(I Samuel 4:12-22)

Depois que os filisteus levaram embora a Arca, um homem da tribo de Benjamim saiu correndo do acampamento de Ebenézer e só parou ao chegar em Siló. Chegou com as roupas rasgadas, todo sujo, e tratou de espalhar pela cidade as más notícias. Eli estava na porta da cidade, sentado em sua inseparável cadeira. Preocupado com a Arca, havia se postado ali para ser o primeiro a ver um eventual mensageiro vindo da frente de batalha, e portanto o primeiro a saber do que acontecera por lá. Só tinha um detalhe: Eli já estava com 98 anos de idade e completamente cego, então o mensageiro benjamita passou por ele sem que fosse percebido. Porém, o velho notou que havia algo muito errado quando ouviu choro e gritos cada vez mais altos na cidade.
— O que está acontecendo aqui?
O mensageiro ouviu sua voz e reconheceu o velho sacerdote. Veio falar com ele:
— Seu Eli, eu fugi da batalha e vim correndo até aqui, sem parar nenhum instante.
— Hum… E o que aconteceu por lá?
— Ai ai… Não sei como contar isso ao senhor.
— Deixe de frescura! Sou velho mas ainda sou homem, cáspita. Não me esconda nada!
— Hum. Tudo bem. Seguinte: O povo de Israel fugiu dos filisteus. Foi uma derrota vergonhosa.
— MEU DEUS! Péssima notícia, rapaz, péssima notícia! Agora entendo sua preocupação, não consigo imaginar nada pior do que isso.
— Er… Então melhor ir tentando imaginar, seu Eli…
— Por quê?
— Porque eu ainda não acabei.
— Aconteceu alguma outra desgraça? O que poderia ser pior do que uma derrota para os filisteus?
— Ah, sei lá. A morte de seus filhos, por exemplo.
— HOFNI E FINÉIAS MORRERAM?
— Ou isso ou os abutres do deserto estão mais cegos do que o senhor…
— QUE DESGRAÇA! QUE DESGRAÇA!
— Desgraça? O senhor ainda não sabe da pior…
— HEIN? MEUS FILHOS MORRERAM, O QUE PODE SER PIOR DO QUE ISSO, SEU MEQUETREFE?
— Os filisteus levarem a Arca embora…
— O QUÊ? A ARCA? A ARCA? A ARCA? A AAAAAAAAaaaaaaaaaaaaaaa…
Descontrolado diante de tanta notícia ruim num pacote só, Eli ficou muito agitado e sua cadeira caiu para trás. Ele já estava velho, como já foi dito, e também muito gordo. O velho sacerdote quebrou o pescoço na queda, e morreu em seguida, depois de quarenta anos como líder em Israel. Uma das mortes mais ridículas da Bíblia, convenhamos.
Nesse mesmo dia, a mulher de Finéias estava sentindo as dores do parto de seu primeiro filho quando soube que o marido, o cunhado e o sogro estavam mortos, e que a Arca da Aliança estava nas mãos dos filisteus. A comoção foi forte demais. A parteira e outras mulheres que ali estavam ainda tentaram animá-la, mostrando-lhe o filho recém-nascido. Ela não se interessou, e não disse nada. Mas deu ao menino o nome de Icabô. Algumas traduções da Bíblia grafam Icabode ou ainda Ichabod, mas eu acho Icabô melhor, porque é bem próximo do significado original, em hebraico: Ih! Cabô a glória em Israel.

Ok, perdão. Voltemos.

A viúva morreu em seguida, desgostosa com as péssimas notícias. Javé prometera acabar com a família de Eli e, como acabamos de ver, tratou logo de cumprir sua promessa.

(I Samuel 4:1-11)

Parecia que ia ser tudo fácil para Samuel: era amado e respeitado pelo povo, e recebia uma baita moral de Javé. Mas acontece que os filisteus começaram a ameaçar o norte de Israel, e a guerra teve que ser declarada. Então os soldados israelitas acamparam em Ebenézer, os filisteus em Afeque. Ficaram naquela guerra de nervos, lançando provocações de um lado para o outro, até que os filisteus se encheram e resolveram lutar: atacaram os israelitas e os derrotaram, deixando quatro mil mortos. Os que escaparam do ataque filisteu voltaram ao acampamento, e alguns deles foram falar com os líderes de Israel:
— Por que é que Javé deixou os filisteus nos derrotarem? Talvez ele não estivesse aqui no meio de nós. Mas e se a Arca da Aliança fosse trazida para cá? Duvido que os filisteus conseguiriam alguma coisa, com Deus presente por aqui.
Os líderes acharam a idéia pelo menos tão boa quanto qualquer outra — os filisteus eram fortes, e provavelmente derrotariam os israelitas de qualquer maneira —, então enviaram mensageiros a Siló com o pedido. A Arca veio para o acampamento, trazida pelos sacerdotes Hofni e Finéias. Ao verem seu maior símbolo religioso chegando ao acampamento, todos os soldados israelitas deram um forte grito de alegria, que foi ouvido no acampamento inimigo. Os filisteus começaram a demonstrar alguma preocupação:
— Eita. Que porra foi essa? Que que essas frangas hebréias tão gritando?
— Tão dizendo que o deus deles chegou para lutar contra nós.
— Puta merda. Aquele deus maluco, que mandou pragas para o Egito e tal?
— Sim. O tal Javé.
— Ai ai ai… Agora tem um deus pra lutar contra a gente. Fodeu, fodeu!
— Controle-se, sirigaita! Os deuses dos israelitas são fortes. Mas nós os derrotamos antes, e vamos derrotá-los novamente. Ou vocês preferem ficar com medo, perder a guerra, e serem para sempre escravizados por Israel?
— DE JEITO NENHUM!
— Então sejamos homens, PORRA!
— SIM!
— HOMENS!
— SIM!
— HOMENS!
— Já entendemos, porra…
— Ah. Ok.
Assim motivados, os filisteus saíram para lutar novamente. E nem a Arca ajudou os israelitas: foram derrotados, e fugiram para suas casas com o rabicó entre as pernas. Trinta mil homens foram mortos, e pior ainda: os filisteus mataram os sacerdotes Hofni e Finéias, tomaram a Arca e a levaram para a Filistia. O que foi muito ruim para Israel, mas pior ainda para os filisteus, como veremos mais adiante.

(I Samuel 3)

Os tempos em que Deus vivia falando com os homens, fosse diretamente ou com mensagens enviadas através de anjos e profetas, já havia passado. Muitos até consideravam as narrativas antigas como meras alegorias. Alguém que dissesse ter falado com Javé, como os livros diziam que Moisés e Gideão haviam feito, receberia logo o epíteto de doido. Pois bem: mas acontece que Javé resolveu que ia falar com Samuel. Este ainda era menino, e estava dormindo no Tabernáculo, enquanto Eli (que já estava quase cego) dormia em seu quarto, quando ouviu alguém chamando:
— Samuel! Ô, Samuel!
O garoto se levantou e foi ao quarto de Eli:
— Pois não, seu Eli?
— Hum? Hã? Hein? Que foi, moleque?
— O senhor me chamou?
— Eu? Eu? Claro que não! Vai dormir e me deixa em paz, cacete!
— Tá. Desculpe.
— Bah!
Samuel voltou para a cama, resmungando. Provavelmente Eli falara seu nome durante o sono. Enquanto isso, escondido atrás de uma cortina, Javé ria baixinho. Esperou Samuel dormir e retomou a brincadeira:
— Psiu! Ô! Samuel!
Ele acordou e mais uma vez foi ao quarto de Eli.
— O senhor chamou?
— Hein? Porra, Samuel, de novo??? Vai dormir, moleque doido!
Samuel voltou ainda mais indignado. Quando ia se deitar, julgou ouvir um riso abafado. Mas até vozes já andava ouvindo, então começou a encarar o fato de que talvez estivesse mesmo ficando maluco. Já estava quase dormindo quando ouviu a voz outra vez:
— Ô, Samuel! Vem cá!
Dessa vez o menino ficou nervoso, e foi batendo os pés até o quarto de Eli.
— Seu Eli, eu tenho muito trabalho pra fazer amanhã, preciso dormir. Pára de brincadeira besta, porra.
— Brincadeira? Que brincadeira, seu insolente?
— Fica me chamando, aí eu venho até aqui e o senhor diz que não chamou. Perdeu a graça, já.
— Ei, calma! Tô dizendo que não te chamei… Ei. Peraí. Será possível? Não, não, de jeito nenhum… É, mas… Hum…
— Que foi, seu Eli?
— Olha, cê vai dizer que eu tô gagá, mas foda-se: eu acho que talvez seja Javé te chamando.
— Javé? Javé, nosso Deus?
— Não. Javé, o travesti. CLARO QUE É JAVÉ, NOSSO DEUS!
— Sei não, sei não…
— Faz o seguinte: se você ouvir a voz de novo, em vez de vir aqui me encher o saco, apenas responda e veja o que acontece.
— Hum. Tá bom.
Samuel voltou para sua cama, e não demorou para ouvir seu nome novamente:
— Ô, Samuel!
Só que dessa vez ele, seguindo o conselho de Eli, respondeu:
— Oi. É você… Digo, é o SENHOR, Javé?
— Bah. Me descobriu.
— PERAÍ! É JAVÉ MESMO???
— Er… Sim…
— PUTAQUEOPARIU! Opa. Digo, LOUVADO SEJA O TEU NOME, JAVÉ! Puxa, eu não acredito! É Deus falando comigo! UAU!
— Tá, tá, chega! Que moleque deslumbrado, credo. Sou eu, Javé. Sou Senhor dos Exércitos, Criador do Céu e da Terra, Pai Celeste, essa coisa toda. Mas também não precisa tanta veadagem. Vim aqui pra te dizer um negócio…
— Pode dizer, Javé!
— Eu por acaso pedi sua autorização?
— …
— Humpf. É o seguinte: vão acontecer coisas em Israel, coisas tão terríveis que deixarão espantados todos os que delas ficarem sabendo. Vou fazer a Eli tudo o que disse que ia fazer, a parada toda da família e tal.
— Hein?
— Ah, ele não te contou, é? Pois então, vou acabar com toda a descendência de Eli, porque os filhos dele são uns sem-vergonhas e o velho não faz nada a respeito. E agora é tarde: já tomei minha decisão, e sacrifício nenhum vai me fazer mudar de idéia.
— Hum… Que mais?
— Que mais? Xeu ver… Nah, mais nada. Era isso mesmo. Vai dormir, Samuel. A gente se fala depois, com mais tempo.
Javé foi embora, e Samuel pegou no sono depois de algum tempo pensando no que acontecera. No dia seguinte, acordou e começou a exercer suas tarefas. Estava com medo de falar com Eli sobre o que Javé dissera. Mas percebeu que não conseguiria evitar quando o velho mandou chamá-lo.
— Pois não, seu Eli.
— E aí, Samuel? Era Javé mesmo?
— Era.
— Ué… Pra falar comigo ele manda um profeta, com você ele fala diretamente. Estranho… Mas e aí, o que ele disse?
— Ah, nada de mais… Perguntou como eu estava, se gostava do trabalho aqui, essas coisas…
— Moleque, moleque! Não me esconda nada, que Deus o castigue se você não me contar tudo!
— Pô, seu Eli, não é pra tanto…
Então Samuel contou toda a conversa, sem omitir nada. Eli ficou em silêncio por algum tempo, e enfim disse:
— É… Foi isso mesmo o que ele me disse através do tal profeta. Bom, ele é Deus, o que se há de fazer? Paciência…
Samuel ficou triste ao ver a situação em que Eli se encontrava, mas não tanto a ponto de não perceber sua própria situação: se Javé falava com ele diretamente, e se ia matar todos os descendentes de Eli, então era bem provável que ele, Samuel, viesse a ser sacerdote. Não se deixou levar por esse pensamento, porém: continuou fazendo seu trabalho no Tabernáculo normalmente. De vez em quando Deus vinha falar com ele, e nessas ocasiões lhe revelava o que estava para acontecer. O povo começou a observar que tudo o que Samuel dizia acabava acontecendo, e não demorou a perceber que ali estava um verdadeiro profeta. O tempo foi passando, Samuel crescendo e sendo cada vez mais respeitado em Israel.

(I Samuel 2)

O segundo capítulo começa com Ana fazendo uma oração. A prece é longa mas pode ser resumida assim: “Valeu a pena esperar. Agora Penina se fodeu e eu estou por cima da carne seca. Rá!”. Então a família voltou para Ramá, deixando Samuel no Tabernáculo. O garoto estava destinado a ser apenas um ajudante na Tenda Sagrada, um menino de recados e mais nada. Só que Deus escreve torto por linhas tortas, como veremos.
Acontece que Hofni e Finéias, sacerdotes e filhos de Eli, não valiam nada (a tradução João Ferreira de Almeida diz que eles eram “filhos de Belial”, o príncipe dos demônios), não levavam a sério o sacerdócio. Por exemplo: quando alguém estava oferecendo um sacrifício, um ajudante vinha e enfiava um garfo dentro da panela onde a carne estava sendo cozida. A carne que saísse era comida pelo sacerdote, sem o mínimo respeito pelas regras rígidas que determinavam as porções destinadas aos sacerdotes. Isso era feito rotineiramente. Da mesma forma, quando alguém estava preparando seu sacrifício, os sacerdotes enviavam um ajudante para exigir um pedaço da carne, antes mesmo que a gordura fosse queimada. Se o ofertante fosse um israelita mais zeloso, e se recusasse a tratar seu sacrifício levianamente, o sacerdote tomava a carne à força. Assim os filhos de Eli faziam seu trabalho: com arrogância, prepotência e sem o mínimo respeito pelas tradições. Nós, que já vimos do que Javé é capaz em casos de desobediência, já podemos prever o que iria acontecer. Eles, porém, continuavam agindo da mesma forma.
Enquanto isso, o menino Samuel crescia e aprendia no Tabernáculo. Mesmo sendo ainda criança, vestia um manto sacerdotal de linho, e todos os anos sua mãe lhe trazia uma túnica nova, que ela mesma fazia. Nessas ocasiões, Eli abençoava Elcana e Ana:
— Que Javé dê a vocês muitos filhos, para tomarem o lugar deste que foi dedicado ao serviço do Tabernáculo.
E agora, que Elcana já sabia como fazer, estava fácil: o casal teve mais três filhos e duas filhas.
Quanto a Eli, já estava muito velho. Ele ouvia falar da forma como os filhos exerciam o sacerdócio, e também que comiam as putas que faziam ponto na porta da Tenda. Ele ainda tentava aconselhar:
— Meus filhos, tomem jeito! Javé é bravo, e muito mais bravo ainda com os sacerdotes. Se uma pessoa ofende a outra, Deus pode defendê-la, mas quem a defenderá se ela ofender ao próprio Deus?
— Bah, pai, que bobagem! Cê não sabe de nada. Os tempos são outros, precisamos renovar as coisas por aqui. Relaxa, velho.
E os dois não tomavam mesmo jeito. Eli vivia desgostoso, mas não havia nada que pudesse fazer — mesmo porque Javé já decidira matar Hofni e Finéias, tamanha era a raiva que sentia deles. Por outro lado, Javé gostava muito de Samuel. Todo mundo gostava: era um garoto dedicado, inteligente, respeitoso. Vendo que a situação exigia sua interferência, Javé escolheu um profeta que estava sem muito serviço e o enviou para o Tabernáculo, para que entregasse a seguinte mensagem a Eli:

Eli,

Eu me revelei a Arão, seu antepassado, e escolhi vocês para serem meus sacerdotes, e para fazerem o meio de campo entre o Israel e eu. Você conhece a história, não preciso contar tudo aqui. Eu dei a vocês o direito de ficarem com uma parte dos sacrifícios que são oferecidos. Olha só como eu sou legal. Só que acontece que esses mequetrefes desses seus filhos são têm os olhos maiores que a barriga, e comeriam um touro inteiro se conseguissem. Uma vergonha, Eli, uma vergonha!
E, cá entre nós, você está sendo omisso. Como é que você deixa seus filhos engordarem feito umas porcas prenhas, comendo a carne que devia ser destinada somente a mim? Assim não dá, Eli. No passado eu prometi que sua família serviria para sempre no sacerdócio, mas acho que vou mudar minha promessa. Chega. Eu respeito quem me respeita, e desprezo quem me despreza. E quem eu desprezo, não sei se você sabe, morre misteriosamente. Então é isso: eu vou matar todos os moços da sua família e da família do seu pai. Coisas muito boas vão acontecer em Israel, mas você vai passar por dificuldades, e nenhum homem de sua família chegará à velhice. Morrerão todos os homens da sua linhagem, e se algum sobreviver será apenas para envergonhá-lo. Hofni e Finéias morrerão no mesmo dia; isso será um sinal para você. Então eu escolherei para mim um sacerdote, um homem honrado que fará as coisas à minha maneira. Darei a ele descendentes que estarão sempre a serviço do rei que eu vou escolher. Quanto aos seus descendentes (se existirem), vão se curvar diante do rei para pedir dinheiro e comida, e virão aqui para implorar por algum trabalho.
Gostou? Gostou? Isso é pra vocês aprenderem a não mexer na minha comida, caralho!

J.

Eli quis argumentar, dizer que havia tentado avisar os filhos, que não adiantara porque eles eram teimosos. Mas o profeta tinha vindo só para trazer a mensagem, sem instruções para esperar resposta. Então apenas sentou-se em sua cadeira para pensar na mensagem que acabava de receber. Javé falara mesmo de um rei? Grandes mudanças estavam para acontecer em Israel…

(I Samuel 1)

O primeiro livro de Samuel trata da transição entre o tempo dos Juízes e a monarquia israelita. Nada melhor para começar, portanto, do que contando como foi o nascimento de Samuel. Vamos a ele.
Havia na cidade de Ramataim-Zofim (que mais tarde veio a receber o nome grego de Arimatéia, cidade natal daquele José que cedeu o túmulo a Jesus Cristo) um homem chamado Elcana. Ele tinha duas mulheres: Penina, com quem tinha filhos, e Ana, que aparentemente era estéril (mais uma…). Elcana tinha o costume de ir uma vez por ano a Siló, onde então ficava o Tabernáculo, para ali oferecer sacrifícios. Hofni e Finéias, filhos de Eli, eram sacerdotes na época. Cada vez que Elcana oferecia sacrifícios, dividia com as duas esposas e os filhos a parte da oferta destinada aos ofertantes. Sendo Ana a esposa que ele amava de verdade, dava a ela porção dobrada. Não adiantava nada, porém, porque Penina provocava Ana nessas ocasiões, irritando-a demais e deixando-a deprimida e sem apetite. Elcana ficava desesperado:
— Anita, meu amor, por que você chora? Por que não come? Por que está sempre triste?
— …
— É por causa dessas provocações da Penina. Oras, deixe isso pra lá! Por acaso eu não sou melhor para você do que dez filhos? Hein? Hein? Hein?
— …
— ARGH!
A história se repetia ano após ano. Quando Elcana anunciava à família que chegara o tempo de ir a Siló, todos comemoravam, menos Ana, que já se preparava para ser mais uma vez infernizada por sua rival. Até que um dia ela se cansou: estando mais uma vez a família reunida em Siló, ela foi até a Tenda Sagrada logo depois da refeição. Lá chegando, começou a chorar e falar com Javé:
— Ó, Deus! Assim não dá mais não. Olhe para mim, por favor, uma vez só! Veja a minha aflição. Javé, se você me der um filho, eu juro que ele será dedicado ao seu serviço por toda a vida, e que nunca cortará o cabelo.
A promessa de não cortar o cabelo, como já vimos na história de Sansão, significava que a criança seria um nazireu. Pois bem, Ana continuou sua oração. Suplicava em silêncio, e seus lábios apenas se mexiam, sem som. Ficou tanto tempo ali que o sacerdote Eli, que estava sentado numa cadeira junto a um pilar, notou sua presença. Vendo aquela mulher chorando e mexendo os lábios sem dizer nada, precipitou-se em suas conclusões:
— Mas que vergonha!
— Hum… Como, senhor?
— Come, não. Bebe! Cachaceira sem-vergonha! Vê se te emenda! Onde já se viu, vir à Casa de Deus com o rabo cheio de manguaça?
— Senhor, não me julgue mal. Juro que não bebi nada, nem uma cervejinha. Mal comi, na verdade, porque vivo angustiada. Por isso vim até aqui, para contar a Javé as razões de minha angústia e pedir a ele que olhe para mim e me ajude. Se orava de um jeito estranho é porque sou uma mulher muito infeliz e sofredora.
— Er… Ahn… Aham… Sim, sim, claro. Desculpe o mau jeito, viu? Vá em paz, e que Javé lhe conceda o que você pediu.
— Muito obrigada, senhor.
Então Ana voltou para junto da família. Estava até mais feliz, tanto que chegou a comer um pouco. Na manhã seguinte, Elcana e sua família acordaram cedo e foram mais uma vez adorar a Javé, depois do que pegaram a estrada para Ramá. Lá chegando, Elcana “conheceu” a sua esposa, ou seja, teve relações sexuais com ela. Sabem como é, deu uns futucos. Passou-lhe a vara. Deu um tapa na periquita. Molhou o biscoito, afogou o ganso, decalcou a araponga. Bah, vocês entenderam: finalmente Elcana percebeu que esse negócio de amor sublimado não estava com nada. Como resultado, aprendeu de onde é que vêm os bebês: nove meses depois, Ana teve um menino e botou nele o nome de Samuel, que significa “pedir a Deus”.
Quando o menino estava com três meses de vida, chegou novamente o tempo de Elcana ir a Siló. Ana, porém, resolveu ficar em Ramá:
— Não vou agora, vão vocês. Quando o menino for desmamado, eu mesma o levarei para que fique lá por toda a vida.
— Hum. Acho melhor você não ir a Siló. Quando Samuel for desmamado, você o leva para que ele fique por lá.
— Excelente idéia, Elcana!
— Bondade sua, minha querida.
Então Ana ficou em casa enquanto a família ia a Siló oferecer sacrifícios. Meses depois, quando Samuel enfim foi desmamado, ela e Elcana o levaram a Siló, juntamente com um novilho de três anos, dez quilos de farinha e um odre de vinho como ofertas. Apresentaram-se a Eli, e Ana disse:
— Seu Eli, eu sou aquela mulher que o senhor achou que estivesse bêbada no Tabernáculo uma vez, está lembrado?
— Vagamente.
— Pois então: eu estava daquele jeito porque não tinha filhos. Mas Javé ouviu minha prece e me deu um filho.
— Com a minha colaboração, é claro…
— Ah, sim: com a colaboração do meu marido aqui, é claro. Então hoje nós viemos aqui para lhe entregar esse menino, Samuel, para que seja dedicado ao serviço de Javé.
— Peraí, eu já sou muito velho para cuidar de um pirralho. Ei!
Mas o casal já havia saído para adorar a Deus. Não tendo outro remédio, Eli começou a cuidar do moleque. Deixemos o velho entretido com as fraldas sujas do menino; voltaremos à história depois. Esse Samuel ainda vai dar muito o que falar.

(Rute 4)

Como vimos no último capítulo, Rute e Noemi ficaram num impasse, ansiosas enquanto esperavam que Boaz resolvesse o assunto com o parente recém-aparecido na história. Numa coisa Noemi estava mesmo certa: Boaz não dormiria enquanto não resolvesse tudo. Tanto que, logo pela manhã, foi até a porta da cidade e sentou-se ali. Quando o tal parente de Elimeleque ia passando, Boaz gritou para ele:
— Ô, fulano! Venha até aqui!
— E aí, Boaz? Tudo bem?
— Beleza… Espera aí um pouquinho. Tenho um assunto para tratar com você, um negócio sério que vai precisar de testemunhas. Já volto.
Ele saiu e em pouco tempo voltou acompanhado de dez homens dos mais importantes de Belém-Efrata. Os doze assentaram-se, e Boaz expôs o assunto:
— Negócio seguinte: Noemi voltou de Moabe e está vendendo as terras de Elimeleque, seu finado marido e nosso parente. Quando soube disso, achei melhor falar com você, já que é o parente mais próximo do falecido. Portanto, se você quiser comprar essas terras, assuma o compromisso aqui, na frente das autoridades. Porque se você não quiser, eu compro, já que sou o segundo parente mais próximo.
— Hum. Taí, gostei da idéia. Vou comprar as tais terras.
— Muito bem, muito bem. É uma excelente aquisição. Mas tem uma condição para a compra.
— Ah é, é?
— É. Se você comprar a propriedade de Noemi, também deverá se casar com Rute, sua nora viúva, para que as terras permaneçam com a família do finado Elimeleque.
— Epa. Casar, é?
— É.
— Não, peraí. Não tô nessa de casar, não. Nem conheço a moça. Além do mais, isso poderia prejudicar meus herdeiros. Compre você as terras, eu tô fora.
Parece mera covardia do sujeito, mas não: de acordo com uma antiga tradição, uma viúva deveria casar-se com um irmão ou parente próximo de seu falecido marido. Os filhos dessa união seriam considerados filhos do morto. Por uma situação assim é que Deus castigou Onan, lá no Gênesis: tendo se casado com a viúva de seu irmão, ele não queria lhe dar filhos. Então praticava o coitus interruptus, derramando o sêmen na terra sempre que tinha relações com sua esposa. Deus ficou muito puto com isso, e mandou-lhe um raio na cabeça. Bah, a história toda está aqui, voltemos a Boaz.
Bom, já que o tal sujeito não queria casar-se com Rute (e, por conseqüência, dar filhos ao falecido Malom), Boaz não teve outro remédio senão assumir a responsabilidade. Como era costume na época, o tal fulano entregou a Boaz sua sandália como sinal de que o trato estava feito (assinar uns papéis seria bem mais simples, mas quem é que vai querer simplicidade na Bíblia?). Então Boaz, erguendo a sandália para que todos vissem, dirigiu-se a eles:
— Hoje vocês são testemunhas de que comprei de Noemi tudo o que era de Elimeleque e de seus filhos, Quiliom e Malom. Também me casarei com Rute, viúva de Malom, para que seu nome seja sempre lembrado.
Os outros assinaram embaixo (devem ter entregado suas sandálias a Boaz, também):
— Sim, somos testemunhas. Que Javé faça com que essa mulher seja para você como foram Raquel e Léia, que deram muitos filhos a Jacó, tornando-se assim as mães do povo de Israel. Que a sua família seja como a família de Perez.
— Peraí. Perez não é aquele que nasceu porque Judá achou que sua nora era uma prostituta e passou-lhe a vara?
— É.
— Essa nora não era Tamar, que conseguiu ser viúva de dois dos filhos de Judá?
— É.
— Cês precisam melhorar essas bênçãos aí…
— É…
— Humpf.
Apesar da bênção torta, o trato estava feito. Boaz voltou para a casa (e deve ter tido um trabalhão para explicar que não, não tinha entrado para o comércio de calçados, com tantas sandálias nas mãos) e desposou a Rute. Foi um mero casamento de conveniência, como vimos, mas isso não tem importância. O que interessa é que os dois não perderam tempo, e nove meses depois nasceu-lhes um filho. As mulheres da vizinhança, umas fofoqueiras (as mulheres da vizinhança são sempre fofoqueiras) vieram visitar o recém-nascido. E, com a mania de bênçãos que aquele povo tinha, sapecaram logo a delas em cima de Noemi:
— Louvado seja Javé, que lhe deu um neto para cuidar de você! Que ele venha ser famoso em Israel, que saia na Caras e coma tudo quanto é vagabunda! Ele será o consolo de sua velhice, graças à mãe, essa sua nora que é melhor do que sete filhos!
— Er… Tá. Amém.
Noemi pegou o menino no colo, e pôs nele o nome de Obede. Se Obede foi importante? Não, mas ele teve um filho chamado Jessé, que também não teve grande importância. Em compensação, o filho de Jessé foi Davi, aquele que matou Golias e veio a ser o maior dos reis de Israel.

(Rute 3)

A época da colheita terminou, e Rute voltou à vida de sempre. Não agüentando mais ver a nora ali sem fazer nada, só criando bunda, Noemi foi falar com ela:
— Rute, preciso arranjar um marido pra você. É por nada não, mas cê já tá meio passada, não temos tempo a perder. Cê lembra do Boaz, né? Aquele da cevada?
— Claro.
(Infelizmente)
— Pois muito bem. Se eu bem o conheço, esta noite ele vai debulhar cevada. E você vai tomar um banho (tá precisando, hein?), botar perfume e vestir sua melhor roupa. Depois, vá até o lugar onde ele está trabalhando, mas sem que ele a veja.
Noemi explicou todo o plano a Rute, e ela seguiu as instruções da sogra. Ao chegar à propriedade de Boaz, viu enquanto ele debulhava os grãos (da cevada, não dele, por favor!). Depois do trabalho, ele jantou pão de cevada com espigas secas e tomou cerveja. Estando já um tanto bêbado, deitou-se num monte de cevada. Gostava de cevada, o danado.
Ao ver que ele dormia, Rute foi se aproximando devagarinho, levantou a coberta de Boaz e deitou-se aos pés dele. No meio da noite ele acordou de repente (com uma puta dor de cabeça e uma sede infernal), e ficou espantado de ver uma mulher deitada ali com ele.
— Er… Quem é você?
— Sou Rute, sua empregada.
— Ah. Rute. Hum. O que aconteceu? Quero dizer… Bom. Você sabe.
— Você é nosso parente próximo, e tem que nos proteger.
— Hum. É. Tá. Então. Puxa, que coisa, não? Eu sabia que você era leal à sua sogra, mas não tinha nem idéia de que sua lealdade à família do seu sogro fosse grande a esse ponto…
— Hehehe.
(Trouxa)
— Mas é sério! Podia ter ido procurar um homem mais moço, mas veio aqui. Puxa… Olha, não tenha medo, viu? Todos aqui em Belém sabem que você é moça direita. Não se preocupe, vou fazer o que você quiser.
— Puxa, seu Boaz. Obrigada.
(Trouxa)
— Que é isso, que é isso… Só que tem um negócio: de fato, eu sou parente próximo da Noemi, mas tem um cara aqui na cidade que é parente mais próximo ainda. Então vamos fazer o seguinte: você fica aqui comigo o resto da noite, e amanhã eu falo com o tal sujeito. Se ele quiser ficar responsável por você, tudo bem. Caso contrário, eu juro por Javé que assumirei minha responsabilidade.
— Er… Obrigada, seu Boaz. Muito obrigada.
(Mas que grande filho da puta!)
Percebem? Rute deitou-se aos pés de Boaz, que acordou ainda meio bêbado, viu a mulher e deduziu que ele a levara para a cama. O plano de Noemi seria perfeito, não fosse o detalhe de Rute ser viúva. Se se tratasse de uma virgem, seria uma situação mais complicada. Como era viúva, Boaz ainda teve a presença de espírito para lembrar-se do outro parente de Elimeleque.
Bom, Rute voltou a dormir, mas acordou quando ainda estava escuro, para sair enquanto não havia ninguém acordado. Ela não podia correr o risco de ser vista, não agora que o casamento de Boaz não era tão garantido como Noemi calculara.
— Já vai, Rute? Peraí. Tire a sua capa e estenda-a aqui no chão.
Rute o fez e, adivinhem? Sim, sim: Boaz despejou uns vinte quilos de cevada sobre a capa, ajudou Rute a ajeitar o fardo sobre os ombros e despachou-a. Ela foi de lá até a casa de Noemi maldizendo todos os homens e todos os grãos do mundo. Ao chegar, foi recebida por Noemi:
— E aí, minha filha? Como foi?
— Hum. Mais ou menos. Ele disse que há um outro parente do seu finado marido, ainda mais próximo que ele.
— Ah, não! Não pode ser! Não p… Putz, é verdade. Tem aquele fulaninho lá. Ah, mas que merda! Como é que eu fui me esquecer disso?
— Pois é. Ele vai falar com o tal fulaninho. Por enquanto, mandou essa cevada pra gente.
— ARGH! Tira esse negócio da minha frente, que se eu comer mais cevada vou começar a produzir cerveja no estômago.
— É, também não agüento mais. Puxa vida, Dona Noemi. Que que a gente faz agora?
— Agora é ter paciência, Rute. Boaz não vai dormir enquanto não resolver esse assunto, pode ter certeza.
O golpe tramado por Noemi, que parecia tão garantido, acabou esbarrando num problema inesperado. Seja como for, Rute arrumou um marido. Mas quem será? Boaz ou o tal fulano?

(Rute 2)

Onde é que estávamos? Ah, sim: começou a colheita de cevada em Israel, depois de anos de fome. Rute, sempre disposta a ajudar, foi falar com a sogra:
— Dona Noemi, eu estava aqui pensando num jeito de ajudar a senhora aqui, de botar comida dentro de casa, essas coisas.
— Ah, minha filha, que bom! Já escolheu o ponto, ou vai trabalhar em boate?
— Er… Na verdade eu estava pensando em ir catar espigas.
— Ah. C-claro, claro. Excelente idéia, Rute.
Então Rute foi para o campo e começou a andar atrás dos trabalhadores que faziam a colheita, apanhando as espigas que eles deixavam cair no chão (de acordo com a lei mosaica, o segador estava proibido de voltar atrás para pegar o que sobrava: o que caía no chão era destinado aos pobres). Rute foi indo atrás de um e de outro, e acabou entrando na propriedade de um certo Boaz. Esse Boaz, vejam só, era parente de Elimeleque, o finado esposo de Noemi. Pois bem, Rute estava naquela labuta quando o dono da plantação chegou e foi falar com os empregados:
— Que Javé esteja com vocês.
— Nah, com você.
Notando a presença tímida de Rute logo atrás de seus funcionários, Boaz perguntou ao chefe dos segadores:
— Ei. Quem é aquela moça ali?
— É a moabita que veio para cá com a Dona Noemi. Ela pediu para que eu a deixasse ir atrás da gente, catando as espigas que fossem caindo. Eu não achei nada de mais, autorizei. Ela está trabalhando desde cedo e só parou pra descansar um pouquinho na sombra.
— Hum… Rute, não é?
Sim Senhor…
— Escute, minha filha: não vá catar espigas em nenhuma outra plantação. Fique por aqui, e trabalhe perto das minhas servas, ficando com elas quando forem cortar espigas. Eu já dei ordem aos empregados para não mexerem com você, não se preocupe. E quando você sentir sede, pode beber a água que os empregados tirarem para beber.

[A partir de agora, Rute (assim como Noemi, mais tarde) passa a falar o velho e universal idioma chamado mulherês. Sabe aquele negócio de dizer uma coisa que significa o contrário, um filho do sarcasmo e sobrinho-neto da ironia? Pois então: nos próximos diálogos, transcreverei normalmente o que foi dito, e botarei entre parênteses e em itálico (a la Stephen King) o verdadeiro significado das palavras. Preparados?]

Quando Boaz terminou de falar, Rute ajoelhou-se, encostou o rosto no chão e disse:
— Por que foi que o senhor reparou em mim, e é tão bom assim para uma mera estrangeira?
(Sim, sim, quanta bondade! Podia me dar um emprego decente, ou então alguma comida, mas não! Me dá autorização para sair catando espigas caídas, como se isso já não estivesse previsto na lei de seu país. Cara-de-pau…)
Boaz não falava mulherês (nenhum homem fala), então apenas respondeu à pergunta:
— Eu ouvi falar do quanto você ajuda sua sogra, e que deixou sua família em Moabe para vir viver em Israel com ela, no meio de gente desconhecida. Que Javé a recompense, minha filha, que o Deus de Israel, que você veio procurar, te dê uma grande recompensa.
— Ah, mas assim já é demais! O senhor está sendo muito bom para mim. O senhor me dá ânimo, falando assim com tanta bondade. Eu bem sei que mereço menos do que uma de suas empregadas.
(Pelo jeito eu não mereço mesmo é nada. O negócio por aqui é na base do ‘Deus lhe pague’. Já vi tudo…)
Rute continuou trabalhando. Na hora do almoço, Boaz mandou chamá-la.
— Rute, venha aqui. Não se acanhe. Olha aí, pode comer.
Rute sentou-se entre os trabalhadores, e Boaz lhe deu cevada torrada para comer. Cevada torrada. CEVADA TORRADA! Sei não, tenho cá pra mim que cevada só presta se for assada com água e fermento, em forma de pão, ou então fermentada, como cerveja. Cevada torrada deve ter gosto de cabeça de alfinete. Mas Rute, sempre muito educada, empanturrou-se de grãos. E quando ela se levantou para voltar ao trabalho, Boaz ordenou aos empregados:
— Deixem a menina pegar espigas onde bem entender, e não mexam com ela. Aliás, deixem algumas espigas caírem de propósito, se puderem.
E assim Rute catou espigas até de tarde. Depois debulhou os grãos das espigas e os pesou: vinte e cinco quilos, nada mal para um dia de trabalho (fora a diversão que deve ser trabalhar o dia todo curvada sob o sol do Oriente Médio). Ela pegou sua cevada, assim como o que lhe sobrara do almoço (CEVADA TORRADA, MEU DEUS!), e levou tudo a Noemi. A sogra ficou espantada com a quantidade de grãos:
— Rute do céu! Onde é que você foi catar espigas hoje? Que Deus abençoe o homem que se interessou por você!
(Tomara que esse sovina pelo menos tenha o azar de engravidar você; só assim pra gente sair da merda)
— Um tal de Boaz, Dona Noemi, um homem muito bondoso.
(Filho da puta nojento…)
— Que Javé abençoe Boaz, que é bondoso tanto com os vivos como com os mortos. Rute, não sei se você sabe, mas Boaz é nosso parente próximo, e um dos responsáveis por nós.
(Filho da puta nojento…)
— Não sabia, Dona Noemi! Que maravilha! E sabe da maior? Ele disse que eu posso continuar trabalhando lá!
(Mas que bosta!)
— É bom que você vá mesmo, filha, porque se você for trabalhar na plantação de outro homem, é capaz que seja humilhada.
(Esse é parente, pelo menos tem obrigações)
Assim Rute continuou trabalhando nas plantações de Boaz até o fim da colheita da cevada e do trigo. Mas o fim da colheita não seria o fim da história de Rute e Boaz, como veremos.

(Rute 1)

No tempo em que os juízes governavam, houve uma grande fome em Israel. Então um homem, de nome Eimeleque, saiu de Belém (também conhecida como Efrata), sua cidade natal, e foi com sua família morar em Moabe. Eimeleque era casado com uma mulher chamada Noemi, e eles tinham dois filhos: Malom e Quiliom (curiosidade: em hebraico, malom é “doença” e quiliom é “desperdício”. Sacanagem botar esses nomes nos filhos…). Após algum tempo morando em Moabe, Eimeleque morreu e Noemi ficou morando com os filhos, que se casaram com duas moças moabitas chamadas Orfa e Rute. Depois de quase dez anos em Moabe, Malom e Quiliom também peidaram no fubá, deixando as três mulheres desamparadas.
Um dia finalmente chegou a boa notícia: a fartura tinha voltado a Israel. Noemi ficou muito alegre, é claro, arrumou suas coisas e pegou a estrada com as noras. No meio do caminho, porém, ela pensou melhor e disse a elas:
— Não, isso está errado. A terra de vocês é aqui, não em Israel. Voltem pras suas casas, fiquem com suas mães. Que Javé abençoe e vocês, que consigam casar-se novamente e ter uma vida feliz.
Ela se despediu delas com um beijo, e ia continuar a viagem sozinha, mas as duas começaram a chorar:
— Ô, Dona Noemi! Não vamos voltar não. Queremos ir com a senhora!
— Ai meus ovários… Pra que cês querem ir comigo? Acham que eu, nessa idade, ainda vou ter filhos para que se casem com vocês? Já estou velha demais para me casar de novo. Além do mais, mesmo que eu arrumasse um homem besta o suficiente para querer se casar comigo, e que eu tivesse filhos, vocês iam esperar os meninos crescerem para se casarem com eles? Claro que não, claro que não! Javé está contra mim, só fode com a minha vida, e se vocês ficarem por perto é capaz de sobrar pra vocês.
— Não importa, Dona Noemi!
— Peraê, Rute. O que Dona Noemi disse até que faz sentido…
— HÃ???
— É, ué. A gente não pode ficar vivendo lá em Israel, encalhadas a vida toda.
— Bom, você faça o que quiser. Eu não vou embora.
— Hum… Então tá. Tchau, Dona Noemi. Tchau, Rute. Boa sorte…
E Orfa voltou para Moabe.
— E você, Rute? Vai ficar aí olhando pra minha cara feito uma songa-monga? Sua cunhada voltou para Moabe e seus deuses, por que você não faz o mesmo?
— A senhora não pode me obrigar a abandoná-la, Dona Noemi! Eu vou aonde a senhora for, e vou morar onde a senhora morar. O seu povo será o meu povo, e o seu deus será o meu deus. Onde a senhora morrer, eu morrerei também, e que Javé me castigue se outra coisa que não a morte me separar da senhora.
— Mas que carrapato você é, hein? Puta que pariu…
Mas na verdade Noemi ficou comovida com essa demonstração de carinho e lealdade, e aceitou que Rute fosse com ela. As duas continuaram a viagem até Belém. Quando chegaram, a cidade toda se agitou: a mulher de Eimeleque, que partira há mais de uma década, voltava acompanhada de uma moça moabita. Estava velha; o tempo não fôra clemente com Noemi. As mulheres de Belém se perguntavam:
— Essa é a Noemi mesmo?
Ao que ela mesma tratou de responder:
— Noemi é o caralho! Meu nome agora é Mara, POR-RA!
Parece uma grosseria gratiuta, mas explico: noemi, em hebraico, quer dizer “feliz”, enquanto mara é “amarga”. E Noemi continuou:
— Javé só me deu amarguras nessa vida. Perdi meu marido e meus dois filhos. Eu tinha tudo quando saí daqui, mas graças a Javé voltei sem nada. Então por que vocês me chamariam de Feliz, se tudo o que Deus me deu foi aflição e sofrimento?
Noemi estava revoltada, e com razão: era triste a perspectiva das duas mulheres sozinhas em Belém. Mas a colheita de cevada estava para começar, e uma grande mudança ocorreria na vida de Rute e Noemi. Como veremos no próximo capítulo.

O próximo livro da Bíblia conta a história de Rute, uma moça moabita que, tendo se casado com um israelita, tornou-se ela também israelita e veio a ser bisavó do rei Davi. A história de Rute não é bem situada no tempo: apenas é dito que ela viveu no tempo em que Israel era governado pelos Juízes.
O livro tem apenas quatro capítulos, vai ser rapidinho. Então relaxem, estiquem as pernas: vamos conhecer uma das grandes mulheres da Bíblia, tanto que mereceu um livro só para ela.