(Juízes 12)

No capítulo em que Gideão derrotou os midianitas, ficamos sabendo que os homens de Efraim eram os melhores guerreiros de Israel. Tudo muito bem, mas tinha um detalhezinho chato: eles gostavam de ver sangue e não admitiam de forma alguma serem deixados de fora de qualquer batalha. Jefté os convocou para a guerra quando os amonitas já estavam praticamente derrotados, o que os emputeceu deveras. O exército efraimita atravessou o Jordão e os líderes foram falar com Jefté:
— Porra, Jefté! Agora cê vem chamar a gente pra guerra? Tá doido? Isso não vai ficar assim! Vamos queimar sua casa com você dentro, filho da puta!
— Ei, peraí! Primeiro: sou filho da puta mesmo, e tenho muito orgulho da profissão de mamãe. Segundo: eu mandei um e-mail convocando vocês para a guerra. Não receberam não? Mandei o e-mail e fiquei esperando. Como vocês não vieram me ajudar, vim com os soldados que tinha e derrotei os amonitas, com ajuda de Javé. Sinto muito.
— MENTIROSO! NÓS VAMOS ACABAR COM A TUA RAÇA!
— Ei, não fiz nada contra vocês! Que negócio é esse?
— Vocês, gileaditas, vivem nas terras de Efraim e Manassés, e no entanto são uns traidores! Você é um desertor de Efraim!
Jefté não tinha metade do jogo de cintura de Gideão, então nem tentou uma solução diplomática:
— EU QUERO MAIS É QUE EFRAIM SE FODA! E AÍ? VÃO ENCARAR?
O clima ficou bem pesado, e a guerra foi declarada, Gileade contra Efraim. Como estratégia, os gileaditas tomaram todos os pontos de travessia do Jordão, para evitar que os efraimitas passassem. Então, sempre que alguém chegava por ali, a sentinela perguntava:
— É efraimita?
Se o cara respondesse “sou”, era morto na mesma hora. Se negasse ser efraimita, a sentinela fazia um teste:
— Fala “Chibolete”.
— Como???
— FALA “CHIBOLETE”, CARALHO!
Parece absurdo, mas na verdade era um jeito simples e eficaz de saber se o sujeito era efraimita ou não: devido ao sotaque de Efraim, qualquer um nascido naquela terra pronunciaria “Sibolete”. Algo como pedir a um carioca para falar “sinistro” (“sinishtro, aê!”) ou a um paulistano para dizer “evento” (“evêinto, meu!”). E o que aconteceu ali às margens do Jordão foi mesmo um evêinto sinishtro: 42 mil efraimitas mortos por causa de seu sotaque. Diabólico, não?
A vitória sobre Efraim foi o último feito digno de nota na vida de Jefté. Depois disso, ele governou Israel por seis anos, após os quais morreu e foi enterrado em Gileade.

Jefté foi sucedido por um certo Ibsã, da cidade de Belém (aquela). Ibsã tinha trinta filhas e trinta filhos, para os quais arrumou noivos e noivas de outras tribos. Governou Israel por sete anos. Depois que Ibsã morreu e foi enterrado em Belém, foi a vez de Elom tornar-se juiz. Ele governou por dez anos, e foi enterrado em Aijalom, na tribo de Zebulom, sua terra natal. Abdom, filho de Hilel, sucedeu a Elom, e seu governo (se é que podia se chamar assim) durou oito anos. Foi enterrado em Piratom, sua cidade de origem, na tribo de Efraim.
Três juizezinhos muito dos sem-vergonhas, que nada fizeram de notável. Em compensação, depois de Abdom (o inventor dos abdominais, rá!), vem o cara que fez algumas das coisas mais impressionantes de toda a Bíblia, um verdadeiro herói. Começaremos a falar dele no próximo capítulo.

(Juízes 11)

Havia em Gileade um homem chamado Jefté, soldado valente e filho da puta.
— Porra, Chicoteia, pega leve…
Não, vocês não entenderam. Jefté era filho da puta mesmo: seu pai, que se chamava Gileade, engravidara uma prostituta. Pois bem, imaginem o preconceito sofrido por ele. Desde cedo sua vida foi difícil, e mais ainda ficou depois de uma briga em família: a esposa de Gileade também teve seus filhos, os quais, depois de crescidos, expulsaram Jefté de casa, porque não o consideravam digno de partilhar a herança de seu pai. Ele fugiu de seus irmãos e foi morar em Tobe, onde se juntou à malandragem local.
Quando os amonitas começaram a se preparar para atacar Israel, acampando em Mispa, a valentia de Jefté já era de todos conhecida. Então alguns dos chefes de Gileade (a terra, não o pai de Jefté) foram até Tobe falar com ele:
— Jefté, só você pode nos ajudar. Por favor, volte para Gileade e comande nosso exército na guerra contra os amonitas.
— Ah, é assim, é? Quando eu fui expulso de casa, ninguém me ajudou, e agora que estão passando por um perrengue, vêm correndo me buscar?
— Er… Pô, Jefté. Esquece isso. Foi há tanto tempo!
— Eu vou. Mas com uma condição: se ganharmos a guerra, eu serei o governador de Gileade.
— Combinado!
Jefté, empolgado pela aventura que o esperava (e pela perspectiva de revanche contra seus irmãos), acompanhou os líderes até sua terra natal, onde foi aclamado governador. Foi até Mispa e fez todo o povo jurar-lhe fidelidade, voltando para Gileade depois. De lá, mandou uma mensagem ao rei dos amonitas:

From: jefte@tobe_freeserv.com.il
To: rei@amon.gov.am
Subject: Coé?

Majestade,

Com todo respeito, qualé a tua? O que você e seu povo têm contra mim? Porque invadiram meu país?

Jefté, filho de Gileade

Quase em seguida chegou a resposta do rei:

From: rei@amon.gov.am
To: jefte@tobe_freeserv.com.il
Subject: Re: Coé?

Jefté,

Negócio seguinte: quando os israelitas saíram do Egito, roubaram as terras de nossos antepassados desde o rio Arnom até os rios Jaboque e Jordão. Agora eu vim pegar essas terras de volta, e espero que vocês tenham o bom senso de devolvê-las sem luta.

Eu, o rei

Jefté ficou puto com a desfaçatez do rei inimigo, mas conseguiu controlar-se e respondeu com serenidade:

From: jefte@tobe_freeserv.com.is
To: rei@amon.gov.am
Subject: Re: Re: Coé?

Como é que é? Peraí, majestade, acho que o senhor pegou a versão errada da história. Clique neste link, e verá o que aconteceu de verdade. Em resumo: Moisés, nosso grande líder, peregrinava com o povo pelo deserto. Tinha enviado mensagens aos reis de Edom e de Moabe, solicitando passagem por seus territórios para cortar caminho, e dando garantias de que tal passagem seria pacífica. Ambos negaram. Então o povo teve que dar uma volta desgraçada, rodeando as terras dos edomitas e moabitas, e acabando por acampar na fronteira leste de Moabe. De lá, Moisés enviou mensageiros a Seom, rei dos amorreus (amorreus, amonitas, tudo a mesma raça), com o mesmo pedido: apenas que permitisse aos israelitas cortar caminho pelas suas terras. E ele não só não concedeu permissão, como ainda veio com todo o seu exército para atacar os israelitas. Oras, nossos antepassados eram só um bando de peregrinos, não tinham treinamento militar, e o cara faz uma covardia dessas? Só que ele não contava com o nosso deus, Javé, que ajudou Israel a derrotar os amorreus, conquistando suas terras. Foi Javé quem deu essas terras a nós, portanto. E você as quer de volta? Faz-me rir! Podem ficar com tudo o que Quemos, o deus de vocês, lhes deu. Nós ficamos com o que Javé nos deu, e fica todo mundo feliz.
Pô, você pensa que é melhor do que Balaque, filho de Zipor, que era rei de Moabe? Será que alguma vez ele nos desafiou? Durante trezentos anos nós habitamos Hesbom, Aroer, e em todas as cidades às margens do Arnom. Por que foi que vocês não tomaram essas cidades durante todo esse tempo, e agora vêm aqui querer as terras sem luta? Faça-me o favor, seu rei! Negócio é o seguinte: Javé vai decidir entre israelitas e amonitas. Vamos ver quem é que vai se dar bem nessa…

Abraço!

J.

O rei nem sequer se deu ao trabalho de responder a mensagem de Jefté, o que acabou de enfurecê-lo (a Bíblia diz que “Então o Espírito do Senhor veio sobre Jefté” *, mas isso não passa de eufemismo para “Então Jefté ficou puto pra caralho”): atravessou Gileade e Manassés, retornando a Mispa, e de lá comandou seu exército contra Amom. No caminho, fez uma promessa a Deus:
— Javé, se você me fizer derrotar os mequetrefes, eu vou pegar o primeiro que sair da minha casa para me saudar quando eu voltar da guerra, e oferecê-lo como sacrifício a você.
Uma promessa um tanto estranha, a oferta de um sacrifício humano. Mas Javé não reclamou, então o pacto foi feito. Jefté atravessou o rio para lutar contra os amonitas, e os derrotou desde Aroer até Abel-Queramim, vinte cidades ao todo. Houve uma grande matança, e os israelitas derrotaram Amom.
Quando Jefté voltou para sua casa (havia se mudado para Mispa), sua filha única saiu ao seu encontro, dançando e tocando pandeiro:
Na minha casa todo mundo é bamba / todo mundo bebe, todo mundo s… Pai, o que houve???
Jefté estava rasgando suas roupas, em sinal de desespero, e chorava:
— Ah, filhinha! Minha única filha! Você parte meu coração, filhinha! Eu fiz uma promessa a Javé e não posso voltar atrás…
— Que promessa?
— Prometi que sacrificaria a primeira pessoa que viesse ao meu encontro quando eu voltasse da guerra.
— Um sacrifício HUMANO, pai???
— É…
— E Javé aceitou?
— Bom, não recusou…
— Hum… Ué, pai. Se você prometeu alguma coisa a Deus, tem que cumprir. Sabe como ele é, né? Só te peço uma coisa: deixa que eu saia com minhas amigas e vá para as montanhas chorar por dois meses, porque nem mesmo terei a chance de ser mãe um dia…
— Mas… Filha…
— E da próxima vez, pai, pensa melhor antes de prometer alguma coisa.
Então ela chamou suas amigas e foram todas para as montanhas. Depois de dois meses, ela voltou e seu pai a sacrificou em honra a Javé. Que beleza, não? Ele bem que tentara, ao pedir que Abraão imolasse seu filho Isaque, mas se arrependeu em cima da hora. E agora, com Jefté, finalmente conseguiu o que queria: um pouquinho de sangue humano derramado apenas para satisfazer a seus caprichos, e mais nada.
Ah, o capítulo se encerra dizendo que a filha de Jefté morreu virgem, e que o episódio fez surgir a tradição de as mulheres israelitas saírem de casa todos os anos durante quatro dias para chorarem sua morte. Sei não, sei não… A menina passou dois meses longe de casa, acompanhada apenas de suas amigas adolescentes. Duvido que tenha voltado virgem, com tanto beduíno por ali dando sopa. E essa tradição das mulheres israelitas parece mais uma puladinha de cerca anual, à qual os maridos faziam vista grossa.

(Juízes 10:6-18)

Esse livro dos Juízes é claramente cíclico: o povo se afasta de Javé, aí vêm os inimigos e dominam Israel. Então os israelitas se arrependem dos seus pecados, Deus manda um líder para libertá-los, há paz por muitos anos. Tranqüilos, os israelitas voltam a adorar outros deuses, aí vêm os inimigos, dominam Israel, e assim por diante. Pois bem, depois da morte de Jair, os israelitas se empolgaram e começaram a adorar os deuses e deusas dos cananeus, da Síria, de Sidom, de Moabe, de Amom e dos filisteus, uma grande salada de divindades. Javé ficou com muita raiva, e castigou seu povo, mandando contra Israel os amonitas e filisteus. Durante dezoito anos eles escravizaram os israelitas que viviam em Gileade, na margem leste do Jordão. Além disso, os amonitas atravessaram o Jordão e começaram a lutar contra as tribos de Judá, Benjamim e Efraim.
Desesperados com a situação, os israelitas pediram a Deus que os libertasse:
— Ô, Javé! A gente sabe que fez cagada com esse negócio de adorar outros deuses e tal. Mas precisava tanto? Os amonitas estão pegando pesado. Vem ajudar a gente, Javé!
E Javé, deixando o orgulho um pouco de lado, dignou-se a responder:
— Tá ruim aí, é?
— Tá!
— Tá insuportável, é?
— Insuportável, Javé! Insuportável!
— Puxa… Das outras vezes eu ajudei vocês, não foi?
— Foi mesmo, Javé!
— Pois é… E mesmo assim vocês me abandonaram, não foi?
Foi…
— Ei, pra que tanto desânimo? Vocês não querem ajuda? Pois terão ajuda!
— EBA!!!
— Sim, sim!
— E como é que você vai ajudar a gente, Javé?
— Eeeeeeeu??? Eu não vou ajudar ninguém, tão loucos? Vocês têm tantos deuses, peçam ajuda a eles, oras. Se são tão melhores que eu, a ponto de vocês me trocarem por eles, devem ajudá-los com mais eficiência.
— Mas… Mas o Senhor vai abandonar seu povo?
— Er… Deixa eu pensar… Sim! Vou abandonar o meu povo e tirar umas férias! Tchau, boa sorte com seus deuses.
Não fode, Javé! Tudo bem, só fazemos merda, mas nos ajude só dessa vez!
Então os israelitas destruíram todos os seus ídolos e voltaram a adorar apenas a Javé. Este, por sua vez, resolveu pensar melhor e talvez conceder uma nova chance ao seu povo.
Enquanto isso, o exército amonita acampava em Mispa. O povo de Israel, tendo voltado para Javé, sentia-se seguro para começar a combater o opressor. Então os chefes de Gileade combinaram que o homem que comandasse os israelitas na luta contra os amonitas governaria a região. E é aí que surge um grande filho da puta, do qual falaremos no próximo capítulo.

(Juízes 10:1-5)

ADVERTÊNCIA: Os nomes desses dois juízes dão margem para trocadilhos fáceis e horrendos. Sendo assim, este será um capítulo curto, que é para evitar a infâmia. Conto com a compreensão de todos. Obrigado.

Depois da morte de Abimeleque (já foi tarde!), um certo Tolá (Tolá!), que era filho de Puá (Puá!) e neto de Dodo (DODO! MEU DEUS!) tornou-se juiz de Israel. Ele era da tribo de Issacar, mas morava em Samir, nas montanhas de Efraim. Liderou o povo durante vinte e três anos. Então morreu e foi enterrado em Samir.
Tolá foi sucedido por Jair, nascido em Gileade, que foi líder por vinte e dois anos. Jair tinha trinta filhos, e cada um deles tinha uma cidade em Gileade. Além disso, apesar de Jair ser um cara muito legal, seus filhos eram uns pretensiosos, que faziam músicas metidas a espertinhas, lançando-as por uma gravadora de nome cool e… Ah, não, esse é outro Jair. O Jair do qual falávamos, juiz de Israel, morreu e foi enterrado em Camom.

Come on, eu preciso já ir.
— Vai indo, daqui a pouco eu tô lá.
— Legal. E vê se fala pro Sam ir.

Ah, sinto muito, não resisti.

— MEU NOME É GAL
E PROCURO ME CORRESPONDER COM UM RAPAZ
QUE SEJA O TAL

[abre a blusa mostrando as muchibinhas]
— E NÃO FAZ MAL
QUE ELE NÃO SEJA BRANCO, NÃO TENHA C…

Ô! QUE PORRA É ESSA!
A revolta de Gal, ué…
COMO??? Ah. Putz, errei o título. Foi mal aê, vou começar de novo. Minha senhora, guarde esses peitos, pelamordedeus…

A revolta de Gaal

(Juízes 9:22-57)

Aham.
Governar Siquém era só o primeiro passo: em pouco tempo Abimeleque se tornou governante de todo o Israel. Só que ele era um ditador, claro, e depois de três anos os habitantes de Siquém, seus primeiros aliados, começaram a se rebelar, chegando mesmo a colocar homens escondidos no alto das montanhas para matar Abimeleque. Esses homens assaltavam quem passasse pelo caminho, espalhando pânico pela região. O ditador ficou sabendo disso e tomou a única providência que sua mesquinhez permitia: não chegar nem perto do caminho que passava pelas montanhas, permanecendo o máximo possível em Arumá, sua cidade de residência. Esse Abimeleque só era macho mesmo na companhia de seus capangas, porque sozinho…
E é nesse ambiente de total insegurança, quase de guerra civil, que surge Gaal.
— MEU NOME É GAL…
GAAL! GAAL, PORRA!
— Ah…
Não se sabe muito sobre Gaal: só que era filho de um tal Ebede, que se mudou com seus irmãos para Siquém e logo conquistou a simpatia do povo, chegando mesmo a considerar-se um nativo da cidade. Numa das festas patrocinadas por ele no templo de Baal-Berite, Gaal bebeu um pouco mais do que devia e soltou a língua:
— Coé a desse tal de Abimeleque, hein? Quem esse mano pensa que é? Tá, é filho de Gideão e tal, mas e daí? E nós, somos o quê, um bando de covardes? E nosso governador, Zebul, que só falta empinar a bundinha pro Abimeleque? Que palhaçada! Ah, se eu mandasse alguma coisa por aqui… Ia lá peitar o feladaputa. “Ô, se você é tão macho e seu exército é tão bom, por que você não sai daí pra lutar, hein?”. Mas vou fazer o quê? Mando em nada…
É regra bastante conhecida a que diz que em todo lugar há pelo menos um dedo-duro, e a festa no templo de Baal-Berite não seria exceção: o fio desemcapado correu pra despejar nos ouvidos de Zebul tudo o que Gaal dissera. O governador ficou com muita raiva, e mandou uma mensagem a Abimeleque:

Meu Grande Soberano Abimeleque, Cuja Glória Ofusca o Brilho do Sol

Sinto muito perturbar a graciosa paz de Vossa Magnificência com assuntos mundanos, mas a situação não me deixa alternativas. Vossa Luminescência ouviu falar de um tal Gaal, filho de Ebede, que hoje mora aqui de Siquém? Saiba que esse fulano anda atiçando o povo da cidade contra Vossa Rejubilescência. Como se os problemas que Vossa Magnânima Pessoa já não fossem suficientes!
Sei que nada sou, apenas um reles servo e admirador de Vossa Reverendíssima. Mesmo assim, atrevo-me a sugerir um plano de ação, que Sua Santidade não me leve a mal. Eis o plano: durante a noite, Vossa Circunferência sai com seu magnífico exército, e todos se escondem nos campos em volta de Siquém. Amanhã, assim que nascer o sol, vosso exército de bravos ataca a cidade. E quando Gaal sair para lutar com seus homens, aí Vossa Beligerância ataca com tudo o que tiver.
Apenas uma sugestãozinha de seu mui humilde servo,

Zebul

Descontando o tom um tanto quanto bajulatório — e ignorante — da mensagem, o plano de ataque era bom. Então Abimeleque mandou uma mensagem a Zebul:

Z,

Tá.

A.

À noite Abimeleque saiu com seu exército dividido em quatro grupos, e fez tudo exatamente conforme a idéia de Zebul. Só que aconteceu um imprevisto: bem antes do nascer do sol, talvez pressentindo algo de errado, Gaal juntou seus homens e foi para o portão da cidade. Zebul, vendo que seu plano corria um sério risco, foi junto para ver o que acontecia. Enquanto isso, vendo movimentação nos muros em hora tão imprópria, Abimeleque ordenou a seus homens que se aproximassem devagar da cidade, rastejando e fazendo o mínimo possível de barulho.
— Ih, Zebul, olha lá! Tem gente descendo das montanhas na nossa direção!
— Cê tá com sono, Gaal. São as sombras das montanhas, só isso.
— Mané sombras! Tá doido? Olha ali, ali, ali e ali. São quatro grupos. Acho que é um ataque! Será que o filho-da-puta do Abimeleque criou coragem de repente e resolveu nos atacar?
— Ué… Não foi você que falou que não sabia por que nos deixávamos governar por Abimeleque, que ele era covarde e coisa e tal? E então, cadê toda aquela conversa?
— H-hein??? Como você… SE EU PEGAR O DEDO-DURO DESGRAÇADO QUE ANDOU FALANDO COISAS POR AÍ, EU JURO QUE…
— Calma, Gaal, Calma! Você fala demais, quero ver se serve para agir também. Aqueles são os caras de quem você tirou sarro no dia da festa; vá até lá e lute com eles. Se é que você tem coragem…
Percebendo que responder à provocação de Zebul só daria mais tempo ao inimigo, Gaal tratou logo de chamar seus homens para atacarem o exército de Abimeleque. E no fim das contas o negócio de Gaal era só falar mesmo: levou um coça inesquecível, e fugiu correndo para a cidade. Abimeleque, então, resolveu voltar para Arumá, e Zebul expulsou Gaal e seus irmãos de Siquém.
Fim dos problemas? É óbvio que não. De fato, passada a refrega (refrega!), os ânimos se acalmaram em Siquém. Os homens até saíram para trabalhar nos campos normalmente no dia seguinte. E aí começaram os problemas: Abimeleque ficou sabendo que os habitantes da cidade estavam desprevenidos, então saiu de Arumá com três grupos de soldados. Enquanto Abimeleque e seu grupo atacavam de surpresa nos portões da cidade, os outros dois grupos atacaram quem estava no campo, matando todo mundo. Os chefes da Torre de Siquém souberam do que estava acontecendo, e foram depressa se esconder dentro do templo de Baal-Berite, a construção mais resistente da cidade. Arrombar a porta do templo e depois matar as cerca de mil pessoas que estavam lá dentro seria muito trabalhoso. Então Abimeleque subiu ao monte Salmon, cortou um galho de árvore e ordenou a todos seus homens que fizessem o mesmo. Depois desceram até a cidade, empilharam os galhos contra a parede do templo e atearam fogo. O templo incendiou-se, e todos os que ali se abrigavam morreram carbonizados.
Embrigado com o cheiro de sangue e carne queimada, Abimeleque decidiu que ainda queria mais carnificina. Devia ser cedo ainda, sei lá. Sei que foi com seus homens até Tebes, cercou a cidade e a conquistou. Todos os habitantes correram para se esconder na torre da cidade, e ficaram no terraço. Abimeleque resolveu fazer o mesmo que fizera com o templo em Siquém. No entanto, quando ainda empilhava a lenha perto da porta da torre, uma mulher jogou lá de cima uma pedra de moinho. A pedra caiu em cheio sobre a cabeça do ditador, abrindo-lhe o crânio. Ainda consciente, ele gritou para seu ajudante de ordens:
— Rápido, moleque! Tire a sua espada e me mate. Não quero que digam por aí que fui morto por uma mulher, seria desmoralização demais.
Oras, quem não ficaria feliz em matar um sanguinário desses? O rapaz cumpriu logo a ordem, e assim acabaram-se os dias de glória de Abimeleque em Israel.
O que nos lembra aquela história sem pé nem cabeça do Jotão, das árvores, que ele concluiu dizendo que sairia fogo de Abimeleque para queimar os homens de Siquém e vice-versa. Pois é… Não parece tão absurda agora, não é mesmo?

(Juízes 9:1-21)

Abimeleque, como eu disse no último capítulo, era filho de Gideão com sua amante de Siquém. A fama de seu pai era imensa, mas era difícil para ele aproveitar-se disso: era apenas um filho bastardo tendo que concorrer com setenta filhos legítimos. No entanto, ele era esperto e não tinha medo de nada. Então, depois que Gideão morreu, Abimeleque começou a conspirar com seus parentes:
— Olha, eu tenho uma idéia muito boa. Vocês vão sair pela cidade, assim como quem não quer nada, perguntando a todo mundo: “É melhor ser governado por setenta filhos de Gideão ou por um só homem de sua própria terra?”.
Seus parentes gostaram da idéia, e saíram botando essa pulga atrás da orelha de cada habitante da cidade. A insegurança causada pela perspectiva de ter setenta irmãos disputando o poder, aliada ao bairrismo fez com que os homens de Siquém decidissem seguir Abimeleque. Deram a ele oitocentos gramas de prata (retirados do templo de Baal-Berite, o deus da moda então). Com a prata, Abimeleque contratou meia dúzia de vagabundos como capangas e foi para Ofra, terra de seu pai. Lá chegando, tratou de botar em prática a segunda parte de seu plano para tomar o poder, matando seus setenta irmãos sobre uma pedra. Bonzinho, né? Apenas Jotão, o caçula, conseguiu esconder-se, fugindo assim ao massacre.
Quando perceberam que Abimeleque não estava para brincadeira, os homens de Siquém acharam melhor não arriscar: reuniram-se com os homens de Bete-Milo e coroaram Abimeleque rei das duas cidades. Ao saber disso, Jotão ficou muito puto e subiu até o alto do monte Gerizim, de onde falou para eles, aos berros:
— Ô, seus filhos da puta! Escutem o que eu tenho a falar, prestem atenção, e Javé ouvirá vocês.
— Javé? Que Javé???
— Bah! Prestem atenção na história que eu vou contar. Aham… Uma vez as árvores resolveram que queriam ter um rei. Então…
— Peraí… As ÁRVORES resolveram que queriam um REI? Ah, Jotão, vai enganar outro!— Não, porra! É só uma PARÁBOLA!
— Er… Hein?
— BAH! Deixa eu terminar, cês vão entender no final. Então, as árvores resolveram escolher um rei. Logo de cara foram falar com a Oliveira, mas ela desdenhou o convite: “Governar vocês? Mas para isso eu ia ter que deixar de fornecer meu azeite, que honra aos homens e aos deuses, e dedicar todo o meu tempo a vocês. Nah, falem com outra árvore, eu não quero”. Ainda animadas, apesar da negativa da Oliveira, foram falar com a Figueira, que respondeu: “Eu não, credo! Ia ter que abandonar meus figos, tão docinhos, por vocês. Tô fora”. Já meio desanimadas, as árvores foram falar com a Parreira. E ela: “Tão doidas? E deixar homens e deuses sem vinho? De jeito nenhum!”. Em desespero de causa, e sem alternativa melhor, foram falar com o Espinheiro, que disse: “Querem que eu seja rei de vocês é? Hum… Tá bom. Tô fazendo nada mesmo… Mas é o seguinte: se vocês querem mesmo que eu seja rei, venham para debaixo da minha sombra. Se não o fizerem, sairá fogo do espinheiro e queimará os cedros do Líbano”.
— …
— …
— Tá, e daí?
— E daí o quê??? Acabou a história, é isso.
— Que merda de história!
— Ô seus burros! Será que não conseguem compreender uma metáfora?
— Uma o quê???
— Ai meu saco… O que eu quero dizer é: será que vocês foram sinceros ao escolherem Abimeleque como rei de Siquém? E será que respeitaram a memória do meu pai? Lembrem-se do quanto ele lutou por vocês, arriscando a própria vida para expulsar os midianitas de Israel. E como vocês retribuíram?
— Com trinta quilos de ouro…?
— Er… Tá, mas isso foi há muito tempo.
— A expulsão dos midianitas também!
— Tá, tá, não importa! O negócio é que vocês mataram meus setenta irmãos. É assim que vocês honram a memória de Gideão?
— …
— Pois é! Mataram meus irmãos e depois escolheram Abimeleque, um filho de escrava, para ser o rei de vocês. Bonito, hein? Agora, se vocês acham que o que fizeram foi algo bom e sincero, então sejam felizes com seu novo rei. Do contrário, que saia fogo de Abimeleque para queimar os homens de Siquém e Bete-Milo. E vice-versa!
— Hein? Sair fogo? Jotão, acho que cê anda assistindo muito seriado japonês… Jotão…? JOTÃO?
Mas Jotão já havia fugido. Não era besta nem nada, sabia que Abimeleque não desperdiçaria nenhuma oportunidade para matá-lo. Então fugiu e foi morar em Beer, a cidade de nome mais legal de toda a Bíblia.

(Juízes 8:22-35)

Depois de ver de que maneira espetacular Gideão derrotara os invasores midianitas, alguns homens foram falar com ele:
— Gideão, cê é foda.
— Que é isso…
— Nah, sem falsa modéstia: cê é foda. O que você fez com os midianitas foi impressionante. Então pensamos, conversamos e decidimos que queremos que você seja rei de Israel, assim como seus descendentes.
— Hum… Rei, é?
— É. Rei. E aí, aceita?
Gideão ficou pensativo. Ser rei era uma honra e tanto. Mas e o trabalho que dava, a dor de cabeça? Pensou bem e se saiu com uma resposta espertalhona, bem ao seu estilo:
— Não serei rei de vocês, nem meu filho: Javé será o rei hoje e sempre. Mas…
— Mas…?
— Sabem aqueles brincos que os midianitas usavam? Se vocês pudessem me dar eles…
— Vai usar brinco agora, Gideão?
— Claro que não, ó caralho! É pelo ouro mesmo. Acho que mereço um pequeno espólio de guerra, não?
— É claro. Daremos os brincos a você então. Uma pena você não querer ser rei de Israel.
— O único rei de Israel é…
— Javé. Tamos sabendo.
Então eles estenderam uma capa no chão, e cada um pôs sobre ela os brincos que havia tomado dos midianitas. Com isso Gideão ganhou quase trinta quilos de ouro. Estava rico, portanto. E duvido que vocês adivinhem o que ele fez com tanto ouro… Ele pegou todos os brincos, mandou fundir e fez um ídolo! Sim, Gideão, que acabara de libertar Israel com ajuda de Javé, descambou pra idolatria assim que pôde. Ele botou o ídolo em Ofra, sua cidade, e todos os israelitas abandonaram Javé e foram adorar o deus de Gideão.
— Vixe. Javé deve ter ficado mais puto do que nunca. O que ele fez?
Nada.
— NADA???
Pois é. Javé, que fizera os israelitas beberem o ouro fundido do bezerro que adoravam enquanto Moisés estava no alto do Sinai, resolveu fazer vista grossa à idolatria de Gideão. Aliás, se pensarmos bem, Gideão é um herói bíblico um tanto atípico: primeiro teve coragem de duvidar de Javé várias vezes antes de cumprir suas ordens, depois equiparou-se a ele (quando ordenou a seus homens que invadissem o acampamento midianita gritando “Por Javé e Gideão!”). Talvez embasbacado por tamanha ousadia, Javé não soube o que fazer com Gideão, e foi deixando. Quando ele resolveu desafiá-lo frontalmente, adorando a outro deus sob suas barbas, por assim dizer, Javé já estava desmoralizado.
Seja como for, Gideão viveu por mais quarenta anos, durante os quais reinou a paz em Israel. Ele teve setenta filhos de várias esposas, e mais um de uma concubina, em Siquém. Esse último, chamado Abimeleque, ainda vai dar muito trabalho. Mas isso fica para os próximos capítulos. Por enquanto, vamos chorar a morte de Gideão, o personagem bíblico que mais desafiou a autoridade divina. E não sofreu qualquer castigo por isso, muito pelo contrário.

(Juízes 8:1-21)

No penúltimo capítulo, vimos que Gideão formou seu exército com homens de Manassés, Aser, Zebulom e Naftali. Depois da batalha contra os midianitas, os homens da tribo de Efraim foram falar com Gideão. Os efraimitas eram os melhores guerreiros de Israel, e ficaram indignados por não terem sido chamados logo no começo dos preparativos para a guerra.
— Porra, Gideão, como cê dá uma mancada dessa? Achamos que cê fosse nosso mano. Qual o quê! Na hora que o bicho pegou, convocou um monte de bundas-moles e se esqueceu de Efraim. Tá doido?
Gideão, que de besta não tinha nada, contornou bem a situação:
— Que é isso, meus amigos? Não entendo a reclamação de vocês. Tá certo, eu não convoquei ninguém da tribo de vocês para o meu exército. Tudo bem. Mas vejam o que eu fiz contra os midianitas e o que vocês fizeram. Vocês mataram os príncipes deles! O que eu e meus homens fizeram não é nada comparado a isso. E era de se esperar, não? Afinal de contas, os descendentes de Efraim são os homens mais valentes de Israel.
— Pô, também não é pra tanto…
— Claro que é! Eu sou fã de vocês. Cá entre nós, queria ter nascido efraimita.
— Ô, Gideão, assim cê deixa a gente sem graça…
— Mas é tudo verdade.
— Hum. Pô. Obrigado, então. Valeu mesmo.
Os efraimitas podiam ser os melhores guerreiros, mas não eram imunes à lisonja. Assim Gideão se livrou deles e continuou a perseguir os midianitas. Arrá, pensaram que já tinha acabado, né? Que nada! A batalha continuava. Os trezentos homens, quase mortos de cansaço, atravessaram o Jordão atrás dos midianitas. Chegando a Sucote, Gideão foi falar com os homens da cidade:
— Ô, meus camaradas! Estou perseguindo Zeba e Salmuna, os líderes midianitas. Vou ver se livro a região dessa praga. Só que meus homens estão mais pra lá do que pra cá, então resolvi vir aqui ver se vocês podiam arrumar um pouco de comida pra gente.
— Zeba? Salmuna? Cadê?
— Ai caralho… Eu falei que tô perseguindo os caras. Não peguei ainda.
— Pffff… E por que daríamos comida ao seu exército, se vocês nem prenderam os chefes midianitas.
— Ah, é assim? É assim? Tudo bem. Vamos continuar nosso caminho. Mas quando eu pegar Zeba e Salmuna, volto aqui e rasgo a carne de vocês com os espinhos das plantas do deserto.
Emputecido, Gideão foi com seus homens até a cidade de Penuel para ver se conseguia alimento por lá. Os homens da cidade, porém, deram a mesma resposta que os de Sucote.
— Ah, puta que pariu! Cês vão ver! Cês vão ver! Eu vou prender os chefes midianitas, depois vou voltar aqui e derrubar essa torre aí.
Assim mesmo, famintos e cansados, os trezentos soldados continuaram sua perseguição aos midianitas. Zeba e Salmuna, os líderes midianitas sobrevivente, estavam em Carcor com seu exército. Dos 135 mil midianitas, amalequitas e demais beduínos, haviam sobrado apenas 15 mil. E não por muito tempo: Gideão levou seus homens pelo caminho que contornava o deserto e atacou o inimigo de surpresa. Os midianitas, que não entendiam nada de estratégia militar, demoraram a reagir mais uma vez. Resultado: todos mortos, com exceção dos líderes, que Gideão levou como troféu até Sucote. Lá chegando, amarrou os setenta e sete líderes da cidade e os açoitou com plantas espinhentas. Depois foi até Penuel, derrubou a torre e matou todos os homens da cidade. Fsito isso, tratou de resolver sua pendenga com Zeba e Salmuna.
— Vocês se lembram dos homens que mataram em Tabor?
— Tabor? Homens? Matamos?
— RESPONDAM A PERGUNTA!
— Lembro sim.
— É, eu também.
— Lembram da cara deles?
— Ah, pareciam uns princípes!
— Noffa, cada rapagão!
— Eram parecidos com você, sabia?
— Sabia. ERAM MEUS IRMÃOS, SEUS FILHOS DA PUTA!
— Er… Irmãos?
— É! Irmãos! Eu juro por Javé que, se vocês não tivessem matado meus irmãos, eu os deixaria viver agora. Mas também não vou sujar minha mão com o sangue de vocês. Jéter!
— Oi, pai.
— Pega a espada e mata esses dois.
— Mas… Mas…
— Mas o quê? Tá com medo de matar dois midianitas mequetrefes?
— Não é isso.
— É o quê, então?
— É QUE EU SÓ TENHO OITO ANOS!
— Ah, é. Vai brincar lá fora, deixa que eu faço o serviço. Ô porra de moleque que não cresce logo…
Então Gideão matou Zeba e Salmuna, terminando assim a guerra contra os midianitas. Finalmente.

(Juízes 7)

Tendo recebido de Javé todos os sinais que solicitara, Gideão não teve outra alternativa senão sair com seus homens para atacar os midianitas. Então eles saíram e acamparam numa tal fonte de Harode, ao sul do acampamento dos midianitas. E Javé foi até lá para falar com Gideão.
— Quanta gente, hein?
— Tá vendo, Senhor? O povo tá disposto mesmo a libertar Israel.
— Sei, sei… Mas você não acha que é muita gente não?
— Er… Como assim?
— Ah, Gideão, eu não nasci ontem. Aliás, eu não nasci nunca. Se você atacar os midianitas com esse exército enorme, depois o povo vai começar a dizer que derrotou os caras e ninguém vai se lembrar da minha interferência. Não: precisamos reduzir o número de soldados.
— Com todo respeito, Javé: cê tá doido??? Estou aqui com 32 mil homens. Você sabe quanto são os midianitas? São como gafanhotos e seus camelos…
— … São como os grãos de areia da praia. Tô sabendo. Mas você está se esquecendo de um detalhezinho…
— Qual?
— Tá esquecendo que eu sou é Deus, tá me ouvindo? DEUS!!! Comigo não tem essa de gafanhotos, de areia do mar, porra nenhuma. Agora você trate de convocar seus homens e dar o seguinte recado: quem for medroso, bunda-mole, mocorongo, tímido e zé-mané, pode voltar pra casa.
— Porra, Javé, e quem é que vai vestir uma carapuça dessa???
— Tenta…
Gideão juntou seus homens e passou o recado de Javé. Resultado: 22 mil bravos soldados israelitas enfiaram o rabo entre as pernas e voltaram pra debaixo da saia da mamãe.
— Puta que pariu, Javé! Meu exército foi reduzido a menos de um terço. Tá feliz agora?
— Hum… Ainda não. Gente demais.
— GENTE DEMAIS??? São dez mil caras contra uma caralhada de midianitas!
— Blibliabliblas®… Fala com a minha mão, Gideão. Tô dizendo que não tem pra ninguém, nós vamos derrotar esses caras aí. Mas o crédito será meu.
— Tá, tá… Que recado eu dou pros caras agora? Quem for canhoto, vá pra casa? Quem for míope? Quem tiver pau grande?
— Nah… Se você falar pra todo mundo que tiver pau grande ir pra casa, não fica um. Sabe como homem é mentiroso com essas coisas. Não, não: leve seus homens até a fonte para beberem água. Observe bem o jeito que cada um bebe. Aí você vai separar seu exército em dois grupos: de um lado, os homens que bebem levando as mãos em concha até a boca e lambendo a água; do outro, os que se ajoelham para beber.
— Testezinho esquisito esse, hein?
— Pois é. Pra descontar aquele da lã que você fez comigo…
— Tá bom, tá bom. Vou lá.
Gideão fez como Javé havia ordenado e separou os homens em dois grupos, tendo o primeiro apenas 300 homens e o segundo 9.700.
— Pronto, Javé. Fiz o teste. O exército foi reduzido a 9.700 homens. Tá bom agora?
— NOVE MIL E SETECENTOS??? Tá doido?
— Mané doido! Pode ver aqui, ó: é o número dos caras que se ajoelharam para beber.
— E eu lá vou querer um exército de homens que ficam de bunda pra cima por qualaquer coisa? Não senhor: você vai atacar os midianitas é com o outro grupo.
— Com os 300 homens, Javé?
— É.
— COM OS TREZENTOS HOMENS, JAVÉ?
— Não grita, porra. É, com os trezentos.
— COM OS TREZEN…
— PUTA QUE PARIU! Cê não acredita? Desce até o acampamento dos caras e ouve o que eles andam dizendo por lá.
— O que eles andam dizendo?
— Vai lá e vê, oras. Estão com medo de você.
— Sei, sei…
Gideão, desconfiado como sempre, resolveu ir mesmo até o acampamento dos midianitas. Chamou seu criado, Purá, e foram os dois até o primeiro posto avançado de sentinelas. Logo de cara, ouviram dois guardas que conversavam:
— Rapaz, tive aquele sonho hoje de novo.
— O do camelo?
— É. E dessa vez tinha um desses beduínos também.
— Putz, com um beduíno?
— É.
— Você precisa de mulher urgente.
— Eu sei, eu sei…
— Porra! Um camelo e um beduíno… Eu, hein… Ah, tive um sonho esta noite também.
— É mesmo? De putaria? Conta! Conta!
— Não, nada de putaria. Um sonho bem absurdo, na verdade. Sonhei que um pão de cevada torrado descia rolando ali do morro. Vinha rolando na direção do nosso acampamento. Veio vindo, veio vindo, e bateu na tenda do comandante. A tenda se desmontou toda e ficou estendida no chão.
— Ixe. Que sonho besta.
— Pois é.
— Mas, olha só… Acho que faz algum sentido.
— Faz?
— Parece. Cê ficou sabendo do tal Gideão? O cara juntou um exército pra lutar contra a gente. É um exército pequeno. Pequeno feito um pão de cevada…
— Oras, não fale bobagens!
— Sei não, sei não… Esses israelitas são malucos, e dizem que o deus deles é mais doido ainda.
Gideão ouviu isso e empolgou-se: voltou para o acampamento e convocou rapidamente seus homens. Repartiu os trezentos soldados em três companhias de cem e entregou a cada um trombetas e cântaros com tochas acesas dentro.
— Nós vamos lá para o acampamento dos midianitas agora. Vocês olhem para mim e façam tudo o que eu fizer.
As três companhias desceram silenciosamente até onde os midianitas estavam. Cada homem levava uma trombeta numa das mãos e um cântaro na outra. Chegaram ao acampamento inimigo pouco depois da meia-noite, logo após a troca das sentinelas. Então Gideão tocou sua trombeta e quebrou seu cântaro, descobrindo assim a luz da tocha. Os cem homens de sua companhia o imitaram, assim como as outras duas companhias: todos tocaram suas trombetas, quebraram seus cântaros e gritaram: “Por Javé e Gideão!”.
Imaginem agora a cena do ponto de vista dos midianitas: era tudo silêncio e paz no vale. De repente soam trombetas, ouve-se o barulho de coisas se quebrando, e vê-se a luz de tochas surgidas como que por milagre, ao mesmo tempo em que trezentas vozes gritam o nome do deus e do líder de Israel. Meia-noite, todo mundo com sono, bêbado ou ambos, e não deu outra: confusão no acampamento, susto generalizado. Começaram a lutar uns contra os outros, uns fugiram.
— Puxa vida! Aí os trezentos israelitas acabaram com a raça dos milhares de midianitas?
É claro que não! Homens das tribos de Naftali, Aser e Manassés foram chamados, e eles ajudaram os homens de Gideão na perseguição ao inimigo. Mensageiros foram enviados a Efraim, convocando-os para tomarem todas as fontes de água e o Jordão, para assim matarem os midianitas de sede. Os efraimitas assim fizeram e ainda prenderam os dois príncipes midianitas, Orebe e Zeebe. Ambos foram mortos e suas cabeças levadas até Gideão.
Com essa impressionante vitória sobre os midianitas, até então tidos como invencíveis, Gideão começou a experimentar as dores de cabeça e também a glória de estar numa posição de destaque. Veremos como foi isso no próximo capítulo.