(I Samuel 25:1)
Vocês se lembram do Samuel? Sim, ele mesmo: o juiz e profeta que ungiu tanto Saul quanto Davi, e que dá seu nome a este e ao próximo livro da Bíblia. Lembram, né? Pois esqueçam: o pobre coitado morreu, luto nacional foi declarado, ele foi sepultado em sua casa, em Ramá, e era uma vez Samuel. Triste vida a dele: teve um começo promissor, ungiu dois reis, foi influente no início do reino de um deles. Quando estava no auge, Deus lhe disse que rejeitava Saul como rei. Ele apenas passou o recado adiante, mas mesmo assim caiu em desgraça. Quando morreu, boa parte do povo já nem se lembrava dele, o último juiz a governar Israel e grande articulador da transição para a monarquia. Triste, triste…
Ainda bem que eu não ia mesmo com a cara dele. Vamos em frente, portanto. Acompanhando Davi que, depois de dar um jeito de comparecer ao funeral de Samuel, desceu ao deserto de Parã. Ali perto ficava o monte Carmelo, e lá ficavam as propriedades de um homem muito rico, morador da cidade de Maom. Seu nome era Nabal, e ele era descendente de Calebe. Sua esposa, Abigail, era bonita e inteligente, mas ele mesmo não passava de um homem grosseiro e mau.
Como Davi estava ali por perto, e sabia quem era Nabal. Ouviu dizer que ele estava no Carmelo supervisionando a tosquia de suas ovelhas, e mandou a ele dez de seus homens com a seguinte mensagem para o rico proprietário:

Caro Nabal,
Saudações a você, tudo de bom para a família e suas posses.
Envio esta mensagem porque soube que você estaria no monte Carmelo tosquiando suas ovelhas. Veja só, em todo esse tempo que eu e meus homens estamos na região convivemos dia e noite com seus empregados. Tornamo-nos amigos, e nós nunca lhes fizemos mal, nem lhes roubamos nada, muito pelo contrário: chegamos mesmo a protegê-los em algumas ocasiões. Pode perguntar a eles.
Bom, o negócio é que minha situação aqui é um tanto difícil, como você deve imaginar. Então eu queria lhe pedir que me recebesse, junto com meus soldados. Viemos em dia de festa, e gostaríamos de ser recebidos em paz por você. Além disso, se você puder nos dar algum mantimento, roupas, essas coisas, ficaremos muito agradecidos.
Abraço dos seus criados e de seu querido amigo
Davi, filho de Jessé.

Davi mandou a mensagem já esperando a resposta positiva. Sua fama crescia a cada dia em todo o Israel, e não havia quem não o temesse e admirasse. Ficou muito surpreso, portanto, ao receber a resposta de Nabal:

davi filho de jesse?? eu naum conhesso nenhum davi como eh que eu vou saber quem eh vc?? huAHuehUehUaHuA. e se vc for um escravo que fugiu isso acontece muito hoje em dia tenho que ficar esperto. o meu pão a minha agua e os bichus que eu matei p/ dar pros meus empregado eu naum vou dar a um bando de cangaceiro que eu naum conhesso ora essa. se liga mew!

Davi passou rapidamente da surpresa a raiva. Então a fama de grosseiro e mau de Nabal era justificada. Além do mais, nabal quer dizer tolo, em hebraico. O que esperar de um cara assim? Fosse como fosse, Davi não ia deixar quieto:
— Cangaceiros, é? Ele vai ver só. Homens! Cinjam suas espadas. Nós vamos mostrar a esse desgraçado quem é cangaceiro.
Davi partiu para o monte Carmelo à frente de quatrocentos de seus homens, enquanto os outros duzentos ficavam atrás com a bagagem. O futuro rei de Israel estava emputecido, e determinado a acabar com a raça de Nabal e de quem mais encontrasse pela frente. Porém, um dos empregados de Nabal, já prevendo as conseqüências da petulância do patrão, resolvera falar com Abigail:
— Dona Abigail, a senhora ficou sabendo?
— Sabendo de quê?
— Vixe, uma confusão danada! Sabe o Davi?
— Ai ai… Aham. Claro.
— Então. Ele anda aí pelas redondezas.
— O DAVI? AQUI PERTO???
— É, ué.
— E NINGUÉM ME AVISA? Deixa eu me arrumar, criatura!
— Calma, dona Abigail. O negócio é que o Davi enviou uma mensagem ao patrão, pedindo mantimentos, essas coisas. Uma mensagem muito educada, cheia de saudações e coisa e tal. Eu achei bom, porque quando a gente estava no campo, durante todo o tempo ele tratou a gente muito bem.
— É, ouvi falar que esse Davi é um legítimo cavalheiro. Ai ai…
— Pois então. Mas acontece que o patrão mandou uma mensagem muito da mal educada em resposta, dizendo que não vai ajudar é ninguém, e chamando Davi e os homens dele de cangaceiros.
— NABAL NÃO FEZ ISSO!
— Pois fez!
— Ah, eu mereço ter me casado com essa anta…
— Eu achei bom contar pra senhora, porque falar com o patrão não adianta nada mesmo.
— E fez bem, muito bem. Obrigada. Pode deixar, vou dar um jeito.
Abigail saiu dali e, ajudada por seus empregados, pegou duzentos pães, dois odres cheios de vinho, cinco ovelhas assadas, dezessete quilos de trigo torrado, cem cachos de passas e mais um monte de pasta de figo. Botou tudo em jumentos e ordenou aos empregados que fossem na frente com aquele presente para o aventureiro filho de Jessé. Os empregados saíram, e ela saiu logo depois, montada em seu jumento.
Na direção contrária vinha Davi, resmungando para si mesmo:
— A gente ajuda os outros e ganha o quê? Nada! Só se fode, só se fode! De que me adiantou proteger aqueles filhos de uma quenga? Ah, mas isso não fica assim! Que Deus me castigue se eu deixar nem que seja um homem vivo naquela terra. Ah, eles vão ver o que é bom!
Seu resmungo foi interrompido, porém, pela chegada daqueles jumentos carregados de comida e bebida. Antes que pudesse perguntar aos homens que traziam os jumentos de quem fora tamanha bondade, viu a mulher linda que chegava. A pergunta ficou entalada na garganta enquanto ele contemplava tamanha beleza. Ao vê-lo, a mulher desmontou do jumento rapidamente, e se ajoelhou, encostando o rosto no chão.
— Senhor, escute-me! Por favor, não dê atenção a Nabal. Ele é um bobão, como bem diz seu nome. Eu não vi quando os homens foram levar sua mensagem a ele, por isso não tive como evitar essa presepada. Mas ignore, senhor, e aceite esse presente que eu lhe trago. Por favor, desista de seus planos de vingança. Eu sei que meu marido foi estúpido e o ofendeu, mas pense bem: um dia o senhor vai ser rei, e é melhor que não tenha motivos para se arrepender ou sentir remorso por ter cometido um crime assim. Deixe a vingança nas mãos de Deus, já que ele sempre o protegeu.
— Louvado seja Javé, que mandou você até aqui. Só a sua beleza já me faria desistir da vingança, mas seus argumentos inteligentes acabaram de me fazer desistir dos meus planos. Porque, veja, se não fosse por você, amanhã mesmo todos os homens de Nabal estariam mortos, até os meninos. Como você se chama, minha querida?
— Abigail.
— Ah, que nome lindo? Pois então, Abigail: volte para casa e não se preocupe. Não vou fazer mal a ninguém.
— Obrigado, senhor.
— Eu agradeço. E pode me chamar de Davi.
Abigail saiu dali feliz por dois motivos: tinha livrado as propriedades de um grande massacre, e se encontrado com Davi, o Brad Pitt de Israel naquele tempo. Chegou em casa querendo dizer a Nabal o que acontecera, mas o marido estava comendo como um rei e bebendo como um gambá, então preferiu deixar para depois. No dia seguinte, vendo o marido já sóbrio, contou a ele o ocorrido. Ele, em vez de ficar alegre por ter escapado de morte certa, sentiu tanta raiva que teve um ataque e ficou paralisado. Dez dias depois, morreu.
Quando Davi recebeu a notícia da morte de Nabal, apressou-se em mandar uma mensagem à viúva:

Querida Abigail,
Está ocupada? Se não, será que gostaria de se casar comigo?
D.

Abigail leu a mensagem e corou. Não havia nada que ela quisesse mais. Porém, conhecendo muito bem as regras sociais da época e do lugar, apenas se ajoelhou na frente dos mensageiros, humildemente:
— Eu sou escrava de Davi. Posso lavar os pés de seus empregados.
Tendo dito isso, acompanhou os homens até seu acampamento, indo morar com Davi. O filho de Jessé já havia se casado com uma certa Ainoã, da cidade de Jezreel, e tinha agora duas esposas. Teria três, na verdade, mas Saul já entregara sua filha, Mical, a um tal Palti. Era a segunda vez que Saul tirava de Davi uma filha sua. Como se Davi já não tivesse motivos suficientes para odiar o rei.

(I Samuel 24)
Conduzindo um cerco tão pertinaz, era inevitável que Saul encontrasse Davi. Tal encontro, porém, não se deu como seria de se esperar. Já veremos por quê.
Depois de ter sido salvo pela invasão dos filisteus, Davi fugiu com seus homens para outra fortaleza natural, essa na região da fonte de Gedi. Quanto a Saul, escorraçou rapidamente os filisteus e tornou a se dedicar a seu passatempo predileto: brincar de gato e rato com Davi. Logo recebeu a notícia da localização de seu inimigo, e para lá partiu acompanhado de um exército de três mil homens, escolhidos dentre os melhores soldados de Israel. Quando estava perto de um lugar chamado Rocha das Cabras Selvagens, sentiu uma movimentação estranha no ventre. Chamou o general do exército:
— Abner, tudo em ordem?
— Sim, majestade!
— Bom, bom, muito bom. Olha, cuida de tudo aí enquanto eu vou ali naquela caverna do lado do curral de ovelhas para cobrir os pés(1).
— Está com frio nos pés, majestade?
— Não, Abner… Vou me aliviar, entende?
— Claro, claro, claro. Hum… Não, na verdade não.
— VOU CAGAR, QUE EU JÁ TÔ COM O CHARUTO NO BEIÇO!
— Ah. Sim. Claro. Boa… Aham… Cobertura de pés, majestade.
— Obrigado.
Saul se afastou, entrou na caverna, abaixou os calções, levantou a túnica e fez lá seu serviço. Limpou-se como pôde, recompôs-se, saiu da caverna e ia voltando para junto dos soldados quando ouviu uma voz às suas costas:
— MAJESTADE!
Voltou-se sobressaltado e viu um homem ruivo na entrada da caverna, ajoelhado em sinal de respeito. Seria ele? Estava com a pele escura, tinha crescido e era um homem forte. Mas a cabeleira ruiva e uma certa petulância na voz não deixavam muita margem a dúvidas. Ia perguntar, mas o homem continuou:
— Rei Saul, por que é que o senhor dá ouvidos às pessoas que dizem que eu quero prejudicá-lo? Veja que Deus o entregou a mim ali dentro da caverna. Alguns de meus homens queriam que eu o matasse, mas quem sou eu para levantar a mão contra aquele que foi ungido por Javé? Não acredita? Pois olhe para sua capa e verá que falta um pedaço. Aqui está! Eu cortei um pedaço da sua capa. Poderia tê-lo matado, mas não o fiz. Quer prova maior de que eu não pretendo fazer-lhe mal? Eu sei muito bem que o senhor quer me matar, e mesmo assim resisti quando tive a oportunidade de resolver tudo. Que Deus julgue quem de nós está errado, e me vingue por tudo o que o senhor me fez e faz, mas eu não levantarei um dedo contra o senhor. Ah, rei Saul! Quem sou eu para o senhor me perseguir dessa maneira? Não passo de um cachorro morto, uma pulga! Ah, faça-me o favor, assim não dá! Que Deus me livre do senhor!
Quanto mais Davi falava, mais boquiaberto Saul ficava. Quando terminou seu discurso, o queixo do rei quase batia no chão e a baba se acumulava nos cantos de seus lábios. Quando conseguiu falar, foi gaguejando:
— D-Davi? É você m-mesmo, meu filho? — e começou a chorar, o doido — Ah, Davi! Você está certo, claro, e eu estou errado! Você pagou com o bem todo o mal que eu tenho lhe feito. Quem é que, tendo a oportunidade de pegar seu inimigo, o deixa ir embora são e salvo? Só você mesmo, meu filho, só você mesmo! Que Javé o abençoe pelo que fez hoje. Agora eu sei que você será rei de Israel, e que terá um reinado próspero e justo. Mas, por favor, jure em nome de Deus que não acabará com meus descendentes, e assim o meu nome não será esquecido.
— Juro, majestade, claro que juro — é claro que Davi jurava, o filho do rei era seu melhor amigo.
— Ah, meu filho, muito obrigado! Você volta comigo?
— Não agora, majestade. Não leve a mal.
— Compreendo. Até logo, Davi.
— Até logo, majestade.
— Oras, me chame de Saul!
— Ainda não.
Os dois se despediram cordialmente, Saul voltou para Gibeá, e Davi para sua fortaleza. Tudo parecia estar bem. Mas só parecia: Saul era maluco, e é bom que não nos esqueçamos disso.

(1) As versões mais antigas da Tradução João Ferreira de Almeida traziam exatamente essa expressão: “… e entrou nela Saul, a cobrir seus pés”. Nas versões mais recentes, é dito que o rei foi à caverna para “aliviar o ventre”, enquanto a Tradução na Linguagem de Hoje, da SBB, diz que Saul foi mesmo “satisfazer suas necessidades”. Ou seja, foi cagar. Mas sempre gostei muito da expressão mais antiga, “a cobrir os pés”. Se imaginarmos (ARGH!) que, no ato, o rei deveria abaixar as ceroulas, que então ficariam enrodilhadas sobre os pés, o significado do eufemismo fica bem claro.

(I Samuel 23)
Davi ainda estava escondido nos bosques de Judá quando um de seus homens veio trazer a novidade:
— Davi, os filisteus estão atacando Queila, e saqueando o trigo recém-colhido.
— E eu com isso? Nem conheço essa tal Queila…
— Não, Davi. A cidade de Queila.
— Ah, essa Queila… Hum. Isso muda tudo.
Intervir poderia ser vantajoso. Além dos agora seiscentos párias que o acompanhavam, era possível que Davi contasse com o apoio de toda uma cidade. Além do mais, Queila era cercada por muralhas, e daria um excelente quartel-general. A tentação de largar a vida de fugitivo para se estabelecer de vez como guerrilheiro revolucionário era muito forte. Havia um obstáculo, no entanto: Davi contava apenas com seus seiscentos companheiros, e atacar os filisteus era sempre um perigo. Os seguidores de Davi eram meros aventureiros; os inimigos eram soldados treinados para o combate desde a adolescência. Por outro lado, esse sempre fora o problema de Israel nos embates com a Filistia, e nunca impedira vitórias espetaculares.
Davi tinha uma decisão difícil a tomar. Para sua sorte, porém, contava com um trunfo: Abiatar, o único sobrevivente do clã sacerdotal. Ele viera munido da estola sacerdotal (ou éfode) com seu respectivo peitoral. E no peitoral, se vocês não se lembram, estavam incrustados o Urim e o Tumim, as duas pedrinhas usadas para consultar a vontade de Javé.
— Abiatar!
— Sim, Davi.
— Preciso da sua ajuda, rapaz.
— Opa. Pode falar.
— Preciso consultar a vontade de Deus para um negócio aí.
— Ih, acho que não vai dar…
— Como não???
— Consultar a vontade de Javé assim, fora do Tabernáculo? Sei não, sei não…
— Pô, Abiatar, não fode.
— É sério. Não sei se vai funcionar. Além do mais, fora da Tenda Sagrada é possível que eu responda querendo te agradar, e não segundo o Urim e o Tumim. É complicado.
— Hum. Ah, podemos evitar isso.
— Como?
— Você tapa os ouvidos e vira de costas quando eu fizer a pergunta. Quando eu te cutucar, você joga as pedrinhas e só me responde “SIM!” ou “NÃO!”.
— Tá parecendo aquele quadro do Domingo no Parque
— Eu precisava me inspirar em alguma coisa. E aí, o que você acha?
— Podemos tentar.
— Legal. Então vai lá pegar a estola, eu espero aqui.
— Tá bom.
Abiatar foi até sua tenda e voltou cingido com a estola.
— Preparado?
— Sim.
— Então vira de costas aí e tapa os ouvidos.
— Tá.
— Pronto?
— …
— Beleza, não tá me ouvindo. Arram… SENHOR! DEVO IR ATÉ QUEILA COMBATER OS FILISTEUS? — perguntou Davi, cutucando Abiatar em seguida.
— SIIIIIIIM!
— Beleza!
— Er… Davi?
— Sim, Abiatar?
— Eu sei que você ainda vai ser rei e tal, mas não abuse.
— Hã?
— CUTUCA MAIS PRA CIMA, PORRA!
— Ah, sim. Foi mal. Peraí, vou anunciar a novidade aos homens. EI! PESSOAL! TODO MUNDO SE PREPARANDO AÍ! VAMOS ATÉ QUEILA CHUTAR UNS RABOS FILISTEUS!
Em vez dos brados de alegria que esperava, Davi só ouviu murmúrios de parte de seus guerrilheiros.
— Pô, que há com vocês? Não querem sair um pouco desse marasmo?
— Claro, seu Davi, Claro. Mas, pensa: se escondidos aqui a gente já se caga de medo, imagine indo combater os filisteus!
— Hum. Bando de bunda-mole. Mas Javé disse que podemos ir!
— Fora do Tabernáculo? Bah.
— Ai meu saco… Peraí, vou confirmar. Abiatar, de costas, mãos nos ouvidos.
— Vê lá, hein?
— Pode deixar. Aham… SENHOR! TEM CERTEZA? — e deu um piparote na orelha de Abiatar.
— PORRA, DAVI!
— Desculpa, não resisti. Fala aí, sim ou não?
— SIIIIM!
— Tão vendo, seus mequetrefes? Bora lá, Javé entregou aqueles filisteus de merda nas nossas mãos.
Ainda céticos, porém sabendo que qualquer coisa era melhor do que discutir com Javé, os homens se prepararam e já no dia seguinte partiram para Queila. Lá combateram contra os filisteus, matando muitos deles e tomando seu gado. A paz voltou à cidade, e seus moradores ficaram muito gratos a Davi, como era natural.
Aparentemente o plano de Davi funcionara às mil maravilhas. No entanto, o serviço de espionagem de Saul continuava eficiente como sempre, e o rei logo soube o que seu grande inimigo andava aprontando.
— Arrá! Agora aquele filho-da-puta está na minha mão. Que burro, foi se enfiar logo numa cidade murada! Caiu sozinho numa armadilha, o mané. De hoje ele não passa.
Davi, porém, também tinha seus espiões, e ficou sabendo logo que Saul marchava contra Queila.
— Puta que pariu, esse desgraçado não dá um tempo! ABIATAR!
— Sim, Davi.
— Preciso fazer mais uma consulta.
— Sei não, sei não…
— Ai ai ai… Que foi agora?
— Sem piparote?
— Sem piparote.
— Sem dedada?
— Sem dedada.
— …
— JURO!
— Tá bom, vai. Manda.
— Tapou bem os ouvidos? Beleza. SENHOR! SAUL VAI VIR MESMO PRA CÁ? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— E os homens de Queila vão me entregar nas mãos dele? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— Peraí, Senhor, pega leve. Está dizendo que os homens desta cidade que eu acabei de livrar dos filisteus, devolvendo a eles toda a colheita de trigo, vão me trair e me entregar a Saul? — cutucão.
— SIIIIIIIIIM!
— MAS SÃO UNS FILHOS DA PUTA! — e deu um tapa na nuca de Abiatar.
— SIIIIIIIIIM! E, porra, cê tava indo bem…
— Desculpa, Abiatar. Fiquei nervoso.
— Que houve?
— Eu perguntei se Saul vai mesmo vir pra cá, e se os homens de Queila vão me entregar a ele.
— Putz, e Javé respondeu sim nas duas vezes. MAS QUE CAMBADA DE FILHOS DA PUTA!
— SIIIIIIIIIM!
— Grunf. E aí?
— E aí que o melhor que temos a fazer é picar a mula.
— Concordo.
— Me ajuda a reunir os homens.
Davi, seu sacerdote particular e seu exército de párias fugiram de Queila sem rumo certo. Quando Saul soube disso, abortou seu plano e voltou para o palácio com seus homens.
Depois de muito vagarem, os guerrilheiros se estabeleceram na região de Zife, um lugar desértico e montanhoso, cheio de fortalezas naturais. Saul continuou com a perseguição, mas nunca conseguiu seu intento, o que o deixava mais e mais frustrado. Mesmo assim, o cerco se fechava e Davi se enfurnava cada vez mais no deserto, acabando por se estabelecer em Horesa, na parte de acesso mais difícil. Passava os dias ali com pouca água e comida, na companhia apenas de homens, com saudades de Mical, sua esposa, e dos amigos. E foi num dia particularmente triste que ele teve a surpresa de receber uma visita.
— Jônatas!
— Ei, Davi. Dessa vez você se enfiou num buraco mesmo, hein?
— Pois é, rapaz. Seu pai não me dá descanso. Mas, puxa, estou muito feliz em te ver! Pensei que nunca mais nos encontraríamos.
— Pois pensou errado. Estou aqui, não estou? Quanto ao meu pai, não se preocupe. Ele tem lá seu serviço de inteligência, mas eu sempre dou um jeito de contaminar as informações que ele recebe.
— Ah! Bem que eu estava estranhando ele ainda não ter botado as mãos em mim. Obrigado, meu irmão.
— Agradeça a Deus, Davi. Ele te protege, e vai te fazer rei de Israel.
— Que é isso…
— Bah, você sabe muito bem que está destinado a ser rei.
— Mas se o herdeiro do trono é você!
— Eu me contento com um ministério, um cargo de confiança qualquer…
— Tá pensando o quê, pilantra? Que meu governo será um trem da alegria?
— Mas é claro!
— Hehehe.
Os dois passaram o dia conversando. Quando anoitecia, despediram-se renovando suas promessas de lealdade eterna.
Com a visita do amigo, Davi recobrou ânimo. Mas o sossego não duraria muito, porque alguns dedos-duros de Zife foram até Gibeá falar com Saul:
— Majestade! Ficamos sabendo que o senhor quer muito pegar o Davi.
— Oras, quem é que não sabe?
— Pois então… Acontece que ele está em Horesa, no alto do monte Haquila, ao sul de Jesimon, logo depois daquela hospedaria amarela que pertence ao Zimoneu, filho de Zimon, aquele que tinha um cavalo baio que certa vez pulou a cerca e…
— PÁRA!
— Opa. Desculpe, majestade.
— Quanto vocês querem como recompensa?
— Nada.
— Nada?
— Nada. Sabemos o quanto o senhor quer pegá-lo, então o levaremos até ele.
— Ah, que beleza! Que Javé os abençoe por serem tão bondosos comigo.
— Amém.
— Mas então… Eu já vasculhei Israel de Dã até Berseba atrás de Davi, sem sucesso. O danado é esperto como o capeta. Então peço a vocês o seguinte: voltem a Zife e se assegurem de onde ele está. Descubram onde ele se esconde, onde compra mantimentos, essas coisas, e me informem. Dessa vez vai dar certo, nem que eu tenha que palmilhar toda a tribo de Judá atrás daquele sacripanta.
Então os alcagüetes voltaram a Zife e descobriram que Davi saíra de Horesa e agora estava com seus homens em Maom, num vale seco ao sul de Jesimon, perto daquele carvalho que foi plantando por Minâncora, a filha de Maizena, aquela que tinha umas… Enfim, Davi estava em Maom. Sabedor disso, Saul se apressou naquela direção com seus soldados. Davi ficou sabendo, e fugiu para o alto de uma montanha rochosa em Maom. Saul foi informado e logo subiu ao monte. Acontece que as informações eram desencontradas — obra de Jônatas, provavelmente —, de modo que Davi ficou de um lado do monte e Saul do outro, com um precipício entre eles. Os guerrilheiros eram em menor número, e fugiram do exército oficial, que já havia descido e subido novamente, agora do lado certo. Saul cercava Davi, e dessa vez a captura seria inevitável.
Seria, eu disse. Porque justo quando o rei já cantava vitória, recebeu a mensagem preocupante:

VOLTE IMEDIATAMENTE PT
FILISTEUS ATACANDO SUL DO PAIS PT

Saul podia ser maluco, e estar sedento do sangue de Davi, mas ainda tinha consciência de seus deveres de rei. Então reuniu seus homens e voltou a Gibeá, para de lá coordenar a resistência a mais essa invasão.
O montanha em que os dois exércitos se separaram passou a ser chamada de Selá-Hamalecote, que em hebraico é Rocha da Separação. Davi fora mais uma vez salvo pela sorte. Começava a preocupar-se: é notório que a sorte não acompanha ninguém por muito tempo.

(I Samuel 22)
Davi estava numa situação daquelas: em Israel não podia ficar, com o rei em seus calcanhares; a Filistia estava descartada depois do episódio no palácio de Áquis, rei de Gate. Israel vivia em paz com Moabe, o que era uma alternativa mais atraente, ainda mais porque Davi era bisneto da moabita Rute. Ele considerou essa hipótese muito seriamente, mas teve que descartá-la logo. Isso porque no meio do caminho entre a Filistia e Moabe, quando pernoitava na caverna de Adulão, nas montanhas de Judá, foi surpreendido pela chegada de seus pais e seus irmãos.
— Como vocês me acharam aqui?
— Ah, Davi. As pessoas falam aqui e ali, há boatos por todo lado, acabamos te encontrando.
— Mas… MAS QUE MERDA! AGORA SAUL VAI ME ACHAR TAMBÉM!
— Vai nada, sossega.
— Como não???
— As pessoas que sabem do seu paradeiro são leais a você.
— “As pessoas”? Espero que sejam só vocês.
— Hum… Não. Tem também o pessoal lá fora.
— PESSOAL? QUE PESSOAL?
— Vai lá ver.
Davi botou a cabeça pra fora da caverna e levou um susto: quatrocentos homens estavam reunidos ali. Eram homens endividados, perseguidos, em dificuldades, procurados pela justiça. Vinham todos até ali para se apresentar a Davi.
— Hum. Então vocês estão comigo para o que der e vier?
— SIM, SENHOR DAVI! — responderam em uníssono.
— Então se ajeitem por aí, há cavernas para todo mundo.
— OBRIGADO, SENHOR DAVI!
— De nada.
— QUE BELEZA, SENHOR DAVI!
— Er… Ok, ok.
— AH, SENHOR DAVI, COMO O SENHOR É BOM PARA NÓS!
— Tá bom.
— SENHOR DAVI, CASO O SENHOR ESPIRRE: SAÚDE, VIU?
— PORRA! VÃO CAÇAR O QUE FAZER E PAREM DE ME ADULAR, CAMBADA DE PUXA-SACO!
— …
Já sabemos agora o porquê do nome da tal caverna: adulões não faltavam a Davi nessa ocasião.
Pois muito bem, o futuro rei já tinha seu exército. Não era grande coisa, mas para começar já estava bom. Sua preocupação agora era com a segurança da família. Sabia que se Saul o pegasse não ficaria contente em matar só a ele. Claro que não: seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, todos iriam comer capim pela raiz. Então Davi juntou a família e foi até Mispa, capital de Moabe, para falar com o rei daquele país. Pediu ao soberano que hospedasse sua família até que a situação melhorasse um pouco. Foi atendido em consideração a seus antepassados moabitas, então voltou à caverna de Adulão. Lá, porém, um certo profeta chamado Gade o aguardava.
— Davi, não fique entocado aqui feito uma toupeira. Javé ordena que você entre na terra de Judá.
— Ué, e por que Javé não vem falar comigo, em vez de ficar mandando recado?
— Olha, eu não sei de nada. Ele me deu a mensagem e eu entreguei; agora, se o senhor me dá licença, tenho outros serviços a fazer lá embaixo.
— Ah, claro. Pode ir.
Davi pensou no que o profeta lhe dissera. Descer daquela fortaleza natural era suicídio. Uma loucura que poderia custar sua vida. Mas, pensando bem, enfrentar Golias tinha sido uma loucura bem pior, e dera certo. Então chamou seus adulões e foram todos para o bosque de Herete.
Enquanto isso, Saul estava reunido com seus homens sob um arvoredo em Gibeá. Os boatos sobre a localização de Davi já haviam chegado até ele (quem é que segura os boatos?), que não via a hora de chegar à caverna de Adulão e pegar de surpresa seu inimigo. Enquanto descansava à sombra das árvores, falava com o povo da cidade que estava por ali:
— Ê, cambada de benjamitas filhos-da-puta! Então vocês acham que o filho de Jessé vai melhorar essa sua vidinha de merda, não é mesmo? Que vai dar terras a todos, empregos, educação, saneamento básico, a papagaiada toda. Não acham? Só assim se explica que vocês tenham conspirado contra mim e ocultado o que eu precisava saber. Meu filho, meu PRÓPRIO FILHO, andou burilando planos com aquele desgraçado do Davi, e alguém me disse alguma coisa? Não, claro que não! Ninguém tem dó de mim! Ninguém vê o quanto eu sofro!
Os benjamitas se entreolhavam, sem entender a crise de paranóia misturada com auto-indulgência do rei. No entanto, Doegue, o edomeu funcionário de Saul que vira Davi falando com o sacerdote estava por ali, e percebeu que era a hora certa para cair nas graças do rei:
— Majestade…
— Diga, Deogue.
— Doegue, majestade.
— FODA-SE! FALA LOGO!
— Então… Eu vi o Davi em Nobe. Ele foi falar com Aimeleque.
— O sacerdote?
— Esse mesmo. Aimeleque consultou a vontade de Deus por ele, depois lhe deu mantimentos e a espada de Golias.
— AH, DESGRAÇADO! Tragam esse Aimeleque até aqui IMEDIATAMENTE.
Alguns dos soldados saíram e voltaram pouco tempo depois trazendo o sacerdote e toda sua família.
— Aimeleque. Aimeleque… Você é filho do finado sacerdote Aitube, não?
— Sim, senhor.
— Ah, eu sabia. Conheci seu pai, um bom homem. E queria conversar com você, Aimeleque. E queria que você me ouvisse com atenção. Pode ser?
— Claro, majestade, claro.
— Muito bem, muito bem! Pois o negócio é o seguinte: passarinho me contou que você andou conspirando contra mim.
— Como é que…
— Não, não, deixa eu terminar: você e Davi, filho de Jessé, andaram mancomunados. Você deu a ele mantimentos e uma espada muito especial, e fez por ele uma consulta a Deus. É mentira, Aimeleque?
— Não. Sim. Digo. Veja bem, majestade. Veja bem. Que eu soubesse, Davi era o homem mais honrado de todo o reino. Digo, fora da família real, é claro, que idéia. Ele precisava de comida, então dei uns pães pra ele. Tudo pão velho, sabe? Dei a espada de Golias também, é verdade. Mas, puxa, o que eu ia fazer com uma espada? Eu, sacerdote? Agora, um homem de confiança do rei passa pelo Tabernáculo, pede comida e uma arma, como é que eu vou recusar. O senhor percebe? Não faria o mesmo no meu lugar?
— Hum. E a consulta?
— Consulta? Ah, claro. A consulta. Aquela consulta. Ué, é praxe a gente consultar a vontade de Deus sempre que pedem. Tem nada de mais. Nada de mais! Só uma consultazinha de rotina, coisa pouca!
— Sei, sei. Aimeleque?
— Sim, majestade?
— Estou aqui pensando. Acho que você vai morrer.
— COMO?
— É. Vai morrer. Você e toda sua família. É, acho que é a melhor saída. Nada pessoal, você não me leve a mal, por favor.
— MAS PELO AMOR DE DEUS, MAJESTADE!
— Oras, não faça disso um episódio mais constrangedor do que já é. HOMENS! Matem os sacerdotes!
No entanto, algo aconteceu para enfurecer mais ainda ao rei: seus soldados se recusavam a matar os sacerdotes de Javé. O receio era justificável: embora o Deus israelita não se manifestasse mais como antigamente, não custava nada lembrar das histórias da época em que sua ira estava no auge, e tomar certas cautelas que, assim como caldo de galinha e dinheiro no bolso, não fariam mal a ninguém.
Vendo que os homens de Saul se recusavam a cumprir uma ordem do rei, Aimeleque sentiu um alívio imenso. Não durou muito, porém. Saul, como creio que já foi dito, era louco mas de bobo não tinha nada. Percebendo quem ali estava doidinho para cumprir uma ordem sua, não importava qual fosse, repetiu a ordem, dessa vez para a pessoa certa:
— DOEGUE! Mate os sacerdotes.
Feliz da vida, Doegue pegou sua espada e degolou Aimeleque e toda sua família, oitenta e cinco homens ao todo. Não contente com isso, e querendo dar ao rei uma demonstração inquestionável de sua lealdade, juntou alguns homens e foi até Nobe, cidade dos sacerdotes, matando ali tudo o que respirasse. Um doce, esse tal Doegue.
Um dos filhos de Aimeleque, porém, conseguiu escapar da carnificina, e correu para juntar-se a Davi no bosque de Herete. Contou a ele sobre o massacre dos sacerdotes, e pediu proteção.
— Isso que você está me contando é muito sério, Abiatar — era esse o nome do rapaz. — Eu tenho culpa do que aconteceu. Devia ter visto Doegue no Tabernáculo quando estive lá, e matado o filho da puta. Mas agora é tarde para lamentar. O que importa é que agora estamos do mesmo lado: as mesmas pessoas que desejam minha morte agora desejam também a sua. Fique aqui comigo, e estará a salvo.
Abiatar foi só um dos que se juntaram a Davi: seu grupo aumentava a cada dia que passava. No entanto, tendo o filho de Aimeleque consigo, Davi tinha um trunfo sobre Saul: agora o único representante da religião oficial estava a seu lado, o que seria crucial em breve.

(I Samuel 21)
Davi sabia muito bem que não estava seguro em lugar nenhum dentro do território israelita. Precisava fugir para longe, mas antes passou em Nobe para falar com o sacerdote Aimeleque (ao que parece, o Tabernáculo fora movido de Siló para Nobe. A mudança não é mencionada em parte alguma). Vendo quem se aproximava, Aimeleque ficou com medo. Sabia que Davi era persona non grata no reino. Foi falar com ele todo trêmulo:
— O que você está fazendo aqui?
— Ô, Aimeleque. Queria falar com você.
— Queria falar o quê? O rei está te perseguindo, que eu sei.
— O rei? Me perseguindo? Que é isso, rapaz! Isso foi antes. Ele teve um daqueles surtos, sabe como é.
— Sei, sei…
— Mas agora já está tudo bem. Tanto que ele me enviou para cumprir uma missão. Estou viajando já há algum tempo. Saí às pressas e não tive tempo de fazer provisões. Por isso vim até aqui, para ver se você tem uns pães ou alguma outra comida para me dar. Eu e meus homens estamos com uma fome desgraçada.
Aimeleque olhou em volta e não viu mais ninguém.
— Que homens, Davi?
— Que homens? Ah! Não estão comigo agora. Nos separamos e combinamos um encontro noutro lugar mais adiante. É uma missão altamente secreta. Eu nem deveria estar falando sobre isso agora. Mas confio em você, Aimeleque.
— Puxa. Obrigado.
— Oras, mas não tem de quê! Você é um homem de confiança, eu sempre soube. Mas e aí, tem alguma comida para nós?
— Pois é, Davi. Eu só tenho os Pães da Propiciação.
— Ué, acho que Dona Propiciação não vai ligar de dar uns pãezinhos pra gente…
— Ai, ai… Estou falando dos pães sagrados, Davi.
— Ah, esses. Hum. E aí, tem jeito?
— Depende. Você e seus homens estão puros?
— Como assim?
— Er… Estiveram com mulheres ultimamente?
— Bom, ontem nós conversamos com umas meninas perto do poço que fica em…
— VOCÊS ANDARAM TREPANDO?
— Ah, isso. Não, não. Claro que não, Aimeleque! Se já ficamos em abstinência quando cumprimos missões corriqueiras, tanto mais numa missão assim importante. Estamos na seca.
— Ah, então está tudo certo. Já está mesmo na hora de trocar os pães, te dou os que estão diante do altar agora. Tudo bem?
— Peraí. Não são esses os pães que são colocados todo sábado numa mesa, com incenso queimando em cima?
— Exatamente.
— Pô, Aimeleque! Vai me dar pão velho de uma semana, e ainda impregnado de incenso? Não fode!
— Bom, é só o que eu tenho. Quer ou não quer?
— Bah. Tá bom, dá aí.
Aimeleque entrou na Tenda Sagrada e voltou trazendo os doze pães, cada um pesando dois quilos. Entregou tudo a Davi, que os arrumou num saco.
— Pronto, Davi. Agora, se você me dá licença…
— Peraí, Aimeleque, só mais uma coisa. Você não tem aí alguma espada ou lança para me emprestar?
— Ué. Como é que você sai para uma missão tão importante desarmado?
— Para você ver como o negócio é urgente! Saí correndo de casa e nem tive tempo de pegar nada.
— Hum. Bom, tem uma espada aí que eu acho que você conhece.
— Que eu conheço?
— Sim. A espada de Golias. Está enrolada num pano lá dentro, atrás da estola sacerdotal.
— Que maravilha! Espada melhor que aquela não existe! Pode me emprestar a danada?
— Leva, ué. Sou sacerdote, pra que vou querer espada? Ainda mais daquele tamanho…
Aimeleque voltou a entrar no Tabernáculo para pegar a espada. Entregou a arma a Davi, que agradeceu e saiu apressado. Tinha que sumir de Israel o mais rápido possível. Por enquanto, estava tranqüilo: Saul ainda não sabia de seu paradeiro, e não teria como saber. O que Davi não sabia é que um tal Doegue, edomita e chefe dos pastores de Saul, estava presente em frente ao Tabernáculo justamente na hora em que ele e Aimeleque conversavam. Muito azar.
Davi pegou a estrada saindo de Nobe e foi para Gate, uma das cinco grandes cidades da Filistia. Chegou e foi logo falar com Áquis, governador da cidade, para lhe pedir asilo político. Contava com seu anonimato, afinal estava bem longe tanto de Belém quanto do palácio real. Porém, bastou que os servos de Áquis o vissem para que advertissem o governador:
— Excelência, acho que esse é o Davi.
— Davi? Que Davi?
— Aquele rei israelita.
— Até onde eu sei, o rei de Israel é Saul.
— É, ainda é ele. Mas dizem que esse Davi aí está de olho no trono, e não demora muito a usurpá-lo. Era para ele aquela musiquinha que as mulheres israelitas cantavam depois da última guerra.
— Que música?
— Aquela! Umas cantavam: Lá no campo de batalha / Lutando em nome de Deus / Escorraçamos a gentalha: / Saul matou mil filisteus, e as outras respondiam: Isso é muito notável / Nosso rei é mui viril / Sua coragem é inabalável / Mas Davi matou dez mil.
— Ah, estou lembrado. Será que é ele mesmo?
— Tenho quase certeza, excelência.
Davi, sentado num canto enquanto esperava ser atendido, ouviu que um dos servos cantava a música que ele bem conhecia, e percebeu que era alvo de desconfianças. Estava em território inimigo, e os filisteus ainda se lembravam muito bem da morte de Golias, seu maior herói. O que fazer? Não tendo muito tempo para pensar, improvisou: começou a babar, balbuciar coisas sem sentido e rabiscar a madeira das portas. Áquis caiu direitinho em sua encenação:
— Mas que porra é essa? Esse cara é maluco, maluco! Por acaso estão faltando doidos na Filistia, para vocês me importarem esse de Israel? Não, já me bastam os birutas que tenho ao meu redor. Tirem esse louco daqui, por Dagom!
Os guardas pegaram Davi e o carregaram para fora da cidade, enquanto ele babava e esperneava. Já fora de Gate, soltou um suspiro de alívio. Tivera muita sorte. Poderia continuar contando com a sorte? Logo saberia.

(I Samuel 20)
Vendo seu maior inimigo deitado no chão, pelado e profetizando, Davi concluiu que era uma boa hora para sair de Ramá e ir falar com seu amigo Jônatas:
— Pô, Jônatas. Seu pai foi até Ramá atrás de mim.
— Não acredito!
— Tá me chamando de mentiroso?
— Foi uma força de expressão, Davi.
— Ah, bom. Então. Por que seu pai me odeia tanto, hein? O que foi que eu fiz pra ele?
— Eu sei lá! Mas que Deus não permita que você morra, Davi!
— Deus não permite, mas vai que ele se distrai e seu pai me pega?
— Mas de jeito nenhum! Acho estranho ele ter ido até Ramá sem me dizer nada. Ele sempre me fala o que pretende fazer, por menos importante que seja.
— Ah, Jônatas, por favor! Seu pai sabe o quanto você gosta de mim. Tô te dizendo, estou à beira da morte.
— Ué. Tá doente?
— …
— Ah, sim, entendi. Meu pai e tal. Mas o que você quer que eu faça?
— QUE ME AJUDE, PORRA!
— Eu sei, eu sei. Mas como?
— Hum… Amanhã é Festa da Lua Nova, não?
— É sim. E daí?
— E daí que numa festa assim eu sou esperado no palácio, para me sentar ao lado do rei e tal. Isso se o rei parar de falar bobagens, se vestir e vier para cá a tempo.
— HEIN???
— Ah, é uma longa história. Seu pai tá pelado lá em Ramá, deitado no chão.
— COMO? MEU PAI ENDOIDOU?
— Claro que não…
— Ufa.
— … Aquilo já nasceu doido.
— Porra, Davi, que história é essa?
— Ele chegou a Ramá e o Espírito de Deus se apossou dele.
— Putz!
— Pois é. Tá lá profetizando. Mas do que eu estava falando antes de você me interromper?
— A Festa da Lua Nova.
— Ah, é. Então. Acontece que eu não vou à festa. Vou me esconder no campo e ficar esperando por você.
— Hum. Pra quê? Você quer que eu te leve umas coxinhas, uns brigadeiros?
— Não, Jônatas. Prestenção, porra: se seu pai notar minha ausência, você vai dizer a ele que eu pedi licença para ir a Belém visitar minha família.
— Pô, Davi. Vai pra Belém justo no dia da Festa da Lua Nova?
— Ai, meu saco… Não, Jônatas! Eu vou estar escondido no campo, lembra?
— Ah, é.
— Então. Você só vai dizer isso para ver qual será a reação do seu pai. Se ele disser que está tudo bem, então estará tudo bem. Mas se ficar com raiva, isso significa que ainda quer me matar. Entendeu?
— Entendi.
— Pensa bem, Jônatas. Eu estou pedindo para você trair seu pai.
— Ué. Não chega a ser assim uma traiçãããão.
— Mas você vai enganar o velho e me trazer informações.
— Isso é verdade.
— Tem certeza de que quer mesmo fazer isso? Você podia muito bem me matar agora. Seu pai ia te recompensar muito bem.
— Davi, você me ofende!
—…
— Eu sou seu amigo, esqueceu? Você é o melhor amigo que já tive. Tanto que tem gente por aí dizendo que você é meu namorado.
— QUEM TÁ FALANDO ESSAS BOBAGENS?
— Bah, não importa. O negócio é que somos amigos, e eu quero que você saiba que estarei sempre ao seu lado. Espero que você também esteja sempre comigo, e que cuide da minha família se um dia eu morrer.
— Um dia você vai morrer, Jônatas. Todo mundo morre.
— Se eu morrer ANTES DE VOCÊ, Davi.
— Ah, sim. Pô, Jônatas, você até comove a gente falando essas coisas. Você é o melhor amigo do mundo.
— Tá, tá. Chega de veadagem.
— Isso, chega. Mas e aí, como é que você vai me avisar do estado de espírito do seu pai?
— Hum. Tá vendo aquelas pedras ali?
— Sim.
— Então. Esconda-se atrás delas amanhã à noite. Eu vou para a festa, falo com meu pai e fico sabendo se a raiva dele já passou ou não. Assim que souber, virei aqui para treinar com o arco, usando as pedras como alvo.
— Porra, Jônatas! Quer me dar flechada?
— Claro que não, Davi. Presta atenção, ô! Eu vou atirar três flechas e depois mandar meu empregado buscá-las. Se você me ouvir dizendo “Olha lá, as flechas estão para cá”, isso significa que está tudo bem e você pode sair. Se eu disser “As flechas estão para lá”, quer dizer que meu pai ainda está furibundo e é melhor você se empirulitar. Entendeu?
— “Para cá”, tudo bem, “para lá”, fodeu. Entendi.
— Muito bem. Agora trate de se esconder, e esteja atrás das pedras amanhã e depois.
— Amanhã E depois???
— É, ué. A Festa da Lua Nova dura três dias. Pode ser que meu pai não dê por sua falta no primeiro dia, mas duvido que ele não perceba no segundo.
— É. Bem pensado.
Davi correu para se esconder e esperar o dia da festa.
No dia seguinte, Saul chegou ao salão de festas do palácio todo paramentado. Abner sentou-se ao lado do rei, e Jônatas à sua frente. O lugar de Davi, ao lado de Jônatas, permaneceu vazio. O rei notou mas não disse nada, pensando que talvez lhe tivesse acontecido alguma coisa (o que seria bom para Saul, afinal), ou que não tivera tempo para cumprir as cerimônias de purificação requeridas antes da festa.
No dia seguinte, porém, vendo a cadeira de Davi vazia outra vez, Saul perguntou a Jônatas:
— Filho, cadê o Davi? Não apareceu ontem nem hoje…
— Ah, pai, esqueci de dizer. Ele me pediu licença para ir a Belém festejar com a família.
— E você concedeu?
— Concedi, ué.
— FILHO DA PUTA!1 Agora eu tenho certeza que você está ajudando aquele desgraçado!
— Não, pai, não é b…
— CALA A BOCA! Você passou para o lado de Davi. BURRO! Não sabe que você não será rei enquanto ele não morrer? Que o desgraçado quer é usurpar o trono? Traga aquele mequetrefe aqui para morrer!
— Mas, pai… Por que você quer tanto matar o Davi? O que ele fez?
Furioso, e mal acreditando no que ouvia da boca do próprio filho, Saul pegou sua lança (que estava sempre à mão para ocasiões assim) e atirou-a contra Jônatas. Felizmente sua pontaria continuava ruim, então o príncipe não foi atingido. De uma forma ou de outra, agora tinha certeza de que a raiva do pai não passara, muito pelo contrário, aumentava a cada dia. Levantou-se da mesa com muito ódio e foi avisar a Davi.
Davi passava sua segunda noite atrás das pedras. Quase morrera de ansiedade na primeira, mas a previsão de Jônatas mostrou-se correta, e ele não recebeu notícia alguma. Já estava quase desistindo nessa segunda noite quando ouviu distintamente a voz do amigo:
— Ei, rapaz! Vai pegar as flechas! Estão para lá, ó. Para lá, entendeu? PARA LÁ! AS FLECHAS ESTÃO PARA LÁ!
Ouviu também o empregado resmungando ali perto do monte de pedras:
Pronto, agora o feladaputa acha que eu sou burro E surdo. Isso não é vida, puta que pariu…
O empregado não entendia nada, claro, mas Davi compreendera muito bem: Saul ainda queria sua cabeça, e não descansaria enquanto não a obtivesse. Ia se levantando para sair quando ouviu novamente a voz de Jônatas:
— PRONTO! CANSEI DE TREINAR! PODE VOLTAR PARA A CIDADE, RAPAZ! VOLTE PARA A CIDADE! PARA A CIDAAAADE!
— Er… Patrão? Eu já entendi.
— SIM! JÁ ENTENDEU, NÉ? ENTÃO VOLTE PARA A CIDAAAAAADE.
— TÁ! TÔ VOLTAAAAAAAAAANDO!
— Porque cê tá gritando, seu petulante?
— …
— Humpf. Suma daqui.
Depois que o empregado foi embora, Jônatas foi encontrar Davi em seu esconderijo.
— Peraí! Então para que toda essa presepada de flechas e códigos?
Eu sei lá! Não interrompa essa cena comovente, por favor. Porque os dois se encontraram sabendo que Davi corria perigo e deveria sumir por uns tempos. Muito agradecido a Jônatas, ele se jogou no chão e enconstou o rosto no chão três vezes.
— Obrigado, Jônatas! Muito obrigado!
— Ah, Davi, larga disso. Levanta daí.
Ele se levantou e os dois se abraçaram, chorando muito.
— Para onde você vai agora, Davi?
— Não pensei nisso ainda.
— Bom. Para onde quer que você vá, que Javé esteja com você. Ele fará com que nós e nossos descendentes cumpramos a promessa que fizemos.
Davi o abraçou uma última vez e fugiu. Jônatas voltou para o palácio, ainda enxugando as lágrimas. Pensava no quanto seria ruim a vida sem o amigo por tempo indeterminado.

1 Eu já falei sobre isso neste post. Embora eu use palavrões quase sempre nos meus textos (é mais forte do que eu, compreendam), esse “FILHO DA PUTA!” berrado por Saul para seu filho Jônatas é diferente: corresponde quase que literalmente ao texto original. Em traduções mais antigas (como esta), o xingamento é “Filho de uma mulher perversa e rebelde”, ou “Filho da perversa em rebeldia”. A Bíblia na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, dá um passo à frente e traz “Filho de uma mulher à toa”. Não é preciso ser muito esperto para deduzir o que Saul realmente disse ao filho naquele momento de fúria. Aqui temos, portanto, uma prova de que a profissão mais antiga do mundo deu origem (entre outras coisas) ao xingamento mais antigo do mundo.

(I Samuel 19)
— Maldito seja Davi! MALDITO! O filho da puta parece que tem o corpo fechado. Mas eu vou matar o desgraçado, ah, se vou! E vocês vão me ajudar nisso, estão me ouvindo?
Andando de um lado para outro diante de seu trono, esbravejando e soltando perdigotos enquanto falava, Saul dirigia-se a seus oficiais e a Jônatas. Eles ouviam calados, sabendo que qualquer um que ousasse fazer um aparte corria o risco de terminar seus dias espetado na parede pela lança que Saul brandia na mão direita. Ouviram tudo calados, e calados saíram. Jônatas, porém, correu para avisar o amigo:
— Davi, meu pai quer te matar.
— Ah, não me diga! Agora me conte uma novidade, Jônatas.
— Não, não. Agora o negócio é mais sério. Antes ele tentava disfarçar, agora não: chamou a mim e aos oficiais e pediu sua cabeça.
— Vixe. Tá braba, a coisa.
— Muito braba.
— Mas e então? O que eu faço? Fujo?
— Não, ainda não. O povão gosta de você. Trate de se esconder em algum lugar até amanhã cedo. Eu vou falar com meu pai, tentar fazer o velho mudar de idéia. Depois te conto o resultado.
— Boa idéia.
No dia seguinte, então, Davi ficou escondido enquanto Jônatas falava com Saul. Deu sorte de pegar o pai num bom dia, o que já era meio caminho andado.
— Ô, pai. Por que você odeia tanto o Davi?
— POR QUÊ? ORAS, POR QUÊ! PORQUE ELE… ELE… Er.. Ele…
— Tá vendo? O senhor nem sabe!
— ELE AMEAÇA O TRONO, JÔNATAS! O TRONO QUE DEVE SER SEU QUANDO EU MORRER!
— Não fala bobagem, pai. Davi nem pensa nisso, te garanto.
— Hum.
— Ele é um herói nacional, velho.
— Velho é teu passado.
— Tá, desculpa. Mas ele é um herói mesmo, não é? Arriscou a vida enfrentando o Golias, lembra? Ninguém teve coragem de encarar o gigantão, e o danado pegou uma funda, umas pedrinhas e foi lá. E o senhor mesmo ficou contente na ocasião, lembra? Então por que matar um homem que não só é inocente como ainda ajuda na estabilidade do reino?
— Hum. É, você tem razão.
— Tenho? Então o senhor não vai mais perseguir o Davi?
— Juro por Deus.
— Então tá.
Jônatas saiu dali e foi contar para Davi o que havia ocorrido. Levou o amigo à presença do pai e assistiu, feliz, à reconciliação dos dois. Davi voltou ao palácio com sua harpa e empregou-se novamente no serviço do rei. Tudo muito bom, tudo muito bem.
A harmonia não duraria muito, porém: no primeiro ataque um pouco mais sério que teve, Saul jogou sua lança na direção de Davi. Terceira vez que ele fazia isso. O rapaz já esperava e, ligeiro que só, desviou-se da lança e saiu correndo, dessa vez jurando a si mesmo que não pisaria mais no palácio daquele rei maluco. Tudo bem o cara ser bipolar, mas aquilo já era demais.
Na mesma noite, mandando às favas seu juramento solene, Saul enviou alguns homens para ficarem de tocaia na casa de Davi. A ordem era trazê-lo como prisioneiro, para que fosse executado na manhã seguinte. Os homens saíram e ficaram rodeando a casa. Mical, porém, percebeu a movimentação estranha e avisou ao marido:
— Davi, melhor você fugir. Tem uns homens aí fora, e tenho certeza que foram mandados pelo meu pai para matarem você.
Davi nem discutiu: conhecia o bom senso da mulher tanto quanto a loucura do sogro. Com a ajuda da esposa, desceu por uma janela nos fundos da casa. Com Davi já a salvo, Mical não perdeu tempo: pegou uma estátua e a colocou deitada na cama, com um pedaço de pele de cabra tingida de vermelho na cabeça. Cobriu o arranjo com uma capa e viu que estava convincente. Foi bem a tempo: mal saiu do quarto, ouviu batidas na porta da frente. Batidas secas, com o punho, coisa de polícia desde sempre. Foi antender com a maior cara de inocente do mundo:
— Pois não?
— Temos ordem de Sua Majestade para fazer a averiguação aqui do recinto.
— Fazer o quê?
— A averiguação da residência, madame. A senhora não obstrua o trabalho da polícia, positivo?
— Não estou obstruindo nada. Só queria saber a que vem isso a esta hora da noite.
— Viemos enquadrar o elemento Davi, Filho de Jessé de Belém, positivo?
— Positivo é o cacete. Eu sou filha do rei, tão me ouvindo? Voltem para suas tocas.
— Negativo, madame. Temos ordem de só retornar acompanhados do elemento Davi, Filho de Jes…
— Tá, tá. Mas acontece que ele tá doente.
— Ah. Hum. Então o elemento encontra-se enfermo?
— Foi o que eu disse.
— Positivo, positivo… Seria o caso de encaminhar o meliante ao nosocômio?
— Não é necessário.
— Positivo, madame.
Os agentes voltaram para o palácio com a notícia:
— Majestade, o meliante encontra-se acometido de enfermidade, o que nos impede de enquadrá-lo de acordo com o artigo 3, parágrafo nono do Código Penal Israelita.
— Hein?
— Davi tá doente.
— E daí???
— E daí que, de acordo com o artigo três, parágr…
— NÃO ME VENHA COM ESSE PAPO DE POLÍCIA!
— Então. A gente não pôde trazer ele.
— Porque está doente?
— Isso.
— QUE SE FODA! TRAGAM AQUELE FILHO DA PUTA NUMA MACA, SE NECESSÁRIO! Ah, querem saber? Vou com vocês.
Os agentes deram de ombros e voltaram à casa de Davi, dessa vez acompanhados pelo rei. Bateram à porta e Mical gritou lá de dentro, impaciente:
— Quem é?
— PULIÇA!
— Mas de novo, diabo? Eu já não disse que meu marido está doente?
— Positivo, madame. Mas o rei nos deu ordem para levar o elemento de qualquer maneira.
— MAS EU JÁ FALEI, ELE TÁ DOENTE! DE CAMA! NÃO PODE SE LEV…
— Mical?
— Pai? É você, pai?
— Sou eu, minha filha. Abre a porta pro papai, abre.
Mical conhecia aquela voz. A aparente doçura escondia a iminência de uma crise de fúria. Não achava muito bom enfrentar o pai, então abriu a porta.
— Muito bem, filhinha. Onde é que está meu genro?
— L-lá em cima. Na cama.
Saul subiu esfregando as mãos de antecipação, com os homens atrás dele. Imaginem vocês o ódio dele quando puxou a coberta gritando “ARRÁ!” e viu a estátua na cama.
— MICAL!
— Sim, pai?
— QUE PALHAÇADA É ESSA? POR QUE VOCÊ ME ENGANOU, DESGRAÇADA?
— Ele falou que ia me matar se eu não o ajudasse a fugir, pai!
— FILHO DA PUTA! Estão vendo? O desgraçado é capaz de matar até a própria esposa. E esse povinho aí o considera um herói. HERÓI MINHA BUNDA!
Enquanto a confusão toda acontecia, Davi já estava longe. Em Ramá, mais precisamente. Por que Ramá? Porque era lá que ele tinha seu aliado mais importante, o único capaz de impor sua vontade a Saul. Encontrou-se meio clandestinamente com Samuel, e contou ao velho profeta tudo o que lhe tinha acontecido. Samuel percebeu que o assunto era sério, e levou Davi para Naiote, a Casa dos Profetas.
Samuel achava que Naiote era um lugar seguro. Nem tanto: Saul tinha espiões espalhados por todo canto, e poucos dias depois ficou sabendo do paradeiro de Davi. Chamou alguns de seus homens e deu a ordem:
— Davi está na Casa dos Profetas, em Ramá. Vão buscá-lo.
— Positivo e operante, majestade.
Os agentes foram para Ramá, informaram-se e logo ficaram sabendo onde era a tal Casa. Quando chegaram, porém, viram um bando de profetas, com Samuel à frente deles. Estavam profetizando, o que significa — se vocês não se lembram — que cantavam, gritavam, dançavam, davam pulos, enfim, agiam como malucos. O Espírito de Deus se apossou dos agentes, que começaram eles também a profetizar alegremente no meio dos outros.
Os espiões fizeram chegar a mensagem preocupante a Saul: os agentes enviados para prender Davi haviam endoidado. O rei não se deixou abalar e mandou outros homens a Ramá. Esses também ficaram por lá, profetizando, assim como o terceiro grupo. Emputecido com a loucura contagiosa de Naiote, Saul decidiu ir até lá pessoalmente. Maluco já era, considerava-se vacinado contra a loucura alheia. Estava enganado, porém: mal entrou em Ramá, começou a se sentir estranho. Até aí, nada de mais: sentia-se estranho com freqüência. Só que dessa vez era diferente. Em vez de ter vontade de espetar pessoas na parede com sua lança, sentia vontade de sair dançando, saltitando e lançando pétalas de flores para o ar. Eis a diferença entre a loucura divina e a diabólica: esta é macha pra diabo, aquela é divinamente gay.
O povo olhava, estarrecido, seu rei saltitando e cantando pelas ruas de Ramá. Quando chegou à Casa dos Profetas, tirou toda a roupa e ficou profetizando na frente de Samuel. Passou o dia e a noite deitado no chão, nu e profetizando. Os outros profetas queriam dormir, mas não tinham coragem de interromper os devaneios do rei.
Escondido num canto, Davi assistia à cena sem entender nada: o rei de Israel e seu mais temível inimigo jazia no chão, pelado, cantando alto e batendo palmas. Seria o fim das perseguições? Ele duvidava. E tinha razão.

(I Samuel 18:5-30)
Tudo parecia muito bem: Davi era um herói nacional, Saul firmava sua autoridade com a maior de todas as vitórias contra os filisteus, Jônatas tinha um bom amigo. Só que algo aparentemente inocente veio perturbar a paz no palácio: uma música nova que começou a se espalhar por Israel quando o exército voltou da batalha. As mulheres cantavam e dançavam na rua enquanto Saul desfilava em carro aberto, e ao prestar atenção na letra o rei ficou muito contrariado. Que música era essa? Bom, as mulheres se dividiam em dois grupos. Um cantava:
Lá no campo de batalha
Lutando em nome de Deus
Escorraçamos a gentalha:
Saul matou mil filisteus.

E o outro grupo respondia:
Isso é muito notável
Nosso rei é mui viril
Sua coragem é inabalável
Mas Davi matou dez mil.

Não era à toa a contrariedade de Saul. “Dez mil para ele, e só mil para mim? Que merda é essa? Agora só lhe falta o trono!”, pensava o rei, enciumado.
No dia seguinte ao desfile triunfal, o tal espírito maligno apossou-se de Saul de novo, e dessa vez com força total. Tomado pela paranóia, tinha certeza de que Davi pretendia usurpar-lhe o trono. Davi, sem saber do que ia na mente doentia do rei, correu para seus aposentos para tocar harpa e acalmar-lhe a fúria. Vendo ali a origem de sua perturbação, Saul não pensou duas vezes: pegou sua lança e arremessou-a contra o rapaz. Davi, porém, tinha reflexos rápidos, e conseguiu desviar-se da lança. Tomado pelo ódio (e pela loucura), Saul tentou mais uma vez, e outra vez Davi desviou-se. E, como não era besta nem nada, saiu correndo. Se Saul queria música para acalmar-se, que comprasse uma jukebox. Ele é que não ia arriscar-se a ser espetado na parede feito uma mariposa de coleção.
Davi não voltaria mesmo a tocar sua música no palácio, mas por iniciativa do rei: não suportando ver a cara daquele moço ruivo, Saul nomeou-o comandante de mil homens. Colocando-o numa posição intermediária — não tão alta a ponto de ficar longe da batalha nem tão baixa a ponto de ser apenas mais um entre tantos — Saul esperava que os filisteus logo o livrassem daquela pedra no sapato. Mas Davi tinha uma sorte danada. Tudo o que ele fazia dava certo, os israelitas o adoravam, e isso deixava o rei mais irritado ainda.
Saul passava as noites sem dormir, pensando em que posição de risco poderia botar Davi para que os filisteus o quisessem matar, uma vez que ele ter matado seu grande campeão a pedradas não parecia o suficiente. Torturava-se procurando uma resposta, até que um dia ela caiu-lhe na cabeça. Era tão óbvia que dava raiva: entre duas nações em guerra, as famílias dos respectivos reis eram alvos preferenciais para abalar o moral do inimigo. Davi não era de sua família, mas poderia ser. Com esse intuito em mente, no mesmo dia chamou o rapaz à sua presença.
— Davi, você pensa em se casar?
— Claro, majestade, claro. Mas acho que ainda sou muito novo para isso.
— Bobagem! O que você acha de Merabe?
— Quem?
— Minha filha mais velha, Davi.
— Ah, essa… Ué. Sei lá. Ela é legal.
— Eu quero que você se case com ela.
— C-como é?
— Não gagueje, oras! Veja que honra, você será genro do rei. Em troca, eu só lhe peço que continue sendo meu soldado fiel.
— Fico muito honrado, senhor, não me entenda mal. Mas quem sou eu, que origens tenho para ousar sequer pensar em ser genro do rei?
— Bah, modéstia besta. Você se casa com ela, estou mandando!
Sabendo que não valia a pena discutir, Davi agradeceu e foi cuidar de sua vida. Porém, como já estamos cansados de saber, o rei estava doido, e acabou dando sua filha em casamento a outro homem, um tal Adriel, morador da cidade de Meolá.
— Belo casamento, Saul. Está feliz?
— Claro, Abner, claro! É um bom rapaz, esse Adriel. E veja como minha filha está feliz.
— É verdade. Só Davi que não vai gostar disso.
— Davi? Ué, por que aquele puto não vai gostar?
— Ué. Você disse a ele que lhe daria Merabe em casamento.
— PUTA QUE PARIU, É MESMO! Ah, mas que cabeça, a minha! E agora, Abner?
— Hum… Ouvi dizer que sua outra filha tem interesse em Davi.
— Mical?
— Ela mesma. Quando ele passa ela fica olhando… Dizem que escreve poemas, acrônimos com o nome dele.
— Acrônimos, é? Que mau gosto… Bom, mas se ela gosta dele, o que estamos esperando? Tratemos logo de casar esses dois, antes que eu me esqueça e a ofereça a outro.
Saul comunicou a Davi o mal-entendido, e ofereceu-lhe a compensação:
— Você pode se casar com Mical, e ainda será meu genro.
— Hum. Mas eu mal conheço sua filha!
— Bobagem, bobagem! Terá tempo para conhecê-la depois que se casarem. Vamos logo cuidar disso.
Por Saul estava tudo acertado, mas Davi ainda relutava. Tornar-se genro do rei parecia-lhe um passo largo demais. Já esperando isso, Saul chamou seus empregados e ordenou-lhes que dissessem a Davi que o rei o apreciava muito e que seria uma boa idéia casar-se com a filha dele.
— Mas falem como se estivessem fazendo mexericos, não vão deixar escapar que eu mandei dizer.
Então nas semanas seguintes, sempre que conversava com algum empregado do palácio, Davi ouvia a mesma conversa:
— Puxa, seu Davi. O rei gosta muito do senhor, viu? Vive falando do senhor. “O Davi? Aquilo é um herói! Era de um genro assim que eu precisava!”.
— Que coisa… Para quem tentou me matar há tão pouco tempo, até que o rei está bonzinho.
— É a doença dele. O espírito ruim. O senhor sabe.
— Sim, eu sei, eu sei. Mas eu sou pobre, não valho nada. Ser genro do rei é uma honra grande demais para mim.
Todos os dias Saul pedia aos empregados notícias sobre a decisão de Davi, e a resposta era sempre a mesma: o rapaz continuava considerando-se indigno da filha do rei. “Hum. Então vou ter que fazê-lo acreditar que fez por merecer”, ele pensou, e logo mandou um recado a Davi:
— O rei não quer nenhum dote pela sua filha. A única coisa que pede é que você traga a ele cem prepúcios de filisteus.
Com isso, mais uma vez, Saul esperava que os filisteus acabassem com a raça de Davi. Os filisteus pareciam meio frouxos ultimamente, mas o rei duvidava que fossem ficar quietos se um maluco chegasse querendo cortar-lhes a pele do pau. Sabia o quanto Davi era orgulhoso, e usava esse orgulho como arma. Era orgulhoso, de fato: ao ouvir o recado, seus olhos brilharam. Um pouco de ação não lhe faria mal, cortar uns pintos filisteus seria divertido, e ainda seria genro do rei. Mical até que era jeitosinha, valia a pena.
O noivado foi anunciado por todo o Israel. Antes do dia marcado para o casamento, Davi reuniu seus homens e marchou em direção à Filistia. Mataram duzentos filisteus. Passaram a noite cortando os paus dos defuntos, e no dia seguinte Davi levou a Saul o dote pela sua filha: duzentos prepúcios, o dobro do que havia sido pedido. Saul ainda tentou mostrar-se desconfiado:
— Como é que eu vou saber que não são prepúcios israelitas mesmo?
— E desde quando israelita tem prepúcio, majestade?
— Er… Bem pensado. Mas quantos são? Eu pedi cem, lembra?
— Lembro sim. E trouxe duzentos.
— DUZENTOS??? Não acredito. Você poderia contá-los?
— Mas majestade…
— Ué, eu preciso saber.
Cheio de nojo, davi começou a contar os prepúcios.
— Um, dois, três, quatro… Olha, este é roxo! Dezenove, vinte, vinte e um… Que grandão, deve ser de algum parente do finado Golias! Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito, cinqüenta e nove… Olha só este, que enrugadinho. Parece uma uva-passa. Cento e doze, cento e treze… Este aqui estica, olha só! Cento e sessenta e três, cento e sessenta e quatro, cento e sessenta e cinco, cento e sess… Não, isto aqui é uma uva-passa mesmo, como é que veio parar aqui? Cento e sessenta e seis, cento e sessenta e sete… Vixe, dá pra fazer um anel com este aqui… Cento e noventa e oito, cento e noventa e nove, duzentos. Pronto.
— Humpf. Bah. Tá bom, vai. Você agora é meu genro. Muito bem, seja bem-vindo à família.
Davi e Mical casaram-se. O povo amava Davi, aparentemente Deus amava Davi, e agora até sua filha amava Davi. O ciúme corroía a alma de Saul. Ele odiava aquele moço cada dia mais, e maldizia o dia em que o contratara. Alheio a isso, Davi continuava suas campanhas vitoriosas contra os filisteus, e via sua popularidade aumentar a cada dia.

I know you like her
Well I like her too
I know she likes you
It’s not as if I’m being sent off to War
There are worse things in this world
There’s still room on my wooden horse for two
I was Jonathan to your David
You’re still King
Well, I’d thought about her
I dreamed she’d come, I’d make my escape
I thought she liked me but somehow I was wrong
I know you don’t want it this way
But it’s O.K.
It’s not like we’ll be parted
It’s not like we never know love
And she’ll smile for you
She’ll hold your hand
You’ll be in love there’s no other way
And I will make it some day
I know you like her
Well I like her too
I know she likes you
It’s not as if I’m being sent off to War
There are worse things in this world
There’s still room on my wooden horse for two
I was Jonathan to your David
You’re still King
Visions of love recollected
Have we ever been true?
I know that I have, it’s time for you to go
It’s all in the stones that you throw
I want you to know
It’s not like we’ll be parted
It’s not like we never know love
And she’ll smile for you
She’ll hold your hand
You’ll be in love there’s no other way
People say that
“We’ll never change”
“We’ll never change”
But I have
You and her in the local newspaper
You will be Married and you’ll be gone
Married and you’ll be gone
(Belle & Sebastian)

(I Samuel 18:1-4)

Capítulo dedicado a dois amigos: Paulo Polzonoff Jr., por ter se tornado meu amigo de infância assim que nos conhecemos, e Dean Moriarty, por me ensinar que fugir de piadas óbvias pode ser um bom negócio

Finda a batalha, Saul mandou chamar Davi ao palácio:
— Rapaz, não sei como prestar a você homenagem à altura do que você fez.
— Precisa não, seu Saul…
— Mas precisa sim, precisa sim! Vou pensar em alguma coisa, pode deixar. Enquanto isso, não gostaria de trabalhar aqui comigo?
— Er…
— Que foi, que foi? NÃO QUER TRABALHAR AQUI?
— Não é isso, senhor. É que… Bom, eu já trabalho aqui.
— COMO ASSIM???
— É. Eu toco harpa.
— Mas que bagunça é isto aqui! Ninguém me informa nada! É por isso que Israel não vai pra frente! E você toca harpa na banda do palácio, certo?
— Hum… Mais ou menos isso.
— Pois a partir de hoje você será meu músico particular. Que tal, hein?
— Puxa… Sinto-me honrado, majestade.
— Claro que se sente, claro! E começa hoje mesmo, viu? Pode trazer seus panos de bunda, que agora você mora aqui no palácio.
— Morar aqui? Mas eu tenho família em Belém, majestade.
— Sua família pode vir visitá-lo quando quiser.
— Hum. E meus amigos.
— Também, oras. E aqui você ainda poderá fazer novos amigos, rapaz. Meu filho, por exemplo. JÔNATAS!
— Oi, pai!
— Vem cá! Quero te apresentar o rapaz novo!
Jônatas já conhecia Davi, claro. Mas conhecia mais ainda o pai que tinha, então fingiu que o via pela primeira vez. A verdade é que os dois haviam se tornado grandes amigos assim que se conheceram. Eram confidentes, tinham um senso de humor parecido. Eram ambos malucos, como pudemos constatar em dois episódios: quando Jônatas entrou no acampamento filisteu acompanhado apenas de um empregrado, e quando Davi matou um gigante a pedradas.
Jônatas ficou muito feliz ao saber que seu grande amigo agora viria morar no palácio. Os dois teriam mais oportunidades para suas longas conversas, para as bebedeiras e para a caça às mulheres. Como demonstração de sua alegria, deu de presente algumas de suas coisas: uma capa, uma espada, um arco, um cinto e até sua armadura.
— Pô, Jônatas. Você não sabe que eu não sei usar armadura?
— Sei, por isso mesmo te dei essa de presente. Foi muito engraçado ver você usando a armadura antes de ir lá matar o Golias. Parecia uma pata choca.
— Pata choca é tua mãe.
— Apelou, perdeu!
— Vai tomar no cu.
— No seu, que é mais azul.
— Babaca.
— Sou, mas você me ama.
— Você é meu melhor amigo, caralho.
— Sim, sim. E serei para sempre.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Veadagem da porra.
— Hehehehe.
Um belo exemplo de amizade masculina, não é mesmo? A lealdade entre os dois era coisa linda de se ver. Logo veremos o quanto a amizade de Jônatas foi preciosa para Davi.

Sempre que se fala da amizade entre Jônatas e Davi alguém levanta a hipótese do relacionamento homossexual entre os dois. Seria fácil eu me render, e passar alguns bons capítulos fazendo piadinhas com isso. Mas prefiro acreditar que sou influenciado pelo Monty Python, não pelo Casseta & Planeta.