Adivinhem o que aconteceu depois que Eúde morreu?
— Hummmm… Enterraram Eúde!
Er… Sim. Enterraram Eúde, tá certo. E depois?
— Missa de sétimo dia!
Ai caralho… Deixa eu reformular a pergunta. Adivinhem o que aconteceu com o povo de Israel depois que Eúde morreu?
— …
O POVO VOLTOU A ADORAR OUTROS DEUSES, A SE MISTURAR COM OS CANANEUS, AQUILO DE SEMPRE, PORRA!
— Ah, é…
Humpf. Como castigo por sua infidelidade, Javé permitiu a Jabim, rei cananeu que governava a cidade de Hazor, que dominasse Israel. O que deve ter sido bem difícil porque, como vimos antes, Hazor havia sido totalmente destruída, e Jabim morto pelo próprio Josué. Bom, paciência. Se vocês querem verossimilhança, procurem outras leituras: a Bíblia é assim mesmo. Vamos, portanto, fazer de conta que Jabim não morreu e que Hazor continuava de pé. Pois bem, Jabim dominou Israel durante vinte anos, e maltratou muito o povo. Seu exército era impressionante, contando com novecentos carros de ferro e milhares de soldados comandados por um tal de Sísera.
Enquanto isso, Débora, mulher de Lapidote, era juíza em Israel. Não me perguntem como foi que uma mulher conseguiu atingir tal importância numa sociedade tão machista, porque eu não sei. O fato é que ela era respeitada. Débora sentava-se sob uma palmeira no caminho entre Ramá e Betel, e o povo vinha até ela para que julgasse questões. Tá, eu sei que não é lá um grande sistema jurídico, mas foi o que se pode arrumar na época.
Um dia, cansada da apatia do povo diante da opressão estrangeira, Débora mandou chamar um certo Baraque, filho de Abinoão (!!!) e morador de Quedes, cidade da tribo de Naftali.
— Ô, Debbie! Mandou me chamar, querida?
— Mandei sim…
— E em que posso servi-la, meu docinho de coco?
— Pra começar, tira a mão de mim. E se me chamar de docinho de coco outra vez, corto-lhe os bagos.
— Pô, Debbie, relaxa…
— Relaxa? RELAXA??? Israel há vinte anos sendo humilhado por esse filho-da-puta desse Jabim e você me fala pra RELAXAR???
— Tá vendo? Cê só pensa em política! Assim não dá, Debbie.
— Ah, cala a boca e me escuta. Seguinte: eu tava falando com o Javé hoje e…
— PORRA! CÊ FALA COM O JAVÉ???
— CLARO QUE EU FALO, CARALHO. Cê acha que eu virei juíza como? Dando a bunda???
— …
— Humpf. Então, Javé mandou dizer que é pra você juntar dez mil homens de Naftali e Zebulom e levar esse exército ali para o monte Tabor. Enquanto isso, Deus vai fazer com que Sísera venha com seus soldados para lutar contra você. E você vai sair ganhando.
— Pô, Debbie, num fode…
— CONFIE EM JAVÉ, ÍMPIO!
— Hum… Tá, eu confio. Vou lá juntar os caras pra lutar contra Sísera. Mas com uma condição…
— Qual?
— Você vai comigo…
— Ai, meu saco.
— Pô, Debbie! Vai ficar aí sentada embaixo dessa palmeira enquanto a gente se diverte?
— Tá bom. Eu vou com você. Só que você não vai receber as honras dessa vitória, porque Javé vai entregar a vida de Sísera nas mãos de uma mulher.
— De uma mulher??? Não inventa, Debbie! Você acha MESMO que pode matar o milico mais poderoso de toda a região?
— Veremos…
Os dois foram para Quedes, e Baraque tratou logo de convocar os homens para seu exército. Sísera ficou sabendo da insurreição que começava a se formar em Israel, e tratou logo de ir reprimi-la. Ao ver do alto da montanha aquela multidão de soldados, com carros de ferro e tudo, Baraque quase se cagou todo. Se Débora não estivesse ali com ele, teria ordenado meia-volta a seus soldados. Mas a juíza estava firme:
— Larga mão de ser bunda mole, Baraque! É hoje que o bicho vai pegar!
— O bicho vai pegar, estraçalhar, comer… Olha ali quanta gente, Debbie! Eles vão acabar com a gente!
— Confie em Javé, imbecil! E ME OBEDEÇA!
Sem muita alternativa, Baraque desceu do monte Tabor com seus homens, marchando devagarinho para aproveitar o resto de vida que ainda tinha. O improvável aconteceu, porém: os israelitas começaram a prevalecer sobre o exército de Sísera. Empolgado pela possibilidade de derrotar os cananeus, Baraque saiu em seu encalço. O exército inimigo debandava, com israelitas sedentos de sangue correndo atrás. Todos os soldados cananeus foram mortos pelos israelitas, com exceção do comandante Sísera que, tendo corrido até Harosete-Hagoim com Baraque nos seus calcanhares, conseguiu esconder-se numa tenda. A dona da tenda foi muito simpática com ele:
— Ô, tadinho! Correndo dos israelitas, é? Que malvados! Pode entrar, meu querido, vou proteger você — e o escondeu sob uma coberta.
Acontece que essa mulher, chamada Jael, era esposa de Héber, o queneu. Até aí tudo bem, porque a família do rei Jabim até se dava bem com os queneus. Só havia um detalhe: esse Héber era descendente de Jetro, o qual, caso vocês não se lembrem, era sogro de Moisés. Preciso nem falar de que lado sua família estava nessa guerra. Sísera, no entanto, não sabia de nada disso, e sentia-se aliviado:
— Muito obrigado, minha querida, muito obrigado! Ah, malditos israelitas… Vim correndo desde o rio Quisom até aqui, perseguido por eles.
— Puxa!
— Pois é! Tô morrendo de sede. Será que a senhora não poderia me dar um pouco d’água?
— Olha, eu tenho leite aqui nesse odre.
— Serve… Ah, muito obrigado! Olha, eu vou dormir um pouco, estou muito cansado. Se alguém perguntar, você não me viu, tá bom?
— Pode ficar sossegado.
— Obrigado. Muito, muito obrigado. Serei eternamente grato à senhora.
— Que é isso! Deixa pra lá.
Sísera foi dormir muito feliz, e logo pegou num sono pesado. Quando viu que o comandante cananeu já roncava alto, Jael pegou uma estaca da tenda e um martelo. Aproximou-se devagarinho de onde ele dormia e — PÁ! — cravou-lhe a estaca na testa. A estaca atravessou a cabeça e penetrou na terra do outro lado.
— O cara morreu?
Não, ficou com uma dor de cabeça do cão. E Jael não tinha nem Neosaldina em casa.
— Ah bom…
CLARO QUE MORREU, CÁSPITA! E Jael, esse doce de mulher, saiu da tenda e viu Baraque se aproximando. Ele veio falar com ela.
— Ô dona! A senhora por acaso não terá visto um comandante passando por aqui?
— Vi sim, e sei onde ele está. Quer que eu te mostre?
— Claro! Arrá, devia ter apostado com a Debbie! Agora vou matar esse mequetrefe.
— Hum… Olha, acho que não — Jael afastou o véu da tenda para que Baraque entrasse, e ele viu Sísera morto ali, pregado ao chão pela cabeça.
— MEU DEUS! Quem fez essa barbaridade??? Que coisa horrível, o pobre homem devia estar dormindo! Que covardia!
— Er… Fui eu.
— Você? MAS VOCÊ É SÓ UMA MULHER!
— Só uma mulher? SÓ UMA MULHER??? Pois saiba, meu caro, que não há nada que um homem possa fazer que uma mulher também não possa! Está chegando ao fim a manutenção desse status quo ultrapassado, com os homens sempre em posição dominante e as mulheres subservientes e humilhadas o tempo todo! As mulheres estão se conscientizando cada vez mais do papel chave que desempenham na sociedade e…
— Tá, tá! Porra, já me basta a Débora fazendo esse discurso todo dia. Bom, obrigado pelos serviços prestados, Dona…
— Jael.
— Dona Jael. Vou ver se a gente consegue providenciar uma medalha pra senhora.
— Muito obrigado.
Com isso, encerrou-se a batalha e os homens de Jabim foram humilhados. Depois de terem seu comandante assassinado por uma mulher desarmada, os cananeus ficaram desmotivados, e em pouco tempo a vitória de Israel foi completa. Não conseguindo conter sua alegria, Débora e Baraque convocaram o povo e deram um show. Preparem-se, portanto, para mais uma musiquinha do Velho Testamento. Mas só no próximo capítulo.
Categoria: Bíblia
Os primeiros Juízes
Oba, vamos começar com a sanguinolência!
Arram…
Vamos ao terceiro capítulo do livro dos Juízes, foi o que eu quis dizer.
Como vimos no capítulo anterior, alguns povos continuaram habitando Canaã ao lado dos israelitas. Eram os filisteus (Tava jogando sinuca / uma nega maluca / me apareceu / tinha um menino no colo / e dizia pro povo / que o filho era meu. / Toma que o filisteu, skindô / toma que o filisteu), mais os cananeus, sidônios e heveus que moravam nos montes Líbanos. O povo de Israel se deixou influenciar por esses caras, claro: esse negócio de ter um deus só perde totalmente a graça quando se convive com povos politeístas. Depois de algum tempo a maior parte dos israelitas nem se lembrava mais de quem era Javé. Ele, furibundo, tratou de refrescar a memória do povo permitindo que Cuchã-Risataim, rei da Mesopotâmia, conquistasse Israel. E quando eu falo em conquistar, é claro que não estou falando em mandar flores, levar para jantar, nada disso: Cuchã-Risataim veio com seu exército, matou um monte de israelitas e anexou Israel a seu território. E é claro que o povo se lembrou de Deus quando a água bateu na bunda: os israelitas começaram a implorar a Javé que os libertasse.
Javé atendeu o pedido do povo mandando que Otoniel, filho de Quenaz (que era irmão mais novo de Calebe, neguinho, Calebe!), assumisse a liderança daquela balbúrdia e guiasse o povo. Esse Otoniel já havia se destacado numa ocasião, quando Calebe foi expulsar os anaquins de suas terras. Ele já havia conquistado Hebrom, mas ainda faltava Debir (ainda chamada Quiriate-Sefer). Então teve a idéia de dar a mão de sua filha, Acsa, em casamento àquele que conquistasse Quiriate-Sefer. Otoniel juntou uns homens, foi até lá, derrotou os anaquins e desposou sua prima. Acsa era dessas mulheres mandonas, e exigiu que Otoniel fosse falar com Calebe para que este desse ao casal terras que tivessem fontes de água. Pode parecer bobagem, mas no meio do deserto água é o bem mais precioso. Calebe, gente boa como sempre, deu à filha e ao sobrinho/genro todas as fontes de suas terras.
Graças a sua intrepidez (uia!), Otoniel foi escolhido para ser o primeiro dos Juízes. Tratou logo de trabalhar: reuniu seu exército, declarou guerra à Mesopotâmia e venceu, libertando Israel. Depois disso ele ainda viveu mais quarenta anos, e houve paz durante todo esse tempo.
Depois da morte de Otoniel, porém, o povo voltou a assimilar a cultura dos povos da região, adorando seus deuses e emputecendo Javé. A conseqüência não tardou: Eglom, rei de Moabe, aliou-se aos amonitas e amalequitas, invadiu Israel e tomou Jericó, a Cidade das Palmeiras. Israel viveu sob o domínio dos moabitas por dezoito anos. Quando, no entanto, o povo resolveu voltar a pedir ajuda a Javé, este escolheu um tal de Eúde para ser líder do povo. Esse Eúde, benjamita, era canhoto e muito malandro, como veremos.
De tempos em tempos os israelitas tinham que enviar seus impostos a Eglom. Os impostos eram recolhidos, conferidos e levados por um mensageiro. Quando calhou de Eúde ser o escolhido para levar o dinheiro ao Rei de Moabe, ele resolveu que Israel já tinha sofrido demais. Preparou então um punhal de quase meio metro de comprimento e botou o pé na estrada junto com alguns carregadores. “Pô, mas um punhal de meio metro? Para que tanto?”. Pois acontece que Eglom era gordo. Muito gordo. Coisa de circo mesmo. Um punhal de tamanho normal apenas arranharia suas várias camadas de tecido adiposo.
Eúde escondeu o punhalzão sob as roupas, foi para Gilgal (cidade onde ficava o palácio de Eglom) entregou os tributos e mandou os carregadores de volta pra casa. Feito isso, foi falar com o rei, que estava jantando:
— Majestade, tenho uma informação ultra-secreta para dar ao senhor.
— O que é? — perguntou o rei, de boca cheia — Seu povo está tramando alguma? Olha que eu acabo com a raça de vocês!
— Não. É… É outra coisa.
— Fala, porra! Fala logo, senão cê tá fodido! — ameaçou Eglom, borrifando farofa por todo o recinto.
— Mas é que…
— É o quê? Ah, não quer falar na frente dos outros? Fresco… Tudo bem! Saiam todos daqui, que o israelita quer me contar alguma coisa.
Todo mundo saiu da sala.
— Muito bem. O que é que você quer dizer de tão importante? Vai, desembucha!
— É um recado de Javé para o senhor.
— De quem?
— Javé, o nosso Deus.
— Pff… E o que o deusinho de vocês tanto quer me dizer?
— Ele me mandou dizer o seguinte… Er… O senhor poderia chegar mais perto?
— Ô inferno! — Eglom levantou-se, com muita dificuldade, e se aproximou de Eúde — Pronto. Agora fala logo, caralho!
— Chega só mais um pouquinho…
— ASSIM TÁ BOM?
— É que eu prefiro cochichar, se o senhor não se importar, é claro. Sabe como é, as paredes têm ouvidos…
— Ó, MEU SACO! — a contragosto, o rei inclinou-se na direção de Eúde — Agora fala!
— Seguinte. Javé mandou dizer o seguinte: Gordo, baleia, saco de areia!
— COMO É Q…
Mas Eglom não teve tempo de expressar sua indignação: Eúde já havia metido a mão esquerda por dentro da roupa e puxado o punhal, que enterrou com força na barriga do rei. O punhal atravessou a pele, tooooooooda a gordura, a carne, os órgãos internos e saiu entre as pernas. Capado e, pior ainda, morto, nunca mais Eglom ia fazer neném. Depois de matar o rei, Eúde agiu rápido: trancou todas as portas, saiu pela janela e foi embora assoviando. Os empregados do palácio chegaram e viram que as portas estavam trancadas, mas nem se preocuparam: o rei devia estar cagando, que era só o que ele fazia, além de comer. Anoiteceu, porém, e nada do rei abrir a porta. “Que cagança comprida é essa?”, perguntavam-se os empregados. Bateram à porta e nada de Eglom responder. Então pegaram a chave, abriram a porta, e deram com seu soberano caído morto no chão, a gordura saindo pela ferida aberta pelo punhal. Coisa bem nojenta de se ver.
Enquanto os empregados ainda não sabiam da morte de Eglom, Eúde já havia chegado às montanhas de Efraim. De lá, tocou uma corneta de chifre de carneiro para chamar os israelitas para a guerra.
— Vãobora, povo! Vamos acabar com a raça dos moabitas! Já matei o leão-marinho que eles chamam de rei; vamos pegá-los agora que estão de cabeça quente!
Os soldados desceram e tomaram a região do Rio Jordão por onde os moabitas costumavam passar. Mataram dez mil moabitas na batalha, reconquistando a soberania de Israel. Dessa vez houve um período de paz bem longo: 80 anos, até a morte de Eúde. Nesse meio tempo, só os filisteus chegaram a dar algum trabalho. Mas um tal Sangar, filho de Anate, cuidou bem da situação, matando seiscendos seiscentos filisteus com um ferrão de tocar bois.
É óbvio que depois que Eúde morreu o povo voltou a adorar outros deuses, aquele negócio de sempre. Foi quando surgiu Débora, a primeira liderança feminina da história de Israel. Mas falaremos bastante dela nos próximos capítulos.
Juízes – o começo
— Ê, já começou na base da preguiça…
Nada disso, nada disso! Esses dois primeiros capítulos do livro dos Juízes são, na verdade, uma rápida narração do que aconteceu no período entre a morte de Josué e a subida dos Juízes ao poder. Sendo assim, achei por bem condensá-los num só capítulo por aqui.
Logo no começo, então, ficamos sabendo que as tribos de Judá e Simeão aliaram-se para expulsarem os cananeus e perizeus de seus territórios. Eles expulsaram os dois povos, matando dez mil homens numa cidade chamada Bezeque. Por lá encontraram um certo Adoni-Bezeque. Sei não, mas acho que não era o nome do cara: baseado em meus rudimentares conhecimentos de hebraico, arriscaria dizer que Adoni-Bezeque significa “O Senhor de Bezeque”. Bom, não importa: o negócio é que os judaítas (ou judeus!) e simeonitas perseguiram e prenderam Adoni-Bezeque. Esse cara tinha o costume de cortar os polegares e dedões dos pés dos reis das cidades que conquistava. Já havia feito isso com setenta reis, que então apanhavam megalhas sob sua mesa. Os israelitas, inspiradíssimos, fizeram a ele o que ele havia feito aos outros, e o levaram cativo para Jerusalém, onde morreu.
Jerusalém??? Pois é! Jerusalém foi incorporada ao território israelita pela primeira vez na História: os homens de Judá mataram todos os seus habitantes e atearam fogo à cidade. Depois disso, lutaram contra os cananeus que moravam nas montanhas, no deserto ao sul e nas planícies de Judá. Conquistaram também Zefate, e só não conseguiram expulsar os moradores de Gaza, Asquelom e Ecrom, cidades litorâneas, porque possuíam carros de ferro. Ué, alguém há de perguntar, mas Javé não podia dar uma forcinha? Eu devolvo a pergunta.
O que eu disse no parágrafo anterior? Que os homens de Judá invadiram Jerusalém e mataram seus moradores, certo? Pois é, mas verossimilhança não é o forte da Bíblia, então logo na segunda metade do primeiro capítulo de Juízes temos uma contradição gritante: é dito agora que os homens da tribo de Benjamim não expulsaram os jebuseus de Jerusalém, passando a conviver com eles. Nem vou tentar entender isso, pulo para a parte seguinte: Os povos das tribos de José (Efraim e Manassés) saíram juntos para a guerra. Quando foram atacar Betel (antes chamada Luz), pegaram um homem que ia saindo da cidade e o ameaçaram de morte caso não dissesse como os israelitas podiam entrar na cidade. O tal homem, que não era nada besta, entregou logo o serviço e os israelitas tomaram a cidade. Todos os habitantes foram mortos, com exceção do traidor e sua família, que se mudaram para a terra dos heteus e fundaram uma cidade chamada Luz, em homenagem a seu antigo lar.
Muito bem, uma conquistazinha aqui, um genocidiozinho ali, e os israelitas iam tomando posse definitiva da terra. Só que no processo foram desleixados algumas vezes. A tribo de Manassés, por exemplo, não expulsou os habitantes de Bete-Sã, Taanaque, Dor, Ibleão e Megido. A tribo de Efraim não expulsou os habitantes de Gezer, pelo contrário, ficaram morando com eles ali. A tribo de Zebulom não matou nem expulsou os moradores de Quitrom e Naalol, mas os fez escravos. O mesmo fez Aser com as cidades de Aco, Sidom, Alabe, Aczibe, Hleba, Afeca e Reobe, e Naftali com Bete-Semes e Bete-Anate. A tribo de Dã deu vexame maior ainda: foi expulsa para as montanhas pelos amorreus. Coisa triste.
Como se vê, os israelitas deixaram de cumprir uma ordem clara de Deus: matar todo mundo que estivesse no caminho. Javé ficou puto, como era de se esperar, e mandou um anjo para dar um recado a Israel:
— Aê, seus mequetrefes! Eu fiz de tudo por vocês, e vocês prometeram que seriam fiéis a mim, que me obedeceriam e não sei o que mais. Pois foi só o Josué morrer pra vocês começarem a fazer cagada, né? Acham que eu não tô vendo que há vários estrangeiros morando aí com vocês, é? Mas deixem estar: agora EU é que não vou querer que esses povos sejam expulsos: eles vão continuar morando aí entre vocês, e eles acabarão sendo seus inimigos. CÊS TÃO FODIDOS!
Quando o anjo terminou de dar seu rescado, o povo abriu o berreiro e começou a oferecer sacrifícios a Javé, pra ver se aplacava sua ira. Adiantou nada. Mesmo porque, influenciado pelos cananeus remanescentes em suas cidades, os israelitas começaram a adorar outros deuses. O que aumentou mais ainda a raiva de Javé, claro. Ele tentou até consertar a situação, indicando juízes para liderarem o povo.
E com isso começamos o tempo dos juízes, um período de grande instabilidade em Josué Israel. E com um começo muito chato, como acabamos de ver.
O livro dos Juízes – Introdução
Não. Não vou falar de Operação Anaconda aqui, fiquem tranqüilos. Já explico que negócio é esse de “Livro dos Juízes”.
Após a morte de Josué, Israel, uma nação recém-nascida, passou por um longo período de instabilidade política. Sem uma liderança forte e centralizadora, os israelitas sentiam-se livres. Só que se esqueceram que ninguém é livre quando tem um Deus ciumento e temperamental feito Javé; então esse período foi também de muito sofrimento para Israel. Numa tentativa de botar o povo na linha, alguns líderes foram indicados por Javé. Tais líderes eram chamados juízes. Os juízes sucediam-se em rápida seqüência, e foram os chefes de Israel até a insituição da monarquia, com o rei Saul.
O livro dos Juízes é um dos mais interessantes de toda a Bíblia. Nele encontramos, por exemplo, aquele que eu considero o maior dos super-heróis: Sansão. E não só ele: é um livro repleto de aventuras, reviravoltas e, mais importante, SANGUE!!!
Assim como Josué, Juízes é um livro curto: apenas 21 capítulos. Então não se preocupem: vai doer só um pouquinho…
A despedida de Josué
— Pooooooooovo de Israel…
— Aí, não falei? Voltou pro bis.
— É verdade. Mas bem que ele podia pular essa parte do “Pooooooooovo de Israel”.
— Pode crer. Mas vamos ouvir o cara.
— Eu tenho aqui uma carta de Javé pra vocês. Ele… Aham… Ele diz: “Há muitos séculos os antepassados de vocês moravam lá do outro lado do rio Eufrates e adoravam outros deuses. Dentre eles havia um cara chamado Tera, que tinha dois filhos: Abraão e Naor. Eu ia com a cara de Abraão, então fiz um trato com ele: se ele largasse todos aqueles deuses para servir e obedecer só a mim, eu daria a ele uma grande descendência. Abraão saiu lá da Mesopotâmia e veio morar aqui em Canaã, obedecendo a uma ordem minha. Então eu dei a ele um filho, Isaque. Um dia eu pedi a ele que oferecesse Isaque em sacrifício. Era só uma pegadinha, mas ele levou a sério e ficou puto comigo. Tudo bem, tudo bem. O que importa é que Isaque teve dois filhos, Esaú e Jacó. Mudei o nome de Esaú para Edom e dei pra ele essa região montanhosa de Seir, que até hoje é terra dos edomitas. Jacó, no entanto, desceu ao Egito junto com seus filhos…”
— Puta que pariu, não acredito que ele vai contar essa história toda.
— É. Vamos embora? Parece que vai rolar uma partida de pôquer na tenda do Aminadabe.
— É mesmo? Puxa, o pôquer do Aminadabe é sempre um bom programa… Mas vamos ouvir o discurso do Josué. Pode ser o último, né?
— É verdade.
— “… Depois enviei Moisés e Arão e acabei com tudo lá no Egito…”
— Opa, já deu uma adiantada na história.
— É.
— “… e atravessaram o Mar Vermelho. Depois que estavam do outro lado, eu fiz com que o mar se fechasse novamente sobre o exército do Faraó, matando afogados milhares de soldados. Então eu os guiei na direção da terras dos amorreus. Eles atacaram, mas eu dei a vitória a vocês. Então foi a vez de Balaque, rei de Moabe, fazer guerra contra vocês. Ele mandou chamar Balaão e…”
— Bambalalão???
— Balaão, porra, Balaão! Cê nunca ouviu essa história?
— Recordo-me vagamente. Aquele da jumenta falante?
— Ele mesmo.
— Ah…
— “… mas eu fiz com que Balaão os abençoasse, contrariando as intenções de Balaque. Vocês derrotaram os moabitas e depois atravessaram o Jordão. Os homens de Jericó quiseram lutar contra vocês, mas…”
— Porra, vamos lá pra tenda do Aminadabe. Deve estar muito mais legal.
— Ué, pra quê? Até ele deve estar aí no meio ouvindo o discurso.
— Putz, é mesmo. Merda…
— “… os heveus e os jebuseus. Eu dei a vocês uma terra prontinha pra morar. Hoje vocês vivem em cidades que não construíram e comem o fruto de parreiras e oliveiras que não plantaram.”. Moleza, não? De fato, Javé fez muito por nós.
— Opa, já terminou a leitura da carta, agora deve ser rápido.
— Prestenção, porra.
— Portanto agora é obrigação de vocês temer e servir a Javé…
— Porra, de novo esse papo?
— Ah, acho que é pra gente não esque… Eita, que gritaria foi essa?
— Sei lá! O povo todo gritou “SIM!”.
— Prestenção lá no Josué….
— Têm certeza? Eu vou repetir a pergunta: vocês prometem servir e adorar apenas a Javéééééééé?
— SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!
— E trocar Javé por outros deuseeeeeeeeeees?
— NAAAAAAAAAAAAAAAO!
— Então vão querer trocar Javé por uma bicicletaaaaaaaaaaaaaa?
— …
— Pô, só uma piadinha… Baterista, por favor?
[tch]
— Humpf. Então façam-me o favor de jogarem fora as imagens de outros deuses que vocês têm aí. Nananinanão, não adianta negar! Eu sei que vocês têm imagens escondidas por aí.
— …
— Mequetrefes! Os mandamentos que vocês devem seguir estão todos neste livro aqui, ó. Além disso, olhem para esta pedra! Estão vendo esta pedra? Ela ouviu tudo que foi dito hoje, e servirá de testemunha da promessa que vocês fizeram de adorarem apenas a Javé.
— Er… Tá caducando, coitado.
— Pois é.
— Agora vão pras suas casas. Ou então para a tenda do Aminadabe, que vai rolar um pôquer por lá hoje.
— Merda, aquilo vai lotar.
— Vamos correndo enquanto o povo aplaude, ué.
— Bora!
Josué terminou de falar e ficou observando o povo que se dispersava, cada grupo indo na direção das terras que tinham acabado de receber. Sentiu-se feliz pelo final bem sucedido de uma jornada que começara havia mais de 40 anos, com Moisés e Arão passando por malucos na corte do Faraó. Pensando nisso, começou a enxergar tudo difuso. Achou que começava a chorar, mas não era isso: era algo mais sério. Compreendeu de chofre o que acontecia, e sorriu. Morreu ali mesmo, aos cento e dez anos de idade, e foi sepultado em sua propriedade em Timnate-Sera, nas montanhas de Efraim. Eleazar, o sumo-sacerdote, morreu pouco tempo depois, e foi sepultado em Gibeá, cidade pertencente a seu filho Finéias, também nas montanhas de Efraim.
Os restos mortais de José, carregados pelo povo durante quarenta anos, finalmente puderam ser sepultados em Siquém, na propriedade que Jacó comprara dos filhos de Hamor séculos antes. O sepultamento de José simboliza o assentamento definitivo do povo de Israel na terra há muito prometida. Agora sim, os israelitas teriam paz e sossego.
Teriam?
Veremos.
Josué fala ao povo
— Opa!
— Ô, rapaz, como é que vai?
— Tudo bem, e com você?
— Tudo ótimo! Peguei umas terras boas ali em Judá. Ó a escritura aqui.
— Hum… Puxa, terreno grande, hein?
— Pois é! Tem uns jebuseus, heteus, seiláoqueus pra expulsar de lá ainda, mas isso é fácil.
— Verdade… Hum… Ah, e então, vai lá ver o discurso do Josué hoje?
— Discurso? Tô nem sabendo…
— Ah, o Josué vai falar hoje. Acho que ele já tá velho, quer se despedir do povo, essas coisas.
— Sei, sei… E quando é?
— Que horas são agora?
— Quatro e meia.
— Putz! É daqui a meia hora.
— Onde?
— Logo ali em Siquém.
— Em Siquém? Ah, então a gente chega a tempo. Vamos indo?
— Vamos.
— …
— …
— Calor, né?
— Pois é.
— …
— Podia chover, né?
— Podia. Refrescava um pouco.
— Não é mesmo?
— É.
— …
— …
— Pois é…
— Só…
— …
— …
— Hum… Ei, conhece aquela dos três anaquins anões?
— Todo mundo conhece.
— Bah.
— …
— Olha lá quanta gente!
— Rapaz! Josué tá com moral. Será que demora pra começar a papagaiada?
— Acho que não, ele costuma ser pontual. Olha lá! Já tá no palco.
— É ele? Puxa, é ele. Como tá velho…
— Pois é…
— É…
— Shhhh, ele vai começar…
— Pooooooooovo de Israel…
— Ele sempre começa com esse “Poooooooooooovo de Israel”…
— SHHHH!
— Opa, foi mal.
— Como vocês podem ver, eu já estou velho. Pra vocês terem uma idéia, no meu tempo os Dez Mandamentos eram sete! [bateria: PARAMPAM-TCHHH!, risos forçados da platéia] Durante todo esse tempo que eu estive à frente do povo vocês viram as coisas espantosas que Javé fez. Já faz alguns anos que eu fiz a divisão da terra, e nesse tempo todo temos vivido em relativa paz com os habitantes das terras vizinhas. Mas não se enganem: eles são inimigos, e no tempo certo vamos derrotá-los. Para isso, é necessário que vocês permaneçam fiéis a Javé.
— Como se a gente tivesse alternativa…
— Shhhhhh!
— Continuem sempre com ele, e vocês continuarão se dando bem. Javé expulsou povos grandes e fortes para longe, até agora ninguém resistiu à força de Israel. Um só israelita pode fazer fugirem mil inimigos!
— Mentiraiada da porra…
— Cala a boca!
— Fiquem ligados a Deus, como ficaram até agora. Porque se vocês se deixarem influenciar pelos povos aqui da região, ah!, cês tão na roça. Eles vão se tornar má influência para vocês, serão para vocês como armadilhas, precipícios, chicotes nas costas ou espinhos nos olhos…
— Que bonito isso…
— É…
— Fiquem espertos: se vocês se misturarem com esses povos, vocês desaparecerão. E ninguém quer isso, quer?
— NÃO!
— Foi uma pergunta retórica, imbecil…
— Ah. Eu sempre me confundo com perguntas retóricas imbecis.
— Oras, faça-me o favor de calar essa boca!
— Bom, vocês sabem que minha morte está próxima. Mas eu quero que vocês se lembrem sempre que tudo o que Deus prometeu ele cumpriu. Cabe a vocês cumprirem sua parte no trato, ou suportar no lombo a ira de Javé. Obrigado.
— Ué! Era só isso???
— Estranho, né? Tanta agitação pra chegar aqui e falar dez minutos…
— Bom, vamos esperar. Ninguém tá indo embora, acho que vai ter mais.
— É… Podia ter uns shows enquanto isso, né?
— É, uma mulherada rebolando de shortinho…
— Chope de graça, barraquinhas de comida, jogos…
— Pula-pula, piscina de bolinh… Olha lá, não é o Josué de novo?
— Parece que sim. Acho que voltou pro bis.
— Shhhh, vamos escutar…
O retorno das tribos de Rúben, Gade e Manassés Oriental
Como já foi dito, estava concluída a parte mais importante da conquista de Canaã. Ainda havia um ou outro povo a ser expulso, mas isso podia ser deixado a cargo de cada tribo, não constituindo motivo de preocupação para todo o povo de Israel. Sendo assim, Josué reuniu o povo das tribos de Rúben, Gade e Manassés Oriental e fez um pequeno discurso de despedida pra eles:
— Muito bem, cambada, muito bem! Vocês cumpriram sua promessa direitinho: mesmo tendo suas terras garantidas lá do outro lado do Jordão, vieram até aqui e arriscaram seus rabos junto com seus irmãos israelitas para conquistarem Canaã. Agora estamos em paz, e vocês podem ir cuidar de suas terras. Vocês voltam ricos, cheios de despojos de guerra. Parabéns e muito obrigado. Agora ocupem a terra, sejam felizes e continuem servindo a Javé, senão ele fode com a vida de vocês. Adeus!
Os líderes das duas tribos e meia agradeceram, se despediram e partiram para suas terras. Ao chegarem em Gelilote, ainda na margem oeste do Jordão, resolveram parar e construir um altar de pedra. Não um altar qualquer: via-se o bichão de longe. Capricharam mesmo. Quando a notícia do altarzão chegou aos ouvidos dos outros israelitas eles ficaram putos. Começou o diz-que-diz:
— Que porra significa aquele altar?
— Os caras não sabem que o único altar pra se oferecer sacrifícios é aqui no Tabernáculo?
— Javé vai ficar puto com isso, e vai sobrar pra gente.
— Isso não pode ficar assim!
— Vamos foder com a vida desses feladaputas!
A indignação crescia conforme a notícia se espalhava, e logo todo o povo estava reunido em Siló, preparando-se para guerrear contra seus irmãos do leste. Antes, porém, resolveram mandar mensageiros até eles. Enviaram Finéias, filho do sumo-sacerdote Eleazar, acompanhado de dez líderes, um para cada tribo (tá, eram nove tribos e meia. Mas os caras não iam mandar meio líder, né?). A mensagem que mandaram era simples: se eles achavam que a terra a leste do Jordão era impura, que pedissem terras do lado de cá, e seriam atendidos. Mas que não cometessem a burrada de erguer outro altar, já que o próprio Javé deixara bem claro que os sacrifícios só deveriam ser oferecidos no altar do Tabernáculo.
Quando ouviram a mensagem trazida pelos onze emissários, os líderes das tribos orientais ficaram espantados:
— Ué, cês são burros ou o quê???
— …
— Viram a gente oferecer algum sacrifício naquele altar que construímos?
— …
— Vamos explicar direitinho o que aconteceu, e se vocês ainda acharem que estamos errados, podem nos matar. O negócio é que começamos a pensar: e se um dia os descendentes de vocês, do ocidente, começarem a botar em dúvida a ligação dos nossos descendentes com Javé, o Tabernáculo e toda a cultura israelita? Sabem como é, esse rio aí bota a maior banca de fronteira, é bem possível que venham a nos considerar um outro povo. Então construímos esse altar como um memorial. Se um dia as tribos do ocidente começarem a querer discriminar as do oriente, sempre teremos o altar como sinal de que somos um mesmo povo.
— Ê, mas que é isso? Que absurdo! Por que é que os da margem oeste discriminariam os da margem leste?
— Ué… Não é isso mesmo que vocês estão fazendo agora?
— …
— Pois então.
— Tá, tá, vocês estão certos. É que a gente precisava ter certeza.
— Nós entendemos.
— Sem rancores então?
— Claro!
Então os mensageiros voltaram a Siló e contaram tudo para os israelitas ali acampados. Eles ficaram contentes com a explicação dada pelas tribos do leste. Não foi dessa vez que Israel foi dividido. Mas vocês não perdem por esperar…
As terras de Josué, as cidades para os fugitivos e para os levitas
Divididas as terras, faltavam só uns detalhezinhos para dar por concluída a tarefa. Pra começar, Josué recebeu suas bem merecidas terrinhas. Ele havia pedido uma cidade chamada Timnate-Sera, na região montanhosa de Efraim, e foi atendido. Já estava sossegado, mas ainda faltava um último trabalho: escolher as cidades de refúgio (para aqueles que matassem alguém acidentalmente) e as cidades para os levitas. Para as primeiras foram escolhidas Quedes, na Galiléia, Siquém, em Efraim, Hebrom, em Judá, Bezer, em Rúben, Ramote, em Gade e Golã, em Manassés do Leste.
Para os levitas, as cidades foram divididas entre os três grupos: para os coatitas descendendentes de Arão foram dadas treze cidades de Judá, Simeão e Benjamim; para os outros coatitas, dez cidades de Efraim, Dã e Manassés do Oeste. Os gersonitas receberam treze cidades em Issacar, Aser, Naftali e Manassés do Leste. Para os meraritas foram cedidas doze cidades em Rúben, Gade e Zebulom. Em seguida são listadas cada uma dessas cidades, mas vocês não vão querer saber, né? Puta negócio chato.
Bom, estava terminada a divisão da terra e os israelitas começaram a distribuir-se por Canaã, cada um conforme sua tribo. Agora só faltava as três tribos que tinham territórios a leste do Jordão voltarem para ocupar suas terras. Mas isso deu uma confusão danada. Nossa, menina, que babaaaaaaado… No próximo capítulo eu conto.
A divisão das tribos – o capítulo mais sucinto da história do JMC
O presente de Calebe
Essa onda que tu tira, Calebe
Essa marra que tu tem, Calebe
Tira onda com ninguém, Calebe
Calebe, neguinho, Calebe…
Tá, parei.
Josué e Eleazar (sumo-sacerdote, filho do velho Arão, estão lembrados?) estavam preparados para o sorteio dos territórios de cada uma das doze tribos. Só lembrando: a tribo de Levi não receberia terras, uma vez que os levitas eram dedicados ao serviço de Javé. Para compensar, a tribo de José foi dividida entre os descendentes de seus dois filhos: Efraim e Manassés. Mas eu dizia que Josué e Eleazar aprontavam-se para o sorteio — começando pela tribo de Judá, sempre privilegiada — quando chegou Calebe:
— Diz aê, Josué.
— Opa, Calebe. Tudo bem com você?
— Beleza. Queria falar uma parada com você…
— Pode falar, rapaz. Somos amigos há tanto tempo, pra que cerimônia?
— É verdade… Então, você lembra de quando viemos espionar esta terra enviados pelo velho Moisés?
— Claro que lembro, como é que eu ia esquecer um negócio desse?
— Pois então. Foi muito foda aquilo. Fomos para a região montanhosa, terra dos anaquins, e os outros se cagaram de medo: que aquilo era um inferno, que os gigantes iam nos esmagar, que perto deles parecíamos uns gafanhotos e blablablá. Bando de cuzão. E nós dois lá batendo o pé: “Queisso, Seu Moisés, a gente pode muito bem vencer os caras”. Lembra, lembra?
— Opa! Como a gente era abusado, não? Os outros eram mais velhos e a gente discutindo com eles, quase partindo pra cima.
— É! Hahahaha, muito bom! O Moisés ficou tão impressionado que me prometeu que eu teria terras aqui em Canaã. Agora você veja: eu tinha quarenta anos na época, hoje tenho oitenta e cinco. No entanto estou aqui, firme e lúcido, e ainda com força para combater na guerra, como tenho demonstrado. Então eu queria te pedir um negócio…
— Pode falar, Calebe! Tá enrolando demais. Somos amigos ou não somos? Oras!
— Então… Eu queria essas terras aí da região montanhosa. Em troca, assumo o compromisso de expulsar de suas cidades os anaquins.
— Hum. Muito bem, é justo. Eleazar, anota aí! A região montanhosa passa a pertencer ao Calebe aqui a partir de hoje. Anotou? Beleza. Pronto, Calebe. A terra é sua.
— Você é um bom amigo, Josué. Muito, muito obrigado.
— Tá, tá. Agora tem jeito de me deixar fazer o sorteio das terras, porra?
— Er… Claro.
E saiu dali todo feliz, já fazendo planos para expulsar os anaquins de Quiriate-Arba (Cidade de Arba. Arba havia sido o maior de todos os anaquins), que depois teria seu nome mudado para Hebrom (do hebraico aliança, trato)

