(Levítico 13:1-46)
— Cê viu, Moisés? O cara tem raiva de mulher!
— E-eu n-nem e-estranho mais. S-sempre de-desconfiei.
— Hum, sei… E vocês dois, hein? Quarenta dias sozinhos no alto do Sinai. Não rolou um clima não?
— T-TOMAR NO C-CU, A-ARÃO! Vê l-lá se eu s-sou de fa-facilitar pra vi-viado…
— Hehehe… Toma cuidado com a Javélia…
— QUE PORRA CÊS DOIS TÃO COCHICHANDO AÍ????
— Ô, Javé, já voltou? Falávamos sobre o quanto você é zeloso e limpo, com essas precauções higiênicas todas.
— Sei, sei… Então cês vão gostar mais ainda dessa parte sobre lepra.
— Le-lepra?
— É, Moisés. Lepra. Aquela doença nojenta. ARGH, não suporto leproso. Meu filho gosta, mas eu não SUPORTO e…
— Peraí, Javé. Filho? Você tem um filho?
— Er… Quem falou em filho?
— Você! Acabou de dizer que seu filho gosta dos leprosos.
— Cê tá velho Arão, tá ouvindo tudo errado. Humpf. Vê se me poupa das suas caduquices, que temos muito trabalho a fazer. Então. Leis sobre lepra, anotem aí. Se alguém tiver na pele uma mancha, uma inchação, um tumor, qualquer coisa que pareça que vai se tornar lepra, deverá procurar um dos sacerdotes. O sacerdote vai examinar o cara. Se a ferida estiver mais funda que a pele, com pêlos brancos, então é lepra, e o sacerdote declarará a pessoa imunda. Mas se a mancha for branca e não estiver afundada nem com pêlos brancos, então a pessoa ficará isolada por sete dias. Ao fim do isol…
— Peraí, Javé. Que porra de método diagnóstico é esse? Pelo que você falou, o cara pode estar até com micose.
— Foda-se, pra mim é tudo lepra. Nojo, nojo!
— Calma, santa!
— COMO É?
— Eu disse: Calma! Senta…
— Já estou sentado.
— Ah, não tinha reparado.
— HUMPF. Deixa eu falar, vai. Ao fim do isolamento, o sacerdote examinará o cara novamente. Se a mancha permanecer como estava, ele ficará isolado mais sete dias.
— O sa-sacerdote?
— Claro que não, porra! O leproso! Então. Depois desses outros sete dias, será examinado novamente. Se a mancha estiver desaparecendo e não tiver se espalhado, então é só uma coisa besta sem importância. O paciente lavará a roupa que estiver vestindo e será declarado limpo.
— Depois de perder duas semanas de trabalho…
— Oras, Arão, cê queria o quê nesses tempos difíceis? Licença remunerada? Não dá, né? Mas quanto ao tal cara com a mancha: Se depois de declarado limpo a mancha voltar a se espalhar pela pele, ele irá falar novamente com o sacerdote, que o examinará. Se comprovar que a mancha de fato está se espalhando, irá declarar o cara impuro, porque é um caso de lepra.
— N-não seria m-mais f-fácil co-contratar u-uns m-médicos, e-enfermeiras e t-tal?
— É verdade, Javé. Por que deixar esse negócio de saúde pública na mão dos sacerdotes?
— O orçamento desse ano tá apertado. Ano que vem talvez a gente consiga até abrir um hospital, fazer um programa de saneamento básico no acampamento…
— Xi, já ouvi esses papos…
— Bah! Então não enche o saco e continua anotando aí. Se um sujeito tiver suspeita de lepra, irá falar com o sacerdote, que fará o exame. Se houver na pele do cara um tumor branco, com pêlos brancos, e houver uma ferida aberta no lugar, então é um caso crônico de lepra. Não vai nem ser mandado pro isolamento, vai direto pra fora do acampamento. Mas se a doença tiver se espalhado pelo corpo todo, deixando a pele toda branca, a pessoa será declarada pura.
— C-claro. I-isso n-não é le-lepra, é vi-vitiligo.
— Verdade, Javé. Manja o Michael Jackson? Então.
— Pra mim é tudo lepra! Esse cara aí que ficar todo branco, por exemplo: Se aparecer uma ferida na pele do cara, seja onde for, ele será declarado impuro. E só vai se livrar se a ferida sarar depois. E continuando: Se alguém tiver um furúnculo que sarou e no lugar apareceu uma mancha branca ou avermelhada, já sabe o que fazer: Vai falar com o sacerdote para ser examinado. Se a mancha estiver afundada e com pêlos brancos, aquele leriado todo, então é lepra. Caso contrário, o cara ficará isolado por uma semana. Se nesse período a mancha se espalhar, é lepra e o cara será declarado imundo. Caso contrário, é só uma cicatriz, fica tudo bem. E o que vale para mancha deixada por furúnculo, vale pra queimadura.
— Porra, Javé, desde quando queimadura causa lepra???
— Não sei, não sei, melhor não arriscar. Se a gente deixar um leproso não diagnosticado no meio do acampamento, daqui a pouco vocês serão um povo de leprosos e todo meu projeto irá por água abaixo. E vamos em frente: Se uma pessoa tiver uma doença de pele no cabelo ou na barba, será examinada. Ferida funda, cabelos amarelados e ralos: Lepra, tchau.
— LEPRECHAUN???
— Mané leprechaun, véio surdo. LEPRA! TCHAU!
— Ah…
— Saco… Então. Mas se o negócio parecer mais ou menos normal, serve a mesma regra: Isolamento por sete dias, novo exame. Se a ferida não tiver se espalhado, a pessoa raspará o cabelo ou a barba, sem cortar os cabelos da parte doente, e ficará mais sete dias isolada. Se a ferida não se espalhar, a pessoa será pura. Caso contrário, é lepra.
— Po-porra, Ja-Javé, tá fi-ficando ch-chato isso…
— Peraí, já vou terminar. Se um homem perder os cabelos na parte de trás da cabeça ou ficar com entradas, ele continuará puro, apesar de careca. Vai ser mais difícil pra ele arrumar mulher, mas isso é o de menos. No entanto, se na careca do cara aparecer uma mancha cor de rosa, é lepra. O sacerdote o examinará e declarará o careca impuro. É lepra.
— LEPRA PORRA NENHUMA! Javé, estamos no meio do deserto, o tempo todo debaixo desse sol desgraçado. Um careca que andar por aí com a cabeça descoberta corre grande risco de pegar um câncer de pele, mesmo porque ainda não inventaram o Sundown. É câncer de pele, Javé, não lepra!
— É lepra! É tudo lepra essas porras! E os leprosos viverão fora do acampamento, totalmente isolados. Vestirão roupas rasgadas, não pentearão os cabelos e cobrirão o rosto da boca pra baixo, que é para serem reconhecidos de longe. E sempre que virem alguém se aproximando, gritarão: “Cuidado! Sou um leproso imundo!”.
— P-pô, Ja-Javé, q-quanta c-crueldade!
— Crueldade nada! O lugar para onde os leprosos vão vai ter vários confortos. Quadras poliesportivas. Videokê.
— S-sério???
— Claro! Imagina os leprosos felizes, jogando vôlei. O juiz grita “Mão na rede!”. “É minha, é minha!”. E no videokê então, cantando “Jogue suas mãos para o céu/E agradeça lalalalá” ou “Já não tenho dedos pra contar/De quantos barrancos lalalá…”.
— Puta que pariu, Javé, que senso de humor mais cruel. E os caras vão ter que ficar isolados lá para sempre, é isso?
— Claro que não! O cara pode ir fugindo aos pouquinhos: Um dia um dedo, no outro o nariz, no outro uma orelha, depois um pé…
— AAAAAARGH!
— Hehehe… Chega de brincadeira, vamos trabalhar.
(Charge do Henfil gentilmente surrupiada na maior cara-de-pau do Mundo Perfeito)
Categoria: Bíblia
Lei para purificação da mulher depois do parto
(Levítico 12)
— Muito bem, muito bem, vamos em frente. Purificação de mulé recém-parida.
— Que linguagem é essa, Javé???
— É pra quebrar o gelo, Arão. Porra. Javezinho Paz e Amor, lembra? Hum… Bom. Tá aqui, ó: Quando a mulher parir um moleque, ficará impura por sete dias. Aliás, o mesmo vale para o período menstrual. Mas estamos falando de parto: Sete dias. No oitavo dia, o menino será circuncidado. E depois a mulher ainda ficará impura por mais trinta e três dias, por causa da perda de sangue durante o parto. Durante todo esse tempo ela não poderá tocar em nada sagrado, nem ir até o Tabernáculo.
— P-pô, Ja-Javé, q-quarenta di-dias i-impura? N-não é e-exagero n-não?
— Claro que não, ainda tá bom demais! Ruim mesmo é se parir uma menina: A mãe será impura por 80 dias.
— Pô, sacanagem. Isso aí é discriminação, Javé.
— Discriminação, Arão? DISCRIMINAÇÃO? Escuta aqui, eu tinha um belo plano para a raça humana quando criei essa porra toda. Estava tudo certo, tudo perfeito. Aí veio o Adão: “Pô, deus, bem que cê podia me arrumar uma mulézinha, essa vida de punheta não e mole”, aquele nhenhenhém todo. Pois eu fui lá e fiz a vontade do cara: Arranquei uma costela dele (com anestesia, vejam bem!) e fiz uma puta mulé gostosa pra ele. Aí cês sabem o que aconteceu, né? Uma cobra ofereceu maçã pra vagabunda, ela ofereceu pro Adão e pronto: Lá se foram meus planos.
— Porra, Javé, quem mandou inventar uma regra tão esdrúxula também? “Não comam do fruto dessa árvore”… Não seria melhor nem ter plantado a árvore?
— Ah, Arão, não discute comigo. Eu faço as regras. E por causa de uma lambisgóia qualquer, minhas regras foram quebradas e tive que ter essa trabalheira toda de escolher um cara para ser o pai de uma nação, para eu tirar essa nação da escravidão, depois criar toda uma série de rituais para diferenciá-la das outras. Um inferno a minha vida, graças a uma mulher. ODEIO MULHER!
— Hu-hum, sa-santa…
— Falou alguma coisa, Moisés?
— E-eu? E-eu n-não…
— Então me deixa continuar: Depois do tempo de purificação, a mulher trará até o Tabernáculo um carneirinho de um ano e um pombinho ou rolinha para oferecer como sacrifício. Se a miserável não tiver dinheiro pra comprar um carneirinho, pode trazer duas aves e tá tudo certo. Anotaram aí?
— Tudo anotado.
— Então esperem que eu vou ali tomar um pouco de ar e esfriar a cabeça. Falar de mulher me deixa com raiva. Quando eu voltar a gente continua.
Os animais puros e os impuros
(Levítico 11)
Com Arão um pouco mais calmo depois da conversa, era hora de deus botar em prática seu novo método de trabalho, falando com os dois irmãos, e não só com Moisés.
— Muito bem, chamei vocês aqui pra gente começar a se aprofundar nas leis e rituais que eu tô bolando cá dentro da cachola. Tá ficando uma beleza, cês precisam ver. E pra começar, nada melhor que a lista de animais puros e impuros.
— Animais puros e impuros? Que palhaçada é essa? Os bichos vão ter que tomar banho agora? Ou é outro tipo de pureza? Vamos ter que manter as fêmeas virgens?
— Arão, Arão… Você precisa ser mais tolerante.
— Eu sou tolerante. Tolerante até demais. Nunca saí por aí matando os filhos dos outros, veja você.
— Ô, rapaz, cê nunca vai esquecer essa história? Fala com seu irmão, Moisés.
— É, A-Arão. Pe-pega le-leve, se não é c-capaz do Ja-Javé ma-matar a gente.
— Não é pra tanto, Moisés. Estou tentando mudar, conter meu temperamento. Vocês vão ver, a partir de agora vou ser o Javezinho Paz e Amor.
— Sei.
— Pode acreditar!
— Tá bom. Fala logo aí o lance dos bichos sujos e imundos.
— Não. Animais puros e impuros. É importante isso aí, pra vocês se diferenciarem dos outros povos. Pois muito bem, vamos lá: Vocês poderão comer a carne de todos os ruminantes que têm o casco dividido em dois. Vaca, cabra, essas coisas.
— Q-que po-porra de re-regra é essa, Ja-Javé?
— Ah, sei lá, pombas! Não tive tempo de fazer uma classificação decente das espécies, então resolvi adotar essa regra. Não me torre. Humpf. Como eu ia dizendo: Vocês estão proibidos de comer carne de camelo ou coelho, por exemplo. E sabem por quê?
— Porque começam com a letra “C”?
— Porra, Arão, também não precisa esculhambar. Cês não vão comer esses animais porque eles são ruminantes, mas não têm o casco fendido. Percebem? E também não vão comer porco, por quê?
— P-porque é u-um pu-puta bi-bicho s-sujo?
— Não.
— Pra não pegar solitária?
— Claro que não.
— E-então p-por quê?
— Porque o porco tem o casco fendido mas não é ruminante. Entenderam agora?
— A-acho que s-sim.
— Vejam só que bela regra. Agora para os peixes: Vocês podem comer todo peixe que tiver escamas e barbatanas. Qualquer bicho aquático que não tiver escamas e nadadeiras está riscado da dieta de vocês a partir de agora.
— Podemos mudar o nome do acampamento para “Spa do Javé”, que tal?
— Ah, Arão, quanta amargura no seu coraçãozinho… Anime-se, tudo isso é para o bem de vocês. Quanto às aves: São imundos os urubus…
— I-isso n-nem p-precisava di-dizer…
— Posso continuar?
— …
— Humpf. São imundos: Os urubus, as águias, açores, falcões, corvos, avestruzes, corujas, gaivotas, gaviões, mochos, corvos-marinhos, íbis, gralhas, pelicanos, abutres…
— Vixe, não vai sobrar nada…
— DEIXA EU FALAR, PORRA! Hum… Abutres, cegonhas, garças, poupas e morcegos.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHA.
— Que foi?
— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.
— QUE FOI, CARALHO???
— D-desde q-quando mo-morcego é a-ave, Ja-Javé?
— É ave se eu disser que é ave, ok? Eu que fiz o bicho e classifico como quiser. Não me encham o saco! Olhaí, perdi o fio da meada… Ah, faltam os insetos.
— Insetos? Quem é que vai querer comer inseto, Javé?
— Querer mesmo ninguém quer, Arão. Mas sabe como é a necessidade… Então fica assim: Os insetos que andam e voam são imundos. Vocês só poderão comer os insetos que saltam, ou seja, grilos e gafanhotos. E dos animais que eu não citei aqui são impuros todos os répteis, inclusive lagartixas, além dos ratos e toupeiras. Anotou tudo aí, Moisés?
— A-anotei. É s-só i-isso?
— É. Aí entram as regras complementares: Quem tocar no cadáver de algum desses animais impuros será considerado impuro até o pôr-do-sol. E qualquer coisa que tocar o cadáver de um desses animais, será impura. Bom, pega aqui a lista com maiores detalhes, tem aí o que fazer se um bicho morto cair dentro d’água, ou de uma panela, ou onde se guardam as sementes.
— Putz, é BEM detalhista mesmo, hein?
— É assim que eu quero, Arão. Quando vocês chegarem a Canaã, os povos que lá vivem vão comentar: “Puxa, que povo diferente, esses israelitas”.
— Vão é chamar a gente de esquisito.
— Pois que seja. Pelo menos não serão iguais aos outros.
— E-então tá b-bom, Ja-Javé. É s-só i-isso m-mesmo?
— Claro que não! Tenham paciência, que ainda tenho um monte de rituais malucos aqui pra vocês.
Leis para os sacerdotes
(Levítico 10:8-20)
O fato é que pegou mal pra caralho a morte de Nadabe e Abiú, então deus se viu obrigado a chamar Arão pra uma conversa.
— Ô, Arão. E aí?
— E aí nada. Resolveu falar comigo agora por quê? Sempre falou só com meu irmão. Que foi? Consciência pesada?
— Putz, Arão, foi mal. Às vezes eu me irrito e reajo de forma um pouco exagerada, sabe?
— UM POUCO EXAGERADA??? VOCÊ MATOU MEUS FILHOS!!!
— É, colocado assim é mesmo meio chato, né? Mas olha só, eles desobedeceram minhas leis e…
— … E você matou os meninos. Maravilha, não?
— Calma, Arão, deixa eu falar. Vocês têm que obedecer minhas leis à risca, se não isto aqui vira uma esculhambação. Mas vamos tocar em frente, com essas coisas a gente vai aprendendo. E vou começar a falar com você e Moisés juntos, e não só com ele.
— Puxa, que honra imensa, eu não mereço!
— Poupe-me do seu sarcasmo, Arão. Quer virar churrasq… Arram… Er… Então. Olha só, vamos começar com algumas leis para os sacerdotes.
— Vou ali chamar o Moisés.
— Nah, nem precisa! Falo só com você mesmo, que é o principal interessado. Olha, toma aqui um bloquinho e uma caneta, vai anotando aí. Então. Seguinte: Cês não podem entrar bêbados no Tabernáculo. Nego que entrar aqui de fogo pode pegar fogo. Entendeu? Pegar fo… Hum. Desculpa aí, foi mal. Vamos adiante. Todo sacerdote deve saber de cor o que é puro e o que é impuro, para não trocar os pés pelas mãos e acabar se dando mal.
— E como é que é esse lance de puro e impuro?
— Ah, isso aí eu ainda vou passar pra vocês. Mas não agora. Cê tá de cabeça quente, foi um dia cheio. Vai descansar um pouco, outro dia eu chamo vocês aqui pra gente cuidar desses detalhes.
— Tá bom então. Té mais.
— Amigos?
— Veremos.
Arão saiu do lugar onde ficava a Arca da Aliança e foi para a área comum do Tabernáculo. E deu de cara com Moisés discutindo com Eleazar e Itamar detalhes sobre ofertas de cereais, sobre a parte do sacrifício destinado aos sacerdotes, sobre um bode que tinha sido queimado antes da hora e cuja carne não fôra comida por eles, como mandava a lei. Vendo e ouvindo aquilo, Arão emputeceu-se:
— Escuta aqui, Moisés! Cê não viu o que aconteceu hoje? Meus filhos, irmãos desses aí, morreram hoje por causa desse negócio de rituais e não sei mais o quê. E cê acha que a gente ia se preocupar com essas picuinhas? Se eu tivesse vindo aqui oferecer sacrifícios e comer a carne destinada aos sacerdotes, com o ódio que estou, você acha que Javé ia gostar? Hein, Moisés?
Diante da justa fúria do irmão, Moisés preferiu ficar calado.
A morte de Nadabe e Abiú
(Levítico 10:1-7)
Bom, lembram do Nadabe e do Abiú? Como não, porra? Filhos de Arão, portanto sacerdotes. Baixem aí o PDF do Êxodo, deve ter algum capítulo em que eles são citados. Mas também nem vale o esforço, porque eles já vão morrer mesmo. Vão vendo.
Numa manhã qualquer, os dois chegaram ao Tabernáculo para mais um dia de trabalho. Como de hábito, a primeira obrigação do dia era queimar incenso.
— Ô, Nadabe. Me passa o incenso aí.
— Que incenso? O incenso tá com você, oras.
— Tá louco? Hoje era seu dia de trazer incenso.
— Nem a pau! Eu trouxe ontem.
— Ai caralho… E agora, o que a gente faz? Se não tiver incenso, capaz do Javé ficar puto.
— Porra, tá com medo do Javé? Tá parecendo o pai e o tio Moisés, com esse negócio de Javé pra cá, Javé pra lá.
— Ah, então vamos fazer o quê? Deixar sem incenso e pronto?
— Claro que não. Peraí.
Nadabe saiu da tenda dizendo que voltava logo. Não foi difícil encontrar quem ele procurava; era o único sujeito de túnica laranja-brilhante no meio de tanto branco e cinza. Chamou o cara e ele veio pela estrada que levava ao Tabernáculo, cantando e tocando seu pandeiro:
— Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Hare Krish…
— Ô, Hare Krishna, chega de cantoria. Quanto tá esse incenso aí?
— É um real.
— UM REAL??? Mas é incenso de primeira qualidade!
— Pois é, aproveita que tá baratinho.
— Puxa… Olha, esse incenso é tão bom, mas TÃO BOM que eu vou levar… UM! (*piada interna)
Comprado o incenso, voltou para o Tabernáculo.
— Olha aí, Abiú. Duvido que o tal Javé vai saber diferenciar este incenso aqui daquele que queimamos todo dia.
— Nadabe, cê sabe o que tá fazendo?
— Claro que sei, oras.
— Vê lá, hein…
— Deixa de ser bunda mole, Abiú! Sai daí, deixa que eu queimo essa porra.
Todo seguro de si, Nadabe puxou seu Zippo do bolso da túnica e acendeu o incenso. Na mesma hora, deus acendeu seu Zippo gigante lá no fundo do Tabernáculo e lançou uma labareda que matou os dois irmãos carbonizados.
— Hehehe. Queriam me sacanear? Sacaneei vocês!
Vejam que deus bom e maravilhoso! Os caras trocaram o perfuminho dele e pronto: Bastou para que ele os matasse. Um pouco depois, Arão chegou e deu de cara com os dois filhos mortos no chão da tenda. Sem saber o que fazer, ligou pra Moisés, que veio na mesma hora.
— A-ai, ca-caralho, q-que a-aconteceu?
— Sei lá! Cheguei aqui e meus meninos estavam mortos. Isso é coisa do Javé, Moisés.
— É, de-deve ser m-mesmo… Hum… P-peraí, que i-incenso é e-esse? I-incenso de ha-hare k-krishna? P-putz, foi i-isso. Q-queimaram i-incenso e-errado e Ja-Javé fi-ficou p-puto.
— PORRA! Só por causa do incenso? Não é possível!
— C-claro que é p-possível. Ja-Javé é ch-cheio de ma-manias.
— Que filho da puta… E agora?
— A-agora o ne-negócio é se-sepultar os c-corpos.
Moisés então ligou para Misael e Elzafã (!!!), primos dele e de Arão, para que eles viessem tirar os corpos de dentro da Tenda e sepultá-los fora do acampamento. Enquanto isso, Moisés foi falar com deus para saber o que deveria fazer. Depois de um tempo saiu para falar com Arão e seus dois filhos restantes, Eleazar e Itamar:
— Se-seguinte: A o-ordem de Ja-Javé é q-que vo-vocês n-não fi-fiquem de lu-luto p-pela mo-morte dos dois. T-todo o po-povo de I-Israel po-pode fi-ficar de lu-luto, só vo-vocês que n-não. E vo-vocês estão p-proibidos de s-sair do Ta-Tabernáculo, se s-saírem, v-vão mo-morrer.
Que beleza, não? Mata os filhos do cara e ainda o proíbe de lamentar a perda. Isso é que é um deus bom!
Arão oferece sacrifícios
(Levítico 9)
Passados os sete dias da ordenação, Moisés foi falar com Arão:
— E a-aí, ca-cabeção? C-confortável aí?
— CORNO! FILHO DA PUTA! SETE DIAS AO RELENTO! EU RENUNCIO A ESSA PORRA! RENUNCIO!
— Ca-calma, A-Arão. Não po-pode r-renunciar não, Ja-Javé a-acaba com a t-tua r-raça…
— Mas isso é trabalho escravo, porra!
— T-trabalho e-escravo na-nada. Cê tem c-comida de g-graça, boas r-roupas, m-mordomias. C-contente-se.
— HUMPF. Bom, pelo menos terminou esse negócio de ordenação.
— Hum… M-mais ou m-menos. A-ainda tem uns s-sacrifícios p-pra fa-fazer.
— Ah, não, Moisés! Mais sangue???
— É. E de-dessa vez v-vai ser uma ca-carnificina, p-porque o Ja-Javé vai v-vir pra ja-jantar.
— Vixe! Então vai ser pesado o negócio?
— De-demais. O-olha a li-lista…
— Hum. Um bezerro, um carneiro, um bode, outro bezerro, outro carneiro, um touro, OUTRO CARNEIRO, CARACA! Cereais, azeite. O cara tá com fome MESMO.
— É a la-larica… E-então, p-prepara t-tudo aí.
— Bom, não tem outro jeito. Vou falar pro povo trazer esses bichos todos.
O comunicado correu o acampamento, e em pouco tempo os animais solicitados pelo sanguinário Javé estavam à disposição no Tabernáculo. E foi um dia de sangue, com Arão matando os bichos todos. Ao final desse massacre monstruoso, Arão e Moisés saíram da tenda para abençoar o povo e todos puderam ver a brasa do baseado de deus brilhando sobre o Tabernáculo.
— POVO DE ISRAEL!
— OOOOOOOOOOOOOOOOH, JAVÉ!
— VOU FAZER UM NEGÓCIO LOUCO AGORA! PRESTENÇÃO!
Dizendo isso, puxou uma tragada forte e prendeu por um tempo. Quando soprou, em vez de fumaça veio uma labareda que queimou tudo o que estava no altar. O povo delirou:
— CARACA! JAVÉ É FODA! GRANDE JAVÉ! U-HU!
Muito satisfeito com sua apresentação, deus divulgou seu telefone para shows e sumiu.
Pronto, os sacerdotes estavam ordenados. Vidão de matar uns bichos e comer de graça, não? Hum… Mais ou menos. Aguardem o próximo capítulo.
A ordenação dos sacerdotes
(Levítico 8)
— Ô Chicoteia! Acorda, caralho! Sua vez!
— Minha vez de quê?
— De dar as cartas… Oras, de quê! De contar a história!
— Mané história! Moisés e deus tão conversando aqueles trecos chatos lá do Levítico. Me deixa dormir.
— Que conversando nada! Já chegamos na ordenação dos sacerdotes.
— Já??? Impossível, isso fica lá no oitavo capítulo!
— Pois é. Só que você fez aquela pilantragem de contar um pedação em dez linhas, deu nisso. Agora precisamos de um narrador para esse capítulo.
— Pô, mas logo eu?
— Ah, mas só faltava essa! Você que inventou isto aqui, e agora vai deixar seus leitores na mão?
— Bah, peraí. Ó, esse cara aí pode fazer minha parte:

— O Athayde Patreze??? Cê tá doido?
— Ué, a tal ordenação não é um acontecimento social? Então. Eu ia chamar o Amaury Jr., mas meu orçamento tá apertado.
— Humpf. Tá, tá bom. Vamos lá então, Athayde, que parece que já começou o negócio
* * *
— Nós estamos aqui no Tabernáculo de Javé no meio do deserto para a ordenação de Arão e seus filhos como sacerdotes. Ali na porta da tenda está o Moisés, nosso anfitrião, que é SIMPLESMENTE um lu-xo! Vocês podem ver que tem um monte de gente lá fora, populares que vieram assistir a toda essa demonstração de fausto e riqueza. Não são lindos? Estão ba-ban-do! Olha, parece que vai começar a cerimônia, Arão e os filhos dele chegaram perto de Moisés. Estão só de calção, vejam que sexy isso! Estão se lavando para poderem vestir as roupas novas. E vejam que roupas, tudo de tecidos finos, com detalhes e adereços em ouro, que coisa maravilhosa! Ficaram lindos, meninos! E agora? Ah, Moisés está borrifando azeite por toda a tenda. E derramou azeite sobre a cabeça de Arão também, para ordená-lo como sacerdote. Que ritual mais lindo, que demonstração de fé! Olha que bonito agora, Moisés está trazendo um bezerrinho para dentro da tenda. Que lindinho! Arão e os meninos botaram as mãos na cabeça do bichinho e… O que Moisés está fazendo? HEIN? Não é possível! ELE MATOU O BEZERRINHO! MATOU! TADINHO! Ai, eu não agüento! Ai, meus sais, meus sais!
— Sai daqui, sua bicha. Cê não tá acostumado com essas coisas.
— Ai, que bom que você chegou, Chicoteia. Olha o que eles estão fazendo com o bichinho!
— É assim mesmo, Athayde. Deixa comigo, eu termino de contar.
— Obrigado. Você é SIMPL…
— Tá, tá, já sei.
Aham. Então, Moisés matou o bezerrinho. Oras, que dúvida. Estava demorando pra ter um pouquinho de sangue pra Javé nessa história de ordenação. O tal bezerro era pra tirar os pecados dos sacerdotes. Moisés fez o negócio todo de borrifar sangue nos cantos do altar, derramar o resto na base, queimar a gordura e os miúdos, aquilo tudo que já estamos cansados de saber. Depois do bezerro, veio um carneiro para ser completamente queimado. E depois outro carneiro, esse especial para a ordenação, que Moisés matou e depois pôs um pouco do sangue na orelha direita de Arão, no polegar direito e no dedão do pé direito, fazendo depois o mesmo com seus filhos (o mesmo que fez com Arão, e não com o carneiro. Infelizmente). Feito isso, separou a gordura, o rabo, a melhor parte do fígado, os rins e a coxa direita do carneiro, mais um pão sem fermento da cesta das ofertas e deu tudo isso nas mãos dos sacerdotes recém-ordenados. Moisés ficou com o peito do carneiro, porque não é só Javé que come nessa história.
E aí começou a sacanagem com os caras: Moisés pegou um pouco do azeite sagrado, misturou com o sangue que estava no altar e borrifou Arão e seus filhos com a mistura.
— Peraí, Moisés, que porra é essa? Olha nossas roupas novas!
— S-sei de n-nada! Ja-Javé que m-mandou fa-fazer isso. E m-mandou ta-também vo-vocês co-cozinharem a ca-carne ju-junto com o p-pão da c-cesta lá na e-entrada do Ta-Tabernáculo, e co-comeremm tudo. Vo-vocês v-vão fi-ficar se-sete d-dias a-ali na p-porta.
— Ah, Moisés, não fode! SETE DIAS ao relento na porta da tenda? NEM A PAU!
— Cê que sa-sabe, A-Arão. Ja-Javé d-disse que vai ma-matar quem n-não o-obedecer.
— Filho da puta…
— Hehehe.
Instruções a respeito de vários tipos de ofertas
(Levítico 6:8-30; 7)
— Bom, Moisés, vamos agora às instruções para as ofertas todas.
— Ai, q-que sa-saco…
— Relaxa, Moisés. Para não perdermos tempo com esse negócio, botei tudo num PDF e vou passar para você. Não tenho paciência para ficar falando essas coisas. No arquivo tem instruções detalhadas sobre ofertas completamente queimadas, ofertas de cereais, ofertas para a ordenação dos sacerdotes, para tirar pecados, para tirar culpas, ofertas de paz, o que fazer com a gordura e o sangue, a parte dos sacerdotes… Bom, tá tudo aí.
— Ah, que be-beleza…
— É isso aí. Cansei desses diálogos chatos. Vamos passar a palavra para o narrador, que parece que ele quer contar como foi a ordenação dos sacerdotes.
Casos em que é preciso oferecer sacrifício
(Levítico 5 e 6:1-7)
— Bom, Moisés. Cê perguntou quando é que se deve oferecer sacrifícios.
— Pe-perguntei?
— Perguntou
— T-tem ce-certeza?
— Ô meu saco… Tenho. Olha aqui.
— Ah…
— Então. Imagine um cara aí que viu um crime e seja chamado para testemunhar. Aí quando chega a vez dele depor, ele dá pra trás e diz que não viu nada, que não sabe de nada. É culpado, tem que oferecer sacrifício. Ou então se alguém tocar algo impuro, sei lá, um bicho morto, ou nas feridas de alguém, ou em merda, vai ter que oferecer sacrifício.
— Pe-peraí, Ja-Javé. Se o c-cara e-encostar num bi-bicho m-morto, tem que o-oferecer sa-sacrifício?
— Isso aí.
— E-então v-vai t-trazer um bi-bicho a-aqui e ma-matar.
— É.
— M-mas aí e-ele t-terá to-tocado num bi-bicho m-morto de no-novo!
— Hehehe, eu sei. Boa essa, né? Nunca que eu vou passar fome!
— Que f-filho da p-puta…
— Falou alguma coisa, Moisés?
— E-eu? Eu n-não!
— Hum. Então vamos em frente. Nego que fizer juramento sem pensar será culpado. Sacrifício.
— Sa-sacrifício de q-quê? T-touro?
— Nah, nem é pra tanto. O cara vai confessar o pecado para mim e trazer uma ovelha ou uma cabra para ser sacrificada.
— Ah, t-tá… M-mas e se a p-pessoa não t-tiver di-dinheiro pra co-comprar u-uma o-ovelha ou u-uma c-cabra?
— Nesse caso pode trazer duas rolinhas. Ou dois pombinhos, tanto faz. Aceito do mesmo jeito.
— Hum. E se n-nem pra co-comprar pa-passarinho o ca-cara tiver di-dinheiro?
— Putz, sei lá! Ah, pode trazer um quilo de boa farinha e tá tudo certo.
— Tá b-bom. M-mas e s-se o ca-cara n-não ti-tiver co-como c-comprar fa-farinha?
— Ah, Moisés, faça-me o favor! Quem é que não tem dinheiro pra comprar um mísero quilo de farinha? Um cara desse, puta merda, é melhor que ele seja o sacrifício! Bom, vãopará com essas hipóteses absurdas, que ainda falta muito para terminarmos. Onde é que eu estava… Ah. Se um cara esquecer de trazer as ofertas devidas ao Tabernáculo, deverá trazer um carneiro sem defeito para ser sacrificado e assim ter seu pecado perdoado.
— E a-aí fi-fica p-perdoada a d-dívida?
— Tá pensando que eu sou trouxa, Moisés? O sacrifício é só para tirar a culpa do cara. Além do carneiro, ele vai trazer o que deve acrescido de multa de vinte porcento.
— V-VINTE P-PORCENTO??? Q-que a-absurdo!
— Tem que ser assim, se não esse povo avacalha tudo. Vamos adiante. Se um cara quebrar um dos meus mandamentos, também vai ter que trazer um carneiro sem defeito, aquele lero-lero todo. E este será o sacrifício também para quem ficar com alguma coisa que lhe foi entregue para guardar, ou não devolver o que lhe foi deixado como garantia de dívida, ou se roubar, ou agredir alguém, ou se jurar que não achou algo que de fato achou. Além do sacrifício, quem cometer qualquer dessas faltas deverá reparar o mal que fez. No caso de ter ficado com algo que não lhe pertencia, deverá devolver ao dono acrescido de vinte porcento do valor.
— Ô Ja-Javé, dá u-um je-jeito nessa m-multa aí, m-muito pe-pesada.
— Que pesada nada! Tem que ser assim, não quero que isso aqui vire uma zona. E vamos em frente, vamos em frente… O que vem agora… Ah, ofertas completamente queimadas.
— Pe-peraí, Ja-Javé. P-preciso mi-mijar.
— Vai lá, Moisés. E não se esqueça de lavar as mãos depois.
— Ih, q-que f-frescura é e-essa a-agora?
— Cê não viu nada ainda. Tô preparando umas leis aqui que cê vai ver só. Israel pode até não vir a ser uma grande potência, mas eu garanto que vai ser o povo mais limpinho desse mundo.
Sobre o Levítico
Lado ruim: É chato. MUITO chato. Repetitivo. Insuportável.
Lado bom: O Gênesis tem 50 capítulos. O Êxodo, 40. O Levítico tem 27. Coragem, Marcurélio.
