(Levítico 4)
— Bom, Moisés, vamos em frente com esse negócio.
— Sa-sacrifícios ainda, Ja-Javé?
— Ainda. Até eu tô de saco cheio disso. E olha que eu gosto de sangue. Mas vou fazer o quê? Preciso te passar as leis, então vamos logo para terminar depressa. Hum, deixa ver… Ah, se o Sumo Sacerdote, que hoje é o Arão, cometer um pecado, deverá oferecer um bezerro em sacrifício. O mesmo nhenhenhém de sempre: Traz o touro para a porta da tenda, bota a mão na cabeça, dá uma abaixadinha, bota a mão na cintura, mexe a bundinha, degola o bicho, borrifa um pouco do sangue nos cantos do altar e derrama o resto na base, tira a gordura do bicho, a melhor parte do fígado e os rins e queima tudo isso no altar e depois…
— Pe-peraí, t-tô a-anotando.
— Precisa anotar não, Moisés. É tudo igual. A diferença é que depois de fazer tudo isso ele vai pegar o couro do animal, a cabeça, as pernas, os miúdos e os intestinos, levar para fora do acampamento, até o lugar onde são jogadas as cinzas, e vai queimar isso tudo lá. Anotado?
— A-anotado.
— Pois muito bem. O sacrifício pelos pecados coletivos do povo será exatamente o mesmo. Se uma autoridade pecar, o ritual é quase o mesmo, com uma diferença: O animal será um bode.
— Po-porra, Ja-Javé!
— O quê?
— T-tá certo q-que o c-cara pe-pecou, mas d-daí a t-transformar o c-coitado num bo-bode!
— Ai meu saco… O animal oferecido em sacrifício será um bode, Moisés!
— Ah, a-agora e-entendi.
— Puta merda… Então, o cara vai trazer o bode e fazer toda aquela palhaçada. E se o pecador for um cara do povo, vai trazer uma cabra ou uma ovelha e fazer tudo do mesmo jeito. O importante é que vocês se lembrem sempre de oferecer sacrifícios quando fizerem algo de errado, assim eu me empanturro de carne sangrenta e gordurosa, tiro um cochilo, e quando acordar nem me lembro mais do pecado de vocês. Beleza?
— Be-beleza. M-mas co-como a ge-gente v-vai sa-saber se é p-pra oferecer sa-sacrifício ou n-não?
— Hum. Boa pergunta. Ah, vou te passar uma lista.
— Uma l-lista? M-muito g-grande?
— Enorme. Vai anotando aí.
— Sa-saco…

(Levítico 3)
— Bom, Moisés, sobre os sacrifícios de paz. O cara que vier oferecer sacrifícios de paz poderá trazer bovinos, caprinos ou ovinos, desde que sem defeito. Vai chegar aí na frente da tenda, botar a mão sobre a cabeça do animal e degolá-lo. Os sacerdotes então vão borrifar o sangue do bicho nos quatro cantos do altar. Depois disso, um dos sacerdotes oferecerá a mim toda a gordura que cobre os miúdos, os dois rins, junto com a gordura que os cobre e a melhor parte do fígado. Se o animal for um carneiro, o rabo do bicho deverá ser oferecido também.
— G-gosta de um r-rabo, Ja-Javé?
— E quem não gosta? Pois bem. Essa gordurada toda será queimada no altar para mim. Toda a gordura me pertence, por isso vocês não deverão comer gordura. Ah, nem sangue, que eu também curto um sarapatel.
— M-mas e s-seu r-regime?
— Bah, foda-se o regime. Morrer é que eu não vou.

— Bom, Moisés, agora vou te falar como é que vai ser o lance da oferta de cereais.
— Ce-cereais? P-pra quê?
— Ora, pra quê! Para o meu café da manhã! Preciso de fibras, preciso de carboidratos, essa porra toda. Vai anotando aí. Quando alguém vier me oferecer cereais, deverá moer o cereal e tirar dele a melhor farinha. Depois vai misturar a farinha com azeite e incenso e entregar para os sacerdotes. Um deles vai pegar um punhado dessa maçaroca e queimará no altar, para todo mundo saber que é uma oferta para mim. O resto da oferta ficará para os sacerdotes. Anotou aí?
— A-anotei.
— Então. O mesmo vale para oferta de pães, que devem ser feitos da melhor farinha, e podem ser grandes ou pequenos, com ou sem azeite, assados na grelha ou no forno, mas sempre sem fermento. O sacerdote queimará uma pequena parte dos pães no altar, o resto é dos sacerdotes.
— M-mas p-por que p-pra vo-você só v-vai um p-pouquinho das o-ofertas e f-fica o resto p-pros sa-sacerdotes?
— Regime brabo, Moisés. Tenho que comer pouco, um inferno.
— É, t-tá p-precisando m-mesmo…
— Não torra. Ah, ia me esquecendo: Os cereais que forem colhidos primeiro deverão ser oferecidos a mim, mas sem queimar no altar. E toda oferta de cereais deverá ser temperada com sal.
— P-pressão b-baixa, Ja-Javé?
— Pois é. Velhice é uma merda.
— S-sei co-como é.

— E a-aí, Ja-Javé? G-gostando da c-casa no-nova?
— Pra caralho, Moisés! Esse tabernáculo ficou melhor até do que eu esperava. Meus parabéns.
— O-obrigado.
— De nada. Agora vamos trabalhar.
— T-trabalhar? T-trabalhar no q-quê?
— Ora, no quê! Leis! Rituais! Sacrifícios! Punições! Ou você acha que uma religião se constrói com dez mandamentos e meia dúzia de leis vagas?
— B-bem…
— Bem nada! Há que se detalhar as leis, esmiuçar, descrever os castigos em detalhes vivos, para assim ter o povo nas mãos, feito um rebanho sem vontade própria.
— P-porra, Ja-Javé, que m-maquiavélico…
— Maquiavel nem nasceu, Moisés. Eu sou é deus, tá me ouvindo? DEUS! Bom, mãos à obra. A primeira lei é sobre os animais sacrificados.
— S-sei. Essa é a p-parte que vo-você g-gosta, né?
— Hehehe, não vou mentir pra você… Aham. Bom, quando um homem for oferecer sacrifício a mim, ele deverá escolher um animal de seu rebanho. Se ele quiser oferecer um bezerro, que o bicho seja macho e sem defeito. Vai trazer o bezerro até aqui na porta da tenda e botar a mão sobre a cabeça do bichinho, para eu saber que é ele quem está me oferecendo o sacrifício. Depois disso, ele degolará o bezerro e os sacerdotes oferecerão a mim o sangue do… O san… O… SANGUE! SAAAAAANGUEEEEE! SAN… Gasp! Cof! sangue…
— Ôa, Ja-Javé! Ôa! C-calma, cê tá p-perdendo a voz. O-olha o seu co-coração…
— Desculpa, me empolguei. Como eu ia dizendo, os sacerdotes oferecerão o sangue, que depois será borrifado os quatro lados do altar. Em seguida o homem vai tirar o couro do bezerro e cortar o corpo em pedaços. Feito isso, os sacerdotes vão acender o fogo no altar para queimar os pedaços do bicho, sendo que o que está oferecendo o sacrifício vai lavar os miúdos e as pernas do bezerro antes de queimar também.
— V-vão q-queimar o ca-cara????
— Não, Moisés. Porra, prestenção no que eu falei: Antes de queimar também os miúdos e as pernas.
— DO CARA???
— Ai meu saco. DO BEZERRO, Moisés!
— Ah…
— Puta que pariu… Vê se não me interrompe para falar bobagem, se não a gente não acaba nunca. Bom, no fim das contas o bezerro será todo queimado.
— M-mas p-por quê?
— Porque eu gosto do cheiro de carne queimada, ok?
— T-tá bom e-então…
— Humpf. Então, as regras que valem para sacrifício de bezerro também servem para carneiro ou cabrito: mão na cabeça, degola, sangra, borrifa, esfola, faz picadinho, torra tudo. Anotou?
— N-não t-trouxe m-meu P-Palm.
— Porra, que despreparo!
— EU N-NÃO S-SABIA QUE IA T-TER Q-QUE T-TRABALHAR HO-HOJE!
— Não sabia… Ora, todo dia é dia de trabalho. Menos o sábado, claro. O sábado é o dia de descanso, dedicado a mim, quem não guardar o sábado certamente morr…
— T-tô sa-sabendo, Ja-Javé. To-toca o b-barco.
— Ô petulância… Ainda dou um jeito em você. Mas não agora, que quero logo encerrar isso aqui. Deixa eu ver aqui… Ah, sacrifício de aves. Quem quiser me oferecer sacrifício de aves, deverá trazer uma rolinha ou um pombinho.
— P-Pombo?
— É.
— P-pombo m-mesmo?
— É, Moisés. Pombo mesmo.
— P-porra, mas p-pombo?
— É! POMBO! BLBRRRRRBLABLUUUUUUUUUUUU-POMBO! POMBO! PORRA! POR QUÊ ESSA IMPLICÂNCIA COM O POMBO?
— M-mas se o po-povo c-começar a sa-sacrificar p-pombo, co-como é que vai fi-ficar seu p-projeto de re-revolucionar a i-internet?
— Putz, é mesmo… Bah, pombo não falta por aí, acho que matar uns não vai fazer falta. Serão como pacotes TCP perdidos.
— Pa-pacotes o q-quê?
— Xapralá. Anota aí. O cara vai trazer o pombo e o sacerdote o levará para o altar.
— O c-cara?
— O POMBO, PORRA! Levará O POMBO para o altar, tirará a cabeça e deixará sangue da ave escorrer pelo lado do altar. Sangrado o pombo, o sacerdote tirará o papo com tudo o que estiver dentro e jogará no monte de cinzas que fica no lado leste do altar. Depois de tudo isso, abrirá as asas da ave para queimá-la inteira.
— P-porque vo-você gosta do ch-cheiro.
— Exatamente. Cê acha que consegue lembrar tudo isso pra anotar mais tarde?
— F-fácil.
— Beleza. Então vai lá buscar o seu Palm, que ainda tem mais.
— P-puta merda…
— Não chia.

Estão preparados para a introdução do Levítico? Relaxados? Então tá, vou introduzir.
Durante quase todo o livro do Êxodo, deus falou com Moisés no monte Sinai. As instalações não eram lá muito confortáveis, por isso ele teve pressa e resumiu o que queria em dez mandamentos. Mas agora, com o Tabernáculo pronto, deus tem todo o tempo do mundo para soltar a imaginação e criar várias leis com detalhes às vezes absurdos. É disso que trata o Levítico: As leis que deus passou para Moisés durante suas conversas dentro do Tabernáculo. Preparem-se, vai ser um porre.
Mas a introdução não doeu, né?

* * *
Tá feliz agora, Lelê? CARALHO!

(Êxodo 40)
Quando o Tabernáculo finalmente ficou pronto, já fazia quase um ano que os israelitas tinham saído do Egito. Ansioso por ver sua nova casa pronta, deus foi falar com Moisés:
— Moisés! Ô Moisés!
— T-tô aqui, Ja-Javé.
— O que aconteceu aqui, Moisés? Tá tudo diferente…
— Ah,o Ch-Chicoteia re-redecorou t-tudo pra i-inauguração do Ta-Tabernáculo.
— Inauguração? Então já tá pronta a minha tenda?
— S-sim senhor.
— E o que é que a gente tá fazendo aqui? Bora inaugurar a bagaça!
— Ca-calma, Ja-Javé. T-tá pe-pensando que é a-assim? T-tem que m-mandar os co-convites, co-contratar o buffet, os m-músicos, co-convidar umas ce-celebridades, umas pi-piranhas f-famosas, a-avisar a TV, os jo-jornais, a “Caras”…
— Porra, Moisés, que viadagem! Precisa nada disso não! Arma a tenda lá, eu vejo como ficou e pronto.
— Ja-Javé, cê n-não m-manja nada de o-organização de e-eventos. D-deixa o ne-negócio co-comigo, cê v-vai ver que be-beleza.
— Tá bom, tá bom… Mas vê se organiza direito esse negócio aí. Se vai fazer festa, tem que fazer direito.
Moisés não fez por menos: organizou uma festa grandiosa para a inauguração do Tabernáculo. É pena que poucas pessoas que compareceram à festa ainda estejam vivas hoje. Dos governantes convidados, só a Rainha Elisabeth II e Fidel Castro ainda estão por aí. Dos grupos musicais que animaram a festa, só restaram os Demônios da Garoa. Roberto Marinho fez a cobertura do evento para o jornal em que trabalhava. Oscar Niemeyer compareceu, mas foi embora logo, torcendo o nariz para o projeto da tenda. Dercy Gonçalves foi o centro da festa, atraindo os flashes com sua beleza juvenil. João Paulo II tentou entrar mas foi barrado: O Cristianismo ainda não fora inventado, e ele era apenas um polaco muito do cara-de-pau.
Resumindo: Foi uma baita festança que entrou pela madrugada. Quando o último convidado saiu, deus foi verificar com calma seus aposentos.
— Que beleza ficou isso aqui, Moisés! Que beleza!
— A-ainda bem que vo-você g-gostou, p-porque deu um t-trabalho fi-filho da p-puta.
— Eu sei, eu sei. Mas valeu a pena, olha só que maravilha! Isso merece uma celebração. Cê tem seda, Moisés?
E então uma nuvem de fumaça cobriu a tenda. Moisés, que não era dessas coisas, voltou pra casa. A partir de então, virou rotina: O povo ficava acampado num lugar até que deus se cansava de tanto fumar e criava coragem pra meter o pé na estrada. Enquanto isso não acontecia, durante o dia todos podiam ver a nuvem de fumaça cobrindo o Tabernáculo; e durante a noite a brasa iluminava o acampamento. Cá pra nós, não é à toa que deus fez questão de tanto pão, vinho e animais sacrificados. Imaginem a larica do cara…

(Êxodo 36:8-38; 37; 38; 39)
Isso que é preguiça, hein, Chicoteia? Vai querer que a gente acredite que você vai condensar quase quatro capítulos num só?
Calma, meu povo, não é o que parece. O negócio é que, como bem disse o Saramago, não vale a pena ficar recapitulando as especificações para a construção do Tabernáculo e cada um de seus itens. Tudo isso já foi visto, seria abusar da paciência de vocês detalhar tudo outra vez. O autor do Êxodo fez isso, mas eu sou bonzinho e não o farei.
Então basta dizer que os trabalhadores, chefiados por Bezalel e Aoliabe, fizeram tudo conforme as detalhadas instruções que deus passara a Moisés: O Tabernáculo, a arca do acordo, a mesa dos pães, o candelabro, o altar de incenso, o altar de sacrifícios, a pia de bronze, o pátio, as roupas dos sacerdotes. Durante o trabalho, Moisés teve a curiosidade de saber o quanto de metais preciosos seriam usados na obra, e chamou seu irmão.
— A-Arão, cê s-sabe q-quanto o-ouro, p-prata e b-bronze e-estamos ga-gastando n-nesse ne-negócio?
— Não tenho nem idéia, Moisés. Mas você pode contratar alguém para fazer esse levantamento.
— M-mas vo-você c-conhece alguém de co-confiança?
— Bom, tem o Itamar…
— O I-I-Itamar? M-mas o m-mandato d-dele v-vai até ja-janeiro, a-acho que ele n-não vai ter t-tempo de…
— Não esse Itamar, Moisés. Tô falando do Itamar, meu filho.
— Ah, e-esse… E-ele é de co-confiança?
— Não muito. Mas podemos tirar uma porcentagem disso.
— S-sei n-não…
— Ora, que que tem, Moisés? Cê não sabe que vai sobrar coisa pra caramba dessa obra? Só estamos pegando nosso pagamento pelos serviços prestados…
— E-então tá b-bom.
Itamar foi chamado a fazer o levantamento, apresentando a Moisés quantidades impressionantes: 1 tonelada de ouro, 3,4 toneladas de prata, 2,4 toneladas de bronze. E, conforme a combinação da maracutaia entre Moisés e Arão, cada um deles pegou uma porcentagem, como sempre acontece nessas obras públicas.
Corrupção à parte, a obra correu bem e foi concluída dentro do prazo. Depois que tudo estava pronto, Moisés foi vistoriar. Tudo tinha ficado mais bonito do que ele imaginara. Reuniu os trabalhadores para um breve discurso de agradecimento:
— Vo-vocês estão de p-parabéns. I-isso a-aqui fi-ficou uma b-boniteza!
— Muito obrigado, seu Moisés. Agora só falta o senhor acertar o pagamento com a gente.
— Pa-pagamento? M-mas vo-vocês n-não fi-fizeram essa o-obra pra mim! O co-contrato de vo-vocês é com o Ja-Javé. Q-que d-deus lhes pa-pague.
— Filho da puta…
Com esse “deus lhes pague”, foi iniciado o processo de endividamento de deus, que desde então não parou mais de crescer. Aliás, andam dizendo por aí que se deus não conseguir cumprir o mais recente acordo com o FMI, é capaz dele sofrer impeachment e o diabo tomar conta da porra toda. Isso porque o diabo já é dono de 49% das ações, por isso o mundo está do jeito que está.
Mas isso não tem nada a ver com nossa história.

Já ficou dito que as obras do Tabernáculo foram iniciadas, ocioso seria descrever pormenores da construção, cansados estamos de saber as formas, as medidas e os materiais especificados por Javé, e triste figura faria o narrador repetindo toda aquela cantilena de côvados e siclos. Note-se, porém, que Moisés e Javé ainda conversam entre si, talvez até mais acaloradamente, porém sobre assuntos corriqueiros, velhos amigos que são. Acontece mesmo de vez por outra entregarem-se àquele silêncio agradável de quem sabe que tudo já foi dito, e o que ainda não o foi pode esperar, e é assim que os encontramos no Monte Sinai, ambos contemplando a paisagem, Moisés pensando na distância que ainda separa a si e seu povo da Terra Prometida, Deus pensando que talvez a criação dos desertos tenha sido um erro, estejam eles assim, esparramados em infindas superfícies, ou encerrados nos pobres corações humanos. Levando tal sorte de pensamentos adiante, talvez fosse Deus tentado, pois da tentação nem mesmo ele está livre, que o diga seu filho, ele também Deus, tentado no deserto, cá estamos a falar em deserto novamente e não concluímos a frase anterior, o que dizíamos é que se Deus levasse adiante suas reflexões sobre os tipos de deserto, talvez chegasse à conclusão de que erro mesmo foi criar o homem, o resto se ajeita. Felizmente para nós, Moisés interrompe a cadeia de pensamentos divinos, Que faremos quando estiver concluída a obra, Ora, Moisés, isso muito me espanta, Minha ignorância sobre o que fazer, Não, a ausência de sua gagueira, É verdade, não gaguejo, e não teria percebido não fosse você chamar-me atenção para o fato, Que aconteceu, Ora, que sei eu, se calhar foi um milagre, Impossível, Não crê nos milagres, Creio, Então por que diz ser impossível que o gago volte a falar direito, Não reside aí a impossibilidade, Então em quê, Se fosse um milagre eu saberia, Sabe de todos os milagres, Sei de todas as coisas, Então deves saber o que houve com minha gagueira, Não o sei, Como é possível, São os mistérios insondáveis de Deus, Isso serve de escusa para tudo, Alguma vantagem eu teria de obter do fato de ser Deus.

(Êxodo 35 e 36:1-7)
Passada toda a celeuma (celeuma! Fazia tempo!) causada por seu purpurinado retorno, Moisés reuniu novamente o povo:
— Po-povo de I-I-IIIIIIIIsrael! Ja-Javé m-manda q-que vo-vocês g-guardem o sa-sábado c-como dia de d-descanso! Vo-vocês n-não t-trabalharão no sa-sábado, nem m-mesmo…
— Já falou isso aí!
— He-hein?
— Cê já falou isso aí!
— Velho caduco!
— Bicha!
— T-tá, c-calma aí. C-confundi as a-anotações aqui. D-deixa ver… Ah. Aham. PO-POVO DE I-I-I-I…
— Tá, tá, povo de Israel. Pega a partir daí.
— O-obrigado. Ja-Javé o-ordena que vo-vocês t-tragam o-ofertas pa-para a co-construção do Ta-Tabernáculo! A-aqueles q-que q-quiserem co-contribuir, p-podem vir e…
— Ofertas? Tá doido? Tamos na miséria, no meio do deserto, e cê quer que a gente traga ofertas? Nem a pau!
— P-porra, que po-povinho d-difícil. S-seguinte, Ja-Javé t-tá querendo u-uma ca-casa pra e-ele. S-se a ge-gente não fi-fizer a tal c-casa, ca-capaz dele fi-ficar p-puto… E vo-vocês já vi-viram o que a-acontece q-quando ele fi-fica p-puto.
— …
— É i-isso a-aí. A-além das o-ofertas, a-aqueles que ti-tiverem ha-habilidade de-deverão a-ajudar com s-seu t-trabalho.
Então o povo, que não era besta nem nada e não queria despertar a ira do temperamental Javé, começou a trazer ofertas para a construção do Tabernáculo: ouro, prata, bronze, linho fino, fios de lã, pêlos de cabra, peles de carneiro, madeira, pedras preciosas, especiarias. Já tendo uma boa quantidade de material, Moisés convocou Bezalel para ser o coordenador da construção do Tabernáculo, como deus tinha ordenado, tendo Aoliabe como seu ajudante. Os dois selecionaram os trabalhadores, pegaram as ofertas do povo e começaram a obra. Só que o povo, para se garantir, não parava de trazer ofertas. Então Bezalel e Aoliabe foram falar com Moisés:
— Porra, seu Moisés, assim não dá! Fala pra esse povo parar de trazer ofertas. Onde é que a gente vai enfiar tanto material?
— Q-quer que eu r-responda?
— É sério, seu Moisés! O que temos já dá e sobra para o projeto, se o povo continuar trazendo coisas vamos ter que superfaturar a obra.
Então Moisés ordenou que ninguém trouxesse mais ofertas. Teve nego que, cabreiro com a ira divina, ainda tentou trazer um pingentezinho de ouro, ou uma pedrinha de ônix. Mas Moisés garantiu que já tinham mais que suficiente para a construção do Tabernáculo, que transcorria em ritmo acelerado.