(II Samuel 21:1-14)
Viver em Israel nos tempos da monarquia podia ser perigoso, assustador, difícil, qualquer coisa, menos entediante. Nos últimos capítulos narramos o desenrolar de duas tentativas de derrubar Davi de seu trono, uma delas por parte de seu próprio filho.
(Cair do trono não é legal. Eu caí uma vez. É difícil levantar quando se tem as calças emboladas entre as canelas. Mas voltemos).
Eu ia dizendo que viver em Israel etc. etc. não era nada entediante. Depois das duas revoltas, uma grande fome abateu-se sobre o povo escolhido por Javé. Durou um ano, e o povo nem chiou. Fomes de um ano deviam ser rotina na época, ainda mais no meio do deserto. Mas veio o segundo ano de fome, e eis que o povo murmurou “Epa”. Veio o terceiro ano, o povo começou a reclamar. Davi não tinha o que fazer: contra os motins, bastava usar a força. Mas o que ele poderia fazer no caso da fome? Levar o exército para espetar a terra com suas espadas, “Vamo produzindo aê, terra, senão o bicho pega”? Flechar as nuvens para fazer chover? Não, não havia muito como usar a força para resolver o problema da fome. Davi pensou, pensou, e por fim se lembrou de um personagem que andava meio sumido. Tendo se lembrado, foi até o Tabernáculo.
— Oh, Javé, deus de Israel!
— …
— Aham. OH, JAVÉ, DEUS DE ISRAEL!
— Ô, PORRA! NÃO POSSO NEM DORMIR?
— Er… Javé? Você… Digo, o Senhor estava dormindo?
— Dormindo? Eu? Claro que não! Tá pensando o quê?
— É que o Senhor disse que…
— NÃO INTERESSA! Eu não durmo nunca, ô… ô… Como é mesmo seu nome?
— Davi.
— Exatamente. Pois eu não durmo nunca, ô Davi. Estou sempre vigilante, de olho em Israel, meu povo tão querido, que eu protejo tal como um pai amoroso etc.
— Ah… Então o Senhor está sabendo da fome, não?
— Você está com fome? Pô, ainda falta muito pra hora do almoço, deixa de ser guloso!
— Hum. Não exatamente, Javé. Estou falando da fome que nos aflige.
— Aflige quem?
— Israel, Javé.
— Quem é esse?
— Israel? Ué! Seu povo tão querido, que o Senhor protege tal como…
— Ah, ESSE Israel. Hum. Fome?
— Sim. Não há alimento, Javé.
— Sei, sei. Olha, eu acho que ainda tenho umas sobras de maná em estoque aqui, caso interesse…
— Bom, na verdade eu queria saber por que essa tragédia está acontecendo conosco. Por que o Senhor permite que coisas más aconteçam a pessoas boas? Por que deixa que o justo sofra enquanto o ímpio é recompensado? Por que o trabalho do homem não produz fruto, e o suor de seu rosto não lhe traz o alimento?
— Porque é divertido…
— HEIN?
— Er… Porque… Olha… Por causa de Saul.
— SAUL?
— Sim, sim, Saul. O rei, aquele doido.
— O rei sou eu, Javé.
— VOCÊ? Quando foram as eleições? Não tenho lido jornal ultimamente.
— Que eleições??? O Senhor me ungiu, me escolheu para reinar sobre Israel!
— EU??? Ah, sim! Claro, claro que fui eu. Quem mais? Eu o escolhi. É verdade. Só queria ver se você se lembrava. Você se lembra. Parabéns.
— Hum. Mas e então? Por que há fome em Israel?
— Culpa de Saul, já disse.
— Mas Saul morreu há anos!
— Morreu, foi? Puxa… Aham. Mas antes de morrer ele… Sei lá. Matou os gibeonitas.
— COMO?
— Sim, sim, matou os gibeonitas. Aquele menino fez um acordo de paz com esses caras. Como era o nome dele?
— Josué?
— Esse. Josué fez um acordo com os gibeonitas lá no tempo dele. E Saul, em um acesso de loucura, massacrou os gibeonitas.
— Ué, mas os gibeonitas vivem por aqui até hoje. Eu nunca ouvi falar nesse massacre.
— Ah, é? Tá, talvez não tenha sido um massacre, massacre. Mas ele matou uns caras lá.
— E o que isso tem a ver com a fome?
— Como assim, o que tem a ver? Tem tudo a ver! Eu não posso aceitar uma injustiça como essa, o cara chegar e matar todo um povo. Ou quase todo. Tá, vá lá, meia dúzia de caras.
— E por causa disso todo o país paga?
— É, ué. E agora me deixe, que eu vou voltar para a cama. Digo, para a constante vigilância. Sobre Israel. Meu povo querido. Aquele negócio todo.
Davi saiu do Tabernáculo pensando no que Javé lhe dissera. Era necessário reparar o que Saul fizera aos gibeonitas. Não fazia muito sentido, mas quem é que alcança os mistérios dos pensamentos de Deus e coisa e tal? Então o rei foi até a região onde moravam os gibeonitas e perguntou o que poderia fazer para compensá-los pelo mal que Saul lhes fizera.
— Podem pedir o quanto quiserem. Façam seu preço, eu pago.
— Ah, majestade, deixa disso! O que Saul fez não pode ser consertado com ouro nem com prata. Não precisa pagar não.
— Ah, que bom. Então está tudo resolvido?
— CLARO QUE NÃO! ELE ACABOU COM NOSSO POVO!
— Acabou? E como vocês estão aqui?
— Er… Tá, talvez ele não tenha acabaaaado com a gente. Mas, bom, deu uma desequilibrada e tal.
— Tá. E como eu posso lhes pagar por isso?
— Olha, o senhor podia nos trazer sete descendentes de Saul. Nós os levaríamos até Gibeá, a cidade onde ele nasceu, e os enforcaríamos em árvores com cordas de cânhamo. Ao meio-dia. Virados para o oeste.
— Puxa. Vocês tiveram muito tempo para pensar nisso, não?
— …
— Tudo bem, vou atender ao pedido de vocês.
A Davi não soava bem esse sacrifício coletivo. No entanto, se essas sete mortes significariam o fim da fome, era o melhor que ele tinha a fazer. Contra Mefibosete ele não podia nem queria fazer nada, uma vez que era filho de Jônatas, seu melhor amigo. Então escolheu dois filhos que Saul tivera com Rispa, e mais os cinco filhos de Merabe, filha de Saul, e entregou os sete aos gibeonitas. Felizes da vida, eles enforcaram os homens em Gibeá.
Rispa, que fora concubina de Saul e era mãe de dois dos mortos, foi até Gibeá, improvisou uma barraca sobre uma rocha e ficou vigiando os cadáveres. Os homens haviam sido enforcados no fim da primavera, começo da colheita da cevada. Pois a danada da mulher ficou por ali desde a primavera até as chuvas de outono, espantando os urubus durante o dia e os coiotes durante a noite.
(Não sei se ela enxotava os bichos, ou se era muito feia e eles nem chegavam perto. Ou se fedia demais até para animais carniceiros. Sei lá. Voltemos).
Quando soube do que ela havia feito, Davi ficou admirado com a teimosia da mulher. Mandou, então, que trouxessem os restos mortais de Saul e Jônatas lá de Jabes-Gileade, e que os enterrassem no túmulo de Quis, pai de Saul, juntamente com os sete homens enforcados pelos gibeonitas. Com os sete mortos e enterrados, os gibeonitas se deram por satisfeitos, e Javé, em sua infinita misericórdia, afastou de Israel o flagelo da fome.
Louvado seja.
Categoria: Bíblia
A revolta de Seba
(II Samuel 20)
Como vimos no último capítulo, aquele negócio de unificar o reino não funcionava muito bem. Tanto que, ainda no caminho de volta a Jerusalém depois de derrotar Absalão, Davi se viu no meio de uma briga entre os homens de Judá e os de Israel. Brigavam por ele, o que podia ser lisonjeiro, mas era também um pé no saco. Por acaso havia um revolucionário ali entre eles chamado Seba, da tribo de Benjamim. Usava barbicha, bolsa de crochê a tiracolo, boina na cabeça, camiseta do Che Guevara, e só não falo das sandálias de couro porque isso todo mundo usava. Cansado daquela discussão sem sentido sobre quem tinha mais direito a levar o rei de volta à capital, subiu numa pedra e gritou:
— COMPANHEIROS ISRAELITAS!
— CALABOCA, REFUGO DA FEFELECHE!
— CALABOCA É UM CACETE, SEU PORCO CAPITALISTA, CHEIRA-BUNDA DE DAVI! ABAIXO A DITADURA! ABAIXO O FILHO DE JESSÉ!
— QUEM???
— DAVI, PORRA!
— Ah…
— PARA QUE VAMOS SEGUI-LO, SE ELE SÓ VAI MESMO CUIDAR DE JUDÁ? COMPANHEIROS ISRAELITAS, VAMOS VOLTAR PARA CASA!
Os homens de Judá trocavam comentários sarcásticos sobre o revolucionário, e sorriam, condescendentes. No entanto, os israelitas começaram a cochichar, acenar com a cabeça, e foram se reunindo ao redor de Seba. Os de Judá não se conformavam:
— Mas que diabo essa baianada tem na cabeça???
E viram, estupefatos, os israelitas voltarem para suas casas. Todos sabiam como eram os israelitas: uma vez que encasquetavam com uma idéia, não adiantava tentar demovê-los. Então os de Judá fizeram Pffff… e acompanharam o rei até Jerusalém.
Chegando à capital, a primeira providência de Davi foi isolar as dez concubinas que havia deixado para guardarem o palácio. Deixou-as numa casa guardada por soldados, e dava-lhes tudo de que precisavam. No entanto, nunca foi visitá-las. Pegara nojo delas depois de saber do que Absalão fizera. Com essa providência tomada (providenciazinha um tanto covarde, digamos), o rei resolveu preocupar-se com a revolta arquitetada por Seba. Para isso, chamou Amasa:
— Amasa. Você é o novo comandante do meu exército.
— Sou?
— Ai, ai… Não está lembrado? Eu destituí Joabe, e dei o cargo dele a você.
— Ah, é verdade!
— Então…?
— …?
— Você não está sabendo da revolta de Seba, Amasa?
— …?
— O DA BARBICHA!
— Ah, aquele! Sim, sim. Que coisa, não?
— Pois é. O que você pensa dessa situação?
— Penso que alguém tem que tomar providências!
— Oras, não me diga!
— Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu já disse. Então…
— VOCÊ É O GENERAL DO MEU EXÉRCITO, AMASA! VOCÊ TEM QUE TOMAR PROVIDÊNCIAS!
— E-eu? Olha, majestade, não é muito a minha. Sou um cara mais pacífico, sabe? Gosto de orquídeas, de palavras cruzadas, essas coisas…
— MANÉ ORQUÍDEAS! VOCÊ VAI CONVOCAR TODOS OS HOMENS DE JUDÁ, ESTÁ ME OUVINDO?
— Claro que estou. Gritando desse jeito…
— Humpf. Convoque a todos, e esteja de volta com eles depois de amanhã. Entendeu?
— Sim senhor. Mais alguma coisa?
— Por enquanto não. Só faça o que eu mandei.
Os dois dias se passaram, e nada de Amasa aparecer com seu exército. Davi bem desconfiava que aquilo não podia dar certo: conhecia bem o temperamento de Amasa. Mas não podia voltar atrás e devolver o cargo a Joabe. Isso o desmoralizaria para sempre. Por outro lado, não podia ficar esperando pela boa vontade de Amasa. Havia uma revolta a ser contida, havia urgência. Então o rei pensou num meio-termo: mandou chamar Abisai, irmão de Joabe.
— Abisai, o tal de Seba vai dar mais trabalho do que Absalão.
— É só um moleque, majestade.
— Um moleque cheio de idéias, não se esqueça. Idéias são perigosas. Quero que você vá atrás dele com os homens do palácio, antes que ele tome pontos estratégicos de Israel.
— Sim senhor.
Abisai convocou a elite do exército, não esquecendo, é claro, de seu irmão Joabe. Saíram da cidade para perseguir Seba, e pararam na pedra grande que ficava em frente a Gibeão. Amasa, que finalmente conseguira juntar um exército um tanto mal ajambrado, foi encontrar-se com eles.
— Ô, pessoal. Tô atrasado? Puxa, isso dá um trabalhão, né não? Abisai! Como vai você, rapaz? E Joabe! Puxa, sou seu fã. Espero que você não tenha… hum… guardado rancor pelo que houve.
— Mas é claro que não!
— Ufa… Sabe como é, eu não tenho culpa. O rei decidiu. E quem sou eu para discutir com o rei?
— E eu, então?
— Hehehe.
— Deixe de bobagem, rapaz. Dê cá um abraço.
Dizendo isso, Joabe pegou-o pela barba, demonstrando a intenção de beijá-lo. Encantado pelas boas maneiras de Joabe, Amasa não percebeu a espada que o general trazia na outra mão. Quando percebeu, já era tarde: tinha os intestinos expostos e um triunfante Joabe em sua frente. Ficou estrebuchando no meio do caminho. Vendo que todos paravam para olhar o comandante que agonizava no chão, segurando as tripas e balbuciando algo sobre orquídeas, um soldado o arrastou para fora da estrada e o cobriu com uma manta.
Enquanto isso, Seba já havia atravessado todas as tribos de Israel, e agora estava na cidade de Abel-Bete-Maacá. Marcara uma reunião ali para decidir os rumos da nação. Parecia uma boa idéia, mas não funcionava direito: entre tantas questões de ordem, autocríticas, votações sobre cada item da agenda, a reunião estendia-se e nada era resolvido. Melhor para Joabe e Abisai, que tiveram tempo de colher informações, ir até a cidade e cercá-la. Faziam de tudo para derrubar as muralhas, quando uma mulher botou a cabeça por cima do muro.
— EI! VOCÊ É JOABE?
— HEIN? SIM, SOU EU!
— VEM AQUI UM INSTANTINHO?
— POIS NÃO!
— ESCUTA, EU…
— Er… Já estou aqui, pode parar de gritar.
— Ah, desculpe. Então. O senhor não conhece a fama desta cidade? Não sabe que antigamente as pessoas vinham aqui pedir conselhos? Abel é conhecida como a cidade mais leal e pacífica de todo o Israel.
— Sim, eu sei.
— E agora o senhor quer destruí-la?
— Olha, querer mesmo eu não quero. Mas um tal de Seba começou uma revolta contra Davi, e nós fomos incumbidos de capturá-lo. Entreguem só esse homem, e deixaremos a cidade em paz.
— Ah… Deve ser o sujeito da reunião secreta. Vou lá pegar o danado.
— Ué. A reunião não é secreta?
— É.
— E como a senhora sabe onde encontrá-lo?
— Ah, estenderam uma bruta bandeira vermelha na porta da casa em que estão reunidos.
— Que burros!
— Pois é. Então, espere aqui. Vamos jogar a cabeça dele por cima do muro.
— Er… Não precisa tanto, sabe? Só traga o homem aqui e pronto.
— Ah, mas assim não tem graça…
A mulher saiu e foi falar com os habitantes da cidade. Eles pesaram suas opções: ou cortavam a cabeça de Seba ou teriam sua cidade arrasada. E, para falar a verdade, ninguém mais agüentava aquela propaganda revolucionária de Seba. Foram, portanto, até a casa onde ele estava e, muito gentilmente, explicaram-lhe que teriam que cortar-lhe a cabeça. Ele quis resistir, mas cedeu quando foi informado que a decisão tinha sido tomada por votação unânime. Suas últimas palavras foram:
— Morre um revolucionário mas.
Talvez ele tivesse algo mais a dizer, não se sabe. É muito difícil falar com a cabeça separada do corpo. Experimentem.
Joabe levou um susto quando ouviu um barulho e viu que fora causado pela queda da cabeça de Seba a seus pés. Ordenou a um dos homens que a colocasse num saco, e voltaram todos para Jerusalém.
O retorno de Davi
(II Samuel 19)
— ABSALÃO MORREEEEEU! MORREU ABSALÃAAAAAAAAO! QUE QUE EU FAÇO, MEU DEUS, QUE QUE EU FAÇO? POR QUE VOCÊ NÃO ME LEVOU E DEIXOU ABSALÃAAAAAO? BUÁAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Quem é a histérica que tira o sossego de todo o Israel com esses berros? Pois não é outra senão Davi, o bravo guerreiro, libertador e unificador do reino. Andando de um lado para o outro numa sala que fica sobre o portão da cidade de Maanaim, ele chora, berra, esperneia. Que vergonha, que vergonha!
E Joabe pensava exatamente o mesmo enquanto ouvia a choradeira do rei. Sim, ele matara aquele moleque petulante, e daí? Se o deixasse vivo, ele ficaria calmo por um, dois, cinco anos; e depois armaria outra sedição. Fizera um favor a Davi livrando o reino de Absalão, e era assim que ele agradecia? Os soldados voltaram do campo de batalha em festa, mas tiveram que entrar em silêncio na cidade ao ouvir os gritos do rei. Então o negócio era lamentar aquela vitória estupenda, voltar para a cidade como se estivessem envergonhados de uma derrota só porque o filhinho do rei (que, aliás, era o inimigo) morrera? Ah, isso não ia ficar assim! Cansado daquela ladainha, Joabe subiu até a sala onde o rei dava seu espetáculo patético.
— Majestade…
— JOABE! ABSALÃO MORREEEEEEEEU! MEU FILHO MORREEEEEEEEEEU! MEU FILHO M…
— MORREU, MORREU, JÁ SEI! MAS QUE PORRA!
— …
— O senhor humilha seus soldados, sabia? Os caras foram pra guerra para salvar sua vida e a de sua família, e como é que o senhor agradece? Abre o berreiro, lamentando a morte daquele desgraçado que o traiu descaradamente! Que negócio é esse? Então o senhor ama os que o odeiam e vice-versa? Estaria muito feliz se Absalão estivesse vivo, e eu e os soldados, mortos.
— Peraí, Joabe, peraí. Não é bem assim…
— NÃO É BEM ASSIM O CACETE! O senhor trate de sair daqui, lavar essa cara e ir falar com os soldados, elogiá-los. Se o senhor não fizer isso, juro por Deus que amanhã nenhum deles estará do seu lado.
Davi olhou bem para Joabe e viu que ele não estava brincando. Então quem ele achava que era, para vir assim dando bronca no rei, sem mais aquela. Isso não ia ficar assim. Mas Joabe podia esperar, e além do mais ele tinha razão num ponto: os soldados podiam se sentir ofendidos com aquela choradeira. Então o rei lavou o rosto e foi sentar-se às portas da cidade. Quando souberam que Davi estava lá, os soldados foram reunir-se à sua volta.
Aquele negócio todo de unificar o reino era muito bonito no papel (ou no pergaminho, sei lá), mas na prática não funcionava muito bem. Na primeira crise mais séria, já se ameaçava uma nova ruptura. Primeiro foram as tribos do norte (tradicionalmente chamadas de “Israel”) que resolveram que seriam os primeiros a trazer Davi de volta ao trono. Eram afoitos, os israelitas: também haviam sido os primeiros a apoiar Absalão. Davi não se esquecera disso, por isso enviou os sacerdotes Zadoque e Abiatar com uma mensagem para os líderes de Judá:
Eu, assim como vocês, sou de Judá. Somos parentes, portanto. Então por que é que vocês vão ser os últimos a me aceitarem de volta? Estou um tanto confuso com isso…
D.
A mensagem mexeu com os brios dos líderes das tribos do sul. Claro: eles tinham certeza de ser o verdadeiro Israel; o resto era baiano. Ainda não sabiam se o rei só queria provocá-los, ou se pretendia mesmo aceitar o convite da baianada. Mas o rei resolveu deixar claro de que lado estava, substituindo Joabe por Amasa no comando de seu exército. Com isso, Davi matava dois problemas: livrava-se de Joabe, que lhe matara o filho e depois lhe faltara com o respeito, e demonstrava que pretendia aproximar-se mais de Judá, posto que Amasa era do sul. Fora também um dos conspiradores, comandande do exército de Absalão, mas isso era só um detalhezinho. Esse negócio de política sempre foi desse jeito, tudo esculhambado.
O importante é que os homens de Judá mandaram uma mensagem ao rei, implorando por seu retorno. Então Davi reuniu seus oficiais, despediu-se do povo de Maanaim e tomou o caminho do Jordão. E aqui, meus amigos, vemos como estar por cima da carne seca é sempre melhor. Primeiro foi Simei, lembram dele? Quando Davi saiu de Jerusalém às pressas, fungindo de Absalão, esse Simei o encontrara no meio do caminho e acompanhara a comitiva por um bom tempo, insultando o rei. Quando soube, porém, que Davi se preparava para atravessar o Jordão e voltar à capital, ele tratou logo de ir ao encontro do rei. Não foi sozinho: juntou mil homens da tribo de Benjamim para acompanhá-lo. Para se garantir, sabe como é… Quando Davi se preparava para atravessar o rio, foi surprenndido por um puxão em sua túnica. Era Simei prostrado no chão, todo choroso:
— Majestade! Majestade! Me perdoe, majestade! Esqueça o que eu fiz, por favor! São os tóchicos, majestade! Eu sei que fiz merda, por isso sou o primeiro israelita a vir aqui hoje.
Abisai, porém, ainda não se esquecera da humilhação daquele dia, e cochichou no ouvido do rei:
— Esse cara te amaldiçoou, majestade, e agora que o senhor está no poder de novo quer pedir desculpa. Assim é fácil! O negócio é matar esse feladaputa.
— Escuta aqui, Abisai. Eu não sei o que a mãe de vocês tinha nos peitos, pra saírem dois cabras sanguinários feito você e Joabe. Eu só sei é que hoje é dia de festa, e nenhum israelita será morto. — e virando-se para Simei: — Ouviu, zé ruela? Fique sossegado, não vai lhe acontecer nada. Agora larga a minha roupa, cacete.
Davi mal se livrou de Simei, e lá vem outro sujeito todo melífluo. Mas esse parecia um metaleiro: cabelo e barba compridos, sujo, fedido. Se não viesse mancando, o rei jamais saberia que se tratava de Mefibosete, o neto de Saul.
— Mefibosete, meu filho. Por que você não foi comigo, hein?
— Ah, majestade, nem me fale! Estou esses dias todos sem fazer a barba e sem tomar banho, de tanta tristeza.
— É, percebi. Você bem que podia aproveitar o rio pra tomar um banhozinho, não? Tá difícil, rapaz!
— Eu sei, eu sei. É que eu queria muito ter vindo com o senhor. Mas eu sou aleijado, não sei se dá pra notar. Então mandei meu jumento arrear meu escravo… Digo, o escravo arrear o jumento, para eu poder vir com o senhor. Mas o desgraçado do jumen… do ESCRAVO me traiu, foi contar aquele monte de mentiras ao senhor, que eu achava que ia ser rei e não sei mais o quê. Bom, mas o senhor sabe tudo, faça o que achar melhor. Toda a família do meu pai merecia ser morta, mas o senhor me recebeu como a um filho. Não tenho o direito de lhe pedir mais favor nenhum.
— Não precisa dizer mais nada, meu filho. Dividirei a propriedade de Saul entre você e Ziba.
Espera, espera, façamos uma pausa: primeiro o rei recebera Mefibosete no palácio, e lhe dera tudo o que fora de Saul. Depois, convencido por Ziba de que seu senhor o traíra, Davi passara ao escravo tudo o que era de Mefibosete. E agora que o neto de Saul dizia que Ziba o traíra, ele dividia tudo entre os dois? Meio precipitado, não? Deve ter sido isso que Mefibosete pensou, porque apenas respondeu:
— Deixa pra lá, majestade. Ziba pode ficar com tudo. Já estou feliz só por ver o senhor voltando para a casa.
Como se pode ver, foi o Dia Nacional do Puxa-Saco Israelita. Além desses, um velho de oitenta anos chamado Barsilai, que recebera o rei em Maanaim, também foi dar sua bajulada. Davi quis levá-lo a Jerusalém, mas ele recusou, dizendo que já estava velho demais e só daria trabalho. Se o rei quisesse, que levasse Quimã, seu escravo. Então acompanhou Davi até o outro lado do Jordão, recebeu a sua bênção e voltou para casa.
Mas eu dizia que aquele negócio de unificar o reino era complicado. Pois vejam: mal o rei acabou de atravessar o rio, os homens de Judá e de Israel já começaram uma discussão. Diziam estes:
— Majestade, por que é que esses cabras de Judá se acharam no direito de trazê-lo para este lado do Jordão?
Respondiam aqueles:
— Calaboca, baianada! O rei é nosso parente, vocês não percebem? Isso é motivo pra vocês já virem de peixeira na mão?
Treplicavam os israelitas:
— POIS QUE SEJE! NÓS TEMOS DEZ VEZES MAIS DIREITO DO QUE VOCÊS! — diziam isso porque representavam dez tribos, sendo Judá formado por apenas duas — Tão fazendo pouco de nós, é? Nós é que tivemos a idéia de trazer o rei de volta, que porra é essa?
A briga prosseguia. Davi, cansado, só olhava, evitando dar opinião. Eles que se entendessem, ele queria era sossego.
Mas não teria, claro.
A derrota de Absalão
(II Samuel 18)
Sentado numa cadeira entre os portões da cidade Maanaim, Davi pensa na situação em que se encontra e sente-se desgostoso. O reino que ele tanto lutou para unificar está novamente dividido. Pior: tudo por causa de seu filho, aquele moleque irresponsável com quem ele foi tão bondoso. Agora está aqui, do outro lado do Jordão, longe de Jerusalém. Jerusalém, que antes dele era apenas uma cidade grande e sem graça, bem ao gosto dos jebuseus, graças a ele tornou-se uma capital digna dos maiores reinos. E agora a Cidade de Davi é o valhacouto de Absalão e seus cupinchas. É triste, é injusto. Longe, lá na floresta de Efraim, mais uma vez há uma guerra entre irmãos: seus soldados enfrentam os homens fiéis a Absalão. Enquanto isso, ele, o rei que tornou Israel forte, fica sentado, só esperando. Que aporrinhação…
— Majestade! Vejo um homem correndo nesta direção!
É o sentinela que interrompe seus pensamentos. Tanto melhor, ao menos alguma coisa está acontecendo.
— Um homem sozinho?
— É.
— Então traz boas notícias. Que bom.
— Epa! Lá vem outro, um negão.
— Cheio de paixão?
— Como?
— Nada, nada. Se o crioulo também vem sozinho, traz mais boas notícias.
— O outro já está perto. Olha como corre! Ah, deve ser Aimaás, filho de Zadoque.
— Ah, Aimaás é um bom garoto. São notícias boas, tenho certeza.
O primeiro homem já entrou no campo de visão do rei. É, de fato, Aimaás. Vendo o rei, grita:
— Tudo vai bem!
* * *
Nem tudo ia bem, porém. Naquela manhã, Davi dividira seu exército em grupos de mil e de cem. Juntou esses grupos, comandados por oficiais, em três grupos maiores, sob o comando dos irmãos Joabe e Abisai, e de Itai, o giteu. Com tudo pronto, Davi chamou os três comandantes e disse:
— Muito bem. Vamos.
— Vamos? Mané vamos! O senhor fica.
— Tá doido, Abisai? Acha que eu vou perder essa? Seu irmão endoidou, Joabe.
— Majestade, eu concordo com ele. Se o negócio ficar ruim para nosso lado no campo de batalha, se precisarmos fugir ou se os homens de Absalão acabarem com metade do nosso exército, isso não fará diferença para eles. Mas se eles pegam o senhor, aí acabou-se. Sua vida vale dez mil das nossas. O melhor mesmo é o senhor ficar por aqui, e nos mandar reforços se precisarmos.
— Hum. Tá bom. Mas só peço uma coisa a vocês.
— Pode dizer, majestade.
— Se vocês gostam mesmo de mim, tratem bem ao meu filho Absalão.
Davi disse isso olhando firmemente para Joabe. Sabia que o excesso de zelo de seu general o fazia partir sempre para a solução mais simples e segura. Enquanto Abisai e Itai assentiam, Joabe apenas sustentou o olhar do rei.
Davi postou-se junto ao portão, e assistiu à saída de seu exército. Exército esse que não fez por menos: chegando ao bosque de Efraim, não deu tempo para a reação do inimigo. Vinte mil homens foram mortos, e muitos mais morreram enquanto fugiam, em prosaicos acidentes na floresta. O próprio Absalão, que fugia montado numa mula, de repente se viu como que flutuando no ar, enquanto a montaria disparava bosque adentro. Levou um tempo para perceber o que lhe acontecera: seus cabelos, tão longos e bem cuidados, haviam se enroscado nos galhos de uma árvore de tal forma que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia se desvencilhar. Um soldado do exército de Davi que passava por ali à caça de inimigos o viu naquela situação e foi falar com Joabe:
— Comandante, acho que vi Absalão pendurado numa árvore.
— Pendurado numa árvore? Aquele puto acha que isso é hora de brincadeira?
— Hum… Acho que não foi por querer não, comandante. Ele estava preso pelos cabelos.
— HAHAHAHAHAHA! Ridículo! E você matou o desgraçado?
— Er… não.
— COMO NÃO? Porra, se você matasse, eu te daria aí uns cem gramas de prata, mais um cinto.
— Um cinto muito?
— Acha que estou de brincadeira aqui, cavalgadura?
— Não senhor. Desculpe.
— Humpf.
— Mas, comandante, veja só: todo mundo viu quando o rei disse que Absalão devia ser bem tratado e coisa e tal. Suponha agora que eu fosse lá e acabasse com a raça dele. O rei ia saber, ele sabe tudo. E aí o senhor ia se lembrar de me defender? Ia nada! Pois então: nem por dez quilos de prata!
— Bah, não vou perder meu tempo com você. Onde foi que você viu o Absalão?
— Praquele lado ali, ó.
Joabe começou a andar na direção que o soldado apontara, e logo deu com Absalão pendurado num carvalho, esperneando. O comandante saboreou o momento: sorrindo de leve, foi se aproximando lentamente, enquanto brincava com sua lança. Dava-lhe gosto ver a expressão de pavor na face do príncipe.
— Com medo, Absalão? Você não parece tão poderoso agora, pois não? Ai, ai… Um lindo dia. Podíamos estar todos em Jerusalém, tomando sol no terraço do palácio, bebendo umas cervejas. Afinal de contas, foi para isso que eu fiz aquele esforço todo para que você e seu pai se reconciliassem. E você mostrou alguma gratidão? Claro que não! Precisava estragar tudo, não é? Precisava usurpar o trono, botar o velho para correr, humilhá-lo. E tudo isso para quê? Para acabar com sua linda cabeleira enroscada numa árvore, olhando em volta como um coelho assustado. Puxa, você precisava ver sua cara agora. Que situação ridícula, majestade! Tão ridícula que me deixa até constrangido. Vamos acabar logo com isso.
Ainda com o sorriso no rosto, Joabe cravou três lanças no corpo de Absalão. O príncipe ainda ficou estrebuchando, de modo que dez dos homens de Joabe o cercaram e terminaram o serviço.
Com Absalão morto, não havia razão para continuar a luta. Então Joabe tocou a corneta para chamar as tropas de volta. Quando todos voltaram, alguns foram designados para sepultar o corpo de Absalão. Nada muito elaborado: apenas pegaram o cadáver e o jogaram numa cova funda no meio da floresta, cobrindo-a com um montão de pedras. Assim, ridícula e violenta, foi a morte de Absalão. A esse tempo ele já não tinha mais filhos, e só deixou para a posteridade um monumento que mandara construir em homenagem a si mesmo no vale dos Reis.
Joabe ainda pensava num jeito de contar ao rei o que acontecera quando foi abordado por Aimaás, filho de Zadoque:
— Comandante! Peço permissão para ir a Maanaim dizer ao rei que Javé o livrou de seus inimigos.
— Não, de jeito nenhum. Notícia boa, só amanhã. Hoje lamentamos a morte do filho do rei.
— Como? Lamentamos? Mas não foi o senhor mesmo que…
— … Você ouviu o que eu disse?
— S-sim, comandante.
— Só estou querendo preservar sua imagem, rapaz. Vou mandar um crioulo qualquer levar as notícias. Negão! Cadê aquele etíope quando eu preciso dele?
— Aqui, general.
— Ô, negão. Corre lá pra Maanaim e conta ao rei o que você viu.
— Sim senhor.
O escravo etíope de Joabe saiu correndo na direção de Maanaim. Aimaás continuou por ali, olhando para o general com cara de cachorro sem dono.
— Ai, meu saco… Que foi, rapaz?
— Ô, seu Joabe. Deixa eu levar a notícia também…
— Mas pra quê, meu filho? O negão já foi, que diferença faz? O que você ganha com isso?
— Eu só queria dar as notícias ao rei.
— Tá, tá! Vai logo, então.
— Sério? Sério MESMO? Puxa, seu Joabe! Muito obrigado! Muito, muito obr…
— VAI LOGO!
Entusiasmado, Aimaás saiu correndo pela estrada do rio Jordão, e logo ultrapassou o etíope. Quando viu de longe o rei às portas da cidade, gritou:
— Tudo vai bem!
Aproximou-se, fez uma reverência ao rei e completou sua notícia:
— Louvado seja Javé, que deu ao senhor a vitória sobre seus inimigos.
— Ganhamos? E meu filho, está bem?
— Seu filho? Er… Qual deles?
— Oras, qual deles! Absalão, rapaz!
— Ah. Esse filho. Então. Ah, não sei. Absalão, né? Sei não. Quando Joabe me mandou vir, eu vi uma agitação lá, mas não sei o que era.
— Tá bom. Fica aí do lado, descansa um pouco. Vamos ver se o outro mensageiro sabe mais detalhes. Obrigado pelas boas notícias, filho.
— Não tem de quê, majestade.
O etíope chegou logo depois com sua mensagem:
— Majestade, tenho boas notícias! Javé acabou com a raça daqueles que se revoltaram contra o senhor.
— Tô sabendo. Mas e Absalão, tudo bem com ele?
— Olha, majestade… Eu queria que o que aconteceu com ele acontecesse com todos os seus inimigos!
— PRETO FILHO DA…
Oooooooooolha…
Epa.
Bom, não vamos permitir que o rei acabe cometendo crime de racismo. Encerremos o capítulo por aqui.
A fuga de Davi e a chegada de Absalão a Jerusalém
(II Samuel 16)
Tendo enviado Husai de volta a Jerusalém, Davi continuou sua fuga. Depois de passar para o outro lado do Monte das Oliveiras, foi surpreendido pela presença de Ziba, empregado de Mefibosete, neto do finado rei Saul. Ziba trazia dois jumentos carregados de víveres: duzentos pães, cem cachos de passas e outros cem de frutas frescas, um odre de vinho. O rei chegou perto e perguntou:
— Eita, Ziba! O que você vai fazer com tudo isso?
— Enfiar no cu do curioso. Porra! Os jumentos são para você e sua família, a comida e o vinho são para a viagem.
— Puxa, fico até comovido.
— Bah, não enche.
— Cadê o Mefibosete, seu patrão?
— Ah, aquilo é um filho-da-puta traidor! Ficou em Jerusalém, diz que agora o trono será devolvido à família de Saul, quer dizer, a ele mesmo.
— Aleijado filho de uma quenga!
— De uma quenga e daquele veado do Jônatas…
— COMO É? VOCÊ CHAMOU O JÔNATAS DE VEADO?
— Veado? Quem falou em veado? Eu falei foi finado.
— Hum. É bom mesmo. Bom, você é grosseiro e desagradável, mas pelo menos é leal. Eu sempre soube. Eu sou assim: olho na cara de um sujeito e já sei se ele tem caráter ou não.
— Sei, sei… Foi o que o senhor fez com Mefibosete, Absalão, esses caras?
— NÃO VEM AO CASO! Deixa eu continuar: tudo o que era de Mefibosete agora é seu.
— Quem disse?
— EU disse! Eu, o rei!
— Ah. Mas o rei agora não é Absalão?
— POR ENQUANTO!
— Se você diz… Bom, vou seguir meu caminho. Até logo.
Fazendo uma mesura irônica, Ziba afastou-se, e Davi continuou seu caminho, acompanhado pela comitiva. Quando chegou à cidade de Baurim, foi interpelado por um certo Simei, filho de um tal Gera, parente de Saul. Simei parou na frente do jumento do rei (vocês entenderam) e começou a berrar:
— FILHO DE UMA QUE-RONCA-E-FUÇA! MORDE-FRONHA! CORNO! FILISTEU! CORINTIANO!
O rei tentava contemporizar:
— Opa, peraí, que que há, também não é assim…
Mas Simei continuava gritando seus impropérios:
— ASSASSINO! MATOU TANTA GENTE DA FAMÍLIA DE SAUL, E AGORA JAVÉ TÁ TE CASTIGANDO, SAFADO! O REINO ESTÁ NA MÃO LÁ DAQUELA BICHA CABELUDA QUE É SEU FILHO, E VOCÊ TÁ NA MERDA! AHA, UHU, DAVI TOMOU NO CU! TODO MUNDO COMIGO!
— Aha, uhu, Davi t…
— Calaboca, Itai. Ô, Simei, acalme-se…
— NÃO TÔ TE OUVINDO! — tapou os ouvidos — LALALALALA-LA!
— Vai deixar, majestade? Vai deixar? IIIIIIIIIH, eu não deixava!
— Fica na sua, Abisai.
— Mané o quê! O cara tá te xingando e vai ficar por isso mesmo? Se você der permissão, eu vou lá e corto a cabeça do puto.
— Ah, é? E quem garante que não foi o próprio Javé que mandou esse mequetrefe vir me xingar? Acho que Deus não gosta mais de mim, e deve ter lá suas razões. Além do mais, o meu próprio filho quer me matar; o que esperar de um parente do falecido rei Saul? Deixa o cara gritar, tá no direito dele. Talvez um dia Javé tenha dó de mim e troque essas maldições por bênçãos.
Assim Davi continuou sua jornada, e por um bom tempo foi seguido por Simei, que jogava pedras, terra, e xingava. Davi, que até poucos dias antes fora soberano absoluto sobre todo o Israel, nunca passara por tamanha humilhação. Além do mais, a situação era muito embaraçosa para aqueles que o acompanhavam: o rei perdera seu trono e agora fugia sem rumo, desancado por um zé mané qualquer. Foi, portanto, com cansaço mais moral do que físico que a comitiva chegou ao rio Jordão.
Enquanto isso, Absalão transpunha as portas e entrava em Jerusalém. Husai, o espião enviado por Davi, foi encontrá-lo:
— Salve, majestade! Que beleza de cabelo, hein? E que túnica!
— Ué, ué! Que porra é essa, hein? Que porra é essa? Cadê a fidelidade ao seu amigo? Foi só o bicho pegar que você abandonou o cara?
Husai sentiu nojo ao ouvir Absalão referindo-se assim ao próprio pai, mas conteve-se:
— Mas não tinha outro jeito, majestade! Isto aqui é uma teocracia, é ou não é? Então! Eu fico do lado daquele que Javé escolhe. Eu servi o senhor seu pai durante muitos anos, e agora quero servi-lo. Bom, se o senhor quiser, é claro.
— Ué, ué! Pode ficar, oras. Pode ficar. Só não me atrapalhe.
— Fico muito grato, majestade.
— Tá, tá. Vá puxar o saco de outro. Aitofel! AITOFEL! Cadê esse putão safado?
— Aqui, majestade.
Com a chegada do conselheiro, todos se calaram. Aitofel fora respeitadíssimo durante o reino de Davi, havendo quem dissesse que tinha sobre o rei ascendência maior ainda do que a de Joabe. Para o rei deposto, as palavras de Aitofel eram como palavras do próprio Deus.
— Aitofel, aqui estamos. Entrei na cidade. Entrei na porra da cidade! Sou o rei! Viva o rei!
— VIVA!
— Mas, venha cá… Eu tenho que mostrar a esse povo quem é que manda, sabe? Não quero ouvir nego cochichando por aí que o outro era melhor e coisa e tal. Entende?
— Entendo, claro. O senhor está meio inseguro, é normal no começo…
— INSEGURO? Quem está inseguro? Eu sou o rei, tá sabendo? EU MANDO NESTA PORRA TODA! Inseguro, humpf. Sou o rei. O REI!
— Sim, sim. Desculpe, majestade, me expressei mal. Enfim, o senhor me pergunta o que fazer para demonstrar sem sombra de dúvida que é o chefe agora. É isso?
— Exatamente.
— Pois é fácil: durma com as concubinas de seu pai.
— Como é que é? Eu peço um conselho e você me manda comer as amantes do velho???
— É, ué. O senhor pode vir morar no palácio, assentar-se no trono, fazer caminhadas pelo terraço, nada disso vai adiantar muito: sempre poderá haver alguém que pense na possibilidade de Davi voltar. Mas se você tiver relações com as concubinas dele, vai ficar bem claro que agora é tudo seu mesmo, sem discussão.
— Hum… Acho que entendi. Comendo as mulheres do meu pai, deixo bem claro que rompi de vez com ele, que não o respeito. É isso?
— Isso, isso!
— Ah, nunca achei que seria tão fácil. Vou lá para o harém agora mesmo começar meu serviço.
— Er… Aceita uma sugestão?
— Usar camisinha? Nem precisa dizer!
— Não, não é isso. Seguinte: o negócio tem que ter impacto, sabe?
— Pô, Aitofel, eu me garanto!
— Eu sei, conheço sua fama, majestade. Mas eu tava pensando era num jeito de tornar isso um grande acontecimento. Peraí, já volto.
O conselheiro saiu e voltou com meia dúzia de servos.
— Ei, que é isso? Não preciso de ajuda não!
— Calma, majestade. Trouxe esses homens para montarem a tenda.
— Tenda? Que tenda?
— A tenda onde o senhor vai passar na cara as concubinas de seu pai.
— E vão armar essa tenda onde?
— No terraço do palácio, que é pra todo mundo ver.
— Aitofel?
— Sim, majestade.
— Você é um tarado, o maior pervertido que já conheci.
— Obrigado.
E foi assim que Aitofel acumulou uma pequena fortuna: vendendo ingressos para quem quisesse ver o novo rei dar demonstrações de seu vigor juvenil. A cada concubina que fodia no sentido literal, Absalão sentia como se estivesse fodendo mais um pouco seu pai no sentido figurado. Coisa triste de se ver, mas poderia ser pior: imaginem se fosse o contrário…
Aitofel filmou tudo e ganhou mais dinheiro ainda com a venda das imagens em lojas especializadas e pela internet. Enfrentou problemas com pirataria mais tarde, mas isso já foge à nossa história.
A revolta de Absalão
(II Samuel 15)
Depois de fazer as pazes com Davi, Absalão se sentiu à vontade para botar seus planos em prática. Para começar, mandou preparar para si um carro com cavalos de raça, e chamou cinqüenta homens para correrem adiante dele. Todo dia de manhã ele acordava e ia assim escoltado para o portão da Jerusalém, onde a estrada terminava. Ali passava o dia inteiro interpelando os israelitas que levavam questões e processos ao rei. A cada um que chegava, Absalão perguntava de onde vinha. Em seguida, jogava sua conversa:
— Veio de longe, hein? Pois é, rapaz… E pior é que você está certo aí nessa questão, certíssimo!, só que não tem ninguém para ouvir seu caso. Nenhum representante, conselheiro, nada. Mas paciência, né? Assim são as coisas. Puxa… Ah, se eu fosse juiz por aqui! Quem tivesse questões assim poderia me procurar, eu tentaria resolver da melhor forma possível. Enfim, deixa pra lá. Não sou juiz, paciência. Entra lá, talvez te ofereçam um cafezinho, pelo menos.
Não contente em plantar tais idéias nos ouvidos do povo, o príncipe adotava também uma postura demagoga: sempre que alguém chegava perto para curvar-se diante dele em sinal de respeito, ele abraçava e beijava a pessoa:
— Que é isso, meu irmão? Somos iguais, pra que é que você vai vir se inclinar na minha frente? Deixa isso lá pro rei, eu sou do povo, sou igual a você.
Agindo assim, Absalão ia conquistando a simpatia dos israelitas. Aos poucos, sem pressa, como era de seu feitio: apenas quatro anos depois de começar essa atividade diária ele começou a segunda parte de seu plano. Foi falar com o rei:
— Pai, vou a Hebrom oferecer sacrifícios a Javé.
— Ué. Virou religioso, Absalão?
— Não é isso. É que quando eu estava em Gesur, fiz uma promessa: se Deus permitisse que eu voltasse a Jerusalém, eu ofereceria sacrifícios a ele em Hebrom.
— Que bonito… Mas tá atrasado, hein? Você voltou faz o quê? Seis anos?
— Pois é, pois é… Tanta coisa para fazer, a gente vai adiando. Agora estou mais sossegado, então queria ir lá cumprir meu voto.
— Então vá em paz, meu filho.
Absalão agradeceu e saiu. Olhando o filho se afastar, tão belo e forte, Davi sentia o orgulho lhe estufar o peito. Não ficaria tão tomado pela corujice, porém, se soubesse o que o rapaz andava tramando. Pois Absalão, assim que chegou a Hebrom, mandou mensageiros a todas as tribos de Israel. A mensagem era simples: instruía o povo a proclamar que Absalão havia se tornado rei em Hebrom assim que ouvisse um determinado toque de trombeta. Era arriscado tentar usurpar o trono dessa maneira, mas Absalão contava com a simpatia que granjeara durante os quatro anos em que ficara bajulando os israelitas às portas de Jerusalém. Mas saíra da cidade acompanhado de duzentos homens. Estes, embora não soubessem nada de seus planos e o acompanhassem de boa-fé, poderiam vir a ser de grande serventia. Além do mais, para ter maior garantia, o filho de Davi achou que seria bom ter um reforço de peso. Mandou então chamar Aitofel, originário da cidade de Gilo e conselheiro de Davi. Absalão explicou a ele seus planos de se tornar rei, pintou um futuro pujante para Israel, prometeu grandes recompensas a quem ficasse a seu lado. Aitofel não precisou de muito mais que isso para bandear-se para o lado dos conspiradores, e assim fortaleceu a revolta contra o rei.
Davi ainda pensava com orgulho no filho que saíra para Hebrom quando um mensageiro veio lhe trazer a bomba:
— Majestade, trago-lhe uma bomba.
— Uma bomba?
— É. Olha que beleza.
— Hum. Pra que serve?
— O senhor bota seu pênis real dentro disso aqui e vai apertando a borrachinha. A propaganda diz que pode aumentar em até sete centímetros.
— SETE?! Mas que beleza de produto!
Er… Com licença?
— Claro, narrador, sinta-se à vontade.
Obrigado. Então. Quando eu disse “bomba”, era na verdade uma metáfora para “notícia ruim”.
— Ah! Bem que eu estranhei. Bom, vou sair e entrar de novo, tudo bem?
Manda bala.
— Vou precisar de uma arma, então.
NÃO! ARGH! Olha, apenas entre e dê sua notícia, ok? Vai lá.
— Aham… Majestade! Absalão proclamou-se rei!
— Rei? Rei de onde?
— Oras, de onde! De Israel!
— Absalão? Rei de Israel? Bah, deve estar bêbado.
— É mais sério que isso, majestade, lhe garanto. O povo está do lado dele.
— O povo? O povo de Israel? Mas como o povo está do lado dele? Eu sou rei há tantos anos, nunca deixei faltar nada à nação, e é assim que me pagam?
— O senhor não se lembra de Absalão na porta da cidade, conversando com todo mundo que vinha aqui?
— Sim, mas o que que tem?
— Pois é. Foi bajulando, bajulando, convencendo as pessoas que ele seria um rei melhor que o senhor, e aí está.
— Mas que grande filho-da-puta me saiu esse moleque!
— É. E aí? Que fazemos?
— Damos no pé, isso é o que fazemos.
— Eita! E abandonar Jerusalém assim, sem resistência.
— Prestenção: pra começar, você é só um mensageiro. Eu poderia muito bem matá-lo só por ter trazido notícia ruim, quanto mais por ficar me questionando. Além disso, conheço o filho que tenho. Ele é pior do que eu quando tinha aquela idade. Ele não vai descansar enquanto não se sentar neste trono. Não, não: se quisermos escapar, temos que fugir, e agora mesmo. Se Absalão nos pega aqui, mata todo mundo.
O rei não perdeu tempo: mandou chamar todos os funcionários e a soldadesca e picou a mula, deixando no palácio dez de suas concubinas como guardas. Bom, esse papo de guardar o palácio era balela: era mais um presentinho para quem viesse.
Saiu o rei, com todos os seus funcionários em volta dele, e com sua guarda pessoal e os seiscentos homens que o seguiam desde o tempo em que era ele próprio um revoltoso, e pararam todos já perto da muralha. Ali Davi se deu conta da presença de Itai, um giteu comandante de seu exército. Exasperou-se:
— Por que você me acompanha, Itai? É estrangeiro refugiado, mora em Israel há pouco tempo, não tem nada com esse furdunço todo. Volte com seus amigos para Jerusalém, juntem-se ao rei Absalão. Eu saí de lá fugido, não sei para onde vou. Por que faria você ir comigo? Volte para a cidade com a minha bênção.
— O senhor me desculpe, majestade, mas não concordo com isso. Israel é o meu lar. Irei com o senhor aonde for, mesmo que morra por isso.
— Hum. Então tá. Bora.
Era uma cena triste de se ver: enquanto o cortejo passava por Jerusalém, as pessoas choravam nas portas de suas casas, despedindo-se do rei. Agora que já estavam fora da cidade, restava apenas escolher um rumo a seguir. Tanto fazia, estavam fugindo. Só não podiam ir para os lados de Hebrom, ou corriam o risco de encontrar Absalão e seus homens. Então atravessaram o Vale do Cedrom na direção do deserto. No meio do cortejo ia o sacerdote Zadoque e todos os levitas carregando a Arca do Acordo. Ainda no vale, puseram a Arca no chão, e Abiatar ofereceu sacrifícios pedindo a Javé que os protegesse naquela jornada para sabe-se lá onde. Vendo os sacerdotes e levitas, Davi teve uma súbita inspiração que o animou um pouco. E foi com o brilho dos velhos tempos nos olhos que foi falar com o sacerdote:
— Zadoque, você vai voltar para Jerusalém.
— Mas de maneira nenhuma! Vou com o senhor aonde for.
— Deixa de ser puxa-saco e me escuta, homem! Seguinte: você vai pagar a Arca e voltar para a cidade. Se Javé for mesmo com a minha cara, ele fará com que um dia eu volte a Jerusalém e reveja a Arca. Caso contrário, paciência.
— Mas, majestade…
— Não terminei ainda, cáspita! Você vai voltar para lá juntamente com seu filho Aimaás e Jônatas, filho do Abiatar. Eu vou ficar aí pelo deserto até receber alguma notícia de vocês.
— Ah! O senhor quer que nós sejamos agentes secretos!
— Isso, espertão! Olha, bem que me disseram que você era vidente! Biduzão! Humpf…
Zadoque chamou Abiatar e voltaram com seus filhos para Jerusalém, carregando a Arca nos ombros. Ao ver sumir longe o símbolo maior da religião e da nação de que fazia parte, Davi desanimou novamente. Rasgou suas roupas em desespero e subiu o Monte das Oliveiras chorando de dor. Os que o acompanhavam fizeram o mesmo. No meio do caminho, o rei foi informado da traição de Aitofel, o que só contribuiu para deprimi-lo mais ainda. Apelou:
— Oh, Deus! Faz com que os conselhos de Aitofel confundam a cabeça de Absalão!
Mas não precisou da ajuda divina: quando chegou ao alto do monte, num lugar onde se costumava oferecer sacrifícios, seu fiel amigo Husai, o arquita, foi encontrar-se com ele. Trazia, como todos os outros, as roupas esfarrapadas e a cara inchada de tanto chorar.
— Ô, meu velho.
— Vou com você, Davi.
— Hum… Sabe que você me deu uma idéia? Ir comigo não vai adiantar muito. Preciso de você é em Jerusalém, infernizando a vida de Aitofel.
— Estou ouvindo.
— Vá até o palácio e apresente-se a Absalão dizendo que quer juntar-se a seu grupo. Ele o conhece, sabe que você sempre esteve a meu lado, vai pensar que você pode ser útil a ele. Mas você será útil a mim: sempre que Aitofel der um conselho ao rei, dê um jeito de contrariá-lo. Quero que aquele canalha passe muita vergonha. Além disso, mantenha os ouvidos bem abertos. Os sacerdotes Zadoque e Abiatar estão em Jerusalém, também como agentes meus. Conte a eles tudo que você ouvir no palácio e considerar importante; eles darão um jeito de transmitir a mim.
— Opa, beleza. Pode deixar comigo, Davi.
— Obrigado, amigo.
— Oras, estou aqui pra isso.
Husai despediu-se do rei e dirigiu-se à cidade. Por coincidência, chegou a Jerusalém no mesmo instante em que Absalão chegava.
Absalão e Davi se reconciliam
(II Samuel 14:25-33)
Dois anos se passaram desde que Absalão voltara a Jerusalém, e durante todo esse tempo nem uma só vez ele se encontrou com Davi. Nesse período, a fama de Absalão espalhou-se por Israel principalmente por sua beleza: o príncipe era um galã hollywoodiano. Tinha cabelos de vocalista de banda de rock, os quais cortava uma vez por ano devido ao peso: a cabeleira ultrapassava os dois quilos. Os três filhos — dois meninos e uma menina chamada Tamar, em homenagem à irmã de Absalão — herdaram sua beleza.
Mas beleza não põe mesa, aquela coisa toda. Absalão queria mesmo era fazer as pazes com Davi. Bom, a intenção final não era bem essa, mas era necessário que ele voltasse a falar com o pai. Então mandou buscar Joabe para pedir que o general intercedesse junto ao rei. Joabe não veio. Mandou chamá-lo mais uma vez, e foi ignorado. Então chamou seus empregados:
— Já repararam na plantação de cevada de Joabe?
— Sim, claro. O campo dele fica logo ali.
— Então. Vão lá e toquem fogo na cevada dele. Não, não! Sem medo. Eu estou mandando. Ele vai vir reclamar é comigo, não com vocês.
Os empregados cumpriram a ordem. Não demorou muito para que Joabe aparecesse na casa de Absalão, botando fogo pela venta:
— MAS ABSALÃO, QUE PORRA FOI ESSA? POR QUE VOCÊ TOCOU FOGO NA MINHA PLANTAÇÃO?
— Opa, finalmente você apareceu!
— HEIN?
— Ué! Mandei te chamar duas vezes e você ignorou. Então resolvi mandar uma mensagem mais enfática.
— MAS QUEIMANDO MINHA PLANTAÇÃO?
— Bah, não vamos nos prender a detalhezinhos. Seguinte: eu quero que você vá falar com meu pai. Sei que ele sempre te dá atenção e coisa e tal. Pois diga a ele que eu mandei perguntar por que é que ele me fez voltar de Gesur, se não queria nem ver minha cara? Seria melhor não ter vindo. Pelo menos a família que eu tenho lá me trata bem. Então eu quero saber o que acontece, esclarecer logo esse negócio. Se o rei acha que eu sou culpado de alguma coisa, que mande me matar.
— Sei não, Absalão. Seu pai foi muito claro quando disse que não queria vê-lo. Se eu chegar com um recado assim, é capaz do homem ficar puto, aí cê sabe como é…
— Joabe, você quer ter mais prejuízo do que já teve com o incêndio? Não, né? Então é melhor levar o meu recado.
O general esbugalhou os olhos e ainda mexeu a boca, como se fosse soltar alguma imprecação. Mas acalmou-se, deu meia-volta e foi falar com o rei. No mesmo dia, Davi mandou chamar Absalão. O príncipe chegou ao palácio, deteve-se diante do trono e prostrou-se com o rosto no chão.
— Majestade…
— Que majestade o quê, Absalão! Vem cá, dá um abraço no seu velho.
Os dois se abraçaram, emocionados. Para Davi, era o fim de uma tensão desnecessária entre ele e o filho. Para Absalão, era só o começo do desenrolar de seus planos.
A volta de Absalão
(II Samuel 14:1-24)
Três anos depois do assassinato de Amnom, o rei Davi já tinha superado a morte de mais esse filho, e agora sofria de saudade de Absalão. O rei, orgulhoso, jamais admitiria isso. Mas não era preciso: Joabe, conhecendo Davi como ninguém mais, percebeu a que se devia a melancolia do rei, e pensou num plano meio maluco para reconciliá-lo com o filho sem que nenhum dos dois precisasse dar o braço a torcer. Para começar, procurou uma velha amiga em Tecoa, uma mulher muito sábia e dissimulada.
— Preciso da sua ajuda.
— Ah, Jô, você sempre precisa!
— Mas dessa vez o caso é muito sério, e exige disfarce.
— Xi…
— Nada de mais! Você só vai ter que se vestir de luto e ficar uns dias sem pentear os cabelos.
— Ué. Quem morreu?
— Seu filho.
— Você sabe muito bem que eu não tenho filho, Jô.
— Eu sei, eu sei. Essa é a história que você vai contar pro rei.
— Ah, sim. Daí o luto.
— Exato. O negócio tem que ser convincente. Você me ajuda?
— Como sempre.
— Obrigado. Agora vamos ensaiar seu texto, que é pra não sair nada errado.
No dia seguinte, sentado em seu trono, Davi recebia os súditos que haviam solicitado audiência. Estava com um ar distante, mal olhava para os que vinham ter com ele. Pensava em Absalão, filho tão amalucado, e talvez por isso mesmo tão querido. Onde estaria? Enquanto pensava no filho, anunciaram o próximo requerente, e entrou uma mulher toda de preto, descabelada, parecendo muito triste. Percorreu o corredor de cabeça baixa, chegou tímida aos primeiros degraus do trono e lançou-se com o rosto no chão:
— Ajude-me, meu rei!
— Ué. A senhora é baiana?
— Baiana? Não, por quê?
— Me chamou de “meu rei”…
— Epa. Não é o senhor o rei de Israel.
— Ah, foi nesse sentido que você disse… Aí sim. Mas diga o que você quer.
— Eu sou viúva. Meu marido morreu.
— Puxa. Viúva, o marido morreu, quanta desgraça… DEIXE DE OBVIEDADES, VAMOS À QUESTÃO!
— Er… Então. Eu tinha dois filhos. Um dia os dois saíram para trabalhar no campo, se desentenderam, começaram a brigar. Acabou que um matou o outro.
— Vixe.
— Pois é. Pior foi depois: a parentada toda começou a me importunar para que eu entregasse meu filho.
— O assassino?
— O meu filho, majestade. E o que eu poderia fazer? Eles querem apedrejar o menino. Está certo, ele matou o próprio irmão. Mas e eu, como fico? Perco meus dois filhos? Se eles pegam meu menino, acabam-se minhas esperanças e o nome do meu marido se perde. O senhor compreende a situação?
— Claro, não sou burro nem nada. É uma merda de situação, hein?
— Pois é. O senhor me ajuda?
— Sim, sim. Pode voltar para sua casa, que eu tomarei as providências.
— Tomará, né? Sei… Mas se acontecer alguma coisa, eu e minha família levaremos a culpa. O senhor fica inocente na história.
— Está me acusando de omissão…?
— Longe de mim!
— Humpf. Bom, façamos assim, então: se alguém for lhe encher o saco, traga-o aqui. Eu resolvo, pode deixar.
— Resolve, né? O senhor bem que podia pedir a Deus que não permita que nada aconteça…
— Pedir a Deus? O que você quer dizer com isso? Que não é o bastante, é isso? Quer exigir mais do rei, é isso?
— Mas de forma alguma!
— Grunf. Olha, você fique feliz porque hoje eu estou muito bonzinho. Quer garantias, é isso? Pois eu lhe garanto, e juro por Javé, que nada vai acontecer a você ou ao seu filho. Não seria justo. Pode ficar tranqüila. Está bom agora?
— Mas é claro! O senhor só me permite dizer mais uma coisinha?
— Ai meu saco… Fala, vai.
— Por que o senhor fez algo tão errado com o povo de Deus?
— Hã?
— Dizendo o que me disse agora, o rei condenou a si mesmo.
— HEIN?
— Ué! Não foi exatamente isso que aconteceu em sua família, majestade? Um de seus filhos matou o outro, e agora vive desterrado. Quem está morto, está morto, é como a água derramada na terra, nem Deus trás de volta. Mas o rei pode trazer um exilado de volta a Israel.
— Peraí, isso está me cheirando a texto decorado.
— Hum? Como? N-nada disso! Eu só vim aqui porque o povo me ameaçou, já disse. Então eu pensei: “Vou lá falar com o rei, a palavra dele é confiável como a de um anjo de Deus”. E agora o senhor prometeu que nada vai acontecer ao meu filho. Então fico muito agradecida, viu? Agora tenho que voltar, estou com a pia atulhada de louça, um monte de roupa pra lavar, o quintal…
— Pára, pára! Cê tá me enrolando.
— …
— Eu vou te fazer uma pergunta agora, e você vai me responder com sinceridade.
— Pode perguntar, majestade.
— Foi Joabe que enfiou você nisto, não foi?
— Neste vestido?
— NA SITUAÇÃO! NÃO ME ENROLE!
— Ah, na situação… Puxa, o senhor é mesmo feito um anjo de Deus…
— Foi o Joabe ou não foi?
— Foi! Foi! Mas não leve a mal, majestade. Ele só fez isso pensando no senhor, querendo resolver essa situação.
— Hum. Tá bom. Volte para casa. Com o Joabe eu falo depois.
Assim que a mulher saiu — ressabiada por ter sido descoberta tão facilmente — Davi mandou chamar Joabe:
— Mas e então, Joabe? Que presepada foi essa que você me aprontou?
— Ah, majestade! Eu só queria ajudar. Estou com saudade de Absalão…
— Está, é? Hum. Pois bem, vou fazer o que você quer: pode trazê-lo de volta.
Joabe, ainda imbuído do espírito teatral, não resistiu e inclinou-se até o chão.
— Deus o abençoe, majestade! Agora eu sei que o senhor está mesmo satisfeito com meu trabalho. Puxa, chegar ao ponto de atender a um pedido deste seu criado! Sinceramente, eu não esperava!
— Tá, tá. Vai lá e não me torra.
Para Joabe tanto lhe fazia se Absalão ficava em Gesur, se voltava para Israel ou se ia para o inferno. Mas com essa manobra ele fizera o rei trazer o filho de volta sem admitir em momento algum que sentia sua falta. Joabe foi a Gesur muito feliz com o sucesso de sua empreitada. Quando voltou com Absalão, porém, foi surpreendido pela atitude inflexível do rei:
— Trouxe o moleque? Está feliz? Que bom, fico feliz também. Só não me traga aquele mequetrefe aqui. Não quero mais vê-lo.
— M-mas, majestade… O menino veio de Gesur até aqui todo feliz, antecipando o momento do reencontro. O que é que eu digo pra ele?
— E eu lá sei? Você que inventou esse negócio, agora se vira.
Entristecido, Joabe deu a notícia a Absalão. O príncipe, como era de seu feitio, não teve qualquer reação: apenas foi morar em sua própria casa, pretendendo só pisar novamente no palácio quando coroado rei. Davi, conhecendo bem o filho que tinha, talvez não devesse mostrar-se tão intolerante: Absalão não era de reagir de imediato, mas gostava de cozinhar sua vingança em fogo lento.
Amnon e Tamar
(II Samuel 13)
A essa altura da história, Davi já era um respeitável senhor com vários filhos adultos. Um desses, dos quais ouviremos falar muito ainda, era Absalão, filho de Davi com Maacá, princesa de Gesur. Absalão tinha uma irmã linda chamada Tamar. Essa filha do rei era um pitéu, e logo caiu nas graças de Amnom. E daí? E daí que Amnom era filho de Davi com sua primeira esposa, Ainoã. O rapaz sofria de amor pela meia-irmã. Bom, amor coisa nenhuma: ele queria era comer logo a moça. Mas não via como; Tamar era virgem e não podia encontrar-se a sós com nenhum homem. Amnom se corroía por dentro. Andava cabisbaixo, olheiras fundas no rosto pálido, espinha encurvada. E foi nesse estado deplorável que seu primo Jonadabe o encontrou um dia.
— Amnom, que acontece com você, rapaz? Tá um caco! Isso lá é jeito de um príncipe se apresentar por aí? O que acontece? Diga aqui pro primão.
— Ah, Jonadabe, minha vida é uma merda… Estou apaixonado por Tamar.
— Sua irmã?
— Meia-irmã, porra. Ela é irmã de Absalão. E eu a quero mais que tudo na vida, mas não sei o que fazer.
— Ah, então tá explicado. Anda se acabando na punheta, aí fica esse farrapo.
— Pois é…
— Precisamos resolver isso, Amnom.
— Não me diga!
— Não seja cínico, estou aqui pra te ajudar. Hum. Olha, cê podia se fingir de doente.
— Como?
— É, cair de cama se fingindo de doente. Do jeito que você está acabado não vai ser difícil.
— Obrigado…
— Ué, mas é verdade! Nunca te vi assim, tá parecendo um fantasma! Mas então: finja-se de doente. Você é filho do rei, paparicado que só a porra, não é? Então! Quando seu pai vier ver como você está, diga a ele: “Pai, eu queria muito que Tamar, minha irmãzinha, viesse aqui cuidar de mim, preparar minha comida”. Ela é sua irmã, oras, seu pai não vai negar um pedido tão inocente.
— E aí…
— E aí, quando ela estiver preparando sua comida você deixa a comida de lado e come a cozinheira.
— A cozinheira? Mas a dona Dita é tão… AH! A cozinheira aí é a Tamar, né?
— Isso, meu asno!
— Mas que beleza de idéia, Jonadabe! Eu jamais pensaria em algo assim.
— Pior é que eu sei disso. E um mané feito você é herdeiro do trono.
— Sou burro mas nasci com sorte. Não tenho culpa.
— Bah.
Empolgado com o plano do primo, Amnom correu para botá-lo em prática. Foi para casa, deitou-se e ficou lá, gemendo baixinho vez em quando, tossindo, reclamando de dores vagas. Logo alguém foi dizer ao rei que seu filho estava doente, e Davi foi visitá-lo.
— Que acontece com você, filho?
— Não sei, pai… É uma… Cof! Cof! Uma dor que sobe assim, e faz assim, tipo desse jeito, sabe? E aí me vem um calafrio, uma tremedeira, um formigamento, um calor.
— Eita! Tudo isso junto?
— É, pai. Tô mal.
— Mas você tem que ficar bom logo, Amnom. Sempre foi um rapaz tão forte, que coisa.
— Eu sei, eu sei. Se ao menos tivesse alguém para cuidar de mim…
— Tá brincando, né? Você é príncipe de Israel, rapaz! Se precisar vem gente desde Dã até Berseba para cuidar de você.
— Ah, pai, mas é tudo assim, só porque eu sou príncipe. Queria ser cuidado por alguém que se importe mesmo comigo.
— Quer que eu chame sua mãe, é isso?
— Não, não precisa. Muita canseira pra mãe, tadinha. Hum. E Tamar?
— Não, até que ela tá bem. Ontem mesmo…
— TAMAR, pai! Minha irmã!
— Ah, Tamar! Eu tinha entendido que… Bom, você sabe. Malditos trocadilhos. Tudo bem, vou falar pra Tamar vir aqui cuidar de você.
— Obrigado, pai.
— O que eu não faço para agradar meus filhotes?
Enquanto Amnom comemorava secretamente o bom andamento do plano, Davi mandou buscar Tamar para cuidar dele. A moça chegou, cumprimentou o irmão acamado e foi preparar bolos e pães para ele. Quando levou a comida até a cama, porém, Amnom não quis comer. Não quis comer bolo, que fique claro: em relação à irmã a fome só aumentava. Ela protestou:
— Mas você precisa comer, Amnom. Está muito fraco.
— Eu sei, eu sei. Mas é que essa gente toda aqui, sei lá. Fico me sentindo constrangido. Você bem podia mandar todo mundo sair, né?
— Tá bom.
Inocente das intenções de Amnom, Tamar pediu a todos que saíssem da casa. Satisfeito, o príncipe pediu que ela lhe levasse a comida até a cama. Quando ela se aproximou, Amnom a agarrou dizendo:
— VEM NI MIM, PRECHECUDA!
Ela, assustada, tentava desvencilhar-se com argumentos:
— Que é isso, Amnom? Não faça isso, por favor!
— Ah, mas faço!
— É loucura, e não é bem visto aqui em Israel, você sabe!
— Sei de nada!
— Você ia ficar desmoralizado, e eu não ia poder aparecer diante dos outros, de vergonha.
— Mimimimimimimi!
— Fale com o rei, Amnom! Tenho certeza que ele me dará a você!
— Mané rei, mané rei! Eu quero é rosetar, minha filha!
Amnom era mais forte, e acabou dominando a irmã. Fez a festa, lambuzou-se. Depois de matar a vontade, porém, olhou para o lado, para aquela mulher miúda e chorosa, e pensou:
— Por que essa criatura não vira uma pizza?
Pegou nojo de Tamar e queria ver-se livre dela. E escolheu o modo mais delicado de fazê-la entender isso:
— Vambora, minha filha. Caminho da roça. Já me servi, agora tenho mais o que fazer.
— Queisso, Amnom? Fazer isso agora é um crime pior ainda.
— Blablablá, foda-se. Cadê meu empregado? Ô, coiso! Tira essa mulher da minha frente, que eu não agüento nem olhar na cara dessa mocréia. Bota ela pra fora e tranca a porta.
O empregado, mesmo sabendo que a moça em questão era filha do rei, obedeceu a ordem. Tamar se viu na rua de madrugada, com seu vestido longo de mangas compridas e muito enfeitado, vestimenta obrigatória para as princesas virgens. Mas ela havia sido deflorada, humilhada, e não se sentia bem com sua bela roupa. Então, em sinal de grande tristeza, jogou cinzas sobre a cabeça, rasgou o vestido e saiu gritando pelas ruas, feito louca, cobrindo o rosto com as mãos.
Absalão dormia em sua casa após uma noite de leve bebedeira. Ouvindo os berros que vinham da rua, pensou “Quem será a puta doida que está gritando a essa hora?”, e saiu para ver. Ficou besta ao ver sua irmã de roupas rasgadas e coberta de cinza, vagando por Jerusalém feito assombração.
— Tamar! Que aconteceu, Tamar?
— O… Amnom… Ele… Ele…
— O Amnom? Ele te fez mal? Foi isso, Tamar? Ele te fez mal?
— F-foi…
— Eu sabia! O jeito que ele olhava pra você, só podia mesmo dar nisso. Mas agora já foi, menina. Fique calma. Ele é seu meio-irmão, o caso também não é pra tanto. Deixa isso pra lá.
Tamar mal podia acreditar no que ouvia. Deixar para lá, simples assim? O irmão mais velho só podia estar doido. Não estava: Amnom tinha sangue de Davi correndo nas veias, e não deixaria isso quieto. Mas para que pressa? A princesa desonrada passou a morar, triste e sozinha, na casa do irmão. O rei soube logo do ocorrido, e ficou furioso. Absalão, no entanto, tratou de acalmá-lo. Não era para tanto, muita calma, muita calma…
Dois anos depois, Absalão foi coordenar a tosquia de suas ovelhas em Baal-Hazor. A tosquia era um trabalho para dias, então Absalão resolveu fazer uma festa para passar o tempo de forma mais agradável. Para isso, foi falar com o rei:
— Pai, vou para Baal-Hazor amanhã, para a tosquia das ovelhas, e vou dar uma festa lá. Queria que o senhor e todo o povo aqui do palácio fossem também.
— Ah, filho, melhor não. Daríamos muito trabalho a você, é muita gente.
— Hum. Lá isso é… Mas, pô, deixa pelo menos o Amnom ir.
— Amnom? Por que ele?
— Ué. Ué. Pô. Sabe como é, pai. O Amnom tem a minha idade e tal. A gente se dá bem.
— Vocês nem se falam!
— Mais um motivo! Para que essa briga besta? Quero fazer as pazes com meu irmão.
— Hum. Sei.
— Pô. Deixa ele ir, pai.
— Tá, vai. Vou falar com ele. Mas se ele não quiser ir, não posso fazer nada.
— Claro, claro.
Quando soube do convite, Amnom aceitou-o de pronto. Não tinha razões para desconfiar de nada: durante dois anos havia se encontrado inúmeras vezes com Absalão, e ele tivera várias oportunidades para vingar a honra da irmã. Não fizera nada, decerto a raiva passara. Então Amnom chamou todos os outros filhos do rei, e foram para Baal-Hazor. Absalão recebeu a todos com sincera alegria, e pediu licença para ir trocar umas palavrinhas com seus empregados. A autoconfiança de Amnom iria por água abaixo se pudesse ouvir as tais palavrinhas:
— Seguinte, macacada. Fiquem de olho em Amnom. Quando ele estiver bem encachaçado, acabem com a raça dele. Não, não, sem veadagem. É pra matar mesmo. Ele é filho do rei? Pois eu também sou, e a responsabilidade é minha. Não sejam uns bundões, façam o que eu mandei.
A festa começou, Amnom encheu a lata e os empregados do irmão trataram de cumprir a ordem. Vendo o que acontecera, os outros filhos do rei interpretaram errado: achando que Absalão pretendia tornar-se sucessor de Davi eliminando a concorrência, montaram em suas mulas e fugiram. Antes que eles chegassem a Jerusalém, no entanto, chegou a notícia. E chegou deturpada: disseram a Davi que Absalão havia assassinado todos os seus filhos.
Imaginem o desespero do rei. Imaginaram? Imaginaram nada! Davi rasgou as roupas, se jogou no chão, todo mundo no palácio fez o mesmo. Uma cena lamentável. Mas logo chegou Jonadabe, o esperto, para dar a notícia correta:
— Tio, não mataram seus filhos não.
— Como não? Acabaram de me dizer que Absalão matou os irmãos!
— Matou nada!
— Tem certeza, Jonadabe?
— Pois eu não estava lá? Claro que tenho certeza.
— Ah, que beleza! Que beleza! Ouviram? Meus filhos estão vivos! Eu sabia que Absalão não seria capaz de uma crueldade assim, meu filhinho querido.
— Er… Tio?
— Que foi, Jonadabe?
— Não é bem assim.
— Como não é bem assim? Meus filhos não estão vivos?
— Estão…
— Então?
— … Menos um.
— HEIN?
— Pois é. Lembra daquela história de Tamar, do que Amnom fez com ela? Pois é…
— Então Absalão matou Amnom? É isso?
— É.
Enquanto eles falavam, uma das sentinelas veio dizer que os príncipes haviam chegado. Traziam a confirmação da notícia dada por Jonadabe: Amnom estava morto. Os filhos do rei vinham tensos, com medo, de repente todos começaram a chorar. Choravam a morte de Amnom, claro, mas também de alívio por terem escapado das mãos de Absalão. Davi não sabia dessa parte, porém, e começou a chorar também pela morte do filho, no que foi acompanhado pelos funcionários do palácio. Por muito tempo ainda Davi lamentaria a morte de Amnom.
Enquanto tudo isso acontecia, Absalão saiu de Baal-Hazor direto para Gesur, onde se abrigou no palácio do rei Talmai, que vinha a ser seu avô materno.
A morte do filho de Davi e Bate-Seba
(II Samuel 12:16-31)
No último capítulo, vimos que Javé, em sua infinita misericórdia e absoluta justiça, determinara que o filho de Davi pagaria pelo crime de seu pai. Não demorou a agir; assim que o profeta saiu do palácio, chegou ao rei a notícia: a criança estava gravemente enferma. Mas Davi, já estamos cansados de saber, não era muito de abaixar a cabeça para as ordens de cima: era orgulhoso, atrevido, e não aceitaria quietamente esse castigo estúpido. Então afrontou a Javé, pedindo pela vida do filho, e ficou em jejum. Isolou-se em seus aposentos e passou a noite toda deitado no chão. Os empregados do palácio queriam fazê-lo levantar-se e comer alguma coisa, mas ele estava firme em seu intento. A atitude era provocativa: Javé já determinara que a criança morreria, e Davi ousava discutir, demonstrando a todos que se martirizava para salvar a vida do filho condenado. Assim passou uma semana, deitado no chão duro e sem comer absolutamente nada.
Ao fim de uma semana, o menino morreu e os funcionários do palácio ficaram sem saber o que fazer:
— Se o rei nem nos respondia quando a criança estava doente, como vai ser agora que ela morreu? Ele é capaz de fazer alguma besteira.
Um empurrava para o outro a responsabilidade de dar ao rei a notícia. Não foi preciso: ouvindo os cochichos ao seu redor e vendo as expressões de pesar em todos os rostos, Davi deduziu o óbvio. Olhando vagamente em volta, perguntou:
— A criança morreu?
Com a confirmação de suas suspeitas, o rei surpreendeu a todos: levantou-se, tomou um banho, penteou os cabelos e trocou de roupa. Em seguida foi até a tenda onde estava a Arca Sagrada para prestar um culto a Javé. De volta ao palácio, pediu que lhe servissem comida. Os empregados ficaram sem entender nada:
— Majestade… Enquanto o menino estava vivo o senhor passava o dia chorando e não comia nada. Foi ele morrer, e o senhor está aí, disposto. Que foi isso?
— Ué. É isso mesmo. Enquanto ele estava vivo, eu jejuei e chorei, pensando que talvez Deus pudesse ter pena de mim e salvar a vida do menino. Mas agora que ele está morto, de que adianta chorar? Eu não posso fazê-lo viver de novo. Um dia eu irei para onde ele está, mas ele nunca vai voltar para mim. Entenderam?
Os empregados compreendaram muito bem. Isso explicava, aliás, a ida ao Tabernáculo: Davi o fizera mais para reconhecer a vitória de um adversário do que para adorar a um deus.
Davi perdeu essa batalha com Javé, mas em Amom tudo corria bem: Joabe continuava cercando a capital, Rabá. Quando estava para invadir a cidade, mandou uma mensagem a Davi:
Rabá está cercada, e eu tenho o controle dos reservatórios de água. Agora o senhor pode vir para cá com seus soldados para tomar a cidade. Eu não quero a fama por essa conquista.
J.
Joabe podia ser um brutamontes, mas também sabia ser político. Cedendo a glória da tomada de Rabá a Davi, crescia aos olhos do rei e tirava o cadáver de Urias do meio do caminho entre eles. O rei, tendo compreendido a mensagem, juntou seus soldados e partiu para Amom, atacando e conquistando Rabá. Feito isso, condenou seus habitantes a uma vida de trabalhos forçados, e tomou como lembrança a coroa do rei de Amom, que era de ouro e pedras preciosas e pesava 34 quilos (a coroa, não o rei. Seria ridículo). Missão cumprida, voltaram todos a Jerusalém.
Na capital, Davi ainda tinha um problema: Bate-Seba, sua favorita, ainda sofria pela morte do filho. Davi consolou-a do único jeito que sabia, e ela engravidou novamente. Nove meses depois nasceu o menino Salomão. Javé, sabendo que Davi ainda guardava rancor por causa do filho morto, resolveu ser diplomático e mandou Natã dizer ao rei que tinha gostado muito do novo garoto. Como prova disso, ordenou ao profeta que desse ao menino o nome de Jedidias, amado por Deus em hebraico.
Davi ignorou a mudança de nome.
