Três meses depois da saída do Egito, os hebreus chegaram ao deserto do Sinai. Três meses andando de lá pra cá e nada de Terra Prometida. Moisés e Arão lideravam um povo impaciente. Vendo aquilo, deus resolveu interferir ligando para Moisés.
— Moisés, tenho duas coisas pra te falar.
— D-diz a-aí.
— Primeira: Muda o toque dessa porra de celular, que “I will survive” te compromete…
— T-tá b-bom.
— Segunda: Sobe o monte Sinai que eu vou te econtrar lá. Precisamos conversar a respeito desse povinho bunda aí.
Moisés mudou o toque do celular para o Nokia tune. Depois disso, pegou uns suprimentos e subiu o monte para falar com deus.
— Moisés, negócio seguinte: Cê vai falar praquele povo que eles viram muito bem o que eu fiz por eles. As pragas, a travessia do Mar Vermelho, a água saindo da rocha, o maná, as codornas, o…
— P-peraí. C-cê não v-vai co-colocar os li-links?
— Nah, mó preguiça… Mas eu dizia: Eles viram a presepada toda. Então. Se eles forem bonzinhos e me obedecerem, serão o meu povo escolhido.
— U-ué. M-mas vo-você já n-não é d-dono de to-todas as co-coisas?
— Hum. Er… Sou, claro que sou, sou! Eu sou é deus, não sou? SOU! Então. Mas Israel vai ser o meu povo, entende? O predileto do papai aqui, o protegido, o que vai ganhar os melhores presentes, o que vai fazer natação e judô, o que vai estudar em escola particular, o que vai…
— T-tá, já e-eeeentendi.
— Certo. Então eu vou conceder uma coletiva para os israelitas depois de amanhã, aqui mesmo no Sinai.
— L-legal! Pe-perguntas p-por e-escrito?
— Que perguntas? Não vai ter pergunta nenhuma não! Eu falo, vocês escutam. Perguntas! Era o que me faltava…
— U-ué, p-por que n-não?
— Porque sempre vai ter um babaca pra fazer aquelas perguntas de sempre: “Se deus é tão bom, porque existe tanta maldade no mundo?”. Ou: “Por que nascem tantas crianças defeituosas?”. Ou então: “Se é pra ser feita a vontade de deus de qualquer forma, de que adianta rezar”. Ou ainda: “Deus, nesse calor do deserto até elefante na bunda sua?”, “E quando o Nilo seca, crocodilo no seco anda?”, “No meio do deserto não seria bom para o senhor uma chuvinha em cima?”, ARGH! Fico puto com essas perguntinhas, sempre as mesmas. Portanto vai ser assim: Eu vou falar, falar, falar. Vocês vão escutar, escutar, escutar. E aplaudir no final. Beleza?
— B-beleza.
— Ah, Moisés, só mais uma coisinha: Esse povo tá aí vagando pelo deserto há três meses, sem tomar banho direito. Às vezes lá de cima eu sinto a catinga. Fala pra eles tomarem banho e lavarem as roupas antes da entrevista. Ah, e pra garantir, eles só vão poder ficar ali no sopé. Quem encostar no monte será condenado à morte.
— Q-que e-exagero!
— Exagero porra nenhuma! Sou um deus limpinho, não suporto gente suja e maltrapilha. Agora vai e prepara tudo. Avisa pra eles só chegarem perto quando ouvirem meu saxofone.
— S-sa-saxofone?
— É, tô fazendo aula, mó barato. Cê vai ver. Por enquanto, vai lá e avisa os caras.
Moisés desceu o monte e tratou logo de mandar um e-mail para israelitas@exodo.org avisando sobre a entrevista coletiva e os preparativos necessários.
Dois dias depois, uma nuvem escura desceu sobre o Sinai. Trovões, relâmpagos. De repente, um som de saxofone muito mal tocado saiu de dentro da nuvem. Uma coisa remotamente parecida com Kenny G, que já é suficientemente ruim quando bem tocado. Todos os israelitas ficaram com medo de chegar perto do monte e ficarem surdos. Mas Moisés tanto insistiu que eles acabaram se aproximando. O Sinai estava soltando fumaça e o som do saxofone ficava cada vez mais alto e distorcido. Querendo acabar logo com aquela tortura, Moisés ligou para deus:
— J-J-Ja-Javé, e-estamos aqui n-no pé d-do mo-monte. P-pode pa-parar de t-tocar.
— Ôpa, legal. Sobe aqui Moisés. Só você, hein? Se mais alguém subir, morre.
Moisés começou a subir o monte. Oitenta anos de idade, aquela subida escarpada, chegou lá em cima com a língua pra fora.
— Já chegou Moisés? Legal. Agora desce lá e chama o Arão, que eu quero falar com ele também.
— N-não p-preciso de-descer. Eu l-ligo p-pra ele…
— Não! Eu quero que você desça e chame o cara.
— M-mas p-por quê???
— Porque eu me divirto com isso, Moisés. Vai lá.
“Filho da puta”, pensou Moisés, e começou a descer novamente.
— Moisés?
— F-fala.
— Ouvi o que você pensou. Melhor não abusar, viu?
— B-bah!
Quando Moisés já estava lá embaixo procurando Arão, deus falou com o povo. O que ele disse? Ah, um negócio tão legal que merece um capítulo próprio. Fica pra depois.

— Moisés! Ô, Moisés! Lembra da Zípora?
— Z-Zípora? N-não…
— Sua mulher, porra!
— M-mu-mu-mulher???
— É, Moisés. Mulher. Cê é casado, esqueceu?
— P-puta q-que pariu! P-por que c-cê f-foi l-lembrar da-daquela me-megera a-a-aaaaaaagora, A-AAArão?
— Calma, calma.. Cê fica nervoso e a gagueira piora. Lembrei dela por acaso. Tava pensando nos bons tempos da nossa juventude e tal, e lembrei do seu casamento. Ah, aí aconteceu um negócio engraçado: Seu sogro, o Jetro, veio até aqui porque ficou sabendo de tudo o que aconteceu no Egito, as pragas, o episódio do Mar Vermelho e tudo mais. Tá aí fora, com sua esposa e seus filhos.
— A-A-A-AAAAAAAARGH! Ô! P-Peraí. F-fi-filhos? Só l-lembro do G-Gérson.
— Quando cê saiu de casa, Zípora estava grávida. O moleque nasceu, chama-se Eliezer, que significa deus ajuda.
— E-eu sei o q-que si-significa, A-A-AArão.
— Ah, é. Bom. Mas é isso. O Jetro tá aí, veio te devolver sua mulher. Olhe pelo lado bom, Moisés: Seus filhos são adultos, podem cuidar de você na velhice.
— V-vai à m-merda. Bom, v-vamos a-aacabar lo-logo com i-isso.
Assim dizendo, Moisés saiu ao encontro de Jetro. Cumprimentou-o na maior alegria, como se sua chegada fosse a melhor notícia em anos. Convidou-o a entrar na tenda e resolveu sacanear o sogro: Começou a contar tudo o que acontecera desde que voltara ao Egito. E Jetro naquela situação: Querendo fugir para qualquer lugar, qualquer um, só para não ter que passar pela tortura de ouvir uma história comprida contada por um gago; mas tendo que ser cordial, ou Moisés seria capaz de mandar Zípora e os filhos de volta com ele. Então agüentou firme. Até deu umas cochiladas aqui e ali, mas Moisés não notou, tão empolgado estava com a narrativa de seus feitos.
— … E f-foi a-a-assim q-que de-derrotamos os a-a-aaaaamalequitas. C-com a va-vara de J-Javé e-erguida. Je-Jetro, cê t-tá me o-ouvindo?
— Hum? Ah. Claro, claro! A vara de Javé. Grande vara de Javé. Não há vara maior nesse mundo. U-hu. Viva Javé.
* * *
No dia seguinte, Moisés se sentou numa pedra pra julgar o povo, aquela gente toda em pé esperando a vez. Vendo aquilo, Jetro ficou encucado e foi perguntar a Arão do que se tratava. Bom, na verdade ele foi perguntar a Moisés. Mas vocês querem mais um diálogo de Jetro com Moisés, com aquela gagueira irritante? Não, né? Então não reclamem se troco ele por Arão. Dá na mesma. Bom. Jetro perguntou a Arão que porra era aquela, e Arão respondeu:
— Ah, Moisés faz isso aí uma vez por semana. Quando há discussões, questões de propriedade, essas coisas todas, o povo vem aqui para que Moisés consulte deus a respeito e decida quem está com a razão.
— Porra, mas que lusíada esse Moisés! Não vê que assim ele se acaba, e o povo também? Ele porque já está velho e não pode passar por esse perrengue toda semana, o povo por ficar em pé embaixo desse sol do deserto. Não, esse trabalho é muito pesado! Ele tem que aliviar isso aí para poder cuidar de outras coisas mais importantes.
— Tá, mas de que jeito?
— Te digo de que jeito: Fala pra ele escolher uns líderes do povo. Líderes de grupos de dez pessoas, de cinqüenta, de cem e de mil. Ele ensina as leis pra esses caras. Então quando dois caras brigarem, irão até o líder do grupo de dez pessoas dos quais eles fazem parte. Se o cara não resolver, a questão sobe um degrau na hierarquia, para o líder de cinqüenta. E assim por diante, de modo que só causas mais graves cheguem a Moisés.
— Porra, Jetro, que idéia bestial! Vou levá-la agora mesmo ao conhecimento de Moisés.
Moisés ouviu a idéia, gostou e tratou logo de pô-la (pôla!) em prática. E viu que, de fato, sua vida ficou bem mais sossegada. Jetro, feliz por ser o criador do primeiro Tribunal de Pequenas Causas, voltou para sua terra. E, para desespero de Moisés, não levou a filha junto.

Hum. Onde é que estávamos mesmo? Ah, água saindo da rocha, aquela palhaçada toda. Pois bem. Os israelitas ainda estavam ali em Refidim quando os amalequitas vieram atacá-los. Sabe como é, um bando de gente andando sem rumo pelo deserto é um alvo fácil. Vieram, atacaram, aquela zona. Então Moisés chamou Josué, um cara ainda jovem mas que tinha a manha de estratégias de guerra. Guardem esse nome, ainda vamos falar muito dele. Pois Moisés chamou Josué:
— J-Jo-Josué, v-você vai e-e-escolher os ho-homens p-para lu-lutar c-contra os a-a-a-aaaaaaamalequitas. Du-durante a b-batalha, eu v-vou fi-ficar em c-cima do m-monte, c-com a va-vara de J-Ja-Javé na m-mão.
— HAHAHA! Qualé, Môsa? Vai ficar segurando a vara do cara em cima do monte? Seu velho pederasta sem-vergonha!
— J-já fa-falei pra v-você n-não m-me ch-chamar de M-Môsa, po-porra! M-mais re-respeito. E p-pederasta é t-teu p-pai.
— Calma, Môsa! Olha o coração! Se você quer subir no monte pra ficar segurando a vara de Javé, ninguém tem nada com isso. Vai fundo. Enquanto isso, vou recrutar uns caras pra gente dar uma surra nesses amalequitas.
E assim fizeram: Josué montou um exército em tempo recorde para a batalha, e saíram ao encontro dos amalequitas. Enquanto isso, Moisés, Arão e Hur subiram ao monte Sinai. Mas quem é esse tal de Hur? SEI LÁ! Apareceu de repente, devia ser algum puxa-saco de Moisés. Só sei que eles subiram lá e começou o pega-pra-capar no campo de batalha. E logo tanto israelitas quanto amalequitas notaram uma coisa estranha: Quando Moisés estava com a vara erguida (hehehe), o povo de Israel se dava bem. Se ele abaixava a vara, os amalequitas começavam a levar a melhor. Ele bem que queria manter a vara erguida o tempo todo, mas já estava bem velho, o mero fato de conseguir erguê-la já era um milagre. Então Arão e Hur (quem é esse cara???) sentaram Moisés numa pedra e ficaram um de cada lado, segurando seus braços. Desse modo a vara ficou erguida até o pôr-do-sol, e Israel venceu os amalequitas.
Finda a batalha, deus veio falar com Moisés.
— Aê, Moisés! Boa essa! Gostei da sua empunhadura na minha vara, coisa de profissional.
— N-num sa-sacaneia, J-Javé.
— Hehehe… E esse moleque aí, Josué, cabra bom, tem futuro. Diz pra ele que eu vou destruir os amalequitas, varrer seus rabos gordos do mapa.
(essa dos rabos gordos é pro Risadinha)

Muito bem, o povo enchia o cu de maná todo dia, e mesmo assim não perdia a mania de reclamar. Saindo de Sim, andaram de um canto para outro, segundo as orientações de deus (que fazia os caras andarem em círculos e em ziquezague, só pra sacanear) e acabaram chegando a um lugar chamado Refidim. Lugarzinho mixuruca sem-vergonha, onde nem água tinha. E lá foram os israelitas reclamar com Moisés:
— Moisés, cadê a água? Queremos água!
— P-porra, c-cês são ch-chatos pra c-ca-caralho…
Mesma ladainha de sempre: Ah, cê tirou a gente do Egito pra morrer de sede no deserto, isso não se faz, você é um feladaputa e blá-blá-blá. De saco cheio, Moisés foi falar com deus:
— Ô J-Javé, dá u-um je-jeito a-aí. M-mais um po-pouco e e-esse p-povo me c-ca-capa.
— Hum. Povinho bunda esse aí, hein? Acho que vamos precisar de uma pequena encenação. Faz o seguinte: Pega uns três ou quatro líderes do povo e suba com eles naquela rocha, no monte Sinai. Não esquece de levar a vara. Levar a vara. Hehehe…
— P-porra, Ja-Javé!
— Ah, desculpa aí. Então, chegando lá cê vai bater na rocha, e dela sairá água pra esse povo.
Moisés escolheu os manda-chuvas mais influentes e levou-os para o alto da pedra. De lá fizeram um puta discurso para o povo, aquela coisa toda. No final, Moisés bateu na rocha, a água começou a jorrar e todos puderam matar a sede. E a partir daquele dia o povo passou a chamar o lugar de Massá (“provocação”)e Meribá (“reclamação”).

O povo de Israel saiu de Elim em direção ao deserto de Sim…

— Não!
— Calaboca.

Eu ia dizendo que eles foram para o deserto de Sim, que fica a meio caminho entre Elim e o monte Sinai. Falando assim parece tudo muito rápido, mas já fazia dois meses e meio que os hebreus tinham saído do Egito. E no meio do deserto, o povo começou a reclamar:
— Caralho, Moisés! Não tem nada pra comer nesse lugar, cê tirou a gente do Egito pra morrer de fome no deserto? Melhor era lá, que tinha carne e pão todo dia. Puta que pariu!
Moisés — que era uma espécie de gerente, espremido entre as lamúrias dos subordinados e as ordens do diretor — foi falar com deus sobre a falta de comida que, de fato, estava difícil de suportar.
— Ué, o povo não tem pão?
— N-não.
— Então que comam brioches. HAHAHAHAHA. Não, sério. Hum. Já sei. Vou fazer chover comida pra esse povo parar de encher o saco.
— Co-conta outra…
— Porra, Moisés, num fode. Cê já viu eu fazer coisa mais difícil, isso aí vai ser moleza. E digo mais: Hoje à tarde cês vão comer carne. Espera só pra ver.
E não é que era verdade? À tarde um bando de codornas, vindo sabe-se lá de onde, invadiu o acampamento. Foi uma festa: Codorna assada, codorna frita, codorna cozida, guisado de codorna, strognoff de codorna, ovos de codorna para Moisés e Arão, uma maravilha. E durante a noite inteira caiu um orvalho do céu. De manhã, quando o orvalho evaporou, ficou na terra uma coisa fina, parecendo escamas. Quando os hebreus acordaram e viram tudo coberto por aquele negócio, começaram a se perguntar:
— QUE PORRA É ESSA, CARALHO?
— Esse — respondeu Arão, porque é um saco ficar escrevendo as falas de Moisés — é o pão que deus mandou do céu para matar a fome de vocês. Ontem foram as codornas, e a partir de hoje todos os dias teremos esse pão aí. Podem provar, tem um gostinho de pão de mel, é bom. A ordem de Javé é que vocês colham todos os dias um ômer por cabeça…

— Homer? Cabeça? HAHAHAHA!
— Calaboca, porra. O ômer era uma medida de volume, correspondia a 3,5 litros.
— Ô, Chicoteia. Posso continuar com esta merda?
— Desculpa aí, Arão. Vai na fé.

— Como eu ia dizendo, antes de ser rudemente interrompido, cês vão colher um ômer por cabeça, nem mais nem menos. E às sextas feiras vocês colherão porção dobrada, para não trabalharem no sábado. Parece que Javé tá com um projeto aí de dar folga pra todo mundo no sábado, acho que tem a ver com as Leis do Trabalho, o Velho tá com medo de levar uma multa, essas coisas.
Então o povo saiu colhendo aquele negócio, de acordo com as ordens de Arão. Enquanto colhiam, Moisés lembrou de uma coisa:
— A-atençao. V-vo-vocês n-não devem d-deixar n-nada p-pro d-dia s-se-seguinte!
Mas o povo não era besta, vai que era só naquele dia, e depois voltavam à miséria de antes, então muitos estocaram bem mais do que precisavam. Mas na manhã seguinte, o que tinham armazenado estava fedorento e bichado. E Moisés ficou muito puto.
— P-porra, eu n-não a-a-avisei? Co-confiem em m-m-mim, v-vai t-ter to-todo dia, não p-precisam g-guardar pro d-dia se-seguinte.
— A não ser na sexta-feira — complementou Arão, — quando vocês irão colher o dobro dos outros dias. O que sobrar da sexta vocês podem guardar para o sábado, porque o de sexta deus manda já pasteurizado e não vai estragar de um dia pro outro.
E assim fizeram. No sábado alguns ainda saíram para ver se tinha mais no campo, mas nada. Javé, que estava cheio de idéias para criar uma religião organizada, e com ela seus rituais, ordenou a Moisés que guardasse um ômer do pão caído do céu, para que servisse de lembrança às gerações futuras.
Legal, né? Pão chovendo do céu todo dia, era só sair e colher, que beleza! Mas agora imaginem comer só isso durante quarenta anos. Imaginaram? Pois foi o que aconteceu aos hebreus: Durante todo o tempo em que ficaram no deserto, só comeram maná.
Ah, por que maná? Maná, em hebraico, quer dizer “Que porra é essa?”.

Fim de festa, todo mundo bêbado, os hebreus começaram a se recolher a suas tendas. Alguns dormiram mesmo por ali, ao relento. E pode-se imaginar a cena no dia seguinte: Centenas de milhares de homens e mulheres acordando de ressaca. Não havia água potável por perto, então começaram a andar. Depois de algum tempo de marcha, chegaram a um lugar chamado Mara. Moisés foi beber a água e saiu cuspindo.
— Á-Água r-ruim da po-porra!
— Claro que é ruim, Moisés. Cê não viu que o nome do lugar é Mara?
— Vi. E d-daí?
— Ai meu ovo… E daí que “mara” significa “amarga”. O lugar recebeu esse nome justamente por causa de suas fontes de água amarga. Mas você, hein? Criado na côrte, tudo do bom e do melhor, e não aprendeu porra nenhuma nas aulas de Geografia.
— N-não e-e-enche o sa-saco, A-Arão. S-Só q-quero sa-saber como eu v-vou d-dar de be-beber a e-esse p-povo to-todo. Vou fa-falar com J-J-Ja-Javé.
Moisés explicou a situação para deus, que fez aquela cara de “deixa comigo”.
— Essa é fácil, Moisés. Seguinte: Pega aquela árvore ali e joga ela na água.
— C-como é q-que é???
— Cê entendeu, porra. Joga a árvore na água.
— EU T-TENHO O-O-OITENTA A-ANOS DE I-I-I-IDADE, PO-PORRA!
— Escuta aqui, Moisés. Eu não faço mágica de graça. Em troca eu quero me divertir um pouco, ao menos. E vai ser engraçado pra caralho ver você arrastando a árvore. Vai lá.
Moisés foi, se escangalhou todo pra arrastar a árvore, quase ficou de saco rendido, mas no fim das contas conseguiu jogar a desgraçada na água. E, vejam só que coisa, a água ficou doce! Todos puderam matar a sede, e retomaram o caminho.
Bah, queria ver se o Padre Quevedo ou o James Randi já existissem naquela época, se esses caras iam fazer milagres assim, na maior. E, também, nem foi grande coisa, porque eles continuaram a andar e logo chegaram a um lugar chamado Elim, onde tinha água a dar com o pau e um monte de palmeiras, e passaram a noite lá.

— E aí, galera! Mais um Super Nova na sua telinha. E nossa repórter está no show de Moisés e seus irmãos às margens do Mar Vermelho. Uma grande multidão está lá para comemorar a saída do Egito. MC Moisés, o ídolo do funk israelita, e seus irmãos, o DJ Arão e Miriã, a Cachorrona Chapa-Quente, estão fazendo um megaconcerto de celebração. Nossa repórter está lá. Diz aí!
— Pois é, isso aqui está uma loucura! Milhões de pessoas se acotovelam para ver o Moisés. Tem gente desmaiando, coisa de maluco. E olha lá, ele acaba de subir ao palco. Vamos ouvir

Moisés
Eu vou falar para vocês
Como foi a travessia
Se não fosse por Javé
Todo mundo se fodia.

Os soldados perseguindo
A galera de Israel
Se não fosse por Javé
Ia tudo pro beleléu.

Mas a gente atravessou
Esse mar, que curtição
E o tal do Faraó
Já tomou no popozão.

ENTÃO VEM FARAÓ,
PEGA NA MINHA E BALANÇA
E AGORA MIRIÃ
VAI FAZER A SUA DANÇA.

Miriã
Oh, Faraóoooooooo
Oh, Faraóoooooooo
Se fodeu tão direitinho
Que eu até fiquei com dó

[APLAUSOS ENSURDECEDORES]

Moisés — P-por hoje é s-só, pe-pessoal!

— É isso aí, mais uma demonstração de música estritamente comercial e sem qualidade alguma. Voltamos pro estúdio!

Lá vai aquela multidão. Seiscentos mil homens adultos, no total talvez sejam três milhões de pessoas. E mais animais, carroças, uma multidão a se perder de vista. O caminho para Canaã é curto, basta passar pela Filistia, olha ali no mapa, a seta cinza. Mas a Filistia estava em guerra, e deus achou melhor levar o povo por outro caminho. Vai que os caras vêem a guerra, ficam com medo e resolvem voltar pro Egito? Pois é. Então vão por outro caminho.
— M-Mas J-Ja-Javé, no ma-mapa n-não t-tem o-outra ro-rota!
— Eu traço outra rota, aqui ó, em vermelho, tá vendo? Além do mais, eu vou na frente, mostrando o caminho. Eu vou andando, fumando meu baseado, e vocês vão seguindo a coluna de fumaça.
— T-tá bom e-então.
E lá se foi o povo, por um caminho desconhecido no meio do deserto, guiado pela fumaça do baseado de deus durante o dia, e pela brasa à noite.
* * *
— ÔOOOOOOOOO, Moiséeeeeeeeeeeeeeeeeeeees! WHASSSUUUUUUUUUUUUP?
— Bo-bota a li-língua pra d-dentro, J-Ja-Javé. Co-coisa f-feia…
— Hihihi. WHASSSSUUUUUUUUUUUP??????
— Po-porra, me d-deixa d-d-d-dormir.
— Tá, tá. Hehehe. Seguinte, Moisés. Prestenção. Tá me ouvindo? Tá’scutando? Então prestenção. Ó. Hehehe. Seguinte: O Faraó se arrependeu de deixar vocês irem.
— CO-CO-CA-CO-C-COMO???
— Peraê, peraê. Calma lá, prestenção: Ele tá planejando vir atrás de vocês. Mas cês vão fazer assim, ó. Se liga. Ó como cês vão fazer: Cês vão acampar perto de Pi-Hairote, entre a cidade de Migdol e o Mar Vermelho. Aí, olha só. O Faraó. O Faraó, aquele, tá ligado? Então. Ele vai pensar que cês tão perdidos. E aí… E aí… E aí…
— E a-a-aí…?
— Hum. Esqueci. Mas tá tudo lá no computador. Amanhã a gente vê isso, que agora eu num tô bãaaaaaaaao Num tô meeeeeeeeeeesmo. UUUUUUUUUUUH!!!! Tchau.
* * *
E não é que deus, apesar de bem louco, estava certo? O Faraó acordou muito puto no meio da noite.
— PORRA! Que foi que eu fiz??? Deixar esse povo todo ir embora, caralho??? ONDE É QUE EU ESTAVA COM A CABEÇA.
Começou a ligar para seus oficiais, que vieram correndo para o palácio. Traçaram um plano de batalha madrugada adentro, e começaram a convocar soldados e preparar carros e cavalos para a perseguição aos hebreus.
— Faraó, uma boa notícia! Eles estão acampados em Pi-Hairote. Se viermos por trás… Hehehe… “Se viermos por trás”. HAHAHAHA. Ha. Hum. Arram. Então, o fato é que eles ficarão encurralados contra o Mar Vermelho. Não têm a mínima chance.
— Ah, mas que beleza… Então preparem tudo, que no fim da tarde nós começamos a marcha para o deserto. Hebreu que não quiser voltar para trabalhar, será morto sem dó. Entendido?
— Quem, eu? Eu não, Faraó, tá me estranhando? Tenho mulher, até amante eu tenho, sou macho…
— Ai meu saco. Perguntei se você entendeu, comandante.
— Ah, sim. Claro. Entendi tudo. Perfeitamente.
— Ótimo.
Estavam os israelitas acampados, já anoitecia e todos se preparavam para dormir quando ouviram um rumor vindo do oeste. Alguns foram ver do que se tratava e voltaram com as piores notícias possíveis.
— Fodeu! É o exército do Faraó! O filho da puta tá vindo atrás da gente!
Desesperado, o povo reclamava com Moisés:
— MOISÉS! Ô, Moisés! Os cemitérios do Egito estavam lotados, por isso você trouxe a gente pra cá, pra morrer no deserto? PORRA! A gente cansou de dizer que não queria sair do Egito. Lá nós tínhamos nossa vidinha sossegada. Mas não! Você e seu irmão vieram com esse papo de Javé, de Terra Prometida, o caralho a quatro! E agora, Moisés? E AGORA???
— Ca-calma, p-p-pe-pessoal! Ja-Javé v-v-vai d-dar um j-j-jeito!
— Que jeito??? Todo o exército egípcio está vindo de um lado, e do outro lado temos o mar. O que é que Javé vai fazer?
— O-oras! Ja-Javé v-vai… Va-vai… Ele v-v-v-vai… Pe-peraí um i-in-instantinho. — Pegou o celular e ligou pra Javé — Ô. Q-que cê va-vai fa-fazer m-m-mesmo?
— Ué, porque cê pergunta pra mim? Manda o povo andar na direção do mar.
— T-TÁ M-M-MA-MALUCO???
— Confia em mim, Moisés. Eu sou é deus! Levanta a sua vara em direção ao mar, e dê ordens ao povo para marchar naquela direção.
— M-Mas e a-aí??? Os e-e-egípcios t-tão ch-chegando!
— Ah, dá-se um jeito. Prestenção.
Deus então puxou uma tragada que queimou o baseado até o dedo, prendeu por um tempo e depois soltou a fumaça na direção de onde estavam os soldados egípcios. Ficou tudo escuro por lá e eles ficaram desnorteados.
— É agora, Moisés. Manda o povo marchar, que eles vão ver a melhor mágica de todos.
Moisés deu a ordem. O povo não queria, mas iam fazer o quê? O tal de Javé era maluco, capaz de aprontar mais uma.
E aprontou mesmo: De repente as águas começaram a se agitar sem razão aparente. Alguma coisa estava acontecendo, aquele movimento da água do mar não era normal. Alguma coisa começou a surgir. Uma estrutura. O que era aquilo?
Uma… Uma ponte?
— U-Uma po-ponte, J-Ja-Javé?
— “Uma ponte” não! Essa aí é a Ponte Rio-Niterói. Nessa época de seca esse trecho do Mar Vermelho tem só dez quilômetros de largura, dá e sobra pra vocês passarem por cima da ponte.
— Pu-puxa… Eu e-e-esperava que v-você f-f-fosse di-dividir o m-mar no me-meio?
— Acho que cê assistiu muito filme do Cecil B. DeMille. Não reclama, eu trouxe essa ponte de muito longe, no tempo e no espaço. Agora bota esse povo pra correr, que o fumacê não vai durar muito.
Dessa maneira o povo de Israel atravessou o mar. O exército egípcio veio atrás, mas quando estavam no meio da ponte, os hebreus já estavam a salvo do outro lado. Então deus levou a ponte de volta para o Rio de Janeiro e os soldados morreram afogados no Mar Vermelho.
* * *
— Governadora! Governadora! Acorda, governadora!
— Ô, mas que diabo! Não se pode dormir em paz. Que foi, metralharam a prefeitura de novo?
— Não senhora. Muito pior.
— Pior? O que foi? Desembucha!
— A ponte Rio-Niterói sumiu.
— A pon… Ah, vai à merda! Que brincadeira é essa? É coisa do Gugu, vieram me acordar? Cadê o Rodolfo e o ET?
— É serio, governadora. Vamos lá, a senhora vai poder conferir.
Pegaram o carro e em alguns minutos chegaram. A ponte estava lá, como sempre.
— Ah, pelamordedeus. Nem sei porque me dei ao trabalho de vir até aqui.
— Mas… Mas… A ponte tinha sumido, juro!
— Rapaz, você é muito bom assessor e tudo mais. Mas precisa parar com o que quer que esteja tomando. Tá afetando seriamente a sua cabeça.
— Mas… Mas…
— Mas nada. Me leva de volta pra casa, que eu quero ver se volto a dormir e continuo a sonhar com a queda do palanque do Garotinho. Ô, cena linda…

— Muito bem, nossa repórter está nas imediações da estrada que sai de Gósen em direção a Sucote, no Egito. Parece que temos um congestionamento recorde por aí, é isso?
— Isso mesmo. Devido ao feriado da Páscoa, 600 mil homens hebreus estão saindo do Egito. Há ainda mulheres, crianças e muitos animais. Saíram de Gósen hoje, em direção ao norte, onde fica Sucote. Segundo informações ainda não confirmadas, de Sucote eles pretendem partir para Canaã, onde passarão a viver. Está aqui ao meu lado o líder desse movimento, Moisés. Hebreu criado na côrte egípcia, ele largou tudo para levar esperança a seu povo. Moisés, andam dizendo pora aí que não é só uma viagem para aproveitar o feriadão. Vocês disseram ao Faraó que iam a uma festa no deserto, mas há rumores de que vocês estariam na verdade partindo para Canaã, para nunca mais voltarem.
— A v-v-verdade é q-q-que o p-po-povo de I-I-IIIIIIIIIIII… I-I-IIIIIIIIIIIIIIIIIIII…
— Arram. Deixa que eu falo, Moisés. Cê tá muito emocioando. Olá, eu sou Arão, irmão e assessor de imprensa do Moisés. Meu irmão estava dizendo que o povo de Israel não pode mais suportar a situação que vive no Egito. Nós, hebreus, habitávamos no Egito há 430 anos, primeiro como hóspedes, depois como escravos. Mas nosso deus, Javé, nos libertou, e agora estamos indo embora para não voltar mais. E, mesmo que quiséssemos voltar, os egípcios não aceitariam.
— Arão, mas não é um prejuízo muito grande para a nação egípcia a perda repentina de toda essa mão-de-obra?
— De fato, o prejuízo é incalculável. Mas muito pior seria se permanecêssemos aqui. Javé acabou com esses caras: transformou a água em sangue, mandou rãs invadirem o país, depois piolhos, depois moscas, fez adoecerem e morrerem os animais, encheu os egípcios de furúnculos, mandou do céu uma chuva de granizo que arrasou tudo, e ainda mandou gafanhotos, que acabaram com o restinho que escapara da saraiva, e depois fez com que tudo ficasse totalmente escuro por três dias.
— Puxa vida, esse deus de vocês aí é bem raivoso, hein? Bom, depois de tudo isso não é de se espantar que o Faraó tenha deixado vocês saírem do Egito.
— E quem disse que ele deixou? A cada praga nova que vinha ele chamava a gente, dizia que estava arrependido, que ia deixar o povo ir. Aí Moisés batia um fio pra Javé, pedia pra aliviar pro lado do Faraó. Era o que bastava: o filho da puta esquecia sua promessa e tudo permanecia igual.
— Ué, mas e aí? Como foi que vocês conseguiram convencê-lo?
— Ah, a noite passada Javé passou de casa em casa, matando os filhos mais velhos de todo mundo. Nem o filho do Faraó escapou.
— Arão, você quer mesmo que eu acredite nisso? Nenhum deus seria tão cruel assim.
— Pois o nosso é. E deu resultado, pode ver aí: os egípcios imploraram para que saíssemos do Egito.
— Mas ele matou os filhos de um monte de gente que não tinha nada com isso! Se ele é assim tão poderoso, por que não veio pessoalmente e tirou o povo do Egito?
— Ah, os caminhos de deus são misteriosos.
— ARGH! Vamos voltar para o estúdio. O deus desses caras me revirou o estômago

— Aí, Moisés, pode melhorar essa cara aí, que dessa vez nós vamos botar pra quebrar.
— A-Ai… Q-qual é o p-plano a-a-agora?
— Cara, cê não tem idéia. Vai ser foda. O Faraó vai pedir penico, ah vai! Vai implorar pra vocês irem embora logo. E a partida de vocês será o maior desejo de todos os egípcios. Cês vão pedir dinheiro, jóias, tudo pra eles, e eles vão dar, só pra se verem livres de vocês logo. Putz, tô até ansioso.
— Po-porra, q-que que cê t-tá m-ma-matutando aí.
— A melhor de todas as pragas, Moisés! A melhor! E você vai agora mesmo anuciá-la ao Faraó.
* * *
O Faraó era a própria imagem da desolação, mais jogado do que sentado sobre o trono, o rosto encovado e o corpo emaciado pela fome, os olhos perdidos numa meditação profunda, ou talvez fossem só os delírios da febre. E foi nesse estado que Moisés e Arão o encontraram quando entraram no palácio.
— F-F-Fa-Faaaaaaaaa… F-F-Fa-Fe-Fi-Faaaaaaaaaaaaaaaaa… Fa-Fa-Faaaaaaaaa…
— Pára. Por Osíris, pára. Deixa seu irmão falar. Por favor.
— Moisés, xacomigo. Hoje a gente vai ser curto e grosso, Faraó. Seguinte: Javé vai vir aqui embaixo pra matar geral. Todos os primogênitos morrerão.
— Todos o quê???
— Primogênitos, Faraó. Os filhos mais velhos. Cê tá mal mesmo, hein? Bom. Todos vão morrer, desde o seu filho mais velho até o primogênito do motoboy. Nem as primeiras crias dos animais vão escapar. Cês tão fodidos. Haverá no Egito um choro tão alto como nunca se viu. E ainda nem falei a parte mais legal: Com o povo de Israel nada vai acontecer, que é pra você ver de uma vez que o negócio é sério.
— É i-i-isso aí, s-seu f-f-fi-filho da p-puta! S-seus o-o-of-oficiais vão s-se a-ajoelhar na mi-minha f-f-frente, i-i-implorando pra e-eu ir e-e-e-embora e l-le-levar m-meu po-povo junto. Co-corno ma-manso!
— Caralho, Moisés, eu já não disse que não queria mais ouvir sua voz?
— Ah, n-não q-quer, é? E-então se p-p-prepara! F-filho da pu-puta!
Moisés saiu muito puto do palácio e foi falar com deus.
— T-tá da-dado o r-re-recado. E a-a-agora, Ja-Javé?
E agora, Javé?/a festa acabou/a luz apa…
— Po-poupe-me.
— Tá, beleza. Então. Moisés, não sei se eu comentei alguma vez, mas o negócio é que eu tô meio cego. Cê sabe como é isso, ficar velho é uma merda. Mas eu vou ter que sair pelo Egito matando os filhos mais velhos de todo mundo e tal. Vai ser à noite, e não vou conseguir distingüir egípcio de hebreu mas nem a pau.
— P-porra, e-então n-nos f-f-fodemos? A-ainda b-bem que A-Arão é m-ma-mais ve-velho…
— Calma, Moisés, calma! Tava aqui pensando nisso e acho que vou dar um jeito. Assim: A partir de agora, esse mês em que estamos passará a ser o primeiro mês do calendário de vocês. Pois bem. Todo dia dez desse mês, quando todos estiverem com o salário no bolso, todo pai de família vai comprar um cordeiro. Se a família for pequena para um cordeiro, chamará a família vizinha. Atenção para o detalhe: Este cordeiro, ou cabrito, terá que ser macho, com um ano de idade, sem nenhum defeito. Vocês vão pegar o cordeiro e guardar até o dia 14, quando ele será morto. Então vocês vão comer a carne assada, acompanhada de pão sem fermento e ervas amargas. E vão dar umas pinceladas no batente da porta com o sangue do cordeiro. Tá acompanhando até aqui?
— T-tô. Q-que po-porra é e-essa? S-si-simpatia?
— Mané simpatia! Tô tentando criar um símbolo aqui, percebe? Cês vão comer tudo, raspar o prato. Se sobrar alguma coisa, será queimado. E cês vão ter que comer vestidos para viagem, e com pressa. Percebeu o símbolo aí, percebeu?
— N-não.
— Ai meu caralho… É pra simbolizar que vocês estão com pressa de ir embora, porra! Então. Isso aí é a Páscoa.
— T-tá. Mu-muito bo-bonito. Mas o q-que t-tem a v-ver c-com o ne-negócio da ma-matança?
— Arrá, aí é que entra a minha esperteza. Tutano, Moisés! Cuca! Na hora em que eu estiver passando pra matar essa gente toda, antes vou sentir o cheiro da casa. Se tiver cheiro de sangue, das duas uma: Ou eu já passei e fiz o serviço, ou é casa de hebreu e está com sangue na porta.
— P-pô. De v-vez em q-quando cê d-dá u-uma de-dentro… B-boa.
— Eu tô te falando, Moisés! Ao contrário daquele herege lá do Jesus, me chicoteia! eu tô no meio de um surto criativo. Aliás, acabo de ter uma idéia pra outra celebração. Na Páscoa vocês vão jogar fora todo o fermento que tiverem em casa. Durante uma semana vocês só vão poder comer pão sem fermento.
— P-por quê?
— Quer saber mesmo? PORQUE EU QUERO ME DIVERTIR, PORRA! Gosto de ver vocês sofrendo. Nada pessoal. Agora vai comunicar esse negócio todo aí pros líderes do povo, que é pra todo mundo fazer direitinho. Não quero ver depois nego reclamando que o filho morreu porque não entendeu que era pra passar o sangue do cabrito na porta. Vai lá.
Moisés foi e explicou como era esse negócio de Páscoa e Festa dos Pães Asmos.
Asnos?
— Calaboca.
* * *
Deus olhou o relógio. Meia-noite.
— Gabriel! Ô, Gabriel!
— Pois não, senhor.
— Vou sair pra balada, não sei que hora volto.
— Balada, é? Onde?
— Baladinha leve, nada que se compare ao Dilúvio ou à destruição de Sodoma e Gomorra. Só vou ali no Egito matar uns primogênitos e já volto.
— Ah, legal. Divirta-se.
— Valeu.
A história vocês já devem conhecer: Deus passou pelo Egito, entrando em todas as casas que não tivessem marcas de sangue na porta e matando os primogênitos. De madrugada o Faraó acordou assustado com um barulho. Era o som do choro de pais e mães por todo o Egito lamentando a morte de seus filhos. O soberano levantou-se e foi correndo para o quarto do filho mais velho. E ele também não fôra poupado.
Ainda sem acreditar direito que um deus pudesse ser tão cruel, o Faraó chamou seus oficiais e foram todos falar com Moisés e Arão.
— Vão embora! Sumam daqui vocês, todo esse povo, os animais, tudo! Por mim vocês podem levar até as casas, foda-se, mas desapareçam daqui. Esse deus de vocês é o pior que existe, não quero mais nem ouvir falar desse ser tão filho da puta. Vão embora, vão!
E todo o povo egípcio pressionava os hebreus para irem embora logo. No entanto, percebendo que estavam por cima da carne seca, os hebreus fizeram conforme deus falara a Moisés, e saíram pedindo as riquezas de seus vizinhos egípcios.
— Ô, véio. E aí. Sabe aquele seu balde de gelo todo de prata? Então, gostei dele. Quero pra mim.
— Ah, não! De jeitimaneira! Foi presente da minha falecida mãe.
— Tá bom. Então não vou embora.
— Ô merda! Toma, toma essa porcaria. Agora some daqui!
O golpe foi tão bem aplicado que os hebreus enriqueceram de uma hora pra outra, só nessa brincadeira de chantagear os egípcios. Já ricos, era hora de se prepararem para a longa viagem de volta a Canaã, voltando pelo caminho trilhado por Jacó e seus filhos tantos séculos antes.