Sua língua parece estranha dentro da boca. Você detesta notar a própria língua. Assim que notada, ela ganha volição. Ela parece grande demais para a boca, uma lesma úmida e obesa. Onde é o lugar certo da língua ficar? Grudada no céu da boca? Com a ponta nos dentes? Na… parte de baixo da boca? Você tenta lembrar o nome certo do lado oposto ao céu da boca. Chão da boca? Piso da boca?

Perceber o próprio corpo funcionando é estranho. A respiração, por exemplo. Ato involuntário, função do tronco encefálico, a parte mais primitiva do cérebro. É automático. Então por que você está reparando na sua respiração agora? Você pensa se está respirando certo. Se está fazendo barulho. Se está oxigenando direito o… O quê? O sangue? Como funciona esse negócio de respiração? Sabe Deus…

Há coisas que estão ali sem que você se dê conta, e você se irrita quando as percebe. O nariz está sempre no seu campo de visão. Já notou? Pois notou agora, e a única coisa que você vê é seu nariz. Ele se agiganta, toma a paisagem, ocupa a tela.

É estranho como o cérebro ama a obsessão. Considere o ohrwürm, earworm, verme de orelha: de repente você está com uma música na cabeça. Ou pior, um trecho de música. A mente está funcionando bem, e de repente vem o bug, o verme, em forma de LA LA LARANJEEEEIRA SATISFEITO SORRI ou NOSSA, NOSSA, ASSIM VOCÊ ME MATA ou Ô ANNA JÚLIAAAAA-AAAAAA-A-AAAAA-AA-AAAAAA ou aquele DERINDÁUN DÁUN DÁUN, DERÊ, DARADANDÁUN, DERIDADÁUN DÁUN do Skank. Pronto: a música se plantou na sua cabeça, vai ficar tocando em loop, e você está preso a ela.

Que inferno.

Você percebe que está sentado torto. Isso é péssimo para a coluna. Você se ajeita. A postura está certa agora? O pé está plantado no chão? A coluna está ereta? Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. Se você conhece essa música do Walter Franco, ela está na sua cabeça agora.

O cérebro é uma doideira.

Mesmo as coisas que você evita pensar podem ser plantadas na sua cabeça. A imagem dos seus pais transando: por que você pensaria nisso? Por que você imaginaria seus pais nus na cama de casal da casa onde você cresceu, o pênis ereto de papai penetrando a vagina de mamãe? Isso é doente, para de pensar nisso! Pense em outra coisa, rápido! Pense na sua língua, sinta como ela é estranha dentro da boca. Evite pensar na língua do seu pai fazendo você-sabe-o-quê.

EU FALEI PARA EVITAR!

Pense em outra coisa, qualquer coisa. Pense nos seus mamilos roçando na roupa. Pense numa coceira bem no meio das costas, justo naquele ponto inalcançável que faz você esfregar as costas na quina da parede. Pense naquilo que seu pai te disse há tantos anos, mas que ainda dói…

Pense naquilo que você falou muito tempo atrás, que até hoje te mantém acordado. Que vergonha!

Pense no tanto que você é uma fraude. Mais cedo ou mais tarde eles vão te descobrir.

Há quanto tempo você está sem piscar? Taí outro movimento involuntário. Piscar é importante para limpar e lubrificar os olhos. Esse ato involuntário desliga temporariamente o circuito visual do cérebro, por isso você pisca e nem nota. Exceto se o fizer de forma voluntária, claro.

Por que você está piscando?

Onde está sua língua agora?

Por que é que dói tanto quando a gente morde a língua sem querer, mas dói nada quando morde de propósito?

Pare de morder a língua!

O cara da kombi nunca vai esquecer da minha cara.

Tem uma frase que eu li no Insta semana passada: “Se 10 pessoas estão sentadas à mesa, chega um nazista e ninguém se levanta, há agora 11 nazistas sentados à mesa”. Era mais ou menos por aí, não lembro direito. Mas olha quantas profundidades se escondem por trás de uma frase simples, né? Simone de Beauvoir disse que o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. Eu cansei de ser cúmplice faz tempo. Vocês sabem como eu sou, né? A Sandrinha e a Fê vivem dizendo que sou louca, que arrumo confusão. Mas o que eu vou fazer? Daqui do meu lugar de privilégio como mulher branca eu posso criar condições de combate à injustiça.

O cara de ontem, da kombi, que o diga.

Eu estava vindo da feirinha do MST, sabe aquela? Comprei berinjela, limão, alho… Tudo orgânico, pra fazer um babaganush mara. Coloquei na cestinha da bicicleta e estava indo para o Santa Luzia comprar pão sírio e tahine. Parei um pouco pra descansar e tirar fotos da pracinha. Fim de tarde, aquele pôr do sol maravilhoso de inverno, crianças brincando… É lindo aqui no bairro porque as crianças vão sozinhas brincar na praça. Ao mesmo tempo em que eu gosto de me sentir assim segura, fico pensando no nosso privilégio. É preciso reconhecer o privilégio todo dia. Nesse grupo, mesmo: eram, sei lá, sete ou oito crianças, e só um menino negro. Fiquei pensando se era filho de alguma empregada. E aí fiquei pensando no racismo estrutural que me fez pensar nisso. Ele podia ser de família rica também. Filho de algum jogador de futebol. Não que o negro só enriqueça jogando futebol. Esse é outro pré-conceito que a gente carrega e não percebe. O lugar do negro é onde ele quiser. Mas enfim, nem é essa a história.

De repente para uma kombi. Toda amassada, farol quebrado, uma chave-de-fenda segurando o vidro, um monte de ferrugem. Aí cês não vão acreditar: desce um cara todo esquisito, olhando desconfiado pros lados. Todo amarfanhado, barba desgrenhada. Careca-cabeludo, sabe? O cara é careca aqui em cima, aí em volta da cabeça é um ninho de cabelo. Muito esquisito. Não pela aparência, que eu nem reparo nessas coisas, mas pela atitude. Bem o jeitão de quem vai fazer alguma coisa errada.

Aí o cara pega e me abre aquela porta de correr da kombi, e lá dentro tem o quê? Um monte de doce, balões, brinquedos. Fiquei só olhando. As crianças, claro, foram chegando perto. O carequeludo… Quê? Carequeludo é o careca-cabeludo, ué. O carequeludo mudou de postura na hora! Ficou mais relax, sorridente. Eu não conseguia escutar o que ele dizia pras crianças, mas devia ser muito engraçado, porque elas riam cada vez mais alto. Ele dava doces, mostrava os brinquedos, brincava com elas.

E aí vocês não vão acreditar. O cara fez um gesto assim, de convite, e as crianças foram entrando na kombi. Duas subiram no banco da frente, as outras foram entrando atrás… Só uma criança não entrou, sabem qual? Bem o menino negro! O cara já estava contornando a kombi para sentar no banco do motorista, mas foi aí que eu intervim.

— Moço! Ô, moço! Ô, careq… — quase que eu falei, Fê! — Ô, da kombi!

Cês precisavam ver a cara de assustado dele. Machinho nunca espera ser confrontado por uma mulher, né? Ainda mais esse tipo. Ele ficou paralisado ali. Cheguei mais perto, peguei e falei assim:

— Cê tá louco?! — eu falei — Em plena luz do dia, acha que ninguém tá vendo? Doente!

Aí ele:

— Moça, eu s-só estava…

Aquilo me ferveu o sangue, menina! O cara ali gaguejando, suando. Não era o bonzão? Peguei o menino negro pela mão, perguntei o nome dele. Pior é que depois esqueci. Adilson, Róbson… Um nome desses, bem de… bem brasileiro. Não importa o nome, ali eu senti uma conexão forte com o Edmilson, ou Edilson. Trouxe ele pra pertinho de mim.

— Qual o seu problema com esse menino?

— Moça, problema nenhum…

— É porque ele é NEGRO, né? Porque você é um RACISTA.

— Moça, pelo amor de Deus…

Típico, né? “Deus”. Tem que trazer religião pra conversa. Fiquei só esperando ele falar que tinha família. Família tradicional, claro. Alguém tem dúvida de quem ele votou em 2018? Não, né? Cidadão de bem…Eu continuei falando, virada no jiraya, daquele jeito que cês sabem que eu fico:

— Qual o problema com ele, hein? Você acha que ele é diferente dos outros? Que ele é inferior?

E ele:

— Não é racismo, que absurdo! Eu tenho vários amigos negros, inclusive. Só que para o que eu quero é complicado, eles correm muito…

Cês acreditam?! Estereótipo assim, na minha cara! O sangue me subiu à cabeça dum jeito… Dei um murro na porta da kombi.

— Abre essa porra. ABRE!

O cara, todo amuado, abriu a porta. Coloquei o Róbson no banco e falei pra ele:

— Vai, filho. Vai passear com seus amiguinhos. Não deixa ninguém te dizer que você é diferente, tá?

Aí me veio… Gente, nem sei explicar. Uma emoção forte, uma vontade de chorar. Aquele sentimento de ter contribuído, sabe? De ter feito a diferença. Não sei o que me deu, mas falei pro menino:

— Eu te amo, Róbson.

Gente, um negócio que eu nunca falei pra ninguém! Pra macho nenhum, nem pra minha mãe tóxica, nem pro meu pai minion… E ali estava eu, falando para um negri… para uma criança que eu a amava. E era de verdade, um sentimento puro.

O menino começou a chorar, emocionado também, enquanto eu fechava a porta. Foi tão lindo, uma pena eu não ter lembrado de fotografar.

O carequeludo gaguejou umas desculpas; ignorei. Ele entrou na kombi, deu a partida, foi embora com as crianças. Ele nunca vai esquecer minha cara.

Trancados no supermercado de prateleiras já vazias, esperamos o fim. Todo dia alguém faz a escolha entre ficar aqui e morrer de fome ou sair e se juntar aos mortos lá fora, ser mais um morto-vivo confuso e faminto por carne, mais um defunto a quem foi negado o descanso.

Eu ainda não decidi. Passo meus dias deitado sobre uma pilha de embalagens vazias, recapitulando o que nos trouxe até aqui. A epidemia. A doença espalhada sem controle. Os mortos sem conta, e depois a decisão de não contá-los. As primeiras notícias sobre os que se levantavam, contrariados por terem sua realidade negada. No começo virou piada. Boataria, fake news, sensacionalismo para dar clique.

Até o dia em que o morto mordeu o governador.

De repente estava ali, na nossa frente. Era um adolescente negro, magrinho. A pele ressecada tinha textura de pergaminho e cor de papelão molhado. Lembro de notar a terra no cabelo crespo e na roupa esfarrapada e pensar “mas nem pra tomar um banho” antes de me dar conta do que estava acontecendo. Ele mordeu o governador no topo da cabeça, como uma criança mordendo o maior pirulito do mundo. O tiro pegou bem no meio da cabeça do morto-vivo, mas era tarde. A transformação do governador foi imediata. Num momento estava fazendo duras críticas ao presidente que até tão pouco tempo atrás era seu aliado. No outro, era um ser de olhar vazio que rosnava. Ele ainda teve tempo de morder três repórteres antes de também ser alvejado.

(uma coisa é atirar num negrinho, coisa cotidiana, outra muito diferente é atirar no governador)

Mas aí já era o caos, a gritaria, uma orgia de mortos mordendo e criando outros mortos que mordiam e assim por diante.

Deixar de contar os mortos foi um erro. Tornados fantasia, exagero dos alarmistas, estatística falha, eles se rebelaram. Se a morte era mentira, então não ficariam deitadões esperando os bichos. Voltaram, fizeram esse estrago todo lá fora. Foi um erro, mas nem temos a quem responsabilizar. Segundo as últimas notícias que chegaram antes da internet cair de vez, o presidente era um morto vagando sozinho (nem mortos nem vivos queriam nada com ele) pelas ruínas de Brasília, comendo calangos e rosnando coisas sem sentido (certas coisas não mudam).

Olho lá fora e, de trás da porta de vidro, ela me olha. Uma menina que não deve ter mais de seis anos. Olhos fundos nas órbitas, dentes expostos pela boca já sem lábios, a cabeça com só alguns tufos de cabelo aqui e ali. Um coelhinho de pelúcia sujo abraçado com mãos ossudas sobre o peito.

— Está com fome, filha?

Ela me olha fixo. Sinto pena. Pobre mortinha que não pode descansar.

“Facada mal dada do caralho”, eu penso enquanto abro a porta.

Operários, de Tarsila do Amaral

Da primeira vez que ouvi a frase do título, ela veio atribuída ao Pelé. Depois descobri que era de um certo Robson, jogador do Fluminense. Robson estava num carro junto com dois brancos. Um casal negro atravessou a rua sem olhar, e os dois começaram a gritar impropérios racistas. Robson pediu aos companheiros que parassem, porque racismo era coisa séria: “Eu já fui preto, sei o que é isso”.

O jornalista Mário Filho conta essa história no livro “O Negro no Futebol”. Procure “eu já fui preto” no Google e vai encontrar várias citações do texto, a maior parte delas falando da questão social x racial, de como o preto deixaria de sofrer racismo ao ascender socialmente etc.

Este texto não é um desses.

Pretos são 8,86% da população brasileira. Pardos, 45,06%. 45,22% dos brasileiros se dizem brancos, e eu chutaria que metade são pardos em negação. Pretos e pardos formam o grande grupo dos negros. Eu sou pardo, esse borrão de cor indefinida na Aquarela do Brasil.

Existe todo tipo de pardo. Tem aquele que bota um aplique e começa a falar que é preto. Tem aquele que já é preto mas ainda não sabe. Tem aquele que passa tranquilamente por branco. Tem o que acha que é branco. Tem até pardo supremacista branco.

O Brasil é inacreditável.

Como eu ia dizendo, sou pardo. Então quando eu digo que já fui preto é porque já sofri uns racisminhos aí pela vida. Não o RACISMO, aquele da violência e do ódio, mas o racismo da confusão, das coisas que presumem sobre mim por causa da minha aparência.

(Já fui chamado de macaco uma vez, mas foi tão engraçado que eu nem conto como racismo. Eu tinha 18 anos e dava aula numa escolinha de informática. Tinha um aluno surdo-mudo que fazia barulho a aula inteira: batucava no teclado, na mesa, no monitor. Surdo não tem noção do barulho que faz. Um dia eu pedi pra ele parar, que estava atrapalhando. Aí ele virou de costas para mim e… Sei lá, eu acho que ele pensou que estava balbuciando. Mas falou MUITO ALTO e com aquele sotaque de surdo: MÃ-CÃ-COOO. Eu deixei barato, mas depois desse dia eu vivia falando “ê, surdo filho da puta…”; a sala ria, o surdo olhava em volta sem entender nada, ria também. A gente faz o que pode.)

O resto é bobagem, mal-entendido, confusão besta.

Numa festa de aniversário da minha sobrinha, o segurança do condomínio falou para eu “encostar lá atrás, pra descarregar”. Demorei a entender. Ele achou que eu fosse fornecedor, não convidado. Eu dirigia um Corsa, botei na conta do carro. Mas não era. Anos depois, já dirigindo o carro atual (SUV daqueles bem de paulista, bancos de couro, câmbio automático), várias vezes em vários lugares eu ouvi “veio buscar quem?”. “Vim buscar tua mãe, pra levar ela pra dar na Cracolândia”, eu penso. Trabalhei para uma emissora aqui em São Paulo por um tempo, e toda semana um segurança diferente (mas sempre mais escuro do que eu) me perguntava isso. Ou então estava no estacionamento esperando o carro, chegava um cliente e me entregava o ticket. Essas coisas. “Você está aqui, você é dessa cor, tem essa boca e esse nariz, portanto é manobrista.”

Em loja de sapato acontece muito. “Moço, tem número 37 desse aqui?” Vendedor de loja de sapato usa uniforme com o nome da loja bem destacado na camisa. Eu não uso uniforme, mas tenho cara de quem usa. Aí eu digo “Desculpe, não tem”. Ou “vou ver no estoque” e saio pela outra porta.

No hotel Unique, aqui em São Paulo, aconteceu outra. Eu escrevi o roteiro de um programa que ia ser transmitido de lá. “Você chega na porta e pergunta onde é o credenciamento da emissora, não tem erro”. Foi o que fiz. O cara que estava na porta me falou para voltar por onde eu tinha vindo, virar à esquerda, descer a rampa da garagem até o final. Achei um lugar meio escondido demais, mas fui. Cheguei lá e a primeira coisa que notei foi o tamanho da fila. A segunda foi o tom da pele das pessoas. “Essa fila é do credenciamento?”, perguntei a um rapaz, que confirmou, disse que ia trabalhar de garçom e perguntou o que eu ia fazer. A moça atrás de mim era da limpeza. Aquele monte de gente parecida comigo, todos iam passar a noite pegando pesado. Eu ia ler um roteiro com artistas na suíte de hotel de luxo e depois acompanhar uma transmissão de dentro de um caminhão com ar-condicionado. Talvez até tomar um uísque caro que uma daquelas pessoas ia servir.

Voltei à recepção. “Cara, eu não falei que era da TV? Onde é o credenciamento da TV?”. Era logo ali do lado. Muitas pessoas brancas.

Uma vez me botaram num hotel em São Conrado, bairro chique do Rio de Janeiro. Ali foi esquisito. Não fui destratado, não me olharam estranho. Encostei no balcão e o cara olhou através de mim. Falei “boa noite”, e ele como se nada. Era como se eu não estivesse ali; nunca tinha sentido isso depois de adulto, muito menos depois de gordo. Não dá pra não ver um gordo. Foi só depois de falar o nome da empresa que o cara me viu. Aí me atendeu, fez o check-in, mas ainda cabreiro. Subi para o quarto, deixei as coisas, desci para o bar do hotel para tomar uma cerveja. “Boa noite”, e nada. “Qual cerveja você tem”, e nada. Mostrei a chave do quarto e, de repente, me materializei. “Pois não, senhor”. “Senhor é o negão que arromba teu cu”, eu só pensei. O que eu disse foi: “Me dá uma Heineken”.

E por que eu tô contando isso? Pra ser coitadinho? Pra chamar atenção? Até pode ser, eu bem sei que sou filho da puta a esse ponto. Mas eu queria contar mesmo para falar uma coisa que tenho pensado muito nesses dias de tensão racial no mundo todo: se eu, um pardo num país de maioria parda (maioria sim, tô vendo vocês aí dizendo que são brancos), de vez em quando passo um perrengue… Imagine o preto. Imagine o preto pobre.

Na periferia de São Paulo, onde eu nasci, eu passo por quase branco, como canta o Caetano em Haiti. Aqui em Santana, onde moro hoje, nem tanto. Nos Jardins eu sou quase preto, e “todos sabem como se tratam os pretos”. Mas não, né? São racisminhos. Nunca me machuquei, nunca sofri humilhação. A polícia não matou ninguém da minha família. Não é o monstro do racismo. É o racisminho. Uma amostra grátis, a versão demo. É só pra ter uma ideia do que deve ser a vida do preto no Brasil.

Não parece legal.

O que mata o velho não é a velhice, é a inveja da juventude. Eu achava isso quando jovem, e ainda mais agora, que estou ficando velho e preciso resistir à tentação de criticar tudo de que os jovens gostam. Lembro de quando eu era jovem e os mais velhos criticavam as músicas que eu ouvia (barulho!), os livros que eu lia (analfabetismo!), as roupas que eu usava (achavam que eu estava virando punk, mas era só desleixo, que mantenho até hoje).

Consigo com relativo sucesso não implicar com as coisas dos jovens: escutei quase uma música inteira da Billie Eilish, fiquei inscrito por mais de meia hora num canal de YouTuber famoso, fingi que um meme era engraçadíssimo. Mas tem um limite que não consigo ultrapassar: os influenciadores. Não entendo a relevância, não aceito o alcance, não admito o destaque que recebem. E o que é isso, se não inveja da juventude?

Então hoje eu decidi que vou dar uma chance a eles, mas eles têm que dar também uma chance a mim. Sou um velho tolerante, mas ainda preciso ver algum sentido nas coisas. Billie Eilish compõe com o irmão dela, produz as faixas, tem influência estética. Os youtubers produzem conteúdo, os memes são produto do zeitgeist. Mas e os influenciadores? O que fazem, além de receber e mostrar mercadorias? Quando foi que o ser humano começou a se contentar em ser vitrine? Eu, hein…

Demonstrem alguma utilidade, caros influencers! Minha sugestão: quando começarem a sair as primeiras tentativas de vacina para essa doença terrível, sejam pioneiros. Ofereçam-se para testar as vacinas.

Calma, não descartem a ideia sem ouvi-la inteira.

Cada influenciador receberia uma caixa bonitinha, forrada de veludo com uma camada intermediária de isopor. Dentro dela, as ampolas da vacina e uma linda seringa de vidro (é para uso individual, então não tem problema). Eles fariam vídeos mostrando esses recebidos tão valiosos, aplicando as vacinas, contando como tem sido a reação.

Depois de um tempo de testes, viriam os desafios: fazer live no pronto-socorro, beijar alguém que testou positivo para Covid-19, lamber um balaústre de ônibus. E aí veríamos qual vacina é mais eficaz.

Há vantagens e desvantagens nesse processo.

Os testes seriam transparentes, fáceis de acompanhar, os resultados sairiam mais rápido.

Alguns influenciadores morreriam.

Não consegui pensar em nenhuma desvantagem.

O que me dizem, influencers? Estão prontos a contribuir para a sociedade que os sustenta? Juro que dou like.

Eu lembro do dia que o Solano perdeu o medo da morte.

Já fazia um tempo que o Solano vinha uma conversa esquisita, um negócio até meio perigoso. Numa sociedade que preza a rotina, a ideia de Solano era um desatino. Um desvario. Uma safadeza.

Mas sempre tem aqueles né? Aqueles. Uns gostam de novidade. Outros são desajustados mesmo, não se encaixam. E outros ainda querem mais é ver o circo pegar fogo, bater palma para maluco dançar. Ou cantar, no caso de Solano. Entre novidadeiros, esquisitões e incendiários do aplauso, Solano foi ganhando seus adeptos.

Nesse dia, Solano conseguiu reunir um grupo bom, até. Duas operárias daquelas que o Chico Buarque cantava nos anos 70, que já não produziam como antes. Uma outra daquela música do Ney Matogrosso, que só reclama da fraqueza. Uns três velhos roucos, uns frangos. Até gato pingado tinha nesse dia. Solano falava, os outros concordavam. Quanto mais concordavam, mais Solano danava a falar.

— Quando nossos patrões tinham uma rotina fixa, concordo, precisávamos tê-la também. Mas agora?! Agora estão entocados, com medo. Os homens ficam dias sem tomar banho. As mulheres deixam o cabelo seguir a natureza, e nem sabem mais onde guardaram os sutiãs. As crianças gritam, correm, choram e os pais, anestesiados pelo medo e pela cachaça, deixam. Ora, se a vida deles é o caos, por que a nossa tem que seguir sendo a ordem?

Solano se empertigava, estufava o peito, andava de um lado para o outro. O público ia aumentando.

— Chega de bater ponto! A gente pega cedo no batente, e sabem o que nossos patrões estão fazendo esse tempo todo? DORMINDO! É hora de mudar, de repensar os horários. Aquele rapaz da cidade lá, como é o nome dele? Aquele ator meio marrom? Marcos, Marco, Marcelo, coisa assim. A que horas ele acorda? Na hora do almoço, o vagabundo. Então pra que a gente vai ficar acordando seis, cinco, quatro da manhã? Eu não sei vocês, mas eu cansei de cantar por nada. A partir de hoje, canto às onze da manhã. E quem achar ruim, que venha aqui tirar satisfações comigo.

O público, alarmado, foi se dispersando. Aí já era demais. “É doido”, dizia um. “Vagabundo”, comentava outro.

Sozinho no poleiro, Solano não desanima. Está empolgado com sua ideia. É um novo tempo, de novas oportunidades, de novos horizontes. Enche o peito, levanta o bico para o céu e capricha no cocoricó.

Lá da casa, uma janela se abre com estrondo. É Marcos, ou Marco, ou Márcio, com os cabelos em revolta, uma medusa de terracota.

— CALA A BOCA, GALO FILHO DA PUTA!

Solano para, suspira, desolado. É um gênio à frente do seu tempo.

Piso firme no pedal, guiando rápido pela linha do ponto reto. A agulha é só um borrão. O motor da velha máquina mal lubrificada é barulhento. Em outros tempos, acordaria o prédio inteiro. Costuro. O gato dorme sobre a pilha de retalhos costurados uns aos outros. Pensa que é uma cama. Quando um novo retalho se junta à pilha, ele se levanta, espreguiça, dá uma volta, torna a se deitar.

Numa pausa do motor, ouço um barulho muito baixo, um farfalhar, mais uma sensação do que um som, vindo do apartamento de baixo. O gato levanta a cabeça. O morador anterior deve ter entrado na mesma roubada que eu: módica entrada, prestações baixas, pagamento em 30 anos. Tudo isso para abrigar uma família de morcegos. Imagino a fauna dos outros apartamentos. Ecossistemas inteiros nascendo num condomínio de classe média. Varandas gourmet para os ratos. Quartos de casal para os pombinhos. Cobertura para os urubus. O apartamento de baixo para os morcegos. Todo mundo tem onde morar, ninguém paga aluguel. É a utopia socialista filmada pelo Animal Planet.

Eu costuro. O gato dorme. Fora a máquina de costura, o único barulho é o das asas dos morc…

… e esse outro, mais grave, alto o bastante para se sobrepor ao ruído da máquina. Tiro o pé do pedal e escuto. Nada. Foi tão rápido que talvez nem tenha acontecido. Dou risada. Mas o gato acordou. “Paranoia”, penso. Acordou porque acordou, gato dorme e acorda quando quer. Paranoia.

Foi a paranoia que esvaziou o prédio. “Vai cair”, disse um. “Ouvi um barulho”, “Senti o chão tremer”. Vieram os homens da prefeitura. “Vai cair”, sentenciaram. A solução: evacuação voluntária. Quem topasse sair até determinado prazo, receberia uma indenização da construtora. Quem não topasse, que assinasse um termo de responsabilidade. Só eu assinei. Os outros foram saindo. Uma balbúrdia; não se podia usar o elevador porque todo dia era dia de mudança. Caras aflitas, móveis horrendos, correria.

Um mês depois, estou aqui. Posso ouvir música alta, dançar, chorar. E costurar. É terapêutico. Pedaços soltos, tudo do avesso, parece que vai dar errado e no final dá certo. Ou errado. Quem se importa? É como a vida. A tira aumenta, a cama do gato fica mais macia.

Quarenta e cinco anos para conseguir comprar um apartamento financiado até a morte. E vou largar isso por causa de paranoia alheia? “Nunca!”, eu digo para o gato. Ele lambe uma pata e passa na cara. Eu continuo pagando as prestações, retalhos do sonho da casa própria.

O barulho de novo, agora mais alto. O gato eriça os pelos das costas. E é impressão minha ou o chão tremeu? Parece que ouvi um barulho de janelas batendo. Serão os morcegos? Os ratos? O prédio caindo?

“Caindo o caralho”, eu digo em voz alta, e me assusto com minha voz. Ridículo. Dou risada. E costuro.

Outro barulho. Piso mais fundo para fugir dele. Outro, mais alto. Abro uma playlist de pagode. “Se eu deixar de me amar, o mundo cai em cima de mim”, canta o Art Popular. O amor próprio me manteve aqui. Continuo vivendo, costurando, pagando prestações.

O mundo não vai cair em cima de mim. O prédio não v

— Sabe o que é isso aqui? — Mateus tira o nariz vermelho da gaveta e o mostra para a própria imagem no espelho — É a menor máscara do mundo.

Ele põe o nariz e sorri. Faz cara de choro. Faz careta. A maquiagem está ótima.

— Quem eu sou, o que eu penso. Meu CPF, minhas dívidas, meus vícios. Tudo isso escondido atrás dessa bolinha vermelha. Engraçado, né?

O reflexo olha. Pituco tomou o lugar de Mateus.

— Já volto — diz Pituco. — Vou buscar o Treze.

Ele sai. É uma manhã nublada, triste. Mas o palhaço tem compromissos. Uma festa infantil. Locução e palhaçadas na porta de uma loja no Centro. E… só. As pessoas não buscam mais os palhaços como antigamente. “Muita gente hoje em dia tem medo de palhaço”, ele pensa, e suspira.

A festa é aquilo de sempre. Cambalhotas. Mágicas. Doces. Nem sinal do Treze. A festa termina, Pituco recebe seu dinheiro, agradece. Entra no carro. Na esquina seguinte, para num semáforo. O motorista do carro ao lado pergunta onde estão os outros.

— Que outros?

— Palhaços, pô! Carro de palhaço, deve ter pelo menos uns quinze aí dentro, né não?

Pituco dá uma risada falsa. Olha para o carro. Um carro daqueles populares, como o de Mateus, como tantos outros. Todos igualmente sem graça. No banco de trás, um menino de uns 7 anos. Ele nota que Pituco olha e mostra o dedo do meio. Pituco sorri. É o Treze.

O coração do palhaço dispara. “Calma”, ele pensa. “Muita calma”. Respira fundo, faz uma breve oração pedindo calma. Tira o nariz por um instante para enxugar o suor,

[não pituco por favor não não não]

põe o nariz de volta. Mateus covarde. O sinal abre, o carro ao lado avança com uma buzinadinha camarada. Pituco acena, conta até três, vai atrás.

Está com sorte. O carro embica numa casa duas quadras à frente. O portão é baixo. Bom. Casa térrea. Melhor ainda. Pituco manobra, vai embora. Ainda é cedo. Além do mais, ele tem outro compromisso. E mais tarde tem que passar em casa. Limpar o quartinho, verificar as correntes e o isolamento acústico, alimentar o Doze.

Amolar as facas.

O Doze… Amanhã ele será história, uma lembrança que foge rapidamente, um fardo com pedras nos bolsos no fundo de um rio. Ele já imagina os próximos dias com o Treze. E sorri.

Hoje (25 de maio de 2020), sei lá por quê, me lembrei desse texto que escrevi mais de dez anos atrás, em fevereiro de 2010. Deve ser o tédio da quarentena. Não importa. O negócio é: falei merda.
Primeiro, porque não sei o que é ser gay no Brasil, em São Paulo, no Largo do Arouche. Deduzi uma coisa baseada no lugar em que morava, o que é uma bobagem. Evidência anedótica da pior qualidade.
Depois, a segunda parte do texto é coisa típica de cabeça de planilha. As contas estão certas, mas em cima de premissas erradas. Quando se fala do assassinato de gays, ou de feminicídio, esses grupos estão falando de crimes de ódio: gays mortos por serem gays, mulheres mortas por serem mulheres.
Eu pensei em apagar o texto, mas achei melhor deixá-lo aqui, para exibir minha ignorância de dez anos atrás.
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Sessenta anos atrás essa canção mudou a música brasileira para sempre.

Ela começa em ré menor, parecendo ser mais uma daquelas músicas de dor-de-cotovelo da época: “Vai, minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser…” Mas lá pela metade vem a mudança, o tom muda para maior e a música fica otimista: “Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda! Que coisa louca!”. E no final ela fica assertiva: “Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim”. A revolução começa aí, na música de Tom Jobim e na letra de Vinicius de Moraes. Mas a verdadeira reviravolta está no baiano que gravou a música tocando violão e cantando como nunca antes se tinha visto.

No selo do compacto que tinha “Bim Bom” do outro lado, de 1958, “Chega de Saudade” era identificada como chorinho. Podia até ser quando Tom Jobim a compôs. Mas depois de passar pelo violão e pela voz de João Gilberto, “Chega de Saudade” nunca mais foi a mesma, a música nunca mais foi a mesma, o Brasil nunca mais foi o mesmo.

Em 1959, quando a música saiu no LP “Chega de Saudade”, Caetano Veloso e Gilberto Gil tinham 17 anos. Gal Costa, 14. Chico Buarque tinha 15. Edu Lobo, 16. Roberto Carlos, 18. Todos esses e muitos outros contam da mudança que aconteceu na vida deles, ainda adolescentes, quando ouviram “Chega de Saudade”. Essa influência sobre artistas tão diferentes fica clara no começo da carreira. Ouça o primeiro disco de Caetano e Gal, os primeiros do Chico, os primeiros compactos do Roberto, e você vai notar que é uma molecada imitando João Gilberto.

Os grandes compositores e intérpretes do Brasil nasceram de João. E não só isso: ele deu uma nova vida à música brasileira antiga. Todos os grandes compositores dos anos 30 e 40 estão presentes na discografia de João. É como se toda a informação musical do Brasil se condensasse num só ponto, João, que então explode para todos os lados, dando origem a um novo universo musical aqui e no mundo.

João Gilberto é o Big Bang.

João não foi só “uma pessoa conhecida”, como disse o imbecil-mor quando da morte dele, em julho. João Gilberto é a visão de um Brasil ideal, capaz de beleza, de perfeição, de poesia.

Eu conheci João em 1991, aos 16 anos. Fiquei obcecado por ele. Decidi aprender a tocar violão só para ver se um dia conseguia tocar “Chega de Saudade”. Consegui.

Quatro anos depois de começar as aulas de piano, eu ainda não estava pronto para tocar “minha” música. Sei o quanto ela é complicada. Mas aí João fez essa besteira de morrer, e eu precisava homenageá-lo. Então escolhi “Chega de Saudade” para tocar na audição de fim de ano.

Foi a primeira vez nesses quatro anos que a professora Cristina Simalha ficou com dó de mim. Ela foi escrevendo o arranjo e entregando pra mim aos poucos, quase que pedindo desculpas.

(Era muito, muito difícil. Eu sentava na frente do piano, olhava para a partitura e desistia. Quando tentava tocar, não saía nada. Eu me irritava, saía, ia dormir. Contei isso, e a Cris: “Será que você não está com depressão?” Fui investigar e, de fato, estava com depressão. Comecei a me cuidar. Depois disso, a música foi saindo. Vejam vocês: a paixão por João Gilberto e a sensibilidade da minha professora fizeram eu me tratar. Isso fez — e tem feito — toda a diferença.)

Bom, ontem foi dia de tocar a música em público. Ela estava saindo muito melhor do que isso em casa, mas ponho na conta do nervosismo. Errei muito, mas não ligo. Fiz o que aprendi com João: o melhor que eu podia.

Obrigado, Cris. Obrigado, João.