(Deuteronômio 29 e 30)

Parece que depois de um discurso extremamente longo como foi o segundo, o velho profeta pegou gosto pelo negócio, ganhou segurança, adquiriu técnicas de oratória e usou tudo isso em sua pièce de résistance que é este terceiro discurso, o último e mais curto de todos, mas também o mais bonito.
Moisés começa seu pronunciamento relembrando mais uma vez a saída do Egito. A diferença é que dessa vez ele enfatiza os milagres que iniciaram o Êxodo, dizendo que os israelitas viram tudo mas não tinham capacidade de compreender. Ele chega até a dizer que em 40 anos de jornada pelo deserto as roupas e sapatos dos hebreus não se desgastaram, mais um milagre de Javé. Outro milagre de Javé foi matar israelitas às centenas a cada bobagem que os caras faziam, mas Moisés preferiu calar-se a respeito dessa vez.
A lembrança dos milagres e da incapacidade humana de compreender os atos divinos serve como gancho para a segunda parte do discurso que trata de — adivinhem? — obediência. Moisés fala sobre as terras por onde passaram nesses 40 anos e sobre os deuses bizarros adorados em cada uma delas (não fala do deus bizarro dos israelitas, no entanto). Conclama Israel à fidelidade a seu deus, Javé. Traça um quadro pavoroso do futuro de Israel em caso de desobediência, falando da terra outrora próspera coberta de sal e enxofre, para que nada nela cresça, e do povo levado cativo e espalhado por todo lugar. O resumo de tudo isso está no final do capítulo 29: “Há coisas que não sabemos, e elas pertencem a Javé; mas o que ele revelou, isto é, a sua Lei, é para nós e para os nossos descendentes, para sempre. Ele fez isso a fim de que obedecêssemos a todas as suas leis”, tudo devidamente gaguejado, é claro.
Nem a maldição é para sempre, entretanto: se depois de desobedecer à lei divina e em conseqüência sofrer o exílio, o povo de Israel demonstrar arrependimento real e sincero, Javé trará os israelitas mesmo dos cantos mais distantes da Terra de volta a Canaã. Judeus e cristãos acreditam que esta profecia tenha começado a se cumprir em 1948, quando da criação do Estado de Israel; daí aquela confusão toda que lemos nos jornais todos os dias.
Moisés encerra seu discurso com belas imagens e de forma grandiosa: diz que os mandamentos que ele entrega ao povo não são difíceis de entender nem de cumprir. Não estão no céu, nem do outro lado do mar, então ninguém tem a desculpa de dizer que são inacessíveis, pelo contrário, estão à mão de todos, guardados no coração dos israelitas e até pregados nos umbrais das portas de suas casas (*). Ele reafirma que a escolha entre o bem e o mal, a vida e a morte, cabe ao povo de Israel. Exorta o povo à obediência e ao amor a deus, para que viva muitos anos na terra prometida aos patriarcas. Não, não estou falando de José Bonifácio, caralho. Os patriarcas a que ele se refere são Abraão, Isaque e Jacó, e eu espero que vocês ainda se lembrem desses personagens.

* * *

(*) – “…nos umbrais das portas de suas casas”: em Deuteronômio 6:9 e 11:20 (ambas as passagens localizadas no meio do segundo discurso), Moisés diz que, para lembrar sempre dos mandamentos, os israelitas devem escrevê-los no batente de suas portas. Não sei se a intenção dele era literal, mas acabou se tornando: quem já entrou na casa de um judeu, ou numa loja ou fábrica pertencente a um judeu, deve ter notado no alto do batente das portas um pequeno objeto cilíndrico feito de vidro ou madeira. Trata-se da Mezuzá, um invólucro contendo pergaminhos com duas passagens da Torá em hebraico: Deuteronômio 6:4-9, denominada Shemá, e que trata da unicidade de deus e do dever dos israelitas de obedecê-lo, e Deuteronômio 11:12-21, o Vehaiá, que fala sobre as recompensas para a obediência e os castigos para a desobediência.

(Fonte: “Mezuzá: nossa proteção divina“, do site Beit Chabad – Sua referência judaica na Internet)

(Deuteronômio 4:44-49 até 28:68)

Não, vocês não leram errado, nem eu endoidei: pretendo mesmo condensar 24 capítulos num só. Por quê? Já disse: a maior parte é mera repetição do que já vimos nos três livros anteriores. Vamos lá.
O primeiro discurso foi só aquecimento. Neste segundo, Moisés reúne o povo novamente e fala mais do que Fidel Castro. Não gosto nem de pensar em quantos dias ele levou para terminar um pronunciamento tão longo. Começa relembrando os Dez Mandamentos, recebidos por ele no alto do monte Sinai. Fala do medo que o povo sentiu durante o tempo em que ele esteve no alto do monte. Enfatiza o primeiro mandamento, dizendo que se deve temer e adorar a deus. No entanto, é no 6º capítulo do Deuteronômio que temos o que eu creio ser a primeira menção da Bíblia à possibilidade (e dever) de se amar a deus. Moisés faz avisos quanto aos perigos da desobediência e dá instruções para a invasão de Canaã, para evitar a contaminação com os costumes dos povos de lá. Desfia bênçãos para os que forem obedientes e maldições para os desobedientes. Faz uma exortação à humildade ao dizer que deus não entregou Canaã aos israelitas porque eles sejam bons, mas antes porque os habitantes da terra é que são maus, não havendo portanto nenhum merecimento na conquista da Terra Prometida, e sim o cumprimento de um plano divino. Moisés lembra de quando desceu do Sinai e se deparou com o povo idolatrando um bezerro de ouro, da raiva que sentiu (levando-o a quebrar as tábuas dos Dez Mandamentos), da intercessão que fez pelo povo para que Javé não o destruísse e das novas tábuas, que ele teve que cortar e talhar à mão.
Depois de contar tudo isso, Moisés começa a repisar várias leis: fala da condenação à adoração de outros deuses, dos animais puros e impuros, da lei dos dízimos, do Ano Sabático, das leis para os escravos, das primeiras crias, da Páscoa, das festas da Colheita e das Barracas, dos deveres dos juízes e dos reis (caso Israel viesse a tê-los; veremos que sim), dos direitos dos levitas e sacerdotes, das cidades para fugitivos e as fronteiras da terra. Fala de leis para a guerra e da condenação para os crimes de morte. Discorre ainda sobre o divórcio, o dever de se casar com a viúva do irmão e outras leis para as famílias. Enfim, um discurso longo que só a porra.
No capítulo 27 parece que Moisés termina seu discurso ao começar a falar dos preparativos para a entrada em Canaã: instrui o povo para que, após cruzarem o Jordão, ergam pedras grandes no alto do monte Ebal, pinte-as com cal e inscreva nelas todas essas leis. Depois disso, o povo deverá erguer altares de pedra e oferecer sacrifícios sobre eles, comendo depois a carne e festejando a entrada na Terra Prometida. Fala ainda sobre as bênçãos e maldições: quando entrarem em Canaã, metade das tribos irá para o monte Gerizim, onde serão proferidas as bênçãos, e a outra metade para o Ebal, para as maldições. E vejam vocês como é bom esse tal de Javé: sobre bênçãos não se fala nada, mas as maldições são detalhadas. Os levitas gritarão as maldições do alto do Ebal (coisas como “Maldito aquele que comer a sogra”) e o povo responderá “Amém”.
Parece ser o final, mas no capítulo 28 Moisés retoma o discurso, falando novamente em bênçãos para os obedientes e castigos para os desobedientes. Aliás, se vocês tiverem paciência, leiam os capítulos originais: toda a ênfase do livro está na obediência as leis. Depois de 40 anos no deserto, vendo milhares de israelitas morrerem a cada crisezinha de raiva de Javé, Moisés deve ter percebido que o negócio era incutir um pouco de medo no povo. Moisés ainda tinha alguma ascendência sobre Javé, e sempre o fazia desistir de seu intuito de destruir os hebreus a cada piripaque. Mas Josué teria o mesmo talento diplomático? Moisés duvidava, por isso resolveu falar tanto em obediência e em castigos para os desobedientes.
Viram só? Já estamos no 28º capítulo de um total de 34. Não falei que ia ser rápido?

(Deuteronômio 1:1 até 4:43)

Chega de enrolação, vamos ao Deuteronômio.
O livro começa situando-se no tempo (40 anos depois da saída do Egito) e no espaço (o vale do rio Jordão). Antes da entrada do povo em Canaã, Moisés resolveu fazer uma série de discursos relembrando a eles tudo o que acontecera nesses quarenta anos, assim como as leis e rituais que deveriam seguir. Reuniu o povo e começou:
— P-povo de I-Israel, o-ouçam o que s-seu l-líder tem a d-dizer! Há q-quarenta a-anos, q-quando e-estávamos no pé do m-monte Si-Sinai, um dia Ja-Javé a-acordou p-puto. “Cês j-já tão há t-tempo d-demais a-aqui, p-porra! M-metam o pé na e-estrada a-antes que eu a-acabe com a ra-raça de vo-vocês, c-caralho!”, e a-assim p-por di-diante, c-como é o je-jeito d-dele. E-então c-começamos n-nossa jo-jornada q-que a-agora está q-quase no fi-final. C-Canaã fi-fica logo a-ali, só o r-rio nos s-separa da T-Terra P-Prometida. Mas a-antes de e-entrarmos lá, q-queria c-contar co-como foi n-nosso ca-caminho a-até aqui…
E Moisés falou. E falou. E depois falou mais um pouco: falou dos ajudantes que escolheu, dos espiões mandados para Canaã (cuja covardia irritou Javé a ponto de condenar os israelitas a 40 anos de caminhada pelo deserto), da necessidade que tiveram de contornar Edom quando o rei daquele país não permitiu sua passagem, da guerra contra o rei Seom pelas mesmas razões, da derrota de Ogue, rei de Basã, das tribos que ficariam a leste do Jordão.
— E-então n-nessa ocasião, d-depois da d-derrota de S-Seom e O-Ogue, eu p-pedi a Ja-Javé n-novamente que re-revisse sua d-decisão de não me d-deixar a-atravessar o J-Jordão. M-mas não a-adiantou n-nada: o fi-filho da p-puta c-continuou di-dizendo que e-eu m-morreria no a-alto do m-monte N-Nebo, t-também c-conhecido como P-Pisga. E-então f-foda-se. V-vou m-morrer, t-tudo b-bem, m-mas a-antes v-vou fa-fazer meus di-discursos…
E Moisés continuou seu pronunciamento exortando o povo à obediência das leis e avisando contra a adoração de ídolos.
Agora vocês imaginem o tempo que Moisés, velho e gago, levou para fazer um discurso que já era longo. Lá pelo meio do pronunciamento já tinha nego alugando banquinhos para os israelitas cansados e vendendo cerveja no meio do povo. E tome-lhe falatório.
Terminado este primeiro discurso, Moisés escolheu as cidades para fugitivos a leste do Jordão: Bezer na tribo de Rúben, Ramote em Gade e Golã na Manassés Oriental. Mas isso foi só uma pausa: escolhidas as cidades, Moisés começaria seu segundo discurso, mais longo e detalhado que o primeiro.

O nome do quinto livro da Bíblia, e último do Pentateuco, deriva de duas palavras gregas: deuteros (“segundo”) e nomos (“lei”). Isso quer dizer que teremos mais leis? Não exatamente: teremos as mesmas leis vistas pela segunda vez. O Deuteronômio trata da compilação de uma série de discursos proferidos por Moisés às margens do Rio Jordão.
Está aí o truque do velho profeta para prolongar sua vida: resolveu reunir todo o povo e recontar tudo o que acontecera desde a saída do Sinai até aquele momento em que se preparavam para a tomada de Canaã. Além disso, não nos esqueçamos, ele ainda tinha seus cinco livros para escrever (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e o próprio Deuteronômio). Malandro demais esse Moisés…
O Deuteronômio assume grande importância em toda a Bíblia. No começo do reinado de Josias (800 anos depois da morte de Moisés), um pergaminho do Deuteronômio será convenientemente encontrado entre as ruínas do Templo de Jerusalém, dando ânimo ao povo para a obra da reconstrução. Acredita-se hoje que este livro, assim como todas aquelas histórias heróicas do Velho Testamento, tenha sido escrito nessa época como material de propaganda e motivação, utilizando como base escritos mais antigos e velhas lendas orais.
Séculos depois (1.300 anos depois de Moisés, na verdade), quando tentado pelo demônio, é a citações do Deuteronômio que Jesus Cristo vai recorrer para derrotar seu adversário.
Devido a seu caráter repetitivo, creio que minha releitura desse livro será rápida e indolor para vocês. Não sou doido de ficar repetindo todas aquelas leis e rituais. Vamos ver como me saio. Sentem-se, acomodem-se. Vamos ouvir o que Moisés tem a dizer.

(Números 36)

Sei não, mas o tal Zelofeade ou tinha muito dinheiro ou suas filhas eram umas beldades incomparáveis. Só assim para se explicar que o livro dos Números tenha dois trechos grandes dedicados a Macla, Tirza, Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade. No primeiro, ficou decidido que as cinco moças teriam direito à herança do pai. Neste agora, os chefes da meia tribo de Manassés que ficara com o território de Gileade vieram falar com Moisés a respeito das irmãs:
— Seu Moisés, deus ordenou que nossos territórios fossem distribuídos por sorteio, e também que as filhas do Zelofeade herdassem as terras do pai, certo?
— Ce-certo.
— Então. Agora suponha que elas se casem com homens de outra tribo. A terra delas passará a pertencer aos maridos, e portanto à sua tribo. E então no próximo Ano de Libertação, a propriedade será deles definitivamente. Se a moda pega, vai ser um troca-troca danado de terras entre as tribos. Imagine o senhor as tribos de Israel espalhadas pelo mapa do país, e não cada uma em seu lugar, como deve ser.
— P-putz… Não t-tinha p-pensado nisso. V-vou f-falar com o Ja-Javé s-sobre isso.
Moisés assim o fez e Javé deu razão as homens da tribo de Manassés. Para evitar que um país dividido politicamente em tribos se transformasse a longo prazo num território caótico disputado entre pequenos grupos familiares, determinou que toda mulher israelita que possuísse terras deveria se casar com homens de sua própria tribo. Então as cinco donzelas de nomes estranhos se casaram com filhos de seus tios paternos.

* * *

E assim termina o livro dos Números. Não, não estou brincando: o livro termina dessa forma besta mesmo, falando mais uma vez das filhas de Zelofeade. Mas consigo enxergar uma razão para isso: Conforme ficara combinado, depois que os homens das duas tribos e meia a se assentarem a leste do Jordão tivessem construído as cidades para abrigarem suas esposas e filhos e os estábulos para protegerem seu gado, cruzariam o rio para batalharem junto com o resto do povo de Israel. O fato de já estarem discutindo assuntos familiares (como esse das cinco irmãs), demonstra que o processo de assentamento já estava avançado. Sendo assim, já estava quase tudo pronto para a invasão de Canaã. Moisés, porém, não pisaria em Canaã, como sabemos. Então quer dizer que Moisés morre agora? Hum… Não exatamente. Aos 120 anos de idade, Moisés era tudo menos bobo. E tinha um truquezinho na manga para engambelar Javé por algum tempo ainda. Que truque era esse? Falaramos dele no próximo livro, o Deuteronômio.

(Números 35)

— Putz, Moisés, ia me esquecendo de um negócio!
— O q-quê?
— As cidades para os levitas.
— P-para os le-levitas? Mas v-você não vi-vive d-dizendo que os le-levitas não vão t-ter di-direito a t-território, que os l-levitas são s-seus e o c-caralho a q-quatro?
— Ô, Moisés… Eles não vão receber um território grande como das outras tribos, mesmo porque têm que viver espalhados por todo o Israel. Mas você quer o quê, que eles vivam como ciganos?
— Q-que mal t-tem em ser ci-cigano? Vê o Si-Sidney M-Magal, ou o B-Benito Di P-Paula, ou o… Er… E-esquece.
— Pois é. E você também é levita, esqueceu? Ia querer viver vagando por aí?
— P-peraí! Q-quer dizer q-que eu vou e-entrar na T-Terra P-prometida???
— Ah, é! Tinha esquecido. Que cabeça, a minha…
— Hu-humpf!
— Hehehe. Olha, tá aqui a planta das cidades para os levitas:

Cidade para os levitas

— D-desenhozinho t-tosco, hein, Ja-Javé? P-puta que p-pariu…
— Não torra, Moisés. Fiz isso às pressas só pra você entender. A parte em ocre é a cidade, um quadrado de 900 metros de lado. A parte em verde são os pastos que ficarão em volta da cidade, a uma distância de 450 metros da muralha nas quatro direções. Vocês vão construir 48 dessas cidades espalhadas por todo o território de Israel, sendo seis delas cidades para fugitivos.
— Ci-cidades para f-fugitivos???
— Já explico, porra. Não me interrompe. Bom. Cada tribo terá um número de cidades de levitas proporcional ao tamanho do seu território.
— …
— Que foi?
— Já a-acabou?
— Hum… Já, ué.
— D-dá pra e-explicar que n-negócio é esse de ci-cidades para os fu-fugitivos?
— Ah, é. O negócio é o seguinte: todo assassino será condenado à morte, já falamos bastante disso. Mas pode acontecer de algum zé-mané aí matar outro por engano, sem querer. Acidentes infelizes acontecem. Nesses casos, o povo julgará a favor do que matou, e este vai se refugiar numa dessas seis cidades, ficando lá até a morte do Sumo Sacerdote. Isso será feito para evitar que algum parente da vítima resolva vingar-se. Mas aí o cara tem que ser esperto: se sair da cidade de refúgio e o tal parente da vítima o encontrar, este poderá matá-lo e não será culpado. Neguim vacilou, amanhece com a boca cheia de formiga, é um-dois pra subir.
— Q-que p-porra de l-linguagem é e-essa, Ja-Javé???
— Aham… Foi mal, tava ouvindo uns raps hoje. Então é isso, Moisés. Estamos quase terminando. Ao final você poderá descansar bastante.
— É o q-que ve-veremos…
— Moisés, Moisés… Que cê tá aprontando?
— Ué, v-você não é o s-sabichão? T-tenta a-adivinhar…

(Números 34)

— Ô Moisés.
— Fala, Ja-Javé.
— Eita! Que porra de túnica é essa?
L-lê, ué.
— Hum… zbreus zegito… pedra… blablablá povo bunda… monte nebo… Ô Moisés, cê tá pensando que é o quê?
— Tô p-pensando n-nada n-não, a-apenas u-usufruindo do meu d-direito de p-protestar.
E quem foi que disse que você tem o direito de protestar???
— EU d-disse. Eu a-ainda sou l-líder desta p-porra. Se n-não g-gostou, a-acaba lo-logo com a m-minha r-raça.
— HUMPF. Vontade não me falta, Moisés. Mas vai ser mais legal se você morrer no Monte Nebo mesmo, vendo a tão ansiada Terra Prometida…
Fi-filho da p-puta…
O que você disse???
FILHO DA PUTA!
— Moisés, Moisés… Cê tá mais folgado que seu irmão Arão, que eu o tenha. Bom, vou deixar passar, não gosto de chutar cachorro morto. Vamos trabalhar. Quero falar pra você das fronteiras do país depois que vocês conquistarem Canaã e… Opa, foi mal. Você não vai entrar lá, né? Hehehe…
— N-não f-fode, Ja-Javé…
— Porra! Antigamente você tinha senso de humor… Bom, a fronteira do sul irá desde o deserto de Zim ao longo da fronteira de Edom. No leste ela vai começar ali na ponta sul do Mar Morto, depois voltará para o sul, passará por Zim até Cades-Barnéia. Em seguida vai passar ali por… Bah, quer saber? Vou fazer um mapa aqui e já te passo.
— Ah b-bom… Não e-estou c-com sa-saco de f-ficar de-desenhando.
— Nem eu de ficar descrevendo. Além do mais eu estou me adiantando: antes de dividir a terra, é necessário que vocês saibam quem vai fazer a divisão.
— U-ué… E-eu e o E-Eleazar p-podemos fa-fazer isso.
— Não podem não. Primeiro porque até lá você já terá peidado no fubá.
— Hu-humpf…
— Então a divisão será feita por Eleazar, Josué e um líder de cada uma das nove tribos e meia, já que Rúben, Gade e metade de Manassés já se adiantaram e ficaram com estas terras aqui. Pega aí a lista dos líderes:

— P-peraí. D-dois fi-filhos de A-Amiúde? Que fa-favorecimento é e-esse?
— Não seja burro, Moisés. Como é que um cara só pode ser das tribos de Simeão e Naftali ao mesmo tempo? O negócio é que Amiúde é um nome muito comum por esses dias. Não lembra da primeira contagem do povo, quando o responsável pela contagem na tribo de Efraim era um tal Elisama, filho de Amiúde?
— R-recordo va-vagamente.
— Então é isso: são dois Amiúdes diferentes. Um é de Chão de Giz e o outro é de Geni e o Zepelim.
— CO-COMO???
— Bah, cê não manja nada de Qual é a música… Bom, então é isso.
— E o m-mapa, Ja-Javé?
— Que mapa? Ah, o mapa! Toma, pega aí:

Divisão das Doze Tribos de Israel em Canaã

— Hum… T-tá meio a-apagado e-esse m-mapa.
— Não torra. E vamos em frente, temos outros detalhes geográficos para tratar.

(Números 33)

Vamos matar um capítulo rapidinho? Eba, adoro fazer isso…
Este capítulo fala da trajetória do povo de Israel desde o Egito até — adivinhem! — Moabe, onde estão agora esperando o grande momento da travessia do Jordão e invasão de Canaã. O capítulo é bem longo e cita o nome de cada cidade e lugarejo por onde os israelitas passaram durante seus 40 anos de peregrinação pelo deserto. Como sou bonzinho, em vez de falar aquele monte de nomes estranhos, boto um mapinha pra vocês:

O traçado em vermelho mostra o caminho mais provável percorrido pelos hebreus. As linhas pontilhadas marcam caminhos alternativos. O que mais chama a atenção é a tortuosidade do caminho. Claro, Javé estava mesmo disposto a fazer os caras andarem por 40 anos.
No final do capítulo, Javé passou a Moisés as instruções que ele deveria passar aos israelitas para a invasão. Claro, porque ele mesmo morreria antes da entrada em Canaã, como já foi dito. Instruções simples: o povo deveria invadir Canaã com sangue nos zóio, destruindo tudo e expulsando todos os habitantes. Se os israelitas não fizessem direitinho segundo as instruções, a ira divina recairia sobre eles. Quanto à divisão das terras, Javé voltou a dizer que seria feita por sorteio e proporcionalmente.
Como veremos mais tarde, nem a total expulsão dos cananeus nem a divisão justa da terra aconteceram. Sei não, sei não… Moisés, totalmente desmotivado, só andava pelo acampamento usando sua túnica de protesto, na qual se lia:

EU TIREI OS HEBREUS DO EGITO,
ATRAVESSEI O MAR VERMELHO,
TIREI ÁGUA DA PEDRA,
ME ALIMENTEI SÓ DE MANÁ,
PASSEI 40 DIAS NO SINAI
ANOTANDO UMA CARALHADA DE LEIS,
SUPORTEI APORRINHAÇÃO DESSE POVO BUNDA,
ANDEI NO DESERTO POR 40 ANOS
E TUDO O QUE EU GANHEI FOI ESTA TÚNICA IDIOTA
E A PERSPECTIVA DE UMA MORTE MELANCÓLICA
NO ALTO DO MONTE NEBO…

DEUS É FIEL!

Ainda bem que Moisés usava túnica, numa camiseta não ia caber tudo. Mas eu dizia: desmotivado como estava, deve ter “esquecido” de repassar as instruções de Javé para o povo. Malandrão, esse Moisés.

(Números 32)

No capítulo anterior vimos o povo de Israel massacrando os midianitas. Se nos lembrarmos da derrota de Arade, que reinava ao sul de Canaã, e de Seom e Ogue, respectivamente reis de Amom e Basã, notaremos que toda a região de Canaã a leste do Rio Jordão (à direita no mapa) já foi conquistada pelos israelitas.
Os chefes das tribos de Rúben e Gade também não tardaram a perceber isso. Notaram ainda que as terras de Jazer e Gileade eram boas para criação de gado e, como eram grandes criadores de vacas e ovelhas, foram falar com Moisés, Eleazar e os demais líderes do povo.
— Ô, seu Moisés. A gente tava aqui pensando: essa região aí das cidades de Atarote, Dibom, Jazer, Ninra, Hesbom, Eleal, Sebã, Nebo e Beom é uma terra danada de boa pra se criar gado. E o senhor sabe que a gente tem muito gado. Então o senhor bem que poderia deixar essa terra a leste do Jordão pra gente, né?
— Co-como que é o n-negócio??? Vo-vocês q-querem fi-ficar a-aqui enquanto o r-resto do p-povo se f-fode na gue-guerra???
— Er… É.
— C-CARAS DE P-PAU! E-essa a-atitude de vo-vocês me f-faz le-lembrar de q-quando eu e A-Arão e-enviamos espiões para C-Canaã. Os c-caras fi-ficaram c-com medo, d-desanimaram o po-povo com suas n-notícias r-ruins. Aí o Ja-Javé fi-ficou m-muito puto e fez a ge-gente ficar v-vagueando p-pelo de-deserto por q-quarenta anos! E a-agora vocês q-querem deixar o Ja-Javé m-mais i-irado ainda???
— Ô, seu Moisés, também não precisa ser assim. Calma, calma… Olha, podemos construir aquios currais para o nosso gado e cidades para nossas famílias. Depois disso, iremos com o resto do povo lutar do outro lado do Jordão, deixando nossas esposas e filhos aqui. Só voltaremos quando todos os israelitas tiverem conquistado suas terras. E não vamos querer nenhuma terra daquele lado do rio, porque já teremos nossas cidades aqui.
— Ah, a-agora sim vo-vocês f-falaram algo que p-preste! Se é a-assim, p-preparem-se para a b-batalha. S-seus s-soldados v-vão a-atravessar o Jo-Jordão para guerrear ao la-lado dos o-outros i-israelitas. D-depois que ti-tivermos c-conquistado a terra, vo-vocês p-poderão voltar, p-pois terão cu-cumprido seu d-dever. M-mas c-cuidado: se v-vocês não cu-cumprirem e-essa p-promessa, a ira de Ja-Javé se v-voltará c-contra vo-vocês. E-então c-construam suas ci-cidades e cu-currais e de-depois cumpram o que p-prometeram.
— Pode deixar, seu Moisés. Nossas crianças, mulheres, ovelhas, cabras e todo o gado ficarão aqui, mas nós iremos para a guerra com vocês.
Satisfeito com a decisão dos homens de Rúben e Gade, Moisés repassou as instruções para Eleazar, Josué e os demais líderes:
— E-escutem a-aqui. Eu d-devo mo-morrer l-logo, mas q-quero que vo-vocês c-cobrem d-desses homens o que e-eles estão p-prometendo a-agora: e-eles vão a-atravessar o Jo-Jordão com vo-vocês p-para c-conquistarem as t-terras de lá. De-depois da b-batalha, vo-vocês da-darão a e-eles a t-terra de Gi-Gileade.
Os líderes anotaram as ordens, e os líderes das duas tribos entusiasmaram-se:
— Pode deixar, viu, seu Moisés? Vamos atravessar o Jordão com vocês e ajudá-los a derrotar os cananeus. Aí depois da guerra voltaremos para…
— P-para as ci-cidades de vo-vocês. A-acho que i-isso já fi-ficou bem c-claro, ch-chega de re-repetir. V-vamos fazer lo-logo a di-divisão das t-terras a l-leste do Jo-Jordão entre as t-tribos de R-Rúben e Ga-Gade e me-metade da t-tribo de Ma-Manassés.
— MANASSÉS??? Quem falou em Manassés???
— E-eu fa-falei em Ma-Manassés. E p-por e-enquanto q-quem m-manda aqui n-nesta po-porra s-sou eu.
— …
Então Moisés fez a divisão das terras que antes pertenceram a Seom e Ogue entre as duas tribos e meia. Os homens da tribo de Gade reconstruíram as cidades de Dibom, Atarote, Aroer, Atarote-Sofã, Jazer, Jogbeá, Bete-Ninra e Bete-Harã. Construíram muralhas ao redor das cidades e também os tais currais. O mesmo fizeram os rubenitas com as cidades de Hesbom, Eleal, Quiriataim, Nebo, Baal-Meom (que teve seu nome mudado, claro. Nada de “baal” num nome de cidade israelita) e Sibma.
Quanto à meia tribo de Manassés, que entrou na divisão como Pilatos no Credo: o grupo descendente de Maquir, filho de Manassés, expulsou os amorreus de Gileade e ficou com aquela terra. Um tal Jair juntou seu grupo e conquistou alguns povoados amorreus, que passaram a se chamar povoados de Jair. E outro cara, chamado Noba, liderou seu grupo na conquista da cidade de Quenate, rebatizando-a com o nome de Noba. Criativos, esses caras.

(Números 31)

Antes de começar, convém um esclarecimento aqui: vocês devem ter notado, no capítulo em que se fala da putaria entre os israelitas e as mulheres moabitas, que o autor do livro dos Números trata moabitas e midianitas indistintamente. Talvez isso aconteça pelo fato de Moabe e Midiã terem sido países aliados. No capítulo em que Balaque manda chamar Balaão, por exemplo, vimos que antes de fazê-lo ele se consultou com os líderes midianitas, e que a caravana que foi buscar o profeta era formada por membros de ambos os povos. A impressão que dá é que se tratava de um sistema de livre comércio primitivo, algo como a União Européia no meio do deserto.
Dito isso, vamos em frente. Moisés estava triste num canto, pensando em sua morte próxima, quando deus veio falar com ele.
— Moisés!
— Q-que é?
— Você vai ordenar ao povo de Israel que se vingue do mal que os midianitas fizeram.
— Q-que mal os m-midianitas f-fizeram?
— CÊ TÁ CADUCO, MOISÉS??? Eles levaram meu povo para o mau caminho, fazendo-o adorar ao deus deles.
— Ah, i-isso.
— É, isso. E agora Israel vai guerrear contra os midianitas. Depois da guerra, você morre.
— …
— Não ouviu o que eu disse, Moisés? Depois da guerra, você morre!
— B-bah! T-tanto f-faz.
— …
— M-mais a-alguma c-coisa?
— Er… Não.
— E-então tá.
Conformado com seu destino, Moisés tratou de traçar os planos para a batalha. Convocou os líderes do povo e determinou que cada uma das tribos mandasse mil soldados para lutar. Então Moisés mandou para Midiã esses doze mil homens sob o comando de Finéias, o mesmo filho de Eleazar que matara o hebreu com a midianita em sua tenda. Para a batalha foram levados também os objetos sagrados e as trombetas para os sinais.
Os israelitas mataram todos os homens midianitas, inclusive os reis Evi, Requém, Zur, Hur e Reba. Ah, e mataram Balaão também.
— BALAÃO???
Hum… É. Balaão.
— BALAÃO, O PROFETA?
Claro, porra! Ou vocês conhecem algum outro Balaão?
— Mas por que mataram o Balaão???
E eu sei lá por que mataram o Balaão! Da última vez em que ele apareceu estava voltando pra sua terra às margens do Eufrates. Por que ele estava em Midiã quando da batalha é algo que me escapa. Pior é que depois ainda é dito que foi seguindo o conselho de Balaão que as mulheres midianitas e moabitas seduziram os homens de Israel. Acho que mataram o cara por acidente — isso acontece em pleno século XXI com o exército mais avançado do mundo, imagine naquela época — e aí inventaram uma historinha para justificar. E vamos em frente, não tenho culpa dessas contradições da Bíblia.
Bom, além de matarem todos os homens, os israelitas levaram as mulheres e as crianças como prisioneiras, saquearam o gado e tocaram fogo nas casas e acampamentos midianitas. Voltaram vitoriosos para a planície de Moabe onde o povo de Israel estava acampado, levando os prisioneiros e o despojo de guerra para apresentarem a Moisés e Eleazar.
O líder e o sumo-sacerdote estavam reunidos com os líderes do povo quando viram o exército se aproximando e foram ao seu encontro. Vendo as mulheres midianitas no meio do exército, Moisés ficou muito puto:
— Q-que p-porra vo-vocês acham q-que e-estão f-fazendo???
— Ô, seu Moisés! Trouxemos umas mulézinha pra distrair a gente…
— D-DISTRAIR??? P-por causa d-dessas “mu-mulézinha” que Ja-Javé m-mandou uma e-epidemia que q-quase acaba com n-nossa r-raça!
— Ah, é…
— “Ah, é…”!
— Mas o que a gente faz agora, seu Moisés?
— Agora cês vão matar todos os meninos e as mulheres que não forem virgens e…
— Seu Moisés…
— NÃO ME INTERROMPA! Vão matar os meninos SIM, vão matar as rodadas SIM e não quero discussão, não quero saber de…
— Não é isso, seu Moisés, é que…
— CALA A BOCA! Tá querendo arrumar confusão comigo, seu fi…
— Seu Moisés, o senhor não tá gaguejando…
— …lho da p-p-p… C-como?
— Esquece…
— E-então. M-mas vo-vocês p-podem d-deixar vi-viver as m-meninas e as mu-mulheres vi-virgens. S-são de vo-vocês como p-prêmio pela vi-vitória.
— EBA! PUTARIA!
— P-putaria é o c-cacete! V-vai to-todo mundo se p-purificar p-primeiro.
Os soldados então tiveram que ficar fora do acampamento, assim como suas prisioneiras e todos os objetos que com eles estavam. Ficaram fora sete dias, cumprindo todos os rituais de purificação.
Quando os soldados puderam finalmente entrar no acampamento, primeiro cairam na gandaia. Depois deus passou a Moisés as regras para divisão dos despojos. Coisa simples: Moisés e Eleazar deveriam fazer uma lista de tudo o que havia sido tomado dos midianitas, incluindo aí as prisioneiras e os animais. Metade de tudo seria dos doze mil soldados, a outra metade deveria ser repartida entre o resto povo. Da parte pertencente aos soldados, 0,2% (um de cada quinhentos, tá certa minha conta?) seriam dados ao sumo sacerdote Eleazar. Da parte do povo, 2% (um de cada cinqüenta) seria entregue aos levitas.
Moisés e Eleazar listaram tudo e chegaram a esta tabela:

Tá, eu sei que está quase ilegível. Mas vocês têm que compreender que isso foi há MILHARES DE ANOS, ok? Bom, quem se deu bem nessa foi Eleazar. Trinta e duas virgens só pra ele. O velho Arão não viveu o suficiente para ter uma alegria dessa.
Depois que já estava tudo dividido, os oficiais do exército vieram trazer a Moisés e Eleazar todo o ouro que haviam saqueado em Midiã. A oferta era uma demonstração de agradecimento pelo exército de Israel não ter sofrido sequer uma baixa em sua primeira campanha importante. O peso total do ouro trazido pelos oficiais para o Tabernáculo foi de 191 quilos. Ouro a dar com pau.