(Êxodo 34:29-35)
Passados os quarenta dias, Moisés desceu do monte Sinai. Só que uma coisa estranha aconteceu: O rosto dele estava brilhando! Então quando veio anunciar ao povo os Dez Mandamentos e todas as outras leis, todo mundo estranhou. Ninguém chegava perto, achando que Moisés tinha virado bicha. Mas Moisés, inconsciente de sua condição de purpurinado, insistiu para que Arão e outras autoridades do povo se aproximassem. Eles vieram, se bem que relutantes, e ele falou com todos. Depois disso, Arão foi falar com ele:
— Moisés, tem alguma coisa que você queira me contar?
— N-não, A-Arão. P-por quê?
— Na boa, Moisés. Somos irmãos. Pode confiar em mim, eu vou entender e respeitar sua nova opção, se for o caso. Só não esconda nada de mim.
— Q-que p-porra cê tá f-falando, A-Arão?
— Caralho, Moisés, se olha no espelho!
— E-espelho? Q-que que t-tem? Ih, ca-caraca! T-tô b-brilhando!
— Foi o que eu disse, oras. O que significa isso?
— S-sei l-lá! B-bem que eu de-desconfiei do Ja-Javé, com a-aquele pa-papo de m-mostrar a b-bunda e tal…
— Poupe-me dos detalhes dessa viadagem entre você e o Javé. Mas dá um jeito de limpar isso aí, pega mal pra caralho.
Moisés bem que tentou limpar a cara, mas o brilho não saía. Então resolveu que era melhor esconder o rosto, e passou a usar um véu, o que foi pior ainda.
— QUE MERDA É ESSA AGORA, MOISÉS???
— Ah, A-Arão, o n-negócio n-não sa-saía, e-então…
— … Então a santa vai andar de véu pra cima e pra baixo agora? Só me faltava essa, meu irmão virar viado depois de velho!
(Nota do autor: Para minha alegria e satisfação, meu irmão virou viado ainda bem novinho, evitando que eu tivesse o mesmo desgosto que Arão teve)
E então passou a ser assim: Moisés andava o dia inteiro de véu, que ele só tirava para falar com Javé, que não parecia mesmo se incomodar muito com essas boiolices.
Categoria: Bíblia
As novas tábuas da lei
(Êxodo 34:1-28)
Ah, seus fariseus malditos! Acharam que a história tinha acabado, né? Até o Moisés achou, acabou dormindo, o velho safado. Mas eis que o telefone tocou.
— A-Alô?!
— CARALHO, MOISÉS! ACORDA, SEU FELADAPUTA!
— Hu-hum? He-hein? Ô. Fa-fala Ja-Javé.
— Porra, faz um tempão que o telefone tá tocando!
— D-desculpa, pe-peguei no so-sono.
— Cáspita. Seguinte: Corta duas tábuas de pedra aí pra eu escrever de novo os Dez Mandamentos nelas.
— Co-como é q-que eu v-vou co-cortar pe-pedra, Ja-Javé? T-tenho m-mais de o-oitenta a-anos, s-sem fe-ferramentas.
— Sei lá. Dá seus pulos. Ninguém mandou quebrar as tábuas originais.
— Pu-puta que p-pariu…
— Não chia. Nisso é que dá ficar tendo faniquitos. “Ui, um bezerro de ouro, vou quebrar tu-di-nho”. Se fodeu. E tem mais: Amanhã de manhã você vem aqui no monte Sinai que eu quero conversar com você.
— T-tá b-bom.
Então Moisés, que não era besta nem nada, mandou Josué cortar as duas tábuas de pedra e na manhã seguinte subiu o monte Sinai. Quando já estava lá em cima, deus desceu do céu numa nuvem.
— Moisés, prepare-se! Vou revelar o meu nome sagrado!
— S-sim, Ja-Javé!
— Prestenção! Meu nome sagrado é… YHWH!
— Sa-saúde.
— Hein?
— O q-quê?
— Que foi?
— Fa-fala s-seu no-nome sa-sagrado, Ja-Javé.
— Ai caralho. Meu nome sagrado é… YHWH!
— Sa-saúde.
— Saúde porra nenhuma, Moisés! Tô te falando meu nome sagrado!
— M-mas vo-você e-espirra no m-meio do ne-negócio, n-não e-entendo na-nada.
— Espirro nada! Peraí, vou anotar meu nome sagrado num papel. Olha aqui meu nome sagrado:

— Hum. E co-como se p-pronuncia i-isso?
— Ora! Pronuncia-se como se escreve! YHWH!
— I-isso é i-impronunciável, Ja-Javé! Po-posso te ch-chamar de YMCA?
— Só se for pra eu chamar Israel, O Meu Povo Escolhido de Village People. Claro que não pode me chamar de YMCA, cacete! Bah, deixa isso pra lá, me chama de Javé mesmo. E agora vamos fazer aquela presepada toda que tínhamos combinado.
— Q-que p-presepada?
— Ah, eu colocaria link aqui, mas o arquivo do blog tá todo bagunçado. Lembra do que combinamos, que eu ia botar você numa fenda na rocha, cobrir você com a mão e tirar a mão depois que passasse?
— Ah, le-lembrei! A p-presepada de mo-mostrar a b-bundinha!
— Não fode… Bom, vamos lá.
Então deus botou Moisés num buraco, cobriu com a mão e passou. Enquanto passava, ia dizendo:
— Eu sou é deus, tá sabendo? DEUS! Sou um cara legal, tenho paciência com esse bando de inúteis que é o povo de Israel! Eu sou o grande deus, que perdoa os pecados dos homens, precisando para isso de apenas alguns litros de SANGUEEEEE! E apesar de misericordioso, não tomo o culpado por inocente, e castigo até os filhos e os netos de quem me sacaneia. Que que eu tô dizendo? Castigo até a quarta geração! Eu sou foda! Sou o maioral! Lambam minhas bolas!
Então deus passou e tirou a mão, deixando que Moisés o visse pelas costas. E eis que era jeitosinha a bunda de Javé.
— Be-bela b-bunda, Ja-Javé. A-andou ma-malhando?
— Pô, Moisés, obrigado. Sabe como é, ando bastante de bicicleta…
— Pa-parabéns… Mas, d-diz aí, vo-você v-vai m-mesmo com a g-gente, né?
— Vou, Moisés. E para isso vou fazer um pacto com vocês. Um pacto com todo o povo.
— Xi, t-tá a-aprendendo com o Lu-Lula, é?
— Calaboca. O pacto é o seguinte: Eu vou fazer na frente de vocês as maiores maravilhas que já se viu. Cês vão ficar bestas. Mais bestas ainda do que já são. E o povo que mora lá em Canaã vai ficar aterrorizado com tanta coisa impressionante que eu vou fazer. E eu expulsarei todos eles de lá, para entregar a vocês aquela terra. Mas vocês têm que colaborar também: Não façam conchavos com eles, para que não sejam má influência para vocês. Pelo contrário: Vocês vão chegar lá quebrando tudo, principalmente os ídolos deles. Não quero que vocês tenham nenhum tipo de ligação com aqueles povos, não quero casamento entre vocês, nada. Esse é o pacto.
— S-só i-isso?
— Não, tem mais. Mas não vou ficar aqui falando. É tudo confirmação do que falei pra você daquela outra vez em que você ficou quarenta dias aqui. Vou mandar os detalhes para seu email. Ah, e pega esse papel aqui.
— Q-que é i-isso?
— Os Dez Mandamentos. Pode ir entalhando aí nas pedras.
— U-ué. M-mas vo-você n-não di-disse que ia e-escrever os m-mandamentos na pe-pedra?
— Hehehe. Sacaneei!
— Fi-filho da p-puta…
Então Moisés passou mais quarenta dias e quarenta noites no Sinai, em absoluto jejum, entalhando os Dez Mandamentos nas tábuas de pedra e xingando Javé.
Deus promete ir com o povo
(Êxodo 33)
Muito bem, muito bem, este blog era sobre o que mesmo? Ah, aquele papo todo da Bíblia e tal. Então vamos lá.
Moisés não gostou nada da idéia de fazer toda aquela viagem só com o anjão segurança. O cara era truculento, folgado, entrava nas tendas sem bater, almoçava cada dia com uma família sem ser convidado, um inferno. Então lá foi Moisés falar com deus:
— Ô Ja-Javé, que p-puta sa-sacanagem! Q-quer que e-eu g-guie esse po-povaréu t-todo so-sozinho?
— Sozinho não, Moisés. Esqueceu do anjo?
— E-esqueci n-não, e-esse é o p-problema, o t-tal a-anjo s-só a-atrapalha. P-porra, Ja-Javé, q-quebra essa! Cê n-não di-disse que t-tá go-gostando do meu t-trabalho, que m-meus re-resultaqdos são b-bons e s-sei lá o q-quê?
— É, falei.
— E-então! Eu po-poderia até pe-edir a-aumento, co-cobrar aqueles b-bônus a-atrasados ou e-exigir pa-participação nos lu-lucros. Mas s-só pe-peço a vo-você que v-vá c-com a ge-gente.
— Ah, Moisés, não sei não… Eu já falei que não ia, se mudar de idéia pode pegar mal.
— Se-seguinte: Se vo-você n-não f-for, a ge-gente nem s-sai daqui. C-com que ca-cara a g-gente vai ch-chegar em Ca-Canaã sem d-deus ne-nenhum? Os ca-caras v-vão tirar sa-sarro da n-nossa ca-cara. Ah, n-não! Ou vo-você p-promete ir ou fi-ficamos por a-aqui m-mesmo.
— Cacete! Era o que me faltava! Eu sabia, eu sabia: Foi só o Lula ganhar a eleição que já começou essa baderna de greve, piquete, o caralho a quatro. Puta que pariu!ARGH! Tá bom, vai. Eu vou com vocês. Tá satisfeito agora, seu subversivo?
— T-tá me-melhorando. M-mas tem m-mais uma co-coisinha…
— Ai meu saco…
— S-seu sa-saco não: Sua ca-cara. Faz t-tempo que a ge-gente se co-conhece e eu n-nunca vi a s-sua ca-cara.
— Ai caralho… Moisés, você não pode ver minha cara. Ninguém pode. Quem vê minha cara, morre.
— Po-porra, cê é t-tão f-feio a-assim, Ja-Javé?
— Feio é meu pau de óculos em Londres! Aquele que contemplar meu rosto morrerá ofuscado pelo esplendor da glória emanada da face divina, irradiando uma luz tamanha que até…
— De-devagar com a vi-viadagem, Ja-Javé.
— Epa, foi mal. Então, o caso é que você não pode ver a minha cara. Mas vou dar um jeito. Tem um lugar aqui perto onde você poderá ficar em cima de uma rocha. Quando eu for passar, colocarei você numa rachadura da rocha e o cobrirei com a mão. Depois que eu passar, tiro a mão e você pode me ver pelas costas.
— Pe-peraí, d-deixa eu v-ver se e-entendi: E-então o-olhar pra s-sua ca-cara não po-pode, mas a b-bundinha vo-você m-mostra pra quem qui-quiser?
— É isso aí… NÃO, PORRA! NUM FODE!
— Hehehe… Mas j-já que vo-você e-está a-aberto a ne-negociações hoje, bem q-que po-podíamos co-conversar so-sobre a-aquela p-participação nos l-lucros, né?
— Já disse, num fode…
— T-tá b-bom, t-tá b-bom…
Decepção
É, galera, acho que não vou terminar o Êxodo não. Ainda falta muita coisa, e estou ocupado com os preparativos para a viagem. Tenham paciência, ok?
O bezerro de ouro
(Êxodo 32)
Opa! E aí, meu povo? Sentiram minha falta? Pois é, estive ausente esse tempo todo, mas agora já…
— Peraí, peraí, pára tudo. Quem é você, cacete?
Como assim, quem sou eu? Sou o narrador, porra!
— Narrador? Essa história não tem narrador, são diálogos entre deus e Moisés.
Ai meu saco, esses leitores de primeira viagem… A história tem narrador sim, só que os últimos capítulos foram só de diálogos. Agora voltei pra contar essa passagem que é muito importante para nossa história.
— Ah, entendi! Legal, narrador. Mas diz aí, que passagem é essa tão importante?
Puta que pariu, nego não presta atenção mesmo… Vamos começar de novo? Nosso assunto hoje é…
O bezerro de ouro
Moisés passou quarenta dias no monte Sinai. E conforme o tempo ia passando, a desconfiança do povo ia aumentando: Uns achavam que já tivesse morrido, outros que tivesse voltado ao Egito. Então alguns deles foram falar com Arão:
— Arão, cadê o teu irmão, cara? O cara tira a gente do Egito e depois some? Sacanagem! Na boa, esse tal de Javé aí que ele tanto fala deve ser invenção. Precisamos de outro deus e de outro líder para continuarmos nossa migração. E aí, que que você diz?
— Hum. Outro líder, é? Interessante… Façam o seguinte: Tirem todas as jóias de ouro que suas mulheres e filhas estiverem usando e tragam tudo pra mim.
— Nossa, Arão, a gente não sabia que você era tão vaidosinho!
— Não é nada disso, porra. Tragam lá os penduricalhos, eu sei o que tô fazendo.
Mesmo ressabiados, foram buscar as jóias e trouxeram para Arão. Ele derreteu tudo, despejou num molde e fez um bezerro de ouro.
— Valeu, Arão! Boa! Aê, galera! Esse é o nosso deus, que nos tirou da terra do Egito!
Arão, todo vaidoso de seu feito, disse:
— É isso aí! E amanhã teremos uma festa em honra ao nosso deus.
Na manhã seguinte, o povo trouxe alguns animais para serem oferecidos como sacrifício e outros para serem comidos. E, ao que consta, foram comidos nos dois sentidos: Os israelitas fizeram uma baita duma orgia, com muita comilança, bebida e putaria. O anjo Gabriel, que ia passando por ali, viu a zona toda e tratou logo de ligar para deus.
— Alô!
— Senhor, aqui é o Gabriel.
— Ô, Gabriel, diz aí.
— Tenho más notícias. Os israelitas arrumaram outro deus pra eles.
— Como é que é?
— É isso mesmo. Fizeram um bezerro de ouro e agora dizem que foi o bezerro que os tirou do Egito.
— Eles não fizeram isso!
— Fizeram, e não foi só isso: Estão oferecendo sacrifícios ao ídolo e aprontando uma puta suruba aqui embaixo.
— IMPOSSÍVEL! FILHOS DA PUTA!
E aí, como vimos no último capítulo, deus falou para Moisés descer do monte porque o bicho tava pegando lá embaixo.
— E desce depressa, Moisés. Esses filhos da puta que VOCÊ tirou do Egito me apunhalaram pelas costas.
— E-eu ti-tirei do E-Egito? Ué, n-não e-era vo-você q-que e-estava s-se ga-gabando a-até a-agora a po-pouco de t-ter li-libertado o po-povo?
— Não me contraria, Moisés, que eu já estou bastante puto sem isso.
— O q-que a-aconteceu?
— Eles fizeram uma porra de um bezerro de ouro e agora tão na maior putaria lá, dizendo que o tal bezerro é o deus deles. Puta que pariu, eu sabia que ia dar nisso! Ô povinho cabeça dura!
— Ca-calma, Ja-Javé.
— CALMA É O CARALHO! Não tenta me acalmar não, que hoje ninguém me segura. Vou descer lá e acabar com a raça deles, não vai sobrar um! Mas você não se preocupe, Moisés: Vou começar tudo de novo com você, seus descendentes serão meu novo povo escolhido. Porque esse povo aí não deu certo.
— Ô, Ja-Javé, p-pensa bem. Cê te-teve a-aquele t-trabalhão to-todo pra ti-tirar o povo do E-Egito, com mi-milagres e p-pragas, e a-agora v-vai ma-matar t-todo m-mundo? S-será que va-vale a p-pena?
— Ah, Moisés, sei não, sei não. Porra, foi eu virar as costas um pouquinho e os caras já arrumaram outro deus!
— Ja-Javé, p-pelo m-menos se l-lembre da p-promessa q-que vo-você f-fez à-àqueles três ca-caras, co-como e-era m-mesmo o no-nome d-deles?
— Abraão, Isaque e Jacó. Bons tempos… Putz, e eu fiz um trato com eles, né? Cê tá certo, Moisés. Vou pensar com mais calma no que vou fazer. E você desce lá agora, pra ver direito o que está acontecendo, talvez Gabriel tenha exagerado.
— T-tá b-bom. A-até m-mais, Ja-Javé.
Moisés saiu e encontrou Josué dormindo embaixo do sofá da recepção. E ele nem se lembrava mais que tinha trazido Josué junto com ele.
— Jo-Josué? A-acorda, Jo-Josué! V-Vamos d-descer.
— Hum? Hã? Hein? Hein? Ah, oi, Seu Moisés. Terminou lá o papo com deus?
— T-terminei. E a-agora t-temos que d-descer r-rápido.
— Mas pra que a pressa?
— N-não po-posso e-explicar a-agora. V-vamos!
E lá foram Moisés e Josué descendo o monte. Moisés levava com ele as tábuas dos Dez Mandamentos. Já chegando perto do pé do monte, dava para ouvir uma gritaria que vinha do acampamento.
— Ih, Seu Moisés! Tá ouvindo o barulho lá embaixo? Parece barulho de guerra.
— G-guerra na-nada. T-tô o-ouvindo ge-gente ca-cantando.
— Porra, como são desafinados!
Quando chegaram perto do acampamento, viram o povo dançando e cantando em volta do bezerro de ouro. E Moisés, que tinha achado que a história toda fosse exagero do Gabriel, ficou muito puto: Deu um berro, quebrou as tábuas dos Dez Mandamentos e acelerou o passo na direção do bezerro. O povo, assustado com a repentina aparição do líder que eles julgavam morto ou desertor, deu passagem a ele. Moisés pegou o bezerro, queimou no fogo e moeu até virar pó. Depois espalhou o pó na água e fez o povo beber. Dado esse castigo, foi falar com Arão.
— Po-porra, A-Arão! Q-que me-merda vo-você f-fez a-aqui???
— Er. Hum. Veja bem, Moisés.
— Ve-veja b-bem é o ca-cacete!
— Calma, Moisés! Não fique com raiva do seu irmão. Não tenho culpa disso aí. Cê sabe como esse povo aí é mau. Vieram pra cima de mim com um papinho que achavam que você tivesse morrido. E, porra, cê ficou quarenta dias lá em cima sem dar sinal de vida, acabamos pensando o pior. E então eles queriam outro deus, e não sei o quê, e não sei que mais… Trouxeram para mim as jóias de ouro deles e aí… E aí…
— E a-aí…?
— E aí eu joguei as jóias no fogo e saiu esse bezerro! — Não estou inventando isso, podem conferir no versículo 24.
— Po-porra, A-Arão, co-conta o-outra!
Moisés ficou enfurecido. Para não descer o braço no irmão, saiu dali, foi para a entrada do acampamento, pegou um microfone e anunciou:
— Q-Quem é a-amigo d-do Ja-Javé, pa-passe p-para o la-lado de cá!
O povo estava com muita vergonha do que tinha feito, então ninguém se mexeu. Depois de um tempo, com a situação ficando muito constrangedora, os homens da tribo de Levi (que era a tribo de Moisés e Arão) se reuniram em volta de Moisés.
— Ah, e-então os le-levitas são a-amigos do Ja-Javé?
— Somos, Moisés!
Então Moisés deu a eles uma ordem tão cruel que nem Javé faria melhor: Mandou que saíssem pelo acampamento matando a sangue frio suas famílias, seus amigos e seus vizinhos. Eles obedeceram, e naquele dia mataram cerca de três mil homens. Moisés, que ao que parece tinha adquirido de deus a sede de sangue, ficou muito orgulhoso deles e disse que a partir daquele dia os levitas seriam sacerdotes de Javé. É justo: Para um deus sanguinário, nada melhor que sacerdotes sanguinários.
Depois da carnificina, Moisés voltou ao monte Sinai para falar com deus.
— Ô, Ja-Javé. E-eu vi o q-que a-aconteceu lá e-embaixo. N-não era e-exagero do G-Gabriel não. M-mas p-perdo e-eles, Ja-Javé.
— Que perdoar o quê, Moisés! Pensei bem e vou mesmo sair matando geral.
— S-se vo-você n-não v-vai p-perdoar o po-povo, po-pode r-riscar m-meu no-nome d-da s-sua a-agenda.
— Porra, Moisés, aí cê tá pegando pesado. Riscar seu nome da agenda de telefones? Mas você é meu amigo, Moisés! Vai deixar de ser meu amigo por uma bobagem dessa?
— V-vou.
— Cáspita. Tá bom, tá bom, deixa pra lá. Mesmo porque você já deu um bom castigo pra eles, com aquele papo de fazer eles beberam água com ouro em pó e depois ainda obrigar os levitas a saírem matando as pessoas mais próximas deles. Parabéns, estou orgulhoso de você. Mas agora trata logo de levar esse povo para a terra que eu prometi a vocês. Vou mandar aquele anjo lá, o segurança, pra guiar vocês. É melhor que eu não vá junto, porque estou com muita raiva dos israelitas, não vou agüentar. E, de uma forma ou de outra, vou castigar esse povo.
Então deus castigou o povo de Israel com uma doença. A Bíblia não diz que doença foi essa, mas não deve ter sido coisa suave, afinal estamos falando de um deus cruel.
Deus escolhe os operários para a construção do Tabernáculo e relembra o descanso no sábado
(Êxodo 31:12-18)
— Pronto, Moisés. Tava consultando meu banco de dados aqui e achei uns caras bons pra fazerem esse negócio todo. Cê conhece o Bezalel?
— Be-bezalel? Que Be-Bezalel?
— AQUELE QUE TE COMEU NO BANCO DO CORCEL! RÁ!
— N-não fo-fode, Ja-Javé…
— Porra, Moisés, o Bezalel! Filho do Uri, neto do Hur. O cara é da tribo de Judá. Cê conhece sim.
— Ah, co-conheço o U-Uri. N-nem sa-sabia que o fi-filho d-dele ch-chamava Be-Bezalel. A-agora j-já sei q-quem é.
— Então. O Bezalel é foda. Inteligente, competente, hábil em tudo que é trabalho artístico: Desenho, pintura, escultura, ourivesaria, marcenaria, artesanato, é tudo com ele. Muito bom mesmo. Então eu escolhi o Bezalel para construir o Tabernáculo e todas as coisas que eu te instruí.
— M-mas o ca-cara v-vai fa-fazer tudo so-sozinho?
— Claro que não, né? Ele vai coordenar o troço todo, orientar, ensinar, essas coisas. Tem outro cara que eu acho que seria um bom auxiliar direto pra ele, deixa eu ver aqui… Cê conhece o Aoliabe?
— Q-que A-Aoliabe?
— AQUELE QUE TE CO…
— Ca-caralho, Ja-Javé…
— Tá bom, tá bom. Nem ia conseguir achar uma rima pra Aoliabe mesmo… Ele é filho de um tal Aisamaque, da tribo de Dã. Eles dois vão ser os chefes da obra do Tabernáculo. Os trabalhadores estão nessa lista aqui, guarda bem. São os melhores artistas de Israel, que é para minha tenda ficar bem bonita. Eles vão fazer tudo exatamente como eu mandei, trabalhando com diligência. Mas tem uma coisa, presta bastante atenção! O sábado é dia de descanso. Quem trabalhar no sábado, morre.
— P-pô, mo-morrer p-por va-vagabundagem a-ainda v-vá lá, m-mas mo-morrer p-porque t-tá t-trabalhando?
— Moisés, Moisés… Cê não percebe mesmo nada desse negócio de rituais e tal. Os outros povos precisam ver que Israel é diferente. Só que não tem muito como diferenciar vocês dos outros. Se eu tivesse pensado nisso antes, em vez de fechar negócio com Abraão, teria escolhido algum japonês. Aí ia ser fácil: Quem tivesse olho puxado seria do meu povo, quem não tivesse, não seria. Mas só fui pensar nisso agora, tarde demais. O negócio é que os israelitas não têm nenhuma característica que os diferencie de outros povos. Bom, o tamanho do nariz talvez, mas isso é muito relativo. Então vou inventando coisas: Circuncisão, sábado, rituais religiosos. E o sábado é especialmente importante, por causa daquela historinha lá de eu ter criado o mundo em seis dias e descansado no sétimo. Entendeu agora?
— A-acho q-que sim.
— Pois muito bem, acho que é só. Pega aqui as duas tábuas de pedra onde estão os Dez Mandamentos. Desce lá, fala com o povo sobre o negócio todo que conversamos, começa a… Peraí, o celular. Alô! Ô, Gabriel, diz aí… Como é que é? Eles não fizeram isso! IMPOSSÍVEL! FILHOS DA PUTA!
— Q-que f-foi, Ja-Javé?
— Vai embora, Moisés, que o bicho tá pegando lá embaixo. Fodeu, Moisés, fodeu!
A pia de bronze, o azeite para ungir e o incenso sagrado
(Êxodo 30:17-38)
— Pronto, Moisés, achei. Olha aqui o que tava faltando. A pia.
— P-pia? V-vai ter la-lavabo no T-Tabernáculo?
— É, mais ou menos. É para o Arão e os filhos dele lavarem as mãos e os pés sempre que entrarem no Tabernáculo. Se os putos não se lavarem direitinho, mato todos. Não gosto de gente porca.
— Pu-puta e-exagero…
— Exagero? Cê não viu nada, espera só até a gente chegar no Levítico… Mas então, a pia vai ser de bronze, com uma base também de bronze e vai ficar entre o Tabernáculo e o altar dos sacrifícios. Anotou?
— A-anotei.
— Pois muito bem. Agora as receitas. Primeiro o azeite para ungir. Vocês vão fazer esse azeite com quinhentos siclos de…
— P-pára! N-nem vem c-com e-esse ne-negócio de s-siclos, Ja-Javé. N-não complica.
— Ai meu saco… Peraí. Pronto. 5,7 quilos de mirra pura, 2,8 quilos de canela aromática, 2,8 quilos de cálamo aromático…
— Ô-opa! Ca-canhâmo? T-tá fi-ficando b-bom o ne-negócio…
— Cânhamo o cacete, Moisés! CÁLAMO! Porra. Vamos em frente, vê se não me interrompe com bobagens. Onde eu estava? Hum. 5,7 quilos de cássia e 6 litros de azeite de oliva. Cê vai achar aí no meio do povo um perfumista decente para juntar os ingredientes e fazer o azeite direitinho.
— E p-pra que e-esse a-azeite, Ja-Javé? C-cansou de t-tanto s-sangue e a-agora v-vai co-começar a co-comer sa-saladinha?
— Que saladinha u’a sanfona! Como você é burro! Não falei que esse azeite é para ungir? Então! Com esse azeite vocês vão ungir a parafernália toda: a arca, a mesa com todos os utensílios, o candelabro, o altar do incenso, o altar do holocausto, a pia. Isso aí será um ritual para consagrar essas coisas todas. Fora as tranqueiras, Arão e seus filhos também serão ungidos com esse azeite, do jeito que eu expliquei. E tem um detalhe: O Azeite Para Ungir de Javé® é exclusividade da Javé Corporation! Qualquer um que fizer azeite com essa receita para uso fora do Tabernáculo sofrerá processo, pagará indenização e será banido de Israel. Entendido?
— S-sim.
— Beleza. E aí tem outro produto da Javé Corporation, o Incenso Sagrado de Javé®. Espera aí, deixa eu achar a receita aqui.
— C-cê tá p-prendado, he-hein, Ja-Javé?
— Pois é, rapaz. Peguei essas receitas no programa da Ana Maria Braga. Aliás, tem outra, ensinando como fazer sachê. Depois eu te passo, menino, aí você pode colocar dentro da arca para não embolorar as tábuas dos Dez Mandamentos e… Caralho, que que eu tô falando??? Tira esse sorrisinho idiota da cara e anota aí a receita pro Incenso Sagrado de Javé®. Será feito com especiarias aromáticas: benjoim, ônica, resina medicinal e incenso puro. O mesmo perfumista encarregado da fórmula do Azeite Para Ungir de Javé® produzirá o Incenso Sagrado de Javé®, que será colocado em frente à arca. Quem produzir incenso com a mesma receita do Incenso Sagrado de Javé® sofrerá as penas já mencionadas: processo, indenização e expulsão. Aanotou tudo aí?
— A-anotei.
— Então assina aqui. Pronto, tudo certo. Só tem uma coisinha… Esse negócio de deixar você escolher os caras que trabalharão na construção do Tabernáculo e na decoração toda, sei não, acho que não vai dar certo…
— Po-porra, Ja-Javé, n-não co-confia em m-mim.
— Confio, Moisés, confio. Só que tem que você é meio burrinho, sabe? Acho que vou eu mesmo escolher esses caras, peraí.
Será que vai?
Estou pensando em terminar o Êxodo antes da viagem.
— Seu filho da puta, o Êxodo tem 40 capítulos, e você ainda tá na metade do 30º! Tá pensando que a gente é trouxa e acredita que você vá escrever dez capítulos e meio em 4 dias???
Calma, calma… Os capítulos 36, 37, 38 e 39 são praticamente uma repetição das instruções que deus passou a Moisés no monte Sinai, só que descrevendo a execução dos trabalhos. Como já sabemos as medidas e materiais com que vão ser feitos o Tabernáculo e seus utensílios todos, acho que não há necessidade de falar tudo de novo. Então economizamos 4 capítulos. Sei não, acho que dá.
O imposto para o Tabernáculo
(Êxodo 30:11-16)
— Anotou aí o negócio do altar de incenso, Moisés? Então peraí, que tá tudo uma zona nesse notebook aqui. Deixa eu ver… Ah! O recolhimento do imposto para o Tabernáculo.
— I-imposto? P-pra q-que i-imposto?
— Ô, Moisés, cê acha que é só construir o negócio e depois não tem mais despesas? Precisa de dinheiro pra manutenção do Tabernáculo, bicho.
— Bi-bicho?
— Hum. Escapou. Não sei de onde tirei isso… Bom, vamos lá. O imposto. Sempre que você for fazer o recenseamento do povo de Israel, vai recolher o imposto. No recenseamento só serão contados homens com mais de vinte anos, então só eles pagarão o imposto, que será de meio siclo de prata por cabeça.
— M-meio si-siclo? Q-quanto é i-isso.
— Ai caralho, tem que explicar tudo… Peraí. Meio siclo é… 5,712 gramas.
— T-tá.
— Então cê vai recolher isso aí, e todos vão pagar.
— Co-como você sa-sabe q-que não v-vai t-ter so-sonegação, Ja-Javé.
— Arrá! Fácil! Cê vai dizer que esse é o valor do resgate pela vida deles, que eles têm que pagar para que não lhes aconteça nenhuma desgraça ou coisa assim.
— Po-porra, i-isso é e-e-extorsão!
— Bah, chame como quiser. O que importa é que eles vão pagar direitinho. E eu me lembrarei de protegê-los.
— Vo-você vai n-nos p-proteger de vo-você m-mesmo?
— É isso aí.
— Q-que sa-sacanagem…
— Sacanagem nada, Moisés! Os fins justificam os meios. Fins, meios, começos… Porra! Esse notebook tá uma zona! Olha aqui, achei mais uns arquivos aqui que ainda têm coisa para a construção do Tabernáculo. Veja você… Bom, vai anotando aí.
— A-ai meu sa-saco…
O altar de queimar incenso
(Êxodo 30:1-10)
— Ai, Moisés, comi pra caralho… Deixa eu ver se sobrou uma coisinha pra você. Hum… Hum… Aqui. Toma, pode comer tudo.
— U-um ta-talo de a-aipo???
— Ué, foi só o que sobrou. Não reclama, pelo menos é saudável. Vai roendo seu aipo aí.
— Po-porra…
— Bah, Moisés! Deixa de ser resmungão. Vamos agora ao altar de incenso. Vai ser de acácia também. Terá noventa centímetros de altura e a superfície será um quadrado de quarenta e cinco centímetros de lado. Nos quatro cantos haverá pontas, que formarão uma só peça com o altar, assim, ó. O resto é o de sempre: Tudo revestido de ouro, com um remate de ouro em volta, argolas e cabos para o transporte. O altar vai ficar em frente à cortina que divide o Tabernáculo. Todo dia de manhã e à noite Arão vai queimar incenso lá, pra perfumar o ambiente. E vê lá, hein? Não vão fazer confusão com o altar dos sacrifícios. Esse altar é só para o incenso.Uma vez por ano o Arão vai purificar o altar pondo sangue do animal sacrificado nas quatro pontas.
— Ta-tava de-demorando pra fa-falar em s-sangue…
— Não torra, Moisés.
