(I Reis 3)
Depois de acabar com a vida dos que poderiam atrapalhar seu reinado, Salomão resolveu tratar de política exterior. Para isso, entrou em acordo com o faraó. Os faraós, que por séculos haviam sido os monarcas mais prestigiados da região, estavam em declínio. Na época de Psusennes II, esse aí que entrou em acordo com Salomão, as terras dominadas pelo faraó restringiam-se ao delta do Nilo, enquanto as terras altas ficavam sob domínio dos sacerdotes de Amon, com sua capital em Tebas. Psusennes II, cuja subida ao trono coincidiu mais ou menos com a morte de Davi — muito próxima, portanto, da coroação de Salomão — vivia sob constante pressão dos verdadeiros donos do Egito por um lado, e das tribos nômades do deserto por outro. Desse modo, a aliança com o rei de Israel, cujo território era estratégico por sua localização, vinha em excelente hora. Assim, Psusennes II e Salomão entraram em acordo, com o primeiro dando a mão da filha em casamento ao segundo. Salomão pegou sua mina e levou-a para morar consigo em Jerusalém.
Jerusalém. O plano de Salomão era meio malufista: transformar a capital israelita num canteiro de obras. Pretendia construir um palácio para instalar-se com seu futuro harém, muralhas reforçadas em volta da cidade e um templo para Javé. Sim, porque desde o Êxodo o povo adorava a Deus no Tabernáculo, que não passava de uma barraca de acampamento com mania de grandeza. Muito útil para um povo que peregrinava pelo deserto, mas um tanto anacrônico para uma nação há muito estabelecida. Além do mais, nem todo mundo tinha paciência, ou recursos, ou tempo, ou tudo isso, para ir até o Tabernáculo. Então o povo oferecia sacrifícios sobre os morros, o que era um problema: sem um sacerdote por perto nem todo o aparato da religião oficial, como ter certeza de que estavam mesmo adorando a Javé, e não a outro dos muitos deuses dos países vizinhos. Até Salomão, que devia dar o exemplo, oferecia seus sacrifícios dessa forma heterodoxa. E foi depois de um dia de particular fervor religioso que a vida do rei mudou.
Salomão fora a Gibeão, onde ficava o altar mais famoso de todos. Nesse dia ofereceu mil holocaustos. Ao fim do dia, exausto, o rei resolveu passar a noite ali mesmo. Num sonho, Javé veio falar com ele:
— Salomão!
— Coé?
— SALOMÃO!
— Quem é, mano? Tá me tirando?
— Sou eu, Salomão. Javé!
— Javé??? Não me zoa, ô!
— Sou eu, Salomão.
— É tu memo?
— SOU, PORRA!
— FAAAAAAAAAAAAAAAAAALA, JAVÉ! Pela órdi?
— Hein?
— Tudo céito, mano?
— MANO É UM CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Ô, foi mal aê. Fala, Deus, que que manda?
— Vim aqui lhe fazer uma oferta que não costumo fazer a ninguém, Salomão: faça um pedido e eu o atenderei.
— Pô, tipo gênio do Aladim? Da hora…
— MANÉ GÊNIO! ME RESPEITE!
— Sussa, Javé, sussa. É sério memo esse papo aê?
— Sim. Peça o que quiser, qualquer coisa.
— Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixe, bem lôco. Então seguinte, Javé. Vô lançá a real: tô ligado que cê era mó truta do meu véio, e que ele nunca vacilou aí contigo. E aí cê até me deixou ficar no lugar dele, e eu ainda sou pivete, tá ligado? Tipo, achei da hora mesmo. Cê é firmeza, Javé, na boa memo. Cê é o Grande Truta das Quebrada Celestial, tá ligado?
— PÁRA DE ME PUXAR O SACO E PEDE LOGO!
— Tá, tá! Seguinte: o que eu mais quero memo é ser um sujeito ligêro.
— Ligeiro? Pra quê, Salomão? Israel vive em paz agora, você não vai precisar correr nem nada assim.
— Xi, véio, cê não tá ligado. Eu quero ser ligêro, mano. Espéito, manja?
— Hum. Então você quer sabedoria, é isso?
— Aê, Javé. Porque, se liga: se eu não for ligêro, como é que vou cuidar da parada toda, Israel, Judá e pá? Se eu vacilo, é mó embaço.
— Salomão, seu pedido me surpreende. Eu esperava que você me pedisse riquezas, ou uma vida longa, ou a morte dos seus inimigos. Em vez disso, você pediu sabedoria para governar com justiça. Vou te dar isso, você será o mais sábio dos homens, mas também vou conceder o que você não pediu: por toda a vida, você será um homem muito rico e, se andar comigo como andou seu pai Davi, terá uma vida longa.
— VIIIIIIIIIIIIXE! FIRMÃO, MANO!
— MANO É UMA PORRA!
— Aê, foi mal.
Vejam como é a malandragem: dando uma de humilde e pedindo a Deus sabedoria, Salomão conquistou o respeito de Javé e muito mais do que aquilo que pedira. Malandro é malandro mesmo. Quando acordou, Salomão se deu conta de que estivera falando com Deus. Então levantou-se, voltou a Jerusalém, e lá ofereceu sacrifícios como se esperava que o rei fizesse: na Tenda Sagrada, sobre o altar. Depois disso, ofereceu uma festa para as autoridades de Israel.
Dias depois, a sabedoria de Salomão foi posta à prova. Aconteceu que duas prostitutas chegaram logo cedo para uma audiência com o rei. Vinham discutindo aos berros, e foi difícil fazê-las sossegar. Mas finalmente estabeleceu-se alguma ordem, e uma delas dirigiu-se ao rei:
— Majestade, eu e essa outra aí moramos na mesma casa. Meu filho nasceu há pouco tempo, e três dias depois ela também teve um filho. De noite o filho dessa piranha morreu, porque ela tava bêbada e rolou por cima do moleque. E sabe o que ela fez, majestade? Veio devagarinho pra junto da minha cama e trocou as crianças!
— É MENTIRA!
— MENTIRA NADA! Acordei de manhã pra dar o peito ao menino, e estava morto. Mas eu não sou besta, conheço meu filho.
— VACA! COMO VOCÊ É CARA-DE-PAU! Majestade, o filho dessa mulher aí morreu e ela trocou com o meu.
— O filho é meu! O seu tá morto!
— O SEU tá morto!
— O SEU!
— O SEU!
— O S…
— CALAI-VOS!
Fez-se silêncio absoluto no recinto. O rei passara os últimos dias muito compenetrado, e era a primeira vez que falava em público depois da festa em Jerusalém. Ninguém esperava ouvi-lo falando daquela maneira.
— Calai-vos, eu lhes imploro! Deixai-me-vos que entenda a situação e assim a compreenda e tenha-lhe dentro de meu entendimento. Então tu dizeis que o filho é teu, e o que da outra está morto?
— Sim!
— E tu, por conseguinte, clamais que o defunto filho da outra é?
— Isso!
— Eis que vejo aí grande crocodilagem. Descolai-me uma espada, ó, mano.
O empregado trouxe a espada, e o rei ofereceu sua solução:
— Só há uma maneira de resolver esse imbróglio: que a criança seja partida no meio, e cada qual fique com uma metade. Resolve-se a parada. Estais ligados?
No mesmo instante, uma das mulheres lançou-se aos pés do rei, chorando:
— Não, majestade! Não faça isso! Dê o menino à outra, eu não ligo, mas não mate o meu filho!
A outra, porém, mantinha-se firme:
— O rei está certo. Decisão muito justa. É isso aí.
Vendo a situação, Salomão deu seu veredicto:
— Dizeis que devo partir o infante ao meio, qual mortadela? És uma vacilona, ó filha da maldade! Dai à primeira o menino, pois está claro que ela pariu-lhe de suas próprias entranhas.
No dia seguinte, não se falava de outra coisa em Israel: apesar do linguajar mais estranho do que antes, o rei demonstrara grande sabedoria ao julgar uma causa difícil. Com o respeito adquirido após o episódio, Salomão podia finalmente dedicar-se a reestruturar a nação.
Categoria: Bíblia
As mortes de Adonias, Joabe e Simei, e o exílio de Abiatar
(I Reis 2:12-46)
Com a morte de Davi, Salomão assentou-se no trono em Jerusalém, e seu governo se fortaleceu muito. Como? Já veremos.
Logo nos primeiros dias após a morte do pai, Adonias foi ao palácio falar com Bate-Seba.
— Adonias! O que você quer? Vem em paz?
— Sim senhora, não precisa se preocupar. Eu queria só dizer uma coisa pra senhora.
— Pois diga, oras.
— A senhora sabe muito bem que eu é que devia ser rei. Sou o irmão mais velho, o primeiro na linha de sucessão, e todo o país contava com minha subida ao trono após a morte de meu pai. Mas Javé quis de outro jeito, Salomão é o novo rei, e não discuto.
— E faz muito bem.
— Eu sei. Eu só queria fazer um pedido, só um.
— O que você quer?
— É essa moça, Abisague. Eu só penso nela o tempo todo, dona Bate-Seba. É um inferno! Durmo pensando nela, acordo pensando nela, passo o dia pensando nela. A menina ficou tanto tempo aí só esquentando meu pai, acho que ela gostaria de se casar, ter uma família.
— Então você quer se casar com aquela lambisgóia?
— Isso, isso! Ô, dona Bate-Seba, peça ao seu filho que me atenda. Eu sei que ele ouve a senhora.
— Bom. Tudo bem. Vou tentar, mas não garanto nada.
— Obrigado, obrigado!
Adonias voltou para casa cheio de esperanças, e Bate-Seba foi falar com seu filho. Ao ver a mãe entrando no salão real, Salomão correu a beijar-lhe a mão.
— Bença, mãe! Tá vendo seu filho, tá vendo? Só nos pano, mó preza.
— Sim, meu filho. Estou muito orgulhosa.
— Se liga ali do lado do trono, véia.
— Ué! Tem dois tronos, filho. O que é isso?
— É seu, mãe! Vai sentar do meu lado e pagá de gatinha, tá ligada?
— Er… Que lindo isso, filho. Fico comovida.
— Da hora, véia!
— Eu só queria te fazer um pedido…
— Desembucha, mãe. Cê tá ligada que aqui a senhora manda.
— Sabe aquela menina, Abisague?
— A que esquentava o véio? Tô ligado.
— Então, filho. Dê a menina em casamento ao seu irmão Adonias.
— TÁ DOIDA, VÉIA? PIRÔ DA CABEÇA? Comé que a senhora vem aqui na minha fuça pedir um troço desse? Vai pedir preu dá o reino pra ele também, junto com aqueles corno do Joabe e do Abiatar?
— Calma, meu filho…
— CALMA É UMA PORRA! O cara quer dá uns futuco na mulé do meu pai, e a senhora vem com esse migué, véia? Aê, eu juro por Javé que esse vacilão vai subir, e é hoje memo. Vou só chegar e PÔU! PÔU! Já era! BENAÍAS! Cadê esse zé mané? BENAÍAS, CARAIO!
— Coé?
— Benaías, cê vai fazê uma fita pra mim, ó.
— Viiiiiiiiiiixe.
— Tá ligado o Adonias?
— Tô ligado.
— Senta o dedo.
— Já é.
Então Benaías foi e matou Adonias. Com isso, Salomão já teria seu reino suficientemente fortalecido: afinal de contas, agora era o único descendente de Davi. Mas ainda tinha assuntos pendentes a resolver.
No dia seguinte, o rei mandou chamar Abiatar, sumo-sacerdote.
— Majestade!
— Majestade é uma porra! Me chama de Mano Preza.
— Er… Mano Preza!
— Seguinte, seu zé-ruela do caraio. Vou te mandar uma idéia, fica esperto: sai no pinote e se muquia lá nas suas quebrada de Anatote. Cê merecia mesmo era levar uns pipoco nos cornos. Só não leva porque eu sei que cê era mano do meu véio no tempo que ele precisou se empirulitar, e só virou traíra depois de véio. Dá linha, mano, antes que eu te dê uma muqueta no seu escutador de Hava Nagila.
Com o exílio de Abiatar, finalmente ficava cumprida a ameaça que Javé fizera a Eli, tantos anos antes, de que seus descendentes não seriam mais sacerdotes. Deve ter se esquecido, sei lá. Quem não se esquecia de nada era Salomão.
Sabedor da boa memória do rei, Joabe resolveu apelar para o mesmo expediente que salvara Adonias no primeiro momento, e correu para o Tabernáculo para segurar nas pontas do altar. Ao saber disso, Salomão mandou chamar Benaías.
— Benaías!
— Coé?
— Joabe.
— Já é.
Benaías foi até a porta do Tabernáculo e gritou:
— Joabe!
— Que é?
— O Mano Preza mandou cê sair daí, véio.
— Quem?
— O REI, CARAIO!
— Não vou sair, não vou! Eu morro aqui, mas não saio.
Benaías voltou ao palácio com a notícia.
— E aí o mano falou que morria lá?
— É.
— Aê, vou atendê o pedido do mano…
— Hum?
— Sobe.
— Pô, Mano Preza. O cara tá lá nas ponta do altar, tá ligado?
— E daí?
— Como assim, e daí? Javé vê uma parada dessa, já era, jacaré me abraça.
— Ô, mano, tá me zoando? Não mandei cê sentá o dedo?
— Mandô, mano, mandô…
— Então pronto, mano! Cê não mata, só dá a facada. Quem mata é Deus.
— Aê, sei não. Mó sinistro isso aí.
— SE LIGA, MANO! Faz o que eu mandei, que eu seguro o B.O.
— Segura?
— Seguro.
— Já é.
Benaías voltou ao Tabernáculo e matou Joabe, a eminência parda do reino de Davi. O filho de Zeruia foi enterrado numa de suas propriedades, em campo aberto.
Com a morte de Joabe, ficava faltando apenas Simei para Salomão terminar de vingar os inimigos de seu pai. Mas Davi jurou que não o mataria quando ele pediu perdão, e mesmo Salomão sabia que matá-lo pura e simplesmente pegaria muito mal, e poderia abalar sua popularidade. Por outro lado, não podia deixar de atender aos pedidos que Davi lhe fizera em seu leito de morte. O que fazer? Depois de muito matutar, Salomão conseguiu chegar a uma conclusão aceitável, e mandou chamar Simei.
— Seguinte, mano. Cê vai fazer um muquifo pra morar aqui em Jerusalém e vai ficar em prisão domiciliar.
— C-como?
— Come, caraio. Come, dorme, caga, toma no cu, faz o que quiser. Só não pode sair da cidade. Se passar do rio Cedrom, mando subir.
Desconfiando que a ordem do rei tinha alguma coisa a ver com as ofensas que fizera a Davi tantos anos atrás, Simei achou melhor não dizer mais nada e construir logo sua casa na capital. Ao menos o rei não o mandara matar, como fizera com Adonias e Joabe.
Simei morou por um bom tempo em Jerusalém, e Salomão nunca o incomodou. Três anos depois, porém, dois de seus escravos fugiram e foram se refugiar na casa de Áquis, rei de Gate, na Filistia. Gate nem era tão longe, o rei o deixara em paz por tanto tempo, era só para buscar uns escravos e voltar logo… Assim pensando, Simei selou seu jumento e foi até a Filistia. Quando chegou em casa com os escravos, já tinha um recado do rei esperando: Salomão queria vê-lo.
— Simei, seu vacilão! Cê jurou por Javé que não ia sair da cidade, mano!
— Eu não jurei…
— CALABOCA, PORRA! JUROU! JUROU! Que que eu te falei, hein? Fica na cidade, tá firmeza. Sai da cidade, mando subir. Não foi?
— Foi.
— ENTÃO POR QUE CÊ SAIU DA CIDADE, ZÉ RUELA? Deu mancada com meu pai, agora comigo. Ah, mano, não dá. Benaías…?
— Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiixe…
Para o lugar de Abiatar no Tabernáculo, Salomão nomeou o sacerdote Zadoque. E, como era natural, Benaías substituiu Joabe no comando do exército israelita.
E foi dessa forma diplomática que o reino de Salomão se fortaleceu. Sejamos justos, porém: a sabedoria que tornaria Salomão lendário em reinos distantes ainda não existia. Como foi que Salomão se tornou o homem mais sábio de seu tempo? Veremos no próximo capítulo.
Davi dá conselhos a Salomão e morre
(I Reis 2:1-11)
Davi não proclamara Salomão como seu sucessor apenas para contrariar Adonias: velho e doente, sentia que não tinha muito tempo de vida. Então chamou o novo rei para uma última conversa.
— Aê, véio. Pela órdi?
— Filho, eu não entendo nada do que você fala.
— Cê tá surdo, véio?
— NÃO, PORRA! VOCÊ QUE NÃO FALA LÍNGUA DE GENTE!
— Ô, pai. Mancada…
— Humpf. Salomão, em breve eu irei para onde todos vão mais cedo ou mais tarde.
— NACREDITO!
— Pois é verdade.
— Vai pra Miami, véio? Pô, me traz um pisante da hora?
— MANÉ MIAMI, SEU BUCÉFALO! ESTOU MORRENDO!
— Tá nada, pai!
— NÃO DISCUTA COMIGO! Se eu tô falando que vou bater as botas, é porque vou mesmo. Mas antes eu quero te dar uns conselhos.
— Manda bala.
— Você precisa ser forte, meu filho. Ser rei de Israel não é nada fácil. Mas obedeça às leis de Javé, seja honesto e justo, e tudo dará certo. Assim Deus cumprirá a promessa que me fez, de manter a minha dinastia por muitos séculos, desde que meus descendentes o sirvam.
— É nóis.
— Além disso… Você conhece o Joabe, né?
— Aquele puta ganso, pilantra, corno manso?
— Esse. Joabe matou dois soldados valentes, Abner e Amasa, em tempos de paz. Esse cara não pode morrer de velho. Entendeu?
— Peraí, peraí… Cê quer que eu mande subir?
— Hein?
— Tá me mandando apagar o cara?
— TÁ LOUCO? EU NUNCA MANDEI MATAR NINGUÉM, TÁ ME OUVINDO?
— Ué… O povo diz que o primeiro marido da mãe bateu a caçoleta porque o senhor…
— CALABOCA!
— …
— Eu só disse que ele não deve morrer de velho, e espero que você me entenda e não faça perguntas.
— Firmeza, véio. Não estressa.
— Eu não mando matar ninguém. Ninguém! Os filhos de Barzilai, por exemplo. Quando eu estava na merda, fugindo de Absalão feito um rato, eles me deram abrigo e comida. Faça o mesmo por eles sempre que precisarem.
— Céito…
— O mesmo eu não posso dizer de Simei, filho de Benjamim.
— Esse não é o traíra que te falou uma pá de groselha quando cê tava dando linha de Jerusalém?
— Que me ofendeu quando eu fugia de Absalão? Esse aí. O desgraçado me xingava, jogava pedras, o diabo. Depois ele veio me pedir perdão, e eu jurei que o deixaria vivo.
— Então esse aí não é pra apagar?
— Você não jurou nada…
— Tô ligado.
— Você é esperto, sabe o que fazer.
— Xacomigo, pai. Se esse truta chega perto, vixe, tem nem idéia. É só pipoco, já era. Tá ligado, pai?
— …
— Ô véio! TÁ LIGADO?
— …
Salomão ainda gritou um pouco antes de perceber que o pai estava morto. Bateu duas vezes no peito com o punho fechado, disse “Paz, mano”, e foi comunicar o falecimento aos funcionários do palácio.
O corpo de Davi foi sepultado em Jerusalém. Seu reinado durou quarenta anos: sete como rei de Judá, em Hebrom, e outros trinta e três em Jerusalém, como soberano de todo o Israel.
Salomão herdou um reino unificado e forte, ao contrário do seu pai. Começaria logo seu reinado, mas antes precisava atender aos últimos pedidos de Davi. Um banho de sangue, como veremos.
Salomão é ungido rei
(I Reis 1:11-53)
Enquanto Adonias dava sua festa, o profeta Natã resolveu que era hora de começar a mexer uns pauzinhos. Para começar, foi falar com a mãe de Salomão:
— Bate-Seba, viu esse negócio todo aí do Adonias?
— E quem não viu, Natã? Só mesmo o rei, que agora vive de safadeza com aquela sunamita sem-vergonha. Quando eu era bonita ele me viu pelada e fez tudo quanto foi loucura para ficar comigo. Agora é o que se vê, o dia todo deitado com a tal Abisague no maior chamego. Velho safado…
— Pois é, pois é! O rei não sabe de nada, é como você diz. E se as coisas continuarem assim, você e seu filho podem se dar mal.
— Epa. Como assim?
— Oras! Adonias não convidou Salomão para a festa. Seu filho é um concorrente, e se Adonias for mesmo reconhecido como rei, o bicho vai pegar. Ele não vai deixar vivo outro herdeiro do trono.
— E o que a gente pode fazer, Natã?
— Engraçado você perguntar. Estava mesmo pensando num negócio aqui…
Minutos depois, Bate-Seba entrava no quarto de Davi. O velho rei ficou surpreso: era raro que qualquer de suas esposas viesse vê-lo depois da chegada de Abisague, e Bate-Seba, com todo seu orgulho, era a menos disposta a fazer uma visita de cortesia. Mas ali estava ela. O rei olhou para aquela matrona que lhe fazia uma reverência, e tentou associá-la à bela moça nua que vira do terraço tantos anos antes. Não conseguiu.
— O que você quer?
— Rei Davi, o senhor jurou por Javé que meu filho seria seu sucessor no trono.
— Jurei?
— Jurou.
— Lembro não.
— Mas jurou.
— Hum. E seu filho é aquele menino, né? Aquele lá. Aquele que teve aquele negócio do… Que pegou aquele troço uma vez lá no… O menino que fez a… Né?
— Salomão.
— Hum?
— O nome dele, do nosso filho. Salomão.
— EU SEI, DIABO, EU SEI! VOCÊ ACHA QUE EU NÃO CONHEÇO MEU PRÓPRIO FILHO?
— Longe de mim pensar uma besteira dessa, majestade.
— Humpf.
— …
— O que você quer?
— O senhor jurou que…
— Já sei, já sei! Tá pensando que eu sou o quê, algum velho caduco?
— Claro que não, que idéia! O negócio é que Adonias se auto-proclamou rei sem que o senhor soubesse.
— Adonias?
— Seu filho…
— EU SEI QUEM É ADONIAS! QUE INFERNO!
— Pois então.
— Que história é essa de rei? O rei não sou eu?
— Claro que é, majestade. Mas Adonias diz que o senhor já está muito velho, e que ele é o herdeiro do trono. Está agora mesmo dando uma festa lá pros lados da Pedra da Cobra. Os irmãos dele estão lá, Abiatar e Joabe também.
— Ué. Abiatar e Joabe?
— Exatamente.
— Então vai ver o garoto tem que ser rei mesmo. Está bem assessorado.
— Mas o senhor jurou que…
— EU SEI O QUE JUREI! Grunf. Olha aí, já chegou mais gente. Quem é?
— Sou eu, majestade. Natã.
— Conheço Natã nenhum.
— O profeta Natã…
— Profeta… Profeta… Ah, sim! Natã, como vai? O que o traz aqui?
— Nada de muito bom, rei Davi. Por acaso o senhor anunciou que Adonias seria coroado rei? Acho que houve alguma falha de comunicação, porque eu não fiquei sabendo de nada…
— Adonias?
— Seu filho…
— EU SEI, CÁSPITA! Essa outra aí já me contou da festa e coisa e tal.
— Pois é! Joabe, Abiatar e toda a corja estão lá gritando “Viva o rei Adonias!”, mais bêbados que o Bukowski.
— Hum. Não vejo nada de mais nisso, mas a Bate-Seba me disse que eu fiz um juramento e não sei quê…
— E o senhor não se lembra? Jurou que Salomão seria…
— Que Salomão seria meu sucessor. Mas que caralho, vocês acham que eu não lembro de nada é? Cadê a Bate-Seba? BATE-SEBA!
— Estou aqui, majestade.
— Bate-Seba, eu vou cumprir o juramento que fiz a você, ou não me chamo Saul.
— Davi.
— DAVI! Chamem lá o Abiatar.
— Ele está na festa do Adonias.
— Ô, diabo. Esse reino está me saindo uma esculhambação sem tamanho. Tem algum sacerdote em Jerusalém?
— Zadoque está ali no corredor.
— Eita! Parece até que vocês planejaram tudo…
— Hahahaha. M-mas que idéia, majestade!
— Hum. Chamem lá o Bodoque, então.
— Zadoque.
— FOI O QUE EU DISSE! Chamem esse puto, mais o Benaías. Não, Natã, você fica aqui.
— Sim senhor.
— Zadoque, meu querido!
— Eu sou o Benaías, majestade.
— Arre, égua!, vocês têm tudo a mesma cara. Esse outro é o Zadoque, então?
— Eu mesmo, majestade.
— Tenho uma missão para os três. Vocês vão pegar aí um punhado de oficiais, botar meu filho Salomão montado na minha mula e levar o menino até a Fonte de Giom. Quando chegarem lá, Zadoque e Natã devem ungir o garoto como rei de Israel. Depois vocês vão tocar as cornetas e sair gritando “Viva o rei Salomão!”. Então venham todos para cá, para que ele se sente no trono. Ele será rei em meu lugar, porque foi a ele que eu escolhi para governar Israel. Ele, entenderam? Salomão. Não aquele Adônis.
— Adonias.
— Que seja.
— Pode deixar com a gente, majestade! Que Javé confirme tudo isso aí, viu? E que ele esteja com Salomão como esteve com o senhor. E que o reinado de Salomão seja ainda maior do que o seu. E que ele faça…
— Tá bom, Zadoque, vai logo!
— Eu sou o Benaías, majestade…
— FODA-SE!
Os três saíram dos aposentos do rei, montaram Salomão na mula de Davi e cumpriram o ritual de unção de acordo com as instruções recebidas. Na volta para o palácio, porém, o povaréu foi se juntando ao cortejo do novo rei. Quando passavam perto da Pedra da Cobra, já eram uma pequena multidão gritando vivas a Salomão, cantando e tocando instrumentos. Adonias e seus convidados ouviram aquela algazarra e não sabiam do que se tratava. Estavam na dúvida quando chegou Jônatas, filho de Abiatar, com as notícias: Davi mandara ungir Salomão como rei, o povo estava com ele e os oficiais congratulavam o velho rei pelo acerto na escolha.
— Não pode ser!
— Mas é, seu Adonias. Dizem até que o rei tentou improvisar uns versos. Assim:
Louvado seja Javé
Porque é o que é
Me deixou ver em pé
Meu filho Salomé
Ser o rei de Israé.
— Mas o nome do moleque não é Salomão?
— Por isso o rei não terminou o salmo. Não é mais o mesmo…
— Sei não, sei não. Esse negócio aí não está me cheirando bem. Isso pode ser perigoso como o diabo. O que você acha, Joabe? Joabe? Cadê esse puto? Abiatar? ABIATAR! PORRA!
Percebendo o isolamento político em que se encontravam, os convidados de Adonias saíram de fininho. Afinal de contas, em pelo menos uma coisa ele acertara: era perigoso ficar isolado politicamente em Israel naqueles tempos (hoje em dia também, mas não vamos falar nisso).
Adonias, que havia pouco conhecera as delícias do poder, viu-se destituído do trono sobre o qual sequer chegara a sentar-se, e com a cabeça a prêmio. O novo rei não perdoaria sua ousadia. Então fez a única coisa que podia: correu para o Tabernáculo e agarrou-se às pontas do altar. De acordo com a lei, ninguém poderia ser morto na presença de Deus, ou seja, dentro da Tenda Sagrada. Lá de dentro, tremendo todo e agarrado com toda a força às pontas do altar, Adonias mandou seu recado:
— Só saio daqui se o rei Salomão jurar não me matar à espada!
Quando soube da reivindicação de Adonias, o novo rei fez seu primeiro pronunciamento público:
— Aê. Se o mano mostrá que é firmeza, eu trombo ele e não tem treta. Mas se vier com crocodilagem, é um-dois, mando subir. Tá ligado?
— C-como, majestade?
— MAJESTADE O CARAIO! ME CHAMA DE MANO!
— M-Mano?
— MANO!
— Mas é que…
— Ah, véio. Manda aquele cu-de-burro sair lá de onde ele tá muquiado, que eu quero dá uma idéia no figura.
— S-sim senhor…
— MANO!
— Mano, mano!
— É foda…
Os funcionários do palácio foram buscar Adonias no Tabernáculo. As mãos do coitado estavam crispadas em volta das pontas do altar, então ele precisou de ajuda para sair. Bom, o medo de encarar o novo rei também não ajudava muito. Mas todo mundo garantiu que estava tudo bem, que nada lhe aconteceria e tal, então ele foi ter com Salomão. Chegou, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão.
— Ih, véio! Que parada é essa aê?
— Majestade!
— Ô caraio… Seguinte, mano: vaza.
— Hein?
— VAZA, MANO! RALA O PEITO! SOME!
Adonias não esperou terceira ordem: deu meia-volta e saiu. Estava vivo, surpreendentemente vivo. Mas todo mundo morre um dia. Uns vão mais tarde, outros mais cedo. Mas não vamos nos adiantar, os próximos capítulos serão bem movimentados. Será agitado o reino de Salomano.
Digo, Salomão.
A velhice de Davi e o golpe de Adonias
(I Reis 1:1-10)
O primeiro livro dos Reis tem um nome que não faz muito sentido. Afinal, a história da monarquia israelita começa já no primeiro livro de Samuel. Algumas versões da bíblia Católica trazem os livros de I, II, III e IV Reis, em vez de dois livros de Samuel e dois dos Reis. A divisão, seja ela qual for, é arbitrária: como os livros eram originalmente escritos em rolos, seria necessário um carrinho de mão para transportar toda a história da monarquia. Então os estudiosos judeus que fizeram a primeira tradução da Bíblia para o grego (em 250 a.C., no Egito) resolveram dividir cada um dos livros em dois volumes menores. Enfim, vamos à história.
Davi já estava muito velho. Velho mesmo: em 973 a.C., quando começa este livro, o rei estava em seu 40º e último ano de governo. O povo de Israel já estava cansado: então um sujeito dá uma pedrada num jogador de basquete e pronto, é rei por quarenta anos? Não era muito democrático. Além do mais, o rei estava nas últimas: sentia um frio danado o tempo todo. EM PLENO ORIENTE MÉDIO! Um frio incontrolável. O pessoal do palácio trazia cobertas, ponchos, gorros, cachecóis, luvas, máscaras de esqui, e nada do rei se aquecer.
— Por que a gente não toca fogo no velho?
— Tá doido, rapaz?
— Que que tem? Ele não vai viver muito mesmo, pelo menos morre quentinho…
— Oras, deixe de falar besteira. Majestade!
— Hum? Hein? Quem?
— Majestade… Nós vamos procurar uma moça para cuidar do senhor.
— Uma moça, é?
— É. Para cuidar do senhor, dormir na sua cama e mantê-lo aquecido. Que tal?
— Oba!
Então os conselheiros do rei saíram por todo o Israel procurando uma moça que servisse a tal propósito. Acabaram encontrando uma garota chamada Abisague, Miss Suném 975 a.C. Levaram Abisague até o palácio, e ela aceitou de bom grado suas novas atribuições. Passava o tempo deitada ao lado do rei, aquecendo seu velho corpo. Davi sequer tocava a moça. Não que não quisesse, mas qual seria o propósito? Estava velho, seus dias de garanhão haviam ficado para trás.
Enquanto o rei passava seus dias deitado com a bela sunamita-aquecedora, no reino inteiro só se falava da sucessão. Amnom, o primogênito do rei, fora morto por Absalão. Este, o segundo filho, fora morto por Joabe depois de liderar uma rebelião. O terceiro, Adonias, filho de Davi com Hagite, parecia o sucessor natural. Era um rapaz muito mimado, naturalmente: depois de perder dois de seus filhos (isso sem contar o que tinha morrido pouco depois de nascer, num daqueles castigos muito justos de Javé), o rei fazia todas as vontades de Adonias e nunca o repreendia por nada. Tendo crescido dessa maneira, paparicado pelo pai, Adonias queria de toda forma ser o próximo ocupante do trono de Israel. E não demorou a providenciar isso: percebendo que Davi estava mesmo nas últimas, arranjou carros de guerra, cavalos e cinqüenta homens para formarem sua comitiva pessoal. O príncipe sabia que precisava de apoio nas altas esferas do reino, ou acabaria como seu irmão Absalão. Então foi falar com Joabe, o general e braço direito de Davi, e com Abiatar, o sacerdote. Os dois concordaram em apoiá-lo. Não viam sentido em manter no trono um rei moribundo: melhor mesmo seria que Davi se retirasse para sua casa no litoral do Mediterrâneo, e deixasse o reino nas mãos de alguém capaz de conduzi-lo. Outros, porém, foram sondados por Adonias e não o apoiaram: Benaías, chefe da guarda pessoal do rei, Zadoque, o sacerdote mais jovem, o profeta Natã e os guarda-costas Simei e Reí decidiram ficar ao lado do velho rei. Lealdade? Não exatamente: eles também achavam que estava na hora de Davi pendurar sua funda, mas queriam que o sucessor fosse Salomão, um príncipe meio apagado e nascido de uma união reprovada por todos.
Tendo formado seu séquito, Adonias deu uma festa e convidou seus irmãos e os funcionários do rei originários de Judá. Convidou a todas as pessoas influentes da côrte, com exceção dos poucos opositores. Tinha certeza de que seria rei, era só questão de tempo. Não contava, porém, com a astúcia de seus adversários.
Israel tremia com as novidades quentes, e Davi tremia de frio em sua cama. Olhou para a porta e viu uma silhueta familiar.
— Vem cá, minha nêga…
Enquanto Abisague se aninhava a seu lado, a nostalgia tomava conta do rei. Lembrava-se de seus tempos de furor viril. Inocente, nem sabia que sua impotência não mais se restringia ao âmbito sexual.
Davi manda contar o povo
(II Samuel 24)
No antepenúltimo capítulo, último antes das reminescências e cantorias de Davi, vimos que Javé voltou à cena depois de andar sumido por um tempo. E voltou demonstrando que continuava o mesmo de sempre, ou seja, um deus sanguinário e meio maluco. Acompanhem.
Aconteceu que Javé ficou com raiva de Israel. Assim, do nada. Simplesmente acordou um dia — de ressaca, provavelmente — olhou lá pra baixo, viu seu povo escolhido e pensou: “Eita, povinho enjoado”. Resolveu, pois, que iria castigar seu povo. No entanto, mesmo sendo Deus, Senhor do Universo, Ser Supremo e muitas outras coisas de acordo com os diplomas na parede, Javé sabia que não podia simplesmente castigar o povo apenas para relaxar. Bom. Poder, podia. Ninguém iria processá-lo nem nada assim. O problema é que não ia pegar nada bem. Então resolveu que faria com que Davi prejudicasse o povo, dando assim motivos à ira divina. De que forma? Simples: foi falar com Davi1.
— Davi!
— Quem é?
— DAVI!
— QUEM É, DIABO?
— DIABO É O CACETE! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— J-Javé?
— Ai meu saco… Por que é que todo mundo começa a gaguejar quando fala comigo? Para imitar o Moisés? Já não disse que não adianta?
— É o medo, Javé.
— Medo de quê, Davi?
— Ah, sei lá. Quando o senhor aparece é sempre pra dar uma dura na gente, ou dizer que vai mandar fome, peste, guerra…
— Que é isso, rapaz! Velhos tempos, velhos tempos! Vim em missão de paz, pode ficar sossegado.
— Ufa… Mas então, Javé, que é que manda?
— Eu queria que você contasse o povo de Israel.
— Como?
— Sei lá como! Te vira!
— Não, não. É que não entendi. Contar o povo por quê?
— PORQUE EU ESTOU MANDANDO, CACETE!
— Boa razão.
— Humpf.
— E o que mais?
— Mais nada, ué. Agora dê licença, que eu vou cochilar um pouco. Dor de cabeça desgraçada…
— Até mais, Javé.
— Grunf.
Assim que Javé saiu, Davi mandou chamar Joabe, o comandante de seu exército (após a fugaz passagem de Amasa pelo cargo, interrompida pelo próprio Joabe quando… Bom, relembrem).
— Joabe, tenho uma missão para você.
— Opa. Quem eu tenho que matar agora?
— Matar? Que história é essa? Eu alguma vez mandei você matar alguém.
— Bom. Não oficialmente, né?
— NEM EXTRA-OFICIALMENTE! O QUE VOCÊ ESTÁ INSINUANDO, JOABE?
— …
— HUMPF! Deixe de bobagem e preste atenção: quero que você saia por todo o Israel, tribos do sul e do norte, contando o povo. Quero saber em quantos somos.
— Mas que bobagem, majestade! Que Javé faça o povo de Israel cem vezes mais numeroso do que agora, e que o senhor viva para ver isso. Para que contar o povo?
— NÃO É DA SUA CONTA, CÁSPITA!
— …
— Escuta aqui: eu te dei uma ordem e você vai cumpri-la. Compreendido?
— Sim senhor.
— Então vai, e só volte aqui com os números nas mãos.
— Sim senhor.
Então Joabe saiu de Jerusalém com seus oficiais. Atravessaram o rio Jordão e acamparam ao sul de Aroer. Depois seguiram para o norte, para a cidade de Jazer, continuaram até Gileade e depois Cades, terra dos heteus, de onde partiram para Dã, depois para Sidom, Tiro, passando pelas terras dos heveus, dos cananeus, e finalmente por Berseba, no sul de Judá. No mapa abaixo vocês podem ver o itinerário completo (caso pudesse ser feito de avião, o que não era o caso):
Nove meses e vinte dias depois da partida, eles voltaram a Jerusalém com os números: oitocentos mil homens capazes para o serviço militar em Israel, e mais quinhentos mil em Judá.
Estranhamente, depois de realizar a contagem o rei começou a sentir um peso na consciência. Lastimava-se e clamava a Deus:
— Javé! Pois é! Eu fiz uma coisa terrível ao mandar contar o povo, um grande pecado! Oh, Javé, perdoa-me! Foi uma maluquice, eu bem sei!
Er…
Ok, esperem aí.
Mandar contar o povo fora um grande pecado? Mas por quê? E por que Davi pedia perdão a Deus e se martirizava por isso, se a idéia partira do próprio Javé, para começo de conversa? Pois é, ninguém sabe. Bom, se vocês procuram lógica nas Sagradas Escrituras, leiam O Código da Bíblia. Voltemos.
Na manhã seguinte Davi foi acordado por um tal Gade. O sujeito dizia ser profeta, e trazia uma mensagem de Deus:
— Rei Davi, Javé me pediu para vir até aqui falar com o senhor.
— Ah, sei. É sobre o censo?
— Não sei não, só sei do recado que ele mandou. Pediu para o senhor escolher entre três coisas, o que o senhor escolher ele fará.
— Opa! Então Javé agora virou gênio da lâmpada? Que beleza! E quais são minhas opções?
— Três anos de fome na sua terra, três meses fugindo de seus inimigos ou três dias de peste em Israel.
— Epa. Não era bem isso que eu esperava…
— Bom, foi só isso que ele me mandou dizer.
— Hum. Bah, que merda. Adianta argumentar?
— Não.
— Bom. Eu estou desesperado, mas não quero ser castigado pelos homens. Que o próprio Javé nos castigue, então.
— …
— …
— E qual a sua opção, majestade?
— O QUE VOCÊ É? IDIOTA?
— Não sei, só vim trazer o recado.
— A PESTE, IMBECIL!
— Ah. Tá bom. Vou avisar Javé.
O profeta saiu e o rei ficou prostrado. Por sua culpa o povo sofreria com uma epidemia terrível. Havia algo de errado nesse esquema, mas ele não conseguia atinar com que fosse. Enquanto isso, feliz da vida, Javé mandou seu anjo preferido — aquele que matara os primogênitos no Egito — distribuir a peste por todo o Israel. O anjão carrancudo saiu andando pelo reino com sua espada na mão, e de norte a sul morreram setenta mil israelitas. Quando, porém, o anjo ergueu sua espada para atacar Jerusalém, Deus o interrompeu:
— Ô, rapaz. Chega, pode voltar pra cá.
— Pô, seu Javé.
— Não tem seu Javé nem seu Mané. Mandei voltar.
— Mas agora que eu ia começar a me divertir!
— NÃO ME INTERESSA!
— CHATOBOBO!
O Grande Anjo Destruidor fez beicinho e voltou para casa, deixando a capital do reino passar incólume. O lugar de onde ele pretendia atacar Jerusalém era um terreiro de malhar cereais pertencente a um certo Araúna.
Da janela de seu palácio, vendo o anjo destruir o povo, Davi se lamentava:
— Culpa minha. Tudo culpa minha. Tudo, tudo culpa minha. Eu fiz a merda e agora o povo paga. Não é justo. Eu e minha família é que deveríamos ser castigados.
— EPA! EU NÃO!
— CALABOCA, SALOMÃO! Ô moleque impertinente…
Javé deve ter ouvido o que Davi dissera, porém, porque resolveu contemporizar: no mesmo dia o profeta Gade voltou ao palácio.
— Rei Davi, trago um recado de Javé. Ele ordena que o senhor vá até o terreiro de malhar cereais de Araúna e construa lá um altar.
— Araúna? Quem é Araúna?
— Não sei, eu só vim mesmo trazer o recado.
— Gade?
— Senhor?
— Você é uma bosta de profeta, sabia?
— Sei de nada, só vim pra…
— TRAZER O RECADO! JÁ SEI, JÁ SEI! RASPA DAQUI, PEDAÇO DE ASNO!
O profeta saiu correndo, e Davi tratou de informar-se sobre o tal Araúna. Pergunta daqui, pergunta dali, acabou descobrindo onde era a tal propriedade na qual o altar deveria ser erguido. Foi até lá pessoalmente.
O terreno ficava num lugar alto. Ao olhar para baixo e ver que o rei e seus oficiais vinham até sua propriedade, Araúna desceu correndo ao encontro do soberano, ajoelhando-se ao chegar perto.
— Senhor! O que o traz aqui?
— Hum. Que cheiro é esse?
— Er… O senhor viu o anjo?
— Vi sim.
— Viu a hora em que ele levantou a espada e Javé mandou ele parar?
— Vi, vi.
— Então. Eu estava bem embaixo. Aí…
— Tá, já entendi de onde vem o cheiro. AR-RAM… Eu vim comprar esse seu terreiro e construir nele um altar dedicado a Javé, para que assim a peste acabe.
— Majestade, se o propósito é tão bom eu dou o terreiro para o senhor. E mais ainda: tenho bois que podem ser oferecidos como sacrifícios, além de suas cangas e as tábuas para debulhar cereais, que podem ser usadas como lenha. Pronto, é tudo seu. Que Javé aceite o subor… Digo, a oferta, e nos livre dessa peste.
— É muito gentil de sua parte, Araúna, mas não posso aceitar. Não vou oferecer a Deus sacrifícios que não me custaram nada. Vou comprar sua propriedade, seus bois e tudo mais. Olhando assim, por alto, ofereço a você… Hum, deixa ver… 570 gramas de prata. Tá bom?
Araúna concordou, contrariado. O rei não aceitar o presente era uma coisa. No entanto, oferecer por toda sua propriedade um preço irrisório (equivalente, pela cotação atual da prata, a cerca de 380 reais) chegava a ser ofensivo. Mas Araúna estava tão interessado quanto qualquer outro na rápida solução daquele impasse, então embolsou sua prata e foi embora. O rei construiu o altar conforme Javé solicitara, ofereceu sacrifícios, e Deus finalmente concordou em retirar a peste de Israel.
Pois muito bem. Entenderam? Resumindo: Javé estava puto com seu povo sem motivo. Então ordenou que Davi contasse os israelitas, o que era um pecado medonho, sabe-se lá por quê. Como castigo por esse pecado, Deus mandou uma peste para afligir a Israel. Para retirar a peste do reino, exigiu que Davi construísse um altar e lhe oferecesse sacrifícios. Simples.
É por nada não, mas se existissem psiquiatras na época Javé estaria internado até hoje…
Os soldados famosos de Davi
(II Samuel 23)
Numa praça de Jerusalém, perto do palácio real, dois repentistas cantam para a crescente roda de curiosos. Um deles, Zé de Gade, é um varapau desdentado e de olhar esperto. Patativa de Zebulom, seu companheiro, é atarracado, não tem pescoço nem dentes, e sorri o tempo todo. Ambos são feios como a necessidade. E cantam:
Eu vou lhes contar a história
Mais bonita que já vi
Dos soldados mais famosos
Os valentes de Davi
O Josebe-Bassebete
Cabra de muitos talentos
Sem nenhum constrangimento
Andou pintando muito o sete
A história não se repete
Se não me falha a lembrança
Armado com sua lança
E de olhos muito atentos
Matou mais de oitocentos
E foi aquela lambança.
Eleazar, filho de Dodo
Sujeito de cara amarrada
Gostava de dar porrada
E não era nada bobo
Numa ocasião foi fogo:
Foi lutar com os filisteus
E de raiva dos ateus
A mão se pegou na espada
Só largou na hora dada
Da vitória dos hebreus.
Vou falar também de Sama
De família hararita
Que em Israel habita
E ainda tem muita fama
Eu já lhes conto toda a trama
Do feito que muito brilha:
Numa plantação de ervilha
Mandou os filisteus pra chama
Do inferno que os inflama
Ô, Javé, que maravilha!
Esses três cabras valentes
Estavam em Adulão
Onde Davi estava então
Junto com os seus agentes
E com a voz mais pungente
Expressou sua vontade
Que inspirou caridade
A toda aquela gente
Um pedido diferente
Não atender era maldade:
“Cercaram minha cidade
Minha querida Belém
Não foram homens de bem
Mas os filisteus na maldade
Meu Deus, que barbaridade
E eu aqui passando sede
Queria estar na minha rede
Com toda tranqüilidade
Tomando água do balde
Do poço perto da parede”.
Josebe e Eleazar
E o hararita Sama
Percebendo logo o drama
Do rei naquele lugar
Resolveram ir buscar
A água do poço de Belém
Para mostrarem que além
De serem homens de lutar
De matar, e trucidar,
Eram sujeitos de bem.
Ao receber um tal presente
Muito se emocionou o rei
“Meu Javé, agora eu sei
que querem me ver contente
Pois me viram tão carente
E quiseram me ajudar
Não sou digno de tomar
Essa água da nascente
Que me trouxeram os valentes
Melhor mesmo é derramar”.
Muitos além desses três
Se destacaram em Israel
Foram todos para o céu
Isso eu digo pra vocês
Agora mesmo é a vez
De falar de Abisai
Que nunca soltou um ai
E muita coisa boa fez
Matou trezentos e seis
Eu juro por Nosso Pai.
E o filho de Jeoiada
O famoso Benaías
Também teve os seus dias
Era um cabra da pesada
Armado com sua espada
Matou dois grandes guerreiros
Mais um leão carniceiro
E com uma vara afiada
Matou de uma estocada
Um egípcio lanceiro.
A lista desses soldados
É enorme como o quê
Se eu começo a dizer
Vou ficar até cansado
Os feitos realizados
Nos tempos de antigamente
Por todos esses valentes
Ficaram mesmo no passado
Hoje só se vê veado
Andando na nossa frente.
Eu já lhes contei a história
Mais bonita que já vi
Dos soldados mais famosos:
Os valentes de Davi
Que beleza.
Opa
Hoje tem capítulo bíblico novo. Se não tiver, é por safadeza minha mesmo. Seja como for, fiquem ligados.
O hino da vitória de Davi
(II Samuel 22)
Próximo ao seu final, o segundo livro de Samuel começa a ficar bastante nostálgico. Exemplo disso é este capítulo, que transcreve o hino que Davi compôs quando Deus o livrou da perseguição de Saul. Já velho, Davi gravou essa bela canção em disco. A qualidade não é das melhores: um tecladinho de churrascaria, a voz do rei bastante vacilante e matratada pela idade. Mesmo assim, foi um grande sucesso em Israel na época. Quer ouvir?
[audio:http://www.jesusmechicoteia.com.br/imagens/aquareladejave.mp3]
Cante junto com o rei:
Aquarela de Javé
Javé, és minha fortaleza
Um deus que é uma beleza
Vou cantar-te nos meus versos
O Javé, deus que nos dá
Inimigos pra trucidar
O Javé, deus de terror
Ele é nosso senhor
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Ô, esse Javé que tá no céu
É o grande deus de Israel
Terra do leite e do mel
Javé! Javé!
Deixa cantar de novo o Davi
Que andou fugindo aqui e ali
Antes de ser o rei daqui
Quero ver esse Javé me abençoando
E aos inimigos matando
Com seus olhos injetados
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Javé, faz a terra tremer
A montanha ceder
E fica indiferente.
O Javé, deus que nos dá
Inimigos pra trucidar
O Javé, deus de terror
Ele é nosso senhor.
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Ô, esse raio que cai do céu
Que mata mais de um milhão
Nas noites claras de luar
Javé! Javé!
Ah, essa voz tonitruante
À qual não ouso dizer não
Só resta mesmo concordar
Oi, esse deus do mundo inteiro
É nosso deus carniceiro
Raivoso e justiceiro
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Batalhas contra os gigantes filisteus
(II Samuel 21:15-22)
— E aquele que tentou matar o rei daquela vez, como era o nome dele?
— Er… Davi?
Sentados em volta de uma mesa, Abisai, Sibecai, Elanã e Jônatas (não o finado filho de Saul, mas um sobrinho de Davi) contam histórias dos velhos tempos de guerra contra os filisteus. Quem fala, inflamado pelo vinho, é Abisai, irmão de Joabe. Irrita-se com a confusão de Jônatas:
— Não do rei, ô cavalgadura, do gigante! Não estou assim tão caduco, porra.
— Ah… Isbi-alguma-coisa.
— Isbi-Beb… Isbi-Bena… — Elanã tenta lembrar-se.
— ISBI-BENOBE!
— Isso, Sibecai! Pois então, Isbi-Benobe. O feladaputa tinha bem uns cinco metros de altura, e…
— Pára, Abisai…
— E você estava lá, Jônatas? Não estava, não é?
— …
— Humpf. Como eu dizia, o bichão tinha pra mais de seis metros de altura. Naquela época a gente tava sem nada pra fazer, resolvemos ir cutucar a filistaiada. Só que a gente se esqueceu dos desgraçados dos gigantes. Aí uma hora o rei ficou cansado, se sentou numa pedra com a mão no peito, respirando difícil. Eu estava vindo do outro lado e só vi tudo ficando escuro. Parecia que tinha anoitecido de repente. Sabem o que era?
— Eclipse?
— Que eclipse nada! O tal do Isbi-Benobe vinha chegando de mansinho pra matar o rei. A sorte foi que eu vi o danado, e sapequei-lhe a espada nos cornos. Nesse mesmo dia eu reuni os soldados e fomos falar com o Rei. Dissemos a ele, “Olha, majestade, é por nada não, mas achamos melhor o senhor não ir mais pra guerra”. Ele entendeu o recado. Já estava velho, coitado, não podia se arriscar daquele jeito.
— Ué. E tinha ficado escuro por quê?
— Cê não tá prestando atenção na história, desgraça? Ficou escuro porque o bruto era tão grande que tapava o sol…
— Ah, Abisai, assim já é demais!
— É demais? É demais, Sibecai? Quem vê pensa que você já matou algum gigante.
— E não matei, corno? Matei, matei foi muito!
— Sei, sei… Fala só UM.
— Teve aquele lá, o Safe.
— SAFE?
— É. Safe.
— Logo se vê que é nome inventado…
— Vai ouvir a história ou não vai? Humpf. Eu estava pescando ali no Jordão. Sossegado, os peixes mordendo vez em quando, eu embaixo da sombra de uma oliveira, só bestando. Vai daí que o rio começa a correr devagar, devagar, devagar… Em cinco minutos já estava sequinho. Só vi a água indo embora lá pros lados do Mar Morto, e nada de vir mais água da direção da nascente. Pensei, “Epa, que negócio é esse?”. Sabem o que era?
— Josué voltando do mundo dos mortos?
— Mané Josué! Uns quinhentos metros pra cima, esse tal de Safe tinha resolvido tomar banho no rio. Deitou de comprido, com a cabeça numa margem e…
— … VOCÊ VAI ME DIZER QUE OS PÉS DELE ESTAVAM NA OUTRA MARGEM? AH, NÃO!
— E eu lá sou um cabra sem-vergonha mentiroso feito você pra falar uma mentira desse tamanho? Deixa eu terminar! A cabeça dele estava numa margem. Os JOELHOS estavam na outra margem. Os pés estavam apoiados na muralha de uma cidade. Como era mesmo o nome daquela cidadezinha ali bem do lado do Jordão…? Bom, não importa. O negócio é que o bichão tava lá estirado represando o rio. Eu fui chegando devagarinho, fui chegando, fui chegando e meti minha lança no ouvido dele. Troço perigoso, porque cérebro de gigante é pequeno. Mas graças a Javé deu certo, o bicho ficou estrebuchando um tempo e morreu.
— Sei, sei… E como foi que tiraram o defunto de lá pra liberar o rio?
— Olha, eu sou soldado, não coveiro. Sei lá como tiraram o defunto! Matei o bicho e saí andando, que eu não sou aparecido feito você.
— APARECIDO? EU TE MOSTRO, FILHO DE UMA QUENGA!
— Epa, epa… Calma, porra. Vocês dois aí brigando por bobagem. Cada um matou seu anãozinho, pronto…
— ANÃOZINHO???
— É, oras. Esses gigantes aí eram anões perto do que eu matei, o Golias.
— Golias, Elanã? Como você é mentiroso! Esse quem matou foi o rei Davi!
— Rapaz, rapaz… O filho do finado rei Saul não se chamava Jônatas?
— Chamava.
— E você não se chama Jônatas também?
— É.
— Então pode ter dois Jônatas mas ter dois Golias é proibido?
— …
— Deixa eu falar. Estava voltando pra minha tenda depois de ficar o dia inteiro pelejando contra os filisteus. Cansado que só a porra, só pensava em deitar e dormir. Entrei na barraca, apaguei a lamparina, deitei no chão e dormi em seguida. Lá pelo meio da madrugada acordei com uma barulhada. Um negócio assim: Méeeeee – NHAM, NHAM, NHAM, CRUNCH! SLUUUUUUUURP! Méeeeee – NHAM, NHAM, NHAM, CRUNCH! SLUUUUUUUURP! Méeeeee – NHAM, NHAM, NHAM, CRUNCH! SLUUUUUUUURP! Que diabo era, que diabo não era, fui ver o que era. Ah, que cena pavorosa!
— Lá vem mentira…
— Deixa eu contar, rapaz! Estava o tal Golias lá no meio do deserto, sentado perto de um poço. De longe eu só via a mão dele mexendo, e ouvia o barulho. Fui chegando perto e quase que nem eu mesmo acredito: o feladaputa tinha pegado todas as ovelhas do acampamento, jogado dentro do poço, e estava comendo as bichinhas que nem pipoca. Metia a mão dentro do poço, pegava um punhado de ovelhas vivas e mandava pra goela. Coisa horrenda.
— Ai, ai, ai… E como foi que você matou esse gigante comedor de ovelha?
— Pois é, rapaz… Estava eu ali nu, desprevenido. Tinha deixado as armas na tenda, e já estava muito perto do Gigante. Se fizesse qualquer movimento, era capaz do bicho me ver e aí era uma vez Elanã. Então cheguei beeeeeeem perto dele, de mansinho. Quando estava numa distância como daqui até aí onde está o Abisai, gritei “BU!”. O bicho engasgou com as ovelhas, foi ficando roxo, ficando roxo, e morreu ali mesmo.
— Meu Javé, é uma história pior que a outra!
— Você tem é inveja, seu moleque! Inveja porque nunca matou um gigante!
— Como assim, nunca matei? Matei sim!
— E como era o nome da giganteza abatida por Vossa Senhoria?
— Eu sei lá como era o nome do gigante! Vocês parecem que pedem documento pros bichos antes de matar, cada um sabe o nome do seu gigante. Desse eu só sei que tinha seis dedos em cada mão e em cada pé.
— Eita, que essa doeu…
— É verdade! Cada dedão que parecia uma viga.
— E como foi que você matou o dedudo?
— Ah, lembrei da história do rei Davi e resolvi fazer do mesmo jeito. Matei na pedrada.
— Ué. Só isso?
— É.
— História sem graça, Jônatas.
— Eu sei, eu sei. Foi um negócio muito sem graça mesmo. O gigante vinha vindo lá dos lados da Filistia. Corria e xingava a gente. Aquilo foi me deixando puto, o sangue foi fervendo, não agüentei: botei uma pedra na funda e ZAPT, lá foi ela se encravar bem na testa do desgraçado. Nisso, eu lembro bem, eram umas nove da manhã. Às oito da noite já tinha acabado.
— Hein? Como? Acabado o quê?
— Ué. Eu acertei a pedrada na testa dele às nove da manhã. Ele foi caindo, foi caindo… Eu saí, fui comer alguma coisa, depois fui jogar baralho com os outros soldados. Voltei e o gigante ainda tava caindo. Só foi terminar de cair às oito da noite…
— Hum.
— É…
— Gigantes, né?
— Pois é…
— Vambora?
— É. Depois dessa, é melhor mesmo.
