Banho

— Cês vão duvidar, vão rir da minha cara, mas basta pensar um pouco. Tudo se encaixa. Ali por 1950, 1960, tinha muito experimento com drogas psicodélicas rolando. O Humphry Osmond, um psiquiatra da Califórnia, fez vários testes com LSD. Parece que até o Aldous Huxley foi cobaia dele. Um outro psiquiatra, Ronald Sandison, tratou pacientes de um hospício inglês com LSD. Em Oklahoma, os caras mataram um elefante com a dose errada de LSD.

— Porra, overdosaram um elefante? Aí cê tá forçando. O que deram pra ele? Um ácido do tamanho de uma mesa de pôquer?

— LSD é poderoso, ô. Sabe quanto LSD precisa pra você começar a alucinar? 20 microgramas! Isso são 0,02 miligramas. Um miligrama é o peso de meia muriçoca! Se você pegar uma muriçoca e cortar em cem pedacinhos iguais, um pedacinho tem o mesmo peso da dose de LSD suficiente pra causar alucinação. Entendeu?

— Você estudou bastante o LSD, hein? E muriçoca também. Tô bobo com a amplidão do seu conhecimento.

— Cala a boca. Então. Teve os experimentos do Leary e do Alpert em Harvard. E aí tem vários testes em muitos países com mescalina, cogumelos, veneno de sapo. Vocês acham que o Brasil ia ficar de fora? Só que o Brasil é aquele negócio, né? Nunca teve transparência no governo. Os caras fizeram esterilizações em massa, esconderam epidemia de meningite, e isso só pra falar da época da ditadura. E governante brasileiro ser contra o método científico não é de hoje. Duplo cego, grupo de controle, tudo isso é chato demais. Aí o que os caras fizeram? Meteram psicodélico no povo, sem o povo saber.

— De onde cê tirou isso, cara?

— É só olhar! Você acha que aquele final dos anos 50 até o final dos 60 foi uma coincidência feliz? Primeiro Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lira, Donato, Alf, Menescal, Bôscoli. A bossa nova surge em 1958, em 1960 já dominou o mundo. O mundo! Poucos anos depois Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gal Costa, Elis Regina, Maria Bethânia, Roberto e Erasmo… Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo! Só um exemplo: as quatro primeiras colocadas no Festival da Record de 1967 foram Ponteio, do Edu Lobo, Domingo no Parque, do Gil, Roda Viva, do Chico e Alegria, Alegria, do Caetano. Um bando de moleques, todos com vinte e poucos anos. Quatro obras-primas da música popular universal, todas no mesmo ano, no mesmo país, no mesmo festival. Isso sem falar de Eu e A Brisa, O Cantador, Gabriela, Maria, Carnaval e Cinzas. Todas essas estavam no mesmíssimo festival! E cês vão me dizer que é coincidência?

— E isso prova o quê?

— Não prova nada. Mas dá indícios. Minha tese: o governo distribuiu psicodélicos para a população, e isso resultou numa explosão de criatividade nunca vista. Eu só falei de música, mas isso aconteceu no teatro, nas artes plásticas, no cinema… O Cinema Novo, cara! Acontecendo junto com a Tropicália! Coincidência? Nunca!

— Mas como que o governo ia distribuir isso?

— Aí é que está. Só pode ter sido na água. Só que era arriscado deixar o povo beber essa droga desconhecida. Vai que acontece que nem com o Tusko.

— Que Tusko?

— O elefante que morreu de ácido. Era Tusko o nome dele. Não falei? Pois era.

— E essa droga, então, é desconhecida?

— Só pode ser! Porque ela precisa ter algumas características que o LSD, por exemplo, não tem. Primeiro: tem que ser absorvida pela pele de forma mais eficiente, com um contato muito rápido. Segundo: tem que ser ativada só a partir de uma certa temperatura da água. Percebe? Porque a ideia era que o negócio ficasse ativo só na água quente, no mínimo morna.

— Mas por quê?

— Qual é a coisa que todo brasileiro faz todo dia? Pode faltar tudo, mas esse ritual não falha… O banho!

— Os caras botaram droga no banho do brasileiro? É isso que cê tá dizendo?

— Pensa, cara! PENSA! Quando é que você tem suas ideias? Aquelas que você não sabe de onde vieram? Onde vem a solução para problemas que estavam te fazendo quebrar a cabeça? No banho! Sempre no banho!

— Ah, mano, para…

— Tudo se encaixa! E digo mais: essa droga tem uma meia-vida de vinte anos. A cada vinte anos, a concentração dela se reduz pela metade.

— Como cê pode saber de uma coisa dessa?!

— Fácil: é claro que os militares, moralistas como eram, não iam deixar isso prosseguir. Devem ter demorado um tempo para descobrir, era provavelmente um projeto ultrassecreto. Mas digamos que eles tenham cortado o programa em 1970. Só em 1990 a dose se reduziu à metade. Deu tempo de aparecer o Clube da Esquina, o Belchior e o Fagner, o Raul Seixas… Cara, imagina o Raul Seixas, cheio de droga na cabeça, de pinga, e ainda vinha um reforço no banho. O João Gilberto com a maconha dele. Ou o Tim Maia. Um coquetel criativo! Veio o rock dos anos 80, que era bom, mas não chegava perto da música de 10 ou 15 anos antes. A partir de 1990, a gente vê uma queda de qualidade. Mas a criatividade ainda resiste. Teve o mangue beat, muita coisa no rap. E o pagode, não vamos nos esquecer do pagode! Podem torcer o nariz. Leandro Lehart, Péricles, Alexandre Pires… Esses caras são artistas, mentes musicais. São algum Gilberto Gil? Claro que não, porque não tiveram acesso à mesma dose do Gil. Mas ainda assim!

— Bom, então agora já deve ter acabado a droga.

— Não digo que tenha acabado. Mas a dose de 2010 era a metade daquela de 1990. Em 2030 será a metade daquela de 2010. Eu não esperaria muita coisa.

— Peraí, você não explicou por que a cada 20 anos, e não 15 ou 22…

— Por causa da nostalgia! Pode reparar: a cada década que começa, vem uma nostalgia de duas décadas atrás. Nos anos 80 teve o revival dos anos 60. Nos 90, até a calça boca-de-sino dos anos 70 voltou. Nos 2000 todo lugar tinha festa dos anos 80. O que é isso? É saudade de uma época em que a música, a moda, o cinema, todas as artes eram melhores.

— Cara, o que você tomou pra pensar nisso?

— O que eu tomei? Eu tomei banho! VOCÊS NÃO TÃO PRESTANDO ATENÇÃO!

(para a Tatiana Sendin, que falou que eu devia escrever um texto sobre as ideias que tenho no banho)

A conversa que deu origem ao texto

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