O Sistema

O universo é uma câmara de eco, e o cu é o receptáculo do desejo.

Foi isso que eu descobri nesses anos todos. Eu sei que a senhora não vai acreditar. Médico, né? Aquela mentalidade bem cartesiana. Como canta o Roberto Carlos: “Quem espera que a vida seja feita de ilusão pode até ficar maluco ou morrer na solidão”. A senhora vai ouvir minha história e achar que eu me iludi e fiquei maluco. Só a parte da solidão que não, porque cê viu minha mulher, né? Que mulher… O Sistema que me deu, entre tantas outras coisas. Ninguém é obrigado a acreditar, mas assim que é.

Começou na minha adolescência, mas eu só fui saber muito tempo depois. Eu enfiava legumes no rabo, aquilo me dava uma coisinha gostosa, sabe? A pontinha de uma cenoura, uma cosquinha com o cabelinho da cebola, aos poucos um pepino… Uma vez enfiei um dente de alho, não recomendo: aquilo me deu um febrão… Eu fazia porque era gostoso. Foi nessa época que virei vegetariano, mas não associei uma coisa à outra. Olha como as coisas acontecem e a gente não percebe.

Eu tô te contando porque sei bem como é. Não é a primeira vez que eu venho parar no hospital por causa disso. Essas histórias viram folclore, todo médico gosta de contar em festa. “O cara chegou com uma cenoura no cu, falou que tava trocando a cortina pelado, caiu e a cenoura entrou por acidente…” Então já falo logo que nada foi acidente. Quer dizer, só dessa vez que foi. Eu enfio as coisas no rabo. O rabo é meu. Meu corpo, minhas regras. Aqueles versos do Rei, “se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer que isso ou aquilo não se deve fazer”. Se eu for dar atenção a tudo que dizem que devo fazer ou não, acabo não fazendo nada que eu gosto. Isso é vida? Não é vida.

Mas eu tava falando dos legumes e do vegetarianismo. Não percebi a relação. Isso veio depois, aos 18 anos. Eu estava entediado no quarto, olhei o carrinho na estante. Um Hot Weels daquela Ferrari 430 Scuderia, sabe? Pequenininha, vermelha, linhas suaves… Eu tava sem nada pra fazer, enfiei o carrinho na bunda. Senti aquele geladinho, muito gostoso, mas fiquei com medo dele escorregar e eu ter que ir pro hospital. Aos 18 anos a gente ainda se preocupa muito com o que os outros vão pensar, né?

Dois dias depois, ganhei um Palio numa rifa. Fiquei feliz demais, mas claro que não associei. Eu fui começar a perceber uns meses mais tarde. Segundo semestre da faculdade, estava difícil pagar a mensalidade. Meu pai ganhava pouco, minha mãe já tinha morrido. Eu, sem experiência, não conseguia emprego. Fiquei revoltado com meu pai. “Precisava tanto estudo pra ganhar essa mixaria?”, eu pensava. “Enfia o diploma no cu”. Aí uma ideia leva à outra, peguei o canudo do diploma do meu pai e soquei no rabo. No mesmo dia me ligaram da faculdade dizendo que eu tinha sido aprovado para uma bolsa integral.

Ali eu comecei a desconfiar e fazer alguns testes. Quando alguma matéria era difícil, eu arrancava as páginas do livro e enfiava. Juro, minutos depois minha mente se iluminava e eu percebia que tinha aprendido tudo. Fui destaque da minha turma, melhor aluno. Professores e colegas me elogiavam, meu pai inchava de orgulho, e eu só na modéstia. Mesmo porque eu não tinha mérito nenhum: era o Sistema funcionando, mas eu não podia contar pra ninguém. Então falava que estudava, que me esforçava, essas coisas. Às vezes as mentiras também ajudam a viver, como canta o Roberto Carlos.

Com o tempo, fui descobrindo um pouco da lógica do Sistema. A primeira coisa: depende do tempo e da profundidade. Sou um vegetariano convicto porque enfiava os vegetais com gosto. Mas ganhei só um Palio na rifa porque deixei a Ferrari dentro por pouco tempo, e só até o pára-brisa.

Outra regra: não dá pra usar o mesmo objeto duas vezes. Ou outro objeto da mesma espécie. Uma vez realizado o desejo, ele não se repete. Tentei enfiar a mesma Ferrari no bufante, não aconteceu nada. Experimentei com outras Ferraris, depois com outros carrinhos. A única coisa que ganhei foi uma visita ao pronto-socorro com um Cadillac entalado. E fui rindo no caminho do hospital, cantarolando “o Cadillac, bi-bi!, quero consertar meu Cadillac”. Não funciona, então estou até hoje com aquele Palio. Eu tenho outros carros, mas meu coração ficou com o calhambeque, sabe?

Terceira regra que ficou muito clara para mim: algo que você ganha do Sistema não pode ser usado para ganhar outra coisa. Uma vez enfiei um tubinho de moedas de 10 centavos. Tinha uns dois reais ali. Fui andar pela rua com o tubinho enfiado, dei dois passos e achei 100 reais. Aí pensei: “se eu multipliquei o que tinha por 50, posso ir multiplicando até ficar milionário, bilionário!”. Voltei correndo pra casa, tirei o tubinho, enfiei a nota de 100 enroladinha. Passei dois dias com esses 100 reais, como direi, aplicados na poupança, e o retorno foi zero.

Essa tem sido minha vida, doutora. Se me formei, devo ao Sistema. Se tenho o emprego dos sonhos, devo ao anúncio que imprimi em papel cartão, enrolei e… bom, você sabe. Todo mundo fala da minha mulher. “Como pode, um cara desse com essa deusa?”, mas ninguém viu o que eu passei. Uma semana tomando Imosec com uma Barbie socada no borga, só os sapatinhos pra fora. Mas se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi.

E agora a senhora já deve ter entendido minha situação. Sou fã do Roberto Carlos. Desde criança eu quero conhecer o Rei, mas não tinha como. Roberto Carlos não é um cara que cê manda um zap, “e aí, Rei, bora tomar uma?”. Eu não tinha nem ideia de como me aproximar dele. Até que me veio essa luz, que pode não ser Jesus, mas foi abençoada. Era pra ser só a pontinha da perna mecânica, mas me desequilibrei e… Bom, a senhora viu o resultado. Agradeço a Deus e à senhora por salvarem minha vida. Mas foi bom que tenha sido grave assim. Mais dias no hospital, maior probabilidade de o Rei vir me visitar. Eu sei que ele vem. Eu acredito no Sistema.

O tweet que deu origem ao texto
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2 comments

  1. >Uma semana tomando Imosec com uma Barbie socada no borga, só os sapatinhos pra fora.
    Sensacional, fazia tempo que eu não ria tão gostoso com um texto

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