Caro John Spurgeon, você diz que é pra eu desafiar deus a falar comigo, e escreveu: “Deus é Simples! Ele falava atravez (sic) da natureza, escrita na consciência, em tabuas de pedra(10 mandamentos)…”. Pois muito bem, Está lançado o desafio: Se dia desses eu acordar e o topo do morro em frente à minha casa estiver fumegante, se eu subir o escadão e lá em cima houver uma mensagem escrita em tábua de pedra pra mim, eu nem faço questão da presença de deus, passo a acreditar na hora. Tá valendo?

Mas eu dizia que deus falou para Moisés continuar no monte. Pois bem. Moisés desceu um pouco com os outros, mandou que ficassem esperando e voltou ao topo acompanhado apenas de Josué, seu auxiliar. Josué, guardem esse nome: Ele ainda vai desempenhar um papel importante.
— Puxa vida, Seu Moisés! PUXA VIDA! O senhor vai me levar pra falar com Javé, EU NÃO ACREDITO! Será que ele me dá um autógrafo se eu pedir com jeitinho? Hein? Será? PUXA!!! Que legal, Seu Moisés! Que le…
— C-cala a b-boca, mo-moleque do c-caralho!
— …
Os dois percorreram o resto do caminho até o topo em silêncio. Lá chegando, viram uma coisa esquisita: Uma nuvem cobria todo o pico do monte, com uma luz muito forte dentro dela, parecendo que o monte estava pegando fogo. Fora da nuvem, uma senhora estava sentada atrás de uma mesa com um fax, dois aparelhos de telefone, um notebook. Lixava as unhas, ignorando Moisés e Josué.
— C-com li-licença. N-nós v-viemos a-aqui p-para fa-falar com J-Javé.
— Seus nomes, por favor?
— E-eu s-sou M-moisés, o me-menino a-aqui é Jo-Josué.
— Hum. Vocês têm hora marcada?
— E-ele m-mandou ch-chamar a g-gente.
— Ah, você deve ser o gaguinho de quem ele falou. Sim, sim, está aqui. Podem aguardar só um pouquinho? Vou avisar que vocês chegaram. Alô? Seu Javé? O gaguinho já chegou.. Não, está com um garoto… Tá bom, eu digo… Obrigada. Seu Moisés, ele já vai atender, ok? Está só passando os Dez Mandamentos a limpo para entregá-los ao senhor.
— M-muito o-obrigado.
Moisés e Josué sentaram-se na sala de espera e — fazer o quê? — esperaram. E esperaram. Meia hora. Uma hora. Duas horas. Seis. Doze. Um dia. Dois dias. Três. Seis. Ao sétimo dia, o ramal da secretária tocou.
— Pois não, Seu Javé? Tudo bem, vou mandar entrar. Seu Moisés, pode entrar. Mas só o senhor, deixa o menino aí. Seu Moisés? SEU MOISÉS!!!
— H-Hã??? Ah, a-acho que co-cochilei um p-pouco.
— Seu Moisés, pode entrar lá. Só o senhor.
— Ah, t-tudo b-bem. A-até q-que f-foi r-rápido. Jo-Josué, e-espera a-aí q-que eu j-já vo-volto.
E Josué teve que esperar mesmo, porque Moisés ficou com deus lá dentro da nuvem por quarenta dias.
— Quarenta dias??? Fazendo o quê?
— Cursos. Decoração, Corte & Costura, Etiqueta…
— Deixa de ser mentiroso, porra.
— É sério. Cê vai ver.

— Bom, Moisés, acho que já chega de leis, né?
— Q-que b-bom! A-as l-leis que vo-você p-passou já s-são su-suficientes pa-para f-formar u-uma s-sociedade ju-justa e ha-harmoniosa?
— Sociedade justa e harmoniosa é o cacete, Moisés! Que papinho mais gay! Quero nem saber se as leis são suficientes ou não, só sei que a cerveja acabou e eu tô de saco cheio. As leis são essas aí, virem-se!
— T-tá b-bom, e-então. Po-posso ir e-embora?
— Péra. Desce lá, chama o Arão, o Nadabe, o Abiú, os setenta líderes do povo e volta aqui. Eles vão vir com você só até o meio do caminho, onde vocês vão me adorar.
— T-te a-adorar?
— É, porra. Puxar meu saco, beijar meu rabo, lamber minhas bolas. “Ó, Javé, você é tão foda, o mais foda dentre os fodas, aleluia”, essas coisas. Gosto disso. Depois de me bajularem bastante, você vai subir até aqui pra levar um papo rápido comigo e eles vão ficar por lá mesmo.
— P-porra, se é p-pra t-trazer os ca-caras s-só até o m-meio d-do ca-caminho, p-pra que t-ter e-esse t-trabalho to-todo?
— Não seja burro, Moisés. O negócio aí é a tal da adoração. É isso que eu quero. Porque me apetece, e você não tem nada com isso. Então desce lá, faz o que eu mandei e não discute.
Moisés, que era gago mas de besta não tinha nada, percebeu que não era hora de discutir mesmo e desceu o monte. O povo lá embaixo já estava preocupado com ele, e todo mundo se juntou pra saber das novidades. Primeiro ele avisou aos líderes do povo que teriam que ir ao monte para beijar a bunda de deus, e depois dirigiu-se ao povo:
— Se-seguinte, po-povo de I-I-IIIIIIIIsrael! De-deus m-me pa-passou d-dez ma-mandamentos e m-mais u-uma po-porrada de l-leis, e e-eu v-vou re-repassar t-tudo pra v-vocês!
— Hum… Moisés?
— S-sim, A-Arão?
— Primeiro esse negócio de “passar”, “repassar”, cê tá pensando que tá no SBT? E outra: Deus não falou pra gente subir lá com você? Não é por nada não, mas se você for falar para o povo todas as leis que você levou esse tempo todo pra ouvir, a gente não sai daqui essa semana. Sem querer ofender, mas essa sua gagueira atrapalha nesse tipo de coisa. Cê não tomou nota das leis?
— T-tomei.
— Então pronto! Tira várias xerox das leis e distribui pro povo. Aliás, tenho uma idéia melhor! Manda pra gráfica, faz uma capa legal e a gente vende. Veja que multidão, e todos vão precisar ter uma cópia das leis. Vamos encher o cu de dinheiro, mano!
— P-porra, A-A-Arão, não s-sei n-n-não… G-ganhar di-dinheiro u-usando o no-nome de d-d-deus n-não pa-parece c-certo…
— Bobagem sua! Isso é o futuro! Estamos fundando uma religião aqui, Moisés, e religiões precisam de dinheiro. Ou a gente ganha nosso dinheiro assim, na boa, ou então vamos ter que fazer alguma coisa ridícula, sei lá, se embrulhar num lençol cor de abóbora, raspar a cabeça e sair no meio do povo vendendo incenso e livrinhos.
— N-não, me-melhor f-fazer u-uma c-coisa o-o-organizada.
— Então! Esquece esse negócio de discurso e vamos logo lá pra perto do monte pra fazer a tal da adoração.
— C-calma, A-A-Arão. T-tô ca-cansado, n-não v-vou v-voltar lá ho-hoje n-não. P-preciso d-dormir um p-pouco.
— Ok, beleza, não tem pressa.
Na manhã seguinte, Moisés constriu um altar de pedras ao pé do monte, e ali ergueu doze colunas representando as Doze Tribos de Israel. Feito isso, mandou que alguns rapazes queimassem animais em sacrifício e matassem touros como ofertas de paz. Moisés pôs a metade do sangue dos animais em bacias e derramou a outra metade no altar.
— Porra, Moisés, pra que essa carnificina toda? Não bastava a gente puxar o saco do cara e beleza?
— C-cá pra n-nós, A-Arão, o Ja-Javé é d-doido p-por sa-sangue…
— Caralho, se eu soubesse que o cara era assim nem tinha entrado nessa. Bom, queima aí seus sacrifícios, que eu vou montar a banca pra vender os livros.
A venda foi um sucesso, claro. Afinal de contas, sabendo que as coisas mais absurdas podiam ser punidas com a morte, ninguém queria morrer por ignorância da lei. A tiragem esgotou-se rapidamente. Depois que todos deram uma lida rápida na lei, assinaram um termo de responsabilidade, dizendo que fariam tudo conforme as ordens de Javé. Não eram nem doidos de fazerem de outro modo, com um deus louco e sanguinário desses à solta. Então Moisés pegou o sangue das bacias e aspergiu sobre o povo.
— E-este s-sangue se-sela o a-acordo d-de vo-vocês com Ja-Javé.
— Porra, Moisés, vai borrifar sangue na puta que te pariu!
— C-como di-disse? Q-quer de-despertar a i-i-ira de d-deus???
— Não, não, claro que não, longe de mim, ora, veja só! Desculpa aí.
— HUMPF! E-então to-tome-lhe s-sangue na fu-fuça, e ca-cala a b-boca.
Vemos que Moisés aprendeu algumas lições de autoritarismo durante o tempo que passou com deus. Depois de todo esse ritual, ele, Arão, Nadabe, Abiú e os líderes de Israel continuaram seu caminho. E depois de tanto sangue pra todo lado, deus até que ficou de bom humor, porque permitiu a todos que subissem até onde estava, e não só Moisés, como estava combinado, puta merda, que período comprido, cheio de vírgulas, não acaba mais?
Almoçaram com deus, tomaram cerveja e cachaça de alambique, contaram piadas sujas e jogaram truco até anoitecer.
— Bom, Javé, tá tarde, precisamos voltar lá pra baixo.
— Ô, beleza. Mas voltem sempre, gostei da companhia de vocês.
— Be-beleza. A-até m-mais.
— Você não, Moisés. Lembrei de umas coisas que eu preciso te falar.
— Pu-puta que p-pariu…
— Calaboca…

— Ô cerveja ruim da porra!
— E-eu t-te fa-falei.
— É, sou obrigado a concordar. Puta que pariu! Pode deixar, Moisés, da próxima vez só vai ter Bohemia, Original e Serramalte aqui. Porra, assim fica difícil de conversar. Mas temos que terminar logo esse negócio, então vamos lá. Cê sabe que eu queria muito viajar com vocês, né? Essa caminhada no meio do deserto, debaixo desse sol feladaputa, areia entrando por todos os buracos, sem água nem comida, ah!, como eu queria me divertir assim! Mas acontece que eu estou velho, não tenho mais esse pique. Então vou mandar um anjo no meu lugar, um cara bom, da minha segurança pessoal. Ele vai proteger e guiar vocês até Canaã.
— L-legal! U-um a-anjo de se-segurança pa-particular!
— É, legal mesmo. Mas cuidado: Não contrariem o cara nem se revoltem contra ele. Sabe como é polícia, folgado pra caralho. Então fiquem na miúda que ele ajuda vocês na luta contra seus inimigos.
— Q-que i-inimigos, J-Javé?
— Ora, que inimigos! Cê tá caduco mesmo, Moisés. Tá pensando que Canaã tá lá vazia, só esperando vocês? Aquilo lá tá cheio de gente: Amorreus, heteus, perizeus, cananeus (lógico), heveus, jebuseus, gente que não acaba mais. Cês vão ter que lutar contra esse povo todo. Tá pensando que é moleza? Mas não se preocupe, eu vou ajudar vocês e esses povos serão destruídos.
— De-destruídos? P-precisa? Se-será que n-não da-dava pra ge-gente co-conviver n-numa b-boa?
— Mané conviver numa boa, Moisés! Se eu deixar vocês convivendo com aqueles caras, do jeito que vocês são bestas, vão acabar adotando os deuses deles e eu fico na mão. Não senhor! É pra chegar lá botando pra foder. Eu quero sangue! SANGUE! MOOOOOOORTE! SAAAAAAAAANGUE!!!!!!!!!!!!!!
— C-calma, Ja-Javé. J-Já e-entendi…
— Muito bem, mas não se esqueça disso: É pra chegar matando todo mundo e destruindo os deuses deles. Não quero ver pedra sobre pedra. Se vocês fizerem tudo direitinho, do jeito que eu tô mandando, eu vou dar aquela força: Cês vão ter comida e água, vão ter saúde, as mulheres não abortarão e todos terão vida longa. Seus inimigos terão medo de vocês e sairão correndo. Os limites das terras de vocês irão do golfo de Ácaba até o rio Eufrates e do Mediterrâneo até o deserto. Vai ser uma belezura. Mas vão ter que fazer direito, sem acordos com ninguém, matando geral. Se vocês pisarem na bola, tão fodidos. Cê tá entendendo?
— H-hum… T-tô. M-mas não co-concordo m-muito…
— Bah, Moisés, cê tem coração mole! Não pode ser assim não, meu velho. Tem que chegar matando aqueles putos, que é pra vocês terem a terrinha de vocês.
— M-mas e-eles n-não fi-fizeram na-nada!
— Bom, não vou perder meu tempo discutindo com você. A ordem é essa, desobedece pra ver o que acontece… E vamos em frente, que eu quero acabar logo com esse papo, que já tá comprido demais pro meu gosto.

— Porra, Moisés. Nunca vi nego demorar tanto pra dar uma mijada.
— É q-que m-meu pi-pinto é ga-gago t-também.
— Como? Não, não, poupe-me dos detalhes. Vamos continuar com nosso negócio aqui. Com coisinhas mais amenas. O ano sabático, por exemplo. Vocês vão semear a terra e colher seu fruto durante seis anos, mas no sétimo ano deixarão a terra descansar. Mesmo se brotar alguma coisa na terra no ano sabático, vocês não colherão nada: Será para os pobres, e o que sobrar ficará para os animais selvagens.
— M-mas p-pra q-quê de-deixar a t-terra de-descansar?
— Ah, Moisés, confia em mim. Vi isso no Globo Rural, é melhor pra fertilidade da terra e coisa e tal. Fora isso aí da terra, tem aquele negócio do sábado que eu já falei nos Dez Mandamentos. Vocês vão descansar no sábado, bem como seus escravos, seus animais e os estrangeiros que estiverem trabalhando para vocês.
— P-por que vo-você f-faz t-tanta questão di-disso, Ja-Javé?
— Ah, cê não sabe a aporrinhação que pode dar isso aí se um fiscal do trabalho passar por aqui. Vou ter que molhar a mão do cara, e mesmo assim nada garante que eu não vá receber uma multa. É foda isso. Tô tentando implantar uma política neoliberal por aqui, mas tá difícil, com esse meu filho barbudo metido a comunista. É foda. Mas vamos adiante, vou falar agora das três festas anuais.
— F-festas? C-com b-bolo, b-brigadeiro, ca-carne louca, c-cajuzinho?
— Claro que não, Moisés! São festas rituais, que é pra vocês nunca esquecerem que eu tirei seus rabos gordos do Egito. Todo ano, pra comemorarem a saída do Egito, vocês vão celebrar a Festa dos Pães Ázimos, como eu já tinha ordenado. Durante os sete dias da festa, vocês não vão comer pão com fermento. Quando vocês forem colher o que plantaram, vão celebrar a Festa da Colheita. No outono, com a colheita das uvas, virá a comemoração da Festa dos Tabernáculos. Depois eu explico isso aí tudo em detalhes. Por enquanto só guarde algumas regras: Quando vierem me trazer sacrifícios, não tragam pão com fermento.
— P-por quê?
— Oras, por quê! Tá vendo essa minha túnica? Quando cês saíram do Egito, ela estava com um caimento perfeito. Agora está apertada na barriga e na bunda. Eu tô uma baleia, Moisés, preciso me cuidar! Na minha idade a gente não pode dar moleza. Então eu quero pão sem fermento, e a gordura dos animais que vocês sacrificarem deverá ser queimada. Ah, e todos os anos vocês vão trazer ao lugar de adoração os primeiros cereais que colherem, que é pra eu ter um café da manhã rico em fibras.
— S-só uma co-coisinha: O q-que os a-animais t-têm com i-isso? Por que sa-sacrificar os bi-bichinhos, co-coitados?
— Moisés, Moisés… Lá em Canaã, pra onde cês tão indo, tem uns caras que sacrificam os próprios filhos aos deuses deles. Vocês têm é que me agradecer por não exigir nada assim. Eu podia largar mão disso aí e não exigir sacrifício nenhum, mas aí ia pegar mal com os outros deuses. Eles iam tirar sarro de mim e os filhos deles iam bater no meu moleque na escola.
— O-outros de-deuses? U-ué, mas vo-você não d-disse q-que é u-um s-só?
— Er… Hum… É, disse. É… Veja bem… Ah, Moisés, pára de fazer pergunta difícil. Pega mais uma cerveja pra mim lá na geladeira, que é pra gente acabar logo com esse papo chato.

— E aí, Moisés? Pronto pra continuar?
— T-tenho a-alternativa?
— Claro que não. Pois bem, vamos em frente. Leis de justiça e misericórdia. Redigi esse conjunto de leis cuidadosamente para evitar que Israel fique feito minha terra, o Brasil. Aquilo lá é uma zona. Aqui não! Aqui eu quero as coisas funcionando direito. Vou começar pelo mais simples: Não espalhem notícias falsas. Não quero saber desse negócio de fofocas, mexericos, boatos, e-mails sobre gatos-bonsai e a venda da Amazônia. Todo dia recebo uma caralhada dessas mensagens: É o cara que acordou sem rins numa banheira de gelo, é o outro que cheirou éter achando que fosse perfume e foi seqüestrado, é TV que explode e mata criança, é campanha para libertar Dona Antonia, puta que pariu! Isso me irrita, sabia? TENHO VONTADE DE MATAR O FILHO DA PUTA QUE ME MANDA ESSAS COISAS! MATAR! SANGUE! SANNNNNNNNNGUEEEE!!!!!!!
— J-Javé, o-olha seu co-coração.
— HUMPF! Bom, vamos em frente com essa porra. Tem umas coisas que são muito óbvias, mas se eu não disser que é lei, vocês vão e fazem, na maior cara-de-pau. Falso testemunho, por exemplo: Preciso descer do céu, onde tenho mordomias e como tudo quanto é vagabunda, pra vir dizer a vocês que é errado? Mas se eu não disser, neguinho dá uma de joão-sem-braço, “Ah, não sabia!”. É foda. Então é isso, que fique bem claro: Mentir pra prejudicar os outros é um puta troço nojento, e eu vou foder com a vida de quem fizer isso. Mesmo que seja, sei lá, pra ajudar um cara pobre e tal: Se for com mentira, não quero saber. E ainda tem gente que vai fazer isso pra acompanhar a multidão, “Ah, se todo mundo tá dizendo que fulano é culpado, vou dizer também”. Taí um negócio que me emputece de verdade: Maria-vai-com-as-outras. Sabe o que eu respondo a essa gente? Sabe, Moisés?
— “E se tiver todo mundo se jogando de cima de um prédio bem alto, você vai também?”
— Ué, cê não gaguejou!
— É q-que f-foi u-uma ci-citação.
— Ah… Mas como você sabia que era isso que eu respondia pra esse povo?
— M-minha m-mãe v-vivia fa-falando i-isso q-quando eu era mo-moleque. E eu n-nem sabia que e-ela era m-minha ma-mãe, p-pensava q-que f-fosse s-só u-uma b-babá, a-achava q-que m-minha ma-mãe fo-fosse a fi-filha do Faaaaa… Fa-Faaaaaaaa… Fa-fi-Fu-Faaaaaaaa…
— Tá, Moisés, tá! Todo mundo já sabe dessa história, se você for recontar, tamos na roça. Não temos tempo a perder com sua gagueira, vamos em frente. Bom, essa parte de falso testemunho eu já acabei. Deixa eu ver o que vem agora… Bom, acho que ajudar os amigos é uma coisa que todo mundo faz, então nem vou falar nisso. Agora, o bicho pega quando se trata de inimigos. Por exemplo: Um cara vem andando pela estrada, sem nada pra fazer, e vê um jumento ou boi desgarrado que ele sabe que pertence a um inimigo. Pois bem, é obrigação dele pegar o bicho e levar até o dono. O mesmo acontece se der de cara com um desafeto tentando levantar um jumento que arriou embaixo da carga: Deve ir ajudar o cara, mesmo sendo inimigo. E isso serve para quaisquer situações.
— S-sei. Re-resumindo, é p-para a-amar os i-inimigos, é i-isso?
— Amar os inimigos? Tá louco? É pra manter a sociedade funcionando direito, não tem nada de amor aí. Esse papo de amor é coisa do meu filho, mas ele é meio hippie, ninguém leva o moleque a sério. E espero que nunca levem.
— C-cê t-tem um fi-filho?
— Tenho, mas não quero falar nisso. Vamos tratar da nossa vida aqui, deixa meu filho pra lá. O que tá faltando? Hum… Suborno. Suborno é foda. O cara que recebe suborno muda seu discurso, se finge de cego, de surdo, é uma merda. Ninguém deve aceitar suborno. E acho que é só isso. Ah, os estrangeiros! Já ia me esquecendo dessa parte. Vocês devem se lembrar que foram estrangeiros na terra do Egito, então devem tratar bem os estrangeiros que forem à terra de vocês, beleza? Isso é importante. Tá prestando atenção, Moisés?
— T-tô t-tentando…
— Pois preste muita atenção, que ainda tem mais.
— P-peraí s-só um po-pouco. P-precijo mi-mijar.
— Beleza, tô esperando. Mas vai rápido, ainda falta muita coisa.

— E aê, Moisés? Tá boa a cerveja?
— T-tá b-brincando??? E-Essa po-porra é S-Schincariol!
— Porra, cê queria o quê? Foi o que eu pude arranjar, aqui no meio do deserto. Pô, sou deus mas não sou dois. Aliás, bota isso na cabeça do povo: Eu sou um só. Isso é importante. E por falar nisso, vamos passar às leis morais e religiosas. Deixa eu ver, por onde eu começo? Hum. Putaria! Putaria é sempre um bom modo de começar. Pois vamos lá: Se um homem comer uma menina virgem que não estiver prometida para casar, será obrigado a pagar o dote e se casar com a moça. A não ser que o pai da menina não permita de jeito nenhum que ela se case com o sujeito. Aí o cara vai pagar multa.
— J-Javé, o-onde é que o c-cara v-vai a-achar uma v-virgem?
— Ah, Moisés, sei lá. É só um exemplo. Vamos em frente: Se algum demente resolver que quer trepar com os bichos, será morto.
— E-então eu n-não po-posso m-mais m-mandar A-AArão ir d-dar pro ca-cavalo?
— Poder, pode. Ele que não pode ir, oras. Hum. Matar, matar. Gosto de pena de morte. Ah, as bruxas! As bruxas devem ser mortas! Morte às bruxas! E quem adorar a outros deuses, será morto também. PEGA! MATA! MATA! SANGUE! SANGUE!
— C-calma, J-Javé. O-olha a sua p-popularidade…
— Ah, é. Melhor eu falar de coisinhas bonitas. Ah, já sei: Vocês vão proteger as viúvas e os órfãos. Isso é uma ordem. Se vocês não o fizerem, EU MATO VOCÊS TODOS NA GUERRA E AÍ SUAS MULHERES E FILHOS É QUE FICARÃO VIÚVAS E ÓRFÃOS! SANGUE! SANNNNNNNNNNNGUEEEEEEEEEEEEEEEE!!!
— J-Javé…
— Ôpa, foi mal. É mais forte que eu. Mais coisinhas fofinhas: Eu proíbo vocês de cobrarem juros sobre empréstimos.
— Q-QUÊ??? S-somos i-israelitas, e-esqueceu? Já v-viu ju-judeu n-não co-cobrar j-juro?
— Putz, é mesmo… Bom, deixa assim por enquanto, depois a gente acha uma brecha na lei e tal. Em tudo se dá um jeitinho, Moisés, é só ter jogo de cintura.
— D-deus é b-brasileiro m-mesmo…
— Como disse?
— N-nada. T-toca o b-barco.
— Vamos lá. Quem tomar a roupa de alguém como garantia de empréstimo, deverá devolver a roupa antes de anoitecer, mesmo que o empréstimo não tenha sido pago. Porque, convenhamos: Um cara que dá a roupa do corpo como garantia de empréstimo tá muito fodido mesmo, nunca vai ter como pagar, e trouxa é quem empresta alguma coisa pra um cara desses. Que mais, que mais? Ah, vocês não podem reclamar de mim. Nem do governo.
— P-pô, s-sacanagem!
— Sacanagem? Ora, Moisés, é necessário que se mantenha a ordem nessa zona aí.
— T-tá, mas q-que go-governo?
— Ah, quando vocês chegarem à Terra Prometida a gente vê isso. Por enquanto o governo é você.
— T-taí, g-gostei.
— Sabia que cê ia gostar, seu velho sem-vergonha. Mas vamos logo terminar essa parte. Os primogênitos de vocês serão dedicados a mim. Ah, e os dos animais também. Só que as crias dos animais serão sacrificadas. Os filhos de vocês, não. Olha como eu sou bonzinho.
— T-tô vendo…
— Bah, Moisés, tô ficando velho. Não tenho mais disposição pra fazer coisas como o Dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra. Quero me aposentar logo, então vou deixar essas leis escritas aí, pra eu poder descansar, sabe? Mas enquanto eu não me aposento, fica na sua aí e presta atenção no que eu digo. Vamos passar agora às leis de justiça e misericórdia.
— P-puta que p-pariu…
— Paciência, Moisés. Paciência…

— Hum. Onde é que eu estava mesmo, Moisés? Já falei aquele lance do boi chifrador?
— J-já.
— Ok, então agora vou te passar as leis para roubo e prejuízo. Começando pelo mais simples: Se alguém roubar um boi ou uma ovelha, e matar ou vender o animal, vai pagar cinco bois ou quatro ovelhas, segundo o caso.
— Q-que po-porra de c-critério é e-esse?
— Ah, sei lá, inventei agora.
— E é s-só p-pra bo-boi e o-ovelha? E s-se o ca-cara r-roubar, s-sei lá, um ju-jumento?
— Bah! Se eu começar a ser muito específico, a gente não sai mais daqui. “Ah, se o cara roubar uma zebra branca com listras pretas a pena é tal, mas se for uma zebra preta de listras brancas, vai pagar assim-assim”. Mas você que sabe, eu tenho a eternidade pela frente, não tenho pressa…
— D-deixa p-pra lá.
— Muito bem, então vamos tocar o barco: Se o cara não tiver como pagar pelo roubo, vai ser vendido como escravo pra pagar. Mau negócio, hein? Agora, se o animal roubado for encontrado vivo com ele, a pena é mais branda: Paga só dois por um, seja boi ou ovelha.
— E ze-zebra?
Numfode… Deixa eu continuar, que tem coisa pra caralho. Próximo artivo, deixa eu ver… Hum. Se um ladrão entrar à noite e for morto pelo dono da casa, o que matou não será culpado pela morte do ladrão. Mas se isso for durante o dia, o dono da casa será culpado de assassinato.
— U-ué, qual a d-diferença?
— Porra, o cara que vai assaltar à luz do dia, além de ladrão é burro. Juntar a isso a condição de morto não vai ser nada bom para o currículo dele. Então tenho que dar um jeito de proteger o coitado. Bom, essa parte aí de roubos já tá beleza. Agora os prejuízos: Se algum zé mané irresponsável deixar os animais dele pastando num campo ou plantação alheios, vai pagar o prejuízo com o que tiver de melhor no próprio campo ou plantação. O mesmo acontecerá para alguém que acender uma fogueira, o fogo se espalhar e queimar plantações alheias. Hum, deixa eu pensar em outro caso… Ah, suponha que alguém recebeu dinheiro ou objetos de outra pessoa para guardar. Muito bem. Aí vem o ladrão e rouba. Se o ladrão for pego, beleza, pagará em dobro o que roubou. Agora, se não acharem o mequetrefe, o cara que era responsável pelo que foi roubado será levado ao lugar de adoração para jurar que não roubou nada.
— L-lugar de a-adoração? Q-que l-lugar de a-adoração?
— Ah, um lance aí que eu tô aprontando. Depois eu te falo, tá na prancheta ainda. Vamos manter o foco no nosso assunto aqui, beleza? Então. Essa lei que eu acabei de falar também serve para animais.
— P-para a-animais? T-tipo, s-se a v-vaca g-guardar o d-dinheiro do j-jumento?
— Não se faz de burro, Moisés. Tô falando de quando um cara pega um animal emprestado de outro cara. Vale a mesma lei do dinheiro e dos objetos, com um detalhe a mais: Se o animal adoecer e morrer na ausência do dono, o cara que tinha pegado o bicho emprestado vai pagar. No entanto, se o bicho adoecer e morrer na presença do dono, ou for morto por animais selvagens, o cara não paga nada. No caso de ser um animal alugado, só paga o aluguel. Que mais, que mais… Hum. Ah, Moisés, pode ir.
— P-posso ir e-embora???
— Pode ir pegar mais uma cerveja. Rá! Falta muito ainda, véio. E vai rápido, que é pra eu começar a te falar das leis morais e religiosas.
— P-putz…
— Reclama não, Moisés, essa parte é legal. Bota um pouco de cerveja aqui no meu copo, só pra molhar as palavras. Aê, tá bom. Vamos lá…

— Moisés, cadê você?
— T-tô a-aqui.
— Ôpa. Seguinte, puxa uma cadeira, que a conversa vai ser longa. Tenho que te passar umas leis aí.
— L-leis? M-mas já n-não ba-bastam os D-Dez M-M-MMandamentos?
— Claro que não! Esse monte de gente aí não se governa com só dez mandamentos não, Moisés. Tem que ter leis detalhadas, penas severas e bem definidas, tabus. Tem que botar medo nesse povo, muito medo. Ah, você aprende. Tá pronto pra ouvir?
— D-diz aí.
— Pois muito bem, vamos começar pelas leis a respeito dos escravos…
— E-escravos? Q-que e-escravos?
— Os escravos de vocês, oras. Lerê-lerê-Lerelereleiê, aquele negócio. Ô, mas cê tá burro hoje, hein?
— M-mas n-não é um pa-paradoxo a g-gente ter e-escravos? F-fomos e-escravos no E-Egito p-por ta-tanto tempo…
— Ah, Moisés, você não sabe de nada. A escravidão é necessária para o bom funcionamento de qualquer sociedade, entende? Mesmo em sociedades ditas livres, a escravidão existe. Percebe a sutileza da coisa? Oquêi, vamos em frente. Escravos, escravos… Olha só, por exemplo: Se um cara compra um escravo hebreu, esse escravo vai servir por seis anos, mas deverá ser libertado no sétimo.
Q-quanta b-bondade…
— Como disse?
— N-nada.
— Hum. Então, o cara será livre depois de sete anos. Se entrou sozinho, sai sozinho; se entrou com a mulher, sai com a mulher. Agora, se entrou sozinho e o dono dele arrumou uma mulher pra ele, e tiveram filhos; quando ele for liberto se fode: Tem que deixar a mulher e os barrigudim na casa do dono. A não ser que o escravo diga que quer ficar com a mulher e os filhos: Nesse caso, o proprietário o levará na presença dos juízes, furará sua orelha com uma sovela, e ele será escravo pra sempre.
Q-que s-sorte, não?
— Cê falou alguma coisa?
— E-eu? E-eu não…
— Tá. Então. Aí suponha que um cara venda a filha dele como escrava; ela não vai ter esse direito aí de ser libertada no sétimo ano.
— P-por quê?
— Ora, por quê… Porque sim, Moisés. Porque eu quero, e eu sou é deus. Oras. Então. Mas se o senhor dela não se agradar da menina, deverá permitir que ela seja resgatada pela família. É proibido vendê-la a algum povo estrangeiro. Só que tem o seguinte: Se o senhor resolver casá-la com um filho, deverá reconhecer seus direitos de filha. E se depois ele casar o filho com outra mulher, não poderá diminuir o mantimento da primeira, nem as roupas, nem os direitos conjugais. Se assim não fizer, ela sairá de graça. Hum. É, quanto aos escravos acho que é isso. Aí tem toda a parte pra quando uma pessoa matar a outra.
— M-mas p-precisa i-isso? C-cê já n-não fa-falou nos D-Dez M-Mandamentos que q-quem ma-matar se fo-fode?
— Falei, Moisés, falei. Mas não é tão simples assim. Veja só: Se um cara matar outro, pena de morte pra ele. Mas se não foi na deslealdade, se eu que tiver feito o cara cair nas mãos dele, então ele deverá fugir para um lugar que eu vou determinar depois. Aliás, deixa eu marcar isso no Palm pra não esquecer… Pronto. Que mais, que mais… Ah, quem agredir o pai ou a mãe, morre. Quem raptar um homem, se fodeu, morre. Quem amaldiçoar os pais, rá!, morre.
— P-porra, é p-pena de mo-morte pra t-tudo???
— Claro que não, Moisés. Não sou tão mau assim, já dizia Raul Seixas. Se dois caras brigarem e um cair de cama, mas depois de uns dias se recuperar, o outro não vai ser condenado à morte; só vai ter que pagar os dias de trabalho que o cara perdeu e ajudar no tratamento. Se alguém der umas chibatadas em seu escravo e ele morrer, será punido. Mas se o escravo fiacr vivo uns dois dias, fica por isso mesmo.
— C-como???
— Ué, Moisés! É só um escravo, propriedade do cara! Oras. Putz, agora perdi o fio da meada, deixa eu ver aqui… Muito bem. Se houver uma briga e uma mulher grávida for ferida e abortar, os caras que estavam brigando vão pagar uma multa no valor que o marido da mulher estipular. Mas se houver morte, ah… Peraí, que eu vou falar um negócio pra ficar gravado na cabeça de todo mundo: Vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por…
— … Fe-ferida p-por fe-ferida. T-tá, j-já sa-saquei.
— Certo. É bom mesmo. HUMPF. Ah, por falar em olho e dente, tem mais umas coisinhas aqui sobre escravos: Se um patrão ferir o olho ou tirar um dente de um escravo, o escravo será libertado por isso. E agora, leis sobre animais.
— A-animais??? Ô Ja-Javé, cê n-não t-tá e-exagerando c-com esse ne-negócio?
— Exagerando nada! Se você soubesse o que pode acontecer de confusão por causa de bicho… Por exemplo: Se um boi chifrar uma pessoa, e a pessoa morrer, o que você faz?
— Pu-puxa. N-nunca p-pensei nisso…
— Tá vendo? Eu tô te falando, Moisés, a lei tem que ser bem detalhada! Nesse caso aí: O boi vai ser apedrejado e jogado fora, mas o dono será absolvido. Agora, imagina a seguinte situação: O boi era bravo, vivia correndo atrás dos outros. O dono, advertido disso, não tomou nenhuma providência. Aí o boi chifrou uma pessoa e a pessoa morreu. Então sim, o dono e o boi serão mortos. A não ser que a família da vítima prefira indenização, nesse caso o dono do boi vai pagar o que a família quiser. Outro caso: Um boi mata um escravo. Aí o dono do escravo vai receber trinta siclos de prata e o boi será apedrejado. E então temos a situação oposta, que é quando o animal de alguém é morto. Digamos que alguém cave um buraco, deixe aberto, e o boi ou jumento ou outro animal caia no buraco e morra. Então o que cavou o buraco vai pagar o preço do animal ao dono, mas o animal morto será seu. Aliás, um bom jeito de se arrumar carne pra um churrasquinho. Deixa ver, o que mais pode acontecer com bichos? Ah, se o boi de alguém matar o boi de outra pessoa, o boi que ficou vivo será vendido. O dinheiro da venda do boi será repartido igualmente, assim como a carne do boi morto. A não ser, é claro, naquele caso que eu já disse: O boi era bravo, o dono sabia e não fez nada. Aí vai ter que pagar o preço do boi para o outro, e ficará com a carne do boi morto.
— É. E-essas l-leis para os a-animais pe-pelo m-menos são j-justas… E d-detalhistas t-também, pu-puta merda. T-tem mais a-alguma co-coisa?
— Se tem mais? Putz, nem comecei ainda! Pega uma cerveja ali na geladeira, que agora vamos falar sobre leis acerca da propriedade.
— A-ai meu s-saco…
— Não reclama. Vamos lá…

— Ah não! Esse filme é muito comprido… Não dá pra passar Men In Black II?
— Vai à merda, porra.

ARGH! Onde é que eu estava? Ah, aquela putaria toda no monte Sinai. Pois muito bem. Deus começou a falar para Moisés, Arão e todo o povo lá embaixo:
— Seguinte, cambada de filhos da puta! Eu sou é deus, tão me ouvindo? DEUS! Eu que tirei vocês lá do Egito, não fosse por mim estariam todos se fodendo na mão do Faraó.
É, e agora estamos nos fodendo na mão de um deus que nem mostra a cara…
Alguém aí disse alguma coisa???
— …
— HUMPF! Preciso falar umas coisinhas pra vocês. Prestem atenção, seus porras. Vou falar bem alto pra vocês não perderem nada.

Primeiro: Vocês não podem ter outros deuses. O único deus aqui nessa porra sou eu. Tão me ouvindo? Só eu, mais nada! Se vierem com papinho de outros deuses, vocês se fodem.
Segundo: Vocês estão proibidos de fazer estátuas ou outros tipos de imagem para adorarem. Porque eu sou ciumento e vingativo, e se alguém começar a adorar imagens, eu castigo o cara, os filhos, os netos, os bisnetos. Isso é sério! Se não levarem a sério, vocês se fodem.
Terceiro: Não fiquem falando meu nome à toa. Esse negócio de “Graças a Javé” pra lá, “Javé te abençoe” pra cá, “Vai com Javé”, “Javé ajuda quem Seu Madruga”, puta merda, fico puto com isso. Muito cuidado, se não eu fodo com a vida de vocês.
Quarto: O sábado vai ser um dia sagrado pra vocês, porque eu fiz tudo em seis dias e descansei no sábado. Então sábado vai ser dia de descanso. Aproveitem essa folga.
Quinto: Cês têm que respeitar os pais de vocês. Se vocês fizerem isso, vão viver mais. Se não, vocês se fodem.
Sexto: Acho que eu nem precisava dizer isso, mas vocês são burros, então é bom deixar bem claro que matar é pecado. Não matem ninguém. Ou vocês se fodem.
Sétimo: É proibido comer a mulher dos outros. E todas as outras combinações. Adultério, nem pensar. Ou vocês se fodem.
Oitavo: Nada de roubar também. Adivinhem o que vai acontecer com quem roubar? Muito bem, isso mesmo: Vai se foder.
Nono: Não tem coisa pior do que fazer calúnia contra os outros. Quem começar com calúnias, se fode.
Décimo: Inveja, olho gordo, não quero ver nada disso por aqui. Quem ficar cobiçando a mulher dos outros, ou a casa, ou os animais, ou os escravos, ah!, tá fodido


— É isso aí. Não reclamem, até que é uma lei bem justa. Eu queria fazer um negócio mais legal, tipo proibir o álcool e a maconha, essas coisas, então não reclamem. Mas e aí, entenderam tudo?
— …
— Porra, cadê o povo?
— T-todo m-m-mundo s-saiu co-correndo, J-J-Javé. E-eles estão c-com m-medo de v-vo-você.
— Bah, povo bunda! Medo do quê, oras? Sou um cara legal. Bom, xapralá. Moisés, chega aí que eu preciso falar mais umas coisinhas com você.
— Ó, merda…
E lá foi Moisés subir o monte outra vez, na direção das densas trevas onde deus estava. Quando chegou lá, deus começou a falar. Falou. Falou. Falou pra caralho. Falou tanto que não cabe aqui. Depois eu conto.