(Juízes 21)

Depois da guerra contra Benjamim, os israelitas juraram que não permitiriam que suas filhas se casassem com benjamitas. O que, pensando bem, já seria bem difícil: os seiscentos benjamitas remanescentes viviam na rocha de Rimon; que mulher iria procurar um noivo justamente ali? No entanto, o povo ficou triste com o que acontecera, e foi a Betel falar com Javé:
— Ó, Deus, como é que isso foi acontecer? Por que é que uma das tribos de Israel já não existe?
Quanto cinismo! Eles sabiam muito bem por que uma das tribos já não existia: eles dizimaram a tribo de Benjamim. O fato de ainda terem restado seiscentos benjamitas devia-se à sorte, e não à bondade dos israelitas. Mas a hipocrisia é uma planta que a humanidade cultiva desde tempos imemoriais, e já era uma árvore bem grande naquela época. Então eles ergueram ali um altar e ofereceram sacrifícios. Do meio do povo, surgiu a pergunta:
— De todo o Israel, quem é que não foi à reunião em Mispa?
Começaram a se perguntar isso, e acabaram descobrindo que ninguém de Jabes-Gileade havia tomado parte na reunião. Então os líderes escolheram doze mil homens e os enviaram a Jabes-Gileade, com ordem de matar toda a população da cidade, com exceção das mulheres virgens. Havia aí um duplo propósito: punir os dissidentes e arrumar esposas para os benjamitas. Isso é que é justiça: quem não teve nada a ver com a guerra, quem nunca matou um benjamita, esse pagaria pelo massacre de Benjamim. Que beleza! Os homens foram para lá, fizeram seu massacre e trouxeram de volta a Betel quatrocentas moças.
— Cadê as outras?
— Só tinha essas.
— Pô, mas Jabes-Gileade é uma cidade grande.
— Pois é. Cê já viu alguma cidade grande ter muitas virgens?
— Tem razão.
Mensageiros foram enviados à rocha de Rimon para propor um acordo de paz aos assustados benjamitas. Depois de muito hesitar, eles finalmente concordaram em descer da rocha e ir até Betel. Lá chegando, foram presenteados com as quatrocentas virgens.
— Olha, a gente fica muito agradecido. Mas é que… Bom… Veja bem…
— Pode falar! Não se acanhe!
— Então. Como é que a gente vai… Fazer?
— Fazer o quê?
— Hum. Nós somos em seiscentos homens, vocês nos deram quatrocentas mulheres. Percebem a diferença?
— Putz, é verdade…
— Como é que a gente faz? Esquema de rodízio? Ninguém é de ninguém?
— Hum… Peraí, vamos ver se conseguimos pensar em alguma solução.
Os líderes se reuniram para decidir o que fazer. A tribo de Benjamim não podia acabar, e era dever de Israel cuidar de sua repopulação. No entanto, não era justo que quatrocentos benjamitas recebessem esposas, enquanto os outros duzentos conformavam-se com a punheta, as cabras ou a baitolagem pura e simples. O juramento de não entregar suas filhas aos benjamitas não podia ser quebrado. O que fazer?
A discussão já durava horas, quando um dos líderes disse:
— Ei! Não vai ter festa ali em Siló por esses dias?
— É, vai.
— Taí a solução!
— Hein???
— Já explico…
Ele explicou, e os líderes foram alegremente comunicar a decisão aos benjamitas:
— Vocês estão sabendo da festa de dois anos do Jesus, me chicoteia! em Siló?
— Claro! Não se fala de outra coisa por aí!
— Então. Vocês vão à festa, só que vão ficar escondidos no meio das parreiras. Como vocês sabem, é tradição nessa festa as moças saírem dançando em roda pela plantação. Vocês, então, fiquem escondidos nas parreiras e prestem atenção. Quando elas saírem da cidade dançando, cada um de vocês vai sair de seu esconderijo, agarrar uma das moças e levá-la embora para Benjamim.
— MAS QUE PORRA DE SOLUÇÃO É ESSA?
— Uma excelente solução, excelente! Quando os pais ou irmãos delas vierem reclamar, diremos: “Por favor, deixem que elas fiquem por lá. Os caras não têm mulher, e nós só conseguimos quatrocentas virgens pra eles”.
— E eles vão aceitar, simplesmente?
— Claro que vão! Tá todo mundo preocupado com o futuro da tribo de Benjamim. Além do mais, eles não vão ter que esquentar a cabeça: não quebraram o juramento, as moças foram raptadas. É genial!
— Juramento? Que juramento?
— Er… Deixa pra lá.
Os benjamitas ficaram desconfiados desse plano dos líderes, ms que alternativa tinham? Chegada a festa de Siló, portanto, esconderam-se nas parreiras e aguardaram. Quando as moças da cidade vieram, cada um raptou uma delas. As moças raptadas foram levadas para Benjamim, juntamente com aquelas capturadas em Jabes-Gileade. Lá eles reconstruíram suas cidades, e trataram logo de repovoar seu território.

Como eu avisei, os capítulos do 17º adiante parecem ter sido inseridos no livro porque o compilador do texto final não sabia o que fazer com eles, e não havia ninguém por perto para dar-lhe a sugestão marota que vocês estão pensando. Então assim, com essa história que não guarda relação alguma com qualquer juiz, termina o livro dos Juízes.

(Juízes 20)

Como vimos no último capítulo, o episódio da concubina do levita escandalizou todo mundo. Por isso, homens de todo o Israel reuniram-se com os líderes das tribos na região de Mispa, para ali decidirem o que fariam para punir os moradores de Gibeá. E eram muitos: quatrocentos mil homens treinados para a guerra. Os benjamitas ficaram sabendo da reunião e, sabiamente, ignoraram-na. Em Mispa, o homem foi convocado para explicar aos líderes tribais o que acontecera. Ele contou tudo (menos, é claro, que ele mesmo havia botado sua mulher para fora de casa, entregando-a nas mãos dos putos de Gibeá). Estarrecidos pela narrativa, os líderes decidiram: nenhum daqueles homens voltaria para casa. Atacariam Gibeá e castigariam seus moradores pelo crime ali cometido.
Decidido o ataque, os líderes acharam que os habitantes da cidade ainda mereciam uma chance. Afinal, apenas uma pequena parcela da população havia violentado e assassinado a mulher do levita, não sendo justo destruir toda a cidade por sua causa. Então mensageiros foram enviados a Gibeá, levando a seus moradores a seguinte mensagem:

Seguinte, povo de Gibeá. O bicho pegou para o vosso lado. Entregai em nossas mãos os homens que cometeram tal crime horrível, e assim tiraremos o mal de Israel. Se não o fizerdes, porém, jacaré abraçar-vos-á e a casa cairá.

Apesar dessa mensagem tão clara e enfática, o povo de Benjamim nem deu trela. Pelo contrário: 26 mil soldados benjamitas saíram de todos os cantos da tribo e foram reunir-se em Gibeá para lutarem contra os outros israelitas. Na cidade, juntou-se a eles um pelotão de setecentos homens canhotos. Todos eles atiravam com funda, e eram tão bem treinados que seriam capazes de acertar um fio de cabelo a muitos metros de distância (cá entre nós: o capricho de juntar setecentos canhotos e depois triná-los como fundeiros só podia mesmo ser coisa de veado…). Bom, então ficou assim: vinte e seis mil soldados de um lado, quatrocentos mil do outro. Quem ganharia? Já vamos ver.
Os israelitas foram até o Tabernáculo, que então estava na cidade de Betel. Ali, perguntaram a Javé:
— Qual de nossas tribos atacará os benjamitas primeiro?
Javé, através das pedrinhas Urim e Tumim, respondeu:
— Er… Xeu vê… Hum. Judá.
Então, na manhã seguinte, o imponente exército israelita foi acampar perto de Gibeá. Saíram para o combate, os soldados foram colocados em posição de ataque (com os homens de Judá à frente). O exército de Benjamim saiu para a batalha e, antes do fim do dia, matou vinte e dois mil soldados israelitas.
Deprimidos pela derrota, os israelitas voltaram para Betel, e ali choraram até a tarde do dia seguinte. Inseguros sobre o que deveriam fazer, resolveram pedir outra vez orientação a Deus:
— Devemos ir novamente combater nossos irmãos de Benjamim.
E Deus respondeu:
— Sei lá, ué. Tá, tá. Vão sim.
Sem muito ânimo para a luta, mas menos ainda para uma discussão com Javé, os homens foram para Gibeá novamente no dia seguinte. Os soldados se enfileiraram exatamente como no dia anterior, o exército de Benjamim saiu de Gibeá exatamente como antes, e foi outro massacre: dezoito mil israelitas mortos. Dessa vez a tristeza e prostração dos soldados foi bem maior: eles voltaram a Betel e ficaram sem comer nada até a tarde seguinte. Ofereceram vários sacrifícios e depois foram mais uma vez consultar-se com Javé:
— Devemos ir de novo lutar contra Benjamim, ou o Senhor acha melhor desistirmos?
— Podem ir, que dessa vez eu vou dar uma força.
— Olha…
— Vão por mim, pô! Já deixei vocês na mão alguma vez?
Muitos devem ter ficado com vontade de responder, mas cadê coragem? Então partiram no dia seguinte para Gibeá. Fizeram tudo de forma que parecesse a mesma estratégia desastrada dos dias anteriores. Mas havia um pequeno segredo: alguns soldados ficaram escondido ao redor de Gibeá. Quando os benjamitas vieram atacar, mataram alguns homens nas estradas de Betel e de Gibeá, e também em campo abertos. Mal haviam matado trinta homens e já cantavam vitória. E mais seguros de si ainda ficaram quando viram que o exército inimigo recuava. Começaram a perseguir os israelitas, deixando Gibeá desguarnecida. Quando já iam a uma grande distância, o exército israelita juntou-se novamente em Baal-Tamar, enquanto os dez mil soldados que haviam ficado escondidos saíam de todos os lados e invadiam Gibeá. Eles mataram todos os moradores da cidade e tocaram fogo nas casas. Uma grande coluna de fumaça ergueu-se da cidade. Era o sinal combinado: ao verem a fumaça, os israelitas que até então fugiam deram meia-volta e começaram a atacar os benjamitas. Eles devem ter batido na testa com raiva da própria burrice: estavam sendo vítimas de uma tática de guerra antiquíssima, utilizada com sucesso quando da tomada de Ai. Tentaram fugir para o deserto mas não adiantou: a maior parte do exército israelita, agora auxiliada pelos homens que tinham destruído a cidade, começou a perseguir os soldados de Benjamim, matando-os durante a perseguição. Dezoito mil deles foram mortos, os outros ainda continuaram correndo para o deserto. Cinco mil deles foram mortos ainda na estrada, outros dois mil quando já haviam chegado ao deserto. Apenas seiscentos homens conseguiram chegar à rocha de Rimom, um lugar de difícil acesso, e ali ficaram morando por quatro meses.
Viram só? Isso é que é justiça: por causa de uma mulher morta, uma tribo inteira foi quase dizimada. Tempos difíceis, aqueles…

(Juízes 19)

Terminada a história de Mica, com o episódio lá com os danitas, o livro dos Juízes muda de assunto mais uma vez, passando para uma história que não guarda relação alguma com a anterior, a não ser pela presença de um levita que viaja entre a região montanhosa de Efraim e a cidade de Belém, em Judá.
O levita dessa história morava em Efraim, e arrumou uma concubina lá de Belém. Acontece, porém, que a mulher botou-lhe um reluzente par de chifres na testa, os dois brigaram e ela voltou para a casa da mamãe. Quatro meses depois, já recuperado do golpe (eram chifres de leite, caíram logo), ele mandou que um empregado preparasse dois jumentos e pegou a estrada para Belém, disposto a convencer a amante a voltar para casa. Quando chegou, o pai da moça ficou muito feliz em vê-lo.
— Rapaz, mas que surpresa! Que bom que você veio!
— Hum. Estou muito feliz de ver o senhor também…
— Sim, sim, que maravilha! Veio buscar minha filha, foi?
— Sim senhor.
— Que bom, rapaz, que ótimo! Ainda bem que você não se deixa abalar por pouca coisa.
— Pois é!
— Tem gente que não consegue suportar traição de jeito nenhum.
— Hum… É.
— Mas você não! Você levou um belo par de chifres e nem ligou!
— Bom, não é bem as…
— NEM LIGOU! Corno ou não, deixou que o coração falasse mais alto.
— É que sua fi…
— Que coisa mais bonita de se ver, um chifrudo apaixonado! É de encher os olhos de lágrimas!
— Olha, eu acho que o senhor não…
— Tá certo, rapaz, certíssimo! Esse negócio de chifre é só uma coisa que botam na sua cabeça…
— AH, NÃO! EU POSSO SUPORTAR TUDO, MENOS PIADA VELHA! CADÊ MINHA MULHER? VIM BUSCÁ-LA, VAMOS EMBORA AGORA MESMO.
— Calma, rapaz, calma. Nunca vi você nervoso assim, foi sempre tão manso…
— EI!
— Hehehehe. Brincadeira, pô. Cadê seu senso de humor? A verdade é que estou muito feliz em revê-lo. E não vou deixar que vá embora não: durma aqui pelo menos uns dois dias.
O levita, acalmando-se aos poucos, aceitou a oferta do sogro. O casal reconciliou-se, e ele ficou lá por três dias. Ao quarto dia, os dois levantaram-se prontos para a viagem, mas o pai da moça não aceitou:
— Que é isso, rapaz? Agora vocês vão lá para Efraim, e quando é que eu vou ver minha filha de novo? Só se ela pular a cerca de n… Er… Então. Mas não tenha pressa! Fique aí, coma alguma coisa pelo menos, para não viajar com fome.
Eles ficaram, comeram, beberam, conversaram, contaram causos e, quando preparavam-se para partir, notaram que já começava a anoitecer.
— Mas de jeito nenhum que eu vou deixar vocês viajarem à noite! Vão dormir aqui, amanhã vocês vão.
— Agradeço muito a sua hospitalidade, mas precisamos mesmo ir.
— E atravessar o deserto à noite? Não, muito perigoso. Fiquem aí.
— Hum… Tá bom, vai.
O casal dormiu mais uma noite ali, e no dia seguinte prepararam-se (de novo) para a viagem. O velho ainda tentou detê-los por mais tempo, mas dessa vez o levita foi firme. Saíram, então, e andaram até o fim da tarde. Quase anoitecia quando chegaram à cidade de Jebus, futura Jerusalém, e o empregado sugeriu:
— Chefe, acho que a gente podia passar a noite ali na cidade.
— Ah, não sei… Ficar hospedado aí com os jebuseus, não confio nessa gente. Vamos andar mais um pouco, aí dormiremos em Gibeá ou Ramá, que pelo menos são habitadas por israelitas.
Então eles passaram direto por Jebus, e chegaram a Gibeá quando já era noite. Entraram na cidade e sentaram-se na praça. Depois de horas ali, sem que ninguém sequer lhes dirigisse a palavra, um velho que voltava do trabalho na roça foi falar com o levita.
— De onde você vem, rapaz?
— Da cidade de Belém, em Judá. Fui buscar minha mulher lá, e agora estou voltando para minha casa, em Efraim.
— Hum… Que lugar de Efraim?
— Ali nas montanhas.
— Pô, você é meu conterrâneo! Seguinte: vocês vão ficar lá em casa.
— Não precisa não, senhor! Temos comida e água aqui, e palha para os jumentos. Estamos bem, sério mesmo.
— E eu lá vou deixar um efraimita dormir na praça pensando neeeeeeeela? De jeito nenhum! Você, sua mulher e seu empregado serão meus hóspedes.
— Bom, já que o senhor faz tanta questão…
— É isso aí!
Os três acompanharam o velho até sua casa. Depois de darem comida aos jumentos, entraram, lavaram-se, comeram e beberam bastante. Estavam conversando e rindo alto quando ouviram batidas na porta.
— VOVÔ-Ô! VOVOZI-NHÔ! CADÊ O MOÇO QUE ESTAVA COM VOCÊEEE?
— Ih caralho…
— Quem está batendo à porta?
— Essa bicharada dos infernos. São uma praga aqui em Gibeá. VÃO EMBORA, MONAS! O MOÇO É MEU, SÓ ME-EU!
— Ei, peraí…
— Nah, é só pra assustar.
— BICHA VELHAAAAAAA! SE VOCÊ NÃO TROUXER O MOÇO AQUI, A GENTE ARROMBA A PORTA!
— VÃO ARROMBAR SEUS CUS, FILHOS-DA-PUTA!
— MAIS???
— Ah, que saco… EU TENHO UMA FILHA VIRGEM, E O MOÇO AQUI ESTÁ COM A AMANTE DELE! VOU MANDAR AS DUAS PARA VOCÊS SE DIVERTIREM, MAS DEIXEM MEU HÓSPEDE EM PAZ!
— AI, CREDO! TEM CORAGEM DE OFERECER RACHA PRA GENTE???
As bichas começaram a se revoltar. O levita, cagando de medo, jogou sua concubina pra fora, trancando a porta em seguida dentro da casa. Os rapazes, vendo que não conseguiriam nada melhor que aquilo mesmo, deram de ombros e abusaram da moça a noite toda, deixando-a em paz só quando o dia amanheceu. Ela veio se arrastando e ficou caída na entrada da casa. Quando o levita acordou — devia ter passado a noite com o veado velho —, viu-a ali prostrada e, numa demonstração de amor impressionante, disse:
— Ô. Levanta.
A mulher, porém, não respondeu: estava morta. Ele então pegou o corpo, ajeitou-o sobre um dos jumentos e seguiu sua viagem carregando a defunta. Quando chegou em casa, pegou uma faca e cortou o corpo da mulher em doze pedaços. Depois disso, enviou os pedaços para cada uma das doze tribos. O fato escandalizou o país, e em todo canto havia só um assunto: o levita que enlouquecido pela morte da mulher que amava, e pela qual empreendera uma longa e perigosa viagem. A história não era bem assim, como vimos, mas essa foi a versão que pegou. Um clima de vingança e ódio contra os habitantes de Gibeá começou a tomar conta de Israel. O que aconteceu? Veremos nos próximos capítulos.

Quem acompanha isto aqui desde os primórdios (e quem conhece um pouco de Bíblia também, claro) deve ter notado a semelhança dessa história com aquilo que aconteceu na casa de Lot, em Sodoma (aqui). Só que naquela ocasião os hóspedes eram anjos, e livraram-se mais facilmente.

(Juízes 18)

— Arranca-rabo com QUEM???
Danitas. Daquela minissérie, Presença Danita.
— ¬¬
Hehehe. Tá. Danitas eram os caras da tribo de Dã.
— Ah…

Israel andava mesmo uma zona naquela época. Para vocês terem uma idéia, a tribo de Dã ainda não tinha um território bem definido, isso décadas depois da divisão das terras. Moravam nas cidades de Zora e Estaol, porém em condições precárias e sob a constante ameaça dos filisteus. Cansados dessa vida de insegurança, os danitas escolheram cinco homens corajosos dentre as famílias da tribo, e os enviaram para que procurassem uma terra onde a tribo de Dã pudesse enfim estabelecer-se. Eles saíram pelo caminho e pararam nas montanhas de Efraim, para passarem a noite. Mica, querendo adeptos para sua nova religião, não hesitou em oferecer sua hospitalidade aos forasteiros. Os danitas aceitaram o convite e ficaram hospedados lá. Notaram o sotaque do levita e logo começaram a perguntar:
— Ô maluco, cê tem sotaque de Judá. O que tá fazendo por aqui? Quem te trouxe?
— Ah, eu fiz um trato com Mica: ele me paga para ser o sacerdote dele.
— Hum… Então, sacerdote, pergunta pra Deus aí se vai dar tudo certo na nossa viagem.
— Perguntar, é? Pra Deus, é? Er… Ah, sim, sim! Estou ouvindo! ESTOU OUVINDO! Hein?… Peraí, Senhor, a ligação tá ruim… Túnel?… Ah, tá bom… Melhorou… Tá, eu falo pra eles… Ó, Deus falou que vai dar tudo certo com vocês.
— Cê tá de sacanagem…
— QUEISSO? Eu sou é sacerdote, tão me ouvindo? Falo com o Hômi a qualquer hora que quiser!
— Hum. Veremos.
No dia seguinte os cinco homens continuaram sua viagem, e foram parar em Laís, uma cidade no extremo norte de Canaã. Era um povoado tranqüilo. Seus habitantes eram sidônios (um subgrupo fenício), mas a cidade era longe de Sidom. Viviam assim isolados e eram pacíficos. A terra era boa e eles tinham tudo o que precisavam. Coisa linda, não? Pois os espiões danitas também acharam: voltaram correndo para Zora e Estaol para contarem sobre sua descoberta:
— Vamos atacar! Nós encontramos um lugar perfeito: terra boa, grande, um povinho sossegado. Vai ser moleza. Bora atacar!
Então seiscentos homens saíram das duas cidades em direção a Laís. Na primeira noite, acamparam a oeste de Quiriate-Jearim, em Judá, num lugar que passou a se chamar Maané-Dã. Não, não tinha nenhum Mané na história. Maané-Dã significa Campo de Dã em hebraico. Saíram de Maané-Dã na manhã seguinte, e à noite passaram pelas montanhas efraimitas, chegando à casa de Mica. Os espiões, que já haviam passado por ali antes, começaram a comentar:
— Mora um cara esquisito ali naquela casa. Ele fundou uma religião que só tem ele mesmo e o sacerdote como seguidores. Tem um ídolo de prata grandão, outros ídolos menores, uma roupa de sacerdote toda cheia de coisinhas. Que que a gente faz com ele?
— PAU NA BUNDA DEEEEEEEEEE-LE!
— Nah. Esperem aí, vamos cumprimentar o cara.
Os cinco entraram e foram bem recebidos por Mica, sempre muito cordial. Enquanto dois deles tomavam um cafezinho e distraíam o dono da casa, os outros entraram na capela e pegaram o ídolo. O levita estava na porta, sem entender a presença daqueles seiscentos homens preparados para a guerra, quando viu os homens que haviam se hospedado ali poucos dias antes saindo da capela com o ídolo nas mãos.
— Ô! Que cês tão fazendo???
— Shhhh… QUIETO! Não fale nada. Venha com a gente, seja nosso sacerdote e conselheiro.
— ESTÃO LOUCOS??? EU SOU SACERDOTE DE MICA, TÃO ME OUVINDO? DE MI…
— Melhor ser sacerdote de uma tribo inteira do que de um homem só…
— Hum… É, agora cê falou uma verdade… Bah, foda-se, vou com vocês! Vai ser um belo upgrade na minha carreira. Com esse aumento de target agora eu vou poder dar um improve nos meus skills de sacerdote e…
— HEIN??? Ai, caralho, fala direito! Pega lá seus panos de bunda e vambora, que ainda temos uma cidade a conquistar.
O sacerdote entrou em casa, pegou suas coisas e os objetos da capela, e partiu junto com os danitas. Já estavam longe quando ouviram um grito atrás deles. Era Mica, emputecido, que vinha acompanhado de seus vizinhos. Mica, lembremo-nos, era efraimita. Noutros tempos, seria temido só por isso. Porém, depois que Jefté derrotou sua tribo (a história do chibolete, lembram?), os efraimitas ficaram desmoralizados. Por isso, os danitas nem se preocuparam quando viram sua aproximação.
— O que é que há, Mica? Pra que toda essa gente aê?
— O que é que há? O QUE É QUE HÁ??? E VOCÊS AINDA PERGUNTAM??? VOCÊS ENTRARAM NA MINHA CASA, ROUBARAM OS DEUSES QUE EU MESMO FIZ, LEVARAM EMBORA MEU SACERDOTE, E AINDA PERGUNTAM O QUE É QUE HÁ? NÃO SABEM QUE MINHA RELIGIÃO É TUDO O QUE EU TENHO NA VIDA? NÃO SABEM Q…
— Olha, melhor cê parar de gritar. Aliás, cala a boca e vai embora. A gente pode ficar bravo e, sei lá, matar você e sua família.
Numa demonstração final de falta de respeito, os soldados viraram as costas para os outrora temidos efraimitas e prosseguiram sua viagem como se nada houvesse acontecido. Quanto a Mica, podia ter umas manias estranhas mas não era burro: os danitas eram muitos, e bem mais fortes. Então deu meia-volta e retornou, derrotado, para sua casa.
Os homens de Dã continuaram sua viagem, agora acompanhados de meia dúzia de deuses e de um sacerdote. Chegaram a Laís e atacaram de surpresa aquele povo tranqüilo, pacífico e isolado do mundo. Não tiveram dificuldade nenhuma em tomar e destruir a cidade. Terminada a conquista, reconstruíram Laís e mudaram seu nome para Dã (Laís era melhor, convenhamos).
A esta altura do capítulo, é dito que Jônatas, filho de Gérson e neto de Manassés, foi feito sacerdote de Dã, e que seus filhos herdaram o sacerdócio. Seria Jônatas o tal levita ex-sacerdote de Mica? Não fica claro: mais uma informação bíblica que não informa nada. O negócio é que o ídolo feito por Mica foi adorado na cidade de Dã por muitos anos, e os descendentes de Jônatas foram seus sacerdotes até que o povo de Israel foi levado para o exílio. Mas essa história ainda está bem longe.

(Juízes 17)

Havia na região montanhosa de Efraim um homem chamado Mica. Ele tinha muitos ídolos, e espalhava pôsters pelas paredes do quarto: Engenheiros do Hawaii, Charlie Brown Jr., Jota Quest…

Nah, né nada disso.

Sansão foi o vigésimo e último dos juízes de Israel. Foi o penúltimo, na verdade, o último foi Samuel. Trataremos disso mais tarde, porém. O negócio é que o livro dos Juízes poderia muito bem acabar no décimo-sexto capítulo, mas não! Continua por mais cinco longos capítulos, que só servem para ilustrar a zona em que Israel se tornou no período entre a morte de Sansão e o surgimento de Samuel e posterior instauração da monarquia.
Neste capítulo, por exemplo, ficamos conhecendo Mica, um habitante da região montanhosa de Efraim. Isso aí era verdade, o lance de os ídolos dele serem tão ruins é que foi sacanagem minha. O que aconteceu de verdade é que tinham roubado da mãe de Mica mil e cem moedas de prata — o equivalente a doze quilos e meio — e ela, é claro, amaldiçoara o gatuno de todas as formas. Tempos depois, meio ressabiado, Mica foi falar com ela:
— Mãe…
— Diga, Mica.
— Lembra de quando roubaram suas moedas?
— ARGH! Como é que eu ia esquecer?
— Hum. E lembra que a senhora amaldiçoou o ladrão de tudo quanto é jeito?
— Claro. E só queria ter um vocabulário melhor, pra poder amaldiçoar mais ainda o filho da puta.
— Er… Então… O negócio é que… Olha, mãe. Não vá ficar brava, tá?
— Mas que que te deu, moleque? Desembucha logo!
— Tá. Seguinte: as moedas estão comigo. Eu que roubei.
— Estão com você??? Ah, que Javé te abençoe, meu filho!
Surpreso com a boa reação da mãe, Mica tratou logo de devolver-lhe as moedas. Ela, feliz pela restituição, deu um toque para o filho:
— Mica, cê sabe que praga de mãe pega que é uma beleza, né?
— Sei mãe, sei. Aliás, tô preocupado com isso.
— Pois não fique, já pensei em tudo: vou oferecer essa prata a Javé, para que ele o proteja.
— Puxa vida, mãe… Obrigado.
— Queisso, filho. Bobagem. Vou oferecer a prata, e ela será usada para fazer um ídolo de madeira, folheado a prata. Toma as moedas, pode fazer o ídolo.
— Er… Sei não, mãe. Não quero mais ficar com essas moedas. Pode ficar com elas, faça o que quiser. São suas, no fim das contas.
Então sua mãe pegou duzentas das moedas e entregou-as a um ourives, o qual preparou o ídolo de madeira folheado a prata.
— PERAÍ! PÁRA TUDO!
Pois não?
— QUE HISTÓRIA É ESSA DE ÍDOLO DE MADEIRA FOLHEADO A PRATA???
Oras. É uma imagem esculpida em madeira, e depois folheada com…
— EU SEI, EU SEI! MAS E O SEGUNDO MANDAMENTO???
Er… Hã?
— O SEGUNDO MANDAMENTO, PORRA! “NÃO FARÁS IMAGENS DE ESCULTURA PARA ADORAR” E BLABLABLÁ!
Ah, esse mandamento. Então, isso é pra vocês verem a zona que Israel tinha virado: cada um fazia o que bem entendia, seguia a religião (qualquer que fosse) à sua maneira. Aquilo parecia o Brasil. Mica, por exemplo, ao ver o ídolo que sua mãe mandara fazer, decidiu fundar sua própria religião: construiu uma capela, esculpiu outros ídolos, fez uma roupa de sacerdote e escolheu um de seus filhos para o cargo. O moleque, no entanto, não levava a sério os ritos da nova religião, mesmo porque uma religião de dois seguidores é mesmo um pouco ridícula.
Mica já estava quase desistindo de sua nova religião (o Miquismo, talvez? Tá, esquece), quando encontrou um viajante. Este vinha da cidade de Belém (aquela!), em Judá, e era levita. Os levitas, caso vocês não se lembrem, eram consagrados ao serviço de Javé, por isso não tinham um território definido em Israel, estando espalhados pelas doze tribos. Bom, esse levita ia passando, e Mica foi falar com ele.
— E aê, rapá.
— Aê.
— De onde cê tá vindo?
— De Belém, em Judá. Sou levita, estou procurando um lugar para morar.
— Cê levita, é?
— Ai, meu saco… Eu disse que SOU levita! Da tribo de Levi!
— Ah, sim. E tá procurando onde morar, é?
— Pois é.
— Hum. Vocês, levitas, manjam desse negócio todo de rituais, rezas, sacrifícios, leis, a presepada toda, né?
— Isso mesmo.
— Sei, sei… Então, seu levita, eu acabo de fundar uma religião aí, mas não tá dando muito certo. Acho que eu precisava de uma assessoria, umas estratégias de marketing, essas coisas. Será que você pod…
— PODE PARAR! EU SOU LEVITA, TÁ ME OUVINDO? SOU CONSAGRADO AO SERVIÇO DE JAVÉ! DE JAVÉ, SÓ DELE, DE MAIS NINGUÉM!
— Mas… Mas eu te pago dez moedas de prata por ano.
— DE MAIS NING… Quantas?
— Dez. Cento e quinze gramas.
— Hum… Qual o nome dessa religião aí?
— Não tem nome ainda. Como meu nome é Mica, estava pensando em chamar de Miquismo.
— MIQUISMO??? Putz, cê tá precisando mesmo de assessoria… Beleza, eu topo.
— Legal!
Então o filho de Mica foi destituído do cargo, e o levita foi empossado como sacerdote. Ele ficou morando na casa de Mica, e oficiava todos os dias na capela. Mica, finalmente, ficou tranqüilo: com um levita como sacerdote, de jeito nenhum Javé deixaria que as pragas de sua mãe caíssem sobre ele.

(Juízes 16:21-31)
Sansão acreditava mesmo que poderia vencer os filisteus mais uma vez. Mas não contava com um fator: Javé o havia abandonado. Ele já quebrara seu voto de nazireu uma vez, ao tocar o cadáver do leão, e tinha acabado de quebrá-lo de novo, tendo os cabelos cortados. Não foi ele quem cortou os cabelos, foi enganado e traído pela mulher que amava, mas desde quando Deus liga para essas coisas? Em Sua infinita vaidade, não admite ser contrariado de forma alguma, e reage da forma mais cruel. Então, na hora em que Sansão mais precisou, não teve Espírito de Deus para se apossar dele, e o pobre coitado foi capturado pelos filisteus. Eles furaram seus olhos, prenderam-no com correntes de bronze e o levaram para uma prisão em Gaza, onde trabalhava virando um moinho. Não, não se transformando num moinho, que ele era Sansão e não um dos Super Gêmeos. Bah, vocês entenderam: ele passava os dias andando em círculos, empurrando a pedra do moinho, cego, acorrentado e abandonado pelo mesmo Deus que pouco tempo antes cavara um poço para ele.
Para comemorarem a captura de seu maior inimigo, os filisteus organizaram uma festa, na qual ofereceriam um grande sacrifício a seu deus, Dagom. O templo estava cheio, os cinco governadores da Filistia estavam presentes, e havia no terraço cerca de três mil pessoas. Todos estavam felizes, e improvisavam sansões sobre a derrota de Canção, ou melhor, canções sobre a derrota de Sansão. No meio da celebração, alguém teve a idéia:
— Ei! Por que não trazem Sansão pra cá? A gente pode se divertir um pouco…
A proposta foi prontamente aceita, e Sansão foi trazido do cárcere. Foi espezinhado e humilhado no meio da multidão, e os filisteus soltavam hurros de júbilo. Ali estava o flagelo da Filistia, o israelita que matara tantos filisteus e causara grandes prejuízos a seu país, agora reduzido a um farrapo, fraco, de olhos vazados, sem reagir de forma alguma às provocações que lhe eram dirigidas.
Depois de muito se divertirem às custas de Sansão, os filisteus o colocaram entre as colunas principais do templo, de onde podia ser visto por todos os presentes. Só nesse momento Sansão pareceu ter tomado consciência do que acontecia. Aproximando-se do garoto que o guiava pela mão, pediu:
— Por favor, deixe que eu me encoste nas colunas do templo. Estou muito cansado.
O rapaz atendeu a seu pedido, e o orientou de tal forma que pudesse apoiar o corpo numa das colunas. Tendo chegado aonde queria, Sansão falou com Javé pela última vez:
— Deus, você me abandonou e isso não se faz. Nunca estive tão fodido em toda minha vida. Só que o ódio que eu sinto dos filisteus é hoje maior do que nunca. Então eu lhe peço que me dê forças pela última vez, para que eu me vingue dessa raça por ter furado meus olhos. — e então, apoiando a mão direita numa das colunas e a esquerda na outra, começou a empurrar e gritou: — EU MORRO, MAS LEVO ESSES FILHOS-DA-PUTA COMIGO!
Em seguida, empurrou com toda a força que tinha, e as colunas cederam. Sem sustentação, o Templo de Dagom ruiu. Os filisteus entraram em desespero, mas não tinham para onde correr. O pânico dominou a todos, a multidão tentou correr para a saída (acho não havia saídas de emergência no Templo de Dagom), e muitos morreram pisoteados no meio da correria. Ao final, foram todos soterrados pelos escombros do templo. Sansão matou mais gente do que nunca nesse dia, com o sacrifício da própria vida.
A família de Sansão foi até Gaza para pegar seu corpo, que foi sepultado em Zora, no túmulo de Manoá, seu pai. Sansão foi juiz em Israel por vinte anos.

Cena do Filme Samson and Delilah (1949), de Cecil B. DeMille,
com Hedy Lamarr e Victor Mature

(Juízes 16:4-20)

Mon coeur s’ouvre à ta voix
comme s’ouvrent les fleurs
Aux baisers de l’aurore
Mais, o mon bien-aime,
pour mieux secher mes pleurs
Que ta voix parle encore
Dis-moi qu’a Dalila tu reviens pour jamais
Redis a ma tendresse
Les serments d’autrefois
Ces serments que j’aimais

Ah, reponds a ma tendresse
Verse-moi, verse-moi l’ivresse
Reponds a ma tendresse

Samson, Samson, je t’aime…..

(Mon coeur s’ouvre à ta voix, ária da ópera Sansão & Dalila, de Camille Saint-Saëns)

Sansão permanecia invencível, e os filisteus torravam os miolos em busca de alguma forma de pegá-lo. E a oportunidade se lhes apresentou quando Sansão apaixonou-se por uma moça chamada Dalila, moradora do vale de Soreque. Todo mundo sabe que um homem apaixonado é um homem fraco: fica bobo, faz as vontades da mulher. Os amigos alertam, os pais aconselham, mas nada adianta: cegado por um sentimento, mesmo o mais forte dos homens se deixa guiar pela mulher. E isso não é de hoje, claro: os filisteus sabiam que, apaixonado, Sansão oferecia a eles uma possibilidade de ataque. Assim, os governadores das cinco cidades da Filistia foram juntos falar com Dalila:
— Ô, Dalila, o negócio é o seguinte: se você descobrir um jeito de prendermos o Sansão, cada um de nós dará a você mil e cem moedas de prata.
Dalila, com os olhinhos brilhando pela expectativa de ganhar todo esse dinheiro (somando tudo, ela teria cerca de 63 quilos de prata), aceitou a proposta dos governadores filisteus e foi falar com Sansão:
— Sansinho…
— Oi, Lila…
— Você é tão forte, né, Sansinho?
— Sou, né? Olha o muque. Aperta. Viu? Pode se pendurar no meu braço, ó. Viu? Viu?
— Puxa, você é muito, muito forte.
— E você é muito, muito linda… Vem cá…
— Não, agora não. Antes me diga: se alguém por acaso quisesse amarrar você e deixá-lo sem defesa, o que precisaria fazer?
— Pra que cê quer saber isso, Lila?
— Só curiosidade, oras…
— Sei…
— Não confia em mim, Sansinho?
— Deveria?
— …
— Tá bom, Lila, eu te conto meu segredo: se me amarrarem com sete cordas de arco, novas, que ainda não secaram, eu perco minha força.
— Ah. Que coisa. Er… Vou ali, Sansinho, já volto.
— Vai aonde?
— Confia na sua Lila…
— Tá bom…
Dalila foi falar com os governadores filisteus, que lhe deram as sete cordas de arco. Voltou para casa com as cordas e acompanhada de alguns filisteus, os quais deixou escondidos num quarto enquanto ia falar com Sansão:
— Olha o que eu trouxe, Sansinho!
— Que é isso?
— Ué. Sete cordas de arco. Novas. Ainda úmidas.
— E para quê…?
— Curiosidade, oras. Quero ver se você fica fraco mesmo.
— Pára com isso, Dalila.
— Ah, Sansinho, vai… Deixa a Lila te amarrar, deixa…Juro que vai ser bom.
— Hmmmm… Tá bom, vai.
— Eba! Ó, vou amarrar seus pulsos assim… Suas pernas… Agora aqui… Pronto!
— Ai. Estou fraco. Cuida de mim, Lila.
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO VINDO!
O grito era a senha para que os homens saíssem de seu esconderijo e caíssem sobre Sansão. Mas ele, que estivera apenas fingindo, levantou-se e arrebentou as cordas com a maior facilidade.
— POIS QUE VENHAM!
— Ué! Você não estava fraco???
— Claro que não, oras. Você acha mesmo que eu ia contar o segredo da minha força a você?
— Puxa, Sansinho… Me fazendo de idiota…
— Por favor, Lila, não é nada disso!
— Claro que é! Achei que houvesse confiança entre nós, mas me enganei. Nosso relacionamento está muito desgastado, Sansão. Precisamos conversar, discutir a…
— NÃO! DISCUTIR A RELAÇÃO, NÃO! EU TE CONTO MEU SEGREDO, QUALQUER COISA MENOS DISCUTIR A RELAÇÃO!
— Então conta…
— O negócio das cordas era quase verdade. É que com cordas de arco, essas feitas de vime, não ia funcionar mesmo. Agora, se me amarrarem com cordas novas, que nunca tenham sido usadas, eu viro um fracote.
— Sei… Posso testar?
— Claro!
Então Dalila o amarrou com as sete cordas, e depois gritou novamente:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
— Estão, é? Legal, vou me divertir! — e arrebentou as cordas.
— Você me odeia.
— Hã?
— VOCÊ ME ODEIA! Me enganou de novo!
— Ah, minha menina, não fica assim não… Eu te conto meu segredo.
— De verdade?
— De verdade.
Mesmo querendo divertir-se às custas de Dalila, e pretendendo jamais revelar-lhe o segredo de sua força, Sansão começava a ficar meio bobo com aquele olhar lacrimejante da mulher, aqueles lábios trêmulos. Ah, os homens! E assim, abobalhado, começou a se aproximar de seu verdadeiro segredo:
— Dalila, se você tecer as minhas sete tranças num tear, e depois disso prendê-las com uma estaca, eu ficarei fraco.
— Mentira.
— Verdade!
— Muito absurdo, isso!
— Então tá.
Dalila não engoliu aquela história, então ficou por isso mesmo. Porém, para acabar com qualquer dúvida, levou Sansão para a cama. E Sansão, como todo homem, caiu no sono logo depois do sexo. Aproveitando que ele dormia, Dalila teceu suas sete tranças — um herói meio Rapunzel, esse Sansão —, e as prendeu com uma estaca. E depois:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
— Hein? Hã? Hum? Bah, que porra é essa? — arrancou a estaca — Cadê os desgraçados?
— Sansão, Sansão… Você não me ama mesmo. Puxa vida. Eu te amo tanto, tanto, e você só se diverte às minhas custas. Já é a terceira vez que você me faz de boba. Estou muito chateada com você.
Dalila ficou nesse blablablá durante dias. Pior: fez greve de sexo. Sansão, que nunca se destacara pela paciência, acabou cansando da lenga-lenga diária e resolveu contar a Dalila a verdade sobre sua força incomum:
— Ainda antes de nascer, fui consagrado a Deus como nazireu, por isso meu cabelo nunca foi cortado. Se cortarem meu cabelo, ficarei fraco, e serei apenas um homem comum.
Dalila ia protestar, dizer que era outra história absurda. Mas viu nos olhos de Sansão que dessa vez ele estava contando a verdade, então mandou um recado aos governadores filisteus, pedindo que enviassem rápido homens para o prenderem. Os homens chegaram e ficaram escondidos no mesmo quarto de antes. Enquanto eles esperavam, Dalila deitou Sansão em seu colo:
— Ah, meu querido! Agora eu sei que você confia em mim de verdade. Obrigada! Obrigada!
Enquanto falava com voz suave, fazia cafuné em seus longos cabelos. Ele dormiu, e ela chamou um dos homens para que lhe cortasse as tranças. Quando Sansão acordou, Dalila começou a provocá-lo, mas ele parecia mesmo ter perdido sua força. Então, para testar, gritou outra vez:
— SANSÃO! OS FILISTEUS ESTÃO CHEGANDO!
Dessa vez os filisteus apareceram mesmo, saídos do quarto ao lado. Sansão nem se abalou: “Pois que venham, eu me livro deles como sempre fiz”.
Será? Veremos.

Sansão e Dalila, de Rubens — National Art Gallery, Londres

(Juízes 15:9-20 e 16:1-3)

No último capítulo, deixamos Sansão escondido na caverna de Etã. Seu sossego não durou muito, porém: os filisteus, furibundos com o prejuízo causado pelo Rambo israelita, acamparam em Judá e atacaram a cidade de Leí (leí, em hebraico, é queixada. Vocês já vão entender o porquê). Os homens de Judá ficaram indignados:
— Ei, cês tão loucos? Por que nos atacaram, se estávamos aqui na boa, sem mexer com ninguém.
— Louco é esse tal de Sansão aí. O filho da puta fez a maior bagunça na nossa terra, e viemos aqui para prendê-lo.
— Ai, caralho… O Sansão é um abusado, está prejudicando a gente assim. Esperem aí, vamos falar com ele.
Então três mil homens de Judá foram até a caverna falar com Sansão.
— Ô, maluco.
— Opa.
— Cê não sabe que os filisteus mandam na gente, porra? Por que foi mexer com os caras?
— Ué, eles mexeram comigo, eu só revidei.
— Sansão, Sansão… Você causa muitos problemas. Viemos aqui para prender você e entregá-lo aos filisteus.
— Hum… Tudo bem. Prometem que não vão me matar?
— Claro que não vamos te matar, oras. Que idéia besta…
— Então tá bom. Eu me entrego.
Espantados com a facilidade com que Sansão se rendera, amarraram-no com duas cordas novas e o tiraram da caverna. Quando chegaram a Leí com o prisioneiro, os filisteus vieram gritando ao seu encontro.
— OLHA LÁ O DESGRAÇADO! VAMOS TRUCIDAR ESSE FELADAPUTA!
E eles estavam mesmo dispostos a fazê-lo. Mas acontece que o Espírito de Deus se apossou de Sansão, e ele arrebentou as cordas como se fossem barbante queimado. Pegou uma queixada de jumento que estava jogada por ali e com ela atacou os filisteus, matando mil deles. Finda a matança, seguiu seu caminho cantando:

Com a queixada de um jumento
deixei mil filisteus mortos.
Com a queixada de um jumento
fiz montões e montões de corpos.

A musiquinha, improvisada, escondia um trocadilho: em hebraico, a expressão “fazer montões” soa parecida com a palavra “jumento”. Como vemos, Sansão tinha a sutileza de um Humberto Gessinger…
Mesmo cantando, porém, ele estava cansado. Matar mil homens usando só um pedaço de osso, convenhamos, é tarefa cansativa mesmo para um super-homem. Então ele pediu a Deus:
— Ô, Javé. Você permitiu que eu vencesse os filisteus dessa forma impressionante. Será que agora vai deixar que eu morra de sede e que meu cadáver seja carregado por esses incircuncisos?
Fosse outro cara, Javé responderia “Te vira”. Se fosse com a cara do sujeito, talvez dissesse “Então fala praquela pedra jorrar água”. Mas Sansão era diferente: era tão maluco e sanguinário quanto o deus a quem servia, então Javé disse “Pois não, Sansão!” e cavou um poço. Curiosidade: é a segunda vez na Bíblia em que vemos Deus sujando as mãos com terra (a primeira foi para fazer Adão). Vejam só em que alta conta ele tinha Sansão. Bom, ele matou sua sede no poço cavado por Javé (poço que recebeu o nome de En-Hacoré — “fonte daquele que ora”, em hebraico) e, em vez de ir descansar em Israel, resolveu voltar à Filistia para aporrinhar os filisteus mais um pouquinho.
Chegou à cidade de Gaza, uma das principais da Filistia. Não sentia mais sede, mas outras necessidades ainda o incomodavam, então arrumou uma prostituta por um preço bom e foi dar uma trepadinha (para sorte da puta, o Espírito de Deus não deu as caras durante o ato). Os homens de Gaza ficaram sabendo que Sansão estava na cidade. Julgando que seria mais fácil capturá-lo com sono e relaxado após uma noite de sexo, ficaram de tocaia no portão da cidade (imaginem o tamanho do portão), esperando que ele saísse ao amanhecer. No entanto, Sansão não esperou que amanhecesse: levantou-se à meia-noite, pagou a moça e saiu. Chegando ao portão, em vez de gritar para que a sentinela o abrisse, arrancou o danado com batentes, dobradiças, trancas e tudo mais, e saiu carregando o trambolho nas costas até o alto do monte em frente à cidade de Hebrom. Essa era sua idéia de exercícios matinais… Os filisteus, boquiabertos diante de tamanha demonstração de força, não tiveram coragem de persegui-lo.
Nada parecia capaz de derrotar Sansão. Mas, como diz aquela bela canção, “O bicho que mata o homem mora debaixo da saia”. A partir do próximo capítulo, veremos como se deu a decadência do herói bíblico.

A gravura de Sansão matando os filisteus foi retirada daqui. Que merda, só agora eu fui achar esse site!

(Juízes 14 e 15:1-8)

“E o Espírito do Senhor veio sobre Fulano”, “Então o Espírito de Deus se apossou de Beltrano” — fórmulas assim são recorrentes na Bíblia e, como vimos no capítulo em que Jefté derrotou os amonitas, geralmente significam que Fulano (ou Beltrano) ficou muito doido de repente. Parece-se, aliás, com o que dizem muitos serial killers: “As vozes me obrigaram”, “Deus mandou”, “O Diabo pediu com muito jeitinho e eu não tinha como recusar, sabe como é…”.
Pois muito bem, o menino Sansão cresceu e Javé ia com a cara dele. Um dia, quando estava no campo entre Zora e Estaol, na tribo de Dã, pela primeira vez ele sentiu que O Espírito de Deus o dirigia. Então, assim dirigido, desceu até a cidade de Timna e ali viu uma moça filistéia. Sansão ficou encantado por ela, e voltou correndo para casa:
— Pai! Mãe! Vi uma garota lá em Timna e me apaixonei por ela. Falem com os pais da menina, quero me casar.
— Er… Uma moça israelita, filho?
— Não. Filistéia.
— Ah, faça-me o favor! Com tanta mulher dando sopa aqui em Israel você foi se enrabichar logo por uma vagabunda filistéia. Sansão, aquele povo sequer é circuncidado!
— Mãe, que mentalidade atrasada! Não adianta vocês irem contra: é daquela moça que eu gosto, e vou me casar com ela, vocês aprovando ou não.
Diante da obstinação de Sansão, os pais cederam, mesmo contrariados. Não sabiam que essa loucura do filho era, na verdade, parte do plano de Javé para libertar Israel do jugo filisteu. Então a família pegou o caminho para Timna.
Quando estavam quase chegando, já passando entre as plantações de uva de Timna, um leão veio rugindo para cima de Sansão. Ele, dominado pelo Espírito de Deus, enfrentou o bicho com as mãos nuas e o rasgou ao meio, como se fosse um cabrito. Seus pais, que iam mais à frente, não viram nada, e ele achou melhor não contar o que acontecera.
Chegaram a Timna, Sansão foi conversar com a moça e gostou mais ainda dela. Os dois gostavam das mesmas músicas, haviam lido os mesmos livros, tinham hobbies parecidos. Nada de novo: quando se está apaixonado, tende-se a forçar a realidade para que um encontro fortuito pareça ter um significado maior, como se forças superiores manipulassem o tempo e o espaço para que se realizasse o encontro de duas almas gêmeas. Mas são palavras nascidas de um coração amargo: Sansão, pelo contrário, sentia-se arrebatado pela moça, e poucos dias depois voltou a Timna para casar-se com ela. Ficaram um tempo naquela conversinha doce e boba de casal por um tempo. Então ele lembrou-se do leão que matara dias antes, e resolveu ir ver como estava. Foi até o local onde havia matado o bicho, e ficou espantado ao ver que um enxame de abelhas havia feito sua colméia na carcaça do leão. Pegou um favo e saiu comendo pela estrada. Tendo encontrado seus pais, ofereceu mel a eles, sem no entanto dizer onde o havia encontrado.
Bom, mas Sansão e seus pais estavam em Timna para tratar de assuntos sérios, não para se lambuzarem de mel: Manoá foi à casa dos pais da moça para formalizar o pedido. Enquanto isso, Sansão fazia sua festa de despedida de solteiro. Os filisteus, sabendo da festa, levaram trinta rapazes da mesma faixa etária para participarem. Lá pelas tantas, todo mundo muito louco (não que o Espírito de Deus se movesse sobre eles, era manguaça mesmo), Sansão subiu numa mesa e todos fizeram silêncio para escutarem o discurso do noivo:
— Escutem, filisteus. Eu tenho uma adivinhação para vocês, quero ver se são inteligentes. Vou dar trinta túnicas de linho puro e trinta mantos a vocês, se conseguirem resolver minha charada antes do final dos sete dias da festa de casamento. Se não acertarem, porém, cada um de vocês me dará uma túnica e um manto. E aí, topam?
— Manda a charada, Sansão!
— Tá, lá vai:

“Do que come saiu comida,
e do forte saiu doçura”

— HEIN???
— É isso aí. Vocês têm os sete dias da festa para me trazerem a resposta.
Passaram-se três dias e eles ainda não tinham idéia da resposta. No quarto dia, foram falar com a noiva:
— Seguinte, dona: dá um jeito de descobrir a resposta da adivinhação do seu noivo, ou então nós vamos botar fogo na casa, com você e toda a família dentro. Vocês só nos convidaram para poderem nos roubar, né? Pois não tentem ser mais espertos do que nós.
A moça, assustada, resolveu fazer o que fazem todas as mulheres quando querem algo de seus homens, e rápido: começou a chorar.
— Você não me ama! Não, você me odeia!
— Queisso, mulher? Endoidou? É o Espírito de Deus?
— Você sabe muito bem o que é!
— Er… Não, não sei.
— Se você não sabe, eu é que não vou dizer!
— Ah. Tá bom, então. Me chama quando estiver se sentindo melhor…
— MONSTRO INSENSÍVEL!
— Ai meu caralho… O que te deu, mulher?
— VOCÊ ME ODEIA!
— Não odeio não, mas se você continuar com frescura eu posso começar…
— Frescura? FRESCURA??? Você propôs uma adivinhação aos seus amigos e não me falou a resposta!
— HEIN??? Ih… Primeiro: não são meus amigos, são filisteus. Segundo: nem para os meus pais eu falei a resposta, vou falar para você? Terceiro: ISSO LÁ É MOTIVO PRA ARMAR ESSA CENA TODA???
— SEM CORAÇÃO!
A mulher chorou durante os dias restantes da festa. Ao sétimo dia, não agüentando mais tamanha chateação, Sansão contou-lhe qual era a resposta da charada. Ela foi correndo contar aos rapazes filisteus, os quais vieram falar com Sansão.
— Sansão, nós temos a resposta da sua charada!
— É mesmo? E qual é?
— Bom, é uma charada meio besta essa sua, mas lá vai a resposta:

“Que coisa é mais doce que o mel?
E o que é mais forte do que o leão?”

— PUTA QUE PARIU! Se vocês não lavrassem a terra com minha novilha, jamais saberiam a resposta.
— Que porra é essa? Outra charada???
— Nah. Tô dizendo que se vocês não tivessem conversado com minha mulher, não saberiam a resposta nem fodendo. Grandes filhos da puta vocês são, e ela também.
Então o Espírito de Deus se apossou de Sansão, que foi até Ascalom e ali matou trinta homens bem vestidos que encontrou no caminho. Tirou suas roupas e levou aos filisteus como pagamento da aposta. Depois voltou para a casa de seu pai, emputecido como nunca (era esquentado, o Sansão, ainda mais quando o Espírito de… Bom, vocês sabem). Com o sumiço do genro, o pai da noiva resolveu dá-la em casamento ao padrinho.
O tempo passou, Sansão esfriou a cabeça e, na época da colheita do trigo, achou que era tempo de voltar a Timna e fazer as pazes com a mulher e sua família. Para isso, levou um cabrito de presente. Foi falar com o pai da moça:
— E aí, sogrão, beleza? Trouxe esse cabrito aqui pra vocês, olha só que bichão! E queria… Bom, o senhor sabe… Queria cumprir meus deveres de esposo.
— Como?
— Não, não: eu como. Vou ali no quarto da sua filha, tá bom? Daqui a pouco eu volto aí pra gente tomar uma cerveja e conversar.
— No quarto da minha filha? De jeito nenhum!
— Er… Não sei se o senhor está lembrado, mas eu sou o MARIDO dela. Tenho esse direito, ou melhor, essa obrigação!
— Não, Sansão, nada disso. Veja bem: você sumiu aquele dia, saiu batendo a porta e pisando forte, achei que você odiasse minha filha. O que você queria que eu pensasse, oras?
— Tá, eu sei. Sou esquentado às vezes, isso me atrapalha bastante. Mas vou ver se entro numa terapia agora, se começo a fazer ioga, balé, sei lá. Vou melhorar, prometo. Só que agora eu PRECISO ir até o quarto da sua filha. Tô na seca, sogrão. Você é homem, entende minha situação…
— Entendo, claro que entendo. Mas acontece que eu, pensando que você tinha rejeitado minha filha, dei-a em casamento ao seu amigo.
— COMO É QUE É???
— Ei, Sansão, fique calmo… Ela tem uma irmã mais nova, ainda mais bonita que ela. Se você quiser…
— EU QUERO É PORRA NENHUMA! EU TÔ MUITO PUTO COM VOCÊ, COM SUA FILHA E COM TODA ESSA TERRA DE MERDA QUE É A FILISTIA! E TÔ SENTINDO O ESPÍRITO DE DEUS CHEGANDO! CÊ VAI VER SÓ!
Saiu da casa do sogro furibundo e foi para o campo, onde capturou trezentas raposas. Amarrou-as duas as duas pelos rabos, prendendo a cada dupla uma tocha acesa, e soltou as raposas nas plantações de trigo dos filisteus. O fogo queimou o trigo já colhido, o trigo por colher, e ainda por cima as oliveiras. Ao verem o tamanho do prejuízo, e sabendo que Sansão o causara por ter sido contrariado pelo pai de sua noiva, os filisteus foram e queimaram vivos a moça, seu pai e toda a família. Sansão, o rei do autocontrole e da arte zen, conseguiu ficar mais puto ainda:
— EU NÃO VOU DESCANSAR ENQUANTO NÃO ACABAR COM ESSA RAÇA MALDITA!
Nesse mesmo dia ele matou muitos filisteus, e depois refugiou-se numa caverna que ficava em Etã. E esse foi só o começo dos problemas para os filisteus, como veremos mais adiante.

(Juízes 13)

E então mais uma vez os israelitas abandonaram Javé e começaram a adorar outros deuses; e outra vez Javé se vingou, agora deixando que os filisteus dominassem Israel por quarenta anos. Nessa época, vivia na cidade de Zora, em Dã (dã!), um homem chamado Manoá. A grande tristeza da vida de Manoá era não ter filhos, pois sua esposa era estéril. Até que um dia um anjo apareceu para ela:
— Você que é a mulher de Manoá?
— Sou sim. Quem é você?
— Não interessa. Eu sei que você não pode ter filhos, e por isso nunca foi mãe.
— Er… Meio ÓBVIO isso, não?
— NÃO ME INTERROMPA! Vim aqui para lhe trazer boas notícias: você vai engravidar em breve. Não tome vinho nem qualquer outra bebida alcóolica, não coma nenhuma comida proibida, porque você vai ter um filho que será dedicado a Deus.
— Como é que é? Tá me dizendo que eu vou ter um filho? Cê é vidente, é? Olha, pode até ler minha mão se quiser, mas vou logo adiantando que não tenho dinheiro.
— Ô MULÉZINHA RANHETA QUE O MANOÁ FOI ARRANJAR, HEIN? DEIXA EU TERMINAR!
— …
— HUMPF! Como eu dizia, seu filho será dedicado a Javé, será um nazireu.
— NARIZEU???
— NAZIREU, PORRA! Será possível que você não saiba o que é um nazireu?
— Eu não. É contagioso?
— Ai ai… Aqui, ó. Nazireu é o homem que é dedicado ao serviço de Deus. Um nazireu não pode tomar vinho, nem beber suco de uva, nem comer nada que seja feito de uvas. Não pode cortar os cabelos nem a barba e não pode tocar em cadáveres.
— Vixe, quanta regra…
— Pois é. Seu filho será um nazireu desde o nascimento. Ele será um grande líder, e começará a livrar Israel do poder dos filisteus.
— Dos filhos meus? Mas eu não tenho…
— FILISTEUS! FILISTEUS! OS CARAS DA FILISTIA!
— Ah, sim. Os filhos-da-puta.
— Esses.
— Mas peraí, se eu vou mesmo ser mãe, como é que… Ei. Moço? Moçoooooo… Putz, sumiu.
Intrigada com a súbita aparição do estranho, e ainda mais com seu sumiço, ela foi falar com o marido.
— Manoá do céu, cê não sabe o que me aconteceu hoje!
— Quebrou uma unha?
— BAH! Um homem veio falar comigo…
— Um HOMEM??? QUEM FOI O DESGRAÇADO???
— Calma, Manoá! Eu acho que era um anjo…
— MANÉ ANJO!
— Sério mesmo! Era grandão, usava roupas brancas. Apareceu de repente, e mais de repente ainda sumiu. Estava com uma mochila nas costas. Uma mochila MUITO GRANDE. Sei não…
— Que que tem?
— Acho que a mochila era pra esconder as ASAS dele!
— Mulher, cê andou bebendo?
— Claro que não! Aliás, o anjo me proibiu de beber.
— Peraí: um cara que cê nunca viu mais gordo já chega logo dizendo o que você deve ou não fazer? Ele pelo menos se apresentou?
— Não. Mas ouve só: ele falou pra eu não beber vinho e pra não comer comidas proibidas, porque eu VOU TER UM FILHO!
— DELE???
— ¬¬. SEU, ORAS!
— o/
— o/
— QUE LEGAL! Mas será que era um anjo mesmo? E se tiver sido só trote de algum engraçadinho?
— Ah, acho que não. O cara manja até de leis e tal. Falou que nosso filho vai ser nazireu.
— Ah, é?
— Você sabe o que é nazireu???
— Claro, ué. Você não sabe?
— Er… Claro que sei! Só me faltava essa, não saber o que é um nazireu. Sei desde pequenininha.
— Hum… Sei não… Será que era um anjo mesmo?
— Ai ai… Homem desconfiado…
De fato, Manoá era um tanto desconfiado. Então resolveu apelar para Javé:
— Ô, Deus. Não leve a mal não, mas essa história toda que minha mulher contou… Se foi um anjo mesmo que falou com ela, será que dava pro senhor mandá-lo de volta pra me contar direito essa história de filho nazireu e tal? Obrigado.
A oração de Manoá foi atendida: no dia seguinte, quando sua mulher estava sentada no campo, o anjo reapareceu para ela.
— Opa, e aí?
— Hum? EI! VOCÊ! PERAÍ, JÁ VOLTO!
Saiu correndo para chamar o marido:
— Corre, Manoá, que o anjo tá lá no campo!
Manoá largou o que estava fazendo e saiu, esbaforido, atrás da esposa. Chegando aonde estava o anjo, perguntou:
— Foi você que falou com minha mulher ontem?
— Eu mesmo.
— Hum… Eu queria mais detalhes sobre o assunto que vocês trataram.
— Que detalhes? O que eu tinha a dizer, já disse à sua mulher. Você não confia nela não? Ou será que é tão machista que pensa que só você decide as coisas em casa?
— …
— Bah! O Chefe me falou que você tinha me chamado, por isso eu vim. Mas se eu soubesse que você só queria que eu repetisse tudo, nem teria me dado ao trabalho. Vou embora.
— Espera, espera! Não vai assim! Espera um pouco, que vamos cozinhar um cabrito pra você.
— Se eu ficar, não vou comer da sua comida. Mas se você quiser cozinhar o cabrito mesmo assim, que seja para queimá-lo como oferta a Javé.
— Por mim tudo bem… Escuta, como você se chama? Preciso saber o seu nome, para lhe fazer uma homenagem quando meu filho nascer.
— Por que você quer saber o meu nome? Basta saber que é um nome maravilhoso…
Ui, santa…
— COMO???
— Hã? Nada não. Peraí, vou buscar o cabrito.
Então Manoá pegou o cabrito e uns cereais, queimando tudo sobre uma pedra. Enquanto o fogo consumia o sacrifício, o anjo fazia umas mágicas para o casal, para impressioná-los e provar que era mesmo um anjo. Depois de uma série de truques embasbacantes, o gran finale: começou a levitar e subiu ao céu no meio das chamas. Só nessa hora Manoá se convenceu de vez de que tinha visto um anjo de verdade.
— Ai, mulher, fodeu! Nós vimos um anjo, vamos morrer!
— Ah, deixa de ser bunda-mole, Manoá! Tanta gente já viu anjo e não aconteceu nada, por que é que justamente nós iríamos morrer?
— Hum… É, você tem razão. Como sempre, né, meu amor?
— Pára, bobo…
— Minha mulherzinha falando com anjo. Que orgulho!
— Pára, tô ficando encabulada…
— Você fica tão linda assim, coradinha… Vamos voltar pra casa?
— Mas eu tenho coisas pra fazer aqui e… Ei, eu conheço esse olhar!
— …
— Tá, vamos.
Como resultado do que se seguiu a esta cena patética, nove meses depois nasceu o filho do casal. Chamaram o menino de Sansão.