(II Reis 1)
— Rapaz, melhor a gente ir em frente…
— Tá louco? Você não viu a cara do sujeito?
— Vi, claro que vi! Mas se o rei souber que nem chegamos a Ecrom, vai ficar puto.
— E daí? Prefiro enfrentar o rei todo fodido e entrevado na cama do que me meter com aquele cara.
As coisas não iam bem em Israel. Depois da morte de Acabe, os moabitas haviam se revoltado contra Israel. Para piorar, num dia em que se espreguiçava na sacada de seu quarto em Samaria, o rei Acazias caíra lá de cima, ficando paralisado do pescoço para baixo. Enviara, então, mensageiros a Ecrom, para que perguntassem a Baal-Zebub1, deus daquela terra, se ele se recuperaria.
Agora, os mensageiros voltavam para Israel sem sequer terem conseguido cruzar o deserto. Uma figura assustadora lhes saltara no caminho, mandando-os de volta para o rei com um recado. Acazias não acreditou quando viu seus emissários de volta apenas poucas horas depois de terem saído em viagem.
— QUE PORRA VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI, FELASDAPUTA?
— Falei que ele ia ficar puto…
— Calaboca. Majestade, nós pegamos a estrada hoje de manhã, e íamos a Ecrom, como o senhor ordenou. Mas cruzávamos o deserto quando um cara muito estranho pulou na nossa frente. O senhor desculpe o termo, mas a verdade é que quase nos cagamos.
— Quase? Fale por você…
— Calaboca, porra.
— OS CORNOS VÃO SE EXPLICAR OU NÃO?
— Pois então, majestade. O tal sujeito nos mandou de volta com um recado para o senhor.
— E vocês preferem obedecer uma ordem de um maluco do deserto a me obedecer, seus putos?
— Se o senhor visse o cara…
— É verdade, majestade. O sujeito anda pelado e descalço no meio do deserto. É todo peludo, parece um urso. A única roupa que ele usa é um cinto de couro cru, mais nada.
— Urso? Filho da puta!
— O senhor conhece o cara?
— Só pode ser Elias. Eu achava que o desgraçado já tinha batido as botas.
— Como eu disse, majestade, ele anda descalço…
— CALE-SE! O que foi que o felaputa disse a vocês?
— Ele disse que Israel tem um Deus que é muito bom e funciona direitinho, e que o senhor não tinha nada de mandar consultar outro deus.
— Hum. O que mais?
— Acho que o senhor não vai querer saber…
— DESEMBUCHA!
— Ele falou que… que o senhor não vai se levantar dessa cama. Que… hum… que o senhor vai morrer aí mesmo.
— MALDITO! CORNO! VIADO! GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!
Passada a crise de ira, Acazias mandou chamar um de seus oficiais, e o enviou, à frente de cinqüenta homens, para trazer Elias a Samaria. Os soldados saíram confiantes em direção ao deserto, e encontraram o profeta sentado no pico de uma montanha. Subiram até perto dele, e o capitão gritou:
— Homem de Deus! O rei ordena que o senhor desça, se vista e nos acompanhe até Samaria!
— Se eu sou um homem de Deus, que desça fogo do céu e acabe com vocês.
— Como é q…
O oficial não terminou sua frase. Uma labareda gigantesca surgiu do nada, e consumiu a ele e a seus cinqüenta homens. A notícia deixou o rei mais enfurecido ainda. Teimoso, mandou chamar outro oficial.
— Você vai juntar cinqüenta soldados para ir ao deserto e me trazer o tal Elias a qualquer custo.
— M-mas, majestade… Estão dizendo coisas horríveis desse Elias. Não é muito perigoso?
— TU É BICHA, RAPÁ? É só um cara, e você vai com cinqüenta homens! O que pode ser perigoso nessa situação, idiota?
— É que estão dizendo que o profeta fez churrasquinho dos outros soldados que foram buscá-lo.
— Você ouviu errado, pedaço de asno! Elias fez um churrasquinho para os outros soldados que foram buscá-lo. Aí os caras se empanturraram, se embebedaram, e se esqueceram de cumprir sua missão.
— Hum. E onde estão eles?
— Onde estão? Er… Estão todos em casa hoje. Curtindo ressaca. Sacumé.
— Ah, claro. Opa. Hehehe. Bom, então vou lá.
Muito seguro de si, o oficial juntou seus homens e partiu para o deserto. Antes, porém, fez questão de enfatizar uma ordem:
— Não aceitem nada que o peludão lhes oferecer.
Seguiram, pois, e chegaram à mesma montanha, onde Elias ainda meditava.
— Homem de Deus, esse é o último aviso! Desça AGORA, é uma ordem do rei Acazias!
— Se eu sou homem de Deus…
Dessa vez foi Elias que não conseguiu concluir sua frase: em uma fração de segundo, o pelotão enviado pelo rei era carvão.
Se Acazias conseguisse mexer os braços, teria arrancado os cabelos de tanta raiva. Então aquele profeta de uma religião que mal existia ousava brincar assim com o poder estabelecido? Se Elias pensava que assim o faria desistir, estava enganado. O rei era teimoso, e o exército israelita era grande.
— Ir buscar Elias, majestade?
— Sim.
— Mas…
— Foda-se.
— Mas, majestade…
— NÃO QUERO SABER! É UMA ORDEM! OBEDEÇA OU SERÁ MORTO!
Desolado, o terceiro oficial convocou seus cinqüenta homens e partiu para o deserto com o coração na mão2. Encontrou Elias no alto da mesma montanha, nem aí pro mundo.
— Seu Elias…
Silêncio.
— Psiu. Seu Elias…
Nada.
— Tá bronzeadão, hein, seu Elias?

— Que beleza de… De cinto, hein? É Armani?

— Seu Elias… Eu sei o que aconteceu com os outros oficiais que vieram aqui para buscá-lo. E eu sei que pode não ser uma boa hora e tal. Mas entenda: o rei disse que ou eu vinha ou ele me matava. O que o senhor faria no meu lugar? Então. Vim. O rei quer que o senhor me acompanhe até Samaria. Aí o senhor vê aí. O senhor pode ir, pode não ir. Pelado, vestido, com cinto, sem cinto. Só não me mate, seu Elias. Tenho filhos pra criar.
— Tá. Bora.
— C-como?
— Acazias não quer falar comigo? Então vamos lá.
— Não vamos virar carvão?
— Nah… Eu fiquei irritado com a arrogância dos seus colegas. Além do mais, esse negócio de me chamar de “homem de Deus” é foda. Sou macho, porra.
Nu como estava, Elias acompanhou o pelotão até o palácio em Samaria. O rei ficou exultante ao vê-lo.
— Ah! Eu sabia que você ia acabar se rendendo, corno!
— Não estou me rendendo, Acazias. Vim trazer um recado de Javé, e volto em seguida para o deserto.
— Como é q…
— Não existe Deus em Israel?
— Essa é uma questão muito comp…
— Por que mandar consultar outro deus, de outra terra, se temos o nosso Deus, Javé?
— Uma segunda opinião, sacumé…
— Agora Javé diz que você morrerá nessa mesma cama em que agora está deitado.
— Peraí. Esse recado você já tinha mandado.
— Pois é. Veja quanto tempo e energia você desperdiçou.
Elias deu meia-volta e saiu do quarto do rei. Acazias queria ordenar aos soldados que o detivessem, mas não conseguia nem falar, tamanha era sua fúria. Ficou com tanta raiva, na verdade, que teve um infarto e morreu.
Acazias não tinha filhos, por isso seu irmão Jorão subiu ao trono de Israel.

1. Baal quer dizer senhor, e zebub significa moscas. Baal-zebub (ou Belzebu) é, portanto, o Senhor das Moscas.
2. Na verdade ele estava era com o cu na mão, mas eu jamais escreveria tamanha grosseria.

(I Reis 22)
— Pois vejam, majestades, que a guerra é como um tabuleiro de xadrez.
— Hum…
— Só que as peças são brócolis e os jogadores vêm assim, viram pro outro lado e fazem um negócio desse jeito com os dedos da mão direita. Assim, ó. Aí jogam azeite em cima. Então um enfia a mão no bolso e tira uma coisa que é como se fosse uma caneta, mas não tem nada a ver, e joga pra cima. É justo?
— …
— …
— Bem, vejamos. DE QUE DIABO VOCÊ ESTÁ FALANDO?
— Hermenêutica, majestade.
— Hermenêutica?
— Sim. Hermenêutica.
— Você ao menos sabe que PORRA é hermenêutica?
— Hermenêutica?
— Sim. Hermenêutica.
— …
— Você é profeta mesmo, rapaz?
— Profetíssimo!
— É merda nenhuma. Fora daqui!
— Mas…
— FORA!
Nota-se que não é o primeiro profeta a se apresentar perante os reis Acabe, de Israel, e Josafá, de Judá. Sessenta anos depois da divisão do reino, os dois haviam forjado uma aliança para juntos atacarem um inimigo comum, a Síria. Era difícil pensar em duas personalidades mais diferentes: grandiloqüente e passional, Acabe sofria constantes variações de humor, chegando a ficar prostrado por qualquer contrariedade. Josafá, pelo contrário, era discreto e tranqüilo, e gostava de pensar antes de dar cada passo. Acabe, em boa parte influenciado por sua esposa Jezebel, provocara a ira de Javé contra o reino do Norte com sua política de incentivos às antigas religiões cananéias, especialmente às diversas formas de culto a Baal, e com a perseguição aos profetas da religião estabelecida, principalmente Elias, o maior deles. Josafá era fiel à religião de seus antepassados, e acabara com a prostituição sagrada nos altares que vinham dos tempos do seu pai, Asa. Não era, porém, um fanático: tolerante, fazia vista grossa a outras manifestações religiosas. A maior diferença entre os dois, no entanto, era percebida quando abriam a boca: Acabe tinha uma voz grave e tonitruante, que subia duas oitavas quando ele se irritava. Josafá, pobre coitado, tinha a voz aguda de um castrato.
Já havia dois anos que as relações entre Israel e a Síria eram pacíficas. Existia um ponto pendente, porém: Ramote Gileade, cidade situada no que hoje se chama Cisjordânia. A idéia de retomar a cidade partira de Acabe, que propusera a aliança a Josafá. Para seu desespero, o rei de Judá aceitara a proposta, mas com uma condição:
— Vamos consultar Javé primeiro.
Acabe ficou vermelho de raiva, sapateou, rangeu os dentes, fez ameaças, mas Josafá permanecia sereno: ou pediam orientação a Javé, ou nada feito. Vendo que seria inútil insistir, Acabe esmurrou a parede (o que lhe rendeu dois dedos quebrados) e mandou convocar todos os profetas de Israel.
Não são muitos os profetas, e também não são grande coisa. A perseguição incansável de Jezebel tornara em cabritos assustados aqueles que antes eram os orgulhosos mensageiros do Senhor dos Exércitos. Reunidos perante os dois reis, que se apresentam em suas roupas mais luxuosas na praça principal de Samaria, eles dão os prognósticos mais animadores.
— Guerra contra a Síria? Ixe, já é! Deus manda dizer que tá tudo pela ordem.
— Diz o Senhor: ide-vos e lutai-lhe-vos contra os sírios, e eu te-lhes darei-vos a vitória. Lhe. Vos. Por aí.
— A Síria é como um punhado de areia dentro de um copo daqueles de plástico, só que com um buraquinho no fundo, e em cima de um monte de pedras. Aí vem o gato e…
— EU JÁ MANDEI VOCÊ SUMIR DAQUI!
— Tá bom, tá bom! Saco.
— Acabe, não tem nenhum outro profeta por aí não?
— Hum. Tem um sim.
— Então, ouvi falar de um tal Elias que…
— NÃO ME FALE NESSE SUJEITO!
— Tudo bem, sem problema. Mas não tem nenhum outro não? Cá pra nós, estou achando esse pessoal meio fraco, parece que cursaram profecia na Uninove.
— Bom. Tem um cara aí, um tal de Micaías. Mas ele nunca profetiza nada que preste pra mim, só merda. Tenho ódio dele. Ódio. ÓDIOÓDIOÓDIOGAH.
— Acabe, controle-se. Pega mal um rei portar-se assim na frente dos seus súditos.
— Ah, é? E essa voz de moça, pega bem?
— Não adianta, meu caro, não vou entrar nessa sua provocação barata. Mande chamar o tal Micaías, só para termos certeza.
Contrariado, o rei mandou um oficial chamar seu desafeto. Enquanto isso, o desfile de profetas continua, todos eles garantindo que a campanha de retomada de Ramote Gileade será um absoluto sucesso. Um deles, de nome Zedequias, vem empunhando um par de chifres de ferro.
— Majestade, Javé manda dizer: “Com estes chifres você lutará contra os sírios e acabará com a raça deles”.
— Corno é teu pai!
— …
— Cadê o Micaías, Acabe?
— Sossega, Garoto Juca, que ele já vem.
Já vem mesmo: o oficial encontrou o profeta ali por perto, e vem escoltando o homem. Enquanto caminham, conversam.
— Rapaz, seus colegas tão tudo dizendo que essa guerra vai ser porreta.
— E eu com isso?
— Ora! O melhor que você faz é falar a mesma coisa, filho duma égua.
— Eu falo o que Javé me mandar falar, nada mais, nada menos.
— Eita. Então tá, ué.
Chegando defronte aos reis, porém, Micaías se esquece de seu orgulho de profeta. Ríspido, Acabe pergunta se ele e Josafá devem marchar contra Ramote Gileade.
— Claro, majestade, claro! Javé vai lhes dar a vitória.
— Micaías…
— Sim, majestade?
— Você deve achar que eu sou algum débil mental, não?
— …
— Estou vendo nessa sua cara de mané que você está mentindo. Pode parar com isso, filho da puta. Quando você vier falar comigo em nome de Javé, diga a verdade.
— É que o senhor fica bravo quando eu falo…
— NÃO IMPORTA! QUERO A VERDADE!
— Hum. Bom. O senhor pediu. Preparado?
— DESEMBUCHA!
— O que eu vejo são soldados de Israel espalhados pelas montanhas do deserto, como ovelhas sem pastor. E Javé diz assim: “Eita, que esses aí estão fodidos. Que voltem para casa em paz”.
— Não falei que esse veado só profetiza o que não presta?
— Deixa o homem falar, Acabe. Prossiga, Micaías.
— Prossigo, prossigo sim! Porque eu vi Javé sentado em seu trono no céu, com os anjos todos em volta. Ele perguntou: “Alguém aí quer descer para enganar Acabe para que ele ataque Ramote e seja morto por lá?”. Foi uma bagunça do cão entre os anjos, cada um dizendo uma coisa diferente. Aí um espírito se levantou e disse: “Xacomigo, Javé, eu vou”. “O que você vai fazer”, Javé perguntou, e ele explicou seu plano. Disse que enganaria os profetas para que fizessem profecias erradas para o rei. Então Javé o autorizou, e cá estamos nessa situação ridícula, com chifres de ferro e não sei mais o quê.
Antes que o rei conseguisse formular uma reação, Zedequias saltou na frente de Micaías e sentou-lhe um sopapo.
— Tá louco, feladaputa? Quando foi que o espírito de Deus saiu de mim e entrou em você?
— Você vai saber quando estiver todo encolhidinho num buraco, tentando se esconder dos sírios.
— Chega! Podem parar, os dois! Cadê o oficial que trouxe esse desgranhento pra cá? Ah, olha você aí. Seguinte: você vai levar esse sujeito até Amom, o governador da cidade, e ao príncipe Joás, com um recado meu. Diga a eles que é pra jogarem esse Micaías na cadeia. Que ele passe a pão e água enquanto eu não voltar são e salvo.
— Vixe. Haja pão é água.
— O QUE VOCÊ DISSE, MICAÍAS!
— Majestade, se o senhor voltar são e salvo, então não foi Javé que falou através de mim. Disso eu duvido, infelizmente. Que todos se lembrem do que eu disse.
No fim das contas, ficou decidido por 400 votos contra um que Judá e Israel atacariam Ramote Gileade. Acabe ainda estava preocupado com o que Micaías dissera, então foi conversar com Josafá:
— Pensei num negócio aqui pra gente confundir os sírios. Em vez de irmos os dois como reis, você vai todo paramentado e eu vou disfarçado de soldado comum.
— Hum. E pra quê?
— Pra confundir os sírios, Josafá! Prestenção!
— Mas isso não faz sentido nenhum, Acabe.
— Confie em mim!
— Tudo bem, pode ser. Negócio esquisito…
Acabe saiu esfregando as mãos. Sabia que os capitães do exército da Síria tinham ordens de não atacar ninguém a não ser o rei de Israel. Judá era uma bostinha no mapa, ninguém sequer lembrava de sua existência. Quando vissem Josafá todo engalanado sobre seu carro, feito um Clóvis Bornay narigudinho, pensariam que era o rei de Israel. Enquanto isso, Acabe daria um jeito de ficar meio que na retaguarda, andando pra lá e pra cá, evitando a refrega. Não tinha como dar errado.
Bom, tinha. Porque os capitães sírios chegaram até a cercar o rei de Judá. Ordenaram que jogasse suas armas no chão, e se preparavam para trucidá-lo quando ele gritou. Gritou do único jeito que sabia: com aquela voz esganiçada que tinha. Imediatamente os oficiais inimigos perceberam que não se tratava do rei de Israel. Josafá explicou que era o rei de Judá, um país menorzinho mais ao sul, e que Acabe lhe propusera o plano de um só rei visível na batalha.
Até aí, nada de mais. Os sírios deixaram Josafá em paz, e Acabe continuava seguro em seu disfarce. No entanto, enquanto corria de um lado para outro, o rei sentiu uma fisgada entre as juntas da armadura. Um soldado sírio atirara uma flecha ao acaso, e ela — provavelmente guiada pela vingativa mão de Javé — foi alojar-se no corpo do rei que tanto fizera para não ser notado. Imediatamente ele pediu ao condutor de seu carro que desse meia-volta e o levasse para fora da batalha.
O ferimento não parecia sério, e não pegava bem um rei abandonar o campo de batalha. A briga esquentava, e a presença real fazia-se necessária para instigar o moral dos soldados. Então os oficiais de Acabe mantiveram-no em pé até a tarde, de frente para os sírios, sem perceberem o sangue que escorria para o fundo do carro. Ao pôr-do-sol, o rei morreu e o exército israelita recebeu ordem de retirada.
O corpo do rei Acabe foi levado para Samaria e enterrado ali na capital do reino do Norte. Enquanto os soldados lavavam seu carro na represa da cidade, onde as prostitutas iam tomar banho, os cachorros lamberam o sangue que escorria para a água. Javé dissera que os cães beberiam o sangue de Acabe, e ali cumpria-se a profecia.
— Que profecia? Quando foi que Javé disse isso?
Eu sei lá, porra!
Com a morte de Acabe, seu filho Acazias subiu ao trono. Acazias foi um mau soberano, cujo reinado durou apenas dois anos. Ele deu continuidade aos cultos de Baal em Israel, para profunda irritação de Javé.
Josafá, que se tornara rei de Judá no quarto ano de reinado de Acabe, já governava havia dezessete anos. Durante esse período, realizou grandes feitos. Sob seu cetro, o país de Edom tornou-se colônia de Judá. Já depois da morte de Acabe, Josafá mandou construir grandes navios para trazerem ouro da misteriosa terra de Ofir, mas as embarcações quebraram antes mesmo da primeira viagem. Vendo o pouco conhecimento em engenharia naval de seu vizinho, Acazias ofereceu ajuda, que não foi aceita pelo rei de Judá. Depois que Josafá morreu e foi enterrado no túmulo da família de Davi, seu filho Jeorão reinou em seu lugar.
— Ei! E o Micaías?
Sei lá do Micaías! Deve estar comendo pão e água até hoje.

(I Reis 21)
Ocupar o lugar de honra num banquete é uma deferência de grande significado. Você tem a atenção de todos, tem a melhor comida, o melhor vinho, e é servido antes de todos. Nisso pensava Nabote, bom israelita, agricultor e comerciante. Era fácil entender o papel de quem ocupa o assento principal numa grande festa. Mas o que dizer do conviva principal de um jejum? Era o primeiro a não ser servido? Recebia as melhores porções de uma comida inexistente. Sim, porque Nabote era agora o centro das atenções de uma grande quantidade de pessoas, todas elas reunidas para o jejum convocado pelo rei Acabe. Todas elas estavam desconfortáveis com esse bizarro jejum público, mas nenhuma delas tanto quanto Nabote. Quanto mais ele pensava, mais acreditava que o convite tinha algo a ver com sua recusa em fechar um negócio com o rei.
Estava certo em sua suposição. Como vimos no final do capítulo anterior, o rei andava cada vez mais birrento, e qualquer contrariedade seria capaz de levá-lo a fazer alguma bobagem. Acontece que Nabote possuía uma plantação de uvas que ficava ao lado de um palácio que o rei possuía em Jezreel. Sem ter mais o que fazer o dia todo — decisões importantes eram tomadas por Jezabel, fosse como fosse — Acabe achou por bem propor um negócio ao proprietário da vinha.
— Essa plantação é sua, rapaz?
— Sim senhor.
— Fica pertinho do palácio, não?
— Pois fica.
— Vamos fazer um negócio?
— Vamo não.
— Mas você nem ouviu ainda!
— Mas essa vinha foi herança de meu pai, e não quero me desfazer dela.
— Rapaz, isso aqui ia ficar lindo como horta real, já imaginou? Imagina!
— Tô imaginando.
— E aí, vamos fazer negócio?
— Vamo não.
— Puta que pariu! Eu te dou um vinha melhor que essa!
— Melhor que essa, é?
— É!
— Quero não.
— Eu te pago em dinheiro! Pago o dobro do que ela vale!
— Carece não!
— Te pago o triplo!
— Precisa não.
— PAGO QUATRO VEZES O QUE ESSA BOSTA VALE, TE DOU OUTRA VINHA DUAS VEZES MELHOR E TE DEIXO COMER MINHA MULHER!
— Dona Jezabel, é?
— Ela!
— Quero não!
— HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMF.
Sufocando sua raiva e frustração, o rei saiu dali batendo os pés, entrou no palácio e se deitou em sua cama de cara para a parede e com o dedo enfiado na boca. Aos que lhe vinham perguntar o que tinha ou oferecer comida, apenas respondia com um “Uh-hum!” — ou qualquer coisa assim, era difícil entender o que ele dizia com o dedão na boca.
A reação do rei, muito madura e centrada, não tardou a virar o comentário do dia no palácio. Temendo que a novidade chegasse às ruas de Jezreel, Jezabel foi ter com seu esposo.
— Acabe, que bosta é essa?
— Uh-hum!
— UH-HUM O DIABO! DEIXA DE VEADAGEM E ME FALA O QUE ACONTECEU.
Obediente como sempre, mas um pouco relutante, o rei narrou à mulher os acontecimentos daquela manhã.
— Que vergonha, tamanho homem! Você é rei desta merda ou não é? Humpf. Levanta daí, levanta! Vai comer alguma coisa.
— Mas… E a plantação, meu bem?
— Deixa isso comigo! Amanhã mesmo a vinha de Nabote será sua.
Enquanto Acabe comia seus sucrilhos, Jezabel preparava seu plano. Escreveu algumas cartas em nome do rei, seladas com seu sinete, e as enviou para as autoridades de Jezreel. As cartas davam instruções para um grande jejum coletivo na cidade, que deveria ter Nabote no lugar de honra. E ali estava Nabote, sentado em sua cadeira cada vez mais desconfortável, sentindo sobre si o peso dos olhos de seus conterrâneos, que nada entendiam. Ficaram assim por longos minutos, até que o homem sentado logo à frente de Nabote resolveu puxar assunto:
— Você é Nabote, não é?
— Sou sim — respondeu ele, sabendo que seu interlocutor era um sujeito de má fama na cidade, bandido e mau caráter.
— Ah, eu te conheço!
— Eu também! — disse o que estava ao lado do homem, outro elemento suspeito. — Não é você o grande ateu de Jezreel?
— Ateu? Eu? Hã?
— Isso, ele mesmo! Vive dizendo que esse negócio de Javé não está com nada, que ninguém nunca viu Javé, que é tudo uma jogada política para acabar com as outras culturas da região e tal.
— COMO?
— Não se faça de besta! Eu mesmo ouvi você falando essas coisas no bar ontem à noite. Dizia também que Acabe é um bebê chorão, e que Israel merecia um rei macho de verdade.
— HEIN?
— Disse que quem manda no negócio todo é Jezabel, e que o rei vive debaixo da saia dela.
— Mas isso é um absurdo! Vocês não acreditam nesses dois, não é verdade? Ora, vocês conhecem a fama desses sujeitos, e conhecem a minha. O que acham?
Era tarde demais para Nabote, porém. Enfurecido pelo rumor levantado pelas duas testemunhas — segundo a lei mosaica, quantidade suficiente para se condenar alguém —, o povo levou o pobre coitado para fora dos muros da cidade, e ali o matou a pedradas.
No palácio, Acabe recebeu a notícia da boca de sua esposa, que o convenceu a ir imediatamente tomar posse da plantação. O rei se levantou e foi caminhando até a vinha. Quando se aproximava, notou de longe um homem que vestia roupas esfarrapadas, e lançava em sua direção um olhar que parecia hostil. Chegando mais perto, não teve mais dúvidas de quem se tratava.
— Então você já me achou, meu inimigo?
— Não foi difícil — respondeu Elias —. Primeiro, porque sei que você vem passar o verão aqui em Jezreel. Depois, porque a notícia de tudo o que você tem feito de mau e criminoso deixa Javé cada dia mais irritado.
— Mas o que foi que eu fiz?
— Não se faça de idiota! Mandar matar ou deixar de impedir uma morte é o mesmo que assassinato, você sabe muito bem disso. Tenho um recado de Javé para você, rei Acabe.
— Lá vem…
— Ele diz que varrerá da terra todos os homens de sua família, de modo que não deixe descendentes. O mesmo que ele fez às famílias dos reis Jeroboão e Baasa, fará à sua. O cadáver de Jezabel, a prostituta que você chama de esposa, será devorado pelos cães junto ao muro da cidade. Todos os parentes dela que morrerem na cidade terão o mesmo fim, e os que morrerem no campo serão devorados pelos abutres.
Ao ouvir a maldição proferida por Elias, o rei tremeu de medo. Tentando reconciliar-se com Deus, rasgou suas roupas em sinal de arrependimento, vestindo um camisolão de pano de saco. Ficou sem comer durante dias, dormindo no chão duro e exibindo um semblante abatido. Ao ver a reação de Acabe, Javé resolveu rever suas ameaças:
— Elias, diga a ele que lhe dou uma segunda chance. Já que ele se mostra tão arrependido, não vou mandar toda essa desgraça para a vida dele.
— O senhor é muito misericordioso, Javé. Estou surpreso.
— Em vez disso, a desgraça toda recairá sobre o filho dele.
— Que não teve nada a ver com a história?
— Isso.
— Retiro o que eu disse.
— Deixa eu me divertir um pouco, porra!

(I Reis 20)
Sentado na principal sala de reuniões de seu palácio, Ben-Hadade, rei da Síria, mal conseguia disfarçar o tédio e a impaciência. Para um homem de ação como ele, só havia algo pior do que reuniões: reuniões com consultores. Ao seu redor na mesa, empertigados e com expressões de profundo saber e autoridade, eles se revezavam na apresentação. Começavam dizendo o nome, mas se não o fizessem daria no mesmo: eram todos iguais. O primeiro começara falando da empresa:
— Nós, da Siriana…
— Siriana?
— Sim, majestade.
— Com George Clooney e tal?
— Er… Não exatamente, majestade. Siriana é o nome de nossa companhia.
— Nome idiota.
— Senhor, com todo o devido respeito, levamos meses para chegar a esse nome. A definição envolveu pesquisas de mercado, análises de tendências, estudos de branding…
— Foda-se. Deu tudo num nome idiota de filme esquerdinha. O que é que vocês da Siririca…
— Siriana, senhor.
— Tanto faz. O que vocês têm a me dizer?
— Bem, majestade. Temos uma metodologia que foi desenvolvida por nossos sócios-fundadores e tem sido utilizada com sucesso há seis anos em diversos projetos. A metodologia é dividida em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Dentro desse pilar de pessoas, podemos destacar que a guerra contra Israel foi…
O rei já não prestava atenção. Fazia já três meses que aqueles almofadinhas percorriam a Síria coletando informações, discutindo entre si, realizando longas conferências e workshops. O Projeto Samaria, que era como eles chamavam o servicinho porco que desenvolviam, fora previsto para um mês, no máximo. Malditos consultores. E maldito Acabe, que o forçara a chegar a tal ponto.
Acabe… O rei de Israel era o mais bunda mole dos reis, disso ninguém duvidava. Mandado pela mulher e assombrado por um profeta casca-dura que desaparecera há muito tempo no deserto, Acabe era motivo de chacota em toda a região. Seu país era, portanto, alvo fácil. Isso, pelo menos, era o que pensavam Ben-Hadade e outros trinta e dois reis que haviam decidido apoiá-lo na campanha contra Israel um ano antes. Haviam subido às montanhas próximas a Samaria com seus cavalos e carros, cercando a cidade.
— … como resultado do que chamamos de gap analysis.
— Guépi o quê?
Gap analysis, majestade. Levantamos toda a situação atual com entrevistas e questionários entregues aos tomadores de decisão, e definimos, conversando com o senhor e seus assessores, qual seria a situação ideal. A partir disso, e sempre aplicando um conjunto de best practices, traçamos o caminho entre o que temos agora e o maior nível de maturidade possível, que é o nível 5. O relatório que apresentaremos hoje mostra os passos para atingir a zona de conforto de cada um dos níveis de maturidade, até o platô de sucesso do patamar mais alto. Em cada nível passaremos por um ciclo de conscientização, negação, frustração, aceitação…
Aceitação, pois sim! Era inaceitável a derrota para Acabe. Ben-Hadade ainda guardava os bilhetes trocados entre eles. Começara como uma espécie de trote; nem ele nem seus companheiros acreditavam muito que aquilo daria em guerra de verdade.

Acabe,
Sem delongas: toda prata e ouro que você tiver por aí, suas mulheres e seus filhos. Tudo meu.
B-H

A resposta de Acabe era patética, mas com um toque de malandragem:

Meu patrão Ben-Hadade,
O senhor tem razão. Eu e tudo o que tenho somos seus. Abraço!
A.

Era muita petulância do rei israelita. Como resposta, Ben-Hadade enviara uma mensagem que não deixava dúvidas sobre suas intenções, que já não eram mais apenas de aplicar um trote:

Acabe,
Não se faça de idiota. Eu requisitei todo o ouro e prata de seu palácio, além de suas mulheres e filhos. Mas você prefere dar uma de espertinho, não é? Pois que seja. Amanhã mesmo mandarei alguns empregados de confiança até aí. Eles vão examinar o seu palácio e as casas dos seus assessores, e vão pegar tudo aquilo que acharem que tem valor. O que você acha, hein?
B-H

Acabe ia ver o que era bom pra tosse…
— … WC?
— PwC? Mas vocês não eram de uma tal Siriema?
— Siriana, majestade. Eu perguntava onde fica o WC.
— Ah. Saindo daqui no corredor à direita, até o final, sobe as escadas à sua esquerda, passa pela porta do harém, vira na segunda à esquerda, desce uma escadinha de três degraus e por lá você se informa.
— …
— Você acha MESMO que eu conheço todo o palácio? Vocês andaram vasculhando tudo por aí, deviam saber mais do que eu.
— Er… Ok, majestade, com licença.
A saída do consultor deu ao rei sossego para remoer o ódio por Acabe e seu país. A resposta do rei de Israel à segunda mensagem demorara bem mais do que anterior. Ben-Hadade não tinha como saber, mas seu bilhete causara celeuma em Israel. Choramingoso como sempre, Acabe queixava-se pelos corredores do palácio. Que não era justo, que o rei sírio queria arruiná-lo e a seu reino, que era um absurdo, que onde já se viu. Quando conseguiram, a muito custo, interromper a cantilena do rei, seus assessores aconselharam: não entregasse nada, e Ben-Hadade que se fodesse. Acabe concordou, eufórico, mas na hora de escrever a resposta resolveu suavizar um pouco os termos:

Meu patrão Ben-Hadade,
Concordo com tudo o que o senhor disse na primeira mensagem. Tudo, tudo, tudo. Sinto dizer, porém, que não posso concordar com a última. É uma pena. Gostaria muito de poder ajudá-lo, mas não posso. Para qualquer outra coisa, sou sempre seu criado.
A.

Foi com a mão trêmula de raiva que Ben-Hadade escreveu o bilhete seguinte:

Porco israelita,
Que os deuses me capem matem se eu não invadir Samaria com um exército tão grande que, se cada soldado levar consigo um punhado de terra, a cidade sumirá do mapa.
B-H

A resposta de Acabe a essa ameaça fora, Ben-Hadade era forçado a admitir, de surpreendente coragem e presença de espírito:

Pão sírio,
O homem que diz “sou”, não é. O verdadeiro soldado conta vantagem depois da batalha, não antes. Em outras palavras, vem ni mim.
A.

Ben-Hadade recebera essa resposta de inesperada altivez enquanto bebia com os outros 32 reis em suas barracas perto de Samaria. Após ler o bilhete e passá-lo aos outros, o rei deu a ordem: era hora de atacar Israel. Enquanto isso, porém, Acabe recebia conselhos de um profeta. Os profetas de Javé haviam começado um movimento discreto de reorganização e, após uma ação aqui e ali, já eram até aceitos no palácio real — desde que Jezabel não estivesse por perto, é claro. Mesmo assim, evitavam as mensagens cifradas e as admoestações espirituais, apostando nos conselhos práticos para ganharem a confiança do rei. Esse profeta não era exceção: o recado que trazia diretamente de Javé para Acabe não tinha nenhum tipo de pirotecnia celeste, mas conselhos pertinentes quanto ao comando, divisão e organização do exército israelita. Enquanto Ben-Hadade e seus aliados ainda organizavam, preguiçosamente e cheios de si, a tomada de Samaria, o exército de sete mil israelitas subia a montanha para atacá-los. Quando deram por si, era tarde demais: os israelitas haviam causado baixas expressivas no exército sírio, botando o resto do contingente para correr. Comandados por Acabe, transfigurado em general eficiente e bravo, os soldados de Israel afugentaram seus inimigos, inclusive o orgulhoso Ben-Hadade, que fugira a todo galope.
— … É muito simples, como o senhor pode ver.
— Simples? SIMPLES? AQUELES FELASDAPUTA DO PAU CORTADO ME HUMILHARAM! VOCÊS VÃO ME DIZER AGORA QUE SABEM MAIS DO QUE EU, CORNOS?
— Majestade… O senhor contratou nossos serviços, só queremos apresentar nosso relatório e ir embora. Ainda temos que passar por um cliente no Egito hoje, e voltar para o escritório para preencher nossos relatórios mensais de horas.
— Cara… Deve ser muito chato trabalhar nessa Sirigüela.
— Siriana, majestade. Bem, como eu dizia é muito simples. Toda a ação se baseia em três pilares:

  1. Sobrenatural O deus dos israelitas é claramente uma divindade das montanhas; por isso o exército sírio foi derrotado por eles naquela ocasião um ano atrás. Os deuses sírios, por sua vez, são naturais da planície. Portanto, se a batalha for em lugar plano, a Síria será invencícel
  2. Profissional Os 32 reis que ajudaram na campanha anterior podiam ser bem intencionados, mas não eram profissionais da guerra. A substituição deles por capitães, homens de pensamento estratégico e espírito belicoso, trará ao exército sírio grande diferencial competitivo, além de força no processo de tomada de decisões
  3. Estratégico O contingente empregado na batalha mal sucedida era suficiente para vencê-la, assim como as armas e equipamentos utilizados. O problema aí, frisamos, não era de pessoas nem de tecnologia mas sim de processos. Com os processos bem definidos pelos capitães convocados, os soldados sírios chegarão ao nível de maturidade desejado no projeto.

— O mesmo exército lutando num lugar plano comandado por capitães. É isso?
— Em resumo sim, majestade. O relatório detalhado deve estar em sua mesa até amanhã. Poderemos discutir também a implementação de uma ferramenta de Business Intelligence, que agregue valor a seu negócio com métricas, alavancando o potencial de…
— VÃO ALAVANCAR AS PUTAS QUE OS PARIRAM! FORA DAQUI! NÃO ACREDITO QUE PAGUEI ESSA FORTUNA POR UM SERVIÇO BOSTA DESSES!
Os consultores partiram assustados e desolados. Sozinho na sala de reuniões, o rei acalmou-se, pensou, e acabou considerando as ponderações apresentadas. Até que fazia sentido. Fazia? Não fazia? Saberia.
Dias depois, o exército sírio estava acampado em Afeque, cidade que ficava numa planície próxima a Israel. Era um exército mais lustroso e disciplinado, graças ao trabalho exemplar dos capitães indicados pela Siriana Consultoria. “Outsourcing é o futuro!”, pensava o empolgado Ben-Hadade. Sabendo do cerco, Acabe organizara seus exércitos também. Na verdade, já vinha se preparando para nova investida síria havia um ano, seguindo o conselho do profeta prático. Os israelitas acamparam em dois grupos de frente para os sírios e, comparados a estes, pareciam dois rebanhozinhos de cabras. Vendo o tamanho do exército inimigo, Acabe só tinha um pensamento — “fodeu” — mas adquiriu novo ânimo ao ser abordado por outro profeta da nova geração.
— Os sírios dizem que Israel venceu da outra vez porque Javé é um deus das montanhas. Javé manda dizer que isso é uma calúnia da porra, e que vai mostrar pra esses comedores de esfiha quem é que manda nessa merda toda.
Durante sete dias os dois exércitos permaneceram acampados de frente um para o outro, em silêncio e tensão crescentes. Ao sétimo dia alguém deve ter pigarreado e a batalha começou. Os israelitas mataram cem mil sírios só nesse dia. O resto do exército da Síria fugiu para Afeque, onde lhes aguardava uma piada daquelas típicas de Javé: as muralhas da cidade caíram, matando vinte e sete mil soldados. Ben-Hadade teve mais sorte: estava longe das muralhas na hora do desastre, e se escondeu nos fundos de uma casa. Dois dos oficiais contratados foram ter com o rei, oferecendo-lhe sua vasta expertise em negociações:
— Majestade, nós vamos até Acabe para implorar humildemente por sua vida. Ouvimos dizer que os reis de Israel são muito bondosos.
— E eu lá tenho escolha? Vão, vão.
Quando ouviu dos dois oficiais que Ben-Hadade ainda estava vivo, Acabe mostrou-se aliviado. Não era homem de guerra, só queria sossego na vida. Fora forçado pelas circunstâncias e ajudado por um deus furioso, mas em qualquer outro caso preferiria abrir mão de tudo a entrar em guerra.
— Meu irmão Ben-Hadade, vivo? Que maravilha! O que vocês estão esperando? Podem trazê-lo para cá.
Os oficiais voltaram à cidade com o recado. Ben-Hadade veio, desconfiado a princípio, mas relaxou quando viu que Acabe tinha mesmo boas intenções. Depois de um pouquinho de papo furado, partiram para as negociações de paz. Os termos, estranhamente, foram propostos pelo rei sírio, parte derrotada:
— Seguinte, Acabe. Eu vou devolver a você todas as cidades que meu pai tomou do seu. Além disso, sabe aquele shopping em Samaria? Pois bem: hoje mesmo vou dar ordem para desapropriarem um terreno em Damasco para que você construa um desses por lá. Assim todo mundo ganha, hein? Que me diz?
— Excelente, ótimo! Mas conversamos depois. Vá para casa, descanse. Esses últimos dias não foram fáceis.
A postura cordial e de boa índole de Acabe, quase brasileira, não agradou a Javé. Emputecido, deu instruções a um profeta que tinha em alta consideração. Depois de receber o recado, o profeta chamou um de seus companheiros de grupo e fez um pedido estranho:
— Me dá um soco.
— Mané soco.
— Anda, diabo. Me dá um soco. Aqui, ó.
— Vixe, endoidou… Rapaz, bate logo a cara na parede e não me enche o saco.
— INFELIZ! VOCÊ DESOBEDECEU A UMA ORDEM DE JAVÉ, E POR ISSO SERÁ MORTO POR UM LEÃO!
— Uuuuh, uuuuh, que meeeeda! Acorda, rapaz. Esse tempo já passou. O negócio agora é profecia de resultados, manja? Foi-se o tempo da profecia moleque, de pé descalço. O lance é pragmatismo teológico, manja? Ah, vá-te à merda!
Assistindo à cena, os outros profetas reunidos na casa riam de se dobrar. O que se recusara a agredir o colega fez uma saudação irônica e saiu da casa. Os risos, que já esmoreciam, viraram silêncio total depois que os profetas ouviram um rugido, seguido de um grito, seguido de um “humpf”. Quando saíram, viram seu debochado colega estendido no chão, ensangüentado. O leão olhou para eles, fez “humpf” novamente e se retirou. Aparentemente, desprezava as novas tendências da profecia.
Voltaram todos para dentro de casa. O profeta escolheu outro colega.
— Ei! Você aí! Me dá um s… FILHODAPUTA. Hm. Caralho, doeu. Bom. Obrigado. Deus o abençoe. Porra.
O profeta enrolou um pano no rosto para não ser reconhecido e foi para a beira da estrada esperar o rei passar. Quando Acabe ia passando, o homem começou a gritar:
— Me entregaram um prisioneiro no meio da batalha! “Toma conta dele, rapaz”. Toma conta… Tanta coisa pra fazer e eu vou tomar conta de vagabundo? Fui cuidar da minha vida e, quando vi, o safado tinha fugido. Agora dizem que eu vou ter que pagar 35 quilos de prata de multa, senão me matam. Pode um negócio desses, majestade?
— Se pode? Claro que pode! Te deram ordem para vigiar o prisioneiro e você deixou o cara escapar? Você merece morrer mesmo.
— Arrá! — o profeta deu um pulo e arrancou o pano do rosto — O senhor também, rei Acabe, deixou escapar o homem que Javé ordenou que o senhor matasse. Agora, diz Javé, o senhor vai pagar com a vida, e seu povo será destruído.
— Mas… Mas ele nem me falou nada de matar o rei!
— Ih, sei de nada. Só entrego o recado.
O profeta voltou para a casa dos profetas, feliz pela missão cumprida. O rei, por sua vez, voltou para Samaria chateado, com raiva e resmungando. Se mais alguma coisa o aborrecesse, era capaz de cometer uma loucura.

(I Reis 19)
No último capítulo, deixamos Elias em Jezreel, após ter vencido e matado os profetas de Baal. O rei Acabe, impressionado com o duelo entre as duas religiões, voltava para o palácio disposto a abolir o culto pagão de Israel e voltar à velha religião de Javé. Precisou mudar de idéia, porém. Ao contar a sua esposa Jezabel o que acontecera, a mulher quase lhe comeu o fígado. Bem, Acabe mandava em Israel, mas quem mandava em Acabe era Jezabel, que enviou a Elias o seguinte recado:

Que meus deuses me matem se em vinte e quatro horas eu não fizer a você o mesmo que você fez aos profetas de Baal, maldito!
J.

Horas depois, recebeu a resposta do profeta:

Vai acabar com meus argumentos utilizando a mais fina ironia?
E.

Jezabel ainda mandou outro bilhete, com a indefectível frase “Você está falando sério?”, mas era tarde: sabendo exatamente o que a rainha pretendia lhe fazer, Elias fugiu com seu ajudante para Berseba, em Judá. Deixou o ajudante na cidade e se enfiou no deserto. Depois de um dia inteiro andando, encontrou uma árvore e sentou-se à sua sombra. Era o último profeta de uma religião que um dia fora a única de um país que também não estava dividido. A seca, a disputa com os profetas de Baal, a volta da chuva, nada adiantara: continuava sendo um pária, um homem malquisto em sua própria terra. Era demais para ele.
— Chega desta merda, Javé! Acaba logo com a minha vida! Eu sou o último fracasso de uma linhagem de derrotados.
Exausto, o profeta caiu no sono. Logo alguém o cutucava impacientemente. Elias abriu os olhos e viu diante de si um sujeito alto, todo vestido de branco.
— Morri?
— Morreu uma pemba. Levanta daí e come.
Elias ia explicar que estava no meio do deserto, e não lhe apetecia comer areia, mas foi calado pela visão de um pão assado nas pedras e um jarro d’água. Ele comeu, bebeu e pegou no sono novamente. Bem, tentou pegar no sono, porque o anjo continuava a cutucá-lo.
— Cara chato…
— Come mais, rapaz, senão você não agüenta a viagem.
Acostumado a ser mandado por Deus para cá e para lá, Elias nem formulou a pergunta “que viagem?”, que ocorreria a qualquer um de nós. Em vez disso, levantou-se, comeu mais pão e bebeu mais água. Pense numa refeição balanceada e cheia de vitaminas: o alimento deu ao profeta forças para andar quarenta dias e quarenta noites até o monte Sinai, lugar dos mais sagrados para Israel. Assim que chegou, entrou numa caverna para passar a noite. Quando começava a ferrar no sono, ouviu uma voz conhecida:
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— PORRA, JAVÉ! ME DEIXA DORMIR!
— Não quer comer uma coisinha antes?
— NÃO! ESSA SUA COMIDA TEM ANABOLIZANTE!
— É sério, Elias. O que você está fazendo aqui neste buraco? Você é um vencedor, Elias! Um profeta poderoso! Você pode, você consegue! Força, rapaz!
— Que é isso, Javé? Virou o Bernardinho?
— Bah. Ok, ok, esse lance de auto-ajuda não funciona com você. Muito bem, mas que porra você está fazendo aqui?
— ESTOU ME ESCONDENDO, CARALHO! A minha vida inteira eu fui um servo fiel, sempre fiquei do seu lado. E o que eu ganhei? Um diabo dum povo ingrato, que caga para a velha religião, que derrubou seus altares e matou todos os seus profetas. Bom, quase todos. Sobrei eu. EU! SÓ EU! UM ÚNICO PROFETA CONTRA UM PAÍS INTEIRO! O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA?
— Eu quero que você saia daqui e fique diante de mim no alto do monte.
— Estou com sono…
— VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE EU SOU SUAS NEGAS, FELADAPUTA? EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS! SAI DESTA PORRA DE CAVERNA AGORA E CORRE PRO ALTO DA MONTANHA, ANTES QUE EU TE FULMINE, PORRA!
— Ah, já que você pediu jeitinho…
O sarcasmo foi um pouco demais, e a resposta de Javé veio na forma de um vendaval que arrancou as moitas que se prendiam às rochas do monte, assustou as cabras e levantou as vestes do profeta. Quando o vento parou, Elias estava sentado no chão, trêmulo.
— Javé? É você?
Em vez de resposta, veio um terremoto que abriu fendas na face da montanha, fez rolar grandes rochas, que quase fecharam a entrada da caverna, e assustou mais ainda o profeta.
— Peraí, Javé. Vamos conversar…
Depois do terremoto, veio um fogo que queimou as plantas que restavam, chamuscou as pedras e os cabelos de Elias.
— J-Javé?
— Ah, um gaguinho falando docemente comigo no Sinai. Assim que eu gosto! Tudo bem com você, meu querido Elias?
Ao ouvir a voz, Elias saiu da caverna, tomando antes a precaução de cobrir o rosto com a capa. Sabia que olhar para a face de Javé, ainda mais num momento de ira como aquele, não era boa idéia.
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— Er… Eu não agüento mais, Javé. Sou o último de seus profetas. De nada adiantou minha lealdade. Fui derrotado. Como eu disse antes e tal…
— Derrotado? DERROTADO? Eu sou é Deus, porra! DEUS! Quantas vezes vou precisar falar isso?
— Mas o que é que eu posso fazer agora, Javé?
— Volte para o deserto, ande até Damasco e unja Hazael como rei da Síria.
— Como é?
— Vai por mim, é um plano que eu tô bolando aqui. Depois de besuntar o cara, unja Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel. Então procure em Abel-Meloá um tal Eliseu, filho de Safate.
— E esse vai ser rei de onde?
— De lugar nenhum. Eliseu vai ser seu sucessor.
— E aí você vai me matar, certo?
— Cala a boca, Elias. Você não reclamou que era o único profeta? Pois bem, agora vai ter outro, Eliseu.
— E os outros, Hazael e Jeú?
— Esses caras vão curar Israel da doença trazida por Acabe e Jezabel. Quem escapar de Hazael vai ser morto por Jeú, e quem der a sorte de escapar dele perecerá sob Eliseu. Pelas minhas contas, só sete mil pessoas no país inteiro não adotaram a religião de Baal. Só essas serão poupadas.
— Mas, Javé, vai ser uma carnificina!
— Vai, né? Como nos velhos tempos. Rapaz, estou até me sentindo mais jovem!
Hazael e Jeú podiam esperar: Elias queria conhecer logo seu sucessor, então foi a Abel-Meloá. Lá encontrou um rapaz que arava a terra com o último par de bois de um total de doze. Elias passou perto do rapaz e jogou a capa sobre sua cabeça. Eliseu já devia ter sido avisado do que estava para acontecer, porque nem perguntou que porra era aquela. Em vez disso, pediu a Elias que lhe desse licença para voltar a casa e se despedir de seus pais.
— Eu tô te segurando?
— Hã?
— Vai, diabo! Olha o sucessor que Javé me arruma…
Logo em seguida, porém, Eliseu fez algo que impressionou Elias: foi até o lugar onde estavam os dois bois com os quais estivera arando a terra e matou os animais. Pegou a madeira da canga para fazer uma fogueira, e nela preparou a carne. Depois de distribuir a carne entre o povo que estava ali perto, foi se despedir dos pais e voltou para onde Elias estava.
— Pronto. Podemos ir.
— …
— Que foi?
— Nada não.
Esse estranho Eliseu, de gestos inesperados e teatrais, seria um dos maiores, se não o maior profeta da história de Israel. Por enquanto, porém, seria apenas o ajudante de Elias, substituindo aquele que o profeta deixara em Judá, e que deve estar até hoje esperando a volta do patrão. Imaginem o tamanho do processo na justiça do trabalho…

Leitores velhos vão se lembrar de Javé fumando maconha durante o Êxodo. O baseado divino, aliás, foi o grande guia do povo de Israel pelo deserto. Pois muito bem: um dia, vendo que o povo passava fome no meio do nada, Javé resolveu acender um para pensar melhor. Deu uma tragada funda, outra, mais outra. Os anjos que assistiam à cena viram que os olhos vermelhos do Senhor faiscaram repentinamente.
— Já sei, ó. Vou mandar pão pra eles.
— Pão?
— É, pô. Pão. Mas não qualquer pão. Maná.
— O quê?
— Maná, Maná!
E os anjos cantaram:
— Tchutchu-tchururu.

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Post de piada interna especialmente dedicado à Alessandra, que se comove com essas coisas. Feliz aniversário, dona.

(I Reis 18)
Durante os três anos em que a seca perdurou, Elias permaneceu escondido. Enquanto isso, a situação em Israel não podia ser pior. Tomada de fúria diante da desfaçatez de Elias, a rainha Jezabel mandara executar todos os profetas de Javé. Sem saber de nada disso, o profeta sentiu até um certo alívio quando recebeu de Deus a ordem de ir apresentar-se a Acabe anunciando a volta das chuvas.
Em Samaria, a carestia era imensa. Numa tentativa de salvar ao menos alguma coisa, o rei Acabe chamou seu mordomo, Obadias, para sair por todo o reino procurando capim para conservar vivos os cavalos e as mulas. Abrindo um mapa de Israel, o rei demarcou a região que seria inspecionada por cada um deles, e saíram um em cada direção.
Apesar de gozar de plena confiança do rei, Obadias não simpatizava com os novos rumos do reino. Permanecia fiel à velha religião, resistindo à presença cada vez mais forte dos deuses estrangeiros. Mesmo assim, porém, ficou com medo ao reconhecer uma silhueta que vinha em sua direção.
— Elias? É o senhor, Elias?
Quando o profeta se aproximou, Obadias reclinou-se até o chão em demonstração de respeito.
— Sim, Obadias, sou eu mesmo. Agora deixe de veadagem e vá dizer ao seu patrão que eu estou aqui.
— Como? O senhor está falando sério?
— Ai meu saco…
— Mas que diabo eu fiz para o senhor querer me castigar desse jeito? O rei me mata, porra, me mata!
— Mata nada! Por que ele ia te matar, doido?
— Pois o senhor não sabe? O rei me mandou procurá-lo em todos os reinos vizinhos. Sempre que um rei dizia que nunca o tinha visto mais gordo, Acabe o fazia jurar por deus, fosse o deus que fosse. E agora o senhor quer que eu vá até o rei, na maior cara-de-pau, e diga, “Olha, esqueci de olhar embaixo das pedras, Elias está logo ali dobrando a esquina”?
— Hum… É, é mais ou menos isso que eu quero.
— MAS SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? Imagine que eu saia daqui, vá até o rei e dê o recado. Enquanto isso, o Espirito de Deus baixa sobre o senhor e vupt!, o senhor some sabe-se lá pra onde. Sabe como é esse tal Espírito de Deus, obriga nego a fazer muita loucura. Pois então, o senhor some no mundo, o rei vem até aqui, não o encontra, e aí?
— E aí?
— E AÍ QUE EU ME FODO! O REI ME MATA, TÔ DIZENDO!
— Mata nada, rapaz, mata nada! Acabe se enfiou nesse negócio de idolatria, mas não é doido de encostar a mão num homem de Deus!
— Xi…
— Xi o quê?
— Então o senhor não está sabendo?
— Sabendo de quê?
— Xiiiii…
— DESEMBUCHA, PESTE!
— Sabe a rainha Jezabel? Pois então. A mulher endoidou com esse negócio de seca e, como o senhor não aparecia, mandou matar todos os profetas de Javé.
— COMO É QUE É?
— Pois é. Quando eu soube disso, tratei de esconder cem profetas em duas cavernas, e arrumei água e comida para eles.
— Ah, muito bem, Obadias. Então nem tudo está perdido. Pelo menos temos uns cem profetas à disposição.
— Er…
— Que foi?
— Não adiantou muita coisa, sabe? Depois de um tempo os cem foram encontrados e mortos.
— O QUÊ??? E quantos sobraram?
— Bom. Contando todos?
— Claro!
— Todinhos, todinhos?
— FALA!
— Hmmmmmmmmm… Só o senhor, mesmo.
— COMO É?
— Pois é.
— PUTA QUE PARIU! E AGORA?
— Sei não.
— Vaca desgraçada, essa Jezabel. Agora mesmo é que eu quero falar com o corno do marido dela. Pode dizer a ele, Obadias.
— Mas…
— Obadias, eu juro por Israel, por esta luz que me ilumina, pelas tuas bolas, por Javé, pelo diabo, que não vou sumir.
— Tá falando sério?
— CORRE LOGO, FELADAPUTA, E DÁ O RECADO!
Assustado com a cólera profética, Obadias correu para anunciar a notícia ao rei Acabe. O rei não perdeu um só segundo: saiu logo ao encontro do profeta.
— Ah, Elias! Chegou a causa da desgraça do país!
— Desgraça do país são você e seu finado pai, Acabe, que trocaram Javé por Baal e outros deuses.
— Continua insolente, não? Diga logo o que você quer.
— Quero que você ordene a todo o povo de Israel que vá encontrar-se comigo no monte Carmelo. Também quero ver por lá os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas do deus particular de Jezabel.
— O povo todo, todinho?
— Sim.
— E todos os profetas?
— Sim!
— Tá de sacanagem, né?
— Pague para ver, Acabe. Nos encontramos lá.
Atiçado pela curiosidade, o rei mandou mensagens a todo o reino, convocando os israelitas a comparecerem ao monte Carmelo. Fez o mesmo com os profetas de Baal. No dia marcado, é claro que nem todo o povo de Israel compareceu, mas havia ao pé do monte uma multidão considerável. Ao ver o povo de um lado e os profetas de Baal de outro, Elias pigarreou e disse em voz alta:
— E aí, cambada? Vão decidir o que fazer ou não? Quem é o verdadeiro deus, Javé ou Baal?
O povo, que não era besta nem nada, ficou quietinho. Proclamar simpatia à religião tradicional poderia custar a vida. Por outro lado, abandonar Javé era sempre garantia de ira divina.
— Ah, mas são uns frouxos mesmo! Havia mais profetas em Israel do que motoboys em São Paulo. Agora olhem para mim: sou o único sobrevivente. Enquanto isso, Baal tem quatrocentos e cinqüenta negos a seu serviço. É direito isso?
Silêncio.
— Ah, bundões! Tragam-me dois touros!
— Hein?
— Touro, aquele bichão que tem chifres, faz “mu” e não é teu pai. Vai, anda, dois touros.
— Tá falando sério? Pra que cê quer dois touros?
— Claro que estou falando sério, diabo! Vamos fazer dois sacrifícios aqui hoje. Os profetas de Baal matarão um dos touros e o colocarão em cima de uma pilha de lenha, mas sem tocar fogo no bicho. Eu farei o mesmo com o meu.
— E daí?
— Ô, saco… É uma aposta, vocês não estão vendo? O deus que mandar fogo para queimar o sacrifício será o verdadeiro Deus, o outro será apenas imaginação dos ignorantes.
— Ah, uma aposta, legal! E se nenhum dos dois mandar fogo nenhum?
— Aí nós vamos buscar o fogo no rabo da tua mãe. OS TOUROS, PORRA!
Os dois touros foram trazidos. Elias olhou os bichos, pareceu aprovar sua condição geral, e dirigiu-se aos profetas de Baal:
— Já que os senhores são tantos, podem fazer o sacrifício primeiro. Com tanta gente falando, o deus de vocês vai responder rapidinho.
Os profetas avançaram contra o touro, que nem teve tempo de reagir: em cinco minutos estava morto, fatiado e empilhado sobre o monte de lenha. Feito o trabalho, os profetas de Baal ficaram um minuto em silêncio, e depois começaram o clamor por seu deus:

BAAL! BAAL!
Só você é deus,
E é bom a dar com o pau,
Baal é nosso amigo,
Um deus que é muito legal,
O tempo de Javé já era,
Já foi tarde, se deu mal.
Vamos cantar bem alto,
Ouve nossa voz, Baal
Manda fogo aí do céu
Pra queimar este animal.

Isso foi pela manhã. Depois de horas cantando, porém, a carne continuava intacta. Ao meio-dia, os profetas já cantavam com voz rouca, os olhos vidrados, dançando como dervixes ao redor do altar improvisado. Enquanto isso, Elias os incentivava:
— Isso, cantem mais alto!
BAAL! BAAL!
— Mais alto!
Só você é deus, e é bom a dar com o pau…
— Mais alto, cacete! Esse Baal é deus ou não é?
O tempo de Javé já era, já foi tarde, se deu mal…
— Talvez ele esteja meditando, por isso não ouve.
Vamos cantar bem alto…
— Ou talvez esteja no banheiro, sabem como é.
Ouve nossa voz, Baal…
— Deus ou não, ele há de precisar se aliviar de vez em quando…
Manda fogo aí do céu…
— Ou ele pode ter viajado, pode estar dormindo, ou…
PRA QUEIMAR ESSE ANIMAL!
— Epa, não apontem pra mim!
Os profetas continuavam sua dança ao redor da carne do touro. Depois do meio-dia, eles já se cortavam com facas e espumavam pelo canto da boca. Às três da tarde, pararam, exauridos.
— Desistem?
— …
— Povo de Israel! Cheguem todos mais perto!
O povo se aproximou, ressabiado, e Elias começou a construir seu próprio altar. Apanhou doze pedras, cada uma representando uma tribo de Israel, e as empilhou. Depois, cavou em volta uma vala com capacidade para uns doze litros de água, colocou lenha sobre o altar, despedaçou o touro e botou a carne sobre a madeira. Então voltou a dirigir-se ao povo:
— Tragam quatro jarras cheias de água, e derramem sobre a carne e a lenha.
— …
— Sim, porra, eu estou falando sério!
Depois que as quatro jarras d’água foram derramadas sobre o altar, Elias ordenou que a operação fosse repetida mais duas vezes. A água encharcou completamente a carne, a lenha, e encheu toda a valeta em volta do altar. Satisfeito com o resultado, Elias olhou para o céu e disse:
— Javé…
Foi o que bastou: VUUUUUUUUUUUUUSH!, uma labareda desceu do céu. Queimou a carne, a madeira, chamuscou as pedras e a terra, e ainda evaporou parte da água da valeta. Nem mesmo Elias esperava por uma resposta tão rápida; que dizer, então, do povo. Ao verem touro e lenha reduzidos a cinzas, os israelitas se curvaram até o chão, encostando o rosto na terra e exclamando:
— Puta que pariu!
E num segundo momento:
— Javé é deus! Só Javé é deus!
Elias estava triunfante:
— Ah, agora vocês decidiram, né? Pois então peguem esses putos dos profetas de Baal, não deixem escapar nenhum!
O povo, que não queria confusão com Javé depois de tamanha exibição, tratou logo de obedecer a Elias. Todos os profetas de Baal foram presos, e Elias os matou à beira do riacho de Quisom.
Um a zero pra Javé.
Diante de tudo o que acontecera, só o rei Acabe permanecia mudo, como que paralisado pela reviravolta na história. Foi Elias quem o tirou de seu torpor:
— Agora corre, Acabe, que já estou ouvindo o barulho da chuva.
A menção à chuva fez o rei despertar. Olhou para o céu, não viu nuvem alguma, fez um muxoxo e foi almoçar. Enquanto o rei comia, Elias subiu ao alto do Carmelo. Eram tempos difíceis, uma seca desgraçada. Quando chegou ao cume, o profeta estava quase morto de cansaço. Sentindo-se enjoado, sentou-se e colocou a cabeça entre os joelhos. Então disse ao rapaz que o ajudava:
— Olhe lá para o lado do mar.
— Estou olhando.
— O que você vê?
— Areia, pedras, o mar bem lá longe…
— No céu, idiota.
— Ah, no céu… Nada.
— Nada?
— Nada.
— Olhe de novo.
— Olhei.
— E…?
— Nada.
— Merda. Olhe outra vez.
Resumindo: seis vezes Elias ordenou que seu ajudante olhasse para o horizonte, e seis vezes a resposta foi a mesma. Na sétima, porém, as coisas mudaram:
— Estou vendo uma nuvenzinha ridícula subindo do mar. É menor do que uma mão?
— Um mamão?
— Uma mão.
— Bom, já é alguma coisa. Vá dizer ao rei que apronte seu carro e volte para casa, caso contrário a chuva vai apanhá-lo no meio do caminho, impedindo o filho da puta de seguir viagem.
— Mas é só uma nuvenzinha, do tamanho de um melão… um mamão… Digo, uma mão.
— Eu sei. Dê logo o recado ao rei.
— Seu Elias, isso é um trote?
— Trote é o esporte praticado por sua mãe no haras. VAI LOGO!
Ainda em dúvida, o moleque começou a descer a encosta do monte para entregar a mensagem ao rei. Ainda no meio do caminho, porém, percebeu que seu patrão estava certo: o tempo começava a virar, com nuvens escuras e pesadas cobrindo o céu. Quando o rei viu as nuvens e sentiu o vento forte que vinha do mar, nem esperou o garoto terminar de dar o recado: preparou seu carro e partiu célere na direção de Jezreel.
Lá de cima, vendo a exaustão de Elias, Javé resolveu divertir-se com ele: enviou seu Espírito ao profeta que, enlouquecido, apertou o cinto e saiu correndo. Quando Acabe chegou a Jezreel, Elias já estava lá havia horas.

A aposta entre Elias e os profetas de Baal fez com que o monte Carmelo ganhasse grande importância como símbolo da fé judaica e, mais tarde, da fé cristã. No final do século XII, São Bertoldo, que viera da Calábria para a Palestina como cruzado (ou peregrino, não se sabe bem), escolheu o monte como sede de sua comunidade, inspirado justamente pela história que vocês acabam de ler. A comunidade fundada por ele viria a ser a Ordem dos Carmelitas.
(Fonte: Wikipedia)

(I Reis 17)
No último capítulo (lá se vão três meses), vimos que a situação no Reino do Norte ia de mal a pior. Enquanto Judá vivia tempos de calmaria, com o piedoso Asa no trono, em Israel cada rei coroado era pior que seu antecessor. Essa série culminou com Acabe que, não contente em permitir que o povo adorasse outros deuses, empenhou-se ele mesmo em irritar a Javé. Para começar, casou-se com Jezabel, e passou a adorar o deus Baal. Não só isso: o rei mandou erguer um templo em Samaria em honra a Baal, para concorrer com o templo de Jerusalém, dedicado a Javé.
Lá de cima, Javé assistia a tudo isso e tentava manter-se calmo. Sentia um tremor no canto do olho direito e no lábio superior, e procurava conter-se. Sabia que, se deixasse sua ira manifestar-se de forma plena, destuiria não só Israel, mas, no mínimo, metade do Sistema Solar. Então respirava fundo, contava até 10 trilhões, e tentava escolher um profeta que pudesse enfrentar a audácia de Acabe. Pensou, pensou, e acabou escolhendo Elias.
Elias era um profeta da pequena cidade de Tisbé, em Gileade. Era um bom rapaz, trabalhador, disciplinado. Pouco conhecido fora de sua cidade, surpreenderia a todos quando começasse a falar em nome de Javé. Perfeito. Feita a escolha, Javé foi ter com o profeta.
— ELIAS!
— Quê?
— MANÉ “QUÊ”! SABE QUEM ESTÁ FALANDO?
— Assim, pela voz, não. Se você aparecesse ia facilitar um bocado.
— EU SOU O QUE SOU!
— Eu também, ué. Aquela pedra ali também. Que coisa… Olha, eu tenho mais o que fazer e…
— CALABOCA! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Deus, é? Qual deles? Tem um monte por aí, sabe como é.
— SOU O ÚNICO DEUS, PORRA! JAVÉ!
— Ah, esse. O que manda, Javé?
— Você não vai ficar nem um pouco impressionado, caralho?
— Deveria?
— …
— …
— Cê tá falando sério?
— Ah, puta que pariu, até o Senhor? Por que é que todo mundo me pergunta isso?
— É essa sua postura, Elias.
— Que que tem minha postura?
— Esse seu jeitão aí, sei lá. Meio… cínico.
— Você acha?
— Cê tá falando sério?
— ARGH!
— Bom, vamos parar de papo furado. Você sabe que Acabe está fazendo de tudo para me irritar. Casou-se com aquela vadia, construiu um templo para Baal, vive naquelas surubas sagradas e não sei que mais. Eu quero que você vá lá e acabe com isso.
— Ah, é só isso? Que bobagem!
— …
— Ok, ok. Continue.
— Quero que você vá ao palácio e dê um recado a ele. O resto a gente vê depois.
Foi assim que, no dia seguinte, Elias foi ao palácio falar com o rei.
— Acabe! Trago um recado de Javé para você!
— Peraí, peraí, peraí… Quem você pensa que é para vir aqui falar comigo nesse tom?
— Sou Elias, e trago a seguinte mensagem: não vai cair chuva, nem mesmo sereno, até que eu ordene que a chuva volte.
— Hein?
— É isso. Vem uma grande seca por aí. Só vai voltar a chover quando eu mandar.
— Porra, tu é manda-chuva, é?
— …
— Rapaz, cê tá falando sério?
— TÔ, PORRA!
— COMO É QUE É? GUARDAS! Capem esse feladaputa!
Elias ia perguntar se o rei estava falando sério, mas achou melhor sair correndo. Correu até encontrar um lugar para se esconder, e estava encolhido, recuperando o fôlego, quando ouviu a voz de Javé:
— ELIAS!
— PORRA! Quer me matar de susto?
— Epa, foi mal. E aí, como foi lá com o Acabe.
— Falei o que você me mandou falar.
— O lance da seca? Eita! E ele?
— Adorou, disse que é mesmo um cara muito mau, e que merecia isso.
— Sério?
— CLARO QUE NÃO! O FELADAPUTA MANDOU ME CAPAR!
— Ah… Calma, Elias. Faz o seguinte: conhece o riacho de Querite, pra lá do Jordão?
— Conheço.
— Então. Vá praqueles lados, e se esconda por lá. Mesmo com a seca, você vai ter o que comer e o que beber, não se preocupe.
Elias ficou em seu esconderijo até anoitecer, e então partiu para a região do riacho de Querite. Javé não mentira ao dizer que ele teria o que beber e o que comer, mas também não dera a informação completa. Para beber, o profeta só tinha mesmo a água do rio. Até aí, nada mau. O pior era a comida: todas as tardes um bando de corvos vinha trazar pão e carne para ele. Desesperado, o profeta se perguntava:
— Quando é que eu vou voltar a ter uma vida normal?
E os corvos respondiam:
— Never more!
Água do rio e comida trazida pelos corvos. O que parecia ser o pior possível piorou ainda mais quando, devido à seca, o riacho secou. Elias foi queixar-se com Deus, que não se deu por achado: disse que tudo estava sob controle, e que ele fosse à cidade de Sarepta, perto de Sidom, que uma viúva lhe daria de comer. Elias foi, e já às portas da cidade encontrou a viúva catando lenha.
— Com licença, senhora. Poderia me dar um pouco d’água para beber? Estou morrendo de sede.
— Pois não, meu filho. Vou ali buscar a água.
— Ah, muito obrigado. Um pãozinho ia bem também.
— Meu filho, eu não tenho mais pão. Tenho um punhadinho de farinha de trigo e um quase nada de azeite. Vim aqui pegar uns pedaços de pau para fazer fogo para cozinhar qualquer coisa para mim e para o meu filho. Depois disso, vamos morrer de fome.
— O que é isso, minha senhora? Seja mais positiva! Pode ir preparar sua comida. Mas antes pegue a farinha e o azeite que ainda lhe sobram e faça um pãozinho para mim.
— Meu filho, não me leve a mal, mas… CÊ TÁ DE SACANAGEM, NÉ?
— Ai, meu saco… Dona, faça o que eu disse. Sou um profeta, e Javé manda dizer que não acabará a farinha da sua tigela nem o azeite do seu jarro até que volte a chover.
— Hum. Sei não…
— Pode acreditar, minha senhora. Pelamordedeus, tô seco de fome e sede!
— Tá bom, vai.
A viúva fez o que Elias tinha dito e, milagrosamente, a farinha e o azeite multiplicaram-se. Por muitos dias, os três tiveram o que comer. Infelizmente, uma dieta de farinha e azeite não é a mais indicada para uma criança, e o filho da viúva morreu. “Efeito colateral”, disse Javé. “Efeito colateral meu ovo, que agora essa velha me mata”, disse Elias. Confabularam por um tempo, e lá foi ele falar com a viúva.
— Me dá aqui esse defuntinho.
— HEIN?
— Me dá o moleque, rápido!
— Você está falando sério?
— PUTA QUE PARIU, E EU IA BRINCAR COM UM NEGÓCIO DESSES?
Sem esperar resposta, o profeta pegou o pequeno cadáver, levou-o para o andar de cima e o deitou na sua cama. Feito isso, clamou aos céus:
— JAVÉ, CARALHO, POR QUE ME FODESTE DESSA FORMA? AGORA A DESGRAÇADA DA VELHA VAI ACABAR COM A MINHA RAÇA! ELA ME HOSPEDOU, ME DEU COMIDA, E TU MATASTE O MOLEQUE DELA. NÃO FODE, JAVÉ!
Enquanto orava, Elias debruçou-se três vezes sobre o menino. Na terceira vez, o menino voltou a respirar e abriu os olhos. Ao ver o profeta sobre ele, gritou:
— PEDÓFILO!
— Pedófilo é uma porra, seu moleque dos infernos. Volta correndo lá pra baixo, e calado, senão eu te mato de novo.
Ao ver o filho vivo novamente, a viúva finalmente reconheceu que Elias era um enviado de Javé. Queria sair pela vizinhança contando o ocorrido, mas o profeta lhe proibiu. Ainda era um fugitivo, afinal, e Javé não dera ordens para os próximos passos. Elias precisaria ser paciente: a seca ainda duraria três anos.

Desculpem o sumiço, meu povo. Estou sob uma pressão desgraçada. Neste exato momento há três empresas brigando pelo meu passe. O bicho tá pegando, e não sei como diabos tomar uma decisão. O próximo personagem da história da Bíblia é o Elias, que não pode ser feito de qualquer jeito. O cara é pau-a-pau com Moisés, imaginem. Portanto, para não fazer um negócio meia-boca com um personagem tão legal, estou segurando as pontas enquanto não dou um rumo à minha vida.
Eu volto. Não sei quando.

(I Reis 15 e 16)
Não estranhem o tamanho do título, nem a quantidade de nomes estranhos. Com as mortes de Roboão e Jeroboão, os reis se sucederam nos dois tronos, sem que nenhum deles fosse propriamente digno de nota.
Abias, por exemplo, que sucedeu Roboão no trono de Judá, não fez nada além do que seu antecessor fizera. Neto de Absalão, o filho encrenqueiro de Davi, Abias subiu ao trono quando Jeroboão estava em seu décimo-oitavo ano de governo, e continuou a encrenca com o vizinho do norte. A idolatria permaneceu forte em Judá durante seu curto reinado de três anos. Um reizinho bem apagado, mas que mereceu o prêmio de ter um filho seu na linha de sucessão, graças à simpatia de Javé por seu bisavô, Davi.
Asa, filho de Abias, foi coroado quando Jeroboão ainda vivia. Foi um rei zeloso, que expulsou do país todos aqueles que não seguiam a religião oficial, e destituiu sua avó, Maacá, filha de Absalão, do posto de rainha-mãe. A velha adorava imagens, e isso não condizia com a alta santidade do neto. Asa reinou por quarenta e um anos, e viu os reis do norte sucederem-se uns aos outros enquanto ele permanecia firme no trono. No segundo ano de seu reinado, Jeroboão morreu e foi sucedido por seu filho Nadabe, que reinou por apenas dois anos. Quando Nadabe estava cercando Gibetom, uma cidade da Filistia, um tal Baasa, filho de Aías, da tribo de Issacar, armou uma conspiração contra o rei e o matou. Baasa foi então coroado rei, e sua primeira providência foi matar todos os descendentes de Jeroboão, conforme dissera Javé por meio do profeta Aías.
Depois de se garantir no poder eliminando a concorrência, Baasa resolveu invadir Judá e construir muralhas ao redor da cidade de Ramá, para assim controlar o caminho que levava a Jerusalém. O plano visava enfraquecer o Reino do Sul, e unir todo o Israel sob seu cetro. Aconteceu, porém, que Asa, o zeloso rei de Judá, enviou mensageiros a Ben-Hadade, rei da Síria, e junto com eles todo o ouro e prata que haviam sobrado no Templo e no palácio de Jerusalém. Asa pedia a Ben-Hadade que retirasse o apoio dado a Baasa, e que se unisse a ele contra o Reino do Norte. Com tantos presentes vistosos, o rei da Síria nem titubeou: enviou seu poderoso exército a Israel, e os soldados sírios conquistaram as cidades de Ijom, Dã e Abel-Bete-Maacá (pense…), a região do lago da Galiléia e toda a tribo de Naftali.
Baasa não tinha bala na agulha para responder a tamanha retaliação, então achou mais prudente interromper a construção das muralhas em Ramá e retornar a Tirza. Com Ramá livre dos israelitas, o rei Asa mandou reunir o povo para retirar todo o material trazido do norte para a construção das muralhas, e usá-lo para erguer muros em torno das cidades de Mispa e Geba, na tribo de Benjamim.
Já bem velho, Asa foi acometido por uma doença nos pés e morreu. Foi o primeiro caso registrado na História de morte por frieira.
Lá no norte, Baasa fazia tudo o que mais irritava Javé: promovia a adoração de outros deuses, espezinhava os irmãos do Sul e cagava e andava para os profetas. Javé enviou, então, o profeta Jeú, filho de Hanani, para dar ao rei de Israel o mesmo recado que Jeroboão recebera tantos anos antes: que seus descendentes seriam mortos e devorados pelos animais. O profeta levou a mensagem ao rei, que morreu pouco tempo depois. A Bíblia diz que o rei foi castigado por sua idolatria, mas principalmente por ter massacrado a família de Jeroboão. O massacre, caso vocês não se lembrem, foi uma idéia do próprio Javé. Com a morte de Bassa no vigésimo-quarto ano de reinado, o Deus de Israel celebrava a prática hoje conhecida como “tirar o cu da reta”.
Baasa foi sucedido no poder por seu filho Elá. Um dia, dois anos depois de ser coroado, Elá estava enchendo a cara na casa de Arsa, encarregado do palácio. Zinri, um dos oficiais do exército, entrou na casa e atacou o rei que, bêbado, não teve como reagir. Morto Elá, Zinri foi coroado rei no Norte, no vigésimo-sétimo ano do reinado de Asa em Judá. No primeiro dia de seu governo, a ordem corriqueira: matar todos os descendentes de Baasa.
Zinri bateu todos os recordes de brevidade em Israel. Sua conspiração só deu certo porque a maior parte do exército israelita estava novamente (ou ainda) sitiando Gibetom. Quando a notícia da conspiração chegou ao acampamento, os soldados se revoltaram e ali mesmo coroaram seu comandante, Onri. O oficial reuniu a tropa, e seguiram todos para Tirza. Quando Zinri viu que a cidade estava cercada, e por seu próprio exército, desesperou-se e tocou fogo no palácio. Zinri morreu queimado, tendo reinado em Israel por apenas sete dias.
Com a morte de Zinri, o reino dividiu-se. Parte do povo apoiava a subida de Onri ao trono, outra parte queria coroar um tal Tibni, filho de Ginate. No fim das contas, o partido de Onri prevaleceu e Tibni foi morto.
Onri ainda tentou governar a partir de Tirza, mas a cidade já não era a mesma. Com o palácio incendiado e parte da cidade destruída pelo cerco, saía mais barato mudar a capital. O rei, então, comprou umas terras de um tal Semer, pagando por elas setenta quilos de prata. As terras incluíam uma montanha, na qual Onri construiu uma cidade e defesas militares. Em homenagem ao seu primeiro proprietário, o rei chamou a cidade de Samaria. Após doze anos de reinado, durante os quais deu continuidade à idolatria dos reis anteriores, Onri morreu e foi sucedido por seu filho, Acabe.
Os reis iam e viam em Israel, e Asa continuava firme no trono de Judá. Em seu trigésimo-oitavo ano de governo, o filho de Onri foi coroado no Norte. Acabe foi, provavelmente, o rei que mais trabalho deu a Javé. Não contente em deixar que o povo continuasse a adorar os deuses que quisesse, o rei tomou alegremente parte ativa na idolatria. Casou-se com Jezabel, filha do rei de Sidom, Etbaal, e adotou o deus da família da esposa, Baal. Os altares e ídolos construídos por outros reis antes dele eram nada diante do templo erguido por Acabe em honra a Baal, em Samaria. Para piorar, permitiu que um tal Hiel de Betel reconstruísse a cidade de Jericó. Pode parecer pouco, mas após a destruição de Jericó Josué havia amaldiçoado a cidade, dizendo que quem colocasse os alicerces perderia o filho mais velho, e quem erguesse os portões perderia o caçula. Como Hiel fez as duas coisas, Hiel perdeu seu primogênito, Abirão, quando botou os alicerces, e Segube, o mais novo, quando colocou os portões na cidade pronta.
Enquanto seus antecessores pecavam apenas por omissão, Acabe deleitava-se em desafiar Javé de todas as maneiras. Para um cabra ruim assim, o Senhor dos Exércitos ia precisar arrumar um oponente daqueles. Os velhos profetas, pouco mais do que garotos de recado, não dariam conta de tamanha tarefa. Era preciso um paladino, quase um Moisés. Conseguiria Javé arrumar um sujeito assim para enfrentar Acabe? É o que veremos.