(I Samuel 13)
Outra guerra contra os filisteus? Pois é, outra. Na última guerra, o autor de I Samuel deu a entender que os filisteus teriam sofrido uma derrota vexaminosa. Neste capítulo vemos que provavelmente a grande derrota narrada ali foi só um pequeno percalço. Só assim se explica a situação em que Israel se encontra neste capítulo: estado vassalo da Filistia, não podia sequer contar com ferreiros em seu território. Para evitar que os israelitas tivessem espadas e lanças, os filisteus os proibiram de trabalhar o ferro. Quando algum israelita precisava amolar suas ferramentas, tinha que levá-las até os filisteus, que cobravam pelo serviço. Uma situação humilhante, que fazia de Israel quase uma colônia filistéia.
Resumindo: A Filistia fazia aos israelitas mais ou menos o que Israel hoje faz aos palestinos.
— Anti-semita! Anti-semita!
Ué, os palestinos também são semitas. Não me torrem. E voltemos à história.
Saul já estava em seu segundo ano de reinado, e percebia que não passava de figura decorativa. Disposto a reverter a situação, escolheu três mil homens para serem seu grupo guerrilheiro. Dois mil ficaram sob seu comando em Micmás e nas montanhas de Betel, enquanto os outros mil ficaram sob as ordens de seu filho Jônatas, em Gibeá. O primeiro ato terrorista não tardou a acontecer: Jônatas matou o comandante filisteu em Geba (não confundir com jeba, por favor), o que emputeceu os filisteus, claro.
Orgulhoso do heroísmo de seu filho, Saul foi até Gilgal e de lá enviou mensageiros por todo o país, convocando os homens para a guerra contra os filisteus. Em pouco tempo, uma multidão vinda de todo o Israel veio juntar-se aos guerrilheiros. Milhares e milhares de israelitas imbuídos do mais puro orgulho cívico.
Sabendo da movimentação em Israel, os filisteus apressaram-se em organizarem seus exércitos, e acamparam em Micmás, do outro lado da fronteira. Tinham trinta mil carros de guerra, seis mil cavaleiros e incontáveis soldados. Vendo-se cercados por tal exército imponente, os patriotas israelitas deram uma grande demonstração de coragem: uns esconderam-se nas cavernas da região, outros em buracos, no meio das rochas, em poços. Alguns, mais medrosos ainda, atravessaram o Jordão e foram se esconder em Gade e Gileade. Um vexame sem tamanho.
Saul via a autoridade lhe escorrendo entre os dedos conforme a debandada aumentava. Havia recebido instruções de Samuel: deveria esperar o velho profeta para que ele oferecesse sacrifícios, e então iria combater os filisteus. Passaram-se sete dias e nada de Samuel, então Saul entrou em desespero. Olhou em volta e viu seu exército consideravelmente diminuído. Pensou um pouco e deu a ordem:
— Tragam os animais para o sacrifício.
Os homens entreolharam-se, em dúvida. Os sacrifícios só deveriam ser oferecidos pelos sacerdotes ou, na falta deles, por uma autoridade religiosa, como Samuel. (Havia um sumo-sacerdote, na verdade, como veremos no próximo capítulo. Mas era descendente do velho Eli, e portanto totalmente desacreditado).Era uma ordem do rei, porém, então eles acharam melhor obedecer. Trouxeram os animais, e Saul ofereceu os sacrifícios. E é claro que Samuel logo apareceu. Saul foi cumprimentá-lo, mas o velho ignorou a mão estendida.
— Que merda você está fazendo, Saul.
— Er… Hum. Então. Os filisteus acamparam em Micmás, meus homens ficaram com medo e começaram a fugir. Você não chegava nunca. Eu pensei: “Os putos vão vir nos atacar, e eu ainda nem tive como pedir a ajuda de Javé”. Então achei por bem oferecer eu mesmo os sacrifícios.
— Ah, claro! Oferecer os sacrifícios! Que bobagem!
— É, né?
— CLARO QUE NÃO! O QUE VOCÊ FEZ FOI UMA LOUCURA!
— …
— Você foi leviano com as coisas sagradas. Se você obedecesse a Javé, sua descendência reinaria em Israel para sempre. Como não obedeceu, porém, Deus vai escolher outro homem para assentar-se no trono.
— Trono? Que trono? Nem palácio eu tenho! Pô, Samuel, alivia essa…
Mas o velho já havia se retirado, resmungando impropérios. Saul tinha outras preocupações, entretanto, e não podia ficar pensando no que Samuel dissera. Tratou logo de juntar seus homens e ir com eles até Gibeá, para encontrar Jônatas. Lá chegando, pai e filho contaram seus soldados e desanimaram: tinham com eles seiscentos homens ao todo, um quinto do que tinham antes. Não dava mais para voltar atrás, porém: os filisteus já se preparavam para o ataque, e uma simples desistência seria a esculhambação definitiva para Israel. Então Saul, Jônatas e seu exército foram até Jeba, digo, GEBA, e ali acamparam. Enquanto isso, continuando sua estratégia de pressão psicológica, os filisteus dividiram-se em três grupos de patrulha: um ficou em Ofra, outro em Sual e o outro no monte acima do vale de Zeboim, frente ao deserto.
Era muito difícil a situação dos israelitas: eram seiscentos homens assustados cercados por milhares de filisteus. Devido às imposições de seus opressores, os hebreus não tinham espadas nem lanças (com exceção de Saul e Jônatas, cada um com sua espada). Do outro lado, os filisteus tinham um exército muito bem equipado e treinado. Para piorar tudo, parecia que nem com a ajuda de Javé os israelitas poderiam contar. Guerra perdida? Veremos.
Categoria: Bíblia
A mensagem de despedida de Samuel
Com Saul ungido, confirmado e reconfirmado como rei, era hora de Samuel sair de cena. E ele o fez num discurso, aproveitando a festa de coroação improvisada:
— Israelitas! Está aí o rei que vocês me pediram, não me encham mais o saco! Eu já sou um velho de cabelos brancos, preciso de paz. Vocês têm meus filhos aí, caso precisem de alguma coisa. Mas duvido que precisem, não é? Agora vocês têm um rei! Ó, um rei, que coisa grandiosa! Humpf. Eu fui líder de vocês desde que era jovem até hoje. E se nesse tempo todo eu fiz alguma coisa — qualquer coisa! — errada, sejam machos e me acusem agora. Eu tomei alguma coisa de alguém? Aceitei suborno? Enganei ou persegui alguém? Hein? RESPONDAM!
— Que é isso, seu Samuel! De jeito nenhum!
— Olhem lá! Javé e o tal rei que ele escolheu são testemunhas de que vocês não me acusam. Têm certeza?
— Claro! Javé é testemunha!
— Sim, ele que escolheu Moisés e Arão para tirarem os israelitas do Egito, é testemunha de que vocês não me acusam. Que beleza! Que maravilha! Mas fiquem aí, que agora EU vou acusar VOCÊS.
— Epa…
— Pois é! A história de Israel tem sido só isso: eram escravos no Egito, aí Deus enviou Moisés e Arão para libertarem vocês. Ganharam essa terra aqui, uma terra boa, com vista para o Mediterrâneo. E como agradeceram? Adorando a outros deuses! Zombando de Javé! Aí ele ficou muito puto, como era de se esperar, e mandou Sísera, os filisteus e o rei de Moabe para lutarem contra Israel. Eles venceram, e então os israelitas se lembraram de Deus, implorando a ele piedade. E ele enviou Gideão, Baraque, Jefté e eu. Nós, os juízes, libertamos vocês em todas essas ocasiões. Toda vez vocês acabavam voltando aos deuses estrangeiros, eram castigados, imploravam a ajuda de Javé. E toda vez ele enviava um juiz que os libertava. Dessa vez, porém, quando viram que Naás, rei de Amon, ia atacá-los, vocês rejeitaram ao seu Deus e pediram um rei.
— Peraí, não foi bem assim…
— CALABOCA! Agora está aqui o rei. Vocês pediram e Javé lhes deu isso aí. Ele não queria, mas vocês o rejeitaram. Deram as costas ao Deus que os livrou de seus inimigos por todos esses anos. É, ingratidão é uma coisa muito feia… Mas tudo bem, tudo bem! Se vocês continuarem servindo e adorando a Javé, não têm o que temer. Pelo contrário, é claro, ele ficará contra vocês e contra esse rei aí. Então não se preocupem: é só vocês se manterem fiéis a Javé. Fácil, não? Então! Ele está muito chateado com vocês, ele me falou isso. Querem ver só? Estamos em tempo de seca, não é mesmo? Pois bem: eu vou falar com Javé e ele vai mandar chuva e trovoada na mesma hora. Se vocês fossem bons, isso poderia acontecer com mais freqüência, e jamais voltariam a se preocupar com a colheita. Mas não, vocês preferem um rei! Paciência!
O povo ficou meio cabreiro com isso, sem acreditar muito. Mas Samuel fez lá sua oração, e no mesmo dia Javé mandou trovões e chuva. Então os israelitas ficaram com medo e começaram a falar com Samuel:
— Por favor, seu Samuel, peça a Javé que nos perdoe, que não nos mate! Além dos pecados todos, ainda tivemos a cara-de-pau de pedir um rei!
— Ah, agora vocês percebem a merda que fizeram? Tarde demais! Mas não se apoquentem, já disse: basta que vocês sirvam a Javé, e não a outros deuses. Quanto a mim, continuarei orando por vocês, e aconselhando e ensinando a quem quiser. Sirvam a Deus, ou então ele destruirá vocês e o seu rei.
A mensagem de despedida, no final, deixava uma brecha: Samuel não ia se aposentar totalmente, pretendia continuar desempenhando seu papel de líder espiritual, mas sem toda a responsabilidade de antes. Ele não tinha como saber que seus serviços ainda seriam necessários.
Saul derrota os amonitas
Passara-se cerca de um mês da presepada criada por Samuel para legitimar a escolha de Saul para o trono, quando Naás, rei dos amonitas, cercou a cidade de Jabes, em Gileade. Temerosos diante do exército amonita, os homens de Jabes resolveram oferecer um acordo a Naás:
— Olha, seu Naás, vamos conversar: o senhor não nos ataca, e nós o aceitamos como chefe. Que tal?
— Muito bom, muito bom! Negócio fechado.
— Ah, sabíamos que o senhor aceitaria.
— Claro, como não?
— Só tenho uma condição: furarei o olho direito de todos os homens da cidade.
— Ué, mas pra que isso???
— Por prazer, oras! Quero humilhar Israel.
E então os homens da cidade fizeram uma proposta meio amalucada a Naás:
— O senhor pode dar sete dias pra gente?
— Tão doidos? Vou ficar todo assado!
— Não, não, nada disso! Estamos falando num prazo de sete dias.
— Ah. Mas para quê?
— Vamos enviar mensageiros por toda a terra de Israel. Se ninguém vier nos ajudar, então nos entregaremos.
— Hein? Cês tão me achando com cara de trouxa, é?
— Longe de nós, seu Naás, longe de nós!
— Ah, bom. Então tá. Vocês têm sete dias.
Felizes com a burrice de Naás, mas sem garantia de virem mesmo a receber reforços, os habitantes de Jabes trataram logo de enviar seus mensageiros. Eles saíram de Jabes direto para Gibeá, onde o Saul morava. O novo rei podia ter o título, mas ainda carecia de majestade: no momento em que os mensageiros chegaram, Saul estava voltando do campo com o gado que pastoreava. Ao ver o povo da cidade em pânico, procurou informar-se:
— Que porra tá acontecendo nesta cidade?
— Parece que os amonitas estão ameaçando Jabes, Saul.
— E eu com isso?
— …
— Que foi???
— VOCÊ É O REI!
— Putz, é mesmo. Hum, deixa eu pensar…
Não teve tempo de pensar, porém, porque imediatamente o Espírito de Deus se apossou dele, com a conseqüência habitual: Saul ficou doido de repente, cortou dois bois em pedaços que foram mandados por todo o Israel, acompanhados da mensagem:
Eis o que acontecerá a quem não se juntar a mim e a Samuel para lutarmos contra os amonitas.
Palavra de seu rei,
Saul
Convencidos pela visão dos nacos de carne ensangüentada, os israelitas dispuseram-se a acompanhar Saul na batalha. O rei reuniu-os todos em Bezeque, 330 mil homens. Com esse impressionante exército nas mãos, Saul mandou dizer aos habitantes da cidade sitiada que eles receberiam ajuda no dia posterior, antes do meio-dia. Alegres com a notícia, os homens de Jabes resolveram aproveitar-se um pouco mais da estupidez de Naás:
— É… Ninguém veio nos ajudar. Pode deixar, seu Naás, nos entregaremos amanhã.
— Ué, mas por que não hoje?
— Tá tarde.
— Ah, é.
Naás voltou para tranqüilizar seus homens, levando o recado dos líderes de Jabes. Os soldados amonitas dormiram sossegados, e foi essa a grande vantagem de Saul: de madrugada, com seu exército dividido em três grupos, entrou no acampamento amonita, pegando o inimigo de surpresa. Lá pelo meio dia o massacre já estava quase completo, com apenas alguns amonitas espalhados pela região, em fuga desorganizada.
Aqueles que já puxavam o saco de Saul só pela sua aparência (de Saul, não do saco) quase foram ao delírio com a impressionante vitória militar. Embriagados de êxito, começaram a pedir a cabeça daqueles que não haviam seguido ao novo rei desde o primeiro dia. O rei, no entanto, foi apaziguador:
— Não, de forma alguma! Hoje é dia de festa, não vamos matar ninguém.
E Samuel, vendo na vitória inesperada uma oportunidade para consolidar o novo regime, não perdeu tempo:
— Vamos a Gilgal, para confirmar Saul como nosso rei.
Foram todos para Gilgal, e lá Saul foi definitivamente aclamado como soberano de Israel. O homem que começara seu reinado da pior forma possível — escondido no meio da bagagem da família — começava a mostrar seu valor. E um pouco de sua insanidade, também.
Saul é aclamado rei
(I Samuel 10:17-27)
Saul já estava ungido rei, e a decisão era irreversível. Para apresentá-lo ao povo, porém, foi armada uma cena patética: Samuel convocou todo o povo a Mispa para uma reunião religiosa. Quando estavam todos lá, fez seu anúncio:
— Israelitas! Eu tenho aqui uma mensagem de Javé para vocês. Diz ele: “Cambada de mequetrefes, eu tirei vocês do Egito, livrei vocês de todos os povos que os maltrataram, e como é que vocês me agradecem? Rejeitam minha autoridade pedindo um rei! Eu estou de saco cheio. Vocês venceram. Organizem-se aí, em tribos e em grupos de famílias. Vamos escolher o rei”.
O povo dividiu-se conforme as ordens divinas, enquanto Samuel pegava o Urim e o Tumim para o sorteio. Com o povo ordenado, ele jogou as pedrinhas e a tribo de Benjamim foi sorteada. Lançou-as de novo, e deu a família de Matri. A família adiantou-se, ansiosa. Não era para menos: dali sairia o primeiro monarca de Israel. Samuel jogou as pedrinhas, fez um certo suspense e enfim anunciou:
— O rei de Israel será… Saul, filho de Quis!
Aplausos. Vivas. Gritos. Assovios. Aplausos. Aplausos mais fracos. Silêncio.
— Eu disse SAUL, FILHO DE QUIS!
Um murmúrio na multidão. Constrangido diante do povo, Samuel foi para um canto falar com Deus:
— Javé, eu falei que isso não ia dar certo. Cadê o cara?
— Calma, Samuel. Ele está escondido no meio da bagagem.
— HÃ???
— Pode conferir.
— Mas que beleza…
Samuel voltou e pediu à família que vasculhasse sua bagagem. Foram até lá e voltaram com Saul. Alto como era, aparecia acima da multidão, que o olhava em silêncio. Samuel soltou um suspiro de alívio; estava completa sua missão:
— Estão vendo o homem que Javé escolheu? Não há outro como ele em Israel!
A declaração de Samuel não dizia grande coisa: tanto podia ser um elogio quanto uma crítica a Saul. Mas o povo, ansioso por seu rei, bradou “Viva o rei!” em uníssono. Samuel explicou aos israelitas os direitos e deveres do rei, depois escreveu-os num livro que foi colocado no Tabernáculo. E encerrou a cerimônia bem ao seu estilo:
— Acabou a palhaçada. Vão pra casa.
O povo foi saindo. Saul também foi para sua casa, em Gibeá, e com ele foram alguns homens, seus primeiros bajuladores. Outros, no entanto, murmuravam entre si:
— Mas que reizinho mais sem-vergonha, hein? Escondido no meio da bagagem!
Saul ouviu esses comentários, mas fingiu que não. Tinha um reino para ocupar a cabeça agora.
Samuel unge Saul
— Pois não, Seu Samuel, qual o rec… ARGH! QUE PORRA É ESSA?
— É azeite Saul.
— E POR QUE O SENHOR ESTÁ DERRAMANDO AZEITE NA MINHA CABEÇA?
— Estou te ungindo, estúpido. Vem cá.
— NÃO! BEIJO NÃO! SEM LÍNGUA!
— Pronto.
— HEIN?
— Você acaba de ser ungido rei de Israel. Era esse o recado de Deus pra você.
— Deus mandou você derramar uma lata de azeite no meu coco e me dar um beijo? CONTA OUTRA!
— Ó, pedaço de asno! É assim que os sacerdotes são consagrados, sabia não?
— Er… Não.
— Pois são! Javé bem que queria criar um ritual diferente para a consagração do monarca, mas anda sem criatividade. Gastou tudo no Levítico, sabe como é. Bom, não importa: você acaba de ser consagrado como rei, e livrará o povo de seus inimigos.
— Qual é, Samuel? Bêbado a essa hora da manhã?
— Ah, você não acredita, né? Pois então, alguns sinais de que estou falando a verdade: quando você voltar a Benjamim, encontrará dois homens perto do túmulo de Raquel, em Zelza. Esses dois homens vão a contar você que as jumentas do seu pai já foram encontradas, e que o velho anda preocupado com você.
— Ué, que meu pai está preocupado comigo eu já sei. E é bem provável que as jumentas já tenham mesmo aparecido. Com todo respeito, esse seu sinal aí não convence.
— POSSO CONTINUAR? Humpf. Depois disso, você irá até a árvore sagrada que fica em Tabor e…
— Mas e meu pai? Ele tá preocupado comigo!
— AZAR O DELE! Você vai pra Tabor, como estou mandando. Lá encontrará três homens. Eles estarão a caminho de Betel, aonde irão para oferecer sacrifícios a Javé. Um deles estará carregando três cabritos; o outro, três pães; e o terceiro, um odre de vinho. Eles vão lhe cumprimentar, e o segundo lhe oferecerá dois pães, os quais você aceitará. Aí…
— Peraí, peraí. Deixa eu anotar aqui… Cabritos… Pãos…
— PÃES!
— É, pães… Vinho… Tá. Pode continuar.
— Humpf. Depois disso, você irá até Gibeá.
— Putz, vou ter que andar pra cacete, hein? Não bastava você me mostrar um papel me nomeando rei, com a assinatura de Javé?
— MISTERIOSOS SÃO OS CAMINHOS DE DEUS, RAPAZ!
— …
— QUE INFERNO! Então. Em Gibeá, você irá até o monte de Deus, onde há um acampamento filisteu.
— EI! Vou brigar com os caras sozinho???
— Eu MENCIONEI isso?
— Não…
— Então faça-me o favor de calar essa sua boca e me deixar falar. Na entrada da cidade de Gibeá, você vai encontrar um grupo de profetas descendo o morro, vindos do altar. Eles estarão cheios do Espírito de Deus. Sabe o que issoi significa?
— Não…
— Que estarão agindo feito uns malucos, oras: tocando harpas, tambores, flautas e liras, dançando, cantando, profetizando, que é o que os profetas fazem.
— Que mico!
— Pois é. Mas acontece que o Espírito de Deus vai se apoderar de você, que vai começar a profetizar com eles.
— Ah, não!
— Ah, sim!
— Mas e aí, o que eu faço?
— Não se preocupe, Deus guiará você.
— É isso que me preocupa…
— A mim também, mas paciência. Vai indo, você tem muito o que fazer. Encontrarei você em Gilgal, e lá ofereceremos sacrifícios.
— Hoje mesmo?
— Não. Você vai ficar lá sete dias me esperando.
— SETE dias? Por quê???
— Porque eu quero. E você, quer ser rei ou não?
— Sei lá. Hum. Acho que sim.
— ENTÃO TRATE DE ME OBEDECER, ORAS!
Saul despediu-se de Samuel, e naquele mesmo momento começou a sentir algo estranho na boca do estômago: era o Espírito de Deus chegando. Seguiu as instruções do velho vidente, e tudo aconteceu conforme ele previra. E quando chegou a Gibeá e encontrou os profetas descendo o morro, o Espírito de Deus acabou de tomar conta dele. Saul juntou-se a eles, pegou um pandeiro e começou a fazer presepadas como um legítimo profeta. Vendo aquilo, as pessoas de Gibeá ficaram espantadas:
— Eita. Que aconteceu com o filho do Quis? Endoidou?
— Ou isso ou virou profeta.
— Ué. Será que Saul também virou profeta?
— E os outros? Será que os pais deles também são profetas?
— Hein?
— Xapralá.
A Bíblia diz que a frase “Será que Saul também virou profeta” tornou-se então um ditado em Israel. Não me perguntem o sentido de tal ditado: para mim faz tanto sentido quanto aquele “No cu, pardal!”, que eu nunca entendi.
Bom, Saul voltou de seu transe, largou o pandeiro, jogou longe a guirlanda de flores que trazia na cabeça, e subiu ao morro para preparar-se para o encontro com Samuel. Lá no alto encontrou seu tio, que perguntou:
— Ô, Saul! Por onde você andou, rapaz? Seu pai estava preocupado.
— Ah. Então. Eu e meu empregado saímos para procurar as jumentas. Não conseguimos encontrar, então fomos falar com um tal de Samuel.
— Samuel? AQUELE Samuel?
— Ah, o senhor conhece?
— PORRA! Quem é que não conhece o Samuel?
— Er…
— Mas e aí, o que ele disse?
— Que já tinham encontrado as jumentas.
— Só isso?
— É. Só.
Samuel dissera muito mais, como vimos, mas Saul resolveu não contar nada. Ainda não estava tão doido a esse ponto.
Saul encontra-se com Samuel
Como, meu Deus, COMO seria escolhido o primeiro rei de Israel? Sei que vocês não agüentam mais de tanta expectativa, que não têm nem dormido direito, nessa agonia de não saberem como foi que começou a se desenhar a monarquia israelita. Pois acalmem-se, vou contar agora.
— Hein? Do que cê tá falando, xarope?
Bah! Fica quieto aí, deixa eu contar.
Havia um homem chamado Quis. Sim, Quis. Não, não farei piadinhas com o nome do cara. Quis era filho de Abiel, neto de Zeror, bisneto de Becorate e trineto de Afias. Quem eram esses caras? Sabe Deus… Bom, não importa. O negócio é que o tal Quis era um homem rico e importante (para os padrões da tribo de Benjamim, é claro), e tinha um filho chamado Saul. Saul era muito bonito, considerado por muitos o mais belo dos israelitas. Meio maluco, é verdade, mas um pedaço de homem. Era alto, forte, charmoso, gostoso, uma coisa, UMA COI… Aham… Vamos à história.
Saul parecia destinado a uma vida de playboy e nada mais. Mas o destino de um homem pode tomar o rumo mais absurdo graças a um fato banal. Foi o que aconteceu com ele: um dia Quis chamou o filho. Tinha uma missão pra ele:
— Saul, as jumentas fugiram.
— Pai, eu já pedi pra você não falar assim da mãe e da vovó…
— Não, não essas! As jumentas, jumentas mesmo. Sumiram.
— SUMIRAM? COMO ASSIM? AS JUMENTAS SUMIRAM???
— Ei, calma, não é pra tanto! Eu hein… Pois é, sumiram, escafederam-se. E eu queria te pedir um favor: pegue aí um dos empregados e vá procurar as bichinhas.
— PAI! VÊ LÁ SE EU SOU DE CORRER ATRÁS DE BICH…
— AS JUMENTAS, Saul…
— Ah. Sim, claro. Já estou indo, pai.
— Doido…
— Doido? DOIDO??? QUEM É DOIDO???
— Calma, filho, calma… Só brincadeira do papai. Tá ouvindo? Brincadeira do papai… Brincadeira do papai… Fala.
— Brincadeira do papai… Ahã…
— Iiiiiiiiisso… Agora vai lá, vai.
— Tô indo.
Saul escolheu o empregado de seu pai com quem se dava melhor, e os dois saíram para procurar as jumentas. Chegaram até as montanhas de Efraim, passaram por Salisa e pela terra de Saalim, reentraram em território benjamita, e nada das jumentas. Quando entraram na terra de Zufe, Saul finalmente percebeu que a busca era inútil, e disse ao empregado:
— Bom, chega. Vamos voltar, senão o velho deixa de se preocupar com as jumentas e começa a se apoquentar por nossa causa.
— Que é isso, Seu Saul? Vai desistir de procurar as bichinhas?
— QUEM É QUE TÁ PROCURANDO BICHINHAS, SEU FILHO DE UMA QUENGA?
— As jumentas, Seu Saul…
— Ah. Elas. Então, mas o que podemos fazer? Já estamos andando há três dias, isso lá é vida?
— Mas eu acho que a gente podia usar outros métodos pra caçar as bich… digo, as jumentas.
— Ah, é? Quais? Imitação de jumento? Bom, eu posso fazer, você sabe. Tenho um…
— Não sei e não me interessa. Não, não, tava pensando num método mais sutil.
— Qual?
— Samuel.
— QUEM???
— Vai me dizer que você não conhece o Samuel.
— Conheço não. Quem é?
— VOCÊ É ISRAELITA MESMO?
— Claro que sou, oras! Que pergunta cretina…
— Porra, é impossível alguém em Israel não conhecer esse homem!
— Pois eu não conheço. Não leio jornais. Quem é essa celebridade?
— Eu não acredito… Samuel é o maior herói israelita das últimas décadas! Além do mais, ele tem poderes paranormais. Dizem que adivinha as coisas.
— Tá. E daí?
— E daí que ele mora numa cidade logo ali. Então a gente podia ir até lá e ver se ele nos ajuda a encontrar as jumentas.
— Ué! Mas ele não é importante, poderoso, herói e coisa e tal? Duvido que vá querer ajudar a gente nisso…
— Er… É que ele anda numa fase ruim. Está bem velho, decadente, essas coisas. Mas tem lá seus poderes. Oras, você quer encontrar as jumentas ou não?
— Quero, quero. Mas quanto é que esse santo homem cobra pra fazer suas mágicas? Nem comida nós temos mais. Tem alguma coisa aí pra gente levar pra ele?
— Deixa eu ver… Hum. Tenho um pouco de prata aqui ainda.
— É, acho que tá bom. Vamos lá.
Os dois começaram a subir o morro no alto do qual ficava a cidade. No meio da subida, encontraram umas moças que desciam para pegar água, e Saul foi falar com elas.
— Oi, meninas.
Agora imaginem: um bando de garotas adolescentes encontra em sua frente, como que surgido do nada, o Rodrigo Santoro de Israel, o Brad Pitt de Benjamim. Derretaram-se todas, é claro.
— Ooooooooooi…
— Er… Então… Eu e meu amigo aqui estamos procurando o tal do adivinho que dizem morar na cidade.
— Aham…
— É… E aí a gente queria saber se ele está.
— Ahã…
— E como eu faço pra falar com ele?
— Ahã…
— Moça? Eu fiz uma pergunta.
— Hã? Ah! Sim, sim. Ele está sim. Aliás, é aquele andando ali na frente.
— Aquele cabeludo?
— Ahã…
— Ai meu saco… Tá, tá, obrigado. Vou lá falar com ele.
— Mas é melhor você se apressar.
— Por quê?
— Está na hora do sacrifício. Ele sobe até o morro, abençoa o sacrifício, e só então o povo começa a comer. A bênção é meio demorada, melhor falar com ele antes.
— Muito bem, então vou até lá. Muito obrigado, moças.
— Não tem de quêeee…
— Ai ai…
Saul e seu empregado subiram o monte, interpelando Samuel no portão da cidade:
— O senhor que é o tal vidente?
— Quem quer saber?
— Saul, filho de…
— Eu sei quem você é.
— Sabe? Como?
— Oras, como! Sou vidente, lembra? Cabra burro. Ô, tem certeza que é esse mesmo?
— Como é que é?
— Não estou falando com você.
— …
Podia parecer que Samuel estava maluco, mas não era nada disso: um dia antes, Javé contara a ele que um homem de Benjamim viria até ali. Samuel deveria ungir esse homem como rei de Israel, e ele libertaria o povo do jugo filisteu. Notando, porém, que o tal Saul era meio despombalizado do juízo, dirigiu sua pergunta a Javé. Deus cochichou a resposta: era ele mesmo. Aquele maluco viria a ser rei. Resignado, Samuel começou a desempenhar seu papel:
— Bom, rapaz, o sacrifício está para começar, e o povo está com fome. Você e seu empregado vêm comigo até o lugar de adoração. Jantarão comigo.
— Fico muito agradecido, Seu Samuel. Mas é que eu queria saber…
— Depois, depois! Amanhã cedo eu responderei qualquer pergunta que você quiser, hoje não.
— Mas é que…
— Não se preocupe com as jumentas. Já foram encontradas enquanto vocês dois andavam por aí feito uns paspalhos.
— COMO É QUE O SENHOR SABE DAS JUMENTAS?
— Eu já não falei que sou vidente, cáspita? O que mais você quer que eu diga para acreditar? Quer que eu fale o que você faz com as pobrezinhas quando ninguém está olhando?
— NÃO! NÃO!
— Hehehehe…
— Qual é a graça?
— É que essa última foi chute… Bom, vamos comer. Saul, Saul… O povo de Israel quer você, Saul.
— Por favor, Seu Samuel! Eu sou da tribo de Benjamim, a menor de todas, e minha família nem tem importância. Como o senhor me diz que Israel me quer?
— Depois, depois! Vamos comer, já disse.
Então Samuel levou os dois ao salão de festas, deixando que se sentassem à cabeceira da mesa em que já estavam cerca de trinta convidados.
— Cozinheiro!
— Pois não, Seu Samuel?
— Traga aquele pedaço de carne que eu pedi pra você reservar para o convidado de honra.
— Sim senhor.
O cozinheiro trouxe a carne nobre, e Samuel a ofereceu a Saul. Depois do jantar, os três foram à cidade. O velho vidente e o belo benjamita ficaram conversando no terraço até bem tarde. Na manhã seguinte, Samuel foi acordar Saul:
— Está na hora de você voltar pra casa.
— Puxa. Não me oferece nem um café-da-manhã?
— Já comeu demais às minhas custas, rapaz. Vamos, levante-se!
Saul levantou-se, e Samuel acompanhou-o junto com seu empregado até a rua. Ainda sussurrou a pergunta para Deus:
— Mas você tem certeza mesmo?
O silêncio demonstrava que Javé não voltaria atrás. Samuel suspirou. Tinha que terminar o que começara. Paciência. Então disse ao benjamita:
— Saul, peça ao seu empregado que vá na frente. Tenho um recado de Deus para você.
O povo pede um rei
Samuel governou Israel durante muitos anos, sendo sempre muito respeitado. Também, com aquele mau humor todo, ninguém tinha coragem de desrespeitá-lo. Foi ficando velho e cada vez mais rabugento, até o dia em que percebeu que estava na hora de treinar alguém para assumir seu lugar quando morresse. Escolha natural: seus dois filhos, Joel e Abias. Botou os dois para serem juízes em Berseba. O resultado foi desastroso: os filhos de Samuel tinham um conceito um tanto brasileiro do termo “juiz”, então aceitavam subornos e não davam a mínima pelota para a justiça. O povo de Israel, porém, não era o povo brasileiro, e começou a reclamar. A situação foi se complicando, e os líderes israelitas decidiram ir falar com Samuel em Ramá, e expor a ele uma idéia que já estava na cabeça de todos havia muito tempo. Samuel, mais ranzinza que o Ariano Suassuna, não os recebeu muito bem. Eles acharam melhor não ir direto ao assunto:
— Seu Samuel, é por nada não, mas o senhor já está ficando velho…
— Ficando velho o cacete. Eu estou velho FAZ TEMPO. Oras. Não comecem com frescura.
— Pois então… O senhor está velho e seus filhos não seguem seu exemplo.
— Não seguem meu exemplo??? Se fosse só isso estava muito bom! Aqueles estrupícios que Deus me deu como filhos são uns meliantes, uns larápios, uns gatunos. Não seguem meu exemplo, essa é boa… Chega de eufemismos, os senhores façam logo o favor de me dizerem que diabos vieram fazer aqui. Tenho mais o que fazer além de ficar ouvindo meia dúzia de velhos babões. Isso aqui tá parecendo um baile da terceira idade ao qual as velhas reumáticas faltaram.
— Er… Então. Nós… Quer dizer, o povo de Israel… Os… Os israelitas, sabe? Eles… Eles querem um rei. Como nos países vizinhos, sabe?
— Um… UM REI??? Oras, vão todos às putas que os pariram! Sou um homem ocupado, não posso dar ouvidos a tal sorte de bazófias!
Escorraçados, os líderes se picaram dali. Samuel foi falar com Javé:
— Viu só o que aconteceu, Javé? A canalha agora resolveu que quer um rei.
— Ah, é? Pois quer saber de uma coisa, Samuel? Dê-lhes um rei.
— COMO É QUE É?
— É isso mesmo. Eles querem um rei, não querem? Pois atenda o pedido deles.
— Mas Javé, assim eles estão me rejeitando!
— Não, Samuel. É a mim que eles rejeitam, como têm feito desde que eu tirei esse povinho bunda lá do Egito. Às vezes se arrependem e vêm chorando e fazendo sacrifícios para me agradarem, mas na maior parte do tempo o negócio deles é mesmo seguir os costumes das nações vizinhas. Adorando seus deuses, rejeitaram a mim. Agora, pedindo para serem governados por um rei, como nos outros países, rejeitam a mim e a você. Tem jeito não, Samuel. Atenda o pedido, dê-lhes um rei.
— Mas assim, de mão beijada?
— Não, não. Você vai explicar pra eles detalhadamente como é que o rei vai tratá-los. Se ainda assim eles não desistirem da idéia, paciência.
Samuel passou a noite toda preparando seu discurso, pois queria convencer os israelitas a desistirem de suas idéias monarquistas. No dia seguinte, convocou os líderes e disse a eles:
— Vocês tiveram a cara-de-pau de virem aqui para me pedirem um rei. Tudo bem: falei com Javé e ele concordou com a idéia.
— Que beleza, que beleza!
— Calma, ainda não terminei. Quero dizer a vocês como o rei os tratará. Ele tomará seus filhos para serem soldados de infantaria e cavalaria, como generais e capitães. Cultivarão as terras dele, farão suas colheitas, forjarão suas armas e fabricarão os seus equipamentos de guerra. As filhas de vocês farão os perfumes de Sua Majestade, serão suas cozinheiras e padeiras. E não é só isso! Ele tomará de vocês as melhores terras e plantações, entregando tudo a seus funcionários de confiança. Cobrará impostos de vocês, para manter o luxo de sua corte, tomará de vocês os servos, o melhor gado e os melhores jumentos, para que trabalhem para ele. Vocês serão escravos do rei que pediram, e quando isso acontecer chorarão amargamente, mas Javé não ouvirá as suas queixas.
— Sei, sei… Que mais?
— Er… Era isso mesmo, acho.
— Só isso?
— ACHAM POUCO??? AINDA ASSIM VOCÊS QUEREM TER UM REI?
— Hum… É, queremos sim.
— COMO É QUE É?
— Tudo bem, ué. Queremos que Israel seja uma nação moderna. Esse negócio de ser governado por juízes é muito antiquado, Seu Samuel, com todo o respeito. É preciso que Israel avance, mas para isso precisamos de um rei, de uma dinastia que nos guie na direção do futuro.
— ESSE É O MAIOR MONTE DE BOSTA FUMEGANTE QUE JÁ OUVI NA MINHA VIDA!
Samuel saiu pisando duro, e os líderes foram embora. Pelo jeito teriam que esperar pela morte daquele anacrônico juiz, para aí sim começarem a tecer seus planos para a instauração da monarquia. Eles não sabiam que Javé, de certa forma, estava ao lado deles:
— Faça o que eles querem — disse ele a Samuel. — Dê um rei a eles.
— Mas, Javé…
— Ah, Samuel, não torra!
Pelo jeito, Javé começava a simpatizar com a idéia de ter um rei em Israel. A Samuel, portanto, nada mais restava do que obedecer. Como, porém, seria escolhido o primeiro rei? Logo veremos.
Samuel governa Israel
Um problema já estava resolvido: a Arca estava de volta a Israel, guardada por um certo Eleazar, filho de Abinadabe, numa casa no alto de um morro em Jearim. A Arca ficou na casa de Abinadabe durante quase vinte anos, sem que ninguém bulisse com ela. Deixemo-la quietinha, portanto, porque outro problema mais complicado permanecia sem solução: a opressão dos filisteus. Todos os dias o povo se lamentava e rogava a Deus por ajuda (a Edição Contemporânea da Tradução João Ferreira de Almeida diz que “… toda a casa de Israel suspirava pelo Senhor”, o que traz uma certa carga de veadagem).
Samuel crescera e tornara-se um homem taciturno e mal humorado. Cansado de ouvir tanta reclamação por todo canto, começou a brigar com o povo:
— Ah, vocês querem a ajuda de Javé, né? Então porque continuam adorando a outros deuses? Destruam suas imagens de Astarote e de outros deuses, e dediquem-se só a Javé. Porra, eu não precisava nem falar isso pra vocês, está tudo nos Dez Mandamentos e na Lei de Moisés. Mas vocês se fazem de burros, não é mesmo? Ô, povinho bunda!
O discurso contundente de Samuel, reforçado pela excelente reputação de que gozava, acabou convencendo os israelitas a largarem os deuses pagãos. Concluída a limpeza, Samuel convocou o povo para uma reunião em Mispa, e disse que ia falar com Javé e ver se tinha jeito de livrar a barra de Israel. O povo atendeu à convocação. Já em Mispa, os israelitas tiraram água e ofereceram como oferta a Javé. Vejam que situação: a miséria era tanta que os caras já estavam sacrificando até água. Eles jejuaram o dia todo — até por falta de alternativa — e confessaram seus pecados a Deus.
A notícia da reunião dos israelitas em Mispa não tardou a chegar aos ouvidos dos governadores filisteus. Todo o povo de Israel reunido em uma só cidade era uma oportunidade boa demais. Então os cinco governadores juntaram seus exércitos e marcharam na direção de Mispa. Estavam certos de impor a derrota final a Israel, e ocupar todo o seu território.
Quando os israelitas souberam que os filisteus vinham para atacá-los, entraram em pânico e foram falar com Samuel:
— Ô, Samuel! Tá falando com Javé?
— Estava, até vocês me interromperem. Caralho. Que foi, hein?
— Os filisteus vêm aí, Samuel!
— Tá. E eu com isso?
— Ô bicho grosso… ELES VÃO ACABAR COM A NOSSA RAÇA!
— Não vão não. Eu só preciso falar com Javé.
— Então fala!
— FALAREI ASSIM QUE VOCÊS ME DEIXAREM EM PAZ, SEUS PUTOS!
— …
— HUMPF!
Assim que o deixaram em paz, Samuel arrumou um carneirinho (mirrado, tadinho) e o queimou em sacrifício a Javé. Pediu mais uma vez a Deus que ajudasse o seu povo. Ele ajudaria? Samuel e todos os israelitas estavam para descobrir, porque os soldados filisteus continuavam avançando, seguros da vitória. Quando estavam quase chegando a Mispa, porém, foram surpreendidos por uma forte trovoada. O barulho e os raios os assustaram, e eles saíram correndo. Vendo que sua debandada, os israelitas saíram atrás, perseguindo-os até Bete-Car (uma cidade, embora pareça nome de concessionária), e matando muitos deles no caminho. Samuel, querendo gravar o acontecimento na memória do povo, botou uma pedra grande entre as cidades de Mispa e Sem, como memorial, dizendo:
— Até aqui Javé nos ajudou. Vamos ver daqui pra frente…
O lugar passou então a se chamar Ebenézer, que significa “Pedra de Ajuda”.
E foi assim que os filisteus, tendo infernizado a vida dos israelitas por tanto tempo, foram derrotados. Samuel passou a governar, aclamado pelo povo, e enquanto ele viveu a Filistia não voltou a incomodar Israel. Todas as cidades tomadas pelos filisteus, de Ecrom até Gate, foram devolvidas.
Samuel foi chefe de Israel por toda sua vida. Todos os anos ele ia a Betel, Gilgal e Mispa, e nessas cidades julgava as questões que lhes eram apresentadas pelo povo. Depois voltava para Ramá, sua cidade natal, onde também era juiz. Finalmente cumprira seu destino óbvio, o de ser Juiz de Israel. Em agradecimento, construiu um altar em Ramá. Tudo muito bom, tudo muito bem, e assim permaneceu por muitos anos. Depois de velho, porém, ele voltou a enfrentar problemas. E não estou falando de impotência sexual.
O retorno da Arca
Já fazia sete meses que a Arca da Aliança estava na Filistia, passando de cidade em cidade e deixando atrás de si um rastro de homens que não podiam se sentar. A situação tornou-se insuportável. “Não tem cu que agüente”, como diz aquela bela canção. Então os filisteus foram pedir conselho a seus sacerdotes e magos:
— Olha, não tá dando mais. Manter esse baú israelita aqui na Filistia é loucura. Queremos mandar esse troço de volta.
— Mandem, ué. Mas não mandem sem um presente, pelo menos, que é para os israelitas saberem que é de boa fé que vocês estão devolvendo o baú deles.
— Hum. Que presente?
— Algo que demonstre que reconhecemos a derrota: mandem cinco hemorróidas de ouro e cinco ratos de ouro.
— Er… HÃ???
— Isso mesmo: vocês vão mandar fundir hemorróidas e ratos de ouro, e este será o presente para os israelitas e para o deus doido lá deles. Cinco de cada um, representando os governadores filisteus. Porque a praga que atingiu o povo atingiu a eles também. Ah, atingiu! É bonito de se ver um governador se arrastando por aí, suando frio levando na mão uma almofadinha de rosca.
— Hehehehe.
— É, até uma praga tem seu lado bom. Pois então, com esse presente talvez o deus israelita deixe nossos cus em paz. Não vale a pena sermos teimosos. Há muitos séculos os egípcios resolveram ser teimosos, e o tal Javé os infernizou até o limite. O cara não desiste.
— Tá bom. E aí a gente vai até lá e entrega o baú junto com os presentes?
— Estão doidos? Os israelitas acabam com a raça de vocês. Não, não: vocês vão botar o baú numa carroça. As hemorróidas e os ratos de ouro vão numa caixa ao lado. A carroça será puxada por duas vacas. Vocês vão deixar as vacas irem por onde bem entenderem. Se elas forem para Bete-Semes, em Israel, isso significa que o que aconteceu foi mesmo um castigo do deus deles. Caso contrário, a praga terá vindo por acaso.
— Não é um procedimento meio esquisito não?
— Procedimento meio esquisito é fazer banho de assento todo dia. Somos seus sacerdotes, confiem em nós.
— Tá bom, então.
Os filisteus seguiram o conselho dos sacerdotes e magos. Para começar, fizeram os ratos e as hemorróidas de ouro. Cabe uma dúvida aqui: fazer um rato de ouro é fácil, mas e uma hemorróida? Será que usaram os governadores como modelos? Fico imaginando… Bom, não importa: fizeram as tais esculturas e botaram numa carroça junto com a Arca. Então a carroça foi andando conforme a vontade das vacas, sendo seguida pelos governadores filisteus.
É.
Como diz aquela música, sabe? Aonde a vaca vai / o governador vai atrás.
AHAM!
Perdão, perdão.
As vaquinhas foram mugindo, cagando e andando, e acabaram justamente em Bete-Semes, terra natal de Josué, na fronteira com a Filistia. Os filisteus seguiram a carroça até os limites da cidade, e ficaram observando.
Os habitantes de Bete-Semes estavam colhendo trigo no vale quando viram ao longe a Arca da Aliança se aproximando. Ficaram extremamente felizes, é claro, e correram para o objeto sagrado. As vacas devem ter ficado muito contentes ao verem que sua chegada era recebida com tamanha alegria. Mas não durou muito: os israelitas retalharam as pobrezinhas e, usando a madeira da carroça como lenha, queimaram sua carne como sacrifício. Vendo que tudo terminara bem, os governadores filisteus voltaram para casa, já sentindo algum alívio em suas “partes secretas”. Os israelitas festejavam e comentavam os estranhos presentes:
— Tá. Mandar esses ratos de ouro foi um negócio bem esquisito, mas pelo menos a gente sabe o que são. E essas outras esculturas aqui?
— Sei lá. Parecem com nada.
— Deixa eu ver… Ei, isso aqui não parece um cu com hemorróida?
— COMO???
— É! Olha só: o cu está aqui, aqui a hemorróida…
— Ah, você acha que é engraçado, não é?
— Er…
— Você acha que humor e escatologia são sinônimos, não é mesmo?
— Mas…
— DEVE MORRER DE RIR QUANDO ALGUÉM PEIDA, NÃO?
— Mas é que parece mesmo..
— ORAS, CALE-SE!
A festa em Bete-Semes foi até tarde, e teve apenas um pequeno contratempo: setenta homens foram fulminados porque olharam para dentro da Arca. Bobagem. O povo percebeu que a relíquia podia ser perigosa se continuasse ali, então enviaram mensageiros à cidade de Jearim, cerca de vinte quilômetros ao norte, com a seguinte mensagem:
Vocês não vão acreditar! Os filisteus mandaram a Arca da Aliança de volta. Não é o máximo? Ah, estamos tão felizes! Mas estávamos pensando: Jearim é uma cidade tão mais importante, não é justo que um objeto tão santo fique aqui em Bete-Semes. Então queríamos saber se vocês não gostariam de ter a honra de ficarem com a Arca.
Shalom!
Povo de Bete-Semes
Os homens de Jearim morderam a isca direitinho, e no dia seguinte mandaram um caminhão de mudanças para Bete-Semes.
A Arca na Filistia
Depois de pegarem a Arca em Ebenézer, os filisteus a levaram até a cidade de Asdode e a colocaram no templo, perto da imagem do deus Dagom. Com isso, pensavam trazer o deus israelita como oferta ao deus filisteu. Javé, porém, vivia dias de moleque, pregando peças e aplicando trotes. Foi com surpresa, então, que no dia seguinte os filisteus viram a imagem de Dagom caída de cara no chão, prostrada diante da Arca. Os sacerdotes a endireitaram novamente e não deram grande importância ao episódio. Na manhã seguinte, porém, a imagem estava prostrada novamente, e dessa vez sem os braços e sem a cabeça, que estavam caídos na soleira da porta. Os filisteus começaram a considerar a hipótese de que talvez não tivesse sido uma boa idéia mexer com o deus maluco de Israel. Supersticiosos, não quiseram entrar no lugar onde ficava a imagem de Dagom, e o lugar foi tabu por séculos.
Mas eu dizia que Javé andava brincalhão por aqueles dias. Pois é. Sua brincadeira seguinte foi mandar uma praga de hemorróidas contra todos os moradores de Asdode e vizinhanças. Sob um castigo tão doloroso quanto constrangedor, o povo começou a chiar:
— Ninguém mandou a gente mexer com os israelitas. Aquele povo é esquisito, todo mundo sabe. E agora o deus deles castigou ao nosso deus, e está castigando a nós.
A indignação começou a aumentar, até que alguém resolveu mandar mensageiros aos cinco governadores filisteus para uma reunião urgente. Os governadores de Gaza, Asquelom, Gate e Ecrom vieram e foram recebidos pelo governador de Asdode em seu gabinete. Os quatro sentaram-se em volta da mesa.
— Vossa Excelência não vai se assentar?
— Vossas Excelências hão de compreender que na minha situação…
— Qual situação?
— Então não sabem?
— A mensagem só dizia para virmos aqui para discutirmos algum problema a respeito de Israel.
— Ah. Então. Nós conseguimos pegar a Arca sagrada lá deles, como os senhores bem sabem. Mas aí coisas estranhas começaram a acontecer…
— É, fiquei sabendo do que ocorreu no templo. Lamentável.
— E isso nem foi o pior!
— Não?
— Não. Parece que o deus deles mandou um castigo contra nós.
— Castigo? Que castigo?
— Er… Hemorróidas.
— Perdão?
— Hemorróidas. HEMORRÓIDAS! Todo o povo de Asdode foi acometido por hemorróidas.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHA!
— NÃO RIAM! ISSO É MUITO SÉRIO!
— Claro, claro. Não podemos admitir que um deus estrangeiro castigue toda uma cidade da Filistia com… Com… PFFFFFFFFFFHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
— Oras, cale-se.
— Mantenha o senso de humor, Excelência. Então o problema é a presença do tal baú de Javé? Pois podem mandar o baú lá para Gate.
— Olha…
— Podem mandar, eu garanto.
No mesmo dia, então, a Arca foi transportada para a cidade de Gate. As notícias de Asdode chegaram antes, porém, e o objeto sagrado israelita foi recebido com temor. No dia seguinte, todos os habitantes acordaram com uma leve coceira em certa parte do corpo — não digo que foi no cu para não ser grosseiro. A coceira foi piorando, e todos já sabiam: a praga das hemorróidas chegara a Gate. Enviaram a Arca para a cidade de Ecrom, e a praga repetiu-se com maior intensidade. Mais uma vez mensageiros foram enviados aos governadores, e agora com uma mensagem bem clara: o povo exigia que a Arca fosse mandada de volta a Israel. Não era para menos: a praga foi muito mais forte Ecrom do que em em Gate ou Asdode, e algumas pessoas morreram. Morrer de hemorróidas, vocês hão de concordar, é algo bem vergonhoso. Por toda a cidade ouviam-se altos gritos de dor, que chegavam até o céu. E, lá do céu, Javé ouvia com prazer os gritos de dor. E ria.
A Edição Contemporânea da mesma tradução suaviza os termos:
Enquanto a Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, é mais eufemística ainda:
Pois bem: eu pensava que as traduções mais modernas da Bíblia foram atingidas por uma praga bem pior que hemorróidas: o tal do politicamente correto. Não parecia adequado falar em hemorróidas, então trocaram por tumores e pronto. Porém, pesquisando um pouco, descobri um artigo do Dr. Jairo Bueno, publicado no site da Sociedade Brasileira de Clínica Médica do Rio Grande do Sul. O Dr. Jairo diz que o que ocorreu de verdade nas cidades da Filistia foi um surto de peste bubônica, e explica:
A explicação me convenceu, mesmo porque no capítulo seguinte fala-se em ratos, que não haviam sido mencionados ainda. Se levarmos em conta a associação entre esses roedores e a peste bubônica, fica claro que a possibilidade de tratar-se de inflamações e não de hemorróidas é bem mais lógica.
Mas é claro que eu não ia perder a oportunidade de fazer minhas piadinhas, por isso mantive as hemorróidas. Não em mim, credo!
