(I Samuel 17:41-58)
Com todo esse negócio de guerra, ameaças e desafios, a loucura de Saul amainara um pouco. Eram tantas as preocupações ocupando a mente do rei que o espírito mau não achava uma brecha para entrar. Mas foi só Davi virar as costas para ele voltar ao abilolamento de sempre. Chamou Abner, seu primo e comandante do exército, e perguntou:
— Abner, quem é aquele rapaz indo ali?
— Qual rapaz?
— Aquele ruivinho ali, de cajado na mão.
Abner era um bajulador dos mais desavergonhados, então achou melhor não contrariar o rei:
— Meu senhor, juro pela SUA alma que não sei!
Espertinho o danado, né? Até faz juramentos, mas pela alma alheia. Muito safo, muito safo. Saul não percebeu que o juramento botava em risco apenas sua própria vida, e ordenou:
— Pois procure saber.
— Pois não, majestade, é para já.
Abner fingiu que foi averiguar quem era o tal rapaz, mas é claro que não foi. Aproveitou para tirar uma soneca em sua tenda.
Enquanto isso, a notícia de que finalmente os israelitas haviam escolhido o homem para lutar contra Golias já chegara ao acampamento filisteu. Disseram a Golias que seu oponente o esperava lá embaixo, na margem do Rio. Feliz da vida com a perspectiva de um pouco de ação depois de quarenta dias de bravatas, Golias vestiu sua armadura, chamou seu escudeiro e desceu. Lá no alto, filisteus e israelitas apinhavam-se para assistir à luta, um grupo de cada lado do vale. Do acampamento filisteu vinham gritos de “GOLIAS! GOLIAS! GOLIAS!”. Do israelita, nem um pio.
Quando Golias chegou perto e viu aquele rapazote ruivo diante dele, sem nenhum tipo de armadura e de cajado na mão, teve uma crise de riso:
— Que que é isso? QUE QUE É ISSO? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. É algum tipo de piada israelita? DAGOM DO CÉU! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Ai, ai. MEU ESTÔMAGO DÓI! Então é esse o golpe, querem me matar de rir? É BOA, MUITO BOA!
— Grunf.
— Tá resmungando o quê, moleque? Ou será que você é uma menina? É uma menina, é? Por acaso eu sou algum cachorro para você vir me enfrentar com uma vara, ô coisinha? Puta que pariu… Eu rogo a praga dos meus deuses contra você: QUE VOCÊ SE FODA E QUE O MEU PAU CRESÇA! HAHAHAHAHAHAHA! Vem pra cima com seu cajado, vem. Vou dar sua carne para os bichos do deserto comerem!
Você vem contra mim… AHAM! Você vem contra mim com sua espada , sua lança, seu escudo, e esse equipamento todo aí que eu não sei o nome. Mas eu vou contra você com o apoio de JAVÉ!
— De quem?
— Er… Javé.
— Conheço não.
— É o nosso Deus. O Senhor dos Exércitos. O Todo Poderoso. O Criador do Céu e da Terra. O…
— Peraí. Esse é o Dagom.
— Mané Dagom!
— Escuta, viemos aqui para lutar ou para discutir teologia, ó caralho?
— Tá irritada, santa?
— Mas olha que moleque ousado… Espera aí que eu já acabo com a tua raça!
— Você? EU acabo com a TUA raça. Com a ajuda de Javé, hoje eu corto sua cabeça. E os bichos do deserto terão um jantar muito mais farto do que a minha carne: a carne de todo o exército filisteu.
— Ah, é? Depois de me matar a pauladas, vai sair matando todo mundo lá em cima? Como, mordendo os caras até a morte? Olha, chega de tanto lero-lero, já estou cansado de gastar saliva com israelita.
Dizendo isso, Golias começou a avançar na direção de Davi. O rapaz não se intimidou com o gigante, e saiu correndo contra ele. Enquanto corria, enfiou a mão no alforje e pegou uma das pedras. Quando já estava suficientemente perto de Golias, enfiou a pedra na funda e começou a girá-la sobre a cabeça. Depois de muito girar, soltou uma das pontas da funda e a física se encarregou do resto: a pedra saiu pela tangente e voou, indo cravar-se bem no meio da testa do filisteu, única parte desprotegida de seu corpo. O gigante vacilou um pouco, olhando fixamente para Davi sem entender o que acabara de acontecer. Depois de um tempo assim parado, dobrou os joelhos e caiu de cara no chão. Davi correu, tirou a espada de Golias da bainha e com ela cortou-lhe a cabeça.

(Davi e Golias – Caravaggio (1606) – Kunsthistorisches Museum, Viena)

A situação inverteu-se: o acampamento israelita prorrompeu em brados de vitória, e o filisteu ficou em silêncio por um minuto, enquanto os soldados digeriam o acontecimento inacreditável. Quando finalmente se deram conta de que era verdade mesmo que seu maior campeão acabara de morrer nas mãos de um pastorzinho adolescente, ficaram apavorados e bateram em retirada. Os israelitas atravessaram o vale e perseguiram-nos até as cidades de Gate e Ecrom, na Filistia. Depois de matarem muitos inimigos e acuarem outros tantos em suas cidades, os israelitas voltaram e despojaram o acampamento filisteu.
Quanto a Davi, pegou a cabeça de Golias e a levou para Jerusalém, cidade que começava a tornar-se importante. Depois voltou para casa, levando as armas do gigante como souvenir.
Para quem até pouco tempo atrás era apenas um pastor de ovelhas, Davi podia dar-se por satisfeito: além de trabalhar no palácio e ter a confiança do rei (embora Saul já não se lembrasse), começava agora sua carreira militar, e da forma mais impressionante. Ele, porém, lembrava-se muito bem da estranha visita de Samuel à sua cidade, e sabia que sua história estava apenas no começo.

  • Pegue o livro mais próximo de você.
  • Abra o livro na página 23.
  • Ache a quinta frase.
  • Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.
Mas os pastores de Gerar contenderam com os pastores de Isaque, dizendo: Esta água é nossa
(Gênesis 26:20a, na Bíblia de Referência Thompson, Edição Contemporânea da tradução João Ferreira de Almeida, história contada por mim aqui)

Coisas de Paula Manzo.

(I Samuel 17:12-40)
Os israelitas estavam em seu acampamento, apavorados com a proposta de Golias. Entre eles estavam Eliabe, Abinadabe e Siméia, os três filhos mais velhos de Jessé. O caçula, Davi, ainda não tinha idade para ir à guerra, mas ia ao acampamento todos os dias para tocar sua harpa e fazer o papel de moço de recados entre o pai e os irmãos. Jogo rápido, porque ele tinha que voltar para tomar conta das ovelhas.
Durante quarenta dias Golias desafiou o exército israelita. Todas as manhãs ele vinha até a borda oposta do vale, cruzava os braços sobre o tórax enorme, e bradava seus insultos. Ao final, repetia a proposta: os israelitas deveriam escolher um homem para lutar contra ele, e neste combate estariam decididos a guerra e o destino de ambas as nações. Um dia, preocupado com essa situação, Jessé chamou Davi, entregou a ele dez quilos de trigo torrado, dez pães e dez queijos, e disse ao filho:
— Davi, estou preocupado com seus irmãos. Eliabe é grande e forte, tenho medo de que o escolham para ir lutar contra o tal gigante. Então eu quero que você vá até o Vale do Carvalho levando esse trigo e esses pães para seus irmãos, e esses queijos para o comandante do exército. Veja se Eliabe, Abinadabe e Siméia estão bem.
— Pode deixar, pai.
Na manhã seguinte, Davi deixou um empregado tomando conta das ovelhas e foi para o Vale. Chegou justamente na hora em que israelitas e filisteus estavam alinhados dos dois lados, trocando os insultos habituais:
— Sua mãe é tão feia que faz cebola chorar!
Lech zayen et ima shelcha, benzona!
— HEIN???
— “Vá foder tua mãe, filho-da-puta” em hebraico!
— FELADAPUTA!
— Apelou, perdeu! HAHAHAHAHA!
— Ah, é? Peraí…
Enquanto isso, Davi deixara os mantimentos com o oficial responsável pelas bagagens, correndo em seguida para a frente de batalha. Chegou bem a tempo de ver os filisteus dando passagem para seu grande herói, Golias. Bastou o gigante aparecer para todos os israelitas correrem para suas tendas. Cambada de bundas-moles, esses israelitas. Davi, um tanto envergonhado do comportamento de seus compatriotas, foi falar com os irmãos:
— Vocês estão bem?
— O que é que você acha, Davi? Todo dias somos humilhados por esse gigante de merda, e o jeito é…
Eliabe foi interrompido pelo trovejar da voz de Golias, que mais uma vez gritava seu desafio.
— Ué. É isso que ele quer? Alguém que vá lutar com ele?
— E VOCÊ ACHA POUCO? Viu o tamanho do cara???
— Ah, ele é grande. Mas não é dois.
— Sei não, sei não…
Sabendo que os irmãos mais velhos o desprezariam, Davi achou melhor conversar com os outros soldados que estavam por perto:
— Vocês tão sabendo de alguma recompensa? O que ganha quem matar esse filisteu pagão incircunciso filho de uma quenga velha?
— Calma, rapazinho, calma… Mas corre por aí que o rei dará ao homem que derrotar Golias uma gorda recompensa e a mão de sua filha. Ou seria só uma recompensa e a mão de sua filha gorda…? Hum. Alguma coisa assim. Além disso, isentará de impostos a família desse suposto homem valente.
— Interessante…
Porém Eliabe ouviu a conversa do irmão com o soldado, e ficou puto:
— Ô, moleque! Quem é que está tomando conta das suas ovelhas lá no deserto, hein? Seu convencido! Tá achando que é quem? Veio aqui só para ver a batalha, né? Moleque dos infernos!
— Coé, Eliabe, coé? Pega leve! Será que eu não posso nem fazer uma pergunta? Eu, hein…
Eliabe deu um muxoxo e foi cuidar de sua vida. Davi, por sua vez, saiu andando pelo acampamento, sondando aqui e ali para saber como seria recompensado o israelita que matasse Golias. De todo mundo ouviu a mesma resposta, com uma ou outra variação. De tanto ele perguntar, alguns soldados resolveram ir falar com Saul sobre o que acontecia:
— Majestade, parece que há um rapaz aí no acampamento interessado na recompensa prometida a quem matar o gigante.
— Ah, é? Que beleza, alguém mais maluco do que eu… Traga o tal rapaz aqui, quero falar com ele.
Os soldados saíram e voltaram trazendo Davi. Saul levou um susto:
— Mas você, Davi? O que está fazendo aqui?
— Seu Saul, eu acho uma vergonha o povo de Israel ter medo desse filisteu. Eu vou lutar com ele.
— Davi, Davi… Você não pode ir, meu filho.
— Ué, por que não?
— Porque você é só um adolescente, Davi. Olha aí, cheio de espinhas na cara. Aposto que vive se acabando na punheta, e que às vezes até apela pras pobres das ovelhas. Estou errado?
— …
— Pois é. E aquele cara? Aquele gigante, além do tamanho que tem, é soldado desde que tinha sua idade. Você não tem a mínima chance, percebe?
— Permita-me discordar, majestade. Como o senhor sabe, eu sou pastor de ovelhas. Quando vem um leão ou um urso e pega uma das ovelhas, eu vou atrás do bicho, ataco o danado e pego a ovelha de volta. Se o leão ou o urso me ataca, eu agarro ele assim, ó, pelo pescoço, e dou porrada até matar o desgraçado. Comigo é assim, sem dó.
— Hum. Sei. Mata urso, é?
— Mato.
— E leão, né?
— Também.
— E com as mãos nuas, claro.
— Justamente.
— E QUER QUE EU ACREDITE NESSA POTOCA SEM-VERGONHA, DAVI?
— Juro que é verdade! JURO! Deus me ajudou a matar leões e ursos, e também vai me ajudar a matar esse filisteu do pau pelancudo.
— Hum. Pois muito bem. Vá, e que Javé te ajude.
— SÉRIO?
— É, ué.
— VIVA! OBRIGADO, MAJESTADE!
— De nada, de nada. Mas você não vai assim, oras. Vou te dar minha armadura.
— Puxa, que honra…
Saul enfiou Davi dentro de sua armadura, e botou nele um capacete de bronze. Assim guarnecido, Davi pegou a espada de Saul e a colocou na bainha. Foi saindo para ir lutar contra Golias, mas mal conseguia andar enfiado naquela geringonça. Irritado, tirou a armadura e a devolveu ao rei, junto com o capacete e a espada:
— O senhor me desculpe, mas é que eu nunca usei essas coisas e nem consigo andar com isso. Se eu for lutar assim, o gigante me mata e come minha carne chupando de dentro da armadura, feito siri.
— Você é quem sabe, Davi. Tenho nada com isso.
— Obrigado. Agora, se o senhor me dá licença, tenho um gigante para matar.
Davi pegou seu cajado, sua funda (uma espécie de estilingue, só que sem a forquilha), escolheu cinco seixos redondos e lisos no leito do riacho e saiu para enfrentar Golias.

(I Samuel 17:1-11)
Tanta coisa acontecendo em Israel e os filisteus quietinhos. Estranho, não? Pois é. E não durou muito: na época em que Davi estava trabalhando no palácio, os filisteus começaram a se movimentar e acamparam entre Socó e Azeca, no território de Judá, um lugar conhecido como Efes-Damin, Fronteira Sangrenta. Saul ficou sabendo, juntou seu agora bem treinado exército, e foi acampar no Vale de Elá.
— É lá?
Humpf. Elá, como vocês sabem, é carvalho em hebraico. Continuemos.
Então os filisteus ficaram no morro do lado de lá, os israelitas no morro do lado de cá, e passavam os dias trocando insultos:
— Ô, do pau cortado! Sua mãe é tão feia que a sombra dela fugiu!
— Tá falando o quê, macaco? Sua mãe é tão gorda que as pessoas fazem cooper em volta dela!
— Sua mãe é tão velha que esqueceu a bolsa na Arca de Noé!
— Sua mãe tem pêlo na teta!
— Sua mãe tem pêlo no útero!
— SUA MÃE PASSA ATUM NA BOCETA E DÁ PRO GATO LAMBER!
— FILHO DA PUTA!
— UHU! Apelou, perdeu!
— Merda…
E assim passavam-se os dias, com xingamentos de um lado e de outro e nenhuma ação. Até que um dia, no meio da guerra verbal, os israelitas viram alguém saindo do acampamento dos filisteus e vindo para a borda do morro.
— Ô, que palhaçada é essa? Tá montado na cacunda do seu pai? Hein! Fala! Responde! Resp… Epa.
O tal homem parecia mesmo estar encarapitado nos ombros de alguém. Claro, ninguém podia ser daquele tamanho. Mas acontece que Golias era: quase três metros de altura. Trazia na cabeça um capacete de bronze, e estava enfiado numa armadura, também de bronze, que pesava mais de 70 quilos. As pernas estavam protegidas por caneleiras e ele carregava nos ombros um dardo de bronze. Sua outra arma era uma lança, cuja haste parecia um eixo de tear, e da qual só a ponta pesava quase 10 quilos. A frente desse gigante encouraçado ia seu escudeiro, um homem de estatura normal, mas que parecia o Nelson Ned se comparado ao patrão. Postou-se bem de frente para onde estavam os israelitas, botou as mãos na cintura e começou a gritar com seu vozeirão:
— Ô, suas frangas do inferno! O que vocês estão fazendo aí? Querem briga, é? Pois venham! Eu sou filisteu, com muito orgulho. E vocês, são o quê? Escravos de Saul? Pffff… Olhem, vou propor uma brincadeira a vocês, uma aposta. Seguinte: escolham um de seus homens para lutar comigo. Qualquer um. Se ele me matar, nós seremos seus escravos. Caso contrário, vocês nos servirão. E aí, não dizem nada? Está lançado meu desafio, suas bichas! Mandem alguém. Mandem qualquer um.
Golias deu meia-volta e retornou calmamente à sua tenda. Do lado de cá, Saul e todo o exército israelita estavam apavorados. Recusar o desafio de Golias seria uma demonstração de pusilanimidade. Mas quem poderia ir lutar contra tamanho gigante? Lembremos que, fosse quem fosse, teria o destino de Israel em suas mãos. Quem teria coragem e força suficientes para enfrentar um guerreiro de três metros de altura? Quem? Quem?
Bah, vocês sabem quem. O suspense é só para não perder o costume.

Observação: Todas as variantes da Tradução João Ferreira de Almeida dizem que Golias tinha 6 côvados e meio de altura. Se considerarmos que o côvado tem 45 centímetros, chegamos a 2,92m. Há quem fale em côvado de 66 centímetros, o que nos daria um gigante de mais de 4 metros. No entanto, a Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, diz que o gigante filisteu tinha 2,10m, nada de descomunal. Não sei de onde os tradutores da SBB tiraram essa medida, mas arrisco dizer que foi mera preocupação com a verossimilhança. Uma grande bobagem: depois da travessia do Mar Vermelho, quem é que vai se preocupar com verossimilhança, meu Deus?
O que eu acho: Davi matou um cara de metro e oitenta de altura, nada de mais. Falou para seu filho, Salomão, que tinha matado um homem de mais de dois metros. Salomão, por sua vez, contou a Roboão que vovô matara um filisteu de 2,5 metros. Então alguém teve a idéia de escrever logo a história, antes que começassem a dizer que Golias usava o Mar Morto como ofurô.

(I Samuel 16:14-23)
Vimos no capítulo anterior que o Espírito de Deus apossou-se de Davi. Mas parece que Deus ainda não dominava direito esse negócio de onipresença na época, então seu Espírito teve que sair de Saul. Todos sabemos, porém, que a bondade e a justiça divinas são perfeitas. Tanto é que, tendo retirado seu Espírito de Saul, Javé imediatamente enviou um espírito mau para substituí-lo. O que isso significa? Que o rei, que já não regulava muito, endoidou de vez. Como temos visto até agora, ser dominado pelo Espírito de Deus também causava loucura. Mas há uma diferença: dominado pelo espírito mau, o cara só passa vergonha e não se diverte nenhum pouco. Saul, coitado, passou a ter crises cada vez mais freqüentes. Pela descrição feita na Bíblia (não neste capítulo, mas mais tarde), Saul apresentava todos os sintomas de um esquizofrênico paranóide. Se é que existe isso, esquizofrênico paranóide. Mas é bonito pra danar, vão dizer que não? Então. Foi nisso que Saul se tornou quando passou a ser atormentado pelo espírito mau: um esquizofrênico paranóide. Puxa, eu passaria o dia inteiro repetindo isso. Esquizofrênico paranóide. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE.
Tá, parei. Vamos dizer que Saul sofria de Transtorno Bipolar de Humor, associado a Síndrome de Tourette e Síndrome da Mão Alheia. Um pouquinho de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, talvez? É, vai bem. Só pra história ficar legal.
Ficava cada vez mais difícil conviver com Saul. Suas oscilações brutais de humor, sua agressividade inesperada e sem motivo, suas manias de perseguição, tudo isso tornava em um inferno a vida dos que cercavam o rei. Cansados disso, os empregados do palácio se reuniram e foram falar com ele:
— Majestade?
— Sim! Digam, meus queridos!
— Er… Bom. Seguinte: parece que o senhor está sendo atormentado por um espírito mau.
— Sim, rapaz, também andei pensando nisso. Estava aqui tentando achar uma solução. Um despacho, talvez?
— Nós pensamos em algo mais suave, para começar…
— É mesmo? Algo mais suave, não é? E no que foi que os FILHOS DA PUTA pensaram, hein? Em trazer suas mães, aquelas ARROMBADAS, para me sossegarem um tantinho? Ou talvez os CORNOS dos seus pais para virem aqui como bobos da côrte? Ou então… Ou então… Hum. O que é que eu estava dizendo?
— Dizendo? Não, o senhor não estava dizendo nada, majestade.
— Hum. Estranho. O QUE VOCÊ TÁ ME OLHANDO, SEU CU-DE-BURRO?
— É que… É que…
— DESEMBUCHA, PUTO!
— É que o senhor está… Hum… Manipulando seu magnífico pênis real.
— Manip… Eita, não é que estou mesmo? Não sei qual é o problema com essa minha mão esquerda, parece que tem vida própria. Mas… Onde é que estávamos?
— Pois então, majestade: pensamos em procurar alguém que toque harpa, e trazer para o palácio. Assim, quando o espírito mau vier atormentá-lo, talvez o senhor se acalme com a música.
— Hum. Tá aí, gostei da idéia. Gostei mesmo. Ei, onde vocês vão???
— O senhor acenou com a cabeça, ordenando que saíssemos.
— Acenei com a cab… Ah, malditos tiques! Vão logo procurar o tal harpista. Tomara que funcione, minha vida está um inferno.
— É pra já, majestade. Aliás, eu conheço um homem chamado Jessé, lá de Belém.
— E ele toca harpa?
— Nah, aquele não toca nem campanhinha. Mas o filho dele, Davi, é um grande músico. Além disso, é um bom soldado, valente, fala muito bem, é bonito, miudinho mas definido, sabe?, ruivinho, uma graça…
— Ok. Contenha sua veadagem e traga aqui o tal Denis.
— Davi, majestade.
— Esse aí.
Mandaram chamar Davi em Belém. Jessé, todo alvoroçado com uma convocação do palácio apenas dias depois de ver seu filho tratado com a maior deferência pelo lendário Samuel, tratou de caprichar no presente para o rei: mandou que Davi levasse um jumento carregado de pão, um odre de vinho e um cabrito para Saul. Lá foi o garoto para Gibeá. Saul gostou dele logo de cara. Talvez não gostasse tanto se soubesse que estava diante de seu sucessor no trono, mas é claro que ele não tinha como saber isso. Então ele acolheu Davi, e mandou uma mensagem a Jessé pedindo que ele autorizasse o filho a ficar morando no palácio real. E é claro que Jessé concordou, na maior alegria.
A partir de então Davi ficou trabalhando no palácio. Oficialmente, foi contratado como escudeiro de Saul. Mas fazia seu verdadeiro trabalho quando o rei tinha alguma crise: pegava sua harpa e cantava belas canções, muitas delas de sua autoria. E era ele começar a cantar para Saul ir se acalmando, até voltar totalmente ao normal.
Tendo o poder de acalmar a loucura do rei, Davi começou a ficar popular no palácio. Mas ainda era pouco.

(I Samuel 16:1-13)
O tempo passou e Samuel continuava com pena de Saul. Mal saía de casa, envergonhado com o papel que desempenhara ao comunicar ao rei que ele seria destituído. Oras, para começo de conversa Saul nem quisera ser rei. Javé tinha insistido, e ele se tornara rei a contragosto. Vinha fazendo um mau governo? Pelo contrário! Defendera Israel de seus vizinhos hostis, treinara um exército de respeito (em contraponto à meia dúzia de camponeses assustados que antes eram toda a força de defesa israelita), unira o país em torno de si. E, por causa de um pouco de gado trazido da terra dos amalequitas, fora rejeitado pelo mesmo Deus que o escolhera. Samuel passava seus dias pensando nisso, mortificando-se, sentindo-se culpado por tudo. Até que um dia Javé veio falar com ele:
— Samuel!
— Oi.
— Ué. Que desânimo é esse, rapaz?
— Bah. Você sabe.
— Ah, Samuel! Ainda essa história do Saul? Até quando você vai ficar aí se lamentando? Parece o Jeremias!
— Quem?
— O Jer… Ah, esquece. Esse cara não foi ainda. Às vezes eu me confundo com esse negócio de linha do tempo e tal. Mas então: chega de ficar aí choramingando por causa do Saul. Eu não quero mais que ele seja rei de Israel. Não quero e pronto.
— Ah! Então o negócio do gado amalequita foi só uma desculpa?
— Er… Pode ser. E não vem ao caso. O negócio é que agora eu tenho um trabalho para você.
— Não vou ter que ir falar com Saul, né? Eu não suportaria olhar na cara dele.
— Não, nada disso. Você vai encher um chifre com azeite e levá-lo com você até Belém.
— Chifre? Chifre de quê?
— Qualquer um! Seu, do seu pai, um chifre qualquer. Não se atenha aos detalhes, Samuel, essa missão é importante. Lá em Belém você vai procurar a casa de um tal Jessé para ungir um dos filhos dele como rei.
— CÊ TÁ DOIDO??? Se Saul sabe de um negócio desse, acaba com a minha raça!
— Hum. É verdade. Bom, então é melhor você disfarçar. Já sei: leve um bezerro com você e diga ao povo que foi até lá para oferecer um sacrifício. Convide Jessé para o ritual, e depois eu digo o que você deve fazer.
Sem muita vontade, mas já sabendo que discutir com Javé era perda de tempo, Samuel pegou seu chifre de azeite, seu bezerro e tocou para Belém. Quando viram o velho profeta chegando, os líderes da cidade tremeram de medo. Conheciam a fama de Samuel, e sabiam que praga rogada por ele era pior do que praga de mãe. Então foram falar com ele:
— S-Seu Samuel. Er… Que milagre o senhor por aqui!
— Humpf.
— Hehehe. Hehe. Hehe…
— Tão rindo de quê, caralho?
— Hum. É. Bom. Essa sua visita é de paz, Seu Samuel?
— É, é sim. Não me encham o saco.
— Ah, que bom… E esse bezerro aí?
— É meu noivo…
— HEIN?
— PRA QUE EU IA ANDAR COM UM BEZERRO, PORRA?
— Er… Sacrifício?
— É ÓBVIO! E vocês purifiquem-se e venham comigo.
— Pois não, pois não…
— RÁPIDO!
Nota-se que Samuel não estava no seu melhor humor. Enquanto os líderes se lavavam, Samuel mandou uma mensagem a Jessé convidando ele e sua família para o sacrifício. Quando o belemita chegou com seus filhos, Samuel viu Eliabe, o mais velho, e pensou: “Ah, deve ser esse. É grandão, forte, bonito. Do jeito que Javé gosta”. Mas Javé respondeu:
— Tá me estranhando, Samuel??? Desde quando eu fico reparando nessas coisas?
— Ué, eu só pensei. O cara tem o mesmo tipo físico de Saul, então…
— Pois é! Eu escolhi Saul me baseando só na aparência e deu no que deu. Não, não. Agora eu vou escolher com mais cuidado. Quero alguém que tenha bom coração e, principalmente, que não seja maluco. Fica calmo. Quando for o cara que eu escolhi, você saberá.
— Tá bom. — disse Samuel e, dirigindo-se a Jessé: – Eu tenho um recado de Deus para um dos seus filhos, mas já sei que não é esse. Quem é o segundo?
— Esse aqui, Abinadabe. É campeão de atletismo e faz musculação.
— Hmmmmm. Não, não é esse. O próximo?
— Meu terceiro filho, Siméia. Ponta direita do Belém F.C., escala montanhas e corre mais que o capeta.
— Sei, sei. Mas não é esse não. Próximo!
E assim Jessé apresentou a Samuel os sete filhos que estavam com ele, e nenhum deles era o escolhido por Deus.
— Você não tem mais nenhum filho, Jessé?
— Tenho mais um, o caçula, que está tomando conta das ovelhas agora.
— Ah, então mande chamá-lo.
— Seu Samuel, com todo respeito: se o recado de Deus não era para nenhum desses, para o moleque é que não vai ser.
— Eu sei, eu sei. Mas você não acha melhor oferecer o sacrifício com toda a família reunida?
— Ah, isso é.
— Então manda chamar o menino.
Jessé mandou um dos filhos chamar o caçula, e logo ele voltou trazendo o irmão. Era um rapazinho ainda adolescente, ruivo, de olhos brilhantes, muito bonito e de aparência saudável. Assim que ele apareceu, Samuel ouviu a voz de Javé em sua cabeça:
— É ESSE! É ESSE! PODE UNGIR!
— Calma, Javé. Ô. — e para o menino: — Qual o seu nome, filho?
— Davi. O que o senh… ARGH! Que é isso?
— Azeite, ué.
— AZEITE???
— É. Estou ungindo você como futuro rei de Israel.
— Peraí, Seu Samuel — interrompeu Jessé. — Deve haver algum engano.
— Engano nenhum. Seu filho Davi será rei.
— Mas é só um menino!
— Bom, discuta com Javé.
— E o sacrifício?
— Mané sacrifício! Tchau.
Samuel voltou para Ramá e deixou Davi todo besuntado em Belém. A partir daquele dia o Espírito de Deus tomou conta de Davi. Já sabemos o que isso significa: o menino estava pronto para aprontar suas loucuras.

(I Samuel 15)
Javé ficou só olhando enquanto Saul montava e treinava seu exército. Quando viu que já estava bom, mandou Samuel ir falar com o rei.
— Saul, tenho um recado de Javé para você.
— Opa. Pode dizer.
— Ele ordena que você ataque os amalequitas, e não deixe nada vivo por lá. Homens, mulheres, crianças, bois, jumentos, camelos, ovelhas: não tenha dó, mate tudo o que respirar.
— Mas… Samuel, com todo o devido respeito a Javé, os amalequitas não nos fizeram nada!
— NÃO FIZERAM NADA??? Eles atrapalharam a vida de Israel quando o povo saiu do Egito!
— Isso foi no tempo do onça!
— Não importa, Saul: Javé não esquece essas coisas. E a ordem dele foi clara: vá até lá e não deixe nada vivo.
— Bom. Se é uma ordem divina, como é que eu vou discutir, né?
— Ainda bem que você sabe.
Não tinha mesmo o que discutir, então Saul convocou seu exército e fez uma contagem de seu efetivo. Contra os filisteus ele conseguira reunir três mil homens, dos quais 2.400, mal equipados e indisciplinados, desertaram. Dessa vez ele tinha sob seu comando 210 mil homens, todos fiéis ao seu rei. Seria fácil.
O exército israelita marchou na direção de Amaleque, e se escondeu no leito de um rio. Saul mandou um recado aos queneus que moravam na cidade:

Queneus,
Saiam da cidade, porque hoje o bicho vai pegar. Como vocês são gente fina, e ajudaram os israelitas na época do Êxodo, resolvi avisá-los do ataque que faremos ainda hoje.
Atenciosamente,
Saul
Rei de Israel

Tão logo os queneus saíram da cidade, Saul entrou nela com seu exército. Primeiro derrotou-os em Amaleque, a capital, e continuou sua campanha desde Havilá até Sur, que ficava a leste do Egito. Tomou o rei Agague como prisioneiro, e matou todo o povo. Vitoriosos, os israelitas voltaram para casa, exibindo como troféus o rei Agague e os melhores animais do gado amalequita.
Naquela mesma noite, enquanto Saul e todo o povo festejavam a vitória na rua, Javé foi falar com Samuel:
— Porra, Samuel. Preciso conversar com você.
— Pode dizer, Javé.
— Tô arrependido de ter escolhido Saul como rei. Me baseei só em aparências, e agora olha só o que aconteceu.
— O que aconteceu?
— ORAS, O QUE ACONTECEU! O CARA NUNCA ME OBEDECE!
— Ah.
— Ele não vai mais ser rei de Israel.
— Pô, Javé. Também não é pra tanto.
— Ué. Tá defendendo o cara agora?
— Ah, sei lá. Com o tempo eu fui simpatizando com ele.
— Pois isso não me interessa. Por mim vocês podem até se casar. Mas rei do meu povo é que ele não vai ser mais.
— Ah, Javé…
— Não torra, Samuel. Já decidi.
— Pensa bem, Javé…
— Hmmmmmm… Nah.
E assim passaram a noite toda, Samuel tentando demover Javé da idéia de destituir Saul, e Javé mantendo-se irredutível. Na manhã seguinte, sem ter dormido, Samuel saiu para procurar Saul. Ficou sabendo que ele tinha ido até a cidade de Carmelo para inaugurar um monumento em honra de si mesmo, e que depois fôra para Gilgal. Para lá foi Samuel, e encontrou o rei que, como sempre, veio cumprimentá-lo efusivamente:
— Samuel, bons olhos o vejam! Já está sabendo do que aconteceu?
— O quê?
— Oras, não se faça de bobo! Derrotamos os amalequitas, Samuel! Cumpri as ordens de Javé, e derrotamos os amalequitas!
— Você cumpriu mesmo as ordens de Javé?
— Ué. Claro que cumpri!
— Então por que é que eu estou ouvindo balido de ovelhas, mugido de vacas, zurrar de jumentos e… E… E aquele barulho que os camelos fazem?
— Er… Tá ouvindo, é? Não tô ouvindo nada. Que estranho, hein?
— NÃO DESCONVERSE!
— Tá bom, tá bom. O negócio é que os meus soldados tomaram dos amalequitas os melhores animais.
— MAS A ORDEM NÃO ERA DE MATAR TUDO?
— C-claro, claro! Mas é que… É que nós pegamos esse gado aí para oferecer como sacrifício a Javé. Olha que legal! Mas o resto nós destruímos tudo mesmo. Esses aí também, só que não foi na mesma hora, percebe? Trouxemos para cá, e agora vamos oferecer tudo como sac…
— CALABOCA! Deixa eu te contar o que Javé me disse na noite passada.
— Hum. Fala.
— Ele disse que você não era nada, e ele o fez rei de Israel. Ele o ungiu como rei de seu povo, e confiou em você. E deu a ordem de destruir os amalequitas e seus animais. Então por que é que você não obedeceu? Por que cresceu os olhos pra cima do gado deles?
— Mas eu obedeci! Fui até lá, matei todo o povo e trouxe o rei deles como prisioneiro. Esses bichos que trouxemos para cá são um sacrifício. Um sacrifício, já disse!
— O que você acha que Deus prefere, Saul? Obediência ou sacrifícios?
— …
— É melhor obedecer a ele do que oferecer-lhe sacrifícios. A revolta contra Javé e o orgulho são pecados tão graves quanto a feitiçaria ou a idolatria.
— Pô, Samuel. Pega leve.
— Eu tenho nada com isso, é Javé quem diz. E ele diz também que já o rejeitou como rei, porque você rejeitou as ordens dele.
— É. Eu desobedeci às ordens de Javé.
— Finalmente admite!
— Mas é que eu fiquei com medo do povo e fiz o que eles queriam!
— Ah! Então agora a culpa é do povo?
— Não, não. A culpa é minha. Mas, Samuel, agora eu preciso de você como nunca precisei antes. Por favor, perdoe o meu erro, e volte comigo para adorarmos a Javé.
— Eu não posso ir com você, Saul. Você rejeitou as ordens de Javé, e por isso ele o rejeitou como…
— … Rei de Israel. Tô sabendo, tô sabendo. Mas custa nada!
Samuel, porém, já fazia menção de retirar-se. Então Saul o segurou pela capa, que se rasgou.
— OLHA AÍ A MERDA QUE VOCÊ FEZ! RASGOU MINHA CAPA!
— Ô. Foi mal.
— FOI MAL O CARALHO! Agora Javé vai rasgar o reino de Israel das suas mãos, e entregá-lo a outro melhor do que você. SEU PUTO!
— Ô PORRA! Eu sei que fiz cagada, mas você tem que me respeitar na frente dos líderes e do povo de Israel, pelo menos isso. Volte comigo, para que eu possa adorar a Javé.
Samuel viu o brilho de ódio nos olhos de Saul, e resolveu acompanhá-lo. Saul era grande e assustador, enquanto Samuel era apenas peludo. Brigar com o rei seria loucura. Foram, pois, até Gilgal. Lá, Samuel ordenou que lhe trouxessem Agague. Ao ver que era chamado à presença do rei de Israel e da segunda maior autoridade do país, Agague achou que seria poupado. Mesmo tremendo de medo, disse:
— Ah. Então a amargura da morte já passou.
— É o que você pensa, Agague — respondeu Samuel. — Assim como muitas mães ficaram sem seus filhos por sua causa, hoje é o dia de Dona Agaga ficar desfilhada.
— Mas o nome da minha mãe não é Ag…
Agague não teve tempo de terminar: Samuel o matou e depois despedaçou o corpo, em frente ao altar. O povo aplaudiu, Saul achou muito bom, só Samuel ficou desgostoso. Voltou para Ramá, enquanto Saul foi para sua casa em Gibeá. Nunca mais tornaram a se ver, porque Samuel ficou com muita pena de Saul. Achava que Javé se precipitara, dando uma sentença muito grave para pouca coisa. Rever Saul seria constrangedor, porém, então ele o evitava. Mas era melhor não discutir porque podia muito bem ser que Javé ainda tivesse outras missões para ele.

(I Samuel 14:47-52)
Bom, vamos encerrar logo o 14º capítulo, que já deu muito pano pra manga. Este final é só um resumo do que foi o reinado de Saul: diz-se que ele lutou contra todos os inimigos da vizinhança: Moabe, Amom, Edom , Zoba e, claro, Filistia. Fica claro que Saul foi um guerreiro competente, e que defendeu Israel de todos os ataques sofridos.
É dito também que o rei tinha três filhos (Jônatas, que já conhecemos, Isvi e Malquisua) e duas filhas (Merabe e Mical, que terá importância na história mais para a frente) com sua esposa Ainoã, filha de Aimaás. Em todo governo há nepotismo, e o reinado de Saul não foi exceção: o comandante do exército era seu primo Abner, de quem ainda ouviremos falar bastante. Os pais de Saul e Abner (Quis e Ner, respectivamente) eram filhos de um certo Abiel.
Durante toda sua vida Saul lutou ferozmente contra os filisteus, e conseguiu arregimentar um exérctio de homens fortes e valentes, que foram muito bem treinados. E esta deve ser a última referência positiva a Saul na Bíblia: daqui para a frente seu reinado começa a degringolar, como veremos.

(I Samuel 14:24-46)
— E aí, rapaz? Há quanto tempo!
— Pois é. Estava viajando, cheguei ontem
— Ah, então você não está sabendo da confusão?
— Que confusão? A guerra?
— Também. Mas estou falando da história de Jônatas.
— Que história?
— Não se fala de outra coisa em todo o Israel! Foi assim: antes de atacarmos os filisteus, Saul impôs um jejum rigoroso a nós, os soldados. Ninguém deveria comer nada enquanto não tivéssemos derrotado os inimigos.
— Acho que ouvi algo a respeito.
— Pois então: estávamos perseguindo os filisteus, todo mundo com uma fome danada. Aconteceu que chegamos a um bosque e adivinha? As árvores estavam cheias de mel! Lembra da história da promessa de Javé a Abraão, que daria a ele uma terra de onde mana leite e mel? Pois naquele bosque o negócio era literal mesmo: favos expostos, o mel pingava das árvores.
— Deu água na boca.
— Imagine a gente! Uma fome desgraçada, todo aquele mel ali ao alcance da mão. Mas o rei havia feito um juramento, e era melhor obedecer. Ficamos ali só olhando para as árvores cheias de mel, e babando.
— Que situação triste…
— Muito triste! Mas foi aí que começou a confusão: o Jônatas, que devia estar matando filisteus no caminho, chegou atrasado ao bosque. Não teve dúvida: pegou uma vareta, enfiou num favo e comeu um pouco de mel.
— Ué, mas e a promessa do pai dele?
— Aí é que está: ele não estava no acampamento quando Saul fez o juramento. Estava matando filisteus, é o esporte preferido dele. Então olhou em volta, satisfeito. Mas um dos soldados achou melhor avisá-lo: “Olha, seu Jônatas, seu pai falou que quem comesse hoje seria amaldiçoado”.
— E ele?
— Nem deu bola! “Meu pai fez uma coisa terrível contra Israel”, ele disse.
— É maluco, esse Jônatas. Gosto dele.
— É, todo mundo gosta. E não foi só isso: disse com todas as letras que os soldados deviam ter comido o alimento que tomou no inimigo, que assim ficaríamos mais fortes e mataríamos mais filisteus.
— Faz sentido.
— Faz todo o sentido! Tanto que logo depois nós continuamos perseguindo os filisteus e, quando chegamos ali em Aijalom, com eles já derrotados, avançamos sobre os animais que havíamos tirado deles, matamos tudo ali mesmo e começamos a comer. Com sangue e tudo.
— COM SANGUE?
— Pois é. Para você ter uma idéia da nossa fome.
— Puxa… Mas e aí, ficou por isso mesmo?
— Ficou nada! Algum alcagüete foi contar para o rei o que estava acontecendo. Rapaz, o homem ficou emputecido que só a peste!
— Imagino.
— Gritou, xingou, esperneou. Pelo menos foi o que me disseram.
— Claro! Vocês quebraram o juramento dele!
— Não, nem foi por isso: os filisteus já tinham sido derrotados, então podíamos comer à vontade. O problema foi esse negócio de comer carne com sangue.
— Ah, é verdade… Mas e aí?
— Aí o rei mandou rolar uma pedra grande para o meio do acampamento e mandou um mensageiro até onde estávamos. Convocava todo mundo para voltar ao acampamento e matar os animais sobre a pedra, deixando o sangue escorrer antes.
— Então não foi tão ruim assim, ué.
— A princípio não. Saul até construiu um altar, para dar uma bajulada em Javé e tal. Mas aí ele teve uma idéia: queria descer até a terra dos filisteus, matar todos eles e fazer um grande saque.
— Excelente idéia.
— Todo mundo achou. Só o sacerdote achou ruim e propôs que se fizesse uma consulta a Deus antes, para saber se ele aprovava o ataque. Saul não viu nada de mais, então perguntou se deveria atacar os filisteus e se seríamos vitoriosos.
— E a resposta?
— Não teve resposta. Era noite, e na manhã seguinte ainda não havia qualquer resposta. Saul entendeu que alguém tinha feito alguma bobagem, e que Javé estava de mal por isso. Então disse aos oficiais que precisavam descobrir que pecado havia sido cometido, e que jurava por Javé que mataria o responsável.
— Cá entre nós, acho que o rei faz juramentos demais…
— É, também acho. Fez esse juramento aí e pegou as pedrinhas de sorteio lá, como é mesmo o nome?
— Urim e Tumim.
— Isso aí. Pegou o Urim e o Tumim, ficou de um lado com Jônatas, deixando do outro lado todo o resto do povo. Então disse em voz alta: “Javé, se o problema é comigo ou com Jônatas, responda pela pedra marcada Urim, se for com o povo de Israel, responda pela pedra Tumim. Jogou as pedras e deu Urim. O negócio era entre ele e o filho. As pedrinhas foram jogadas de novo, e deu Jônatas. Então ele perguntou o que o filho havia feito, e Jônatas contou o caso do mel nas árvores.
— Xi…
— “Que eu seja morto se não o matar, Jônatas”, ele disse.
— Outro juramento.
— É, muito chato isso.
— Mas e aí? Matou o próprio filho?
— Estava bem disposto a isso. Cê sabe que o Saul é maluco, né?
— Todo mundo sabe…
— Então. Mas os soldados ficaram revoltados: disseram que graças a Jônatas nós havíamos derrotado os filisteus, o que era verdade. E que juravam por Javé que ele não perderia nem um fio de cabelo.
— Pegaram o costume do rei… Mas e Saul, como ficou com essa revolta dos soldados?
— Ficou quietinho. Deve ter percebido a merda que estava fazendo.
— Menos mal. E Jônatas?
— Saiu vivo dessa, mas anda meio desconfiado do pai.
— Não é para menos. E os filisteus?
— Estão lá na terra deles, caladinhos e com medo.
— Que continuem assim.
— Tomara.

(I Samuel 14:1-23)
Os filisteus continuavam usando sua estratégia de pressão psicológica. A guerra de nervos fazia efeito sobre os israelitas, cada vez mais assustados. Acampados em Gibeá, esperavam pelo momento em que os filisteus desceriam para começar o massacre. Alguns até torciam por isso, ao menos acabaria com a ansiedade.
Jônatas, porém, não partilhava desse sentimento. Conhecia o passado glorioso de Israel, e não se conformava em ser vassalo da Filistia. Tinha ódio mortal dos filisteus, e estava disposto a arriscar a própria vida combatendo-os. Tanto que um dia, cansado de tanta inação, chamou seu escudeiro para conversar:
— Ei. Por que a gente não vai até ali do outro lado do desfiladeiro?
— Porque os filisteus estão acampados lá, Seu Jônatas.
— …
— Não!
— Sim! O que nós temos a perder?
— Hum… A VIDA?
— E daí? Sua vida é tão boa assim?
— Não tenho muito do que reclamar não.
— Oras, deixe de ser bunda mole!
— Deixo. Mas precisa ser agora?
— Vamos, vamos logo!
— Mas… Mas o senhor não vai nem falar com seu pai?
— Pra quê? Meu pai está tão assustado quanto os outros. Machos mesmo neste acampamento, só eu e você.
— Er… Eu?
— Sim, você!
— Droga. Posso ao menos me despedir dos amigos?
— Pra quê? A gente volta logo.
— O senhor é muito otimista, Seu Jônatas.
— Ah, isso eu sou. E aí, vai comigo ou não?
— O senhor vai de qualquer jeito, né?
— Claro que vou. Estou doido pra chutar uns rabos filisteus. E, sei lá, pode ser que Javé nos ajude.
— E pode ser que não ajude.
— É verdade.
— Bah, foda-se! Vamos logo.
— Muito bem, rapaz, assim que eu gosto! Olha, vamos fazer assim: vamos até lá como quem não quer nada. Se eles nos mandarem parar, nós obedecemos. Mas se disserem pra gente subir até lá, este será o sinal de que Javé nos dará a vitória.
— Como é que o senhor sabe?
— Ué, ele deve estar ouvindo.
— Ai, ai…
— Vambora.
Os dois foram para o vale e ficaram andando por lá, certificando-se de que os inimigos podiam vê-los. Não demorou para que isso acontecesse, e os filisteus começaram a gritar:
— Olha lá! Dois narigudinhos perdidos!
— Que beleza, saíram da toca!
— Ei, hebreus! Subam aqui que eu tenho um negócio pra mostrar pra vocês!
Jônatas abriu um sorriso:
— É o sinal!
— Um filisteu balançando o pau pra gente é um sinal???
— Oras, estão nos chamando. É o sinal! Javé nos ouviu! Vem atrás de mim.
— Mas Seu Jôn… Ô, diabo!
Jônatas já havia começado a subir pelas pedras, engatinhando. Não tendo outro remédio, o escudeiro foi atrás. O príncipe israelita ia atacando e derrubando os filisteus enquanto subia, e o empregado os ia matando. Nesse primeiro ataque, mataram uns vinte homens em uma área de mais ou menos mil e duzentos metros quadrados.
A notícia do ataque terrorista começou a espalhar-se pelo acampamento filisteu. As informações eram desencontradas. Uma confusão danada, ninguém sabia direito o que estava acontecendo. Espiões que Saul enviara viram que os filisteus corriam de um lado para o outro, e foram avisar o chefe do que estava acontecendo. O rei ficou sem entender nada: seu exército estava ali acampado com ele, então quem estava atacando os filisteus? Deu ordem aos seus oficiais para que contassem os homens e descobrissem quem estava faltando. Eles voltaram com a notícia: Jônatas e seu escudeiro não estavam no acampamento. Saul inchou-se de orgulho:
— Ah, moleque! Esse meu filho é macho mesmo! Cadê o Aiás? Cadê o filho-da-puta daquele songomongo do Aiás?
— E-estou aqui, majestade!
— Vá puxar o saco da puta que o pariu! Que merda de sumo-sacerdote eu tenho, meu Deus! Vá buscar a Arca, vamos precisar dela.
— É pra já, meu soberano!
Enquanto Saul falava com o sacerdote (Aiás era sobrinho de Icabô, e um dos últimos descendentes do sacerdote Eli), foi informado de que a confusão no acampamento filisteu aumentava cada vez mais.
— Ah, é? Que maravilha! Aiás, esquece a Arca. Vamos atacar aqueles putos é agora!
— Mas Javé pode ficar nervoso se a gente não levar a Arca.
— Fica nada, fica nada! Para agradá-lo, faço agora um juramento: nenhum israelita comerá nada enquanto não tivermos derrotado nossos inimigos. Estamos de jejum a partir de agora, e maldito seja quem o quebrar.
Saul juntou seu pequeno exército e marchou contra o acampamento do inimigo. A confusão gerada pelos ataques de Jônatas e seu escudeiro era enorme. Os dois atacavam os filisteus um por um, pelas costas, e ninguém sabia quem estava matando os homens. Apavorados, os filisteus lutavam uns contra os outros. Alguns dos hebreus mais covardes, que ao fugir tinham passado para o lado do inimigo, trocaram de lado mais uma vez e juntaram-se ao exército de Saul. Os que estavam escondidos nas cavernas ficaram sabendo do que ocorria e saíram de seus buracos. Todos juntos atacaram os filisteus, perseguindo-os até Bete-Avém. Mais uma vitória espetacular do exército israelita, dessa vez mais graças à temeridade de um homem do que à intervenção divina.