Bom, aconteceu o que sempre acontece: Isaque e Rebeca tentaram e tentaram até que ela conseguisse engravidar. Isaque devia ser meio devagar, porque isso só foi acontecer quando eles já estavam casados havia quase vinte anos. Mas Rebeca ficou grávida, e logo de gêmeos. Os dois brigavam dentro da barriga e ela foi perguntar a deus por que isso acontecia. Deus, feliz por finalmente alguém se lembrar dele, respondeu logo:
— Rebeca, há duas nações dentro de você, dois povos inimigos. Um deles será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.
— Puxa, deus, que maluquice! Espera até o Isaque saber disso.
— Não, não, Rebeca, não fala nada pra ele. Aliás, nem conta que você andou conversando comigo.
— Ué, deus, por quê?
— Seu marido não vai com a minha cara. É uma longa história.
Depois de nove meses de gravidez, como geralmente acontece, os gêmeos nasceram. O primeiro a sair era ruivo e todo peludo, feito um casaco de peles, e por isso o chamaram Esaú, que significa peludo. O outro nasceu agarrado ao calcanhar do irmão, e por isso foi chamado Jacó, que quer dizer usurpador, suplantador. Esse Jacó ainda vai nos dar muito trabalho e é um dos personagens mais legais da bíblia. Isaque estava com sessenta anos quando eles nasceram.
Os meninos cresceram. Esaú era macho de verdade, caçador, vivia no campo. Jacó já era mais sossegado, gostava de ficar em casa ouvindo uns CDs de Jazz e navegando na internet. Esaú era o preferido de Isaque, porque o pai também gostava de caça. Rebeca era mais apegada a Jacó. Com tantas diferenças, era de se esperar que o conflito entre os irmãos atingisse um ponto insuportável. E atingiu mesmo, mas isso fica para outro dia.
Autor: Marco Aurélio Gois dos Santos
Não pode ser!!!
Porra, espero que seja só mais uma malandragem do cara…

O malandro pede a bênção e vira crente
Abraão sai de cena
Muito bem, pecadores. Já tratamos demais de assuntos diversos, vamos retomar nossa história, que é muito mais legal.
Como vimos, Isaque se casou com Rebeca. Talvez aliviado do antigo peso na consciência, Abraão resolveu arrumar uma mulher também. O velho casou-se com uma tal de Quetura e tiveram seis filhos, cada um com o nome mais bonito que o outro: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Sua. Minha? Não, não. Lá deles. Tenho nada com isso não. Desses aí só ouviremos falar ainda do Midiã, que é o antepassado dos midianitas, povinho que ainda vai nos dar trabalho.
Abraão viveu 175 anos (trinta e cinco anos depois do casamento de Isaque, portanto). Quando ele morreu, deus olhou lá de cima e pela primeira vez soube o que era tristeza de verdade. Abraão tinha sido seu amigo por tantos anos, talvez seu único amigo, e por causa de uma brincadeira de mau gosto eles haviam se distanciado. Deus se arrependeu, mas era tarde. Se pudesse, faria voltar o tempo. Mas como nós todos sabemos, deus não é o Super-Homem.
Isaque e Ismael sepultaram o pai no túmulo que ele havia comprado para Sara, na caverna de Macpela. Ôpa, quando foi que Ismael voltou? Não é possível que Isaque tenha ligado para o celular dele pra avisar, “Ismael, vem pra casa, que o pai morreu”. Ismael morava no deserto, e é claro que o celular dele passava o tempo todo sem sinal. O mais provável é que ele tenha voltado pra casa após a morte de Sara.
Mas é isso. Morreu Abraão, nosso personagem mais importante até agora. Vamos ver o que nos reserva Isaque. Porque sobre Isamel só ficamos sabendo que ele teve doze filhos, que cada um deles foi chefe de uma tribo (tudo isso pra explicar a origem dos povos do sul da Península Arábica) e que Ismael morreu aos 137 anos, ou seja, 86 anos depois da morte de Abraão.
* * *
Nota: Já nos tempos do Novo Testamento (depois do nascimento de Jesus Cristo), surgiu uma tradição que situava essa caverna de Macpela, onde foram sepultados Abraão, Sara e vários de seus descendentes, num determinado ponto de Hebrom, cidade do sul de Israel, que conta hoje cerca de 120 mil habitantes. Os muçulmanos — que vieram a ocupar a área onde fica Hebrom por 1300 anos — incorporaram essa tradição: o túmulo é cercado por paredes de pedra, como uma fortaleza, e é considerado Haram (lugar proibido). Fica abrigado dentro de uma construção que é ao mesmo tempo mesquita e sinagoga, por ser Abraão patriarca tanto dos judeus quanto dos árabes.
Uma mente brilhante
Acabo de fazer uma descoberta que nem toda a modéstia do mundo vai fazer calar: eu sou brilhante. Cliquem aqui para ver e ouvir este que vos fala tocando e cantando Refazenda, do Gilberto Gil. Se minha interpretação é brilhante? Claro que não! Só desafinando e maltratando meu pobre violão, como sempre. Mas minha careca brilha que é uma boniteza, podem reparar.
PT + PL = BLEARGH!
Tá, tá, eu sei que todo mundo sempre reclamou que o PT não fazia alianças, e agora chegou a hora. Mas tinha que ser justo com o PL? Não vejo vantagens nessa aliança. Quando o PSDB uniu-se ao PFL em 1994 para levar Fernando Henrique ao poder, todo mundo criticou, e com razão. Um partido que se dizia social-democrata ficar de namorico com o maior símbolo da oligarquia no Brasil, isso era absurdo. Mas pelo menos era pragmático: O PFL é um partido grande, garantia de muitos votos. O que é o PL? Não chega a ser uma legenda nanica, mas também não é nenhum partido respeitável.
Lula pensa que atrairá o voto dos evangélicos, mas não é bem por aí. Talvez alguns fiéis da Igreja Universal acabem mesmo votando no PT, já que são literalmente um rebanho (não se esqueçam que nas últimas eleições os pastores da Universal apregoavam que Lula era a encarnação do Satanás, vejam como são as coisas). Mas o pessoal da Assembléia de Deus, por exemplo, vota no Garotinho, e acho que os Presbiterianos também. Os Batistas votam no Lula, mas não por causa da aliança com o PL: Batistas e Petistas têm muita afinidade, falo por experiência própria.
Talvez a intenção do PT seja mais sutil: Mostrar com este gesto que é um partido maduro, responsável. Mas não sei se muita gente vai entender o recado.
Coisa absurda
Ah, a internet… Vejam esta animação absurda. É meio longa mas vale a pena, e lembra um pouco Monty Python, principalmente o final.
Caminhante
Minha mais nova descoberta no mundo estúpido dos blogs: Caminhante, da Maria Cristina. Em meio a tantos blogueiros com QI de ostra, vez por outra surge uma pérola de inteligência (só pra usar uma imagem batida, minha especialidade).
MST
Sim, a invasão da fazenda do presidente foi abusiva. Nisso todos concordamos, até o Lula disse isso. Só acho ridículo o Fantástico dar destaque ao telefone quebrado. Vocês viram o telefone? É aquele preto de teclas grandes, que se pode comprar por 25 reais em qualquer loja. E ninguém garante que o tal telefone vagabundo já não estivesse quebrado. Mas tudo bem. Os sem-terra que invadiram a fazenda exageraram. Isso não torna ilegítimo o MST. A organização não pode controlar o que faz cada um de seus membros, e não pode ser responsabilizada por tais atos. Por exemplo: Se o Inocêncio Oliveira é um safado, sem-vergonha, ladrão e corrupto, como todos sabemos que é, ninguém tem coragem de sugerir que o PFL seja extinto. E vejam que estamos falando de um dos caciques de um grande partido político, e não de meia-dúzia de peões que, empolgados pelo fato de estarem na sede da fazenda do presidente, resolveram direcionar sua vingança cega para o lado errado.
Ah, e não é que o rico não seja preso no Brasil. É preso sim, mas a polícia vai até a casa dele, espera que ele tome seu banho e pegue umas roupas, e vão conversando com ele até a delegacia. Como vimos no caso do Jáder Barbalho, mesmo quando isso acontece, até juiz trabalha de domingo pra soltar o cara. Onde já se viu, um rico na cadeia? Ser criminoso ou não é o de menos, o cara é rico e poderoso, onde estamos! Mas quando são uns miseráveis que ousam levantar a cabeça por um momento, pronto: Deita no chão vagabundo, rasteja na lama, pobre tem que andar de cabeça baixa, será possível que você ainda não aprendeu isso? E eu sei que tem muita gente que viu aqueles sem-terra deitados no barro e achou bonito.
Bom, resumindo meu pensamento, apelo para Bertold Brecht:
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as betulas
É tida como violenta
E a tempestade que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
O casamento de Isaque (ou: Risadinha desencalha)
Deixamos o servo de Abraão na beira do poço esperando que as moças da cidade viessem buscar água. Pois ele mal acabou de estabelecer o critério pelo qual escolheria a noiva de Isaque quando viu Rebeca aproximando-se, carregando um cântaro no ombro. Rebeca, lembrem-se, era neta de Naor, irmão de Abraão. O servo ficou de queixo caído: a moça era linda. Esperou que ela tirasse a água do poço e, quando já estava indo embora, correu até ela.
— Moça! Ô, moça! Tô com uma sede danada, será que a senhorita não podia me dar um golinho d’água?
Rebeca deixou que ele bebesse e se ofereceu para tirar água também para os camelos. Despejou o conteúdo do cântaro no bebedouro dos animais e voltou várias vezes ao poço até que os camelos estivessem saciados (e sede de camelo não é brincadeira, vocês sabem). Enquanto ela ia e voltava com o cântaro, o servo ficou só na miúda, observando a moça. Quando os camelos terminaram de beber, ele pegou uma argola para nariz pesando 6 gramas de ouro puro (vejam que já existia piercing naquela época) e duas pulseiras de mais de cem gramas cada uma, também de ouro, e deu os presentes a Rebeca. Em seguida perguntou:
— Você é daqui? Quem é o seu pai? Será que tem lugar na casa dele para os meus homens e eu passarmos à noite?
Hum… Embora isso não tenha sido dito antes, o servo não foi sozinho. Acho que nem era necessário dizer: Partir para uma viagem longa, passando pelo meio do deserto sozinho seria suicídio. Ou então esse negócio de “meus homens” significa outra coisa, e o servo era coleguinha de Lot. Vai saber…
Mas Rebeca, muito educada, respondeu:
— Meu pai é o Betuel, filho de Naor. Lá na nossa casa tem lugar para dormir e bastante palha para os camelos também.
Ao saber disso, o homem se ajoelhou e adorou a deus, agradecendo por tê-lo guiado até dar de cara com alguém da parentela de Abraão. Olhando lá de cima, deus ficou meio envergonhado: não tinha interferido em nada, e parecia que os homens podiam se virar muito bem sem ele. Pela primeira vez na História, deus duvidou da própria existência.
Rebeca correu para a casa dos pais para contar o que havia acontecido. Notem que ninguém ainda falou em Isaque, então dá pra imaginar que a moça tava de olho era no servo. Pensando bem, aquele negócio de “Pode beber, e vou pegar água para os camelos também” e “Sem problema, vocês podem dormir lá em casa”, sei não… Acho que o tal servo perdeu uma excelente oportunidade de se passar por rico e faturar a donzela. Coitado…
Rebeca tinha um irmão chamado Labão.
— Lobão?
Não, Labão.
— Ah, Lobão!
NÃO, porra, Labão! Prestem atenção nesse cara. Até agora os personagens da bíblia eram ou bonzinhos ou malvados. Creio que Labão é o primeiro a ter um caráter dúbio, o que o torna mais convincente como personagem. Labão viu a irmã com uma argola de ouro no nariz e duas pulseiras enormes, ouviu a história toda, fez uns cálculos rápidos de cabeça e foi depressinha ao encontro do servo de Abraão, que ficara esperando em pé ao lado do poço.
— Meu senhor, como vai? O que o traz até essas quebradas, um homem tão distinto, tão elegante? E por que está aqui ainda? Simbora, já preparei a casa para recebê-los.
O empregado foi com ele até a casa. Lá chegando, Labão descarregou os camelos e lhes deu palha e capim. Depois trouxe água para que os homens lavassem os pés e mandou trazer a comida. Puro interesse, claro.
O servo, no entanto, disse que só comeria depois de contar o que o levara até ali. Doido de curiosidade, Labão pediu que ele se sentasse
— Sou todo ouvidos, senhor.
O servo contou toda aquela história que já sabemos, do juramento para Abraão, do critério que inventara para escolher a moça, do encontro com Rebeca.
— E foi isso. Agora é com vocês.
Nem era preciso dizer. Abraão era aquele tio rico do qual raramente tinham notícias. Era a oportunidade para saírem da pindaíba.
— Meu senhor — disse Labão, todo bajulador — quem somos nós para decidir alguma coisa, se tudo isso veio de deus? Pode levar a Rebeca para que ela se case com o filho do seu patrão, como deus determinou.
Então o servo tirou da bagagem vários objetos de prata e de ouro e vestidos e os deu de presente a Rebeca. Deu também presentes caros para Labão e sua mãe. Vejam que o velho Betuel não apitava nada nessa casa: não tomou parte na decisão de dar a filha em casamento e também não ganhou nenhum presentinho…
Os homens comeram, beberam e passaram a noite na casa de Betuel. No dia seguinte, quando se preparavam para a viagem de volta, Labão veio falar com eles:
— Cês vão levar minha irmã embora? Mas já? Queisso! Acho melhor ela ficar por aqui mais uns dez dias e depois ela vai. Sabe como é mulher, demora pra arrumar as coisas, não pode ser assim, de uma hora pra outra.
Claro que o velhaco do Labão estava querendo mais presentes. Se Rebeca ficasse mais dez dias, os homens também ficariam, porque a viagem era longa e não valia a pena ir para Canaã e voltar depois. Além disso, o servo tinha feito um juramento a Abraão, não queria chegar dizendo “Olha, achei uma noiva para Isaque, lindíssima, virgem e neta do seu irmão, do jeitinho que o senhor queria. Mas deixei ela por lá mesmo”. Já imaginaram a reação do velho? Por isso o servo bateu o pé e disse que estava indo e pronto.
— Tudo bem, tudo bem. — disse Labão — Vamos chamar Rebeca, ela que decida. Rebeeeeeecaaaaaaaa! Ô, Rebeca. Cê quer ir com eles?
Pensando na vida de fartura que levaria dali pra frente, ela não pensou duas vezes:
— Ôpa! Tamozaí!
Rebeca chamou a mulher que havia sido sua babá para ir com ela, montaram nos camelos e começaram a viagem.
* * *
Isaque vinha andando cabisbaixo, no caminho de volta do poço de Laai-Roi (que significa Aquele que vive e me vê). Ele saíra à tardinha para meditar. Ainda estava muito triste com a morte da mãe. Não tinha irmãos que o ajudassem a superar essa dor, e não era de muita conversa com o velho, todos sabemos por quê. Aos quarenta anos de idade, permanecia solteiro, e sem perspectiva de encontrar alguém. Perdido nesses tristes pensamentos, olhou para o horizonte e viu uns camelos se aproximando. Rebeca também olhou e viu aquele homem tão bonito e tão triste, e perguntou ao servo de Abraão quem era aquele.
— É Isaque, filho do meu patrão.
Rebeca pôs o véu no rosto e foram ao encontro de Isaque. O servo contou a ele tudo o que ocorrera desde sua partida, mas Isaque mal ouviu sua história: Estava hipnotizado pela beleza de Rebeca.
Naquele tempo e lugar o casamento não era essa coisa chata de hoje, com uma pilha de papéis para assinar, roupas desconfortáveis para vestir e festas intermináveis para ficar até o fim sem tirar da cara o sorriso de noivos felizes: Isaque apenas pegou Rebeca pela mão e a levou para tenda que havia sido de Sara (e se Sara tinha uma tenda só dela, é mais um indício forte de que ela e Abraão haviam se separado). Isaque foi consolado, enfim, da perda da mãe. Os dois viveram felizes, mas não posso dizer que tenha sido para sempre. Rebeca também aprontou as dela, como veremos mais tarde.
Esclarecimento
Conforme narrado, a sepultura de Sara custou quatrocentos siclos de prata. Só agora consegui dados para fazer a conversão: é o equivalente a quatro quilos e meio.
