(II Samuel 3:22-39)
Estava tudo uma beleza: Davi, mais próximo do que nunca de ser soberano sobre um reino unificado, comemorava o acordo com Abner. O comandante do exército israelita, por sua vez, congratulava-se por ter arquitetado seu plano de forma tal que viria a ter no reino de Davi importância igual ou superior à que tivera durante os tempos de Saul. Tudo uma maravilha, mas isso só porque Joabe não estava por perto.
O comandante do exército de Judá fôra com seus homens fazer um ataque surpresa. Quando voltou a Hebrom, trazendo consigo um belo despojo, foi surpreendido pela novidade. Ficou emputecido: com que então Davi fizera um acordo com Abner sem consultá-lo? Era inconcebível! Mas ele não ia deixar tudo assim, ah, não ia. Foi falar com Davi:
— Você recebeu Abner aqui?
— Eita, que as notícias por aqui correm rápido… Recebi sim. E você não sabe do melhor: ele veio me propor um acordo de paz, Joabe! Eu vou ser rei da porra toda!
— Peraí. Abner veio aqui, falou com você, e depois foi embora numa boa?
— É, ué. Joabe, você não ouviu o que eu disse? Um acordo! Vou ser rei da porra toda!
— VAI SER REI DE PORRA NENHUMA! Será que você não conhece o Abner, Davi? Ele veio até aqui para espionar, para anotar seus movimentos, e assim ficar mais fácil para nos atacar.
— Que é isso, Joabe? Acho que cê tá ficando paranóico, parece até o finado Saul falando…
Mas Joabe já havia saído, mais furioso ainda, e já com um plano em mente. Para levá-lo a cabo, começou por enviar mensageiros a Abner, com uma desculpa esfarrapada qualquer para que ele retornasse. Os mensageiros alcançaram o general no poço de Sira e o convenceram a voltar. Quando Abner chegou a Hebrom, ficou surpreso ao ser recebido por Joabe logo no portão da cidade:
— Abner! Há quanto tempo, meu amigo!
— Er… Joabe? Você está bem?
— Bem? Ah, sim! Bem, bem, muito bem! E você, Abner, está bem?
— Estou sim. Recebi a mensagem, os moços disseram que você queria falar comigo. Aconteceu alguma coisa?
— Não, não! Está tudo bem, tudo ótimo, se melhorar estraga! Eu só queria tratar de uns assuntos aí com você, resolver direito os detalhes do… Peraí, tem muito nego curioso aqui. Vem comigo. — Joabe levou Abner até um canto do portão, atrás de uma pilastra. — Então. Queria resolver os detalhes da transição e tal. Fiquei sabendo do acordo entre você e Davi, fiquei muito feliz.
— É mesmo?
— Mas é claro! Sinto a felicidade explodindo meu coração. Você já sentiu o coração explodindo, Abner?
— Não que eu me lembre…
— ENTÃO TOME!!
Dizendo isso, Joabe enterrou um punhal entre as costelas do general, perfurando-lhe o coração. Abner olhou, atônito, para o rosto de seu assassino. Que estúpido tinha sido, como não percebera as reais intenções de Joabe? O momento de revelação durou pouco, porém, e em poucos segundos o general jazia morto às portas de Hebrom. Não tardou a começar o ajuntamento do povo, e em momento algum Joabe pensou em se esconder. Pelo contrário: queria que todos soubessem que ele mesmo matara Abner, vingando assim a morte de Asael, seu irmão. É claro que ele pensava mais na situação política do que em Asael ao enterrar a faca no coração de Abner, mas isso era só um detalhe.
Com o assassinato de Abner, a situação se complicava para o lado de Davi. Como Joabe era seu homem de confiança, era de se esperar que todo mundo concluísse o mesmo: que o rei de Judá, depois de fazer o acordo com Abner, utilizara-se de Joabe para tirá-lo de seu caminho. Sabendo que essa seria a conclusão óbvia de todos, Davi fez questão de negar em público qualquer participação na morte do general:
— Eu meu reino não temos nada com isso, e Javé o sabe. Que a culpa desse crime caia sobre a cabeça de Joabe, e que em sua família nunca faltem homens que sofram de gonorréia ou lepra, ou que só possam fazer trabalho de mulher, ou que sejam aleijados, ou que morram na guerra, ou que passem fome.
A maldição contra o assassino e sua família era eloqüente mas não resolvia nada: Joabe continuava sendo o segundo homem do reino, pois a Davi faltou coragem para tirá-lo de cena. Se lhe faltou essa atittude prática, porém, o mesmo não se pode dizer da tentativa de deixar claro que não tivera nada a ver com a morte de Abner: primeiro, o rei ordenou a Joabe e seus homens que rasgassem as roupas (sinal de respeito) e chorassem a morte do comandante. Em seguida ele fez o mesmo, seguiu o féretro e chorou à beira da sepultura de Abner, cavada em Hebrom, recitando versos de improviso. Depois todo o povo lamentou a morte do grande herói militar de Israel.
Como se não bastassem essas demonstrações públicas de condolências, o rei fez um juramento de não comer nada até a noite. Com isso, o resto de dúvidas que o povo de Judá ainda tinha se dissipou, e todos souberam que Davi não tinha mesmo ordenado o assassinato de Abner.
À noite alguns servos mais próximos de Davi ouviram seu desabafo:
— Abner era um homem e tanto, um grande líder de Israel. Uma pena ele ter morrido, uma pena mesmo. Eu, embora ungido rei, me sinto fraco. Joabe e Abisai, filhos de Zeruia, são fortes demais para mim. Que Javé os castigue como merecem.
Era de se espantar que Davi, homem sempre corajoso e arrojado, se sentisse tão diminuído frente à violência de Joabe. Se o povo soubesse disso, era capaz de bandear-se para o lado de Isbosete.
Não, pensando bem, acho que não. Se era espantoso que Davi desse uma demonstração de fraqueza, mais espantoso ainda seria ver Isbosete demonstrando qualquer coragem. O rei de Israel era patético, como já foi dito, e seu reino tinha os dias contados. Mas isso fica para o próximo capítulo.
Categoria: Bíblia
Davi firma-se no poder
(II Samuel 3:1-21)
A trégua proposta por Abner não durou muito: Joabe começara a guerra, e não ia desistir dela tão fácil. A guerra foi se arrastanto, portanto, com o lado de Davi se fortalecendo cada vez mais, e o de Isbosete cada vez mais fraco. O negócio estava tão sossegado pro lado de Davi, na verdade, que ele até achou tempo para ter filhos durante os sete anos e meio que durou a guerra. Com suas esposas Ainoã e Abigail teve dois garotos de belos nomes, Amnon e Quileabe. Não contente em comer as esposas, porém, o rei de Judá resolveu conhecer uma tal Maacá, princesa de Gesur, e com ela teve um outro menino chamado Absalão; uma garota chamada Hagite, com quem teve Adonias; depois uma Abital, que lhe deu Sefatias. Por fim, Davi casou-se com uma certa Eglá, e os dois tiveram Itreão. Davi, como podemos ver, era bom de cama mas bem ruinzinho nesse negócio de escolher nomes para os filhos.
A natural superioridade do exército de Davi não foi, porém, o único fator a determinar seu fortalecimento político e seu sossego para procriar feito coelho. Pois aconteceu que Isbosete, o rei de Israel que na verdade era um fantoche nas mãos de Abner, acusou este de traçar uma tal Rispa, concubina do finado Saul. Abner ficou emputecido com a petulância da marionete:
— Peraí, peraí! Do que é que você está me acusando, Isbosete? De traição? Acha o quê? Que eu passei para o lado de Judá?
— Mas eu só falei da Rispa…
— Não interessa! Você duvida da minha integridade, e isso eu não posso suportar! Eu sou fiel desde sempre à família de Saul, e se não fosse por mim você já teria caído nas mãos de Davi há muito tempo, retardado como é. E como é que Sua Majestade agradece? Me acusando de comer a amante do pai! Quanta gratidão, Isbosete! Mas quer saber de um negócio? Deus disse que tiraria o reino das mãos da família de Saul e o entregaria a Davi, que seria então rei de todo o Israel, de Dã até Berseba. Pois eu vou trabalhar para que isso aconteça, e que Deus me mate se eu não conseguir!
Dito isso, Abner saiu batendo os pés. Isbosete era rei, podia ter mandado prender o general por insubordinação ou qualquer outra coisa. Mas ele se cagava de medo de Abner, então foi chorar embaixo da pia.
Enquanto o patético rei de Israel chorava e tremia, Abner mandou uma mensagem a Davi:
Estava aqui pensando: a quem pertence a terra de Israel? Quem vai governá-la? Sabe o que eu acho? Eu acho que você deveria fazer um acordo comigo, aí eu faria todo o povo de Israel passar para o seu lado.
Atenciosamente,
Abner
Comandante do Exército Israelita
Davi ficou muito feliz com a proposta, mas tinha uma exigência a fazer. Então respondeu:
Excelente proposta. Aceito-a de bom grado, mas com uma condição: que você me devolva Mical, minha esposa. Se você vier até aqui sem ela, eu nem vou recebê-lo.
Davi
Rei de Judá
Pare reforçar sua vontade, mandou uma mensagem também a Isbosete:
Eu preciso reatar o casamento com sua irmã Mical. Seu pai me fez pagar por ela o preço de cem prepúcios filisteus. Eu fiquei tempo demais pegando naqueles pintos ensebados, para perder a mulher assim, de mão beijada.
Obrigado.
Davi
Rei de Judá
À primeira vista, parecia que Davi queria apenas resolver um problema antigo de orgulho ferido. Afinal de contas, Saul entregara Mical, a princesa que Davi desposara em troca de pele de pica, ao primeiro zé-mané que passou, um tal Paltiel. Não era só isso porém, e Abner sabia disso: oficializando sua condição de marido da filha do rei morto, Davi legitimava seu futuro reinado sobre todo o Israel. Para o inocente Isbosete, porém, parecia que Davi apenas queria de volta o que era seu por direito, então autorizou Abner a ir buscar Mical. O general tratou logo de ir. Entrou na casa de Paltiel e, com sua peculiar delicadeza militar, saiu arrastando a mulher pelo braço. O marido ia atrás dos dois, todo choroso e ranhento:
— Ô, seu Abner! Pelamordedeus, devolve minha mulher, vai. Eu só tenho ela neste mundo, mais nada. Devolve minha mulher!
E assim ele seguiu Abner e Mical até a cidade de Baurim. Então Abner, que não primava pela paciência, disse:
— CALA A BOCA, CARALHO! Coisa feia, um marmanjo chorando por causa de mulher, que vergonha! Volta pra casa, porra!
— Sim senhor…
Figura deveras intimidadora, esse Abner. Paltiel voltou pra casa enxugando o ranho na manga da túnica. Abner, por sua vez, voltou ao Maanaim, e de lá convocou os líderes de Israel. Quando estavam todos reunidos, fez seu discurso:
— Já faz tempo que vocês querem que Davi seja o rei da coisa toda. Não, não neguem, eu sei disso. Sei e apóio a idéia. Ah, vejo que ficaram surpresos! Pois é, eu também quero que Davi seja rei de Israel. Esse Isbosete aí é um palhaço, uma vergonha para nossa nação. Lembram-se do que Javé disse, que usaria Davi para libertar Israel dos filisteus? Pois chegou a hora de dar uma forcinha para que a profecia se cumpra.
Os líderes aplaudiram Abner efusivamente. Tendo sido bem sucedido nessa primeira reunião, ele foi até a tribo de Benjamim para falar separadamente com seus líderes. Benjamim era território crítico: a família de Saul era originária da tribo, o que dava a ela importância política desproporcional a seu pequeno território. Para sua surpresa, porém, os chefes de Benjamim também queriam Davi como rei. Tendo o respaldo de todas as lideranças do reino, Abner foi a Hebrom acompanhado de vinte homens e de Mical, lógico. Quando Davi viu sua esposa voltando depois de tanto tempo, ficou muito feliz e deu uma festa em honra de Abner. Ao fim da noite, todo mundo já bem bêbado, Abner chamou Davi num canto e disse:
— Está tudo feito, Majestade. Eu vou voltar pra casa agora e conquistar toda terra de Israel para o senhor. Os líderes todos estão conosco, não tem como dar errado. Pode se considerar rei de Dã a Berseba.
— Ah, Abner! Primeiro você me traz minha mulher querida, agora me dá essa ótima notícia! Eu nem sei como te agradecer.
— Só não se esqueça de mim, Majestade.
— De maneira alguma.
— Muito bem, então. Vou embora agora.
— Vá em paz, meu irmão.
Estava selada a paz entre Israel e Judá, e Davi já podia se considerar soberano de todo o território israelita. Ele não contava, porém, com o sanguinário Joabe: o oficial do exército de Judá ainda daria muito trabalho.
A divisão do reino
(II Samuel 2)
Davi estava muito triste pela morte de Saul, e mais ainda pela de Jônatas. No entanto, não podia perder tempo: lembrava-se de ter sido ungido por Samuel e sabia que seu destino era ser rei. De alguma forma ele teria que começar, e não via melhor oportunidade do que aquela. Então resolveu consultar a vontade de Deus.
— Abiatar! Cadê você, Abiatar? O cachecol das pedrinhas, rápido!
— Porra, Davi. Que que custa você dizer estola sacerdotal, Urim e Tumim?
— Bah, Abiatar, você se apega muito a detalhes. Prepara tudo aí, que eu quero perguntar umas coisas pra Javé.
Então Davi perguntou se deveria atravessar a fronteira para governar alguma das cidades de Judá. A resposta, para sua alegria, foi positiva. Em seguida, perguntou a qual das cidades deveria ir. Depois de uma série de consultas, Abiatar passou-lhe a resposta divina: Hebrom.
Hebrom era uma cidade grande e, mais importante, bem fortificada. Davi partiu para lá com suas esposas Ainoã e Abigail, e seus soldados também foram com suas famílias. Quando os homens da tribo souberam que o herói nacional há tanto exilado voltara a Israel, foram até lá e o aclamaram rei de Judá.
Parece muito fácil? Pois foi mesmo: Judá estava sob domínio filisteu, e Davi era homem de confiança de Aquis, um dos cinco reis da Filistia. Ora, era interessante para os filisteus que Judá tivesse a ilusão de soberania, enquanto eles continuavam a exploração. Davi encaixava-se perfeitamente nos planos dos invasores.
Os homens de Judá, porém, não levavam isso em conta. Tinham um rei agora, era o que interessava. Querendo fazer um pouco de picuinha, disseram a Davi que os homens de Jabes-Gileade haviam sepultado o corpo de Saul. Achavam que o novo rei ficaria ofendido com isso, afinal Saul era seu inimigo. Ele, pelo contrário, mandou uma carta de agradecimento ao povo daquela cidade:
Fiquei sabendo que vocês fizeram a caridade de sepultar o rei Saul. Que Javé os abençoe por esse ato de bondade. Fiquei muito feliz ao saber disso, e podem acreditar que eu retribuirei o bem que vocês fizeram.
Agora, sejam corajosos e fortes. Nosso rei, Saul, foi morto. Mas nem tudo está perdido, vejam só: os homens de Judá me ungiram como rei deles.
Obrigado, amigos.
Davi
Rei de Judá
Com esse final da carta, Davi deixava uma proposta no ar: “Sou rei de Judá, também posso ser rei aí de vocês, pensem bem”. E poderia mesmo, não fosse por um detalhe: Abner, o comandante do exército de Saul e homem mais influente do reino, tinha uma carta na mão. Chamava-se Isbosete, tinha 40 anos de idade e era o único filho vivo de Saul. Sim, sim: havia um filho do rei escondido. Abner, muito esperto, sabia que tal precaução poderia ser útil, e acabou sendo mesmo. Ele então saiu com Isbosete de seu esconderijo, foi com ele até a cidade de Maanaim e lá constituiu-o rei de Gade, Aser, Efraim, Benjamim, enfim, de todo o Israel exceto Judá.
Sabendo disso, Davi chamou Joabe. Esse tal Joabe era irmão de Abisai, o sujeito que fora com Davi até o meio do acampamento de Saul em Zife, quando o rei saíra em sua perseguição. Joabe adquirira importância no exército de Davi, tendo-se tornado o oficial de maior patente. Pois então, Davi o chamou e mandou que fosse até Gibeom com os soldados para se encontrar com Abner e tentar um acordo. Se Davi tivesse pensado bem, teria escolhido outro homem para a missão: Joabe não era muito dado a acordos, preferia resolver suas questões apelando para a violência. Mas a escolha de Davi foi essa, então Joabe foi até Gibeom e ficou com seus soldados de um lado do açude da cidade. Do outro lado estavam Abner e o exército benjamita. Os dois grupos ficaram em silêncio por longo tempo. Eram todos israelitas ali, e era um tanto constrangedor estarem de lados diferentes. O silêncio foi quebrado por Abner:
— Isto aqui está um saco! Joabe, escolhe aí doze homens. Eu vou escolher outros doze aqui. Os dois grupos vão lutar para distrair a gente.
— Gostei da idéia, Abner! Vou escolher já.
Joabe escolheu seus doze homens, Abner também. Os dois grupos se encontraram e iam começar a lutar, mas algo de extremamente ridículo aconteceu: cada homem pegou seu adversário pela cabeça e enfiou a espada no lado dele, morrendo ao mesmo tempo todos os 24 soldados. Por causa disso, o lugar passou a chamar-se Helcate-Hazurim (Campo das Espadas).
— Xi, Joabe… Que azar, hein? E agora? Mais doze de cada lado?
— Oras, por favor! Viemos aqui pra brincar ou pra lutar?
— Er… Nenhum dos dois. Eu vim aqui para conversar. Não vou lutar contra irmãos israelitas.
— Pois eu não me importo!
Dito isso, Joabe lançou-se com seus homens contra Abner. Depois da derrota, o exército de Israel já não era mais o mesmo, e aqueles homens foram facilmente derrotados por Joabe. Os que não morreram bateram em retirada. Vendo aquilo, Joabe e seus irmãos (Abisai e Asael) saíram correndo atrás do general. Joabe e Abisai ficaram para trás, mas Asael era rápido feito uma gazela, e logo estava nos calcanhares de Abner. Este olhou para trás e perguntou:
— É você, Asael?
— Opa, eu mesmo. Vou te pegar!
— Pára com isso, rapaz! Corre aí atrás de algum soldado e pegue as coisas dele para você, já está bom demais.
Asael nem levou em conta a proposta: continuou correndo. Vendo que ele estava perigosamente perto, Abner tentou dissuadi-lo mais uma vez:
— Pára de correr atrás de mim, já falei. Se você continuar eu vou ser obrigado a te matar, e aí como é que eu vou olhar nos olhos do seu irmão Joabe?
Asael, que era rápido e forte mas não muito inteligente, continuou não dando ouvidos. Então Abner, combatente experimentado, deu um golpe seco para trás com sua lança, ferindo o rapaz na altura da quinta costela. Asael caiu morto, mas seus irmãos continuaram a perseguição. Assim correram até o crepúsculo, quando chegaram ao monte Amá, na estrada que ia para o deserto de Gibeom. Abner tratou logo de subir até o alto do morro, e aos poucos seus homens reuniram-se em volta dele novamente. Então Abner gritou para Joabe, que só então chegara ao pé do morro:
— Cê tá maluco, Joabe? Vamos ficar lutando para sempre agora? Você não sabe que disso só pode resultar amargura? Está esperando o que para ordenar aos seus soldados que parem de nos perseguir? Somos irmãos, porra! Somo todos israelitas!
Lá de baixo, Joabe respondeu:
— Hum… Olha, se você não falasse a gente ia continuar a perseguir vocês até amanhã. Mas até que você tem razão. Vamo embora, cambada!
Joabe tocou a trombeta e seus soldados, que já haviam começado a subir o morro, voltaram todos. Vendo que a batalha terminara, Abner e seus homens desceram e andaram a noite toda até chegarem a Maanaim.
Do outro lado, Joabe juntou seus homens e fez a contagem. Faltavam vinte, incluindo Asael. Dos benjamitas, porém, haviam morrido 360 soldados. O saldo era bom, portanto. Satisfeito com tanta sanguinolência e por ter conseguido iniciar uma guerra, Joabe nem mesmo teve tempo para lamentar muito a morte do irmão: foi com Abisai até Belém e lá, no sepulcro paterno, eles sepultaram Asael. Depois caminharam a noite toda até Hebrom.
Davi é avisado e lamenta a morte de Saul e Jônatas
(II Samuel 1)
O homem corre entre corpos em decomposição, vestígios da batalha recente. Tropeça num braço decepado e logo se levanta. Não tem tempo para sentir-se horrorizado: precisa chegar logo a Ziclague. Sabe que suas chances são mínimas, mas confia em sua boa sorte, que lhe permitiu ser um dos poucos sobreviventes do ataque filisteu. O homem que corre nem mesmo é israelita: sua família, amalequita de origem, mudou-se para Israel quando ele era ainda criança. Morou em Israel a vida toda, sempre sofrendo por ser estrangeiro. Mas estava no lugar certo na hora certa, de modo que agora tem em seu poder alguns souvenirs muito preciosos. Então corre para Ziclague, precisa encontrar-se com Davi. Sabe que o líder dos rebeldes é o único capaz de restaurar a nação, agora que Israel está mutilada, com todas as tribos a oeste do Jordão (inclusive Judá) sob domínio filisteu. O amalequita sabe que, se sua idéia der certo, ele pode adquirir a confiança de Davi, e vir a ser personagem importante na montagem do futuro reino.
Procura não pensar muito nisso, porém: concentra-se na corrida. Precisa, mais que tudo, chegar a Ziclague.
Três dias depois de derrotar os amalequitas que haviam saqueado a cidade, Davi e seus homens ainda comemoravam. A festa foi interrompida, porém, pela chegada de um homem esfarrapado e sujo. Dizia ter notícias importantes para o chefe, e foi trazido à presença de Davi.
— Ô, rapaz. Que acontece com você? De onde você saiu desse jeito?
— Fugi do acampamento de Israel.
— Epa. O que aconteceu?
— Os filisteus, seu Davi. Atacaram a gente e não teve como resistir. Saiu todo mundo correndo, e eles não deixaram quase ninguém vivo. O rei Saul e seu filho Jônatas também morreram.
Davi sentiu uma súbita vertigem e sentou-se. Não podia ser verdade. Jônatas não podia estar morto.
— Peraí. Como é que você sabe que Saul e Jônatas estão mortos?
— Pois então… Eu passava por acaso pelo monte Gilboa quando vi a cavalaria dos filisteus cercando o rei. Ele me viu e me chamou. Cheguei perto, mas não muito. Não sou besta. Ele perguntou quem eu era, e eu respondi do jeito de sempre: “Sou amalequita”. Sabe como são as coisas, seu Davi, se a gente é estrangeiro em Israel, nego não quer nem saber nosso nome. Amalequita é tudo igual pra eles, não é mesmo? Certa feita, um tio meu…
— O QUE ACONTECEU COM SAUL, PORRA?
— Ah, é. Então. Eu falei que era amalequita, já esperando que ele fosse me desprezar e tal. Mas que nada! Ele me olhou de um jeito muito, muito triste e disse: “Vem aqui e me mata, porque estou muito ferido, e não quero morrer nas mãos desses incircuncisos”.
— E aí, e aí???
— Bom, veja o senhor: ele estava cercado, não ia durar muito. Estava muito machucado mesmo, já começando a delirar e tal. Então eu fiz a vontade dele…
— HEIN???
— É, ué. Fui lá e matei ele. Depois peguei a coroa e o bracelete dele, e trouxe aqui para o senhor, chefe.
— Não… Você… Você… Espera. Espera.
Em sinal de luto, Davi rasgou suas vestes, no que foi acompanhado por seus homens. Eles choraram e ficaram em jejum até a tarde. Havia motivo de sobra para o luto: o rei estava morto, o herdeiro do trono e melhor amigo de Davi também. O povo de Deus, Israel, passava pela pior crise de sua história. Sim, havia motivo para pranto.
Assistindo às demonstrações de tristeza de Davi e seu exército rebelde, o amalequita apenas espera pelo momento em que será chamado para receber seu merecido prêmio. À tarde, depois de comer um pedaço de pão e beber um pouco d’água, finalmente Davi o convoca à sua presença. Ele vai radiante, agradecendo a seus deuses e ao deus dos israelitas por ter permitido que ele passasse pelo monte Gilboa no exato momento em que Saul se suicidou. Assim ele pôde pegar a coroa e o bracelete, e forjar a historinha que o transformaria de amalequita malvisto em autoridade sobre Israel. É com surpresa, portanto, que nota o tom seco de Davi quando se dirige a ele:
— De onde você é?
— Er… Eu disse, senhor. Sou filho de um estrangeiro. Amalequita.
— Como é que você teve coragem de matar o rei ungido por Javé? Como?
— Hein? Hum? Hã? Não, veja bem… Eu… Eu…
O amalequita nota que Davi faz sinal a um dos soldados. Continua tentando desculpar-se:
— Eu não matei, veja bem… Eu só… Eu…
É interrompido, porém, pela ordem dada ao soldado:
— Mata esse filho da puta.
— SEU DAVI! Queisso, seu Davi??? Peraí, vamos conversar. Não foi bem assim, eu posso explicar. Olha só…
— Você é o único culpado pela sua morte, amalequita. Você veio até aqui e confessou de boca cheia que matou Saul, o rei escolhido por Deus, e achou o quê? Que eu ia ficar feliz?
— Hum… É, ué! É isso! Mas eu posso expl…
Nesse momento o amalequita é rudemente interrompido. Ainda quer continuar falando, mas percebe que fica difícil assim, com a cabeça separada do corpo.
Depois de mandar matar o amalequita que lhe trouxera a terrível notícia, Davi compôs uma de suas mais belas canções. Sim, sim: para quem não sabe, dentro do corpo de guerreiro sanguinário escondia-se uma alma sensível e dada à poesia. Como diz Chico Buarque em A Bela e a Fera, “Tórax de Superman e coração de poeta”. Boa parte dos Salmos foi composta por ele. Esta canção, no entanto, não é contada entre os Salmos, visto que, em vez de um hino de louvor, era uma canção de lamentação pela morte de Saul e Jônatas. O versículo 18 deste capítulo diz que a letra da canção está no Livro de Jasar (“O Justo”). Tal livro, embora citado aqui e também em Josué 10, foi excluído do cânon sagrado por cotradizer os outros livros da Bíblia em certas passagens, e noutras narrar histórias um tanto absurdas demais, mesmo para os padrões bíblicos.
Mas eu falava sobre o lamento de Davi pela morte de Saul e Jônatas: trata-se de um dos mais belos poemas da Bíblia, e eu recomendo enfaticamente a leitura. Tanto recomendo, na verdade, que pela primeira vez transcrevo literalmente um trecho da Bíblia:
Como caíram os valentes!
Não o noticieis em Gate, nem o publiqueis nas ruas de Ascalom,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus,
para que não saltem de contentamento as fihas dos incircuncisos.
Vós, montes de Gilboa,
nem orvalho, nem chuva caia sobre vós,
nem tenhais campos que produzam ofertas.
Pois aí foi profanado o escudo dos valentes,
o escudo de Saul, que jamais será ungido com óleo.
Do sangue dos feridos, da carne dos valentes,
nunca se retirou o arco de Jônatas,
nem voltou vazia a espada de Saul.
Saul e Jônatas, tão amados e queridos em vida,
também na sua morte não se separaram.
Eram mais ligeiros do que as águias,
mais fortes do que os leões.
Vós, filhas de Israel, chorai por Saul,
que vos vestia de escarlata e de delícias,
que adornava os vossos vestidos com ornamentos de ouro.
Como caíram os valentes no meio da peleja!
Jônatas foi morto nos teus montes.
Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas;
quão querido me eras!
Maravilhoso me era o teu amor,
mais maravilhoso do que o amor das mulheres.
Como caíram os valentes,
e pereceram as armas de guerra!
(II Samuel 1:17-27, Tradução João Ferreira de Almeida, Edição Contemporânea)
Belíssimo, não? Pois é, nem tudo na Bíblia é desgraça: aqui e ali encontramos poemas lindos, é só procurar.
Destaquei em itálico um trecho da canção. Esse trecho faz a alegria daqueles que gostam de dizer que Davi e Jônatas tinham um relacionamento homossexual. Oras, só mesmo um militante de grupo gay desses bem xiitas, ou um pobre homem que ainda não tenha percebido que seus amigos são muito mais preciosos que as mulheres, pode dizer uma asneira dessas.
Humpf.
A morte de Saul e de seus filhos
(I Samuel 31)
Davi estava muito ocupado matando amalequitas quando, longe dali, os filisteus atacaram Jezreel com força total e ordem de não fazer prisioneiros. Os israelitas não resistiram por muito tempo: saíram em debandada e acabaram cercados no monte Gilboa, onde foram massacrados. Tendo matado a maior parte dos soldados, os filisteus trataram logo de identificar a família real. Primeiro mataram os três príncipes: Abinadabe, Malquisua e Jônatas, o grande amigo do exilado Davi. Voltaram então a atenção para Saul, um pelotão de flecheiros saiu no encalço do rei. Sabendo que não tinha como escapar, Saul teve um inesperado surto de lucidez, falando para seu escudeiro:
— Rápido, rapaz! Tira sua espada e me atravessa com ela, para que eu não morra nas mãos desses filisteus de pinto pelancudo.
— Queisso, majestade? Erguer a mão contra o ungido de Deus?
— Vai logo, porra!
— Sei não, sei não…
— Puta que pariu! Tem coisas que a gente tem que fazer sozinho mesmo…
Dizendo isso, Saul desembainhou sua espada e lançou-se sobre ela, morendo antes de ser alcançado pelas flechas inimigas. Vendo que seu senhor jazia morto, o escudeiro resolveu acompanhá-lo e jogou-se contra sua própria espada, suicidando-se também.
Ao ver que o exército israelita fora dizimado, e que a família real não existia mais, o povo que morava além do vale de Jezreel e a leste do Jordão abandonou suas cidades, que foram imediatamente ocupadas pelos filisteus.
No dia seguinte, voltando ao monte Gilboa para despojar os mortos, os filisteus encontraram os cadáveres de Saul e seus filhos. Cortaram, então, a cabeça do rei e o despojaram de suas armas. Enviaram, em seguida, mesangeiros a toda a Filistia para espalharem a grande notícia. Depois levaram as armas do rei morto e a expuseram no templo de Astarote, e seu corpo decapitado foi pregado nos muros da cidade de Bete-Sã.
Ao saberem dessa humilhação final, os habitantes da cidade de Jabes, em Gileade, ficaram muito indignados. Todos se lembravam de quando Saul, então um rei ainda relutante, os ajudara contra os amonitas que invadiram sua cidade. Sentiam-se em dívida para com o rei morto, e resolveram resgatar seu corpo. Naquela mesma noite, alguns dos homens mais corajosos de Jabes-Gileade foram até Bete-Sã e tiraram de seus muros os corpos de Saul e seus filhos. Carregaram os cadáveres até Jabes, onde foram queimados e enterrados sob uma tamareira. Em sinal de luto pela morte da família real, jejuaram por sete dias.
A primeira experiência de Israel com a monarquia chegava ao fim da forma mais melancólica possível: com Saul e seus filhos mortos e tristemente enterrados, não havia sequer um herdeiro para o trono de uma nação dilapidada, sem exército nem moral. É de se imaginar que alguns israelitas pensavam na anexação à Filistia como solução natural. Os que mantiveram o orgulho, porém, acabaram provando ter razão: tempos de glória esperavam pelo povo de Javé.
Davi derrota os amalequitas
(I Samuel 30)
Com a decisão de Aquis de mandar Davi de volta a Ziclague, Saul e Davi se tornaram mais opostos do que nunca: um era um rei aflito, perturbado pelas tenebrosas premonições do finado Samuel, sem nada a fazer a não ser esperar a derrota de Israel e sua própria morte; o outro era um homem feliz, livre do peso de combater os seus, sem que para isso precisasse acovardar-se, liderando seus homens leais de volta à paz de sua cidade. Enquanto Saul esperava em Jezreel pelo inevitável desfecho da guerra e de sua vida, Davi chegava a Ziclague pensando apenas em descansar e ficar com suas esposas.
O descanso, porém, teria que esperar: Ziclague estava em chamas. Os amalequitas haviam invadido a cidade, incendiando-a e levando cativos todos os que nela estavam, inclusive Ainoã e Abigail, mulheres de Davi. O desespero de ignorar o que acontecera a suas famílias foi demais mesmo para homens como eles, guerreiros forjados no deserto e nas montanhas de Israel: de repente eram seiscentos marmanjos chorando entre os destroços da cidade. Alguns dos soldados começaram a falar em apedrejar Davi, tamanho era seu desespero. Naquela situação difícil, Davi precisava pensar rápido para salvar sua pele e, se possível, remediar a situação. Resolveu apelar para um poder superior:
— Abiatar! Ô, Abiatar! Cadê você, porra?
— Aqui, Davi.
— Traz lá aquele seu cachecol com o Umim e o Turim.
— Er… A estola sacerdotal, com o Urim e o Tumim?
— Tanto faz, cacete! O cachecol das pedrinhas, rápido.
— Humpf. Tá aqui.
— Muito bem. Pergunta aí pra Javé se eu devo perseguir os mequetrefes que aprontaram esse furdunço.
— Xeu ver… SIIIIIIIM!
— Hum. Mas será que a gente consegue alcançar os putos?
— SIIIIIIIM!
— ENTÃO BORA FODER COM A VIDA DELES, CAMBADA!
Animados com a chancela divina, os homens se levantaram e acompanharam Davi. Saíram em marcha acelerada no rastro do inimigo. Correram tanto que duzentos dos homens não agüentavam mais dar um passo quando chegaram ao ribeiro de Besor. Davi deixou-os por ali e seguiu em frente com os quatrocentos soldados restantes. Num campo mais adiante, os soldados encontraram um homem todo escangalhado. Pelo sotaque e pela pele tisnada, dava toda pinta de ser egípcio. Levaram-no até Davi e lhe deram pão, água, figos e passas. O homem logo recobrou ânimo, e contou que estava sem comer nem beber havia três dias. Perguntado sobre sua identidade, informou que era mesmo egípcio e escravo de um amalequita.
— O patrão me abandonou porque eu fiquei doente. Também não era pra menos, né? Eu já tenho saúde fraca, e eles ainda inventam de sair fazendo baderna por todo canto, sem descansar.
— Eles? — perguntou Davi — Quem são eles? Que baderna?
— Os amalequitas, chefe. Veja você, atacamos os queretitas, depois Judá, as terras de Calebe, botamos fogo em Ziclague…
— Ah, então foram vocês!
— Bom, modo de dizer, né? Eles, os amalequitas. Eu sou só um escravo.
— Hum. Será que você conseguiria nos guiar até onde está essa tropa?
— Até consigo. Mas só se o senhor jurar que não vai me matar nem me entregar para o patrão.
— Tudo bem, tudo bem. Não te mato, não te entrego. Agora me leve até onde eles estão.
O escravo egípcio, então, guiou Davi e seus homens até o lugar onde estavam os amalequitas. Eram muitos, seu acampamento era enorme, e eles comemoravam com muita comida, bebida e música a grande quantidade de despojos que haviam tomado das terras atacadas. Aproveitando o despreparo e embriaguez dos amalequitas, Davi desceu para atacá-los. A batalha começou ao pôr-do-sol e só foi terminar no começo da tarde do dia seguinte. Ao final, com exceção de quatrocentos rapazes que fugiram montados em camelos, todos os amalequitas estavam mortos. A vitória fora relativamente fácil: embora estivessem em muito maior número, os amalequitas eram apenas arruaceiros do deserto, que se divertiam saqueando cidades e povoados desguarnecidos. Não tinham qualquer preparo militar, e portanto não eram páreo para os bem treinados israelitas exilados na Filistia. Tudo o que haviam saqueado foi recuperado intacto, e todas as pessoas raptadas estavam a salvo. Davi pegou suas esposas e tomou o caminho de volta a Ziclague, com seus quatrocentos soldados felizes com suas famílias, e com todo o gado recuperado, além do despojo.
Quando chegaram ao ribeiro de Besor, os duzentos homens que ali haviam ficado aproximaram-se. Davi cumprimentou-os normalmente, mas alguns de seus soldados, pouco mais avarentos, começaram a confabular:
— Esses caras nem foram com a gente, não merecem o despojo da batalha.
— É verdade. Cada um que pegue sua mulher e seus filhos e vá embora.
— E lambendo os beiços!
— Isso aí!
Davi, porém, acabara de adquirir moral com a tropa, e não pretendia perdê-la tão facilmente:
— Calem a boca! Javé nos deu essa vitória. Não há como concordar com o que vocês estão dizendo. O despojo será dividido em partes iguais, e quem ficou para trás com a bagagem receberá o mesmo tanto que aqueles que foram à batalha.
Mesmo resmungando, os homens obedeceram a Davi. No futuro, o costume de dividir o despojo de guerra por igual viria a ser lei em Israel.
De volta a Ziclague, Davi teve a idéia de adquirir algum capital político com a batalha que vencera: pegou parte do despojo e enviou aos líderes das cidades de Judá que lhe eram simpáticos (de Betel, Ramá, Jatir, Aroer, Sifmote, Estemoa, Racal, Horma, Borasã, Atace, Hebrom), com uma mensagem:
Aqui vai um pequeno presente. É parte do despojo que tiramos dos inimigos de Javé, nosso Deus.
D.
Davi não era besta: sabia que sua estada na Filistia não era para sempre, e que precisaria de todo o apoio que conseguisse no dia em que tivesse que retornar a Israel. Não sabia, porém, que algo que acontecera enquanto ele derrotava os amalequitas faria com que seu retorno à terra natal se desse muito antes do que esperava.
Davi volta a Ziclague
(I Samuel 29)
Enquanto Saul enfrentava o caminho de volta ao monte Gilboa sob o peso dos agouros lançados pelo espírito de Samuel, os filisteus preparavam sua primeira movimentação estratégica, saindo de Suném e indo para Afeque, pouco mais ao sul. Quando o rei chegou, seus comandantes sugeriram que os batalhões israelitas marchassem para o vale de Jezreel, bloqueando assim o avanço inimigo. Apático, Saul apenas fez um aceno vago com a mão, aprovando o deslocamento, e foi para sua tenda. Sabia que nenhuma estratégia mirabolante seria suficiente para salvá-lo e a seus filhos.
Assim que souberam que os israelitas estavam acampados em Jezreel, os cinco governadores filisteus reuniram-se e decidiram que era o momento ideal para um ataque rápido e letal. Tomada a decisão, começaram logo a marchar. Na retaguarda, junto a Aquis, rei de Gate, iam Davi e seus soldados, dissidentes de Israel. Os outros reis filisteus não gostavam daquela situação, e foram falar com Aquis assim que fizeram a primeira parada:
— Que diabo esses hebreus estão fazendo aqui?
— Ei, já se esqueceram? Esse é Davi, homem da minha maior confiança. É israelita, sim, mas desde que se rebelou contra Saul eu nunca soube de nada que o desabonasse.
— Não interessa, Aquis! Manda esse Davi de volta lá pra Ziclague. O cara é hebreu, e está mal lá com o rei dele. Existe jeito melhor dele se reconciliar com Saul do que entregando a ele algumas cabeças de filisteus? Além do mais, não era sobre ele aquela musiquinha lá das hebréias, falando que Davi matou dez mil filisteus e não sei mais o quê?
— Puta merda, vocês não esquecem mesmo a tal musiquinha… Tá bom, eu falo com ele.
Aquis esperou que os quatro saíssem de sua tenda, então mandou chamar Davi.
— Davi, juro por Javé, o seu deus, que confio muito mais em você do que em qualquer outra pessoa.
— Sei disso, majestade, e agradeço.
— Pois é. Você é um homem correto, honesto, trabalhador, corajoso, essa coisa toda. Mas isso não basta aos outros reis, sabe?
— É? Por que não?
— Ficam desconfiados, por você ser israelita, entende?
— Entendo… Mas e então?
— Bom, Davi, eu vou ter que pedir a você que reúna seus homens e volte para Ziclague. Você não vai poder ir à batalha com a gente. Volte, e não faça nada que desagrade aos outros governadores filisteus.
Davi, que estava há semanas comendo mal e dormindo pior tentando imaginar como escaparia de lutar contra seus compatriotas, fez o possível para disfarçar o imenso alívio que lhe trazia a ordem de última hora de Aquis. Controlou-se como pôde, e fez seu teatrinho:
— Mas o que foi que eu fiz? Diga! O que eu fiz de errado desde que vim morar na Filistia, para que o senhor me recusasse a honra de lutar contra seus inimigos? POR JAVÉ, O QUE FOI QUE EU FIZ? NÃO É JUSTO! OH, MEU DEUS, NÃO É JUSTO!
— Nada, Davi, calma! Você é tão leal como um anjo, mas acontece que os outros não gostam de você. Esse negócio de política é o diabo, Davi! Às vezes a gente tem que ceder para não ser engolido. Tente entender, filho! Junte seus homens e volte para Ziclague amanhã mesmo.
— Bom, se não há outro jeito, obedeço.
— Sabia que você compreenderia, Davi.
Quase saltitando de alegria, Davi saiu da tenda de Aquis e foi dar a boa notícia a seus homens. Na madrugada seguinte eles partiram de volta para Ziclague, enquanto os filisteus subiam a Jezreel.
Saul consulta uma médium
(I Samuel 28:3-25)
Como vimos no último capítulo, o rei Aquis havia decidido invadir Israel. Não perdeu tempo: no dia seguinte o exército filisteu marchou e acampou na cidade de Suném. Sabendo disso, Saul reuniu seus homens no monte Gilboa, uns dezoito quilômetros a sudeste de onde se concentravam os filisteus. Assim que chegou, o rei subiu ao monte para ver o exército inimigo. Ficou apavorado: nunca antes os filisteus tinham vindo contra Israel em tão grande quantidade. Saul perguntou a Deus o que devia fazer, mas não obteve resposta por sonhos nem através de profetas. O Urim e o Tumim, a maneira mais fácil e direta de se conhecer a vontade divina, estavam em poder de Abiatar, último remanescente do clã dos sacerdotes, que bandeara-se para o lado de Davi depois do massacre dos seus. Desesperado com o silêncio de Javé, Saul chamou seus oficiais e ordenou:
— Busquem para mim uma necromante.
— Uma o quê, majestade?
— Uma necromante! Uma pitonisa!
— Ah, sim…
— Entenderam agora?
— Não…
— Ai, meu saco… Uma médium, uma mãe-de-santo, qualquer coisa!
— Ah! Mas, majestade, o senhor mesmo expulsou todos os médiuns e adivinhos de Israel.
— Puta merda! Onde é que eu estava com a cabeça? Não sobrou nem unzinho?
— Hum… Olha, tem uma mulher lá em En-Dor que dizem que é médium.
— Pois está muito bem. Tragam a bruxa aqui.
— Ih, acho que não vai dar. A mulher está entrevada, não sai de casa.
— Puta que pariu, que sorte eu tenho! Arrumem o endereço dela, eu vou até lá.
Assim determinado, Saul se disfarçou e saiu acompanhado de dois de seus oficiais. As precauções não eram exageradas: para chegar a En-Dor era necessário que o rei passasse perigosamente perto de Suném, onde estavam os filisteus. No entanto, o rei e seus seguranças chegaram à cidadezinha sem maiores problemas naquela mesma noite. Depois de andar um pouco e pedir informações a um peixeiro, pararam em frente a uma casa com uma tabuleta na porta:
MÃE PITONISA DE EN-DOR
Búzios, Tarô, Runas
Trago a pessoa amada em sete dias
“Deve ser aqui”, pensou Saul, brilhante como sempre. Chamou:
— Ó de casa!
— Pode entrar — respondeu lá uma voz muito fraca. O rei entrou e viu a velha feiticeira. Sentada numa poltrona velha em frente a uma urupema de búzios, fumava um charuto, usava lenço na cabeça e repousava o queixo ossudo nas mãos cruzadas sobre o cabo de um guarda-chuva velho e esgarçado. — Ô, mizifio. O fio tá cum pobrema, mãe pode vê. Pobrema dos grande, né coisa pôca não. Que que mãe pode fazê pra mode ajudá o fio, hum?
— Er… Então. Eu preciso que a senhora faça subir um espírito aí pra me responder umas coisas.
— Epa! Mas o fio num sabe que rei Saú proibiu sas coisa de apurrinhá os morto? Se rei fica sabeno dum negóço desse, mãe vai pro saco! O fio qué que mãe vai pro saco, é?
— De forma alguma, senhora, de forma alguma! Juro por Deus que nada de mal há de ocorrer à senhora.
— Hum. HUM! Tá bão, tá bão. Quem é o esprito que o fio qué que mãe faiz subi?
— Samuel.
— Pois tá muito bão. Evém o ôme! Ó, mo fio, do jeito que suncê tá, só o ôme que pode te ajudá.
— Que homem?
— Samué, fio! Cê num pediu Samué? Pois tá vindo aí e… EPA! Suncê tá enganano a véia!
— Eu?
— Suncê! Suncê é rei Saú, Samué tá me dizeno aqui. Veio pra me matá, foi?
— Longe de mim, minha senhora! Fique tranqüila, já disse. É Samuel mesmo que a senhora tá vendo?
— É um véio rabujento, resmunga que só o cão, e tá todo enrolado numa capa.
— É ele mesmo! — excitado com a possibilidade de poder consultar Samuel, Saul caiu de rosto no chão, em sinal de respeito. — O que é que ele diz?
— HUM!… Ele tá priguntano o que o fio qué com ele, por que foi que tirô ele do repouso lá embaixo.
— Ah! Sim, sim. Diga a ele que estou muito angustiado. Os filisteus invadiram Israel mais uma vez. Pedi orientação divina, mas Javé não me responde por sonhos nem pelos profetas. Fiquei desesperado, então me lembrei do tempo em que Samuel ainda vivia, como me orientava e aconselhava. Então resolvi vir aqui pra pedir conselho a ele.
— Já tô falano pra Samué, viu, fio? E ele já tá respondeno, óia! HUM!… Samué diz que rei Saú tinha nada que vim pertubá ele. Se nem Deus responde, ele que num vai si metê nisso.
— Ô, dona Pitonisa. Vê se consegue arrancar mais alguma coisa dele!
— HUM!… Ele tá dizeno que rei Saú foi desobediente. Que Deus mandô matá tudo os amalequita, mas rei Saú num bedeceu. Por isso que agora Deus vai entregá Israel nas mão dos filisteu, e amanhã rei Saú e seus fio vai tá tudo lá embaixo, junto com Samué. O minino Davi é que vai sê rei dispois disso. HUM!…
A mensagem tenebrosa de Samuel, diretamente do Mundo dos Mortos, era demais para Saul. Então por causa do velho episódio da guerra contra os Amalequitas, Javé o faria pagar junto com seus filhos, entregando o reino a Davi? Castigo demasiado só por ter poupado a vida do gado amalequita. Esmagado pelo peso de notícia tão ruim, e já enfraquecido por ter passado o dia sem comer nada, Saul caiu desmaiado. Voltou a si com a feiticeira batendo de leve em seu rosto.
— Epa! Achei que o fio num fosse vortá mais. Rei Saú tá muito fraco, precisa cumê.
— Não estou com fome.
— A véia confiô em suncê, agora é hora de suncê confiá na véia: mizifio precisa cumê.
Saul continuou dizendo que não queria comer. Mas a mulher e os oficiais que o acompanhavam insistiram, e o rei acabou cedendo. Feliz por ser útil, a pitonisa matou um bezerro e o assou, servindo-o a Saul com uns pães. Saul e seus oficiais comeram, pagaram à mulher o preço combinado mais o valor do bezerro, e pegaram a estrada de volta para o Monte Gibeá. O rei ia cabisbaixo e pensativo: aparentemente chegara a hora de ter o reino rasgado de suas mãos.
Davi entre os filisteus
(I Samuel 27, 28:1-2)
Depois de poupar a vida de Saul pela primeira vez, Davi até chegou a acreditar que eram verdadeiras as boas intenções do rei. Quando da segunda, porém, ele percebeu que Sua Majestade era mesmo um maluco, e que não desistiria de persegui-lo, e que sua morte era mera questão de tempo. Bom, a morte de todo mundo (inclusive a sua, leitor) é mera questão de tempo, mas estamos falando de poucos dias.
Pensando nisso, Davi concluiu que sua única alternativa seria sair de Israel. Não para qualquer lugar, porém: Saul não hesitaria em declarar guerra a algum dos vizinhos mais fracos, se isso pudesse ajudá-lo a botar as mãos no filho de Jessé. Restava, portanto, a Filistia. A experiência de Davi por lá não fora das mais animadoras. Porém, era sua única opção, e ele resolveu arriscar. Dessa vez não iria sozinho, mas acompanhado de seus seiscentos bandoleiros. Contava com sua fama de persona non grata em Israel para impressionar Aquis, rei de Gate.
Foi até Gate, portanto, e apresentou-se ao rei. Aquis ainda se lembrava de Davi na última ocasião, babando e riscando as portas, expulso da cidade pelos guardas, então ficou impressionado com a altivez do israelita em sua presença.
— Ei. Você não era doido?
— Eu percebi que o senhor desconfiava de mim, então me fiz de maluco para escapar.
— Muito inteligente, muito inteligente… Entenda minha posição, Davi. Eu não podia confiar num homem tão popular em Israel, o homem que havia matado Golias, nosso maior guerreiro.
— Eu entendo, majestade.
— Mas hoje eu sei da sua situação, de como Saul o persegue e de como você e seus homens se esgueiram por todo o território de Israel. Seja bem vindo, portanto.
— Obrigado. Muito obrigado.
A verdade é que Aquis sabia que Davi era grande conhecedor do território israelita, depois de tanto tempo vagando pela terra. Como não era benquisto em Israel, o rei de Gate contava com sua lealdade, o que seria importantíssimo em caso de guerra. Sendo assim, Davi, suas duas esposas e seus soldados foram muito bem recebidos e ficaram morando em Gate. Não se sentiam à vontade na cidade, porém, então Davi foi falar com Aquis:
— Majestade, se o senhor vai mesmo com a minha cara, queria lhe fazer um pedido.
— Pode dizer, Davi.
— Queria saber se o senhor poderia me dar uma cidade para morar. Não vejo necessidade em ficar morando aqui na capital com meus soldados, atrapalhando a vida das pessoas e coisa e tal.
— Ué, vocês não estão atrapalhando em nada. Mas se você faz mesmo questão, pode ir morar em Ziclague.
Davi e seu bando mudaram-se, pois, para a cidadezinha de Ziclague, que a partir de então passou a pertencer aos reis de Judá (esse negócio de “reis de Judá” eu vou explicar mais para a frente, depois do reinado de Salomão. Tenham calma).
Davi ficou um ano e quatro meses morando na Filistia. Durante todo esse tempo, dedicou-se a atacar os povos que viviam naquela região (gesuritas, girzitas e amalequitas). Ele e seus homens matavam todas as pessoas e roubavam o gado e as roupas. Depois de cada ataque, Davi voltava a Gate para levar parte do espólio a Aquis, e o rei perguntava quem ele tinha atacado. Ele mentia, dizendo que tinha saqueado o sul de Judá, ou Jerameel, ou a terra dos queneus. Por isso precisava matar todo mundo em todo lugar que atacasse: se alguém escapasse, poderia correr até Gate e contar ao rei o que de fato acontecera. Sem testemunhas de seus crimes, agradava a Aquis ao dizer que atacava Israel dia após dia, e enriquecia. Depois de tanto tempo vivendo como malfeitor, Davi finalmente tornara-se um verdadeiro bandido. Aquis, imaginando o quanto seu hóspede era odiado em todo o Israel (sem razão), pensava que ele lhe seria leal por toda a vida, fosse por gratidão ou por ser a única opção. Enquanto isso, Davi se aproximava cada vez mais dos líderes da tribo de Judá, preparando terreno para seu retorno à terra natal.
Tudo ia muito bem, até o dia em que Aquis, não conseguindo pensar em nada melhor para fazer, decidiu que já era hora de voltar a cutucar os israelitas. Falou com os outros quatro reis da Filistia, os cinco reuniram suas tropas, e Aquis convocou Davi.
— Seguinte, rapaz: fique sabendo que você e seus homens vão lutar ao meu lado.
Com essa Davi não contava. Cultivava as melhores relações em Gate, mas sua maior preocupação era ser querido em Israel, ou ao menos em Judá. Mas é claro que não podia dizer isso: Aquis acreditava que ele atacava sistematicamente o sul de Judá, e aquela era a pior ocasião possível para desmentir tudo. Então estufou o peito e disse:
— Pois o senhor vai ver do que sou capaz, majestade! Vou acabar com aquela cambada de israelitas. Ah, se vou! Odeio aqueles caras! Odeio! ODEIO!
— Tá, Tá. Calma, Davi. Gostei de ver sua determinação, viu? A partir de hoje você é meu guarda pessoal.
Davi agradeceu com falso entusiasmo. Enfiara-se naquela situação e agora não sabia como sair dela.
Davi poupa mais uma vez a vida de Saul
(I Samuel 26)
Ao final do primeiro encontro entre Davi e Saul depois de tantas perseguições, o rei despediu-se do filho de Jessé com lágrimas nos olhos e protestos de grande arrependimento. Davi não acreditou muito, como vimos, mas mesmo assim relaxou um pouco. Primeiro arrumou tempo para se casar com duas mulheres. Depois, cansado de tanto zanzar por todo canto, resolveu voltar a Zife, o lugar do encontro fatídico. Reinstalou-se, portanto, no monte Haquila com seus rebeldes.
Os homens de Zife, porém, sedentos de recompensa, foram até Gibeá para contar a Saul que Davi voltara. O rei, maluco que era, já se esquecera das lágrimas e das promessas de reconciliação: arregimentou novamente os três mil soldados e partiu para Zife. Quando chegaram ao monte Haquila já era noite, e Abner achou melhor acampar no sopé do monte e subir assim que o dia amanhecesse para atacar os cangaceiros de Davi. Ajeitaram-se, pois, com Saul e Abner no meio do acampamento e os três mil soldados em volta, de forma que o rei e seu general ficassem protegidos e pudessem dormir o sono dos justos, mesmo que não o fossem.
Davi, que estava no deserto, ouvira dizer que Saul viera atacá-lo. Não acreditou no boato e enviou espias ao sopé do monte, os quais confirmaram a notícia. “Merda”, ele pensou, e resolveu ir ele mesmo até lá para ver com que força Saul pretendia atacar dessa vez. Chegou ao acampamento, viu os três mil homens dormindo, e voltou para sua fortaleza natural no alto do monte. Acima das cavernas onde seus homens dormiam estavam as duas sentinelas do turno, Aimeleque, o heteu, e Abisai, irmão de Joabe (um sujeito que ainda será importante). Chamou-os:
— Ei! Saul está acampado lá embaixo!
— Eita! Veio pescar?
— No meio do deserto, pedaço de asno?
— Ah, é. Mas veio fazer o quê, então?
— Veio foder com a minha vida.
— Aí sim. Isso é mais a cara dele.
— Vou descer até lá para ver a situação mais de perto. Qual de vocês vai comigo?
— Eu vou.
— Muito bem, Abisai. Aimeleque, você dá conta do serviço sozinho?
— Mas é claro, majestade.
— JÁ FALEI PRA NÃO ME CHAMAR ASSIM!
— Epa, foi mal.
— Humpf. Vamos, Abisai.
Os dois desceram até onde o inimigo estava. Os soldados do rei dormiam um sono pesado, e os dois conseguiram chegar até o centro do acampamento, onde dormiam Saul e Abner. Saul dormia com sua lança cravada ao lado da cabeça. Ao ver situação tão propícia, Abisai cochicou no ouvido de Davi:
— Deixa comigo, Davi.
— O quê?
— Javé colocou seu inimigo nas suas mãos. Com um golpe só eu atravesso o feladaputa e espeto ele na terra!
— Mais respeito, moleque! Esse homem é maluco, é mau-caráter, é filho-da-puta.
— Er… Só não entendi a parte do respeito, Davi.
— É que apesar de tudo isso ele foi escolhido por Deus para ser rei de Israel. Que Deus o mate quando bem entender, mas nós não faremos nada.
— Nada? Nada, nada?
— Bom, quase nada. Pega aí o jarro de água do rei, eu fico com a lança.
Os dois assim fizeram, e foram saindo do acampamento tão silenciosamente quanto entraram. Quando já estavam a uma distância segura, Davi voltou-se para o acampamento e gritou:
— ABNER! TÁ ME OUVINDO, CABRA SAFADO?
Abner acordou assustado, mas logo se recompôs e berrou de volta:
— QUEM É O DESGRAÇADO QUE VEM GRITAR AQUI, NO ACAMPAMENTO DO REI?
— Abner! — o negócio continuava na base da gritaria, mas eu é que não vou ficar escrevendo em caixa alta aqui — Você é homem ou não é? Acho que não, sua biba! Não dizem que você é o melhor soldado de Israel? Pois eu imagino como deve ser o pior! Seu único dever é proteger o rei, e você não dá conta nem disso! Você é um bosta, Abner! Você e todos esses soldadinhos de merda aí! Vão morrer todos por não protegerem direito o rei ungido por Javé!
— Ué, proteger do quê? De algum maluco berrador? Vai pra casa curar essa bebedeira, e deixa a gente dormir!
— Cala a boca e me escuta! Onde está a lança do rei, hein? E o jarro de água, cadê?
— Estão aqui, oras! Não estão, majestade?
— Claro que… Epa. Não estão não. Que negócio é esse? Ei, eu conheço essa voz. DAVI? É VOCÊ, MEU FILHO?
— Sim, senhor, sou eu! Por que é que o senhor continua a me perseguir? Isso já tá chato, majestade! Se foi Javé quem fez o senhor se voltar contra mim, ofereça um sacrifício a ele e está tudo certo. Nossa sorte é que temos um deus subornável. Agora, se outras pessoas fizeram isso, que a maldição de Deus caia sobre elas, que elas se fodam e que o meu pau cresça!
— Precisa mesmo, Davi! Depois daquilo que o Michelangelo fez…
— EU AINDA NÃO TERMINEI! O negócio é que, se o senhor continuar a me perseguir, serei forçado a fugir para outro país e adorar outros deuses. Por favor, senhor, não me deixe morrer longe da terra de Israel, que eu tanto amo! Por que o senhor continua perseguindo esta mísera pulga? Por que me caça como se eu fosse um pássaro selvagem? Ou um jumento bravo? Ou… Ou um… Ou um, sei lá, um camaleão pardo de patas amarelas? Ou mesmo um… Um…
— Ok, Davi, já entendi. Eu sei que errei. Volte, meu filho! Prometo que nunca mais lhe farei nenhum mal, porque esta noite você poupou minha vida mais uma vez. Eu tenho agido como um maluco!
— Grande novidade…
— O que disse, meu filho?
— Nada, nada. Só pensando alto. Continue, majestade.
— É isso. Eu cometi um grande erro. Perdoe-me, filho!
— Olha, senhor, aqui está sua lança. Mande algum de seus homens vir buscá-la. Eu vou voltar para o meu buraco. Mas lembre-se sempre de que hoje eu poupei sua vida. Que Javé poupe a minha também, continuando a me proteger como tem feito.
— Ah, meu filho, que Deus o abençoe! Você é um bom rapaz, e tudo o que fizer dará certo. Está ouvindo, Davi? Davi? DAVI! Caceta, foi embora…
