Além dos fundamentalistas, agora tenho que agüentar esse tipo de coisa:

Profundo mau gosto, essa de fazer piada com criança anencéfala. Se v. fosse ainda aquele adolescente com cabelo que anda por algum lugar desse sítio, ainda ia. Qualé a próxima, sacanear anões? Fazer piada racista?
Por favor, põe logo outro de seus posts geniais nesse site, vai, para que não seja essa nota infeliz a apresentação para os neófitos.
(SLeo)

Pronto. O primeiro anencéfalo já se manifestou. Virão outros?

Nos anos 80, todo mundo se horrorizou com a divulgação da notícia: crianças nasciam sem cérebro em Cubatão. O ar da cidade que então ostentava o título de Mais Poluída do Mundo começava a causar danos inesperados. Pobres crianças descerebradas: um desperdício de vida, uma tristeza imensa para os pais. Afinal, para que serviria uma criança sem cérebro?
Mas eis que surgiram os blogs…

(II Samuel 16)
Tendo enviado Husai de volta a Jerusalém, Davi continuou sua fuga. Depois de passar para o outro lado do Monte das Oliveiras, foi surpreendido pela presença de Ziba, empregado de Mefibosete, neto do finado rei Saul. Ziba trazia dois jumentos carregados de víveres: duzentos pães, cem cachos de passas e outros cem de frutas frescas, um odre de vinho. O rei chegou perto e perguntou:
— Eita, Ziba! O que você vai fazer com tudo isso?
— Enfiar no cu do curioso. Porra! Os jumentos são para você e sua família, a comida e o vinho são para a viagem.
— Puxa, fico até comovido.
— Bah, não enche.
— Cadê o Mefibosete, seu patrão?
— Ah, aquilo é um filho-da-puta traidor! Ficou em Jerusalém, diz que agora o trono será devolvido à família de Saul, quer dizer, a ele mesmo.
— Aleijado filho de uma quenga!
De uma quenga e daquele veado do Jônatas…
— COMO É? VOCÊ CHAMOU O JÔNATAS DE VEADO?
— Veado? Quem falou em veado? Eu falei foi finado.
— Hum. É bom mesmo. Bom, você é grosseiro e desagradável, mas pelo menos é leal. Eu sempre soube. Eu sou assim: olho na cara de um sujeito e já sei se ele tem caráter ou não.
— Sei, sei… Foi o que o senhor fez com Mefibosete, Absalão, esses caras?
— NÃO VEM AO CASO! Deixa eu continuar: tudo o que era de Mefibosete agora é seu.
— Quem disse?
— EU disse! Eu, o rei!
— Ah. Mas o rei agora não é Absalão?
— POR ENQUANTO!
— Se você diz… Bom, vou seguir meu caminho. Até logo.
Fazendo uma mesura irônica, Ziba afastou-se, e Davi continuou seu caminho, acompanhado pela comitiva. Quando chegou à cidade de Baurim, foi interpelado por um certo Simei, filho de um tal Gera, parente de Saul. Simei parou na frente do jumento do rei (vocês entenderam) e começou a berrar:
— FILHO DE UMA QUE-RONCA-E-FUÇA! MORDE-FRONHA! CORNO! FILISTEU! CORINTIANO!
O rei tentava contemporizar:
— Opa, peraí, que que há, também não é assim…
Mas Simei continuava gritando seus impropérios:
— ASSASSINO! MATOU TANTA GENTE DA FAMÍLIA DE SAUL, E AGORA JAVÉ TÁ TE CASTIGANDO, SAFADO! O REINO ESTÁ NA MÃO LÁ DAQUELA BICHA CABELUDA QUE É SEU FILHO, E VOCÊ TÁ NA MERDA! AHA, UHU, DAVI TOMOU NO CU! TODO MUNDO COMIGO!
— Aha, uhu, Davi t…
— Calaboca, Itai. Ô, Simei, acalme-se…
— NÃO TÔ TE OUVINDO! — tapou os ouvidos — LALALALALA-LA!
— Vai deixar, majestade? Vai deixar? IIIIIIIIIH, eu não deixava!
— Fica na sua, Abisai.
— Mané o quê! O cara tá te xingando e vai ficar por isso mesmo? Se você der permissão, eu vou lá e corto a cabeça do puto.
— Ah, é? E quem garante que não foi o próprio Javé que mandou esse mequetrefe vir me xingar? Acho que Deus não gosta mais de mim, e deve ter lá suas razões. Além do mais, o meu próprio filho quer me matar; o que esperar de um parente do falecido rei Saul? Deixa o cara gritar, tá no direito dele. Talvez um dia Javé tenha dó de mim e troque essas maldições por bênçãos.
Assim Davi continuou sua jornada, e por um bom tempo foi seguido por Simei, que jogava pedras, terra, e xingava. Davi, que até poucos dias antes fora soberano absoluto sobre todo o Israel, nunca passara por tamanha humilhação. Além do mais, a situação era muito embaraçosa para aqueles que o acompanhavam: o rei perdera seu trono e agora fugia sem rumo, desancado por um zé mané qualquer. Foi, portanto, com cansaço mais moral do que físico que a comitiva chegou ao rio Jordão.
Enquanto isso, Absalão transpunha as portas e entrava em Jerusalém. Husai, o espião enviado por Davi, foi encontrá-lo:
— Salve, majestade! Que beleza de cabelo, hein? E que túnica!
— Ué, ué! Que porra é essa, hein? Que porra é essa? Cadê a fidelidade ao seu amigo? Foi só o bicho pegar que você abandonou o cara?
Husai sentiu nojo ao ouvir Absalão referindo-se assim ao próprio pai, mas conteve-se:
— Mas não tinha outro jeito, majestade! Isto aqui é uma teocracia, é ou não é? Então! Eu fico do lado daquele que Javé escolhe. Eu servi o senhor seu pai durante muitos anos, e agora quero servi-lo. Bom, se o senhor quiser, é claro.
— Ué, ué! Pode ficar, oras. Pode ficar. Só não me atrapalhe.
— Fico muito grato, majestade.
— Tá, tá. Vá puxar o saco de outro. Aitofel! AITOFEL! Cadê esse putão safado?
— Aqui, majestade.
Com a chegada do conselheiro, todos se calaram. Aitofel fora respeitadíssimo durante o reino de Davi, havendo quem dissesse que tinha sobre o rei ascendência maior ainda do que a de Joabe. Para o rei deposto, as palavras de Aitofel eram como palavras do próprio Deus.
— Aitofel, aqui estamos. Entrei na cidade. Entrei na porra da cidade! Sou o rei! Viva o rei!
— VIVA!
— Mas, venha cá… Eu tenho que mostrar a esse povo quem é que manda, sabe? Não quero ouvir nego cochichando por aí que o outro era melhor e coisa e tal. Entende?
— Entendo, claro. O senhor está meio inseguro, é normal no começo…
— INSEGURO? Quem está inseguro? Eu sou o rei, tá sabendo? EU MANDO NESTA PORRA TODA! Inseguro, humpf. Sou o rei. O REI!
— Sim, sim. Desculpe, majestade, me expressei mal. Enfim, o senhor me pergunta o que fazer para demonstrar sem sombra de dúvida que é o chefe agora. É isso?
— Exatamente.
— Pois é fácil: durma com as concubinas de seu pai.
— Como é que é? Eu peço um conselho e você me manda comer as amantes do velho???
— É, ué. O senhor pode vir morar no palácio, assentar-se no trono, fazer caminhadas pelo terraço, nada disso vai adiantar muito: sempre poderá haver alguém que pense na possibilidade de Davi voltar. Mas se você tiver relações com as concubinas dele, vai ficar bem claro que agora é tudo seu mesmo, sem discussão.
— Hum… Acho que entendi. Comendo as mulheres do meu pai, deixo bem claro que rompi de vez com ele, que não o respeito. É isso?
— Isso, isso!
— Ah, nunca achei que seria tão fácil. Vou lá para o harém agora mesmo começar meu serviço.
— Er… Aceita uma sugestão?
— Usar camisinha? Nem precisa dizer!
— Não, não é isso. Seguinte: o negócio tem que ter impacto, sabe?
— Pô, Aitofel, eu me garanto!
— Eu sei, conheço sua fama, majestade. Mas eu tava pensando era num jeito de tornar isso um grande acontecimento. Peraí, já volto.
O conselheiro saiu e voltou com meia dúzia de servos.
— Ei, que é isso? Não preciso de ajuda não!
— Calma, majestade. Trouxe esses homens para montarem a tenda.
— Tenda? Que tenda?
— A tenda onde o senhor vai passar na cara as concubinas de seu pai.
— E vão armar essa tenda onde?
— No terraço do palácio, que é pra todo mundo ver.
— Aitofel?
— Sim, majestade.
— Você é um tarado, o maior pervertido que já conheci.
— Obrigado.
E foi assim que Aitofel acumulou uma pequena fortuna: vendendo ingressos para quem quisesse ver o novo rei dar demonstrações de seu vigor juvenil. A cada concubina que fodia no sentido literal, Absalão sentia como se estivesse fodendo mais um pouco seu pai no sentido figurado. Coisa triste de se ver, mas poderia ser pior: imaginem se fosse o contrário…
Aitofel filmou tudo e ganhou mais dinheiro ainda com a venda das imagens em lojas especializadas e pela internet. Enfrentou problemas com pirataria mais tarde, mas isso já foge à nossa história.

Eu e Lila conversando pelo Skype, ela começa a cantar aquela música irritante da Ivete Sangalo. Eu ameaço:
— Pára, senão eu canto Tiny Dancer pra você chorar.
E nessa loucura / De dizer que não te quero / Vou negando as aparências / Disfarçando as evidências.
HOLD ME CLOSER TINY DANNNNNNCEEEEER.
— Péra. Que é isso que cê tá cantando?
Tiny Dancer, ué.
— Ah! Eu tinha entendido EVIDÊNCIAS
Garanto a vocês que o problema não é com o Skype.

Tudo pronto para a viagem, roupas na mala, tudo bonitinho. Na última hora (hoje, às sete da noite) me vem um detalhezinho à mente: e os cartões de visita? Sim, porque quem é que vai a um evento dessas proporções e não leva pelo menos uns cem cartões de visita? Marco Aurélio, claro.
Constatada minha imbecilidade — mais uma vez — vesti uma calça, enfiei uns tênis e corri para o Tatuapé, para ver se no shopping center eu teria como fazer os tais cartões. Andei um pouco e logo descobri uma gráfica expressa. Fim dos meus problemas, que maravilha. Entrei, expliquei o que queria ao balconista e ele me pediu para escolher a cor e a textura do cartão. Feito isso ele sentou-se em frente ao monitor e começou a elaborar o bicho.
Maomé do céu! O moço era enrolado que só ele. Fiquei do lado de cá do balcão sugerindo fontes (“Bota o nome em Arial, e embaixo em Times New Roman, itálico”), porque por ele ficaria tudo de um jeito só. Lá pelas tantas ele me pediu para entrar lá e mostrar para ele o que eu queria. Resultado: eu mesmo fiz meu cartão, que foi impresso numa daquelas folhas com cartões destacáveis numa impressora igualzinha à minha. No final, tinha nas mãos cem exemplares de um cartão que eu poderia ter feito em casa. Custaram-me vinte reais.
Mas eu mereço. Claro que mereço.
E com mais essa presepada, despeço-me de vocês. Sexta-feira à noite estou de volta. Comportem-se.

A situação foi ficando difícil, nada de aparecer emprego, então fui trabalhar num pesque-e-pague aqui perto de casa. Mas nada de trabalho ao ar livre: era um pesque-e-pague indoor, ficava nos fundos de um boteco, meio clandestino. Eu acordava ainda de madrugada e ia para lá. Meu trabalho era pescar peixes ensinados com iscas preparadas, de modo e estimular os outros a continuarem gastando seu dinheiro. Resumindo: o negócio era feito um cassino, mas com minhocas em vez de fichas.
Depois de um dia particularmente cansativo, cheguei em casa e estavam todos tristes: meu irmão havia sido preso. Foi comprar folhas de maconha (tão bonitinhas…) com cheque. O cheque voltou, aí fodeu tudo: prenderam o moleque. Aquela choradeira em casa, saí para dar uma volta. Passando em frente ao pesque-e-pague, encontrei Daniel Lima, que fazia uma matéria para TV. Era um programa desses jornalísticos/policiais e ele dizia:
— A mídia é complacente com Danielle Iwoa. Essa menina tem que ir pra cadeia!
Danielle Iowa era a filha do japonês, e estava envolvida no esquema de compra de folhas de maconha com cheques sem fundo. Tá, eu sei que Iowa não é exatamente um nome japonês, mas foi o que se pode arranjar pro sonho. Fui falar com ele:
— Ô, Menezes. Pegou pesado com a menina.
— Eu sei, mano. Mas é meu trabalho, não posso fazer nada. Ó o texto aqui, ó.
Desencantado com um Daniel vendido ao sistema, voltei para casa. Lá me esperava um neguinho que me olhou de cima abaixo e disparou:
— Cadê teu irmão?
Parecia a cena de Cidade de Deus, quando o Dad… Digo, o Zé Pequeno vai até a casa do Mané Galinha e é atendido pelo irmão.
— Meu irmão vacilou. Que nem você.
— Eu? Quando foi que eu…
Mas nem teve tempo: apliquei-lhe uma chave de braço e o bicho caiu duro na calçada. Foi como uma senha: foi ele cair para surgirem chineses de todos os lados. Comecei a lutar com eles. Para minha sorte, o japonês meu patrão ouviu o barulho e veio me ajudar. Depois de distribuir muita cacetada, derrotamos os chineses. Antes de entrar em casa, comentei com o japa:
— Odeio lutar com chineses. Você bate neles, e quando pensa que acabou eles surgem aos magotes vindos sabe-se lá de onde.
Nessa hora eu acordei, espantado por ter usado aos magotes num sonho. Bah, queria saber o que acontece depois.
Antes de encontrar o Daniel, eu tinha passado por uma rua aqui perto e vi uma garota linda vindo na minha direção. Como era sonho mesmo, fui conversar com ela. A menina foi muito simpática, mas se despediu dizendo:
— Se você voltar com o Emotionrélio, eu fico com você.
MAS QUE PORRA!