(Êxodo 29)
— Podemos continuar, Moisés?
— C-claro, J-Jajá…
— Jajá é o caralho, porra! Não abusa, que se não eu acabo com a tua raça. Humpf. Presta atenção aí que essa parte da consagração dos sacerdotes é importante. Olha o que cê vai fazer: Cê vai pegar um novilho e dois carneiros sem defeito, mais um monte de pães, bolos e broas, tudo sem fermento. Aí cê vai botar todos esses pães num cesto e levar até o Tabernáculo junto com o novilho e os carneiros. Cê tá prestando atenção, Moisés? Tá anotando?
— T-tô, po-porra!
— Vê lá, hein? Não vá me fazer merda na hora. Onde é que eu estava? Ah! Cê vai levar essa bagulhada toda pra porta do Tabernáculo. Aí você vai falar pra Arão e os filhos dele se aproximarem, e vai dar banho neles.
— Ah, Ja-Javé! N-não fo-fode!
— Achou engraçado me chamar de Jajá, né? Pois agora vai dar banho em marmanjo, quero nem saber. Depois que eles estiverem limpinhos, cê vai passar talquinho nas dobrinhas do Arão.
— PO-PORRA!
— Hehehe, essa parte aí é sacanagem. Cê vai vestir Arão e os filhos dele com as roupas que vocês vão fazer conforme os desenhos do Clodovil. E não vá se esquecer das cuecas, hein? Se eu vir um bago que seja dentro daquela porra daquele Tabernáculo, eu mato todo mundo, tá entendendo?
— Po-pode d-deixar, não v-vou e-esquecer as cu-cuecas.
— E faz muito bem. Bom. Todo mundo limpinho, de roupinha nova. Aí cê vai pegar azeite e derramar na cabeça do Arão.
— A-azeite? E de-depois? Vi-vinagre? S-sal? Mo-molho Rosé? Um li-limãozinho?
— Porra, Moisés, quantas vezes eu vou ter que te explicar que estou tentando criar uma religião aqui? Uma religião não se faz sem rituais! Precisa de coisas desse tipo aí, ou não vai pra frente. Esse azeite aí é uma demonstração de que o cara foi consagrado para o meu serviço, entendeu?
— N-não.
— Bah, foda-se. Cê vai fazer assim como eu tô mandando e pronto. Não tô bom hoje. Pois bem, onde eu estava? Ah, agora que vem a parte legal! Sabe o que teremos agora, Moisés?
— S-sei. SA-SANGUEEEEEEEEEEE!
— Isso aê! Muito bem, tá aprendendo. Cês vão trazer o novilho pra perto do Tabernáculo e Arão e os filhos dele colocarão as mãos sobre a cabeça do bicho. Aí cê vai degolar o novilho, molhar o dedo no sangue dele, passar o dedo nos quatro cantos do altar e derramar todo o resto do sangue na base do altar. Ai ai, esse papo tá me dando água na boca… Hmmmmm… Aí cê vai pegar toda a gordura que cobre as entranhas do novilho, mais a melhor parte do fígado e os dois rins, e queimar tudo isso sobre o altar, que eu também gosto de comer miúdos.
— Q-que n-nem os pa-padres?
— Não esses miúdos, Moisés. Porra, não me compromete! Tô falando dos miúdos dos animais, o fígado, os rins, essas coisas.
— Ah…
— Prestenção, Moisés, prestenção… Bom, feito isso cê vai queimar a carne, o couro e a merda do novilho fora do acampamento, que isso será o sacrifício pelo pecado de vocês. Depois disso, cê vai pegar um carneiro, os caras vão botar a mão na cabeça dele e cê vai degolar o bicho. Aí cê vai espargir o sangue do carneiro no altar e depois queimar o carneiro inteiro sobre ele. Gosto do cheirinho de carneiro assado, sabe? Então esse aí vai ser meu prato principal. Depois cê vai pegar o outro carneiro e fazer toda presepada de novo, mão na cabeça e degola. Com esse vai ser diferente, pra inventar outro ritual: Cê vai pegar o sangue do carneiro e manchar com ele a ponta da orelha direita de Arão e de seus filhos. E vai fazer a mesma coisa com o polegar direito e o dedão do pé direito de cada um deles: Manchar com sangue desse segundo carneiro. O resto do sangue, cê vai aspergir sobre o altar. Aí cê vai fazer uma mistureba do azeite da unção com o sangue do altar e borrifar essa meleca nojenta sobre Arão e seus filhos.
— P-pra que i-i-isso, Ja-Javé?
— Ai ai ai… Fora o negócio todo do ritual, que parece que cê não vai entender nunca mesmo, serve como diversão pra mim. Imagina só, eu já vou estar de bucho cheio, nada como dar umas risadas pra fazer a digestão.
— T-tá. E o q-que eu fa-faço c-com e-esse se-segundo ca-carneiro?
— Ah, é. Cê vai separar a gordura dele, o fígado, os rins e a coxa direita. Esse aí é o carneiro da consagração, olha que nome bonito. Aí cê vai tirar do cesto um pão, um bolo e uma broa, e entregar para Arão. O mesmo para os filhos dele. Aí eles vão ficar balançando os pães feito retardados, pra eu rir bastante, e depois você vai queimar tudo no altar. Aí cê vai pegar o peito do carneiro pra você.
— P-pra m-mim?
— É, porra. Cê achou que eu ia deixar você fazer tudo isso sem comer nada? Não sou tão ruim assim, pombas.O peito do carneiro é seu, o resto é para Arão e os filhos dele. Cê vai cozinhar esse carneiro e Arão e os filhos vão comer a carne, junto com os pães, na porta do Tabernáculo, que é pra todo esse povo bunda ver e ficar lambendo os beiços. E o que sobrar dessa comilança será queimado, porque é santo e coisa e tal.
— Q-que de-desperdício… B-bom, é s-só i-isso?
— Tá quase no fim, güentaí. Me empolguei com essa parte da comida aí. Todo dia eu vou querer um novilho, que cês vão oferecer como oferta pra eu perdoar os pecados de vocês. Isso por sete dias, que é pra purificar o altar. Feito isso, o altar será considerado santo, por eu já ter comido tanto nele. Depois disso, todo dia cês vão me oferecer dois cordeiros de um ano de idade, um de manhã e outro à tardinha. O da manhã será oferecido com farinha de trigo, azeite e vinho. O da tarde, com cereais. Vê lá, hein? Todo dia, que é pra eu não ficar puto e sair matando todo mundo.
— Cê p-precisa co-comer me-menos, Ja-Javé. Cê tá g-gordo p-pra ca-caralho…
— Bah, e daí? Morrer é que eu não vou, então quero mais é me esbaldar. Agora cê me dá licença que eu vou ali fazer um lanchinho, essa conversa toda sobre comida abriu meu apetite. Quando eu voltar, falaremos do altar do incenso.
— Po-porra, a-ainda t-tem m-mais???
— Relaxa, Moisés. Se sobrar alguma coisa do meu lanchinho, eu trago aqui pra você. Volto já.
Categoria: Bíblia
As outras roupas dos sacerdotes
(Êxodo 28:31-43)
— Vamos lá, Momô. Olha que linda a sobrepeliz que vocês vão fazer, todinha tecida com lã azul. A abertura para a cabeça será reforçada com uma tira de malha para não rasgar, estilo gola canoa, sabe? Então. Aí aqui em volta de toooooooooooda a barra vai ter umas aplicações assim em forma de romã. Entre uma romã e outra, vão ficar sininhos de ouro.
— Si-sininhos? Po-porra, n-não é vi-viadagem de-demais n-não???
— Momô, o Jajá que quis assim! Fala pra ele, Jajá!
— É isso mesmo, Moisés. Sabe como é, preciso de privacidade. Vai que o Arão chega quando eu estiver, sei lá, vendo uns filminhos pornô? Não pode chegar de surpresa, tem que avisar antes, pra eu poder botar no Discovery Channel e fingir que estou admirando minha criação e essa bobageira toda. Então vai ter esses sininhos na roupa, assim eu saberei pelo barulho quando ele estiver chegando.
— Cê é ch-cheio de mu-mumunhas, Ja-Javé.
— Faço o que posso. Continua, Clô.
— Vamos lá. Vocês vão fazer uma placa beeeeeeeeeem fininha de ouro puro, com a frase “Reservado para Javé” gravada. Essa placa será amarrada na frente da mitra com um cordão de lã azul, como se fosse assim um diadema, sabe?
— P-pra que i-i-isso?
— Ai meu saco. Deixa que eu explico, Clô. Moisés, o Arão vai usar essa placa na testa para eu aceitar as ofertas que ele me trouxer.
— M-mas n-não ba-basta a-aceitar as o-o-ofertas e p-pronto?
— Hum. Tá bom, eu confesso: É que eu achei engraçado isso, o velho Arão com uma placa de ouro na testa, escrito “Reservado para Javé”. Aí quando ele entrar no Tabernáculo eu vou poder sacanear ele, “E aí, minha puta?”, essas coisas. Legal, né?
— Hu-humpf!
— Véio chato da porra… Fala aí com ele, Clô, que eu tô sem paciência com gente mal humorada.
— Sim senhor, Jajá. Bom, para o sacerdote vocês vão tecer uma túnica e uma mitra de linho fino e um cinto bordado, bem bonitinho, assim, ó. E essas aqui são as roupinhas para os filhos do Arão, chiquéeeeeeeeeerrimas. Olha essa túnica! E esse cinto! E essa tiara, não é TUDO?
— Ti-tiara? N-não fo-fode…
— Tiara sim, que Jajá mandou. Vão usar tiara. E vão ficar lindinhos. Depois de vestidos assim, você vai consagrar Arão e os meninos derramando azeite na cabeça deles e… Nossa, estava esquecendo um detalhe im-por-tan-tís-si-mo!!! As cuequinhas! Precisa fazer cuecas pra eles também, tudo samba-canção de linho. Se não é capaz do Jajá ficar puto.
— Fi-ficar pu-puto s-só p-porque o ca-cara t-tá sem cu-cueca???
— Ô, Moisés, cacete! Segue as instruções do Clodovil, é a melhor coisa que cê faz. É claro que eu vou ficar puto se nego entrar no Tabernáculo sem cueca, oras! Imagina o cara lá, de túnica, andando de um lado pro outro com o pinto balançando dentro da roupa? Eu mato o feladaputa! MATO!
— T-tá b-bom, po-porra.
— Humpf! É foda lidar com você, Moisés. Acho que vou te mandar lá pra Ubatuba e contratar o Clô pra ficar no seu lugar.
— Jajá, eu queria MUITO. Mas preciso voltar pra casa, se não o Jorge me mata! E você sabe como é, se ele me mata, o processo cármico fica interrompido, então eu vou ter que voltar mais vezes para cumprir esse ciclo que é a verdadeira engrenagem da vida cósmica, unindo todos os seres num só espírito que é o próprio Deus, não é mesmo?
— Não é porra nenhuma! Deus sou eu! Volta lá pra tua terra, fico com o Moisés mesmo. BAH!
— Eu, hein, Creuza! Quanto recalque! Pode deixar, vou embora MESMO. Tchau, monas!
— A-audácia da bi-bicha, hein, Ja-Javé.
— Não torra, Moisés.
O éfode e o peitoral
(Êxodo 28:6-30)
— E aí, Momô, vamos continuar?
— Mo-Momô é o ca-caralho, m-m-meu no-nome é M-Moisés, po-porra!
— Nooooooossa, que estressadinho! Momô, relaxa e presta atenção aqui. Vou te mostrar como é que vocês vão fazer o éfode.
— É f-foda?
— ÉFODE, Momô.
— Q-que po-porra é e-essa?
— O manto sacerdotal, tolinho.
— E p-por q-que vo-você n-não fa-fala m-manto sa-sacerdotal lo-logo?
— Porque éfode é mais bonito, Moisés. Éfode. Olha que palavra linda, explosiva, sibilante, proparoxítona, um primor!
— T-tá, ch-chega de vi-viadagem, to-toca o b-barco.
— Vamos lá. O éfode será feito de fios de lã azul, púrpura e vermelha, de linho fino e fios de ouro, e enfeitado com bordados beeeeeeem bonitos. Olha o desenho, que lindo. Olha aqui, nas duas pontas do manto vai ter essas alças assim, presas dos lados. E vai ter um cinto também, do mesmo material do éfode. Aí vem o toque mais bonito: Em duas pedras de ágata serão gravados os nomes dos doze filhos de Jacó, seis em cada uma. As pedras serão montadas em engastes de ouro e colocadas assim, ó, nas alças do éfode, representando as doze tribos de Israel.
— Pa-para q-que t-tanta f-frescura?
— Ah, Momô, o Jajá falou que vai ser assim para…
— Deixa que eu explico pra essa besta, Clô.
— C-Clô? HUMMMMMMMMMMMMMM!
— Se fecha, Moisés. Deixa eu explicar esse lance aí das pedras com as doze tribos. Isso aí o Arão vai usar nos ombros para eu sempre me lembrar do meu povo. É foda lembrar de cor, ainda mais com os nomes que Jacó deu aos filhos: Tem um tal de Zebulom, um Naftali, Dã, Issacar, porra, parece a prole da Baby Consuelo. Entendeu?
— E-entendi.
— Pode continuar, Clô.
— Obrigadinho, Jajá. Onde é que eu estava? Ah, do manto é só isso. Esses engastes de ouro serão presos com correntinhas de ouro, desse jeitinho assim. Viu tudinho, Momô? Então pega o desenho, guarda com cuidado. Agora, o peitoral. Ai, ai… O peitoral cês vão fazer com o mesmo material do éfode. Vai ser assim, ó, quadrado com um palmo de lado. E olha que lindo, vocês vão colocar quatro carreiras de pedras preciosas montadas em engastes de ouro no peitoral, três pedras em cada carreira: Um rubi, um topázio e uma granada, uma esmeralda, uma safira e um diamante, uma turquesa, uma ágata e uma ametista, um berilo, um ônix e um jaspe. Olha que lindo que vai ficar, tudo coloridinho e brilhante! Aí em cada pedra será escrito o nome de um dos filhos de Jacó.
— Po-porra, d-de no-novo?
— Não chia, Momô. Nem é você que vai fazer isso, nem tem capacidade. Humpf. Deixa eu continuar, porque o tempo não espera, e todo esse processo cármico que carregamos na nossa jornada por esse planeta maravilhoso para onde Deus nos enviou para cumprir cada um a sua missão de forma que…
— CH-CHEGA! E-essa vi-viadagem i-i-i-irrita!
— Ai, credo! Tá bom, tá bom… Continuando: O peitoral vai ser preso ao manto com correntinhas de ouro. Arão vai usar esse peitoral quando entrar no lugar Santo. Ah, e você vai botar o Urim e o Tumim no peitoral, bem em cima do coração do Arão.
— U-urina c-com o q-quê???
— Xacomigo, Clô. URIM E TUMIM, Moisés. Seguinte: Do jeito que vocês são chatos, vão querer me consultar direto. Já prevendo isso, bolei esse sistema, que na verdade é um jogo de dados simplificado: Duas pedrinhas, cada uma com um lado escuro e um lado claro. Sempre que Arão entrar no Tabernáculo para me consultar, vai fazer a pergunta e jogar as duas pedrinhas. Os dois lados escuros pra cima significam não, os dois lados claros significam sim. Se ficar um escuro e um claro, a pergunta fica sem resposta.
— Pe-peraí, n-não e-entendi. P-pra que e-esse ne-negócio d-de pe-pedrinhas? P-por que vo-você n-não r-responde di-direto?
— E vou perder meu tempo com os problemas de vocês, Moisés? Faça-me o favor! Tenho mais o que fazer. Vai por mim, é fácil enrolar esse povo. É só não chamar as pedrinhas de pedrinhas, porque aí vira esculhambação. O negócio já vai ser numa tenda, se o povo souber que Arão vem me consultar jogando pedrinhas, aí fode tudo: Vão botar placa na frente do Tabernáculo, “Pai Arão: búzios, tarô, amarração para o amor”. Não, não: Chamem as pedrinhas sempre de Urim e Tumim, pra dar um ar misterioso, sobrenatural, místico. É puro marketing, Moisés! Sem isso ninguém vai pra frente. Marketing, marketing!
— T-tá b-bom, t-tá b-bom… Co-continua a-aí o ne-negócio d-das ro-roupas, C-Clô.
— ME CHAMOU DE CLÔ!
— Ch-chamei na-nada!!!
— Chamou sim!
— A-ARGH!
— Ai, que bom que estamos nos entendendo, Momô. Já estamos no final, viu? Fica calminho…
As roupas dos sacerdotes

Clodovil
(Êxodo 28:1-5)
— Pois muito bem, Moisés, negócio seguinte: Cê vai separar do povo o seu irmão Arão, e também os filhos dele, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, para que me sirvam como sacerdotes. Só que para isso eles vão precisar de roupas que dêem a eles dignidade e beleza. Então passamos agora ao curso de corte e costura.
— V-vai d-dar uma d-de e-estilista, Ja-Javé? E-essa eu q-quero v-ver…
— Tá me estranhando, Moisés? Eu sou um deus macho, porra! Cê acha que eu vou dar uma de costureiro a essa altura da minha vida?
— U-ué, mas cê fa-falou q-que…
— Eu falei que agora vamos passar para essa parte de confecção e tal. Mas não disse que eu ia te passar o desenho das roupas. Para isso eu contratei um cara que tava desempregado aí, precisando de uma força. O pobre coitado conseguiu ser demitido de todas as emissoras de TV, e você sabe como bicha velha tem tendências depressivas. Clodovil! Vem aqui pra eu te apresentar ao Moisés.
— Oi, Jajá. Ah, você que é o Moisés, né? Hum…
— J-J-J-JAJÁ??? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
— Numfode, Moisés…
— Olha, Moisés, você não pode se mover pelo preconceito, porque somos todos iguais, não é mesmo? Hoje eu sou eu e você é você, amanhã pode ser que você seja eu e que eu seja você, porque é tudo um processo cármico que se desencadeia e que torna a todos irmãos, de modo que todos devem viver em harmonia, sob a proteção de um mesmo pai. Que vem a ser o Jajá.
— Tá, tá, vamos logo ao que interessa.
— Calma lá, bofe! Tá pensando o quê? Eu vim lá de Ubatuba até aqui só pra isso e não estou reclamando! O Jajá me convenceu a aceitar esse emprego. Eu não queria, mas sabe como é o Jajá, tem essa coisa toda dele de saber convencer as pessoas, falou que se eu não viesse ele ia matar todos os viados, aí já viu, né? HAHAHAHAHAHA. Mas vamos lá. Você vai chamar toooooooodas as costureiras do povo de Israel para confeccionarem essas roupas que eu vou desenhar agora. Peraí, deixa eu pegar minha prancheta. Hum-hum… Cadê meus pincéis? MEUS PINCÉIS! Ah, tão aqui. Ui. Cada pincelão, olha só!
— Va-vamos pa-parar de vi-viadagem.
— Noooooooossa, a mona tá nervosa! Olha aqui, presta atenção no desenho e não reclama. Vê só, a roupa vai ter esse peitoral assim… Aí tem o manto sacerdotal, beeem bonito e chamativo… Uma sobrepeliz chiquéeeeeerrima… Uma túnica toda bordada, desse jeito assiiiiiiiiiiim… Uma mitra bem estilosa… E o cinto vai ser assim, ó. Pronto. Tudo de bom, né? Pra essas roupas serão usados fios de lã azul, púrpura e vermelha, fios de ouro, linho fino, miçangas, paetês, lantejoulas, purpurina, plumas de pavão, de perdiz e avestruz.
— Hum… Clodovil?
— Sim, Jajá?
— Será que você não está exagerando não? Os caras vão ser meus sacerdotes, vão ter que impor respeito ao povo. Se as roupas deles forem feitas com essas coisas todas aí, vai virar palhaçada. Se eu quisesse que fosse assim, tinha chamado o Clóvis Bornay pra ser sumo-sacerdote.
— Ai, Jajá, mas não vai ser nada muito espalhafatoso! Só estava pensando numa alegoria de cabeça e um esplendor com plumas. Podíamos até dar nome pra essa obra de arte, Pavão Misterioso Multicor na Côrte de Assurbanípal, ou qualquer coisa assim…
— Porra, Clodovil, não sacaneia. Faz direito a bagaça aí.
— Tá bom, tá bom. Moisés, desconsidera o que eu falei das miçangas pra frente. Humpf.
— P-pô, que pe-pena… Ia s-ser le-legal v-ver o A-A-Arão de t-travesti…
— Ai, vocês não compreendem minha arte. Mas tudo bem, nessa vida a gente não é nada: A gente é TUDO, não é mesmo? HAHAHAHAHA. Amanhã eu volto para dar os detalhes do manto sacerdotal, se Jajá quiser. E ele HÁ de querer.
— Pu-puta q-que pa-pariu, e-essa vi-viadagem v-vai lo-longe…
O altar para os sacrifícios, o pátio do Tabernáculo, o azeite para o candelabro
(Êxodo 27)
— Pô, Moisés, agora ficou fácil. Eu ia levar um tempão pra ficar aqui falando como eu quero o altar para os sacrifícios de dois e vinte por dois e vinte, oco, com uma grelha de bronze, argolas e cabos para o transporte. Agora é só passar aí pro seu aparelhinho e pronto! Que maravilha, a tecnologia!
— É ve-verdade. Ô, bo-bonito e-esse a-altar.
— E mais bonito ainda vai ficar quando estiver coberto de sangue! SANGUE! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEEEEE! SAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNN…
— Ca-calma, Ja-Javé…
— Aham… Hum. É isso. Ah, fora esse desenho do altar aí, vou querer também vasilhas para recolher a gordura e as cinzas, pás, bacias, garfos, braseiros, tudo de bronze. Beleza?
— T-tá a-anotado. E de-depois?
— Ah, depois tem o pátio. O Tabernáculo será montado sempre que vocês assentarem acampamento, e em volta dele vocês colocarão cortinas e postes, formando um pátio de 44 por 22 metros. Assim eu fico mais sossegado dentro da minha tenda, sem nego toda hora entrando pra encher o saco. O altar dos sacrifícios será colocado no pátio, em frente à porta do Tabernáculo. Hum, acho que é só. Te falei do azeite?
— Q-que a-azeite?
— Tô vendo que não falei. Fala praquele povinho bunda que é pra eles trazerem o melhor azeite para acender o candelabro todas as tardes. Arão e os filhos dele colocarão o candelabro dentro do Tabernáculo, do lado de fora da cortina que separa o lugar Santo do lugar Santíssimo. O azeite vai ficar queimando ali, perfumando o ambiente até a manhã, que é pra eu relaxar.
— T-tá bom. M-mas po-por que A-A-Arão e m-meus so-sobrinhos?
— Ah, não te falei? Arão vai ser o sumo-sacerdote e os filhos dele serão sacerdotes também. Essa religião que eu tô inventando vai ser organizada, tá pensando o quê? Oras bolas. E por falar nos sacerdotes, agora vamos passar à parte de corte e costura…
— Ah, Ja-Javé, n-não sa-sacaneia.
— Calaboca, Moisés.
O Tabernáculo
(Êxodo 26)
— Moisés, que palhaçada foi essa?
— F-foi n-nada n-não, Ja-Javé. S-só p-precisei ir d-dar uma mi-mijada.
— Tá bom, tá bom… Presta muita atenção agora, que eu vou te passar as instruções para a construção do meu tabernáculo, que é a parte mais importante dessa porra toda.
— P-por quê é m-mais i-importante?
— Oras, por quê! Porque é minha casa, Moisés! Considere assim: Essa porra toda de êxodo é uma superprodução. Eu sou o roteirista, diretor, produtor e protagonista do filme. Como tal, mereço ter um camarim só pra mim, com coisinhas pra comer, todo decorado e perfumado, com pessoas pra me atenderem sempre que eu quiser. Entendeu?
— Ah. O t-tal de ta-tabernáculo v-vai s-ser s-seu t-trailer?
— É isso aí. Pois vamos às instruções: Cês vão fazer dez cortinas de linho fino, fios de lã azul, púrpura e vermelha. Nessas cortinas serão bordadas figuras de querubins. Cada uma delas terá doze metros e meio de comprimento por um metro e oitenta de largura. Aí cês vão costurar cinco delas uma na outra, formando uma só peça, e farão o mesmo com as outras cinco. Feito isso, vão botar laçadas de tecido azul na beirada de fora da última cortina de cada peça, cinqüenta laçadas para cada, de forma que as cortinas fiquem de frente uma para a outra. Aí vocês vão fazer cinqüenta prendedores de ouro para juntar os jogos de cortinas, formando assim…
— J-Javé…
— Que é?
— D-desculpa i-interromper, m-mas n-não tá m-meio co-complicado e ch-chato de-demais i-isso a-aí?
— Hum. Tem razão, Moisés. Um pé-no-saco ficar descrevendo essas bagaças. Ainda mais que tenho tudo aqui no computador…
— CO-COMO??? V-você j-já t-tem os de-desenhos to-todos a-aí? E p-por que n-não i-imprimiu lo-logo?
— Ah, Moisés! Cê sabe quanto custa um cartucho de tinta? E toner pra impressora laser então? Tá tudo pelos olhos da cara, véio. Nem fodendo que eu ia gastar tinta, ainda mais podendo passar tudo pra você.
— Po-porra, J-Javé. T-tô c-com m-meu Pa-Palm aqui, é s-só pa-passar os de-desenhos.
— Ah é?
— É.
— Taí, não sabia. Deixa eu ver? Olha, que legal… Hum. Tem infravermelho! Puxa, preciso comprar um desse. Ah, demorô, Moisés. Vou passar todo o projeto do tabernáculo pro seu Palm, assim a gente não perde tempo. Aliás, essa parte toda da Bíblia é muuuuuuito chata. Vou passar tudo aí pra essa geringonça, assim a gente passa o resto dos quarenta dias só jogando Counter Strike.
— Q-que be-beleza! VA-valeu, Ja-Javé!
— Não seja por isso. Vamos começar logo esse negócio. O Tabernáculo é isso aí, esse monte de cortinas, a cobertura de peles de cabra, outra cobertura de peles de carneiro, e uma outra de peles fina. Aí tem toda a armação de acácia. Só preciso te lembrar de uma coisa: O tabernáculo será dividido por uma cortina. Pra cá da cortina fica o lugar Santo, pra lá fica o Santíssimo, onde ninguém pode entrar. No Santíssimo é que vai ficar a arca, no lugar Santo ficarão a mesa e o candelabro. Que mais? Ah, a entrada da tenda será coberta por uma cortina, de linho fino e toda aquela viadagem, e ainda coberta de bordados. Os outros detalhes cê vê aí no seu Palm. Agora, o altar para os sacrifícios…
O C-c-ca-candelabro
— E a-aí, le-leitores d-do J-Jesus, m-m-mmmmmmmmmm…
— Moisés, que porra cê tá fazendo aqui?
— O-oi, A-A-Arão. D-dei u-um je-jeito de e-escapulir l-lá d-de ci-cima. J-Javé t-tá do-doido.
— Que ele é doido a gente já sabia. O que ele fez agora?
— E-ele t-tá pe-pensando q-que o-ouro d-dá em a-árvore, t-tudo q-que e-ele pe-pede t-tem q-que s-s-ser de o-ouro.
— Bom, mesmo que ouro desse em árvore: No meio do deserto, a gente tava fodido do mesmo jeito. Mas pra que ele tanto quer ouro?
— Ah, e-ele q-quer q-que a g-gente co-construa um lu-lugar de a-a-adoração pra e-ele. E c-com tu-tudo de o-ouro: u-uma a-arca, a ta-tampa da a-arca, u-uma mesa, co-copos, ja-jarras, co-colheres, o ca-caralho a q-quatro. O-olha a-aqui mi-minhas a-anotações, v-vê q-que a-absurdo.
— Tô vendo, Moisés, tô vendo. O cara endoidou mesmo.
— P-pois é. E o-olha o t-tal do ca-candelabro. I-isso aí f-foi a go-gota d’d’d’água, n-nem fo-fodendo que v-vai d-dar p-pra fa-fazer um ne-negócio a-assim, ch-cheio d-d-de…
— Moisés!
— Fo-fodeu…
— O curso ainda não acabou, Moisés, que porra cê tá fazendo aí em baixo? Pode subir, seu velho sem-vergonha, ainda temos muito o que conversar.
— M-mas Ja-Javé…
— Calaboca e sobe logo, porra!
— A-Arão, v-vou t-ter que su-subir. Fi-fica aí c-com as a-anotações, a ge-gente t-tem que d-dar um je-jeito. T-tô i-indo ne-nessa.
— Falô, Moisés, boa sorte. Muito bem, olá, leitores do Jesus, me chicoteia!. Eu sou Arão, irmão e assessor de imprensa do Moisés, que vocês conhecem muito bem. Se Javé tivesse todos os parafusos devidamente apertados em sua divina cachola, eu é que estaria lá falando com ele, não meu irmão gago e meio burro. Mas fazer o quê, o mundo é assim. Quero dizer que é um prazer e um privilégio dirigir-me a vocês sem o intermédio do autor, aquele agnóstico ateísta acéfalo. Quero aproveitar, então, essa oportunidade para contar-lhes minha vida, já que a Bíblia dá tantos pormenores a respeito da biografia de Moisés e quase nada fala a meu respeito. Pois bem, nasci no Egito em… Peraí, peraí. Só agora reparei nas anotações do meu irmão. Cáspita, esse candelabro é absurdo! O cara quer que a gente faça um candelabro de ouro puro. Todo ele: O pedestal, a haste, os cálices. E os cálices vão ter forma de amêndoas, com botões e flores, tudo feito de ouro. Serão seis hastes com três cálices cada, mais o pedestal do candelabro, com quatro cálices. Porra, que complicação! E essa putaria toda de botões, flores, cálices, hastes, tem que ser tudo uma peça só de ouro batido. Fora isso, sete lamparinas para botar no candelabro, com todos os acessórios também feitos de ouro. Porra, quanto ouro será que a gente vai precisar pra fazer um troço desses? Peraí, tá anotado aqui no verso… Ah, um talento só. Um talento dá… TRINTA E QUATRO QUILOS DE OURO! Puta que pariu. Javé tá maluco. Nem a pau que vamos fazer isso aí. Precisamos dar um jeito de contornar essa situação, assim não pode, assim não dá.
A mesa dos pães para oferenda
— T-tá, J-Javé, co-como vo-você v-vai q-querer a me-mesa?
— Coisa simples, Moisés, nada de mais: de acácia, oitenta e oito centímetros de comprimento, quarenta e quatro de largura, sessenta e seis de altura.
— Ah, v-vai ser f-fácil de fa-fazer e-então…
— É, não te falei? Só vai precisar cortar a madeira nessas medidas e pronto. Ah, e revestir toda a mesa com ouro puro, e colocar um remate de ouro em volta dela.
— P-porra, J-Javé, n-não sa-sacaneia! E-estamos no m-meio d-do nada, o-onde é q-que va-vamos a-arrumar t-tanto o-o-ouro?
(Boa pergunta, Panthro Samah!)
— Bah, Moisés, não faz corpo mole! Não lembra que eu falei pra vocês pegarem as riquezas dos egípcios antes de saírem de lá?
— N-não le-lembro n-não.
— Não lembra o cacete, tá se fazendo de besta! Olha aqui!
— Po-porra, e-esse ne-negócio de fa-falar com l-links q-quebra as p-pernas da ge-gente…
— Quer me enrolar, Moisés? Você achou que eu mandei vocês fazerem isso por quê? Porque eu queria ver vocês ricos? Bah! Era pra mim, precisava desse ouro todo para a construção do meu tabernáculo. Eu não dou ponto sem nó, tá pensando o quê? Eu sou é deus, porra! DEUS!!!
— T-tá bom, t-tá bom…
— HUMPF. Cê me tira do sério, Moisés, até me perdi. Onde é que eu estava? Ah, o remate de ouro. Então. Em volta da mesa cês vão fazer um friso de quatro dedos de largura, e botar um outro remate de ouro em volta do friso. Por fim, vocês vão fazer quatro argolas de ouro para colocar nos pés da mesa e dois cabos de acácia revestidos de ouro para o transporte, daquele jeito que eu já expliquei nas instruções para a Arca da Aliança.
— T-tá tu-tudo a-anotado. M-mas p-pra q-quê e-essa me-mesa?
— Pra quê? Pra eu fazer minhas refeições, oras. Cês vão fazer pratos, copos, taças e jarras para vinho, tudo de ouro puro. Essa mesa vai ser colocada na frente da Arca, e em cima dela vocês vão deixar sempre uns pãezinhos quentinhos pra mim.
— P-por i-isso que cê t-tá go-gordo pra ca-caralho…
— Como é?
— Na-nada n-não… M-mas cê v-vai vi-viver s-só de p-pão e vi-vinho?
— Claro que não, isso é só o café da manhã. Para as outras refeições é que existem os sacrifícios de animais que serão oferecidos no altar, cujo projeto eu vou te passar depois. SANGUE! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEEEE!!!!!!!
— Ca-calma, Ja-Javé…
— Hum. Muito bem, então vamos continuar com esse negócio.
A Arca da Aliança
— Tá prestando atenção, Moisés? Então anota aí. Cês vão fazer uma arca de madeira de acácia pra mim.
— A-Arca? Po-po-pa-porra! V-vai ma-mandar o-outro Di-Di-Di-Da-Di-Dilúvio???
— Mané Dilúvio, Moisés. Deixa eu terminar de falar. Essa aí que vocês vão fazer é a Arca da Aliança.
— A-arca da A-aliança?
— É, Arca da Aliança. Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida, manja? “Pã-parã-pãaaaaaa, pã-parãaaaaaaa, pa-parã-pãaaaaaaaa, pã-parã-pã-pã”, aquela coisa toda.
— T-tá, e-entendi, n-não p-precisa de-desafinar no m-meu o-ouvido.
— Pois muito bem. A arca terá dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e um côvado e meio de altura.
— Ca-côvado? Q-que po-porra é e-essa?
— Um côvado, Moisés, equivale a 44 centímetros.
— E-então fa-fala di-direito, p-porra.
— Cê tá ficando abusado, hein? Mas tudo bem, vou facilitar pra você: Um metro e dez de comprimento, sessenta e seis centímetros de largura e de altura. Melhor assim?
— B-bem me-melhor.
— Então vamos em frente. Cês vão revestir de ouro essa caixa, por dentro e por fora. E botar uma moldura de ouro em volta. Depois, vão fazer quatro argolas de ouro e…
— P-peraí, Ja-Javé! N-não t-tá e-exagerando não? T-tanto o-ouro p-pra u-uma ca-caixa só…
— Caixa é o cacete! ARCA DA ALIANÇA! Mais respeito, porra. Essa arca é importante pra mim, então não me encha o saco.
— T-tá, n-não p-precisa fi-ficar t-todo ne-nervosinho…
— Cê me tira do sério, Moisés. Anota aí minhas instruções e cala a boca. Como eu ia dizendo, cês vão fazer quatro argolas de ouro e colocar duas de cada lado, nos pés da arca. Depois disso, farão dois cabos de madeira e revestirão de ouro. Esses cabos serão passados através das argolas, para facilitar no transporte da arca. E agora vem a tampa, que é o detalhe mais bonito: Será feita de ouro puro, um metro e dez por sessenta e seis centímetros. Vocês farão dois querubins de ouro batido, um para cada ponta da tampa, sendo os querubins e a tampa uma só peça. Os querubins ficarão um de frente pro outro, olhando para a tampa e as asas deles ficarão abertas, cobrindo a porra toda.
— Pe-peraí, t-tá fi-ficando di-difícil de vi-visualizar i-isso aí. Co-como é m-mesmo o l-lance dos que-querubins?
— Ô, Moisés, cê é muito tapado! Vai por mim, assiste Os Caçadores da Arca Perdida, a arca que eu quero é igualzinha aquela aparece no filme. Pã-parã-pãaaaaaa, pã-parãaaaaaaa, pã-parã-pã…
— T-tá, j-já e-entendi. V-vou a-alugar o fi-filme, p-pode d-deixar.
— Beleza, Moisés. Essa arca vai servir para você guardar as duas tábuas de pedra que eu vou te dar, com os Dez Mandamentos gravados.
— P-porra, e-essa t-trabalheira to-toda pra fa-fazer um b-baú pra g-guardar d-duas la-lajotas???
— Lajotas o colete da véia, porra! São as Tábuas dos Dez Mandamentos, objetos sagrados!
— Q-que se-seja…
— Humpf! Anotou tudo? Agora tem outra coisa, a mesa.
— Me-mesa? Ah, me-mesa q-qualquer um f-faz, não p-precisa i-instruções.
— Precisa sim, não discuta. Vai anotando aí.
As ofertas para o Tabernáculo
— C-com li-licença…
— E precisa pedir licença, Moisés? Cê é da casa! Senta aí, fique à vontade. Tá vendo esse bloco de anotações aí? Pode pegar aí e prestar bastante atenção, porque vai começar sua série de cursos.
— C-cursos? Cu-cursos de q-quê?
— Oras, de quê. Você sabe. Decoração, corte e costura, economia doméstica, etiqueta, essas coisas de viado.
— P-porra, mas p-pra q-quê i-isso?
— É que eu estou cansado de ficar aqui em cima dessa montanha, quero uma tenda beeeeeeem bonita pra eu morar no maior luxo. Então vou te passar as instruções para a construção da minha tenda.
— Pe-pega l-leve, Ja-Javé… E-estamos no m-meio do de-deserto, j-já te-temos m-muitas p-preocupações. Se a i-isso a-ainda ju-juntarmos a co-construção de u-uma t-tenda p-pra vo-você, t-tamos na ro-roça.
— Porra, Moisés! Eu não tirei vocês do Egito? Eu não fiz vocês atravessarem o Mar Vermelho? Eu não transformei a água salobra em água doce? Eu não mando maná do céu todo dia pra vocês comerem? Hein, Moisés?
— É v-verdade…
— Então! E só o que eu peço em troca é que vocês construam uma casa pra mim! Vai regular?
— T-tá b-bom. M-mas co-como v-vamos fa-fazer a t-tenda a-aqui no m-meio do de-deserto? N-não d-dá pra ir a-até a Vi-Vinte e Ci-Cinco de M-Março p-pra c-comprar te-tecido com os t-turcos…
— Ô, Moisés, isso aí é má vontade sua. Pô, fala lá com o povo, explica pra eles que você vai construir um santuário para o deus que os tirou do Egito, cê vai ver como eles vão ficar empolgados. Aí cê vai pedir ofertas a eles. É só fazer uma chantagem emocional de leve, uma lavagenzinha cerebral e pronto: Controlar a multidão é fácil, Moisés! Aí quando eles já estiverem na sua mão, você vai especificar as ofertas: Ouro, prata, bronze, lã de todas as cores, linho fino, tecido de pêlos de cabra, peles de carneiro tingidas, madeira de acácia, azeite para as lamparinas, especiarias para os perfumes e incensos, pedras de ônix e outras pedras preciosas para o peitoral do Sumo-Sacerdote e para o éfode.
— É f-foda?
— É foda sim, Moisés. É foda ter que explicar tudo pra um velho caduco feito você. Tá gago das orelhas também? Eu disse éfode! Éfode é o manto sacerdotal.
— E-então p-por que vo-você n-não fa-fala ma-manto sa-sacerdotal l-logo, po-porra.
— Não falo ma-manto sa-sacerdotal porque não sou gago, caralho. Não enche o saco. Anotou aí o lance das ofertas? Então vamos aos detalhes. Primeiro os móveis.
— Mo-móveis? E-então e-era s-sério a co-conversa de c-curso de de-decoração.
— Claroq que é sério, porra.
— V-vai de-demorar.
— Que nada! Coisa de quarenta dias.
— A-ai ca-caralho…
— Não reclama. Anota.
