(Josué 3)

Conforme prometera no último capítulo, Josué acordou na madrugada seguinte ao retorno dos espiões de Jericó, e com ele todo o povo de Israel. Saíram do vale de Sitim e acamparam às margens do Jordão. Do outro lado do rio, mais próxima do que nunca, estava Canaã, a terra prometida aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, e mais tarde a Moisés e Arão, sua conquista agora quase uma realidade sob o comando do general Josué. A expectativa, como era de se esperar, era imensa, mas o povo ainda teve que ficar acampado ali por três dias sem maiores novidades. Depois desse período, Josué ordenou que emissários passassem pelo acampamento com as seguintes instruções:
— Olha aí, negada, tá chegando a hora da onça beber água. Quando vocês virem os levitas levantando a Arca, vocês também se levantarão e os seguirão. Mas façam o negócio direito: guardem uma distância de uns novecentos metros entre vocês e a Arca, para que não a percam de vista, pois o caminho é meio complicado.
Quando todo o povo já estava avisado e de prontidão, Josué ordenou aos sacerdotes que erguessem a Arca e esperassem novas instruções. Voltou para sua tenda só para dar um tempo e criar um suspense, e foi surpreendido pela presença de ninguém menos que Javé, bebericando um licor de tâmaras sentado numa almofada.
— Ó, meu Senhor e Deus, que honra imensurável receber tão nobre visita em minha desprezível casa. Permita agora que eu renda os louvores merecidos por tão majestosa figura, cuja glória cobre a terra tal qual o…
— Porra, Josué, vai caçar outro saco pra você puxar, que eu não tenho tempo pra essas veadagens.
— …
— Negócio seguinte: você anda meio desacreditado no meio do povo.
— Desacreditado???
— É, rapaz. Falam que você é um bundão, na verdade, e que bom mesmo era o Moisés.
— EU MATO O FILHO DA PUTA QUE DISSE ISSO!
— Vixe! Se você for matar todo mundo que tira sarro da tua cara no acampamento, será um genocídio. Sossega o rabinho aí e deixa comigo. Hoje eu vou mostrar a esse povinho bunda aí que para mim você é um líder tão bom e tão querido por mim quanto Moisés.
— Puxa, sério mesmo?
— Claro que não, porra. Você é um bundão, bom mesmo era o Moisés. Mas para vocês entrarem em Canaã, o povo precisa de motivação. E para isso, precisa acreditar nessa papagaiada.
— Hum. E qual é o plano?
— Coisa pouca: você vai ordenar aos sacerdotes que levem a Arca e parem quando chegarem às margens do Jordão.
— Tá, e aí?
— Aí você vai fazer um discurso assim para o povo…
Os dois combinaram tudo dentro da tenda, e Josué saiu de lá radiante para dar suas ordens e fazer seu discurso:
— POOOOOOOOOOOOVO DE ISRAEL! Hoje vocês verão o grande poder e majestade de Javé! Escolham doze homens, um de cada tribo, para irem à frente de vocês, seguindo a Arca. Acontecerá, então, que quando os sacerdotes pisarem as águas do Jordão, estas pararão de correr, acumulando-se de um lado, e vocês atravessarão o rio a seco!
— …
— VOCÊS ENTENDERAM O QUE EU DISSE? VAMOS ATRAVESSAR O JORDÃO NA MAIOR, SEM MOLHAR OS PÉS.
— Pra isso basta usar uma das pontes! — gritou um gaiato do meio da multidão, provocando risos aqui e ali.
— FODAM-SE AS PONTES! Com isso Javé quer demonstrar todo o seu poder!
— Então ele já foi melhor! Com Moisés foi o Mar Vermelho, agora esse riozinho mequetrefe!
— ORAS, VÃO TOMAR NO CU!
Josué abandonou o palanque furioso e os sacerdotes continuaram sua marcha com a Arca sobre os ombros. Tudo aconteceu conforme ele dissera, e o povo atravessou o rio a seco. Acostumados, porém, a ouvirem histórias e mais histórias sobre a travessia do Mar Vermelho — muitíssimo mais imponente, convenhamos — os israelitas não se impressionaram muito com mais esse truquezinho de Javé.

(Josué 2)
Decidido a provar que era um líder forte e corajoso, a primeira medida de Josué foi enviar dois espiões para Canaã, ordenando a eles que prestassem especial atenção a Jericó, cidade fortificada e primeiro alvo dos israelitas. Os dois atravessaram o Jordão e depois de uma caminhada chegaram às muralhas de Jericó.
— E agora, como é que a gente entra aí?
— Sei lá. Pela porta?
— Hum. É uma idéia.
Os dois foram até os portões da cidade e foram interpelados pelo vigia.
— Alto lá! Identifiquem-se!
— Somos turistas japoneses, né? Viemos tirar fotos de sua honorável cidade.
— Hum… Ok, podem entrar.
Já dentro da cidade, olharam aqui e ali. Não querendo correr riscos desnecessários, resolveram procurar uma casa para passarem a noite.
— Bom, então vou perguntar por aí onde é que tem uma pousada baratinha.
— Mané pousada! É só a gente procurar uma luz vermelha. Aí teremos cama, comida e “comida”.
— Até que você não é tão burro…
— Muito obrigado. Olha ali a luz vermelha.
— Onde?
— Naquela casa ali.
— Que casa? Aquilo é um dos muros da cidade.
— Porra, como é que você vem pra uma missão dessas sem saber nada sobre ela? Fique sabendo que há famílias inteiras morando em casas dentro das muralhas, de tão espessas que elas são.
— Ah, não sabia…
— Pois é. Só que aquela ali não é casa de família não…
— Hehehe.
Os dois foram até a casa e foram recebidos por uma mulher vestida de forma espalhafatosa, com um decote que ia até o umbigo e uma fenda na saia que quase encontrava o final do decote.
— Olá, meninos. Bem-vindos à minha casa.
— Oi, dona… Er… Viemos aqui para… Para…
— Eu sei, eu sei. Vieram aqui para relaxarem um pouco. Tudo bem, podem entrar. Ah, meu nome é Mien.
— Mien?

[CUIDADO! Trocadilho infame à vista]

— Isso. Mien Raabe. Mas podem me chamar só de Raabe.
— Ah. Sim, Dona Raabe. Muito prazer em conhecê-la.
— O prazer é todo meu, meninos. Vou ali preparar uma bebidinha para nós e já volto.
Enquanto Raabe recebia os rapazes, a notícia já chegara até os ouvidos do rei de Jericó: dois espiões israelitas haviam chegado à cidade para espioná-la. O rei, furibundo, mandou mensageiros à casa de Raabe, com ordens expressas para ficarem por lá apenas o tempo necessário para passarem sua mensagem, nada de misturar trabalho com prazer. Os mensageiros deviam dar a Raabe a ordem clara do rei: que trouxesse para fora os dois homens imediatamente. A prostituta, porém, já havia escondido os espiões, e respondeu calmamente aos mensageiros:
— Espiões? Que perigo! Sim, sim. Vieram aqui dois rapazes estrangeiros. Não sei se eram israelitas ou não, porque nem chegaram a tirar a roupa: mal escureceu, e sabendo que o portão da cidade se fecharia, saíram correndo. Não me falaram para onde iam, mas acho que se vocês correrem bastante ainda conseguem alcançá-los. Ai meu deus, eu não acredito no risco que corri! Dois homens perigosos aqui, na minha casa!
— Filhos da puta!
— Ei, mais respeito com a minha classe!
— Humpf. Aê, vamos caçar os desgraçados.
Os mensageiros saíram em busca dos espiões, que na verdade estavam escondidos embaixo de um monte de feixes de linho ali mesmo no terraço da casa de Raabe. Ela foi até lá falar com eles:
— Eu sei que vocês são israelitas e que vieram aqui para espionarem a terra.
— Ih. Fodeu.
— Não, não! Podem ficar sossegados. O fato é que todos ouvimos dizer que o deus de vocês secou o Mar Vermelho para que o atravessassem, e também soubemos da vitória de vocês sobre Seom e Ogue, reis amorreus. A cidade toda está morrendo de medo da hora em que vocês vão chegar aqui destruindo tudo. Olhamos com apreensão para o seu acampamento do outro lado do rio; vocês formam uma multidão impressionante. Então eu quero fazer um trato com vocês: jurem pelo seu deus que pouparão a mim e à minha família quando invadirem a cidade.
— Hum… Meio complicado, Raabe. Tá, podemos até fazer o juramento, mas com uma condição.
— Que cond… Ah, já vi tudo! Querem serviço de graça, não é mesmo?
— …
— É sempre assim! Todo mundo quer se aproveitar de uma pobre puta. Tudo bem, tudo bem. Mas vocês juram?
— Juramos por Javé, Raabe.
— Por quem?
— Javé, o nosso deus. Juramos por ele que nada acontecerá a você e sua família. Mas para isso, só pedimos um sinal. Quando invadirmos a cidade, amarre um cordão vermelho na janela que dá para fora da cidade e reúna aqui toda a sua família. Assim saberemos qual é a sua casa. Se alguém sair desta casa então, será responsável pela própria morte. Mas se alguém for ferido aqui, a culpa será nossa.
— Tudo bem.
— Legal. Agora vamos brincar um pouco, minha filha!
Os espiões se divertiram bastante, e antes de raiar o sol fugiram para as montanhas, ficando por lá até que os grupos de busca enviados pelo rei de Jericó encerrassem seu trabalho. Quando se sentiram seguros, os dois desceram, atravessaram o rio e foram falar com Josué, que já arrancava os cabelos de ansiedade.
— ONDE É QUE VOCÊS SE METERAM, CARALHO???
— Ah, estávamos na casa de uma puta ali em Jericó e…
— NA CASA DE UMA PUTA??? A gente prestes a invadir a cidade, precisando de informações, e os espiões que eu envio CAEM NA PUTARIA???
— Calma, seu Josué, não é nada disso. Foi o único esconderijo que encontramos, depois a gente conta com detalhes. O importante é que agora o senhor pode ter certeza que invadiremos Jericó sem problemas.
— Hum. É mesmo?
— Pode acreditar! O povo de lá está se cagando de medo da gente.
— Bom, muito bom! Então chegou a nossa hora. Esta madrugada atravessaremos o Jordão.

(Josué 1)
Muito bem, começamos mais uma etapa da saga bíblica: o livro de Josué, que conta como o povo de Israel conquistou Canaã ajudado por deus e liderado por — bã! — Josué.
Pois muito bem. Depois de enterrar o corpo de Moisés — em lugar desconhecido, lembrem-se — e lamentar bastante sua morte, Javé foi falar com Josué:
— Muito bem, Josué. O negócio agora é com você. Moisés está morto e eu… Eu… [soluço] Espera um pouquinho…
— Tudo bem, Javé. Eu entendo. Vocês trabalharam juntos por tanto tempo e foram tão bons amigos, é compreensível que você se emocione ao falar de alguém que foi tão especial em sua vida, a ponto de…
— Er… Josué?
— Hum?
— Cala a boca, vai. Você fala demais e me irrita.
— Ok. Desculpe, Javé.
— Bah. Seguinte: fala pro povo se preparar, porque a invasão de Canaã começa daqui a poucos dias. Estejam preparados para atravessar o Jordão e iniciar a conquista. Como eu disse ao… ao… ao Moi… [soluço]
— Javé, se você achar melhor a gente conversar depois…
— Não me enche, estou bem. Eu dizia: como eu disse ao Moisés, entregarei a vocês toda a terra que vai desde o deserto, no sul, até os montes Líbanos, no norte, e desde o Eufrates, ao leste, até o Mar Mediterrâneo, ao oeste. Você será um grande general e nunca sofrerá nenhuma derrota, apesar de ser um songo-mongo incompetente. Isso só será possível graças à minha ajuda, é claro. Portanto, Josué, seja forte e corajoso.
— Pode deixar, Javé. Aliás, você e o Moisés — que você o tenha em sua santíssima glória — me deram o mesmo conselho pouco antes dele morrer.
— É? Foda-se. Você tem que ser forte, Josué. Forte e muito, muito corajoso.
— …
— É isso. Ah, e viva sempre segundo as minhas leis. Estude os mandamentos de dia e de noite, e tome cuidado para não me desobedecer jamais. Assim sendo, estarei com você sempre. E guarde minhas palavras no coração: nunca desanime nem tenha medo, porque eu estarei com você onde quer que você esteja. Portanto seja forte. Forte e…
— … Corajoso. Já sei.
— Bom pra você.
Javé foi embora e Josué tratou logo de começar os preparativos: chamou os líderes israelitas e ordenou a eles que avisassem ao povo para se preparar para a travessia do Jordão. Enquanto os líderes espalhavam essa ordem, Josué foi falar com os chefes das tribos de Rúben, Gade e Manassés do Leste, as quais — espero que vocês se lembrem — habitariam o leste do Jordão.
— Seguinte, negada: eu sei que a terra de vocês é aqui mesmo, e que portanto vocês não teriam necessidade alguma de nos ajudar do outro lado do rio. Mas lembrem-se do acordo que fizeram com Moisés, de atravessarem o Jordão, guerrearem conosco e só depois voltarem para suas terras.
— Que é isso, Josué? É claro que a gente se lembra, e cumpriremos o combinado. E assim como obedecemos Moisés durante toda sua vida, obedeceremos a você, e faremos tudo o que você nos ordenar. Quem o desobedecer será morto.
— Puxa. Obrigado.
— Só tem uma coisa.
— O quê?
— Acima de tudo, você precisa ser forte e coraj…
— Ó CARALHO! SERÁ QUE TÁ TÃO NA CARA ASSIM QUE EU SOU FRACO E COVARDE???
— …
— Porra! Moisés me falou isso, Javé já me falou isso umas cinco vezes, agora vocês! Até minha mãe, quando vou sair de casa, vem com esse papo: “Josué, seja forte e corajoso, meu filho. Ah, e leva o casaco que vai esfriar”. QUE INFERNO!
— Calma, Josué…
— Humpf! Vou mostrar a vocês o quanto eu sou forte e corajoso.
E saiu bufando da tenda dos chefes tribais.

(Deuteronômio 34)
Bom, vamos acabar logo com isso.
Depois de abençoar as tribos, Moisés atravessou sozinho e calado a planície de Moabe na direção do monte Nebo. Subiu até o alto do monte com muita dificuldade, a carga de seus 120 anos consideravelmente aumentada pelo peso da proximidade da morte. Não demonstrou surpresa nenhuma ao perceber que não estava sozinho ali.
— Olá, Moisés.
— Oi, Ja-Javé.
— É chegada sua hora, meu velho.
— Eu s-sei…
— Mas antes quero mostrar a você a terra que Israel habitará, a terra que prometi a Abraão, Isaque e Jacó. Venha comigo, o helicóptero está esperando.
Então Javé e Moisés sobrevoaram toda Canaã. Moisés conheceu tudo: a grande terra de Gileade, a costa do Mar Mediterrâneo, as planícies e montanhas, os bosques e desertos, as grandes cidades Cananitas inclusive a mais esplendorosa de todas: Jericó, a Cidade das Palmeiras. O velho profeta se emocionava: ali estava o fruto de quarenta anos de trabalho. Não fôra em vão, e ele lamentava um pouco menos sua própria morte.
Depois de verem tudo, os dois voltaram para o alto do monte Nebo, um pobre deus com grandes projetos e seu fiel amigo. Javé ordenou ao piloto que voltasse para o hangar e ficou sozinho com Moisés. Queria falar alguma coisa, fazer um grande discurso de agradecimento talvez, mas não conseguia: nunca se sentira tão triste desde a morte de seu primeiro amigo, Abraão. Então apenas disse:
— Obrigado, Moisés.
— Você é um deus cruel, Javé.
— VOCÊ NÃO ESTÁ MAIS GAGUEJANDO, MOISÉS! O QUE ACONTEC… Moisés…?
Mas Moisés acabara de morrer. Tomado de tristeza, Javé pegou seu corpo e o sepultou num vale perto da cidade de Bete-Peor, em lugar para sempre incógnito.
E foi assim a morte do maior herói da história de Israel: inglória, estúpida, sem sentido. Como são todas as mortes, aliás. Moisés tinha 120 anos quando morreu, e ainda enxergava bem e tinha boa saúde. O povo ficou de luto e chorou a morte de seu líder por 30 dias. A partir de então Josué seria efetivamente o novo líder.
O Deuteronômio termina dizendo que nunca mais apareceu em Israel um profeta como Moisés, que falava cara a cara com Javé e fazia os milagres mais espantosos. Embora a tradição atribua a Moisés a autoria do Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), não se sabe quem narrou sua morte e fez essa curta elegia final.

O próximo capítulo será o último do Deuteronômio, e também o derradeiro da história de Moisés. Desde o final do livro dos Números que eu vivo com essa agonia causada pela perspectiva de contar aqui a morte do velho gago. Sei o quanto isso é ridículo, mas não consigo evitar. Tenho convivido com Moisés desde 13 de julho do ano passado, quando narrei seu nascimento. Vai ser difícil, mais de um ano depois, despedir-me desse personagem.

EU NÃO QUERO QUE O MOISÉS MORRA, CARALHO!

(Deuteronômio 33)
Quando terminou de cantar sua canção, ainda no final do capítulo 32, Moisés foi chamado por deus:
— Moisés, chega de me enrolar. Cê já fez um monte de discurso, já escreveu seus cinco livros, já cantou, já fez o diabo. Agora trate de ir até a serra de Abarim e subir ao monte Nebo, em frente à cidade de Jericó. Lá de cima você vai ver toda a terra de Canaã, a qual não chegará a habitar. Você vai morrer no alto do monte Nebo assim como seu irmão morreu no alto do monte Hor. Os dois me sacanearam no episódio de Meribá, quando eu falei que você deveria ordenar à rocha que manasse água e no entanto você…
— T-tá b-bom, Ja-Javé, t-tá b-bom. T-tô cansado de vo-você fi-ficar me j-jogando i-isso na c-cara. Aquilo em M-Meribá foi uma b-bobagem, mas já que v-você a-acha g-grande c-coisa, v-vamos a-acabar logo com i-isso.
— Assim é que se fala, Moisés! Espero que você não guarde rancor por isso. Não é nada pessoal.
— I-imagine se f-fosse…
— Não fode, Moisés. Vai subir ao monte ou não?
— V-vou, j-já disse. D-deixa s-só eu a-abençoar o p-povo…
— Porra, lá vem você me enrolar de novo!
— P-pô, Ja-Javé, não c-custa n-nada. Se v-você deixar eu a-abençoar o p-povo, eu e-encho a s-sua b-bola d-durante a b-bênção.
— E se eu não deixar?
— Aí eu f-falo a v-verdade pra t-todo m-mundo: que você é um d-deus t-temperamental, ch-cheio de f-frescuras, ci-ciumento, b-birrento, e a-além de t-tudo em c-começo de c-carreira.
— COMEÇO DE CARREIRA???
— L-lógico! O-olha a q-quantidade de p-pessoas que te s-seguem. R-ridícula!
— Mas é um projeto a longo prazo!
— Eu s-sei. Mas se eu q-queimar seu f-filme o p-projeto p-pode ser a-abortado agora m-mesmo.
— MOISÉS, VOCÊ É UM FILHO DA PUTA! Bom, foda-se. Manda a tal bênção pro povo lá. Mas olha lá, hein? Coisa rápida. E puxando bastante o meu saco.
— P-pode deixar.
Então Moisés voltou ao caminhão de som para fazer seu último pronunciamento. Como havia prometido, bajulou bastante a deus: pintou um quadro de Javé vindo com milhares de anjos para proteger o seu povo, surgindo como sol por cima de Edom. Em seguida começou a bênção de cada uma das doze tribos, desejando a elas felicidade, paz, força, essas coisas. Foi um discurso bastante extenso, afinal de contas pra morrer ninguém tem pressa. Moisés encerrou com mais um pouco de babação de ovo: Javé é bom, Javé é lindo, e Israel é muito feliz por ter um deus tão vitaminado e maravilhoso.
Findo seu discurso, o velho líder foi aplaudido com entusiasmo pelo povo que comandara por quarenta anos. Emocionado, ele olhou aquela multidão pela última vez e retirou-se em silêncio. Chegara sua hora.

(Deuteronômio 32:1-44)
Depois de ter ensaiado a música que deus dera a ele, Moisés chamou Josué e subiram ambos ao trio elétrico para apresentarem seu número.
— P-povo de I-Israel! Eu e o c-compadre Jo-Josué v-vamos c-cantar a-agora uma c-canção que f-fala do f-futuro que os e-espera c-caso de-desobedeçam a l-lei de d-deus. O-ouçam com a-atenção e m-meditem! P-pronto, Jo-Josué?
Mas eu nem conheço a música, seu Moisés!
P-precisa c-conhecer n-não. F-fala umas b-bobagens no m-meio e tá b-beleza. V-vamos lá.
Moisés chamou ao palco duas vagabundas moabitas e um negão etíope sarado para fazerem a coreografia da música e começou a cantar. Ouçam e cantem junto:

Moisés & Josué – A Dança de Israel

Ô Israel
Preste atenção
Eu vou falar um montão
E vocês vão ter que escutar.
Porque Javé
Pega no pé
Cês sabem como é
Então vamos a deus adorar.
ADORA, ADORA!

Adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora
Já adorei!
Adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora,
adora, adora,
Vê se adora de uma vez.

Já adorou o Javezinho?
Já adorei.
Já adorou o Baalzinho?
Já adorei.
Já adorou o Moloquinho?
Já adorei.
Já adorou o Dagonzinho?
Já adorei.

Agora pare! [SACANAAAAAAGEM!]
Israel tomou no cu.
Agora chora!
Israel já foi pro saco.

Israel pecou
Pecou todo dia
Agora já se acabou
Acabou sua alegria.

Empolgados com o ritmo da música, os israelitas nem atentaram para a mensagem tenebrosa que a letra continha. E mesmo que prestassem mais atenção, duvido que se importassem muito: estavam empolgados por estarem tão próximos da conclusão de sua jornada de quarenta anos.

(Deuteronômio 31)
Tendo esgotado o assunto para discursos, Moisés precisava de alguma outra coisa para ganhar tempo. Então resolveu chamar Josué para passar-lhe instruções.
— Soldado Josué apresentando-se, SE-NHOR!
— Q-que p-porra é e-essa?
— Ao saber que iria ter a honra de substituí-lo, comecei meu treinamento militar, SE-NHOR!
— T-tá, t-tá… M-mas p-pára c-com e-essa p-porra de me ch-chamar de Se-Senhor, que é c-capaz do Ja-Javé f-ficar com ci-ciúmes, a b-bicha… P-pelamordedeus, Jo-Josué, q-que p-posição é e-essa? Tá c-com c-cãibra?
— Não, SE… digo, Seu Moisés. Estou em posição de sentido.
— A-ai m-meu s-saco… À v-vontade, s-soldado. Hum. M-melhor assim. O-olha aqui, Jo-Josué: eu c-convoquei o p-povo para um ú-último p-pronunciamento, e d-dessa v-vez você e-estará ao meu l-lado.
— Será uma honra, SE-SENHOR!
— Ô c-cacete, que f-foi isso a-agora?
— Uma continência, SE… Seu Moisés. Desculpe, me empolguei…
— Hu-humpf. V-vamos lá f-fora, que o p-povo e-está esperando.
Os dois foram para a frente da tenda de Moisés, onde o povo estava reunido. Os israelitas estavam impacientes com a espera, apesar do trio elétrico contratado por Eleazar e do chope de graça, então prorromperam em aplausos quando viram Moisés e Josué subindo ao caminhão de som. Os dois esperaram que a banda terminasse de tocar a Dança da Manivela (“Esses caras precisavam atualizar o repertório, seu Moisés…”). Então Moisés dirigiu-se ao microfone e começou a falar:
— M-meus irmãos i-israelitas! Não se p-preocupem, e-esse não é m-mais um d-dos meus d-discursos, só q-quero a-apresentar uma p-pessoa a vo-vocês. E-eu já e-estou com 120 a-anos e não d-dou mais c-conta de-desse trabalho. A-além disso, o Ja-Javé, d-demonstrando i-imensa g-gratidão, re-resolveu que não v-vou e-entrar na T-Terra P-Prometida. Ve-vejam vocês o d-deus bom q-que nós t-temos… B-bom, de-deixa pra l-lá. O f-fato é que s-sinto até um ce-certo a-alívio. V-vocês s-são um p-povinho m-muito do s-sem-vergonha, c-cabeça-dura, b-burro pra c-caralho! A-ainda bem que v-vou me li-livrar de vo-vocês. E q-quando eu mo-morrer, e-esse rapaz é q-quem vai me su-substituir. Com v-vocês, o m-meu a-amigo…
— ERASMO CARLOS!
— Q-quem f-foi o e-engraçadinho q-que g-gritou isso?
[SILÊNCIO]
— V-vai se e-entregar ou p-prefere que o Ja-Javé m-manifeste sua i-ira…?
Fui eu, seu Moisés…
— V-você, Jo-Josué? M-mas p-por que você f-fala uma b-bobagem d-dessas num m-momento s-solene, p-porra???
— Pô, seu Moisés, foi mal. Mas eu vi o senhor aí mancando, cabelos grisalhos… Achei que fosse o Rei…
— Jo-Josué, me f-faz um f-favor?
— Claro, seu Moisés!
— Fica de b-bico c-calado e d-deixa que e-eu f-falo com o p-povo.
— …

— P-povo de I-Israel! A-apresento a vo-vocês seu n-novo líder, o m-meu a-amigo JOOOOOOOOOOOOOOOOO-SUUUUUUUUUUUUUUUUU-ÉEEEEEEEEEEEEEEEEEE!
[aplausos tímidos]
P-puta que p-ariu, hein, Jo-Josué? C-carisma z-zero…
— Deixa eu falar com o povo, seu Moisés. Eles vão gostar de mim!
— V-vão p-porra nenhuma. D-deixa c-comigo.

Moisés pigarreou e começou um pequeno e inflamado discurso. Antecipou para o povo imagens do futuro próximo, um tempo de glórias e grandeza para Israel sob o comando do general Josué (que sorriu discretamente ante essa inesperada promoção). Ao fim de seu pronunciamento, o povo aplaudia Moisés e dava vivas a Josué, seu novo líder.
Posso falar com eles agora, seu Moisés?
E e-estragar o m-momento? C-claro que não. P-peraí que e-eu vou f-falar umas xa-xaropadas pra vo-você. A-atenção, i-israelitas! A-agora v-vou me di-dirigir ao ge-general Jo-Josué, seu n-novo l-líder. Jo-Josué, vo-você tem que s-ser f-forte e c-corajoso. P-prevejo um f-futuro b-brilhante para v-você à f-frente desse p-povo. Ja-Javé estará c-com vo-você o t-tempo todo, e o a-ajudará a de-derrotar os i-inimigos. E-Então, Jo-Josué, d-deixa de s-ser b-bundão e a-agradeça aos a-aplausos d-desse p-povo m-maravilhoso!
Parece a Hebe falando…
Não t-torra m-meu s-saco e f-faz o que eu m-mandei. E-eles já e-estão c-começando a g-gostar de vo-você, não vá e-estragar t-tudo.
Tá bom. Mas eu posso pelo menos falar com eles agora?
Hum… M-mais tarde. A-agora eu vou e-entregar aos l-levitas as l-leis que e-escrevi e d-depois v-vamos c-conversar c-com Ja-Javé.
CONVERSAR COM JAVÉ???
F-fala baixo e c-continua a-agradecendo os a-aplausos, p-porra!
CONVERSAR COM JAVÉ???
É.
O senhor está me dizendo que eu vou conversar com Adonai?
S-sim.
Com El Shadai? Elohênu?
I-isso, i-isso. Já v-vi que vo-você c-conhece v-vários n-nomes pra ele. Mas q-quero v-ver você f-falar i-isso a-aqui, ó: YHWH!
Saúde!
He-hein?
Ué, o senhor espirrou, então…
E-espirrei n-nada! Acabo de f-falar o n-nome se-secreto de d-deus. YHWH!
Porra! Como é que se escreve isso?
Y-H-W-H.
Mas isso é impronunciável!
Eu a-acabei de p-pronunciar! YHWH!
Er… Né por nada não, seu Moisés, mas isso parece mais um espirro do que nome de divindade…
B-bah. T-também a-acho… B-bom, p-pode p-parar de se d-dobrar, v-vai a-acabar d-deslocando a c-coluna. A-agora vou f-falar com os l-levitas.
Moisés reuniu os levitas e entregou a eles seus pergaminhos com todas as leis que havia anotado. Instruiu-os para que guardassem os pergaminhos ao lado da Arca da Aliança, e que fizessem sua leitura pública a cada sete anos durante a Festa das Barracas. Feito isso, foi com Josué para o Tabernáculo. Ao se aproximarem notaram uma coluna de fumaça que subia da Tenda Sagrada.
— Xi… Ja-Javé t-tá f-fumando. V-vai ser u-uma c-conversa d-difícil.
— Hum… Não é melhor a gente voltar outra hora então?
— D-deixa de s-ser b-bundão, Jo-Josué! V-vamos lá.
Os dois entraram no Tabernáculo, onde Javé puxava seu fumo e olhava para o nada.
— Ja-Javé, eu t-trouxe o Jo-Josué a-aqui p-para…
— Quieto, Moisés… Esse fumo de Moabe é bom mas dá uma viagem ruim da porra. Estou aqui vendo o futuro de vocês, e não é nada bonito. Os israelitas vão entrar em Canaã. Serão vitoriosos e passarão a morar lá. Mas esse povo é teimoso, não adianta: depois de um tempo, vão começar a adorar outros deuses e eu os abandonarei à própria sorte. Serão derrotados pelos seus inimigos e levados para terras distantes, então saberão que estão sofrendo pela própria desobediência.
— P-porra, Ja-Javé, p-pega leve… O m-menino c-começou ho-hoje no t-trabalho e cê já vem c-com esses p-papos?
— Não enche, Moisés. Tenho que falar a verdade. Eu tava aqui pensando nesse futuro tenebroso que espera o povo de Israel e acabei fazendo isso aqui — disse, passando um pergaminho para Moisés.
— Q-que é i-isso?
— Uma música que eu fiz. A letra fala do quanto os israelitas vão quebrar a cara.
— Quebrar a cara? Bom, pelo menos nossos descendentes terão narizes menores. Hehe…
Quem é você?
— Jo-Josué…
— Porra, outro gago???
— Sou gago não senhor. Só estou intimidado diante da presença grandiosa e da glória infin…
— Cala a boca, palhaço! Moisés: cante essa música aí para o povo e ensine a letra a eles. Essa música será o hino de Israel e todos deverão sabê-la de cor. A ironia aí é que no futuro, quando estiverem no exílio, os israelitas continuarão a cantá-la, e o farão com remorso no peito.
— T-tudo b-bem.
— Então tá. Pode ir.
— Er… E eu, Javé?
— Quem é você???
— E-esse é o Jo-Josué, Ja-Javé…
— Que Josué?
— Jo-Josué. O n-novo l-líder do p-povo.
— Novo líder? Ué, mas não é você o líder…? Ah, lembrei! Você vai morrer logo! Mas e aí, qualé a desse Josué?
— E-eu sei lá! V-você que e-escolheu e-ele como n-novo l-líder!
— EEEEEEEEEEU???
— É, Ja-Javé…
— Puxa, é mesmo. E aí, Josué, preparado para a tarefa que o aguarda?
— Seu Javé, eu queria dizer que estou muito feliz de poder servir ao meu deus e à minha pátria, e que farei de tudo para não decepcioná-los nessa empreitada que será a invasão de Canaã, de forma que…
— Cala a boca.
— … todos saberão que Javé é deus e que Israel é seu povo escolhido, porque desde o dia em que o senhor chamou nosso pai Abraão nos tornamos um povo separado dos outros e…
CALA A BOCA!
— Er… Desculpe, Javé.
— Porra. Primeiro um gago, agora um falador. Eu não dou sorte mesmo… Olha Josué, seja forte e corajoso. Você irá liderar o povo de Israel na tomada de Canaã, e viverá dias de glória graças à minha ajuda.
— …
— Tá me olhando por quê?
— É só isso?
— É, ué. Queria o quê? Tapete vermelho, bandinha no coreto, vagabundas?
— Ah, sei lá… É que isso tudo aí o Moisés já me falou.
— Ah, então faço minhas as palavras dele. Agora podem ir, que eu vou lá em cima procurar alguma coisa pra comer. Moisés, não esquece de gravar a música.
— T-tudo b-bem.
— Beleza. Té mais.
— Tchau, Ja-Javé.
— Seu Javé, devo dizer que foi uma honra estar aqui e conversar com o senhor, uma vez que sua fama o precede e que todos os seus feitos têm sido…
— CALA A BOCA!
Depois dessa bela e instrutiva conversa com deus, Moisés e Josué saíram do Tabernáculo.
— E agora, seu Moisés, vamos fazer o quê?
— V-você eu não s-sei. Q-quanto a m-mim, v-vou e-ensaiar com a b-banda. Q-quero g-gravar essa m-música a-ainda hoje…