter. Oras! E vamos em frente. Bom, cês vão contar, também a partir de quando chegarem a Canaã, sete semanas de anos.
— Se-semanas de a-anos?
— É, Moisés. Porra, não é difícil de entender. Quantos dias tem uma semana?
— Se-sete.
— Então! Uma semana de anos tem sete anos. E quantos anos são sete semanas de anos?
— …
— Sete vezes sete, Moisés!
— …
— ARGH! Arão, fala pra ele.
— Fácil! Sete vezes sete dá quarenta e sete.
— QUARENTA E NOVE!
— Bah, foi por pouco.
— Pfff… Bom. Então, quarenta e nove anos. No ano seguinte será o Jubileu.
— Po-porra, Ja-Javé, e-então p-por que não fa-fala l-logo a ca-cada ci-cinqüenta a-anos?
— Ah, quarenta e nove mais um você sabe fazer, né? Ignorante… Tá, a cada cinquüenta anos vocês terão o Jubileu. No Dia do Perdão do ano do Jubileu vocês vão mandar um homem tocar trombeta por todo o país. Vai ser uma turnê legal pro cara, e vai servir para anunciar o Jubileu. Esse será o ano da libertação: Todos os que tiverem sido vendidos como escravos voltarão para suas famílias, e todas as terras voltarão a pertencer a seus donos originais. Olha que beleza!
— Ah, uma beleza mesmo! Imagina, o cara é vendido e pensa: “Mas tudo bem, daqui a cinqüenta anos eu tô livre”…
— Má vontade sua, Arão. Se o cara foi vendido um ano antes do Jubileu, será libertado no ano seguinte.
— É, aí já é negócio.
— Tô falando, esse Jubileu é um puta negócio legal.
— É, mas tem um furo aí. Suponha que eu venda uma terra minha para o Moisés um ano antes do Jubileu. No Jubileu ele terá que me devolver a terra, certo?
— Certo.
— Puta prejuízo pro cara!
— É nada, já pensei nisso. O preço das terras será calculado com base nos anos que faltam para o próximo Jubileu. Quanto mais perto o Jubileu estiver, menor será o valor da terra.
— Boa…
— É, eu sou foda. E vamos em frente. Deixa eu ver aqui… Ah, leis a respeito de propriedades. Seguinte: Quando um terreno for vendido, seu antigo dono será o primeiro a ter o direito de comprá-lo. Se alguém ficar pobre e precisar vender parte de suas terras, um parente próximo deverá comprar de volta o que ele vendeu. Mas se ele não tiver parentes, e um dia voltar a ter dinheiro, terá prioridade na compra de suas antigas terras. E mesmo que ele permaneça na pindaíba, o terreno será devolvido a ele no ano do Jubileu.
— Q-que be-beleza! De-depois de a-apenas ci-cinqüenta a-anos!
— Não torra, Moisés, ou eu torro você.
— …
— HUMPF. Deixa eu continuar. Ah, essas leis não valem para casas que ficam em cidades muradas. Nesse caso, o antigo dono só tera prioridade de compra no primeiro ano, depois disso, bau-bau. Nem no Jubileu ele tem a casa de volta. A não ser que seja um levita, levitas têm privilégios, vocês sabem. Mas casas que fiquem em cidades sem muralhas são como terrenos, valem para elas as mesmas leis do Jubileu e coisa e tal. E é isso.
— Ah, foi rápido.
— É. Tem mais uns troços aqui, coisas sobre ajudar os pobres, não emprestar dinheiro a juros, tratar bem os escravos. Mas é tudo bobagem, passo pra vocês por email. Beleza?
— Be-beleza.
— Então vamos em frente, que falta pouco pra terminar o Levítico.

Antes que alguém estranhe: Sim, esta história tem narrador. Eu me ausento vez em quando, que é para não atrapalhar a fluidez dos diálogos. Mesmo porque fica bem claro quem está falando o quê: O prepotente e arrogante é deus, o folgado é Arão, o gago é Moisés. Mas o negócio é que às vezes eu tenho que interferir, devido a acontecimentos alheios à conversa entre os três. Como agora, por exemplo. Estavam lá os três conversando. Javé, como sempre, cagando suas regras:
— Olha só. Digam ao povo que eles devem trazer o melhor azeite para manter o candelabro aqui do Tabernáculo aceso. Você, Arão, vai acender o candelabro toda tarde, e vai mantê-lo aceso a noite toda.
— Medo do escuro, Javé? A consciência pesa quando chega a noite?
— Calaboca, Arão, que hoje eu não tô com saco pra agüentar impertinência de um velho folgado feito você. Humpf. Deixa ver aqui… Ah, tem os pão também.
— Os p-pães, Ja-Javé.
— Bah, que seje. Então. Os pão. Doze pão…
— PÃES!!!
— Tá, tá! Doze pães, pesando dois quilos cada, feitos da melhor farinha, serão colocados ali na mesa. Todo sábado o sacerdote colocará os pães arrumados em duas pilhas de seis, e queimará incenso sobre eles, que é pra todo mundo saber que os pão são dedicados a mim.
— Porra, Javé! OS PÃES!
— Cáspita, vocês pegam muito no pé com esse… Peraí. Cês tão ouvindo?
— O quê?
— Shhhhhhh… Confusão lá fora. Moisés, vai ver o que tá acontecendo.
Estão vendo? É aqui que eu entro.
Bom, Moisés foi ver o que estava acontecendo. E o lado de fora do Tabernáculo estava uma zona, um monte de gente discutindo. Uns gritos de “Pega!” daqui, “Lincha!” dali, “Capa!” dacolá. Ao verem Moisés se aproximar, no entanto, os ânimos foram se acalmando. Ninguém queria ouvir um sermão dele. Não que fosse especialmente severo: É que o cara levava horas para concluir uma frase.
— Q-que po-porra tá a-acontecendo a-a-a-aaaaa-a…
Aham
— Q-quem é A-Aham?
— Eu tava pigarreando, Seu Moisés.
— A-ah… Co-continue.
— Onde é que eu estava mesmo…?
— No p-pigarro.
— Ah, é. Aham… Seguinte, Seu Moisés: Esse cara aí, o filho da Dona Selomite, andou aprontando. Se meteu numa briga e no meio da refrega resolveu blasfemar contra o nome de deus.
— N-no m-meio d-do q-quê?
— Da refrega. Do arranca-rabo. Do pega-pra-capar. Do…
— T-tá, já e-entendi. M-mas como f-foi i-isso?
— Bom, eles tavam lá brigando. O outro cara falou alguma coisa sobre vir resolver a questão aqui no Tabernáculo, consultar a vontade de deus e tal. Aí ele respondeu um negócio lá…
— O q-quê?
— Ah, Seu Moisés. Não posso falar não.
— Fa-fala, r-rapaz. O q-que f-foi que e-ele d-disse?
— Hum… Ele disse… Er… Ele disse: “Que se foda Javé! Javé lambeu minhas bolas!”
— HAHAHAHAHA… Hum. Q-que b-blasfêmia! Vo-vou c-consultar Ja-Javé a r-repeito. Vi-vigiem o ca-cara aí.
Moisés então voltou para o Tabernáculo e contou a Javé (se esforçando para segurar o riso) o que havia acontecido.
— CUMEQUIÉ??? O CARA FALOU ISSO MESMO???
— F-foi o q-que me di-disseram…
— PUTA QUE PARIU! Que desgraçado! Mas é bom que isso aconteça, que aí a gente já bota as leis em prática. O que vocês acham que esse cara merece?
— …
— Cáspita, cês não prestam atenção mesmo, né? Não lembram que minha lei é na base do olho por olho, dente por dente? Então quem matar o animal de alguém, dará outro animal de mesmo valor. Se alguém ferir outra pessoa, será ferido exatamente da mesma maneira. Quem matar será morto. Entenderam agora?
— Hum… Então qual vai ser o castigo pra esse cara? Você vai lá falar “O filho da Selomite lambeu minhas bolas”?
— Claro que não, oras. Ele blasfemou. Vai morrer na base da pedrada.
— Mo-morrer??? M-mas e-ele n-não m-matou ni-ninguém!
— Não matou, Moisés, é verdade. Mas falou merda a meu respeito. E cê não tem idéia do quanto isso me deixa puto. Então cês vão fazer assim: Vão levar o cara pra fora do acampamento e apedrejá-lo.
— Porra, Javé, não foi você quem ficou puto? Então por que não vai você mesmo matar o cara?
— Eu, hein! E sujar minhas mãos com pouca merda? Na-na-ni-na-não: Vocês vão. E logo, que eu tô mandando.
Moisés e Arão ainda relutaram um pouco. Mas além de deus, a multidão enlouquecida também queria sangue. Quando os dois líderes anunciaram o apedrejamento, foi uma ovação geral. Levaram o cara pra fora do acampamento e o mataram bem morto.
Até onde eu me lembro, essa é a primeira execução (no sentido de castigo por alguma falta) perpetrada por seres humanos na Bíblia. Por outro lado, já perdi a conta do número de execuções levadas a cabo por deus…

— Muito bem, muito bem. Chega de leis. Vamos falar de festas agora.
— Fe-festas?
— Sim, Moisés. Fe-festas. Vocês acham que meu negócio é só trabalho, trabalho? Claro que não! Todo mundo precisa se divertir também. Então anotem aí as festas. A primeira, que vocês já conhecem bem, é o sábado: No sétimo dia da semana vocês não vão trabalhar.
— E isso lá é festa, Javé?
— Claro que é! Ou você prefere trabalhar direto, sem nenhum dia de folga? Oras! Cala a boca e vai anotando. Bom, outra festa é a Páscoa, no dia catorze do primeiro mês. Pra comemorar a saída do Egito, aquele negócio todo. No dia seguinte começa a Festa dos Pães Ázimos.
— P-pães o q-quê???
— Pães Ázimos. Pães sem fermento, seu ignorante. Então. Essa festa dura sete dias, durante os quais vocês comerão pão sem fermento. No primeiro dia da festa ninguém trabalha: Vão todos se reunir para dizer que eu sou bom, que eu sou demais, que eu faço e aconteço, que eu domino, que eu sou lindo, tesão, bonito e gostosão. Nos outros dias o povo trará ofertas de alimento aqui pro Tabernáculo. E no último dia farão outra reunião para me puxarem o saco.
— T-tá. E a fe-festa, é q-quando?
— A festa é isso aí, oras!
— Co-comer p-pão m-murcho e fi-ficar be-beijando seu ra-rabo?
— Cê prefere que eu te mate agora pra você ir beijar o rabo do capeta?
— …
— Ah, bom. Vamos em frente. A Festa das Primícias. Quando vocês já estiverem estabelecidos em Canaã e fizerem a primeira colheita, levarão um feixe do trigo colhido ao sacerdote. Ele apresentará esse feixe a mim.
— Como assim? “Feixe de trigo, esse é o Javé. É uma divindade cruel e despótica. Javé, esse é o feixe de trigo. É um… Bom, um feixe de trigo”. É isso?
— Arão, como você é abusado! Cáspita! É só pra trazer o feixe de trigo aqui, em sinal de agradecimento pela colheita.
— A-agradecimento? Cê v-vai pe-pegar no a-arado c-com a ge-gente?
— Mané pegar no arado! Vê se eu sou deus de pegar em arado… Eu vou é tornar a terra fértil para vocês.
— Ah… C-como? Va-vai ca-carregar e-esterco pra ge-gente?
— Tá me achando com cara de rola-bosta, Moisés? Negócio seguinte: Se eu quiser, vocês não colhem é porra nenhuma naquela terra! Sem mim fica tudo seco por lá!
— Ué… O povo de Canaã tem boas colheitas todos os anos, e nem te conhecem.
— É que… É que a colheita do… Do… Olha, vamos em frente com o negócio das festas que é melhor. Então. No mesmo dia em que trouxerem o feixe de trigo, vocês vão me trazer um carneirinho de um ano para ser completamente queimado. E apresentarão como oferta de alimento dois quilos de farinha com azeite e um litro de vinho. Não comam derivados do trigo enquanto não apresentarem essa oferta.
— Ah! Então a gente trabalha, ara a terra, semeia, aduba, irriga, combate as pragas, faz a colheita e o bonitão aí é o primeiro a comer? Não é justo!
— Porra, cês não eram assim! Lá no Egito os dois me obedeciam, faziam as coisas do jeito que eu mandava. Agora é toda hora esse negócio de querer bater de frente comigo. Tô ficando mole… Melhor cês pararem com isso. Pra mim não custa nada acabar com a raça de vocês e pegar outros dois zés-manés para serem líderes do povo. Entenderam?
— …
— Muito bem. Próxima: Festa da Colheita.
— ÔBA!
— “Ôba”?
— É, ué. Ôba.
— Por que “oba”, Arão?
— Hum… Eu ouvi dizer que lá em Canaã os caras têm uma festa da colheita. Tem bebida e comida à vontade, orgias, jogos, uma beleza!
— Mas que maravilha, hein, Arão!
— Pois é!
— A gente bem que podia fazer um negócio parecido, né?
— É!!!
— É O CARALHO! Quantas vezes eu vou ter que dizer que não quero que vocês sejam iguais aos caras de Canaã? Porra!
— Então não vai ter comida e bebida?
— Não.
— Jogos, orgia?
— Claro que não!
— Porra, Javé! Pelo menos um bolinho! Brigadeiro, cajuzinho, beijinho, essas coisas. Custa nada!
— Custa minha reputação, oras. Nada disso! A festa vai ser assim: Cinqüenta dias depois da Festa das Primícias, vocês apresentarão outra oferta de cereais. Cada família vai trazer dois pães de dois quilos cada, feitos com a melhor farinha e com fermento. Junto com os pães, ofereçam sete carneirinhos de um ano, um bezerro e dois carneiros adultos. Esses animais serão completamente queimados, juntamente com as ofertas de alimento. Além disso, oferecerão um bode para tirar pecados e dois carneirinhos como oferta de paz. O sacerdote oferecerá esses dois carneirinhos junto com os pães como uma oferta especial. Essa é uma oferta sagrada que pertence aos sacerdotes.
— Bom, pelo menos nessa festa eu como alguma coisa…
— Calaboca. O importante é que nesse dia vocês também vão se reunir pra me lamberem as bolas. E vamos em frente. Festa do Ano Novo. O primeiro dia do sétimo mês é um dia sagrado, festejado com trombetas.
— Pelo menos essa tem música…
— Pois é. E, claro: Vocês vão se reunir para lembrar o quanto eu sou bom e maravilhoso e coisa e tal. Não vão trabalhar, e apresentarão ofertas de alimento. Aí no dia dez desse mesmo mês é o Dia do Perdão, sobre o qual já falamos. Alguma dúvida quanto ao Dia do Perdão?
— Ne-nenhuma.
— Muito bem, vamos em frente então. No dia quinze do sétimo mês começa a Festa das Barracas.
— Barracas? Vai ser tipo uma quermesse?
— Que quermesse o quê! Prestenção. Haverá uma reunião sagrada no primeiro dia, ninguém trabalha. Vocês vão colher frutas das melhores árvores, e ramos de palmeiras e galhos de árvores. Aí em cada um dos sete dias vocês apresentarão ofertas de alimento. E no oitavo dia se reunirão novamente, e dirão que eu sou o melhor, que eu detono, que eu sou foda.
— T-tá. M-mas por quê Fe-Festa das B-Barracas?
— Ah, é. Sabe os ramos de palmeiras e galhos de árvores que vocês colheram? Então, vocês vão montar cabanas com eles. Durante os sete dias da festa, todos os israelitas morarão em cabanas, que é para se lembrarem para sempre do tempo em que moraram em barracas no deserto, logo depois de saírem do Egito. Entenderam?
— Sim. Mas tem uma coisa, Javé. Essas festas aí…
— Que que tem as festas?
— Bom. Com todo respeito, viu? Essas festas não parecem muito alegres não. É só comer pão sem fermento, morar em cabana de pau, oferecer sacrifícios… Onde é que fica a parte da festa propriamente dita?
— Comigo, oras! Vou comer do bom e do melhor, tomar vinho, ser bajulado por todo mundo. Vai ser uma beleza!
— Filho da puta…
— Hehehe…

— Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas eu acho que cês tão numa moleza da porra. Vamos trabalhar!
— Ja-Javé, cê n-não ca-cansa de i-inventar le-leis não?
— Até canso, Moisés. Mas se eu não fizer o negócio direitinho, já viu: Cada um vai fazer o que der na telha e isso aqui…
— Vai virar uma esculhambação, que nem Canaã. Cê já falou isso.
— Eu sei que eu já falei, Arão! Tá me tirando? Eu sei tudo! Só que tenho que ficar falando direto, que é pra vocês aprenderem. Bom, vamos em frente com esse negócio. Vamos falar sobre as ofertas. Negócio seguinte: As ofertas que são trazidas aqui, tanto de animais como de cereais e tal, são coisas sagradas, e devem ser tratadas com todo respeito. Então os sacerdotes têm que prestar muita atenção: Se um deles vier aqui me apresentar sacrifícios num dia em que estiver impuro, ele não vai mais poder ser sacerdote.
— U-ué… N-não vai ma-matar n-não?
— Nah. Melhor tirar o emprego do cara. Não tem castigo pior do que perder essa mamata que é trabalhar no Tabernáculo, comer da melhor comida, usar roupas caras, ter carro oficial, verba de gabinete…
— É. P-puta ca-castigo.
— Tô te falando, eu sei das coisas. Então, Arão, fica esperto e avisa pros outros sacerdotes: Nego que tiver com lepra ou corrimento, que tiver tocado num cadáver de pessoa ou animal, ou nalguma coisa impura, ou se tiver melado a cueca…
— Hein???
— Arram… Se tiver EJACULADO. Então. Em qualquer dessas hipóteses o sacerdote estará impuro, e não poderá comer das ofertas. E aí é toda aquela aporrinhação que vocês já conhecem: Fica impuro até o pôr-do-sol, depois toma um banho. E só aí ele vai poder comer. E presta muita atenção nisso, Arão! Se um sacerdote desobedecer minhas leis, morrerá.
— Ué! Cê não ia só demitir o cara???
— Bah, mudei de idéia. Matar é melhor, sabe? Dá mais impacto. Mas vamos em frente. Nesse lance das ofertas aí tem mais um negócio: Só a família do sacerdote e seus escravos poderão comer das ofertas. Se alguém de fora da família sacerdotal comer uma oferta por engano, pagará ao sacerdote o valor da oferta mais vinte por cento de comissão. Cês tão anotando aí?
— T-tamos. A-acabou?
— Mais um pouco, peraí. Deixa eu ver aqui, tinha mais um negócio… Ah, achei! É sobre os animais sacrificados. Não podem ter defeito e tal. Cego, aleijado, sarnento, nada disso eu aceito. Tem que ser um bicho perfeito. Bom, tem mais leis aqui para sacrifícios, mas eu passo por escrito depois.
— Que foi, Javé? Cansou?
— Pois é. Muito chato isso aqui, puta que pariu.
NARRADOR: Estão vendo? Nem deus agüenta mais o Levítico…