(I Reis 14)
Jeroboão foi avisado pelo profeta de Judá, teve sua mão paralisada e viu o altar consagrado aos bezerros rachando ao meio. Nem assim, porém, o rei de Israel tomou tento. Vendo lá de cima que Jeroboão continuava a traí-lo com outros deuses, Javé resolveu que era hora de castigá-lo. Ergueu o punho, fez pontaria sobre a cabeça do rei, lançou sua maldição e… errou a pontaria. Jeroboão nem percebeu nada até ser avisado pela esposa que Abias, seu filho, caíra doente. Lá de cima, Javé disse “Epa” e tratou de improvisar um plano B.
Jeroboão podia ser idólatra e prepotente, mas era também um bom pai de família. Percebendo que a doença do filho podia ter alguma relação com as advertências do profeta de Judá, chamou sua mulher e lhe passou instruções:
— Minha filha, tu conhece Aías, o profeta que disse que eu ia ser rei e a porra toda, não é? Pois então: leve o barrigudim lá pro profeta, em Siló, explique a ele o leriado todo. Dê a ele uns pãezinhos, uns bolos, uns agrados, e pergunte que diacho vai acontecer ao menino. Mas vá disfarçada, viu? Se o cabra da moléstia souber que tu é minha mulher, é capaz de nem atender. Profeta é uma raça muito puxa-saco de Javé.
A esposa do rei botou então uma máscara de Groucho Marx, uma peruca azul, e foi ter com o profeta.
Aías já estava completamente cego, então a precaução de Jeroboão seria desnecessária. Seria, porque no mesmo momento em que sua mulher saía de casa para ir visitar o profeta, Javé batia à porta do velho.
— Quem é?
— É O FRIO!
— Não adianta bater, eu não deixo você ent…
— CALABOCA, AÍAS! SOU EU!
— Javé?
— É, porra!
— Já vou abrir.
— Não precisa, já estou aqui dentro.
— Eita. Como é que cê faz isso?
— EU SOU É DEUS, RAPAZ! DEUS!
— Sim, sim.
— Vim para dar um aviso. A mulher daquele desgraçado daquele Jeroboão está vindo aí. Vem num disfarce ridículo, para te enganar. Não se engane, Aías! Quando ela chegar, diga logo que sabe quem ela é e entregue este papel a ela.
— Pode deixar, Javé. O que está escrito no papel? Javé? Ô! Javé! Sumiu… Comé que ele faz isso, diacho?
Quinze minutos depois era a mulher de Jeroboão que batia à porta de Aías.
— Quem é? É a mulher do rei?
— …
— Não adianta disfarçar, minha filha. Pode entrar, fique à vontade.
— Como o senhor sabia que era eu?
— Javé me disse que a senhora viria. Pediu-me para entregar-lhe este papel.
— O que está escrito?
— Eu sei lá! O diabo do recado não está em braile.
A mulher aproximou o papel de um lampião e leu o recado terrível que Deus tinha para seu marido:

Jeroboão, seu bosta.
Você pensava que podia me sacanear, adorar a outros deuses e levar o povo à idolatria sem que nada lhe acontecesse? Eu avisei, eu avisei… Escolhi você para ser rei. Tomei a maior parte do reino da família de Davi e a entreguei a você. E o que você fez? FODEU COM TUDO, SEU MERDA!
Ah, que saudade de Davi! Aquele sim me obedecia. Eu dizia “vá”, e ele ia. Dizia “mate”, e ele matava. Com gosto! Você não chega nem aos pés de Davi.
Você me traiu, Jeroboão, e por causa disso eu vou trazer desgraça para sua família. Todos os seus descendentes homens terão morte horrível. Eu vou varrer sua família do mapa como quem varre um monte de bosta, que é isso que vocês são. Seus descendentes não terão sequer o direito à sepultura: serão devorados pelos cães e pelos corvos.
Que isso lhes sirva de lição
J.

Enquanto ela lia a carta, o telefone tocou. O profeta foi atender e voltou com a maior cara de tristeza do mundo.
— O que diz o recado, dona?
Ela leu a mensagem em voz alta, e Aías não precisava de visão para saber que a mulher chorava enquanto lia.
— É muito triste mesmo. E tem mais.
— Como?
— Javé ligou agora. Mandou dizer que o menino vai morrer assim que a senhora pisar na cidade.
— MEU DEUS!
— Meu também, mas o que se vai fazer? Ele diz que esse menino vai ser o único da família a ter uma sepultura decente, porque é o único de quem ele gosta de verdade.
— Gosta? GOSTA? Meu marido errou, ele castigou o menino, e ainda diz que GOSTA dele?
— Dona, eu só dou o recado. Entendo nada também. Diga isso ao rei, e diga também que Javé mandou avisar que vai castigar o povo de Israel por sua idolatria. O povo será arrancado dessa terra e espalhado por aí.
Sem acreditar no que acabara de ouvir, a esposa do rei saiu da casa de Aías sem se despedir. Vagou durante horas por estradas secundárias, sem coragem de voltar para casa. Se o que o profeta dissera era verdade, assim que ela chegasse a Tirza seu filho morreria. Depois de muito andar, percebeu que era inútil adiar: de uma forma ou de outra ela teria que voltar à cidade, e se não o fizesse Javé era capaz de adotar represálias piores ainda. Foi, portanto, para a cidade. Assim que ultrapassou as muralhas, ouviu o grito de Jeroboão. Quando entrou no quarto do menino, viu o rei chorando debruçado sobre o corpo.
O príncipe Abias, mais uma vítima inocente de Javé, foi pranteado por todo o povo de Israel e sepultado em Tirza.
Após a morte do filho, Jeroboão começou a definhar. Parou de comer e beber, não se dedicava a mais nada e vivia vagando pelo palácio com olhos vazios. Vinte e dois anos depois de assumir o trono, o rei de Israel morreu e seu filho Nadabe foi coroado. Não durou muito.
Quando Jeroboão morreu, Roboão já apodrecia em sua cova havia cinco anos. O rei de Judá morrera aos 58 anos de idade, 17 deles no trono. O comportamento de Roboão não fora melhor que o de seu colega do norte: durante seu reinado, o povo adotou os costumes e os deuses dos países vizinhos. Havia altares pagãos nas montanhas, bosques consagrados a diversas divindades e até orgias sagradas com prostitutas fazendo as vezes de sacerdotisas.
No quinto ano do reinado de Roboão, Sisaque, rei do Egito, atacou Jerusalém e saqueou o templo e o palácio construídos por Salomão. O rei mandou fazer escudos de bronze para substituir os outros, de ouro, que haviam sido levados para o Egito.
Os reis do norte e do sul mantiveram-se em guerra enquanto Roboão foi vivo. Quando ele morreu, foi enterrado no mausoléu dos reis, e seu filho Abias subiu ao trono. Também não durou muito.

(I Reis 13)
É da eterna prepotência humana acreditar que Deus ouve todas as orações e as considera uma por uma. Nada mais pretensioso. O que ocorre, na verdade, é que as orações são dirigidas ao Limbo. O Limbo, como vocês sabem, é o lugar do além reservado aos infiéis virtuosos e às crianças que morrem sem batismo. Toda oração que é feita aqui da Terra, independentemente da religião de quem profere a prece, é encaminhada ao Limbo. Lá os receptores classificam as orações de acordo com a filiação religiosa e as repassam ao Purgatório.
O Purgatório, como vocês também sabem, é reservado àquelas pessoas que não foram boas o suficiente para ir para o céu nem más o bastante para queimar no inferno. Como o próprio nome diz, é um local para purgar os pecados cometidos em vida. O que vocês não sabem é que todo mundo que vai para o Purgatório é colocado para trabalhar numa central de atendimento. Cada religião, seita ou culto tem seu próprio contact center por lá. Os atendentes, sentados em suas baias com seus headsets, recebem as orações do Limbo e a encaminham ou não ao Céu (ou ao Inferno, no caso dos satanistas). Preces que tenham alguma relação com ganhar na loteria, por exemplo, são sumariamente descartadas. Pedidos para passar no vestibular são analisados caso a caso. E assim vai. Assim que a oração é repassada, cessa a responsabilidade do Purgatório.
“Mas o que tem isso a ver com o reino dividido de Roboão e Jeroboão?”, há de perguntar um que outro leitor mais impaciente. Já explico.
Aconteceu que, nos tempos de Jeroboão, um dos atendentes da empresa de contact center dedicada ao judaísmo no Purgatório recebeu uma ligação urgente do Limbo. A pessoa do outro lado da linha parecia agitada.
— A religião de vocês tem alguma coisa a ver com bezerro?
— Um momento, senhor. Vou estar verificando.
[musiquinha de espera]
— Obrigado por aguardar, senhor. No judaísmo, os bezerros são utilizados em rituais de sacrifício ao nosso deus, Javé.
— Só isso?
— É o que consta no relatório, senhor. “O bezerro vai estar sendo sacrificado a Javé, que vai estar aceitando ou não o sacrifício. Se no caso Javé não aceitar, ele vai estar fulminando quem ofereceu o sacrifício, para estar deixando de ser besta”. Mais alguma informação, senhor?
— Tenho recebido umas orações estranhas aqui, nego falando em bezerro. “Ouvi nossa prece, ó Grande Ruminante! Parai de pensar na morte da Bezerra, sua santíssima progenitora”. Essas coisas.
— Senhor, não tenho informação sobre esse tipo de oração dentro do judaísmo. O senhor tem certeza que não foi algum hindu? Sabe como é hindu: adora tudo que é coisa estranha.
— Que mané hindu! Aqui eu só recebo oração dos narigudinhos. Era judeu mesmo.
— Pois não, senhor. Vou estar anotando sua solicitação e passando ao setor responsável.
— Obrigado.
— Mais alguma informação?
— Não, só isso.
— A Shalom Contact Center agradece por sua ligação. Tenha uma ótima tarde!
— Bah.
Essa foi apenas a primeira ligação. Durante o dia, os ramais da central ficaram congestionados com tantas ligações de ouvidores do judaísmo reclamando do crescente número de preces destinadas não a Javé, mas a um bezerro. “Tem boi na linha”, comentou um atendente mais gaiato, mas foi logo advertido por seu supervisor. O supervisor passou o problema para o gerente, que o repassou para o diretor, que o empurrou para o presidente, que decidiu que aquilo era problema do Céu. Enviou, portanto, um relatório ao Paraíso. O anjo que o recebeu não soube o que fazer daquelas informações, então enviou o relatório a seu arcanjo-chefe. O arcanjo-chefe resolveu repassar o problema às potestades superiores. Resumindo: só meses depois, quando o culto dos bezerros no Reino do Norte já estava consolidado, é que Javé veio a receber a notícia. Ficou puto, esbravejou, ameaçou demitir todo mundo. Foi lembrado por um serafim, porém, que todos tinham estabilidade de emprego e não podiam ser demitidos. O Senhor dos Exércitos maldisse as leis trabalhistas, jogou a cadeira para o outro lado da sala, esmurrou a parede. Já mais calmo, procurou na agenda o telefone de algum profeta confiável que estivesse desocupado.
No judaísmo, só os profetas tinham o número do telefone vermelho de Deus. Não foi, portanto, grande surpresa para esse profeta de Judá ver em seu identificador de chamadas o nome “Javé” piscando. Atendeu, ouviu os gritos, concordou com tudo e foi cumprir sua missão
No dia seguinte, quando Jeroboão estava diante do altar de Betel oferecendo sacrifícios a seus deuses bovinos, levou um susto com o grito do profeta de Judá, recém-chegado de viagem.
— Ó, ALTAR MALDITO! JAVÉ MANDA DIZER QUE VIRÁ UM REI CHAMADO JOSIAS (1), QUE QUEIMARÁ SOBRE VOCÊ OS SACERDOTES QUE OFERECEM SACRIFÍCIOS A OUTROS DEUSES!
Em seguida, contradizendo-se, o profeta continuou:
— COMO PROVA DE QUE FUI ENVIADO POR JAVÉ, ESSE ALTAR VAI SE QUEBRAR EM PEDAÇOS.
Jeroboão nem parou para pensar em como é que o tal Josias viria a queimar gente sobre aquele altar, se ele ia se quebrar em pedaços. Em vez de entrar numa discussão que poderia ser longa e enfadonha, apelou para seus poderes reais, apontando para o profeta e gritando:
— PEEEEEEEEEEEEEEEEGA ESSE CABRA SEM-VERGONHO!
No mesmo instante o braço do rei ficou paralisado e sua mão secou. O altar implodiu e suas cinzas espalharam-se pelo chão. Assustado, quase chorando, Jeroboão disse ao profeta:
— Rapaz, faça isso não! Diga a Javé que eu tenho muito apego por essa mão, posso ficar sem ela não…
O profeta orou, e imediatamente a mão do rei voltou ao normal e ele recuperou os movimentos do braço. Aliviado, botou as mãos sobre os ombros do profeta e propôs:
— Bora lá em casa mais eu? Lhe dou um agradozinho…
— O senhor está tentando subornar?
— Subornar? Deixe disso, homem! É só uma lembrancinha, uma bestagem!
— Mas nem que o senhor me oferecesse metade da sua fortuna. Javé me ordenou que não comesse nem bebesse nada aqui, que não aceitasse nada de ninguém, e que não voltasse pelo mesmo caminho que segui para vir pra cá.
— Arre, égua! Por quê?
— Misteriosos são os caminhos do Senhor.
— Eita, piaba. Bom, tu é que sabe.
Sem pedir licença ao rei, o profeta saiu dali e começou sua viagem (por outro caminho) para o Reino do Sul.
Mal o profeta saiu, dois rapazes que ouviram a conversa correram para a casa. O pai deles era um velho profeta que morava em Betel havia muitos anos. Ao saber que um profeta viera de Judá para dar um recado ao rei, ficou encafifado. Ele era um profeta tão bom como qualquer outro, apesar da idade. Por que Javé se dera ao trabalho de chamar um profeta de tão longe, se o tinha ali à mão? Perguntou aos filhos que caminho o profeta do sul tomara, ordenou que lhe encilhassem o jumento, e tocou pela estrada até encontrar seu colega de profissão descansando à sombra de um carvalho.
— Ô, rapaz. Tu é o profeta de Judá, é?
— Sou sim.
— Eita, que faz é tempo que não encontro um colega. Bora lá em casa forrar o bucho?
— Sua hospitalidade muito me comove, mas não posso ir. Javé me ordenou que eu não comesse nem bebesse nada por aqui, nem que…
— … voltasse pelo mesmo caminho. Ora, eu tô sabendo, rapaz. Eu sou profeta também, e um anjão desses bem ‘retados que me mandou vir aqui e te chamar pra ir lá em casa.
O profeta de Judá não tinha razões para duvidar. Se o outro estava mentindo, como saberia das ordens precisas que Javé lhe dera? Além do mais, anjo chega, dá seu recado e vai embora, não deixa nada por escrito. Foi de boa fé, portanto, que ele se levantou e acompanhou o velho até sua casa em Betel, onde já os aguardava a comida pronta. Enquanto comiam, porém, o telefone da casa do velho tocou.
— Dê licença um pouco, vou só atender e já volto.
— Claro, claro.
Depois de cinco minutos, o profeta voltou esbravejando:
— FIO DUMA QUENGA!
— Como é?
— CABRA SAFADO! ERA JAVÉ NO TELEFONE, TÁ ME OUVINDO? TU DESOBEDECEU O QUE ELE TE MANDOU FAZER! ELE MANDOU, EXPLICOU, MAS TU É UM CABRA RUIM DA PORRA!
— Peraí, peraí! Você me convidou para vir até aqui, disse que um anjo tinha…
— NÃO INTERESSA, FIO DUM CÃO! TU VAI MORRÊ, E NÃO VÃO TE ENTERRAR JUNTO COM SUA FAMÍLIA, QUE É PRA TU DEIXAR DE SER UM SUJEITINHO SAFADO!
O profeta de Judá, sem entender nada, saiu depressa, montou em seu jumento e picou a mula (no sentido figurado). No meio do caminho, um leão que ia passando saltou sobre o profeta e o matou. Sim, um leão. Sim, em Israel. Não perguntem. O negócio é que o bichão ficou por ali, ao lado do jumento e do cadáver, sem nem pensar em comer nenhum dos dois. Era uma cena rara de se ver, e a notícia se espalhou rápido. Quando o velho profeta ficou sabendo, entendeu que se tratava de seu colega, e mandou novamente que preparassem sua montaria.
— Fiquem aí que eu vou lá ver o defunto. Cabra besta, desobedecer Javé desse jeito, já se viu?
Quando chegou ao lugar onde jazia o profeta de Judá (com o leão e o jumento já dormindo um do lado do outro, como personagens de desenho animado ), pediu ajuda a seus filhos e jogou o cadáver sobre o jumento, levando-o de volta a Betel. Lá o enterrou em sua própria sepultura, e chorou junto com seus filhos.
— Ah, meu irmão! Meu irmãozinho de Judá! Quando eu morrer, quero ser enterrado ao lado dele.
Pense num cabra hipócrita…
Mesmo depois do aviso do profeta, de ver sua mão secar e o altar despedaçar-se, e de saber o que acontecera ao profeta por conta de uma desobediência menor, Jeroboão não tomou jeito. Continuou a cultuar os bezerros, e nomear profeta qualquer um que quisesse sê-lo. O critério dele era semelhante ao de certas igrejas modernas para ordenar pastores: ministrava uns cursinhos de oratória, marketing e vendas, e pronto, estava o cara pronto para ser líder religioso. Ele não tardaria a sentir o peso da mão de Javé. O castigo, como de hábito, seria desproporcional e injusto. Como veremos.

(1) Ainda leva tempo para o rei Josias aparecer nessa história (ainda mais nesse ritmo). Basta dizer, por enquanto, que ele patrocinou uma grande reforma política e religiosa em Judá. Os autores do livro The Bible Unearthed levantam a hipótese muito plausível de boa parte do Velho Testamento que conhecemos ter sido produzida nos tempos de Josias como ferramenta de propaganda. Isso explicaria a menção de seu nome tantos anos antes de seu nascimento. Os fundamentalistas, é claro, dirão que se trata de uma profecia. Que digam.

(I Reis 12)
Salomão, como todos sabemos, não era besta nem nada. Escaldado pelo perrengue que fora a sucessão de Davi, com tanto sangue derramado, o sábio rei definiu seu sucessor com antecedência: seu filho Roboão. Os dois despachavam diariamente no Kibutz do Torto, em Jerusalém. Com a morte de Salomão, não restava dúvida que o rei seria Roboão, e a sucessão, pela primeira vez na curta história da monarquia israelita, tinha tudo para ser tranqüila. O clima de paz e tranqüilidade era tamanho em Israel que até Jeroboão criou coragem para voltar de seu exílio no Egito. Não era o mesmo Jeroboão, porém: transformara-se quase numa lenda nas tribos do norte, e foi natural que o povo o visse como um líder.
Aconteceu, então, que Roboão foi a Siquém para ser coroado. Uma belíssima festa com música, fogos de artifício, shows populares. Tudo estaria perfeito não fosse um detalhe: as relações entre o sul e o norte, que nunca foram das melhores, acabaram de degringolar-se durante o reinado de Salomão. O velho rei dava muita atenção a Judá e pouco fazia por Israel. Tendo isso em mente, um grupo de representantes do norte foi falar com o novo rei, tendo Jeroboão como líder:
— Majestade, a gente trabalha de sol a sol que é para Israel ser o país bom danado que sempre foi. Só que nossa vida ficou arretada de difícil com o velho Salomão. Era imposto demais e retorno de menos, não há cabra que agüente. O senhor bem podia lembrar da gente, e aliviar essa carga.
— Aí, mermão. Vou pensar. Cês voltem daqui a três dias e eu dou uma resposta, valeu?
— Pronto.
A coroação transcorreu sem maiores problemas, e os israelitas voltaram para casa na expectativa da resposta de Roboão. Quanto ao rei, tratou de reunir-se com os conselheiros de seu finado pai. A resposta dos velhos foi sóbria: se o rei atendesse ao pedido do povo do norte, o reino permaneceria unido. Roboão, porém, não se contentou com esse conselho. Era jovem, voluntarioso. Andava acompanhado de um pitbull malvado de olhos vermelhos chamado Javé, gostava de arranjar briga e andava com um grupo de baderneiros. E foi justamente a seus amigos que foi pedir conselho sobre o assunto.
— Aí, os paraíba tão querendo sossego, é? Num fode, Roboão! Fala pra eles que a partir de agora é que o bicho vai pegar. Era ruim com seu véio? Pois eles vão ver agora. Não pode dar moleza pra liso não!
Dois conselhos opostos, e é claro que Roboão resolveu seguir o segundo. Três dias depois, quando Jeroboão e os outros israelitas voltaram, foram surpreendidos pela cara de poucos amigos do rei e de Javé (o cão, não aquele que já conhecemos).
— Podem voltar pra casa, seus paraíba liso do caraio. Querem vir estrondá pro meu lado? Tão tirando onda? Num fode! Meu dedinho é mais grosso que a pica do meu pai, tão sabendo?
— Hã?
— Seus paraíba burro! Tô falando que, se meu pai dava chicotada em vocês, eu vou dar logo é pipoco nos cornos, pra vocês deixarem de ser babacas, valeu? Fui!
Ao ouvir aquilo, Jeroboão ficou transtornado. Chegou a meter a mão na cintura para puxar a peixeira, mas foi detido por seus companheiros.
— TU TÁ PENSANDO QUE É MUITA BOSTA, SEU CABRA? OLHA QUE EU TE CAPO, PORRA! BORA, BORA TODO MUNDO PRA ISRAEL. A GENTE NÃO PRECISA DE JUDÁ É PRA NADA!
Os israelitas foram embora, e Roboão percebeu que aquilo seria o início de uma revolta. Em vez de tentar negociar, resolveu provocar ainda mais os israelitas: chamou Adorão, responsável pelos tributos, e juntos foram a Israel. Ao ver quem chegava a suas terras, um grupo de israelitas começou a atirar pedras no cobrador de impostos. Já caído no chão, Adorão pediu socorro, mas o rei já havia pulado para dentro de seu carro.
— Vô ralá peito daqui, doido. Foi mal aê!
O rei voltou a Jerusalém desmoralizado, e Israel instituiu Jeroboão como rei. De um momento para outro, Roboão reinava apenas sobre Judá e Benjamim, deixando as dez tribos do norte sob a tutela do antigo pedreiro. Roboão ainda tentou armar alguma resistência, juntando soldados das duas tribos para atacar seus irmãos do norte. Foi impedido, porém, pelo profeta Semaías.
— Desista, majestade. Javé falou comigo hoje…
— Tá falando com cachorro, leke?
— Nosso DEUS Javé…
— Ah. Esse.
— É. Então, ele disse que o negócio todo da divisão do reino é coisa lá dele, e que não é pro senhor se meter.
— Porra, maluco.
— Melhor não discutir.
— Mas que merda…
Enquanto isso, livre da ascendência política de Judá, Jeroboão preocupava-se com outro tipo de influência, mais perigosa: a religião dos dois reinos ainda era uma só, e havia um só lugar para adoração, que era o templo de Jerusalém. O rei matutou, matutou, e decidiu pelo caminho mais fácil: mandou fazer dois bezerros de ouro e botou um em Betel e outro em Dã.
— Companheiros de Israel! Esses são os deuses que tiraram vocês do Egito.
— Eita preula, majestade. Duas reses?
— CALABOCA! Ir pra Jerusalém dá um trabalho amuado. Os nossos deuses são esses, e lambam.
O povo aceitou os novos deuses sem grande resistência. Afinal de contas, Jerusalém era mesmo muito longe. Além de alçar os bezerros à divindade, Jeroboão instituiu sacerdotes e sacerdotisas, e datas de festas sagradas mais ou menos coincidentes com aquelas da religião tradicional.
Estava formado o furdunço.

(I Reis 11)
Sentado à sombra de uma figueira enquanto espera a caravana das cinco para Efraim, Jeroboão assovia feliz. Vez em quando olha para trás, para as recém-reformadas muralhas de Jerusalém. Ele veio à capital justamente para trabalhar naquela obra. A vida no norte era cada vez mais dura, e a população migrava em massa para o sul, para a vibrante cidade de Davi. Nem todos, porém, tinham a sorte que Jeroboão teve. Um dia, enquanto vistoriava as obras, o rei Salomão notou a vontade com que aquele israelita trabalhava sob o sol alto do meio-dia, cantando as canções do norte e as moças que passavam por perto. Impressionado com a vivacidade do rapaz, Salomão chamou um dos supervisores da construção:
— Ô, véi. Chega aí. Quem é aquele mano ali?
— Jeroboão, filho de Nebate e Zerua. A família é de Zereda, na tribo de Efraim. Zerua é viúva, e criou o menino a muito custo. E ele, assim que teve a oportunidade, veio para o sul tentar a vida.
— O moleque é sangue bom, então?
— É sim senhor.
— Da hora… Ô mano! Você memo! Chega aí! Cê que é o tal de Jeroboão?
— Sim sinhô, sim sinhô.
— Nome feio da porra, véi!
— Nome feio? Arre, égua! E o nome do fio do sinhô num é Roboão? É quase o mesmo!
— Ixe, podicrê. Me pegou. Aê. Fiquei sabendo que o mano veio lá do norte, na humildade, pra morar nas quebrada da periferia e arrumar aí as correria pra se garantir. É isso aí memo?
— Graças a Deus e meu padim Ciço.
— Quem?
— Nada não sinhô.
— Aê, se liga: vou botar você de chefe aqui da parada, tá ligado? Quero ver você só nos pano, cheio das mina e pá.
— Ô, excelença! Fico muito gradecido!
— Se liga, mano. Só na humildade aí. Paz.
Desde então Jeroboão vinha atuando como encarregado de todos os trabalhadores forçados que vinham das tribos de Efraim e Manassés. Meses depois, o vemos à sombra da figueira contando os minutos para chegar de volta à sua cidade natal. Veste suas melhores roupas, e traz o cabelo meticulosamente engomado. Pensa na surpresa da família ao vê-lo chegar, tão diferente, tão mais corado e bem vestido. Pensando nisso, sorri e assovia. Sente que sua vida chegou ao auge. Supervisor de obras na capital do reino, que maravilha! Nunca alguém de Zereda chegou tão longe.
Do lado de dentro das muralhas, no palácio, Salomão diverte-se em seu harém. Está bem velho, então boa parte da diversão consiste em trocar ditos espirituosos e picantes com algumas de suas setecentas esposas e trezentas concubinas, arranjadas por todos os cantos do mundo conhecido. À entrada do harém, uma tabuleta informa: “As Minas do Rei Salomão”.
Após algumas horas de diversão, Salomão se despede de suas mulheres e se dirige a seus aposentos. Pretende tirar uma soneca antes do jantar. Mal encosta a cabeça no travesseiro, porém, e é interpelado por uma voz autoritária:
— Salomão, caralho!
— Javé? Sedes vós?
— Não, é o frio. CLARO QUE SOU EU, PORRA!
— Acalmai-vos, Javé, acalmai-vos. Por que vos apoquenteis?
— Você pensa que eu sou idiota, não é, Salomão? ACHA QUE EU SOU TROUXA!
— Mas de jeitimaneira, Javé, te juro-vos!
— ACHA SIM! Pensa que o tempo passa para mim como passa para você, e que já estou velho, cego, surdo e broxa? POIS NÃO ESTOU! Vejo muito bem os altares que você construiu, os ídolos que mandou fazer. E o que se vê nesta cidade agora? Um altar para Moloque aqui, outro para Astarote ali, outro para Quemos acolá.
— Dissestes a verdade, oh Javé. Mas porém no entanto todavia só para vós erigimo-nos um templo inteiro, com paradas de ouro e tal.
— NÃO INTERESSA! O ÚNICO DEUS DESTA PORRA AQUI SOU EU, TÁ ME ENTENDENDO? EU!
— …
— Eu disse a você o que já tinha dito a seu pai: que se me obedecesse, se fosse leal a mim por toda a vida, eu estaria sempre com essa família, fortalecendo a dinastia e tornado Israel cada vez mais próspero e poderoso. Mas não! Você tinha que se casar com mil mulheres, e aceitar em Jerusalém os deuses de todas elas. Agora esta cidade está que é um inferno! São tantos os deuses que ninguém sabe mais a quem adorar. E de quem é a culpa? SUA! SÓ SUA!
— Oh, Javé, perdoai-vos-me! Eu não sabia o que estava fazendo, ligai-vos?
— Não sabia um cacete! Há tempos eu percebi que você começou a se perder, e tentei alertá-lo. Mandei inimigos para espiaçarem o reino, para ver se você se mancava, mas você preferiu continuar as orgias no palácio até não poder mais. Você quebrou o acordo que eu tinha com sua família, e por isso eu deveria acabar com essa dinastia. Porém, em respeito a seu pai Davi, que foi leal até o fim, vou manter sua descendência no trono. Mas o reino será rasgado de suas mãos, e só restará a seus descendentes um mísero retalho do velho Israel.
Ao falar dos inimigos, Javé referia-se a dois sujeitos que haviam dado um trabalho desgraçado a Salomão, liderando revoluções e badernas. Um deles, um edomita chamado Hadade, tinha lá suas razões para votar ódio à família real. Muitos anos antes, quando ainda era menino, vira Joabe, o comandante do exército de Davi, comandar um massacre em seu país. Hadade só escapara graças à esperteza de alguns escravos de seu pai, que conseguiram fugir para o Egito com o garoto. O faraó apiedou-se dos exilados, e forneceu-lhes casa e comida. Já adulto, Hadade caíra nas graças do faraó de tal forma que este lhe deu a mão da irmã de sua esposa, a rainha Tafnes, em casamento.
Foi com surpresa, portanto, que anos depois o faraó recebeu a notícia de que Hadade pretendia voltar a Edom. Afinal, era cunhado do rei, e seu filho, Genubate, era educado no palácio. Ele soubera, porém, que Davi e Joabe estavam mortos, e que essa era a hora propícia para voltar e liderar os edomitas contra a opressão de Israel. Foi tão bem sucedido em suas investidas que acabou coroado rei de Edom, e por toda a vida causou dores de cabeça a Salomão e seu exército.
Outra pedra no sapato de Salomão era um tal Rezom, filho de Eliada. Rezom era escravo do rei de Zoba, Hadadezer, quando este foi derrotado por Davi, que matou seus aliados, os sírios. Vendo-se livre de repente, o ex-escravo foi para o deserto e se tornou chefe de uma quadrilha. Não é de hoje que grandes bandidos chegam ao poder: quando soube que Salomão reinava sobre Israel, Rezom voltou à Síria e foi coroado rei em Damasco. Anos depois, ele se tornaria um inimigo ferrenho de Israel.
O terceiro e pior inimigo reservado para Salomão e sua descendência está agora inconsciente disso. Apenas espera, assoviando, a caravana que o levará a Efraim. Alguém se senta a seu lado na raiz da figueira. É um homem de meia-idade, barbudo e com os olhos brilhando com não pouca dose de desvario. Fora isso, porém, é um senhor respeitável, e enverga uma capa nova e de cores brilhantes. Jeroboão resolve puxar conversa:
— Vai pra onde?
— …
— Eu tô indo mimbora pra Zereda. Conhece Zereda?
— …
— Terra de Babalão, filho de Noca, tia de Zé Bucho… Conhece não?
— …
— Bom, é lá pras bandas de Efraim. Ô, terrinha boa! Ô, saudade da moléstia!
— …
— Hômi, tu não fala não, é?
— Falo. Eu…
— Eita preula! Téquenfim!
— CALE-SE! Eu sou o profeta Aías, de Siló. Trago um recado a você.
Dizendo isso, o homem levanta-se, tira a capa e começa a rasgá-la em tiras.
— Arre, égua! Tu é doido, hômi?
— Rasguei a capa em doze tiras. Tome essas dez.
— E pra que eu quero uma capa toda esmolambada, rapaz?
— A capa rasgada é um símbolo!
— Símbolo de doidice…
— CALE-SE! Javé mandou que eu lhe dissesse o seguinte: o reino será rasgado das mãos de Salomão, cuja descendência reinará sobre apenas duas tribos. O rei desobeceu ao único Deus verdadeiro, e adorou os deuses de suas esposas. Por isso o reino será dividido, e você, Jeroboão, reinará sobre a maior parte de Israel.
— Peraí, hômi, peraí… Então Javé disse que eu vou ser rei, foi?
— Isso mesmo.
— E que o filho do rei vai ficar só com um tiquim de terra, foi?
— Exato.
— Hômi… Vá se sentar num mastruço, que eu já tô quase perdendo minha caravana.
— Mas, Jeroboão…
— APAPORRA! ÔXI!
Irritado, Jeroboão partiu para Efraim. Na primeira noite em sua cidade, porém, seu quarto foi invadido por dois guardas que tinham a clara intenção de matá-lo. Percebendo que Salomão de alguma forma soubera de seu encontro com Aías, e que, pior que isso, levara a sério as palavras do profeta, Jeroboão achou mais prudente picar a mula e se esconder no Egito até as coisas se acalmarem.
Não demorou muito. Meses depois, já bastante combalido, Salomão proferiu suas últimas palavras:
— Já era, ó…
O rei foi enterrado em Jerusalém. Israel jamais veria um rei como ele, e o próprio país nunca voltaria a ser o mesmo. A prosperidade israelita sob Salomão permaneceria inigualável. A divisão do reino serviria apenas para enfraquecer a nação.

(I Reis 10)
Não tardou para que as notícias sobre a sabedoria do rei de Israel e as obras que realizava por todo o reino se espalhassem pelo mundo. Bom, pelo mundo conhecido então, que não era muito. Coisa como um boato sobre José Serra chegar a Salvador. De qualquer forma, era crescente a fama de Salomão. Tanto que a rainha de Sabá resolveu ir a Israel para conferir as novas que lhe chegaram aos ouvidos.
Onde ficava Sabá? Não se sabe ao certo. Especula-se que o reino incluiria parte das atuais Somália e Etiópia, e parte da Península Arábica. De acordo com a tradição, a capital do reino ficaria onde hoje é Marib, capital do Yemen. Se isso estiver correto, concluímos que a rainha percorreu uma distância equivalente à que há entre São Paulo e Aracaju.
Pois muito bem: num belo dia a rainha de Sabá arrumou seus mullets, vestiu sua melhor camisa xadrez e suas calças largas de lona, calçou seus Vulcabrás 752 nº 44, e pegou a estrada em seu caminhão. No baú, levava especiarias, pedras preciosas e mais de quatro toneladas de ouro. Dias depois chegava ao palácio de Salomão.
A rainha ficou impressionada com tanta riqueza. O Salão da Floresta do Líbano, por exemplo, era decorado com quinhentos escudos que continham entre dois e sete quilos de ouro cada um. O trono do rei era revestido de marfim e ouro puro. Os seis degraus que levavam ao trono eram ladeados por esculturas de leões, e havia um leão esculpido de cada lado do assento. As taças utilizadas pelo rei eram de ouro, assim como todos os objetos do Salão da Floresta do Líbano. O rei mantinha 1.400 carros de guerra e doze mil cavalos puro sangue. Os cavalos eram importados de Musri e da Cilícia, cidades que ficavam na atual Turquia, e os carros vinham do Egito.
De onde vinha tanta riqueza? Para começar, os impostos pagos pelos comerciantes, pelos administradores do reino e pelos reis árabes que viviam sob domínio israelita. A frota de navios de Israel, uma joint venture entre Salomão e Hirão, voltava a cada três anos trazendo ouro, prata e animais exóticos. Para completar, a fama de Salomão atraía visitantes que, assim como a rainha de Sabá, lhe traziam presentes.
Que Salomão era rico, a rainha logo notou. Mas seria mesmo sábio? Ela decidiu testá-lo:
— Aê, mano. Me disseram que tu é ligeiro que só a porra, tá ligado?
— Queisso, se liga. Eu tô aqui só na correria. Esse negócio aí de sabedoria é os mano de fé que fala, mas eu fico na humildade, tá ligada?
— Só…
— Essas parada me azucrina as idéia. Eu sou ligeiro, podicrê, mas o resto é exagero.
— Queisso, mano? Está louco de raiva1?
— Não, mina, se liga! Cê que chegou há pouco de fora e não tá ligada nas parada israelita e pá.
— Ah, então foi mal aê.
— Pela órdi.
— Então, mano. Meu caminhão tá com o tanque quase vazio. Um mano aí me deu a fita que eu podia abastecer logo atrás do palácio.Cê tá ligado quem tem posto aí atrás?
— Ih, véi, sei de nada. Atrás aqui da parada só tem a quitanda do japonês. A senhora gosta de verdura?
— Ah, sim. Disseram que teu véio plantava nas quebrada dele. É verdade que teu pai tem terra?
— O véio já subiu, mina. Vamo falar de outras parada. Zoologia, manja?
— Cê manja zoologia?
— Daquele jeito, né?
— Então cê sabe se jacaré no seco anda?
— Não, nadavê. Jacaré no seco atola.
— Se liga, véi!
— Ô, dona majestade. Foi mal aí. Fui muito duro com a senhora?
— PÁRA!
— Pela órdi, já parei. Desculpe por tudo.
— TÁ CERTO! CÊ É LIGEIRO QUE SÓ A PORRA! CHEGA!
— Hehehe. Tá vendo você errada? Vem aqui na minha quebrada, nem nunca me trombou na vida, e acha que já pode vir me tirando? Se liga!
— Tá certo, mano. Tava dando um migué pra ver coé. Mas tá certo, cê é mais ligeiro do que os mano fala por aí. E mais rico também, tipo aqueles mano gangsta, tá ligado? Mó preza. Suas mina só anda nos pano, tudo peteca. Os mano do palácio deve ficar tudo ligeiro só de trocar idéia contigo. Que o seu deus, Javé, te abençoe.
— Amém, pela órdi.
— Agora vou dá linha.
— Paz.
— Paz.
Convencida da sabedoria do rei de Israel, a rainha pegou seu caminhão e voltou para Sabá. Após sua visita, Salomão convenceu-se de vez que era o mais sábio dos viventes:
— Vixe! Apavorei!
E isso seria o princípio de sua queda.

1 Os trechos sublinhados são trocadilhos dos mais infames, caso vocês não tenham percebido.

(I Reis 9)
Após grandes obras vêm grandes rombos nos cofres públicos. Há que pagar as empreiteiras, os lobbystas, as autoridades envolvidas, todo mundo. Vendo que o governo abriu a mão, os financiadores da campanha tentam receber antigas dívidas, e o rombo aumenta ainda mais. Isso é verdade hoje, e já o era nos tempos de Salomão.
Terminado o templo e o palácio do rei, erguidas as muralhas de Jerusalém e aterrado o lado leste da cidade, era hora de botar a mão no bolso. As obras haviam durado vinte anos, e incluíam a reconstrução de cidades inteiras. Gezer, por exemplo, fora completamente destruída pelo Faraó egípcio (existe outro tipo de faraó?) ainda durante o reinado de Davi. Agora, em paz com Israel e tendo dado sua filha como esposa a Salomão, o soberano oferecia a cidade como presente de núpcias. Belo presente, uma cidade arrasada. Salomão reconstruiu a cidade, assim como Hazor, Megido, a parte baixa de Bete-Horom, Baalate e Tadmar. O rei também deu um tapa nas cidades onde estabeleceria seus armazéns de mantimentos e seus estábulos.
A publicidade era boa. “Transformando Israel num Canteiro de Obras”, “Duzentos Anos em Vinte”, essas coisas. As contas, porém, ainda precisavam ser pagas, e o maior credor do Estado era Hirão, rei de Tiro. Hirão havia fornecido todo o material para as obras e quatro toneladas de ouro. Salomão mandara construir uma frota de navios em Ezion-Geber, no Golfo de Ácaba, e o rei de Tiro enviara seus melhores marinheiros para manejar as naus. Junto com os homens de Salomão, esses marinheiros foram até a misteriosa terra de Ofir, trazendo de lá mais de catorze toneladas de ouro (há quem afirme que a distante terra de Ofir ficava onde hoje é o Peru, e no filme Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa o Rei Ciborgue descobre que os marinheiros de Salomão navegaram pela Baía de Guanabara).
Com tantos serviços prestados à nação israelita, era de se esperar que Salomão pagasse Hirão com algo grande. O governo de uma tribo, no mínimo. Mas que nada! Salomão era rico, sábio, empreendedor, mas também era judeu: pagou seu maior parceiro com vinte cidades muito chinfrins na região da Galiléia. Coisa como Carapicuíba, Itaquaquecetuba, Guarulhos, Mairinque. Só osso. Hirão foi ver as cidades e se decepcionou. Aquela região passou então a chamar-se Cabul, que em hebraico quer dizer “Puta que pariu, Salomão, que sacanagem!”.
Como se não bastassem os percalços com as contas das obras que só não eram faraônicas porque não foram feitas no Egito, Salomão também teve de enfrentar acusações segundo as quais ele teria utilizado cidadãos israelitas como escravos nas construções. Porque, vejam, toda aquela coisa de unificação do reino feita por Saul e Davi era apenas conversa oficial. Na realidade, o reino continuava dividido entre a minoria rica de Judá, no norte e a maioria pobre e esquecida de Israel, no sul (graças a Deus o mundo mudou, né?). O primeiro livro dos Reis é, acima de tudo, uma publicação oficial. Este capítulo, portanto, esforça-se para negar essas acusações, dizendo que todos os escravos utilizados nas obras eram amorreus, heteus, perizeus, heveus, jebuseus, enfim, descendentes dos caananitas que habitavam a terra antes da chegada de Josué e seus homens endurecidos por quarenta anos vagando pelo deserto. Segundo o texto, os israelitas serviram como soldados, oficiais, comandantes e cavaleiros. Verdade ou mentira? Não importa: a propaganda oficial está sempre acima desses conceitos abstratos.
Com tanta polêmica por todos os lados, restava a Salomão buscar ajuda espiritual. Durante as obras e depois delas o rei oferecia sacrifícios, queimava incensos e dava ofertas para o serviço religioso três vezes por ano. Vendo todo aquele zelo, Javé resolveu que era hora de falar com o rei novamente.
— Salomão!
— Coé?
— Que coé o quê! Meu nome é Javé!
— Javé! Perdoai-me-vos, ó grande Javé, perdoai-me-vos. Julgava eu que algum mano me vinha-me aporrinhar-me a mim. O que mandais, Grande Truta das Parada Firmeza do Céu?
— Vim dizer que gostei muito do templo, viu?
— Gostaste-vos?
— Gostei. Muito bonito, arejado, bem decorado. Uma beleza. Gostei tanto que até vou morar lá.
— Agradeço-te, Javé!
— Tá, tá. Mas vê lá, hein? Se esse povinho bunda pisar na bola comigo, eu pico a mula.
— Picareis a mula, Javé?
— Foi o que eu disse, porra. Conheço esse povinho. Todo mundo muito bonzinho, e é só Javé pra cá, Senhor pra lá, El Shadday pra cá, Elohim pra lá. Pois sim! Basta eu me distrair um pouco e já estão oferecendo sacrifícios a Moloque, Dagom, Astarte, ou o diabo do deus que estiver na moda. Então pode anotar aí: se esse povo fizer besteira, eu abandono esse templo, e mando os israelitas todos para a casa do chapéu. E tem mais: o templo será destruído pelos seus inimigos, e Israel será motivo de piada entre os povos. E não essas piadas manjadas de judeu: coisa muito mais séria e ácida. Vendo as ruínas do templo, algum viajante há de perguntar o que aconteceu. E responderão: “Isto aí era um templo grandioso, que foi destruído porque o povo abandonou seu deus”. Tá entendendo, Salomão?
— Compreendo-vos, ó Javé.
— Tá bom. Então vou ali me acostumar à casa nova.
Muito tempo depois, o templo seria mesmo destruído. Mas isso ainda estava longe, e Salomão viveria para ver a prosperidade de Israel e desfrutar sua fama.

(I Reis 8)
Jerusalém vive seu quinto dia de carnaval, e a festa parece que não vai acabar tão cedo. A multidão, formada por gente de todo o Israel, desde a subida de Hamate, ao norte, até a fronteira meridional com o Egito, se espreme atrás dos trios elétricos. Das janelas das casas e do alto das muralhas, alguns gaiatos borrifam urina de camelo sobre os foliões. Pelas ruas, o álcool e as drogas correm soltos. Um grupo de danitas, após fumar uma boa quantidade de raiz de mandrágora, mostra o pinto para as moças que passam, dizendo “Também sou judeu, ó aqui” com seu estranho sotaque. Do alto do principal carro alegórico, o carnavalesco Yowab ben Yowab Shelowshiym1 admira a grande festa toda organizada por ele em tempo recorde.
Porque a festa não era para ser esse carnaval todo. Trata-se, na verdade, da Festa das Barracas, instituída lá no Levítico. A idéia toda da festa é relembrar os tempos do Êxodo. Para isso, durante sete dias por ano os israelitas saem de suas casas e moram em tendas. Dessa vez, porém, a festa está empolgada demais. E por quê? Alívio.
No último capítulo (lá se vão quase três meses, melhor reler), vimos que Salomão concluiu a construção do Templo. Ficou faltando, porém, um objeto sem o qual a Casa de Deus seria uma casa vazia: a Arca do Acordo, verdadeira manifestação da presença de Javé. Ora, transportar a Arca por aí não era nenhuma brincadeira de criança. Que o dissessem os filisteus: após roubar o baú sagrado dos israelitas, pensaram ter humilhado Israel. Tiveram, porém, que devolvê-lo rapidinho depois que Javé mandou sobre eles uma constrangedora praga de hemorróidas. Na volta para Jerusalém, um boi tropeçara, fazendo a Arca escorregar do carro que puxava. Um tal Uzá, muito bem intencionado, tentou impedir a queda, e foi fulminado assim que encostou a mão na Arca. Tendo em vista esse retrospecto, é compreensível que a perspectiva de carregar a Arca, mesmo que fosse pela curta distância que separava o antigo palácio de Davi do novo Templo, fosse algo preocupante para todos, especialmente Salomão.
Pensando assim, o rei achou melhor arrumar todo o respaldo com que pudesse contar. Aproveitando que viria gente de todo o Israel à capital para celebrar a Festa das Barracas, Salomão convocou todos os chefes das tribos e clãs do país para irem se encontrar com ele e ajudar na mudança da Arca para o templo. Quando chegou o mês de etanim (sétimo mês do antigo calendário hebraico, que ficava entre setembro e outubro), os israelitas vieram em massa à capital, e também os líderes chamados pelo rei.
Na presença dos chefes todos, os sacerdotes e os levitas (cagando de medo, imagino) botaram sobre os ombros os varais que sustentavam a Arca e levaram o objeto sagrado até seu lugar de direito: o espaço entre as asas dos querubins no Santo dos Santos, a morada de Deus dentro do Templo.
Com a Arca já em seu lugar, todos saíram.
— E agora?
— Sei lá.
— Hum.
— Pelo menos não morreu ninguém.
— Isso é.
— Mas e agora?
— Hum…
— Vambora?
— Melhor. Parece que vai ch…
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZP!
De repente, do templo saiu uma luz forte, como se mil flashes disparassem ao mesmo tempo. Algumas bichinhas presentes acharam que fosse isso mesmo, adotando imediatamente as poses mais blasé, o que foi motivo de chacota mais tarde. Tratava-se, na verdade, do próprio Javé descendo até o Templo para ver se estava tudo certinho.
Estava resolvido: a Arca fora transportada sem maiores problemas, e Deus aceitara a casa que Salomão construíra para ele. Emocionado, o rei gritou lá para dentro:
— Oh, Grande Truta das Parada Lá de Cima! Tu postes o sol lá no céu, e resolveres morardes entre as nuvem escura. Mas eis que levantei a goma para vós, e tu aceitastes e vinheste morar aqui com nóis na parada, estás ligado? Amém!
O povo aplaudiu, e Salomão resolveu improvisar um discurso:
— Manos de Israel! Essa vai pra tudo os mano de Suném, Bete-Peor, Horma, Megido, Hazor, Jabes. Aê, pra todo mundo que tá nas quebrada aí, só na humildade, correndo atrás. Nosso Grande Camarada Sangue Bão das Quebrada do Céu é ponta firme memo, cês tão ligado? Ele deu a letra pro meu véio que eu que ia vir e fazer tudo a parada do Templo e pá e pum. Agora tá tudo no esquema, com a Arca lá no meio dos querubim. É isso aí. Paz. Poder Para o Povo de Pau Cortado. É nóis, obrigado pelos aprauso.
Os aplausos dessa vez foram mais calorosos, e levaram Salomão a mais um surto de inspiração oratória. Dessa vez, foi até o altar para falar com Javé. Sabendo, no entanto, que o deus israelita não primava exatamente pelo humor estável, resolveu portar como bom malandro: antes de se aproximar, levantou os braços e se ajoelhou no chão. Nessa posição, começou a falar:
— Javé, Javé, tu sois o cara! Olhais aí o vosso povo de Israel, que beleza, Javé! Cuidais aqui das nossa parada, Sangue Bão do Céu. Ficais aqui com nós, protegendo dos filhodaputacorno… Ô, foi mal aê, Javé. Protegendo nós dos inimigo. Ajudais os mano que vierem aqui no Templo para pedir sua proteção, Grande Truta. Ficais com seu povo na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, a parada toda do casamento, estás ligado? Amém, Mano!
E continuou, dirigindo-se novamente ao povo:
— Manos de Israel! Tá tudo pela órdi. Já é! Bora chapá o coco!
Está explicado, portanto, porque Israel está nessa festança toda. A comportada Festa das Barracas tornou-se quase uma orgia, tamanha era a tensão a ser liberada pelo povo. Os preparativos de Salomão e do carnavalesco Yowab ben Yowab Shelowshiym ficaram à altura: foram sacrificados 22 mil bois e 120 mil ovelhas.
Depois de sete dias de festa e mais um para curtir a ressaca, os israelitas voltaram para suas casas. Da sacada de seu quarto, Salomão acenava para a correnteza de homens e mulheres que andavam pelas estradas que saíam de Jerusalém, e dizia, emocionado:
— Javé vos abençoeis, manos. Javé vos abençoeis.

1 Procurei “João” em hebraico mas não encontrei. Escolhi, portanto, um nome próximo: Joabe (Yowab). Para fazer o diminutivo, chamei o sujeito de Yowab ben Yowab (Yowab filho de Yowab, ou Yowabe Júnior, ou Yowabinho para os íntimos). Então fui ver como se escrevia o numeral 30 em hebraico. Salvo engano, é isso aí: Shelowshiym. Yowab ben Yowab Shelowshiym, portanto, é minha tentativa um tanto rebuscada de criar um Joãosinho Trinta judeu.

(I Reis 6 e 7)
Depois do acordo com Hirão, rei de Tiro, para o fornecimento de materiais e mão-de-obra, Salomão finalmente começou a construir o templo. Era para ser rápido, mas acabou levando sete anos. Por quê? Já explico.
Pelo projeto inicial, o templo seria bem simples: vinte e sete metros de comprimento por nove de largura e treze de altura. Nada muito grande, se compararmos aos templos de hoje em dia (a Catedral da Fé do bispo Macedo, ou a Basílica de N. Sa. Aparecida), mas uma construção e tanto para o pequeno reino de Israel. O que valia no templo de Salomão eram os detalhes, não o tamanho: durante a construção não se ouviu barulho de qualquer ferramenta, porque as pedras eram preparadas e talhadas na pedreira; uma vez no local da construção bastava encaixá-las.
A construção chamou a atenção de muita gente e, claro, do principal interessado.
— Que beleza, hein, Salomão?
— Oh, grandioso Javé! Que quereis tu de eu?
— Nada, nada. Vim só ver como andavam as coisas. Tudo muito bonito, puxa vida.
— Eis que construo esta casa para vós habitáveis, oh grande Javé, Senhor dos Exércitos e pá.
— Pá?
— Escapou-me.
— Hum. Olha, continua aí a construção. Se você for bonzinho, eu venho morar aqui, e faço tudo o que você quiser.
— És acaso o gênio da lâmpada?
— GÊNIO UMA PORRA!
— Acalmai-vos, oh Javé!
— Grunf.
Salomão, que de bobo só tinha a cara, entendeu o recado: o templo estava muito bom e tal, mas precisava de mais opulência. O projeto minimalista original, de pedra e vigas de cedro, não seria suficiente para o vaidoso Javé. Então, de volta à prancheta: as paredes interiores da edificação seriam forradas de cedro para que as pedras não aparecessem, o assoalho seria de pinho. O lugar Santo dos Santos, salão separado onde ficaria a Arca do Acordo, e que seria efetivamente a casa de Javé, seria um cubo perfeito de arestas de nove metros separado do resto da construção por um biombo de cedro que ia do chão até o teto, enfeitado com entalhes em forma de cabaças e de flores. O lugar Santo, área comum do templo, teria dezoito metros de comprimento.
Salomão preparou o novo projeto e foi apresentá-lo a Javé.
— É. Bonzinho.
Bonzinho? Javé queria ostentação? Então teria: tanto o lugar Santo quanto o Santo dos Santos seriam completamente revestidos de ouro puro. Separando os dois, além do biombo, correntes de ouro. Até mesmo o altar e o assoalho seriam revestidos de ouro. No Santo dos Santos seriam colocados dois querubins de madeira de oliveira. Os querubins ficariam de asas estendidas no Santo dos Santos, sendo que as asas se tocavam exatamente no meio da sala, e a ponta da asa de cada um deles tocava uma das paredes.
As paredes do templo seriam enfeitadas com figuras entalhadas, assim como as portas. Enfim, tudo uma riqueza só. Ao ver o novo projeto, Javé arregalou os olhos:
— Agora sim, estamos conversando!
Com o projeto finalmente aprovado, Salomão tratou de colocá-lo em prática: as paredes de pedra foram forradas com tábuas de cedro revestidas de ouro, os entalhes foram feitos, os querubins construídos.
A construção foi iniciada no quarto ano do reinado de Salomão, e concluída no décimo primeiro. Com a casa de Deus pronta, o rei podia preocupar-se em construir a sua.
E se o templo podia ser tão ostensivo, então o palácio real também poderia. Salomão não se fez de rogado: só um recinto, o Salão da Floresta do Líbano (que tinha esse nome por ser todo revestido de cedro), já era maior que o templo: media quarenta e quatro metros de comprimento por vinte e dois de largura e treze e meio de altura. Esse salão tinha três fileiras de quinze colunas de cedro que sustentavam vigas de cedro, que por sua vez escoravam o teto de cedro.
O Salão das Colunas era um pouco menor: tinha vinte e dois metros de comprimento por treze e meio de largura, e recebeu esse nome por ter um pórtico sustentado por colunas. A Sala do Trono, onde Salomão trabalharia, era toda forrada de cedro. Num pátio atrás dessa sala ficava a casa de Salomão, no mesmo estilo das outras: um exagero de cedro. Do mesmo estilo também eram os aposentos da esposa do rei, filha do Faraó.
Enfim, o palácio era tão grande que algumas das pedras do alicerce chegavam a quatro metros de comprimento.
Para arrematar as obras, Salomão mandou chamar um certo Hurã, da cidade de Tiro, que era especialista em trabalhos de bronze. Hurã, cuja mãe era israelita de Naftali, fundiu duas colunas de bronze para colocar na entrada do templo. Cada uma delas tinha dezoito metros de altura e um metro e setenta de diâmetro. Depois disso, fez os detalhes das colunas: entalhes em forma de correntes, lírios, romãs. A coluna do lado sul foi chamada de Jaquim (que significa Deus estabelece) e Boaz (pela força de Deus).
O mais famoso dos trabalhos de Hurã, porém, e que é comentado até hoje por muitos, foi o tanque redondo de bronze. Não pelo talento requerido para construí-lo: no fim das contas, era só uma bacia grande e redonda. A grande sacada eram mesmo os doze touros de bronze sobre os quais repousava o tanque, mas ele mesmo não tinha nada de mais. A não ser por um detalhe: segundo o autor da narrativa, o tanque de bronze tinha dez côvados (quatro metros e quarenta) de diâmetro e trinta côvados (treze metros e vinte) de circunferência. Essas medidas têm alimentado por séculos as discussões em torno da veracidade da Bíblia. Sim, porque segundo o autor o número PI equivaleria a 3, e não a aproximadamente 3,1416. Àqueles que ainda discutem isso eu digo: NA BÍBLIA UM SUJEITO É ENGOLIDO POR UM PEIXE GIGANTE E CUSPIDO SÃO E SALVO NA PRAIA TRÊS DIAS DEPOIS! UMA JUMENTA FALA! HÁ GIGANTES DE QUATRO METROS DE ALTURA! E VOCÊS VÊM DISCUTIR MATEMÁTICA, CÁSPITA?
Pronto, acalmei.
Hurã fez ainda dez carretas decorativas de bronze, sobre as quais botou dez bacias. As carretas foram dispostas dos dois lados do templo. O artesão cuidou ainda da manufatura dos utensílios do templo. Os de bronze, claro. Quanto aos de ouro (que não eram poucos: o altar, a mesa para os pães, lamparinas, tesouras, bacias, pratos, dobradiças) foram feitos por outro sujeito, cujo nome não é citado.
Com o templo e o palácio prontos, Salomão quase podia descansar. Ainda faltava um detalhe dos mais complicados: trazer a Arca do Acordo para que ocupasse seu lugar no Santo dos Santos. Essa grande operação de logística, porém, fica para o próximo capítulo.

(As fotos deste post foram retiradas do The Semitic Museum at Harvard University)

(I Reis 5)
Vimos no último capítulo a organização do reino de Israel sob o comando de Salomão. Tal organização era tão eficiente que chamou a atenção até de estrangeiros, entre eles Hirão, rei de Tiro. O rei fenício fora muito amigo de Davi, e assistira de longe à subida de seu filho ao trono. Agora, porém, tendo tomado conhecimento da enorme sabedoria do novo rei, enviou a Israel uma missão diplomática. E Salomão, mostrando mais uma vez sua sabedoria, aproveitou a visita dos emissários de Hirão para dar início a um projeto grandioso. Para começar, mandou uma carta ao monarca fenício:

Caro Hirão,
Pela órdi?
Saúdo-vos em nome de Deus.
Estais vós ligado que meu véio pai Davi não pôde construir um templo para Javé, uma vez que o bicho tava pegando vivia em guerra contra seus inimigos. Eis, pois, todavia no entanto, que eu, seu filho, sentei o dedo mandei subir me vi livre dos meus inimigos internos por graça de Deus, e consegui diplomaticamente viver em paz com os países vizinhos, de modos que estou de boa em paz.
Sendo assim, ó Hirão, pretendo eu agora levantar a goma construir uma casa para Javé, o Deus de Israel, pois foi assim que Ele prometeu a meu pai. Eu queria, então, pedir a você que mandai-me a mim cortar cedros do Líbano. Enviar-te-lo-ei meus empregados, que vão dá um trampo trabalharão juntamente com os seus, e eu pagarei o salário de todo mundo.
mano Salomão, rei de Israel

Hirão ficou muito feliz ao receber essa mensagem, pois estava mesmo ansioso para colaborar com Israel, uma nação que começava a prosperar. Então enviou sua resposta a Salomão:

Cara Salomón,
Bendita seja a Deus de Israel, que deu a Davi uma filho tón sábia.
Gostei muito de seu mensagem, e já estou tomando os providências. Minhas servos vão começar a cortar os cedras para levá-los da Líbano até onde a senhor quiser, de jangadas pelo mar.
Negócia fechada, entón? Certinha, certinha.
Só um coisinha: o ticket-refeiçón das minhas trabalhadores fica por seu conta. Tudo bem?
Abraço,
Hirão, rei de Tiro.

Negócio fechado, os dois reis começaram os preparativos para a construção do templo. Hirão enviava a Israel todo o cedro e pinho que Salomão solicitava. Em troca, o rei de Israel fornecia anualmente duas mil toneladas de trigo e quatrocentos mil litros de azeite para os trabalhadores fenícios. Além desses, o rei convocou trinta mil israelitas para os trabalhos forçados, com Adonirão por chefe. O contingente foi dividido em três grupos de dez mil homens, e cada grupo passava um mês no Líbano e dois em casa. Além desses, Salomão mandou oitenta mil homens para cortarem pedras nas montanhas, e outros setenta mil para carregá-las. Esse grupo de pedreiros e carregadores, responsáveis pelas pedras para os alicerces do templo, tinha três mil e trezentos chefes.
Quatrocentos e oitenta anos depois de chegar a Canaã, o povo de Israel finalmente começava a construir um Templo para Javé. Tendo uma casa de verdade para morar em vez de uma barraca, talvez ele deixasse de ser tão estressado.

(I Reis 4)
Depois de receber de Javé tamanha sabedoria, Salomão achou por bem utilizá-la para reformular a estrutura do reino. Seu pai fora um grande rei, mas era mais um guerreiro do que um estadista. O funcionamento da máquina oficial podia ser muito melhorado, e Salomão sabia exatamente como fazê-lo. Para começar, nomeou os trutas para os cargos de confiança:

  • Sacerdote: Azarias, filho de Zadoque
  • Escrivães: Eliorefe e Aías, filhos de Sisá
  • Conselheiro do rei: Josafá, filho de Ailude
  • Comandante do exército: nosso já conhecido mano Benaías, filho de Joiada
  • Sacerdotes: Zadoque e Abiatar
  • Chefe dos administradores distritais: Azarias, filho de Natã
  • Conselheiro particular do rei: o sacerdote Zabude, filho de Natã
  • Mordomo: Aisar
  • Encarregado dos trabalhadores forçados: Adonirão, filho de Abda

Notem que nada nessa vida é de graça: Natã desempenhara papel primordial para que Salomão subisse ao trono; em troca, dois de seus filhos foram nomeados para cargos de confiança.
Tendo nomeado seus servidores diretos, Salomão partiu para uma reorganização do reino em distritos. Para isso, nomeou doze homens para serem administradores dos distritos de Israel. Cada um dos administradores era obrigado a prover o palácio de mantimentos durante um mês do ano. Dos doze administradores, dois eram genros do rei. Tudo coincidência.
Israel funcionava como um conjunto bem azeitado de engrenagens. Como nada faltava, não havia necessidade de guerras, e Salomão pôde governar em paz e com grande prosperidade. Viveu em paz com os reinos vizinhos durante toda sua vida, e muitos deles pagavam tributos a Israel. Os gastos do palácio do rei só eram comparáveis aos da Casa da Dinda: por dia eram consumidas três toneladas de farinha de trigo, seis toneladas de outras farinhas (não especificadas, sei de nada), dez bois gordos, vinte bois de pasto e cem carneiros. Isso sem contar veados, gazelas, cabritos monteses e aves domésticas. O rei tinha quatro mil baias para os cavalos de seus carros de guerra, e doze mil animais da cavalaria. Fornecer palha e cevada para as montarias também estava entre as obrigações dos administradores distritais, cada um no seu mês.
Com o reino perfeitamente organizado para gravitar em torno do palácio, não deixando que nada lhe faltasse, Salomão tinha tempo de sobra para cultivar sua descomunal sabedoria: estudou as árvores e plantas, os animais, os astros; escreveu três mil provérbios e compôs mais de mil canções (a mais conhecida delas é provavelmente o Cântico dos Cânticos). O rei de Israel foi considerado o homem mais sábio de seu tempo, e reis do mundo inteiro mandavam representantes para ouvi-lo.