(II Samuel 12:1-15)
Ao enviar Urias para a morte e assim desposar a viúva, Davi excedera qualquer limite. Javé não gostou nada daquilo, e ordenou que o profeta Natã fosse dar uma bronca no rei. “Dar uma bronca no rei!”, preocupava-se Natã, “Falar é fácil. Por que não vai lá ele mesmo? Como é que eu vou dar essa bronca sem deixar o homem puto?”. Foi pensando nisso por todo o caminho, e ao chegar ao palácio havia decidido abordar o assunto de forma suave, contando uma parábola. Então, quando o rei enfim o recebeu, começou a contar sua história:
— Dois homens moravam na mesma cidade…
— Qual cidade?
— Hein?
— Você disse que dois homens moravam na mesma cidade. Qual?
— Oras, não vem ao caso! Sei lá! Belém, vá.
— Belém? Olha, então eu devo conhecer os dois. Como se chamavam?
— É só uma história, majestade!
— Ah! Não é de verdade, então?
— Não!
— Bom, bom. Continue, adoro histórias.
— Então. Um dos homens era muito pobre, o outro era milionário. O rico tinha muitos bois, jumentos, ovelhas, camelos. O pobre, coitadinho, tinha só uma ovelha. Era apegado ao bichinho: a ovelha comia de sua comida, bebia em seu copo, dormia em seu colo.
— Ih. Esse cara aí com a tal ovelha, sei não…
— Pô, majestade, não fode. A ovelha era como uma filha para ele.
— Filha? Sei.
— NÃO IMPORTA! O negócio é que o milionário lá recebeu a visita de um amigo tão rico e importante quanto ele. E sabe o que ele fez?
— O quê? O quê?
— Com tantos animais à disposição em sua propriedade, resolveu, por puro capricho, matar a ovelha do vizinho pobre para servir ao visitante.
— COMO É QUE É??? O cara tinha gado à vontade, mas preferiu matar o bichinho de estimação do outro, que não tinha mais nada na vida?
— Isso mesmo.
— ESSE SUJEITO É UM FILHO-DA-PUTA! Deve dar quatro ovelhas para o vizinho e depois ser executado. Não consigo imaginar outro castigo para ato tão cruel.
— Pois esse sujeito é o senhor, majestade.
— COMO??? Não sei do que você está falando.
— Não sabe? Urias? Bate-Seba?
— Er… Quem?
— JAVÉ SABE TUDO, DAVI! Ele mandou dizer que o fez rei de todo o Israel, que o salvou de Saul e entregou o reino em suas mãos. Tudo isso ele lhe deu, e daria tudo duplicado. Então por que é que você foi cometer um crime tão vil?
— C-Crime…?
— VOCÊ ORDENOU A MORTE DE URIAS, PARA PODER FICAR COM A MULHER DELE!
— Eeeeeeeeeeeeeeeeu?
— JAVÉ SABE TUDO! Como punição por seus atos, ele diz que sua descendência terá uma história violenta. Além disso, uma pessoa de sua própria família causará sua desgraça. Suas esposas vão se entregar a outro homem, e ele vai traçar todas no meio da rua, à luz do dia, para que todo o Israel saiba que o rei é um chifrudo.
— Tá certo, tá certo… Eu errei.
A confissão do rei fora mais fácil do que Natã esperava. O profeta não resistiu à tentação de dar uma boa notícia:
— Ah, não fica assim! Javé perdoou seu pecado, não vai matá-lo nem nada assim.
— Que bom.
— É, é. Muito bom. Só tem uma coisinha…
— O quê?
— Sabe o menino, filho de Bate-Seba?
— Claro! Aquele menino é a alegria da minha vida!
— Er… Então. O menino… — bem devagar, Natã ia andando de costas na direção da porta enquanto falava — O menino vai pagar por essa.
— Como?
— Deus vai matar o seu filho, Davi.
O rei ficou sem acreditar por um instante: primeiro Javé o repreendia por matar um homem inocente, e agora punia por isso alguém mais inocente ainda, um bebê? Não podia ser verdade. Quis confirmar com Natã, mas o profeta já dera no pé.
Categoria: Bíblia
Davi e Bate-Seba
(II Samuel 11)
Ah, a primavera! Uma época tão linda! Flores desabrocham, aves preparam seus ninhos, a temperatura é amena, love is in the air. O que fazer em época tão linda? Guerra, é claro! Chegou a primavera e Davi mandou seu exército contra Amom. Joabe e seus homens derrotaram os amonitas e cercaram a cidade de Rabá. Como tudo corria bem, Davi achou melhor dar umas férias a si mesmo e permaneceu em Jerusalém.
Agora imaginem Davi, guerreiro desde a adolescência, confinado na cidade e sabendo que seu exército derramava sangue longe dali: o rei sentia-se entediado às vezes. Num desses dias maçantes ele saiu para andar pelo terraço do palácio depois da sesta. Andava com as mãos entrelaçadas nas costas, e contemplava a cidade que construíra para si. Olhou os detalhes do palácio, a fortaleza das muralhas, a mulher pelada tomando banho, a silhueta das torres de vigia, a…
— Epa! MULHER PELADA TOMANDO BANHO!?
O rei olhou de novo e lá estava ela: alheia a todo o resto, entregava-se ao prazer da água morna e das ervas aromáticas. Sentia-se segura: não era possível que alguém a visse ali, banhando-se no telhado de sua casa. Bom, mas o rei a via, babava por ela, e tratou logo de descobrir quem era a beldade nua. Logo lhe trouxeram a informação: era Bate-Seba, filha de Eliã e casada com um heteu chamado Urias, oficial do exército israelita.
— Hum. — murmurou o rei — Acho que vou comer uma coisinha diferente hoje…
Seus servos entenderam o recado e foram logo buscar a mulher. Bate-Seba não ofereceu muita resistência: o marido estava na guerra há tempo demais, ela se sentia só. Acabara de concluir o ritual mensal de purificação após a menstruação. Além do mais, era o rei quem a chamava! Como declinar? Não tinha jeito! Então ela acompanhou os servos até o palácio — cuidando antes de botar seu melhor vestido e perfumar-se — e lá passou a noite com Davi. O rei ficou feliz da vida: então era assim? Bastava apontar uma mulher e seus servos a trariam sem resistência? Escolher mulher como quem escolhe kiwi na feira? Que beleza, que beleza!
Nem tanto, porém: no mês seguinte Bate-Seba não precisou cumprir seus rituais de purificação, nem no subseqüente. Chegou à conclusão óbvia — estava grávida e, como o marido estava em campanha havia meses, o pai só podia mesmo ser o rei de Israel. A mulher não sabia o que fazer. Confiava, porém, na sabedoria do rei, e mandou um recado a ele falando sobre sua situação.
Aí a porca torceria o rabo, fossem os porcos permitidos em Israel. Davi ficou desnorteado. Grávida, e com o marido fora de casa por tanto tempo, Bate-Seba certamente seria condenada à morte por adultério. Por outro lado, ele não podia assumir o filho: um rei que se aproveita da ausência de um guerreiro para traçar sua mulher não seria figura muito respeitada (estamos falando de Israel, não se esqueçam, não do Brasil, onde a canalhice é louvada e estimulada). O rei pensou, pensou, e achou ter chegado à melhor solução possível. Pegou um pergaminho e rabiscou uma mensagem para Joabe:
Mande Urias, o heteu, aqui para Jerusalém. Tenho que falar com ele.
D.
Joabe estranhou o pedido do rei. Mas era leal como um cão e não fazia perguntas: chamou Urias, falou da mensagem do rei e o mandou para a capital.
O pobre heteu passou todo o tempo de viagem pensando no que levara o rei a chamá-lo assim, tão fora de propósito. Recapitulava seus atos nesta e noutras campanhas, tentava lembrar-se de alguma falta que pudesse ter cometido. Era homem corretíssimo, porém, e não conseguia se lembrar de nada porque nada havia. Isso o martirizava mais ainda: o que poderia querer com ele o rei? Chegando a Jerusalém, foi surpreendido por um simpático Davi:
— Urias, como vai você, rapaz?
— Er… Bem, majestade. Bem.
— Mas deixe desse negócio de majestade, que bobagem! Me diz, como é que tá o negócio lá com os amonitas?
— Tudo sob controle, majestade. Demos uma surra nos amonitas, e agora estamos sitiando a cidade de Rabá. O general Joabe diz que eles não têm como resistir por muito tempo, porque o fornecimento de víveres foi…
— Maravilha, maravilha! Muito obrigado por ter vindo tão rápido, Urias. Agora vá para casa descansar um pouco, reveja sua mulher, passe a noite com ela. Pode voltar para Rabá amanhã.
— O-obrigado, majestade.
— Eu é que agradeço, Urias!
O heteu saiu do palácio, e Davi sentiu o peso sair de cima de seus ombros. Bastava que Urias fosse para casa aquela noite. Estava em guerra havia meses, cercado por homens o tempo todo, sentindo saudade de casa, onde uma mulher linda o esperava. A natureza seguiria seu curso, os dois teriam uma noite animada, e quando a criança nascesse ninguém teria porque desconfiar de adultério: lembrar-se-iam do dia em que Urias viera a Jerusalém a pedido do rei, e estaria tudo certo.
Feliz com sua idéia engenhosa, Davi subiu para o terraço para tomar um pouco de ar e contemplar novamente suas obras grandiosas. Estava nisso, congratulando-se e rindo sozinho, quando um de seus servos de confiança apareceu no terraço:
— Majestade, o heteu não foi pra casa.
— Como não foi?!
— Não foi, ué. Tá dormindo nas portas do palácio, junto com os guardas.
— Ah, só me faltava essa! O cara pegou gosto nesse negócio de dormir com barbado. Amanhã logo cedo eu quero ter uma palavrinha com esse Urias.
— Sim senhor.
Estava arruinado o flanar pelo terraço. O que aquele heteu pensava da vida? Então tinha um dia inteiro de folga e resolvia usufruí-lo de que forma? Dormindo com os guardas! Mas isso seria esclarecido no dia seguinte, quando Urias recebeu o recado do rei, lavou o rosto e subiu para a sala do trono. O rei se apresentou menos simpático dessa vez:
— Urias, qualé a sua? Você é descendente de sodomita, por acaso?
— Impossível, majestade. As relações que os sodomitas mantinham eram daquele tipo que não gera filhos, se é que o senhor me entende…
— Oras, não se faça de burro! Eu tô perguntando se você é bicha!
— Bicha? Claro que não, majestade, longe de mim! Sou casado com uma mulher linda, carinhosa.
— POIS É! E, tendo um dia de folga depois de tanto tempo na guerra, aproveitou para ir dormir com ela, quentinho? Não! Foi dormir com os guardas no portão! Por que, Urias, por quê?
— Majestade… Os homens de Israel estão longe, na frente de batalha. A Arca do Acordo está lá numa tenda, e Joabe e os outros comandantes dormem ao relento. Como é que eu ia ter coragem de ir pra minha casa, comer, beber, deitar com minha mulher? Não seria certo, majestade! Eu nunca poderia fazer algo assim.
— Eu sei, Urias. Você é um homem muito correto.
— Obrigado, majestade.
— Tão correto, mas TÃO CORRETO que chega a ser CHATO PRA CARALHO.
— Sinto muito, majestade.
— Saco… Olha, você vai ficar por aqui hoje. Amanhã eu o mando de volta para Rabá.
— Como quiser, meu senhor.
— E vai jantar comigo hoje.
— Muito me honra.
— Tá, tá!
Durante o jantar, Davi não deixou que o copo de Urias ficasse vazio nem por um momento. O rei pensava que, bêbado, o soldado perderia um pouco daquela pose certinha, e perceberia enfim que tinha um belo de um pé-de-rabo esperando por ele em casa. Resolveria sua vida, a da mulher e a do rei. Mas qual o quê! Mesmo cheio de álcool nos cornos, o corno do heteu foi dormir novamente com os guardas. Davi desistiu: dera ao chifrudo duas oportunidades. Ele não quisera aproveitá-las; paciência. Na manhã seguinte, mandou chamar Urias pela última vez.
— Urias, pode voltar para Rabá.
— Ah, que beleza, majestade! Estou ansioso por isso!
— Ansioso pelo cheiro de cueca, né, safadão? Humpf. Bom, volte para lá imediatamente, e leve esta mensagem a Joabe.
— Sim senhor.
Urias despediu-se, e tomou o caminho de volta para Rabá. Ia feliz: partilhara da mesa do rei, e este lhe confiava uma mensagem para seu general. Além do mais, sua majestade demonstrara real preocupação com ele, instando para que descansasse em sua própria casa. Sim, o heteu estava muito feliz. Homem impoluto que era, em momento algum pensara em dar uma espiada na carta que levava enrolada nas mãos, presa por um barbante e com o selo real. Caso o fizesse, daria um jeito de desviar seu caminho e nunca mais aparecer em Rabá nem em Israel. Porque a mensagem de Davi para Joabe era breve e clara:
Urias deve ser posicionado bem na linha de frente, onde a luta estiver mais cruenta. Quando ele estiver no lugar certo, retire-se com seus homens e deixe que ele seja morto.
D.
Ah, que bela atitude! Digna de um rei, não há dúvida! Até o carniceiro Joabe engoliu em seco ao ler a ordem. Deveria, pois, mandar um de seus homens para a morte, sem razão aparente? Era demais até para seus parcos escrúpulos morais. Mas havia a lealdade ao rei: se Davi ordenara, que se fizesse. Então o general observou bem a cidade, e enviou Urias para um lugar onde sabia que o exército inimigo era mais forte. As tropas inimigas saíram da cidade para enfrentar o exército de Joabe. Sua lealdade parava por aí: Joabe era um guerreiro e um comandante, não ia retirar-se só para satisfazer um capricho de seu rei. Então fez frente ao ataque, e alguns de seus oficiais foram mortos na desnecessária batalha. Entre os mortos estava Urias, conforme o planejado.
Com sua abjeta missão cumprida, Joabe mandou um mensageiro a Davi para que contasse sobre o resultado da batalha. Deu instruções precisas:
— Rapaz, o rei provavelmente vai ficar bravo com essa história. Mas se ele perguntar porque chegamos tão perto da cidade, e disser dos perigos que corríamos e coisa e tal, não se preocupe. Ele provavelmente vai lembrar a velha história de Abimeleque, que foi morto por uma mulher que atirou uma pedra de moinho de cima dos muros da cidade enquanto ele a sitiava. O rei adora essa história, sempre nos fala dela para dizer que não devemos chegar muito perto da muralha. Enfim: se ele perguntar por que chegamos tão perto da muralha, você apenas diz que o oficial Urias foi morto.
O mensageiro acatou as ordens e correu para Jerusalém. Não quis, no entanto, correr o risco de provocar a ira do rei, então contou a história assim:
— Majestade, os inimigos eram mais fortes e saíram da cidade para lutar em campo aberto. Nosso exército até conseguiu forçá-los a voltar para cidade, mas aí chegamos muito perto da muralha e eles começaram a atirar flechas lá de cima. Alguns dos oficiais foram mortos, inclusive o heteu Urias.
O rei conteve um risinho de vitória:
— Hum. Olha, anime o Joabe, ele deve ter ficado abatido com isso. Diga a ele que não fique preocupado, que numa batalha a gente nunca sabe quem vai morrer. Nunca sabe… Mas diga ao general que ele está fazendo um excelente trabalho, e que continue atacando com força até conquistar a cidade.
— Sim, majestade.
O mensageiro voltou para Rabá, mas antes deu a notícia a Bate-Seba. A viúva chorou lágrimas sinceras pelo marido que, afinal de contas, amava. Quando passou o período de luto, Davi mandou chamá-la e a incorporou a seu harém. Meses depois nascia o menino.
Tudo ficaria bem, fosse Israel uma monarquia absoluta. Não era: acima do rei pairava a única autoridade inconteste sobre os filhos de Abraão. O que Davi fizera a Urias ultrapassava todos os limites da vilania, mesmo dentro dos parâmetros de Javé. E ele não tardaria a demonstrar que não gostara nada daquela covardia.
Batalhas contra os amonitas e os sírios
(II Samuel 10)
Mais guerra? Sim, mais guerra. Mas dessa vez Davi não teve culpa. Juro! Querem ver?
Naás, rei de Amom, morreu e foi sucedido por seu filho Hanum. Tratava-se de uma nação amiga de Israel, então Davi resolveu enviar mensageiros até lá, levando palavras de conforto e amizade do rei de Israel para o rei de Amom. Estão vendo? Tudo na maior civilidade, nem parece aquele Davi que conhecemos.
Acontece que, quando os mensageiros chegaram à cidade de Rabá, os conselheiros do Hanum começaram a buzinar em suas reais orelhas:
— Mensageiros em missão de paz? Duvido muito…
— O senhor não conhece esse Davi, majestade? O negócio dele é sangue. Expandiu muito o reino dele nos últimos anos, e agora está interessado em Amom também.
— Mensageiros nada! São espiões, vieram aqui para observar tudo para que Davi comece a preparar um plano de ataque.
— Abre o olho, majestade!
Hanum ficou um pouco inseguro com as palavras dos homens que eram pagos para aconselhá-lo. Talvez precisasse mesmo mostrar a Davi que sabia de seus planos sujos. Não era, porém, um homem belicoso, pelo contrário: era um rei bem humorado, sempre rindo e tirando sarro de todo mundo. Então recebeu os mensageiros de Davi, mas antes de despedi-los condenou-os a um castigo dos mais bizarros: mandou que lhes rapassem metade da barba, e lhes cortassem as roupas até a altura da bunda.
Quando soube disso, Davi enviou outros mensageiros para buscarem os primeiros, que estavam muito envergonhados, sem coragem de viajar daquele jeito. A ordem era deixá-los em Jericó até que lhes crescessem as barbas novamente. Os israelitas foram de Amom até Israel com metade da cara lisa e puxando as roupas para baixo para esconder a buzanfa. Nem é preciso dizer que foram motivo de chacota por todo o caminho, que as crianças corriam atrás deles rindo, que os homens do campo atiravam-lhes pedras, e até os companheiros que os escoltavam tiravam uma casquinha de quando em quando:
toda de bundinha de foooraaa…
Uma beleza. Quando chegaram a Israel, estavam emputecidos, é claro. O que Hanum fizera era muita humilhação.
Hanum sabia que tinha mexido num vespeiro. Davi não era homem de aceitar desaforo, muito pelo contrário. Então o rei de Amom contratou vinte mil mercenários sírios em Bete-Reobe e Zobá, mais mil em Maaca e doze mil em Tobe. Um exército dos mais respeitáveis. Quando Davi soube, não perdeu tempo: enviou Joabe e seus homens contra o exército de aluguel de Hanum.
Ao chegar ao campo de batalha, Joabe deparou-se com o seguinte cenário: os amonitas haviam se postado na entrada da cidade de Robá, enquanto os mercenários sírios tomavam posição em campo aberto. Joabe podia ser cruel e inconseqüente, mas em tempo de guerra não havia ninguém melhor: logo viu que daquela forma seu exército seria facilmente cercado. Então escolheu seus melhores soldados e os formou em linha contra os sírios, deixando que o restante de seus homens combatessem os amonitas sob o comando de Abisai, seu irmão.
— Abisai, é a melhor saída. Nossos pelotões ficarão de costas um para o outro. Se você vir que eu estou apanhando dos sírios, venha me ajudar. Se eu vir que você tem dificuldades contra os amonitas, vou te ajudar. Tudo bem?
— Como assim “tudo bem”? OLHA O TAMANHO DO EXÉRCITO DOS CARAS!
— É, é, eu sei. Mas estamos nessa, agora é tarde pra voltar atrás. Seja o que Deus quiser.
Os temores de Abisai não eram justificados: depois de pouco tempo de luta, os sírios fugiram de Joabe. Vendo que sua retaguarda não mais existia, os amonitas também acharam mais sábio correrem de Abisai para dentro da cidade. Espantados com a facilidade da batalha, os dois irmãos juntaram seus homens e voltaram a Jerusalém.
A confusão iniciada pela brincadeira de Hanum não se encerraria por aí, porém: os sírios reuniram suas forças, e receberam o apoio do rei Hadadezer, que mandou chamar outros sírios que estavam a leste do Eufrates. Assim reforçado, o exército sírio marchou até a cidade de Helã sob o comando de Sobaque, general de Hadadezer. Quando soube disso, Davi achou que era hora de meter a mão na massa. Então reuniu seu exército e marchou com ele, atravessando o Jordão na direção de Helã.
Dessa vez a resistência síria foi mais cruenta, mas não o bastante para conter o ímpeto de Davi, que já estava havia algum tempo doidinho por uma carnificina. Resultado: setecentos homens de carros e quarenta mil cavaleiros sírios mortos pelo exército israelita; entre eles o comandante Sobaque.
Os reis sírios, todos subordinados a Hadadezer, acharam por bem fazer um acordo de paz com Davi, permitindo que Israel se imiscuísse mais ainda em seu território. Ajudar os amonitas fora um mau negócio, e eles não pretendiam voltar a fazê-lo.
Davi ainda faria muitas guerras. Nada do que fez no campo de batalha, no entanto, se comparou à crueldade com que tratou um só homem. Mas isso fica para depois…
Davi honra o filho de Jônatas
(II Samuel 9)
De volta da espetacular seqüência de batalhas e vitórias, Davi procurava algo para se ocupar. Procurou, procurou, e acabou que caiu-lhe uma idéia na cabeça. Chamou Joabe e perguntou:
— Rapaz, será que ainda há alguém vivo da família de Saul?
— Bom. Tem a Mical, sua esposa.
— Aquela megera não conta, porra. Será que há mais alguém?
— Pode ser que haja, majestade. Mas não se preocupe! Se eu encontrar, degolo o feladaputa.
— Sossega o facho, Joabe. Na verdade eu queria fazer algo de bom pela família de Saul, em honra do meu amigo Jônatas.
— Amigo. Sei.
— O que você resmungou aí?
— Eu disse “ainda não sei”.
— Hum.
— Mas vou descobrir, majestade. Xacomigo.
Joabe saiu e voltou no dia seguinte com a notícia: havia um ex-servo de Saul ainda vivo, um tal Ziba. O rei mandou que o servo fosse trazido à sua presença:
— Então você é o Ziba?
— Sim senhor.
— Aquele que gosta de levar um macho em riba?
— Er… Se lhe apetece, senhor.
— Pô, Ziba, relaxa. Foi só uma piadinha, não precisa concordar.
— Se assim o senhor quer.
— Ai, meu saco… Ziba, eu queria saber se ainda existe alguém da família de Saul…
— NÃO…
— … para que eu possa honrar essa pessoa e lhe dar tudo do bom e do melhor.
— … HÁ DÚVIDA!
— Hein?
— NÃO HÁ DÚVIDA!
— Eu acho que você ia falar não, antes que eu falasse de honrar o sujeito e coisa e tal…
— Hum. De fato eu ia, majestade. Mas compreenda: Isbosete morreu, Abner morreu. Alguma doença abate a todos que tinham algum tipo de relação com Saul.
— VOCÊ ESTÁ INSINUANDO ALGUMA COISA, ZIBA?
— Não. NÃO! Mas o senhor sabe como é. O povo fala. Os boatos correm. Dizem por aí que o senhor…
— Sei bem o que dizem por aí: que eu ordenei as mortes de Abner e Isbosete. POIS NÃO HÁ NADA MAIS ABSURDO!
— Claro que não.
— CLARO QUE NÃO!
— Se bem que foi uma mão na roda, né?
— O quê?
— Os dois terem morrido?
— Olha aqui, não tô com tempo para ficar ouvindo insinuações da ralé. Eu quero saber é se existe ou não alguém da família de Saul.
— Existe, majestade, já disse. O Vírgula-e-Vírgula.
— QUEM???
— Ah, é o apelido do rapaz. Veja o senhor: quem manca de uma perna é chamado Ponto-e-Vírgula. Ele manca das duas, então o povo acabou apelidando o pobre de Vírgula-e-Vírgula.
— Ai ai ai… O NOME dele, Ziba.
— Ah. Mefibosete. Está em Lo-Debar, morando na casa de um tal Maquir.
— Mefibosete, hein? Filho do finado Isbosete?
— Não. Do finado Jônatas.
— FILHO DO JÔNATAS? PUTA QUE PARIU, E FIQUEI ESSE TEMPO TODO SEM SABER DA EXISTÊNCIA DO FILHO DO JÔNATAS?
— Eu compreendo sua comoção, majestade. Sabe como é, o povo diz por aí que o senhor e o Jônatas… Bom, o senhor sabe.
— Ziba, você é mais fofoqueiro que funcionária pública aposentada.
— Obrigado, majestade.
— Ai meu saco. Bom, vá a Lo-Debar e me traga o Vírg… o MEFIBOSETE imediatamente.
— Às ordens.
No dia seguinte, Ziba apareceu em Jerusalém trazendo Mefibosete. De fato, o rapaz era aleijado dos dois pés. Era assim devido a um infeliz acidente: ao receber a notícia da morte de Saul e de Jônatas, sua ama o pegara e saíra correndo para salvar a vida do menino. Só que, na pressa, deixou-o cair.
Ao ver o rapaz chegando, arrastando os pés com dificuldade e exibindo no rosto inequívoca semelhança com Jônatas, Davi teve que se esforçar para conter as lágrimas. Quando chegou perto do trono, ele ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em sinal de respeito.
— Mefibosete!
— Sim, senhor.
— Ah, como você se parece com seu pai! Bom, da cintura pra cima pelo menos.
— Sei como é, senhor. O povo diz que o senhor conhecia meu pai muito bem da cintura pra baixo…
— Estou fazendo piada com seus pés aleijados, mocinho.
— Ah, isso. Hum. Desculpe.
— Tudo bem, tudo bem. Filho do Jônatas, nem acredito! Como anda a vida?
— Anda feito eu: se arrastando.
— Pois isso vai mudar, Mefibosete, vai mudar! Todas as terras que pertenciam ao seu avô serão suas agora.
— Puxa! Nem sei como agradecer, majestade.
— Tem nada que agradecer.
— Mas eu sou um pobre cachorro morto! Como é que o senhor pode ser tão bondoso comigo?
— Você é filho do único amigo que eu já tive. Precisa mais que isso? E tem mais. Cadê o Ziba? ZIBA!
— Aqui, majestade.
— Ah. Ziba, é o seguinte: estou entregando a Mefibosete todas as propriedades do velho Saul.
— TODAS? Mas o rapaz vai ser o homem mais rico de Israel!
— A intenção é essa, oras.
— O senhor é muito bondoso, majestade.
— Eu sei. Quanto a você, vai cultivar as terras de Mefibosete, junto com seus filhos e seus empregados.
— Mas eu só tenho vinte empregados, majestade!
— E quinze filhos. Dá e sobra. E eu vou pagar bem, não me encha o saco.
— Tá. E Mefibosete vai morar em qual das propriedades?
— Em nenhuma. Ele vai morar aqui em Jerusalém, e comer sempre à minha mesa. Bom, isso se ele quiser. Quer, Mefibosete?
— Seria uma honra, majestade.
— Oras, pare de me chamar de majestade.
— Mas chamo de quê?
— De pai, por exemplo.
— Puxa…
— Tá, tá. Sem choradeira. Tudo decidido, agora vamos cada um cuidar de sua vida.
Assim o filho de Jônatas passou a privar da convivência diária do rei, além de ser feito um dos homens mais ricos de todo o Israel. Davi o tratava como um filho, e a Mica, filho pequeno de Mefibosete, como um neto precoce.
Ah, que coisa bonita, que coisa linda! Como é bonito o amor entre as pessoas! Davi se viu cercado de toda aquela beleza, de todos aqueles sentimentos nobres, e sentiu em seu peito com toda a força o poder do tédio. Uma guerrinha ia bem.
As guerras de Davi
(II Samuel 8)
Depois de aplicar um golpe de mestre em Javé, fazendo-o confirmar suas promessas grandiloqüentes e vazias, Davi voltou para o palácio e começou a jogar paciência. Depois de duas horas não agüentava mais, então foi andar um pouco no terraço, atividade que normalmente o acalmava. Não adiantou muito, porém, e o rei resolveu-deitar-se. Depois de contar os ladrilhos do teto e de jogar uma bolinha de borracha inúmeras vezes contra a parede, cansou-se enfim: precisava fazer alguma coisa, e logo. Problema: o palácio já estava pronto, Israel não tinha grande necessidade de obras de infraestrutura (Saul cuidara muito bem disso), e Davi estava proibido de construir um templo para Javé. Que fazer, que fazer? Guerra, é claro. Mas guerra contra quem, se nenhum dos vizinhos representava ameaça. Hum… Pensando nisso, o rei passou a mão no telefone e ligou para seu homem de confiança.
— Joabe?
— Porra, quem é?
— Eu. Davi.
— Epa. Desculpe, majestade. Eu não sabia…
— Tá, tá. Venha aqui imediatamente. Precisamos traçar umas estratégias.
— Estou indo.
Cinco minutos depois Joabe chegava ao palácio. Foi recebido por um empolgadíssimo Davi:
— Rapaz, rapaz! Precisamos invadir a Filistia e Moabe.
— Peraí. Por quê? Eles não nos fizeram nada!
— Eles… ELES TÊM ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA!
— Armas de destruição em massa mil anos antes de Cristo? Você quer que eu acredite nisso?
— E você quer que eu acredite que você sabe exatamente quando Cristo vai nascer, ô paspalho?
— …
— Pô, é claro que eles não têm porra nenhuma. Mas precisamos justificar a guerra para a população. O povo israelita jamais aceitaria a guerra se soubesse de seu reais motivos.
— Que são…?
— Um, precisamos expandir esse nosso reinozinho sem-vergonha; e dois, eu tô entediado. Precisa mais?
— Hum. Guerra é sempre bom.
— Esse é o Joabe que eu conheço! Vamos começar nossos planos, então?
— Vamos.
Os dois passaram a noite toda debruçados sobre mapas e documentos. Na manhã seguinte, tinham todo um plano traçado.
Não demoraram a executar o plano: pouco tempo depois Davi guerreou contra os filisteus e os derrotou novamente, tirando Metegue-Amá de suas mãos. Depois invadiu Moabe, terra de seus antepassados, e derrotou o povo de lá. Não contente com isso, resolveu expor os moabitas a uma humilhação final: fez com que se deitassem no chão, enfileirados, e mediu a fila com um barbante. Feito isso, matou todos os homens até a medida de dois terços do barbante, escravizando os restantes. Uma forma original de genocídio, sem dúvida. Cumpria-se assim um trecho da última profecia de Balaão:
de Israel feito um astro
como um cometa deixa o rastro
ele cumprirá a lei
eu lhes digo o que sei:
derrotará os moabitas
que como moças aflitas
fugirão para as cavernas
com o rabo entre as pernas
vão morar com as cabritas.
A vitória sobre os filisteus e os moabitas, dois grandes inimigos históricos de Israel, devia bastar para conter a sanha de Davi. Não foi o que ocorreu, no entanto: sabendo que Hadadezer, rei de Zobá, pretendia estabelecer seu domínio sobre as terras próximas ao rio Eufrates, Davi reuniu suas tropas para combatê-lo. Saldo da batalha: mil e seiscentos soldados da cavalaria e vinte mil de infantaria feitos prisioneiros. Além disso, num arroubo de crueldade inexplicável, Davi separou os cem melhores cavalos de Hadadezer, aleijando todos os outros. Pobres animais.
Quando a notícia da derrota de Hadadezer chegou à Síria, tropas vieram de Damasco para apoiar o aliado. Davi nem tomou conhecimento do poderio sírio: matou vinte e dois mil soldados e botou guarnições do exército israelita na Síria. Os sírios passaram, então, a pagar impostos ao trono de Israel.
Tendo confirmado definitivamente a vitória sobre Hadadezer, Davi precisava apenas pegar seu espólio. E que espólio: os oficiais inimigos usavam escudos de ouro, que o rei levou para Jerusalém. Levou também uma grande quantidade de bronze das cidades de Betá e Berotai, antes governadas pelo rei de Zobá.
Com essas vitórias, a fama de Davi espalhava-se, chegando aos lugares mais distantes. O rei Toi, da cidade de Hamate, por exemplo, ficou sabendo que Davi derrotara o exército de Hadadezer, e enviou Jorão, seu filho, com presentes de ouro, prata e bronze para o rei. Isso porque Hadadezer e Toi haviam lutado muito, e o rei de Hamate vivia preocupado com o poderio de seu colega de Zobá. Davi juntou esses presentes a todos os objetos preciosos que tomara em suas campanhas, e ofertou tudo ao serviço do Tabernáculo.
Ainda não era suficiente: a fama de Davi tornou-se maior ainda depois de derrotar os edomitas no Vale do Sal, matando dezoito mil deles e enviando guarnições militares a Edom. Enquanto guerreava, Davi não se esquecia do povo: durante todo o seu reinado os israelitas foram tratados com igualdade e justiça, o que garantia a paz doméstica necessária a um reino em expansão.
Com tamanho sucesso em suas aventuras fronteiriças, Davi sentiu a necessidade de oficializar seu conselho, até então exercido informalmente por seus amigos e colaboradores mais próximos. Então Joabe foi confirmado no comando do exército. Josafá, filho de Ailude, foi feito cronista e conselheiro do rei. Zadoque, filho de Aitube, e Aimeleque, filho do velho Abiatar eram os sacerdotes. Um tal Seraías era o escrivão, enquanto Benaías era o chefe dos queratitas e peletitas, soldados estrangeiros pagos para fazerem a guarda pessoal do rei. Além desses, os filhos de Davi já em idade adulta também faziam parte de seu conselho, como ministros. Nada mal para um reino que começara improvisado.
Promessas de Deus a Davi
(II Samuel 7)
Com a Arca de volta a Jerusalém, Davi pensava em seu próximo ato de governo. Sabia que nesse começo era crucial ter visibilidade, para assim obter bons índices de popularidade. Pensou numa guerra, mas seria precipitado: com a expulsão dos filisteus, Israel não sofria mais nenhuma ameaça dos países fronteiriços. Pelo contrário: as relações com os vizinhos havia muito não eram tão harmoniosas. O negócio, então, era pensar em grandes eventos, como fora o cortejo da Arca até a capital, ou em grandes obras, como a do palácio. Pensando nisso, Davi falou ao profeta Natã, espécie de consultor espiritual independente:
— Natã, eu tava aqui pensando… Não é justo que eu more nesse bruto palácio, todo de cedro, enquanto a a Arca do Acordo fica lá naquela barraca.
Compreendendo que o rei se referia à construção de um templo, Natã entusiasmou-se. Ser monoteísta já fazia de Israel uma nação muito estranha, e ter uma tenda como lugar de adoração, tanto tempo depois do nomadismo, só aumentava essa estranheza. Então foi com alegria que respondeu:
— Ah, majestade! Faça o que quiser, Javé está do seu lado.
Era isso mesmo o que Davi queria ouvir, portanto ficou muito feliz com a resposta do profeta. Só havia um detalhe: Natã expressara aprovação sem consulta prévia a quem tinha autoridade para autorizar ou não. Então a surpresa de Natã nem foi tão grande quando chegou em casa, acendeu a luz, e se deparou com Javé sentado em sua poltrona predileta.
— QUE PORRA FOI AQUELA QUE VOCÊ FEZ, NATÃ?
— Hum. Porra? Que porra?
— NÃO SE FAÇA DE BESTA, SUA BESTA! QUEM DISSE QUE EU QUERO QUE DAVI ME CONSTRUA UM TEMPLO?
— Bom. Er… Olha, eu só pensei que seria uma boa idéia e tal…
— E EU TE PAGO PRA PENSAR?
— …
— Humpf. Agora cê vai voltar lá e desmentir essa baboseira. Vai dizer ao Davi que eu estou há muito tempo viajando e morando numa tenda, e que isso me agrada. Nunca morei em nenhum templo, nem pedi a Moisés, Josué, Samuel ou qualquer outro desses caras que construísse um. Gosto de morar em barraca. É mais fresco, dá pra fumar meu baseado sem dar bandeira, enfim, é muito legal. Templo, bah!
— Mas, Javé… O rei vai ficar chateado com isso.
— Hum. É, isso é. Pô, mas você também não vai chegar pro cara dizendo “Olha, Javé falou pra você não construir templo nenhum”.
— Ué. Não?
— NÃO, PORRA! Tem que ser com tato. Pra começar, relembre a ele que eu o tirei lá do meio das ovelhas, das cabras, do cheiro de bosta, e o fiz rei de Israel, o que não é pouca merda. Estive sempre a seu lado e dei a ele vitória sobre os inimigos.
— Lá isso é…
— Pois então! Com isso você já dá uma amaciada no cara. Aí começa a parte das promessas. Saco, odeio fazer promessas… Bom, diz lá pra ele que eu o farei muito famoso, tanto quanto os maiores líderes do mundo, e também que Israel viverá em paz daqui por diante. Que ele terá muitos descendentes, que um filho dele será rei depois que ele morrer, e que esse filho, sim, vai construir um templo. Assim ele sossega o rabo com esse negócio de construção.
— Legal, legal… Qual dos filhos, hein?
— Ah, sei lá! É um pior do que o outro, tenho que escolher um ainda. Acho que vou ter que decidir num bingo, não sei. Seja como for, diz pra ele que esse futuro rei será como um filho para mim, e que toda sua descendência será de reis.
— É só?
— SÓ??? NÃO FOSSE A SUA CAGADA DE FALAR PRA ELE CONSTRUIR TEMPLO, EU NÃO PRECISARIA PROMETER TANTA COISA!
— …
— VAI EMBORA!
— Mas… Mas…
— O QUÊ?
— É minha casa…
— Hum. Ah, é. Então EU VOU EMBORA! TCHAU!
— Eu te acompanho até a… Vixe, sumiu.
Depois dessa conversa um tanto tensa, Natã nem parou para pensar: só deu meia-volta e retornou ao palácio, onde deu a Davi o recado de Javé.
O rei, porém, era um tanto cético, o que fica bem claro quando vemos como ele tratava a estola sacerdotal, ou na falta de cuidado que tivera na primeira tentativa de transportar a Arca. Sendo assim, ficou muito feliz, mas achou que seria bom confirmar tantas promessas. Então foi até a tenda para falar com Javé. Postou-se atrás do véu que ocultava a Arca e fez sua prece:
— Ó, Deus de Israel, como o senhor é bom! Puxa vida, eu nem mereço tudo o que o senhor tem feito por mim, e ainda sou surpreendido com promessas de bênçãos maiores ainda para o futuro. Ah, é muito para mim, Javé! Não há ninguém como o senhor, agora eu percebo, e nenhuma nação como Israel, libertada para ser seu povo. Tirou o povo do Egito e o trouxe até aqui, varrendo do mapa os seus inimigos. Eu fico sem palavras, Javé, sem palavras! Que negócio impressionante!
Até aí, nada de mais: Davi apenas praticava a antiga arte oriental da bajulação. Mas isso era apenas uma introdução para o verdadeiro golpe:
— É por saber que o senhor é tão bom, tão maravilhoso, tão supimpa, que eu lhe peço que confirme suas promessas. Natã me falou tudo aquilo e eu fiquei besta, Javé, besta! “Como é possível?”, eu pensava. Ah, Javé, cumpra tudo o que o senhor prometeu que vai acontecer comigo e com minha família. Garanto que com isso o senhor vai ficar famoso que só o capeta… Er… Só uma força de expressão, viu? O senhor vai ficar muito famoso depois dessa. As pessoas vão dizer: “O Deus de Israel? Pô, aquele lá é Todo-Poderoso!”. Já pensou, hein? Meus descendentes sempre no trono, e o povo aqui e em todo canto só com “Todo-Poderoso” pra cá, “Todo-Poderoso” pra lá… Vai ser uma beleza, Javé, você vai ver! Digo, o SENHOR vai ver! E para isso, basta que o senhor cumpra sua promessa. Uma bobagem, o senhor sempre cumpre suas promessas, eu sei. É por isso que eu lhe peço que abençoe meus descendentes, e que minha dinastia dure para sempre em Israel. Opa, foi isso mesmo que o senhor prometeu, né? E vai cumprir, não é mesmo? Claro que vai, o senhor é TODO-PODEROSO! Arre, égua! Amém!
Atrevido demais, o Davi. Com essa oração ele não só cobrava a Javé que cumprisse suas promessas, como ainda tinha a cara-de-pau de fazer ele mesmo promessas a Deus, no mais puro estilo “uma mão lava a outra”.
Davi leva a arca para Jerusalém
(II Samuel 6)
A tomada de Jerusalém e a subseqüente vitória sobre os filisteus bastaram para dar a Davi toda a autoridade política de que precisava. No entanto, ser israelita não consistia apenas em nascer em Israel: o mais importante, na verdade, era seguir a lei mosaica, a religião que era o grande fator de união para o povo. Davi sabia disso, então teve a idéia de centralizar a religiosidade israelita em Jerusalém. Com isso em mente, convocou trinta mil de seus melhores soldados e partiu para a cidade de Baalim, em Judá.
Baalim era uma cidade também conhecida pelo nome de Quiriate-Jearim. Naquela cidade, no alto de um morro, ficava a casa de um tal Abinadabe. Naquela casa, desde antes do reinado de Saul, repousava o mais sagrado dos objetos da religião de Israel: a Arca do Acordo, dentro da qual estavam guardadas as tábuas dos Dez Mandamentos, a vara de Arão e uma porção do maná com o qual Javé alimentara o povo no deserto durante o Êxodo. O velho baú estava esquecido na casa de Abinadabe: desde que Saul massacrara quase todo o clã sacerdotal, a religião perdera sua força. A idéia de Davi era trazer um reavivamento espiritual, e com isso unir todo o povo em torno de sua liderança. Para isso, precisaria de toda a pompa que conseguisse, daí essa comitiva de trinta mil homens: era necessário impressionar o povo com a grandiosidade do evento.
Chegando a Baalim, Davi entrou na casa de Abinadabe e pediu para ver a Arca. Como a maior parte do povo, ele nunca havia visto o objeto sagrado, e ficou estupefato: o baú era todo revestido de ouro, e trazia na tampa dois querubins de ouro maciço, um de frente para o outro. Era uma bela obra de ourivesaria, não havia dúvida. Empolgado por perceber que aquilo causaria impressão maior ainda ao povo, ordenou que se preparasse um carro de bois para levar a Arca até Jerusalém. Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, guiavam o carro. Em volta dele, iam Davi e todo o povo.
A parada seguia em direção a Jerusalém, e recebia novos participantes a todo momento. Logo surgiram os instrumentos musicais: harpas, liras, tambores, pandeiros, címbalos. Todos cantavam e dançavam, comemorando a ida de Deus para a capital. No meio do caminho, porém, um incidente desagradável ameaçou jogar areia sobre a alegria do povo: quando o cortejo passava pelas terras de um certo Nacom, um dos bois, cansado, tropeçou. O carro oscilou e a Arca ameaçou cair. Num gesto reflexo, Uzá estendeu a mão para ampará-la. Imediatamente, BZZZZZZZZZZZZ, PUF!, era uma vez Uzá, fulminado pela ira divina.
Davi ficou furioso: planejara a festa com todo o cuidado, preocupara-se com os mínimos detalhes, e agora Javé vinha estragar tudo. O rei fechou a cara, chamou o lugar de Perez-Uzá (castigo de Uzá), e decidiu que o cortejo seria interrompido. A princípio, era excelente a idéia de levar a Arca para Jerusalém e centralizar ali o culto a Javé. Por outro lado, não interessava muito ao rei ter por perto um objeto que podia causar morte ao simples toque. Então providenciou a remessa da Arca para o povoado mais próximo, onde foi entregue aos cuidados de um certo Obede-Edom.
Lá em cima, Javé bateu na testa e disse “Putz! Malditos anjos!”. Pegou o elevador e desceu até o Setor de Monitoramento de Segurança:
— QUE PORRA VOCÊS FIZERAM, SEUS SONGOMONGOS?
— Er… Bem… Veja bem, Senhor. O alarme da Arca tocou, então adotamos o procedimento padrão.
— PROCEDIMENTO PADRÃO? QUE PORRA DE PROCEDIMENTO PADRÃO?
— Ué. Tocou a Arca, morre.
— QUEM FOI O IMBECIL QUE DISSE ISSO?
— Er… O Senhor mesmo, Javé.
— EU???
— É…
— Hum. Mas, porra, cês têm que ter mais jogo de cintura. Não podem fazer tudo de acordo com o manual e pronto. Olhem lá embaixo: não temos Tabernáculo, não temos sumo-sacerdote, não temos porra nenhuma! Minha popularidade já era, e o Davi estava quebrando um galhão com esse negócio de levar a Arca lá pra cidade dele. E AÍ ME VÊM VOCÊS E FODEM TUDO!
— …
— Bah, agora já era. Como estão as coisas?
— O Davi entregou a Arca a um tal Obede-Edom.
— Sei, sei… Vamos ter que dar uma mãozinha para arrumar essa merda toda.
— Como, Senhor?
— NÃO INTERESSA! Deixem que eu cuido disso. Façam aí seu trabalho, e tomem cuidado para não cagar mais nada.
— S-sim Senhor…
— E NÃO ADIANTA IMITAR O MOISÉS PRA TENTAR ME AGRADAR!
— …
— HUMPF!
Javé abanou a cabeça: não devia ser assim, caramba. Mas precisava arrumar a bagunça causada pela morte de Uzá, então passou a ajudar Obede-Edom. Logo suas colheitas passaram a ser fartas, seus animais começaram a se reproduzir em ritmo nunca visto, suas oliveiras e videiras começaram a render o melhor azeite e o melhor vinho. Obede-Edom enriquecia, e o povo logo somou dois mais dois e concluiu que tamanha prosperidade só podia ser explicada pela presença do objeto sagrado em sua casa.
Não tardou para que os fofoqueiros levassem a novidade até Davi. O rei mandou que homens de sua confiança fossem averiguar a situação, e eles confirmaram: depois da chegada da Arca, a vida de Obede-Edom e sua família melhorara de uma tal forma que só mesmo alguma interferência sobrenatural poderia explicar. Pensando que, com isso, Javé mostrava que estava pronto a ceder um pouco, Davi retomou seu projeto: organizou uma comitiva maior e mais vistosa que a primeira, e foi até a casa de Obede-Edom para trazer a Arca.
Não estavam muito longe de Jerusalém, mas o cortejo demorou muito para chegar, porque a toda hora o rei parava tudo para matar animais e oferecê-los em sacrifício a Javé. Sabem como é: por via das dúvidas, convinha bajular um pouco para evitar novas manifestações de cólera. E então Davi protagonizou uma das cenas mais estapafúrdias da Bíblia: depois de tanto suar matando e queimando bois e carneiros, Davi não agüentava mais suas roupas, e improvisou uma tanga com a estola sacerdotal. Abiatar que não deve ter gostado nada de ver o paramento (que o rei insistia em chamar de cachecol das pedrinhas) usado como cueca. Não ia discutir, porém, e Davi seguiu seu caminho usando sua fralda de lã, linho puro, fios de ouro e pedras preciosas.
Quando finalmente entrou em Jerusalém, Davi ficou tão empolgado que tomou a frente do desfile e começou a dançar freneticamente: jogava as pernas para lá, jogava as pernas para cá, descia até o chão, botava a mão no joelho e dava uma abaixadinha, fazia carinha de quem tá gostando demais, enfim, a coisa mais linda dentro daquela tanga improvisada. De uma das janelas do palácio real, Mical assistia à cena. Vendo o papel desempenhado pelo marido, sentiu por ele um profundo desprezo.
Alheio à presença furtiva da esposa, Davi continuou dançando por todo o caminho até o Tabernáculo, que tinha mandado reformar e armar para abrigar a Arca. Lá chegando, ofereceu mais sacrifícios e deu a cada pessoa que acompanhava o desfile um pão, um pedaço de carne assada e um bolo de passas. Todo mundo voltou pra casa feliz e alimentado, e o rei deu por cumprida sua missão.
Ao chegar ao palácio, porém, percebeu que havia algo errado logo que viu Mical à porta. A mulher estava com os braços cruzados, o nariz empinado e o pé batendo nervosamente no chão. Os olhos faiscavam. O rei tentou desarmá-la:
— Oi, minha rainha linda…
— Não vem com papo furado, Davi.
— Hein?
— Pensa que eu não vi a presepada? Que feio, hein, seu Davi? Dançando na rua quase pelado, a mulherada toda vendo! Sem-vergonhice…
— Ah, Mical, não enche! Cê tá pensando o quê? Que por ser filha de Saul pode mandar em mim? Pois eu tô cagando pro seu sangue azul! Deus me escolheu antes mesmo que seu pai fosse rei, tá sabendo? Seu pai morreu, eu ocupei o trono, e agora sou o rei, você aceitando ou não. Então se eu quiser dançar para Javé, eu danço. E me humilho muito mais que isso, se for necessário. Você pode pensar que eu não sou nada e, quer saber? Eu não ligo! A mulherada a que você se referiu vai me dar muito valor, pode deixar.
— Ai, Davi, também não é pra tanto. Vem aqui com a Mical, vem…
— Sai daqui! Vai pro seu quarto, me deixa em paz.
A partir de então Mical foi desprezada por Davi, e nunca teve filhos. O rei não se preocupava com isso, porém: com a Arca em Jerusalém, pensava no próximo passo que daria para fortalecer novamente a religião israelita.
Davi derrota os filisteus
(II Samuel 5:17-25)
Enquanto era rei apenas em Judá, Davi contava com o total beneplácito dos filisteus — afinal, ele era homem de confiança de Aquis, rei de Gate. No entanto, quando viram sua marionete criar vida própria e subir ao trono israelita, os filisteus não entenderam nada. E quando Davi tomou Jerusalém, os vizinhos resolveram que era hora de botar o pastorzinho ruivo em seu devido lugar. Então sitiaram Jerusalém, acampando no vale de Refaim (dos gigantes), que fica entre Jerusalém e Belém. Quando soube do sítio, Davi botou a todos de guarda e chamou seu sacerdote:
— Abiatar! Ô, ABIATAR!
— Já sei, já sei: você quer o cachecol das pedrinhas, né?
— Cachecol? Pedrinhas? Mas que porra de sacerdote é você, Abiatar? É assim que você chama a estola sacerdotal, o Urim e o Tumim? Que vergonha!
— Mas… Mas…
— Mas é um cacete! Vai logo, preciso fazer uma consulta a Javé.
— Tá na mão.
— Beleza. Pergunta aí se eu devo ir e atacar os filisteus.
— Hmmmm… Peraí… Pronto. Javé diz que sim.
— Maravilha!
Então Davi juntou seus homens e foi atacar seus antigos protetores em Baal-Perazim, onde os venceu. O nome Baal-Perazim, aliás, vem de baal (senhor) e do verbo peraz, que quer dizer abrir uma brecha. Recebeu esse nome estranho (senhor abridor de brechas) porque Davi, espantado com a facilidade com que derrotara os filisteus naquele lugar, só pôde atribuí-la a interferência divina, dizendo que Javé abrira uma brecha entre seus inimigos, como uma enchente que sai derrubando tudo. Muito poético, o Davi, como sempre.
A batalha de Baal-Perazim, no entanto, não definiu a situação: os filisteus eram muitos, e voltaram a cercar a Cidade de Davi assim que se recuperaram da primeira derrota. Então o rei quis consultar a vontade de Javé mais uma vez. Perguntou se deveria atacar os filisteus mais uma vez e a resposta foi “não”. O rei já ia começar a resmungar, decepcionado, quando ouviu uma voz em sua cabeça:
— Não vai atacar os caras assim, feito um doido. Você não tem chance.
— Epa, quem tá falando comigo?
— Sou eu, Davi. Javé, o Senhor dos Exércitos.
— PUTA QUE PARIU! Esse negócio de ser rei de Israel deixa a gente doido de verdade! Primeiro foi o Saul, agora eu estou ficando maluco também.
— MALUCO O CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Sei, sei… Mas então, o que é que o senhor propõe?
— Não ataque de frente. Dê a volta, vá até as amoreiras e ataque por trás deles, de surpresa.
— Hum… Até que você é bem esperta, voz na minha cabeça.
— EU SOU É D…
— Tá, tá, tô sabendo. Então o negócio é esse? Atacar os caras por trás?
— É. E com uma mãozinha minha, é claro. Mas não ataque logo: fique ali atrás das amoreiras, prestando atenção. Quando ouvir o som de passos por cima das árvores, ataque, porque eu já terei ido na sua frente.
— Peraí, peraí… Deus vai atacar os filisteus? Pessoalmente?
— Isso aí.
— Por quê?
— Estou cansado de não fazer nada. Tchau.
Davi não levou muito a sério essa segunda parte, claro. Interferência divina nos assuntos dos homens era algo que só acontecia nas histórias contadas para as crianças. De qualquer forma, a idéia de atacar os filisteus por trás, aproveitando a penumbra do bosque de amoreiras, era bem interessante.
De madrugada, Davi convocou seus homens para a batalha. Saíram em silêncio pelos portões de Jerusalém, marcharam em arco até o bosque das amoreiras e ficaram lá, de tocaia, esperando a ordem de Davi para o ataque. O rei só esperava o momento certo, mas levou um susto quando ouviu distintamente o som de passos sobre a copa das árvores. Era incrível, era impossível. Mas estava acontecendo e, olhando para seus soldados, ele viu em seus rostos o mesmo espanto que sentia. Que Davi se lembrasse, a história mais recente de Deus agindo para ajudar os homens era aquela do poço que ele cavara para matar a sede de Sansão, e isso acontecera já fazia alguns séculos. Então Javé viera mesmo lutar ao lado de seu povo, depois de tanto tempo de ausência? Animado pela ajuda inesperada, Davi deu a ordem de ataque, e o exército israelita marchou contra os filisteus. Os inimigos foram derrotados, e expulsos de volta para suas terras costeiras. Nunca mais eles viriam a ocupar o interior de Israel.
Com essa vitória rápida, Davi firmava-se de vez no trono. A expulsão dos filisteus das tribos do sul, esperada havia tantos anos, dava ao rei inquestionável autoridade.
Davi reina sobre todo o Israel
(II Samuel 5:1-16)
Com a morte do rei, as autoridades israelitas precisavam providenciar logo um substituto. A tarefa, que seria das mais ingratas fossem outras as circunstâncias, era então bem leve: os líderes já haviam concordado com Abner que Davi era a melhor alternativa; a morte de Isbosete apenas acelerara o processo. Então os líderes foram até Hebrom, fizeram aquela rasgação de seda com Davi — dizendo que mesmo na época de Saul ele já se mostrava um líder nato, e que Javé o escolhera e todo esse blablablá — e terminaram convidando-o para ocupar o trono unificado de Israel. Davi, que não queria outra coisa, aceitou de bom grado, e ali mesmo foi aclamado rei de todo o Israel. Sete anos e meio depois de ter subido ao trono de Judá, Davi, aos 37 anos, finalmente unificava a nação da qual seria rei por mais 33 anos. Nada mal para quem começara como mero pastor de ovelhas.
Agora que era rei, Davi precisava estabelecer sua capital. Hebrom, embora fosse cidade importante, era demasiadamente identificada com o reino de Judá. Se continuasse a dirigir o país a partir de lá, Davi corria o sério risco de não ter sua autoridade reconhecida pelas tribos do norte, o que poderia levar Israel de volta à cisão. Gibeá, capital de Saul, estava muito ligada ao nome do antigo rei. Maanaim, na Transjordânia, de onde reinara o desastrado Isbosete, fora uma escolha baseada mais na distância segura que havia entre a cidade e os filisteus do que em qualquer importância que a cidade tivesse. Enfim: Davi precisava de uma capital, e nenhuma cidade de Israel parecia adequada. Até que, durante uma passada de olhos pelo mapa do país, o pontinho representando uma cidade pareceu saltar aos olhos do rei. Era perfeita: ficava exatamente na fronteira entre Israel e Judá, o que faria dela um bom símbolo da união definitiva entre os dois reinos. Era uma cidade fortificada, tendo um trecho murado no alto de um monte, o que a tornava segura para a moradia do rei. E, finalmente, estava ocupada por estrangeiros — os jebuseus — e sua tomada seria uma vitória nacional. Davi bateu na testa: como não pensara nisso antes? A cidade era perfeita, perfeita! Que cidade era essa? Oras, vocês sabem. Vejam no mapa:

Sim, sim! Jerusalém — cujo nome hebraico, Ir-shalom, significa cidade de paz — já então era cenário de guerras.
Feliz com sua idéia brilhante, Davi tratou logo de juntar seus homens e partir para perto a fronteira entre Benjamim e Judá. Lá eles sitiaram a cidade, esperando que os jebuseus se entregassem. Nesse intento, Davi se aproximou da muralha e gritou:
— Jebu! Ô, jebu!
— Jebu teu rabo! Mais respeito, ô ruiva!
— Ruiva é um cacete! Eu sou é rei de Israel, tão me ouvindo?
— Rei de Israel, pffff… O que cê quer aqui, majestade?
— Bom, eu preciso de uma capital. Escolhi Jerusalém.
— Ah! Escolheu, foi? E me diga, como é que vossa ruiveminência pretende entrar aqui? Metendo o pé na porta?
— Se for preciso…
— Nhenhenhenhé… Pois venha, vossa baitolescência, venha! Não vamos nem perder tempo com você: só os cegos e os aleijados aqui de Jerusalém já bastam pra botar vocês pra correr de volta para Hebrom.
— É o que veremos…
Davi voltou ao acampamento e combinou o ataque com seus comandantes. Deram contra a cidade com força, e logo a tomaram, para espanto dos jebuseus. O rei e seus homens entraram em Sião, a tal fortaleza alta, que passou a se chamar Cidade de Davi.
Embora vitorioso, Davi não se esquecera da provocação feita pelos jebuseus, e disse a seus homens:
— Eu odeio essa raça, os jebuseus! Não diziam que para nos derrotar bastavam os cegos e os aleijados? Pois sim! Onde estarão os safados? Eu tenho um palpite: subam pelo canal de água que entra na cidade, aposto que os filhos-da-puta estão escondidos lá.
Os soldados israelitas assim fizeram, terminando assim a tomada fulminante de Jerusalém.
Já estabelecido em sua capital, Davi firmava-se no trono. Como se isso não fosse suficiente, Hirão, rei de Tiro — mais importante cidade da Fenícia — mandou de presente ao novo rei de Israel toras de cedro, carpinteiros e pedreiros, para que lhe construíssem um palácio. O primeiro palácio da monarquia israelita digno desse nome foi construído em Sião. Além dele, Davi ordenou que se construíssem mais muralhas, reforçando assim a segurança de sua cidade.
Em paz e segurança, morando num palácio construído com o melhor cedro do Líbano, Davi encontrou tempo para entregar-se a seu esporte favorito. Arrumou mais algumas mulheres, e em Jerusalém lhe nasceram mais filhos: Samua, Sobabe, Natã, Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete.
Epa, alguém falou em Salomão? Sim, sim. Mas foi só uma lista. Salomão ainda demora para surgir na nossa história. Antes, entre outras coisas, Davi devia explicações aos seus protetores filisteus.
Outra curiosidade: na trilogia de Matrix, Zion (nome inglês de Sião) é a cidade dos humanos, a “casa” para a qual todos querem voltar. A reverência que os personagens do filme demonstram ao falarem de Zion reflete a mesma atitude dos judeus em relação a Jerusalém.
Isbosete é assassinado
Desde a morte de Abner, há uma semana, comentava-se sobre o comportamento do rei de Israel. Pessoas mais próximas a Isbosete dizem que o rei estava temeroso depois do assassinato do comandante de seu exército e homem mais influente do reino de Israel. Alguns críticos diziam que Abner seria o verdadeiro governante, estando Isbosete no trono apenas para legitimá-lo, por ser filho do rei Saul. Ao fazer um acordo com Davi, porém, Abner teria despertado a desconfiança de Joabe, comandante do exército de Judá, que o apunhalou nos portões da cidade. Apesar da fama de severo de Davi, Joabe não recebeu qualquer punição.
As duas mortes consecutivas muito beneficiaram a Davi, mas o rei de Judá tem se preocupado em demonstrar que não teve qualquer participação nos crimes. A cautela talvez evidencie que Davi pretenda mesmo reunificar os reinos de Israel e Judá, governando a ambos.
— Viu só, rapaz? Mataram o hômi.
— Já foi tarde…
— Não diga isso! Pô, o cara era rei.
— Rei, rei… Que rei nada! Cê não viu a reação dele quando soube da morte do Abner?
— Não vi, e duvido que você tenha visto. Aliás, duvido que qualquer um daqui deste cu de mundo que é Naftali tenha visto alguma coisa.
— Tá, tá, eu não vi. Mas sabe o meu cunhado?
— Sei.
— Então. Ele tem um primo em Zebulom, sabe?
— Aquele altão que veio aqui uma vez?
— Esse. Então, esse primo serviu o exército junto com um sujeito cujo irmão está comendo a copeira do palácio.
— Puxa, sua informação é de primeira mão mesmo…
— Não enche. Pois então, a copeira disse que o Isbosete tava num salão lá, lendo historinhas para as crianças. Tava contando a história de Sansão, parece. Aí entrou um puxa-saco qualquer lá, todo esbaforido, com a notícia da morte de Abner. Sabe o que o seu rei fez?
— O quê?
— ABSOLUTAMENTE NADA! A tal copeira disse que ele ficou bem uns sete minutos parado, sem esboçar reação.
— Ah, por favor! Já ouvi essa história, tudo balela da oposição.
— Tô te falando, rapaz! Eu não ouvi dizer! O primo do meu cunhado serviu o exército com…
— Tá, tá, já sei. Mas e depois dos sete minutos, o que ele fez?
— Mandou trancar as portas do palácio e se escondeu no quarto!
— Mentira!
— Mas se eu tô te dizendo! Se trancou no quarto e ficou lá tremendo de medo. Dizem até que um guarda mais gaiato passou em frente a janela e gritou “Joabe!”. O rei quase se caga todo.
— Tsk.
— Era um covarde! Ao contrário do Davi, esse sim é um cabra bom.
— Tão bom que passou pro lado dos filisteus…
— E você queria que ele fizesse o quê, com Saul e todo seu exército na cola dele? Precisou fugir por um tempo, foi isso.
— Hum, sei…
— E agora que Isbosete empacotou, é hora de Davi ser rei do negócio todo.
— Mas como? O cara nem é da família real.
— Cê não sabe nada mesmo… Pra começar, o Samuel ungiu Davi ainda na época que Saul era rei.
— Taí, dessa eu não sabia.
— Pois é, pois é. Além disso, cê não soube que Davi mandou buscar a tal Mical na casa do cara com quem estava casada? O Abner foi até lá, saiu arrastando a mulher, o marido veio correndo atrás e chorando, uma palhaçada.
— Acho que vi isso numa revista de fofocas… Na sala de espera do dentista, sabe como é.
— Pois então! Agora ele é casado com a filha de Saul, portanto é da família real.
— Pô. Sujeito esperto, esse Davi.
— Tô falando, rapaz, ele vai ser rei. E vai ser logo.
— Sei não, sei não…
— Quer apostar?
— Opa. Se Davi se tornar rei mesmo, te dou dez das minhas ovelhas. Caso contrário, você me dá aquele seu camelo premiado.
— Fechado.
— Olha…
— Não tem erro, rapaz, tô te dizendo! Nunca foi tão fácil tirar dez ovelhas de alguém.
— Humpf.
