(Números 28,29 e 30)

Vimos no último capítulo que deus anunciou a Moisés que ele morreria sem entrar em Canaã e que Josué seria seu substituto. Depois desse ato de bondade e justiça, Javé passou a repisar várias leis, para garantir que tudo seria feito conforme as regras mesmo depois da morte de Moisés. Então falou das ofertas diárias, dos sábados, da Festa da Lua Nova, da Páscoa, da Festa da Colheita, do Ano Novo, do Dia do Perdão, da Festa das Barracas e das leis para regular promessas e juramentos feitos pelos israelitas, tudo isso em exaustivos detalhes.
Este resumo pode parecer uma tentativa minha de apressar as coisas, mas não é: os três capítulos são mesmo mera repetição de passagens que já vimos. Não vou esgotar a paciência de vocês (nem a minha) falando tudo de novo.
E bola pra frente, que no próximo capítulo tem guerra.

(Números 27:12-23)

— Pô, Moisés, é cada problema besta que cê me traz. Essa das filhas do cara lá… Como era mesmo o nome dele?
— Z-Zelofeade
— Zelofeade… Nomezinho feio da porra! Mas então, essa foi demais.
— Hehehe… T-tem r-razão, Ja-Javé. A-acho que t-tô f-ficando v-velho.
— É, Moisés. Já tá com cento e vinte anos de idade, não é mais aquele jovem de oitenta aninhos que saiu todo serelepe do Egito.
— Q-quarenta anos… P-puxa v-vida. Dá p-pra e-escrever um l-livro com t-tantas hi-histórias que p-passamos, né, Ja-Javé?
— É verdade, é verdade. Eu, você e o velho Arão.
— A-Arão… C-coitado do A-Arão, m-morrendo sozinho no a-alto de uma m-montanha.
— Ué. E cê acha que vai morrer como?
— C-como?
— Você vai morrer no alto do monte Nebo, Moisés.
— HAHAHAHAHA. B-brincadeira besta, Ja-Javé. A-até p-parece que d-depois de q-quarenta a-anos de jo-jornada pelo d-deserto v-você ia me d-deixar mo-morrer justo a-aqui em Mo-Moabe, tão p-perto da T-Terra P-Prometida.
— Er… Não leve a mal não, Moisés. Mas lembra do episódio da água que saiu da rocha em Meribá? Naquela ocasião eu prometi que nem você nem Arão entrariam em Canaã.
— M-mas f-foi há t-tanto t-tempo!
— Tenho boa memória. Ah, e já que você falou em escrever um livro, é melhor se apressar. Vai organizando suas memórias aí da peregrinação pelo deserto, porque você não vai durar muito.
— P-PORRA, JA-JAVÉ!
— Sinto muito, Moisés. Se palavra de rei não volta atrás, imagine palavra de deus…
— Ah, é a-assim? E-então vou e-escrever lo-logo ci-cinco l-livros. D-desde a c-criação do m-mundo até a mi-minha morte.
— Como é que você vai escrever sobre a sua própria morte, Moisés?
— Hum… S-sei lá! Dou um j-jeito.
— Tá bom. Então apresse seu trabalho.
— Ô Ja-Javé! Isso é s-sério m-mesmo?
— Não, Moisés, é pegadinha. Olha a câmera ali. Lógico que é sério, caralho!
— M-mas… M-m-m-mas… Q-quem é que v-vai gui-guiar o p-povo?
— Pô, Moisés, cê já tá velho. Até aqui o negócio foi moleza, mas a tomada de Canaã vai ser uma guerra atrás da outra. Precisamos de um general jovem e inteligente para essa empreitada. Olhaí, acho que o Josué cumpriria bem esse papel.
— O JO-JOSUÉ??? Mas e-ele é só meu o-office b-boy!
— E você era só um gaguinho estressado, e veja no que se tornou. Tá decidido: Josué será o novo líder. Você vai reunir todo o povo e você e o sumo-sacerdote Eleazar anunciarão Josué como futuro líder.
— E d-depois?
— Depois eu vou só repassar meia dúzia de leis com você. Aí você vai escrever seus livros, fazer uns discursos, subir no Monte Nebo e peidar no fubá.
— P-PEIDAR NO F-FUBÁ?
— É. Bater as alpercatas. Gaguejar seu último suspiro. Vestir a túnica de madeira. Entregar a alma a mim. Comer maná pela raiz.
— M-maná não tem r-raiz.
— Bah, você entendeu.

(Números 27:1-11)

Zelofeade (caralho!) era um israelita da tribo de Manassés que morreu no deserto deixando cinco filhas: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza (puta que pariu!). Como não havia filhos homens, as cinco irmãs foram solicitar a Moisés o direito à herança do pai. Vejam só que absurdo, até então ninguém havia pensado nisso. Mas Moisés falou com Javé, que decidiu que o que elas pediam era justo e que dali por diante as filhas teriam direito à herança dos pais, desde que (é claro) não houvesse filhos homens.
Bah, eu nem sei por que enfiaram essa história tão cheia de detalhes, com nomes e tudo, justamente neste capítulo. Deve ter sido para disfarçar o impacto da segunda metade do capítulo, a qual vou contar daqui a pouco.
Filhas de Zelofeade… Eu lá quero saber dessa família de nomes estranhos? A Bíblia tem umas coisas inexplicavelmente chatas mesmo!

(Números 26 – um capítulo escrito na maior má vontade)

Era esse o tal servicinho que deus tinha para Moisés: fazer a contagem do povo. Então ele e Eleazar saíram contando todos os homens com mais de vinte anos, e o resultado foi o seguinte:

601.730 homens, contra 603.550 da primeira contagem. Mas essa diferença de 1.820 não significava nada: conforme deus prometera num de seus muitos momentos de ira, nenhum dos homens da primeira contagem estava vivo na segunda, com exceção de Josué e Calebe.
E o Moisés, Chicoteia?
Moisés era levita, e os levitas eram contados separadamente por serem dedicados ao serviço religioso e por não possuírem terras. Aliás, o número de levitas contados com mais de um mês de vida foi de 23 mil.
De posse dos dados fornecidos por Moisés e Eleazar, Javé decidiu que a localização do futuro território de cada tribo em Canaã fosse determinado por sorteio, enquanto o tamanho seria proporcional ao número de habitantes. Veremos mais tarde que essa regra não foi cumprida à risca: no mapa antigo de Israel há tribos pequenas ocupando enormes extensões de terra e tribos populosas espremendo-se em territórios do tamanho de Osasco. Não duvido nada que tenha rolado um por fora pra Moisés (ou Josué) nessa história.
Mas falaremos disso quando chegar a hora. Por enquanto fiquem aí esperando a próxima bobagem não-bíblica que eu escrever. Bando de hereges. Bah.

(Números 25)

Muito bem, onde é que estávamos? Ah, Balaão voltou pra Mesopotâmia, deixando Balaque na mão. Mas e os israelitas, o que andavam aprontando? Bom, eles perceberam que deus não falava mais com Moisés. Claro, andava ocupado compondo repentes para Balaão. Nem mesmo o narrador estava interessado no que acontecia no acampamento. Então eles olharam um para o outro e decidiram: “VAMOS TOCAR O PUTEIRO NESSA PORRA!”
Os israelitas estavam acampados num lugar chamado vale das Acácias, perto de Moabe. Então começaram a ir até os bares e boates de Moabe pra pegar mulher. Nego entrava no bar como quem não quer nada, ia até o balcão, escolhia uma mulher sozinha e atacava.
— Oi, tudo bem?
— Tudo bem.
— Qual o seu nome?
— fldkhflksaddakljadsljksda [nome moabita impronunciável]. E o seu?
— Fazanal.
— TÁ PENSANDO QUE EU SOU O QUÊ???
— Não, não! Meu nome é Fazanal!
— Nossa… Jura?
— Sim. Fazanal, seu criado.
— Puxa, deve dar muita confusão esse nome, né?
— É, dá sim. Mas às vezes até ajuda a queimar etapas. Eu chego me apresentando, “Prazer, Fazanal”, e a garota já vai respondendo “Opa!”.
— HAHAHAHAHA. De onde você é, Fazanal?
— De Israel.
— Israel? Onde fica?
— Israel fica em todo lugar. Saímos do Egito onde éramos escravos e estamos marchando em direção à Terra Prometida.
— UAU! Vocês que atravessaram o Mar Vermelho a pé?
— Sim, nós mesmos.
— Que têm um líder gago que tirou água da rocha?
— Sim, o velho Moisés.
— E que comem pão vindo do céu?
— Argh, nem me fale! Não agüento mais maná.
— Puxa vida… Achei que fosse tudo lenda.
— É nada, garota. Aliás, se você quiser a gente pode ir até a minha tenda. A gente toma um vinho e eu te conto nossas aventuras.
— Promete que conta?
— Prometo isso e muito mais.
— Ah, então vamos.
— Vamos. Só uma coisa… Faz anal?
— Opa!
E assim toda noite vários homens israelitas levavam mulheres moabitas para suas tendas e cráu. Até aí tudo bem, os caras tavam na seca, deus fez vista grossa. Só que em pouco tempo os hebreus começaram a ir até Moabe para acompanhar suas garotas em orgias em homenagem a seus deuses, principalmente um tal Baal-Peor.
Aqui cabe um parêntese: baal era a palavra para senhor nas principais línguas semíticas (hebraico inclusive). Então dizer que Baal era o deus dos moabitas faria tanto sentido quanto dizer que Lord é o deus dos ingleses. Então Baal-Peor era o Senhor de Peor, o deus adorado naquela região. Aliás, esse Baal cananeu era uma divindade ligada aos cultos da fertilidade, os quais incluíam uma boa dose de putaria. Ah, bons tempos e lugares em que a putaria recebia as bênçãos da religião oficial!
Pois bem, se Javé já não queria saber de baal nenhum, por melhor que fosse, muito menos ia gostar de ver seu povo escolhido adorando um Baal-Peor…
PESCARAM? PESCARAM? PEOR!
— Ô Chicoteia, o Balaão já fez essa piadinha infeliz…
Bah! Então vamos em frente. Javé viu aquilo e ficou puto, é claro. Chamou Moisés e soltou o verbo:
CARALHO, MOISÉS! PUTA QUE PARIU! Que que deu nesse povo bunda agora???
S-s-sei n-não, Ja-Javé…
Você não sabe de porra nenhuma! Olha aqui, só tem um jeito da minha raiva passar agora: você vai reunir todos os líderes do povo e enforcá-los em plena luz do dia.
Ai c-caralho…
Alguma reclamação, Moisés…?
N-não…
Então vai logo fazer o que eu mandei, caralho!
Moisés saiu do Tabernáculo e foi pensando num jeito de aplacar a ira de deus sem matar os líderes do povo. Afinal de contas, eles não tinham culpa se os israelitas tinham dado mancada. Então a ordem que Moisés deu aos líderes do povo foi um pouco diferente das instruções que recebera:
— E-escutem a-aqui. Ja-Javé m-mandou que eu e-enforcasse v-vocês p-por c-causa do p-pecado do p-povo. M-mas eu v-vou t-tentar l-livrar a c-cara de v-vocês. P-para i-isso, q-quero que c-cada lí-líder mate os ho-homens de s-sua tribo q-que f-foram adorar o d-deus dos mo-moabitas.
Esta ordem, apesar de tirar da reta o cu dos líderes, causou extrema tristeza entre o povo, é claro. Além do mais, Javé mandara uma epidemia que se alastrava rapidamente pelo acampamento, já tendo matado vinte e quatro mil pessoas. O remorso tomou conta dos israelitas, e todos eles se reuniram em frente ao Tabernáculo para chorarem e implorarem perdão àquele deus tão bom, com Moisés à frente de todos.
E não é que com todo esse clima pesado um tal de Zinri, chefe da tribo de Simeão, ainda teve coragem de levar uma mulher midianita para sua tenda? Muito cara-de-pau, esse Zinri. Só que ele não contava com a astúcia de Finéias, filho do sacerdote Eleazar e neto do nosso saudoso Arão: Finéias viu Zinri se esgueirando pra dentro de sua tenda acompanhado da midianita, e foi atrás dele armado de uma lança. Ficou lá, só de butuca. Esperou que os dois tirassem as roupas e, quando Zinri traçava a mulher na popular posição do frango assado (que uns e outros chamam de galinha-choca), trespassou o casal feliz com a lança. A midianita (que se chamava Cosbi e era filha de Zur, eminente líder de Midiã) ainda deve ter pensado “Nossa, que grande!” antes de perceber que estava sendo penetrada por uma lança, e não pelo pau circuncidado de Zinri.
Danado esse Finéias, né? Pois Javé também achou: orgulhoso do zelo demonstrado pelo neto de Arão, fez cessar a epidemia e até se acalmou:
— Ê, Moisés! Esse seu sobrinho-neto aí é dos meus! Gostei desse cara. Pode dizer pra todo mundo que graças ao Finéias eu não vou matar ninguém no acampamento.
F-fora os 24 m-mil que j-já e-esticaram as c-canelas…
— Como?
— N-nada…
— HUMPF! Olha, vai lá e diz pro Finéias que a partir de hoje ele pode se considerar meu amigo. E eu prometo que ele e seus descendentes sempre serão sacerdotes. Quanto a vocês, quando chegar a hora, quero que destruam completamente os midianitas. Entendeu?
— E-entendi.
— Então vamos botar uma pedra sobre esse assunto que eu tenho um trabalhinho pra você…

(Números 24:14-25)

Como vimos no último capítulo, Balaão resolveu voltar pra casa. Mas antes proferiu sua última profecia, a mais longa e abrangente de todas:

O meu nome é Balaão
eu sou filho de Beor
sou o profeta maior
posso ver na escuridão
preste muita atenção
no que vou dizer agora
pois já está chegando a hora
vou ouvir o que deus fala
na viola mandar bala
e depois eu vou-me embora

Estou olhando pro futuro
e vendo o povo de Israel
que já provou todo o fel
e sabe que o caminho é duro
mas vai permanecer puro
e será recompensado
pois é um povo marcado
pra ser sempre vencedor
com a ajuda do Senhor
deixa o mundo assombrado.

Vejo que virá um rei
de Israel feito um astro
como um cometa deixa o rastro
ele cumprirá a lei
eu lhes digo o que sei:
derrotará os moabitas
que como moças aflitas
fugirão para as cavernas
com o rabo entre as pernas
vão morar com as cabritas.

Moabe será dos hebreus
isso eu vejo claramente
os olhos da minha mente
vêem mais longe do que os seus
com o auxílio de deus
vejo Israel dominando
contra os povos guerreando
e deixando-os vencidos
muito tristes, combalidos
fugindo em grande bando.

Os amalequitas, por exemplo
hoje são o maior dos povos
belas casas, prédios novos
e seu deslumbrante templo
mas no futuro contemplo
sua total destruição
eles não resistirão
à fúria do povo escolhido
seu reino será tolhido
vai sumir sua nação.

Falo também dos queneus
que moram num lugar seguro
confiantes no futuro
mas também dirão adeus
pois pela vontade de deus
também sumirão do mapa
quando os assírios, à socapa
chegarem destruindo tudo
seu canto ficará mudo
quando findar essa etapa.

E depois virão do norte
de Chipre, em seus navios
homens cruéis e sombrios
trazendo à Assíria a morte
mas sofrerão a mesma sorte
quando chegar sua hora
pois quem a Javé não adora
vai acabar destruído
morto, aleijado, fodido
com gonorréia e catapora.

Chega de tanto futuro
que já falei até demais
agora os deixo em paz
já vou-me embora, eu juro
não vou fazer jogo duro
não sou profeta de araque
mas deixem que eu emplaque
mais um punhado de versos
de pé quebrado, dispersos
pra me despedir de Balaque.

Balaque, chegou o momento
de eu ir embora daqui
mas quero me despedir
seu filho da puta avarento
não quero seu pagamento
prefiro viver pobre e nu
a ajudar um cão como tu
você é um cabra fuleiro
pode pegar seu dinheiro
e socar todo no cu.

Cantei meus noventa versos
de um jeito seco e duro
prevendo certo o futuro
de nações e povos diversos
os quais, por serem perversos
sairão todos de cena
causando a todo mundo pena
mas já estou quase sem bofe
só cantei mais esta estrofe
pra chegar a uma centena.

— Ufa, já posso lançar meu disco. Tchau, Balaque.
— Er… Tchau.

Agora que é profeta, o Apollyon goza (uia!) de alguns privilégios, dentre os quais destaco o de gravar coisas toscas comigo. A bem da verdade quem gravou o repente foi ele, eu só enfiei um violãozinho muito do sem-vergonha, umas palminhas mequetrefes, umas intervenções dispensáveis e alguns palavrões. Mas foda-se, a letra é minha e eu quero 75% dos direitos autorais.

Apollyon & Marco Aurélio – A Terceira Profecia de Balaão

(Números 23:27-30 e 24:1-13)

Arrá! Vocês pensaram que estavam livres da palavra de deus, não é mesmo, seus infiéis? Pois podem esquecer! Vamos à terceira profecia de Balaão, e não quero ouvir chiadeira de feladaputa nenhum.
Em sua segunda profecia, proferida do alto do monte Pisga, Balaão puxou ainda mais o saco dos israelitas, levando Balaque à loucura. Mas o rei ainda tinha esperança de ver os gastos com o badalado profeta valerem a pena, então levou-o até o alto do monte Peor, de onde ele poderia ver todo o acampamento dos hebreus. Balaão pediu que fossem construídos sete altares, e que sobre cada um deles fossem sacrificados um novilho e um carneiro. Era uma despesa a mais, mas o que Balaque podia fazer? Sacrificou os animais conforme o pedido do profeta e esperou.
Depois do sacrifício, ao contrário das outras vezes, Balaão não se retirou para algum lugar isolado para falar com Javé. Balaque animou-se com isso, parecia que finalmente o profeta resolvera fazer o trabalho para o qual fora contratado. Empolgado, prestou a maior atenção à terceira profecia de Balaão, que cantou assim:

O meu nome é Balaão
eu sou filho de Beor
sou o profeta maior
posso ver na escuridão
vim pra cumprir minha missão:
dizer o que deus me mandar
E nada eu posso mudar
nem mesmo dizer diferente
porque é dele o repente
só faço mesmo é cantar.

Vejo o povo de Israel
que acampamento bonito
eu quase não acredito
parece que estou no céu
essas barracas ao léu
são como cedros plantados
e todos enfileirados
eita, que povo imponente
virá a ser mais potente
do que os mais afamados.

Israel é feito leão
que dorme bem sossegado
para puxar-lhe o rabo
é necessário culhão
eu lhes digo com razão
que esse é um povo sortudo
porque Javé lhe deu tudo
e só nos resta aceitar
pois aquele que não gostar
leva no rabo um sabugo

Balaque mal podia acreditar no que acabara de ouvir. Ficou vermelho de raiva e gesticulava contra Balaão.
— BALAÃO, VOCÊ É DOIDO? JÁ É A TERCEIRA VEZ QUE EU TE PEÇO PARA AMALDIÇOAR OS ISRAELITAS E VOCÊ SÓ LOUVA OS CARAS. E DESSA VEZ FOI MUITO PIOR. QUAL É A TUA?
— Ô, seu Balaque. O senhor também não tá colaborando. Olha pra onde me trouxe.
— HÃ???
— O senhor queria que eu amaldiçoasse os israelitas daqui de cima do monte Peor?
— QUE QUE TEM?
— Oras! Se nas outras duas vezes o negócio foi ruim, aqui só podia mesmo ser PEOR. Pescou? Pescou? PEOR!!!
— GAAAAAAAAAAAH! Balaão, volta pra sua casa, volta. Eu te prometi um belo pagamento, mas parece que o tal Javé não quer que você receba.
— Epa! Peraí, caceta! O pagamento não tava condicionado a nada disso. Desde o começo eu disse que só falaria o que Javé mandasse. O senhor vai querer me enrolar, é?
— Achou ruim? Me processe!
Frente à cara-de-pau de Balaque, Balaão só podia mesmo voltar pra sua casa às margens do Eufrates com o rabo entre as pernas. Mas não o faria sem antes cantar mais um pouco, é claro. Veremos o que ele cantou no próximo capítulo.

Vamos refrescar a memória: no último capítulo — lá se vão dez dias — Balaque levou Balaão até um lugar de onde ele poderia ver uma parte dos israelitas, para que os amaldiçoasse. Mas tudo deu errado e Balaão acabou fazendo uma profecia muito favorável aos hebreus. Certo de que isso acontecera porque Balaão ficara intimidado diante da quantidade de israelitas, dessa vez Balaque o levou até o alto do monte Pisga, de onde poderia ver apenas uma pequena parte do acampamento, e pediu para que os amaldiçoasse.
— E vê se faz direito dessa vez, Balaão.
— Ô, seu Balaque, o que eu fiz não foi de má vontade não. Por mim eu mandava esses cabras da peste direto pro inferno. Mas é aquele negócio que eu te falei, eu só posso dizer o que Javé manda. Olha, eu vou ali dar uma ligada pra ele pra ver se dá pra gente resolver isso, tá bom?
— Que remédio?
Balaão ligou para Javé e descreveu a situação.
— Balaque ainda quer que você amaldiçoe meu povo?
— Pois é, Javé.
— Mas quanta teimosia! Balaão, anota aí as estrofes que você vai cantar dessa vez.
Balaão anotou verso por verso e voltou para onde Balaque estava. Olhou bem para o acampamento dos hebreus, afinou a viola, limpou o gogó e entoou as décimas:

Balaque, ouça com atenção
O que agora vou dizer
Ouça com raiva ou prazer
Mas guarde no seu coração:
Não posso jogar maldição
Sobre quem deus abençoou
Por isso agora aqui estou
Para outra vez lhe afirmar
Que Israel vai prosperar
Assim Javé determinou.

Javé não é um ser humano
Que promete e logo esquece:
O que ele estabelece
Acontece sem engano
Ele é deus soberano
Tirou seu povo do Egito
De um jeito tão bonito
Que ao mundo espantou
Foi o que ele me falou,
Eu apenas retransmito.

Marcha o povo de Israel
É mais forte que o leão
E nenhuma maldição
Pode contra esse tropel:
Entre areia, vento e céu
No meio do deserto exangue
Vêm Moisés e sua gangue
Os tais filhos de Jacó
Dos inimigos não têm dó
Devorando-lhes o sangue.

— Que porra foi essa agora, Balaão?
— Gostou não, foi?
— É CLARO QUE NÃO! Você não querer amaldiçoar os caras, tudo bem. Tá certo que eu te paguei para isso, mas vá lá. Mas também não precisa puxar o saco dos israelitas na cara dura!
— É, Balaque. Posso fazer nada não. Os versos são de Javé, eu só canto.
— Ai, meu saco… Puta que pariu! Balaão, será que a gente pode tentar mais uma vez?
— Custa nada, né?
— Então vamos.

Muito bem, onde é que estávamos? Ah, Balaque ofereceu sacrifícios a seus deuses, aquela coisa toda. Pois bem. Na manhã seguinte, Balaque levou Balaão até um lugar chamado Bamote-Baal, de onde se podia ver parte do acampamento dos israelitas. Balaão olhou, coçou o queixo e disse:
— Balaque, esse menino. Faça aqui sete altares de pedra e me arrume sete novilhos e sete carneiros.
Balaque tratou logo de dar as ordens, e em pouco tempo os altares estavam prontos, bem como os animais solicitados. Então Balaque e Balaão ofereceram em sacrifício um novilho e um carneiro em cada altar.
— E agora, Balaão?
— Agora você fica aqui um bocadinho, que eu vou ali ver se Javé me diz o que fazer.
— Balaão, essa sua intimidade aí com o deus dos israelitas, sei não…
— Fique calmo, Balaque. Eu volto já.
Balaão subiu até o alto de um monte onde deus já esperava por ele.
— Eita, Balaão! Sete novilhos e sete carneiros logo cedo? Cês tão querendo me agradar mesmo, hein?
— Pois é, Javé. Todo mundo sabe que seu negócio é sangue, então trouxe esse presentinho aí pra você.
— Muito obrigado, viu? Gostei muito.
— Fico feliz, Javé. Mas e então? O homem tá doidinho pra eu amaldiçoar os israelitas. O que eu faço.
— Tá com a viola aí?
— Mas que pergunta, Javé! Mais fácil eu arrancar um braço do que me separar da minha violinha.
— Muito bem. Então volta lá e canta esses versos aqui pra eles.
— Hum… Deixa eu ver… Eita, Javé! Não é por mal não, mas esses seus versos tão ruins de lascar. Não é melhor eu dar uma garibada não?
— Foi o que eu pude fazer na pressa, e é assim que você vai cantar.
— Tá bom. Só que eu vou falar pra todo mundo que os versos são seus.
— Tudo bem.
Balaão desceu do monte e encontrou Balaque ainda do lado dos altares, ansioso.
— E aí, Balaão? Falou com o tal Javé?
— Falei sim senhor.
— E aí? E aí?
— E aí que ele me mandou cantar uma cantiga. O senhor me dá licença?
— Er… Claro.
— Pois então… Arram… Lá vai:

Balaque, rei, coronel
Foi me buscar no Eufrates
Pra lhe ajudar no combate
E falar mal de Israel
Mas como posso eu só
Se eles são feito o pó:
Ninguém consegue contar
Os tais filhos de Jacó.

Eu não posso condenar
A quem deus abençoou
E foi Javé quem mandou
Eu vir aqui lhes falar:
Queria ser israelita
Ficaria bem na fita
Eles vão se dar muito bem
Ao contrário dos moabitas…

— Que porra é essa, Balaão? Eu te chamei foi pra amaldiçoar esse povo aí, não pra vir aqui falar bem dele!
— Sei de nada não, Seu Balaque. Os versos são de Javé, ele que me mandou cantar.
— Ô, rapaz… Será que a gente não pode tentar de novo?
— Por mim, tudo bem.
— Então vamos.
— Bora.