Domínio

Piso firme no pedal, guiando rápido pela linha do ponto reto. A agulha é só um borrão. O motor da velha máquina mal lubrificada é barulhento. Em outros tempos, acordaria o prédio inteiro. Costuro. O gato dorme sobre a pilha de retalhos costurados uns aos outros. Pensa que é uma cama. Quando um novo retalho se junta à pilha, ele se levanta, espreguiça, dá uma volta, torna a se deitar.

Numa pausa do motor, ouço um barulho muito baixo, um farfalhar, mais uma sensação do que um som, vindo do apartamento de baixo. O gato levanta a cabeça. O morador anterior deve ter entrado na mesma roubada que eu: módica entrada, prestações baixas, pagamento em 30 anos. Tudo isso para abrigar uma família de morcegos. Imagino a fauna dos outros apartamentos. Ecossistemas inteiros nascendo num condomínio de classe média. Varandas gourmet para os ratos. Quartos de casal para os pombinhos. Cobertura para os urubus. O apartamento de baixo para os morcegos. Todo mundo tem onde morar, ninguém paga aluguel. É a utopia socialista filmada pelo Animal Planet.

Eu costuro. O gato dorme. Fora a máquina de costura, o único barulho é o das asas dos morc…

… e esse outro, mais grave, alto o bastante para se sobrepor ao ruído da máquina. Tiro o pé do pedal e escuto. Nada. Foi tão rápido que talvez nem tenha acontecido. Dou risada. Mas o gato acordou. “Paranoia”, penso. Acordou porque acordou, gato dorme e acorda quando quer. Paranoia.

Foi a paranoia que esvaziou o prédio. “Vai cair”, disse um. “Ouvi um barulho”, “Senti o chão tremer”. Vieram os homens da prefeitura. “Vai cair”, sentenciaram. A solução: evacuação voluntária. Quem topasse sair até determinado prazo, receberia uma indenização da construtora. Quem não topasse, que assinasse um termo de responsabilidade. Só eu assinei. Os outros foram saindo. Uma balbúrdia; não se podia usar o elevador porque todo dia era dia de mudança. Caras aflitas, móveis horrendos, correria.

Um mês depois, estou aqui. Posso ouvir música alta, dançar, chorar. E costurar. É terapêutico. Pedaços soltos, tudo do avesso, parece que vai dar errado e no final dá certo. Ou errado. Quem se importa? É como a vida. A tira aumenta, a cama do gato fica mais macia.

Quarenta e cinco anos para conseguir comprar um apartamento financiado até a morte. E vou largar isso por causa de paranoia alheia? “Nunca!”, eu digo para o gato. Ele lambe uma pata e passa na cara. Eu continuo pagando as prestações, retalhos do sonho da casa própria.

O barulho de novo, agora mais alto. O gato eriça os pelos das costas. E é impressão minha ou o chão tremeu? Parece que ouvi um barulho de janelas batendo. Serão os morcegos? Os ratos? O prédio caindo?

“Caindo o caralho”, eu digo em voz alta, e me assusto com minha voz. Ridículo. Dou risada. E costuro.

Outro barulho. Piso mais fundo para fugir dele. Outro, mais alto. Abro uma playlist de pagode. “Se eu deixar de me amar, o mundo cai em cima de mim”, canta o Art Popular. O amor próprio me manteve aqui. Continuo vivendo, costurando, pagando prestações.

O mundo não vai cair em cima de mim. O prédio não v

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