(Josué 13)
Pode não parecer quando se fala de tantas guerras e massacres, mas Josué já estava bem velho e ainda havia terras a conquistar. Por isso Javé resolveu adiantar as coisas:
— Josué, você já está velho e ainda há muito o que fazer. Eu ainda queria que vocês conquistassem a região dos filisteus e dos gesuritas no norte, a terra de Avim, no sul, Meara, Afeca, todo o Líbano, os sidônios… Olha, falta muita, muita coisa.
— Beleza, Javé, beleza! É só cê me falar qual é o plano que eu saio agora mesmo pra acabar com essa raça toda. Vai ser bom. Muito bom. Excelente. UHU!
— Caaaaaaaaalma, Josué… Já falei, você está velho, precisa descansar um pouco.
— Descansar? DESCANSAR??? Eu quero é sangue! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEE!
Uma lágrima apareceu no canto do olho de Deus:
— Ah, meu garoto… Tenho muito orgulho de você, viu? Mas chega de guerra por enquanto. Esses poucos povos que sobraram serão expulsos com o tempo, conforme vocês avançarem; por enquanto o que vocês conquistaram dá e sobra pra acomodar o povo. E eu quero que você faça a divisão da terra antes de morrer.
— Humpf. Depois de morrer é que eu não vou…
— NÃO VEM DAR UMA DE MOISÉS PRA CIMA DE MIM NÃO, SEU MEQUETREFE!
— …
— Oras… Bom, pra começar você já pode anunciar às tribos de Rúben, Gade e Manassés do Leste onde eles vão ficar do outro lado do Jordão.
— Hum… E onde eles vão ficar?
— Ó caralho! O Moisés não te deu o mapa antes de morrer???
— Er… Não.
— Puta que pariu, despreparo… Tá aqui o mapa:


(Clique para ampliar)

— Obrigado, Javé.
— Humpf. Entendeu o mapa?
— Claro, ué.
— Então tá. Agora vamos à divisão das terras a oeste do Jordão…

(Josué 12)

Bom, eu avisei: a partir de agora o livro de Josué fica uma chateação sem fim. Este capítulo, por exemplo, não passa de uma enumeração dos reis derrotados por Moisés a leste do Jordão e por Josué a oeste. A lista começa com Seom, rei dos amorreus da região de Hesbom, primeiro a se bater com os israelitas. Levou a pior contra o exército comandado por Moisés, assim como Ogue, rei de Basã, que — ficamos sabendo agora — foi o último dos refains, outra raça de gigantes. Depois de Ogue… Hum… É, isso encerra a lista dos reis derrotados por Moisés. Produtividade zero a desse velho gago, não foi à toa que Javé tratou de fazê-lo peidar no fubá no alto do Monte Nebo para substituí-lo pelo sanguinário Josué.
E Josué, sim, trabalhava do jeito que Javé gosta, quadrinho de “Funcionário do Mês” sempre. Conquistou toda a região a leste do Jordão, derrotando os reis de Jericó, Ai, Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis, Eglom, Gezer, Debir, Geder, Horma, Arade, Libna, Adulã, Maquedá, Betel, Tapua, Héfer, Afeca, Lasarom, Madom, Hazor, Sinrom-Merom (que nome legal!), Acsafe, Taanaque, Megido, Quedes, Jocneão (perto do monte Carmelo), Dor (ui! — cidade litorânea), Goim (que ficava no que mais tarde viria a ser a Galiléia) e Tirza — Ufa!. Trinta e três reis. É mole?
Pois então, mas por que se fala em reis derrotados, em vez de cidades conquistadas? Simples: nem todos os reis que perderam batalhas para os israelitas perderam suas cidades também. O exemplo mais importante é o de Jerusalém que, pelo que eu me lembre, só passou definitivamente às mãos de Israel no reinado de Davi. Mas isso ainda está longe, tenham calma. Por enquanto vamos ver como foi repartida entre as tribos a terra há muito prometida.

(Josué 11)

Se depois da travessia do Jordão e da conquista das cidades de Jericó e Ai os povos de Canaã já tinham medo dos israelitas, imaginem só depois da seqüência impressionante do último capítulo. Pois é: Jabim, o rei de Hazor, ouviu as notícias aterradoras e tratou logo de se aliar a seus vizinhos para formar um exército à altura do de Israel. Para isso, mandou mensageiros a Jobabe, rei de Madom, aos reis de Sinrom e Acsafe, aos reis da região montanhosa do norte, aos do vale do Jordão, aos do litoral do Mediterrâneo, aos cananeus que habitavam o outro lado do rio, aos amorreus remanescentes, aos heteus, perizeus, jebuseus e aos heveus, que viviam ao pé do monte Hermon. É, parece que o cara estava mesmo decidido a acabar com os israelitas. Seus vizinhos aprovaram a iniciativa, juntando seus exércitos e marchando até as margens do riacho de Merom, onde acamparam e começaram a preparar o ataque a Israel.
O autor do livro de Josué diz que era um exército com tantos homens quanto são os grãos de areia da praia. Com serem muitos, ainda tinham muitos cavalos e carros de guerra. Coisa para assustar qualquer um, e ainda mais um povo nômade mal equipado como era o de Israel. E Josué ficou mesmo assustado:
— Ih. Fodeu.
— Que que fodeu, Josué?
— Oras, o quê! Cê não tá vendo o tamanho do exército que está se preparando pra atacar a gente, Javé? Não temos chance contra eles.
— Pô, aí cê tá me menosprezando… Confia em mim, Josué, que cês vão acabar com esses caras, aleijar os cavalos deles e queimar os carros de guerra.
— Tadinho dos bichinhos…
— Bah! Vai confiar em mim ou não?
— Tem outro jeito?
— Hum… Não.
— Então tá.
Josué juntou seus soldados e o exército israelita saiu para atacar o inimigo. Javé deu uma forcinha de novo, e Israel saiu vencedor da batalha. Foram mortos todos os soldados dos reinos que haviam se aliado contra os israelitas. Depois disso, Josué voltou, tomou a cidade de Hazor e matou Jabim, o rei, e todos os moradores. E fez o mesmo com todas as outras cidades, é claro. Com exceção de Hazor, nenhuma delas foi destruída, e de todas os israelitas tiraram o espólio de guerra.
Com isso a conquista de Canaã estava praticamente concluída. Josué tomou toda a região do sul, a terra de Gosém, as planícies do território que depois viria a ser da tribo de Judá, o vale do Jordão, as montanhas, o litoral, e toda a terra até a fronteira com o Líbano. Em todo lugar a mesma regra: nenhum homem vivo (pelo menos essa é a história oficial…). Os israelitas acabaram também com os anaquins, uma raça de gigantes que moravam em Hebrom, Debir, Anabe e nas montanhas. Gigante, entenda-se, era qualquer cara um pouco maior que um israelita comum. Oscar Shmidt, o Mão Santa, seria um anaquim naquela época.
Derrotados os anaquins, os israelitas podiam se preparar para a divisão da terra entre as tribos e um merecido repouso. Esse negócio de uma carnificina atrás da outra cansa qualquer um…

(Josué 10)
Acredito que vocês já ouviram falar de Jerusalém, não? Pois é. A cidade, que hoje é sagrada para as três grandes religiões monoteístas, sempre foi disputadíssima, e isso pelo menos desde os tempos de Josué. Logo no começo desse capítulo, por exemplo, ficamos sabendo que Jerusalém então era habitada pelos jebuseus — um dos grupos descendentes de Amom, os amorreus — e governada por um tal Adoni-Zedeque. Chegaram aos ouvidos desse rei as notícias sobre o que acontecera às cidades de Jericó e Ai. O que mais o impressionou, porém, foi saber do acordo de paz selado entre israelitas e gibeonitas. Ora, Gibeão era uma das cidades mais importantes da região, maior ainda que a desaparecida Ai. Os gibeonitas tinham a fama de serem guerreiros muito corajosos, portanto era de se estranhar que houvessem se entregado assim a Israel, como cãezinhos dóceis lambendo a mão do dono. Adoni-Zedeque resolveu que era melhor juntar forças e se precaver, então enviou a Hoão, Pirã, Jafia e Debir (reis de Hebrom, Jarmute, Laquis e Eglom, respectivamente) a seguinte mensagem:

Aê, colega,
Cê já deve estar sabendo do que os homens de Gibeão fizeram. Foram correndo com o rabinho entre as pernas beijarem o rabo dos invasores israelitas. Receberam em troca a proteção do tal Josué, que anda dizendo por aí que vai destruir tudo daqui até o Mediterrâneo, poupando apenas os gibeonitas. Sendo assim, gostaria que você convocasse seus exércitos e se juntasse a mim, para acabarmos com Gibeão. O que você acha? Responda logo, que o tempo é curto.
Abraços,
Adoni-Zedeque
Rei de Jerusalém
PS: Enviei esta mesma mensagem a outros três reis amorreus. Seremos cinco cidades contra Gibeão. Não tem como dar errado.

Os quatro reis acreditaram mesmo que não tinha como dar errado, e atenderam à convocação de seu colega de Jerusalém. Os cinco juntaram seus exércitos e atacaram Gibeão.
Os gibeonitas, desesperados, mandaram uma mensagem a Josué, que havia voltado a Gilgal com todo o povo para traçarem novas estratégias de guerra. A mensagem era mais ou menos assim:

JOSUÉ
NÃO NOS ABANDONE[PT]REIS AMORREUS INVADIRAM GIBEÃO[PT]VENHA DEPRESSA NOS SALVAR[PT]CAGAMOS DE MEDO[PT]SOCORRO[PT]

Josué leu o telegrama, ficou amuado e foi falar com Deus:
— Pô, Javé, que que eu faço? Ó, puta que pariu! Eu sabia que ia dar merda aquele acordo com os gibeonitas. Agora, além da preocupação toda que tenho, vou ter que ficar de babá de marmanjo…
— Relaxa, Josué, relaxa… Foi uma bela burrada cair no conto do vigário dos gibeonitas, mas não dá mais pra voltar atrás. Agora o jeito é proteger os caras, como você mesmo jurou. E jurou ENHONÔME, então não tem como inventar desculpa para não ajudar Gibeão. Vai lá, vai dar tudo certo. Além do mais, são cinco exércitos pra você combater de uma vez, vai ter bastante sangue. É disso que você gosta, não?
— Hehehehe…
— Meu garoto… Sabe, começo a gostar de você.
— Pô. Valeu, Javé.
— Queisso. Agora reúne seus homens e vai lá pra Gibeão.
Confiante depois do apoio dado por Deus, Josué saiu de Gilgal com seus soldados, marchou acelerado a noite toda e atacou os amorreus de surpresa. Os israelitas chegaram de repente, fazendo muito barulho, e os amorreus se assustaram. Saíram correndo em desordem e foram perseguidos. Se tudo corresse normalmente, depois de um tempo eles se tocariam, “Epa, que que a gente tá correndo desses songomongos”, dariam meia-volta e massacrariam os soldados de Israel. Só que Javé — assim, ó! com Josué agora — resolveu dar uma mãozinha mandando uma chuva de granizo gigante que matou mais amorreus do que os israelitas conseguiriam matar.
Havia muitos inimigos a liqüidar ainda, no entanto, e já era meio-dia. Lembrem-se de que na época não havia fuzis com mira laser e visão noturna nem binóculos com infravermelho. Josué, sedento de sangue, mostrava-se frustrado ante a perspectiva de ter que interromper a batalha com a chegada da noite, e retomá-la apenas na manhã seguinte. Impaciente, gritou:
— PORRA, SOL! FICA PARADO AÍ EM CIMA! VOCÊ TAMBÉM, LUA! PARADINHA AÍ!
E o inacreditável aconteceu: o sol ficou parado no meio do céu, e a lua sobre o vale de Aijalom. A tradução da Bíblia na Linguagem de Hoje diz no versículo 14 deste capítulo:

Nunca tinha havido e nunca mais houve um dia como esse, um dia em que o Deus Eterno obedeceu à voz de um homem.

Pois é! Javé estava tão amigo de Josué que resolveu atender a uma demanda totalmente sem sentido: apenas para agradá-lo, parou a rotação da Terra. Valia a pena ser sanguinário para agradar a Deus, que o diga Moisés, que nunca teve muita vocação para assassino, e se matava não era por gosto.
Mas então: a batalha já estava quase no fim quando os israelitas perceberam que os cinco reis amorreus haviam sumido. Porém o serviço secreto de Israel já devia ser bom naquela época, porque logo os descobriram escondidos numa caverna em Maquedá. Josué, o bondoso, deu a ordem:
— Rolem umas pedras grandes para a entrada da caverna e continuem perseguindo os soldados amorreus. Depois a gente vê o que fazer com esses cinco aí.
A ordem foi cumprida, e os israelitas mataram quase todos os amorreus. Os que conseguiram escapar se refugiaram dentro dos muros de suas cidades, tremendo de medo e bendizendo a sorte. Então os soldados de Israel voltaram a Maquedá, onde Josué mandou que tirassem as pedras da boca da caverna. Assim o fizeram, e levaram os cinco reis à presença do líder. Conhecedores da crueldade deste, nem tentaram se defender. Josué, exultante, ordenou que seus oficiais botassem os pés no pescoço dos reis e em seguida os degolou. Os cadáveres foram pendurados em postes de madeira e ali ficaram até a noite, quando Josué instruiu seus homens para que pusessem os corpos dentro da mesma caverna, e cobrissem a entrada com pedras.

Com sangue nos zóio, e privilegiado pela parada na rotação da Terra, Josué saiu detonando ainda naquele dia: matou todos os moradores e o rei de Maquedá, depois foi até Libna e fez o mesmo, deu uma passadinha em Laquis e detonou por lá também. Horã, rei de Gezer, veio ajudar Laquis. Antes tivesse ficado em casa: tomou no cu direitinho, juntamente com todo seu povo. Acham que com isso Josué matou sua sede de sangue com isso? Pois sim! Ele e seu exército ainda destruíram e mataram toda a população de Eglom, Hebrom e Debir. Com isso concluiu boa parte da conquista de Canaã num só dia: toda a região que vai de Cades-Barnéia até Gaza e de Gosém até Gibeão era agora território israelita.

(Josué 9)

Como era de se esperar, a notícia da destruição de Ai espalhou mais ainda o terror por toda a Canaã. Conhecedores da fama sanguinária de Josué, os reis dos heteus, dos amorreus, dos cananeus, dos jebuseus, dos perizeus, dos heveus e outros eus fizeram uma aliança para guerrearem juntos contra Israel. Havia, no entanto, uma cidade chamada Gibeão, na terra dos heveus, cujos líderes decidiram adotar uma estratégia diferente. Afinal, lutar contra os israelitas não parecia uma idéia muito boa. A tomada de Ai tinha sido uma luta normal, com uma derrota na primeira batalha e uma boa estratégia na segunda, que foi vitoriosa. Mas o que dizer sobre Jericó? Como explicar aquele cerco que mais parecia um desfile de carnaval, e a queda das muralhas quando o povo gritou? Não, não: melhor dar outro jeito de livrar a pele. E foi o que eles fizeram, como veremos.
Os israelitas estavam acampados em Gilgal, ainda comemorando conquista de Ai. Celebravam, davam gritos de guerra, exibiam uns aos outros o que haviam saqueado da cidade. Porém a festa foi interrompida pela chegada de uma caravana de homens maltrapilhos, trazendo jumentos cansados carregados de sacos velhos e odres de vinho remendados. O povo se reuniu em volta do recém-chegados, olhando-os com curiosidade e uma ponta de desdém.
— Opa. E aí? Desculpe a gente chegar assim sem mais nem menos. Viemos de um país distante, e ouvimos falar da grande força e poderio de seu povo. Sendo assim, resolvemos vir aqui apresentar nossos cumprimentos e fazer com vocês um acordo de paz e colaboração.
Os homens de Israel ouviram aquilo meio desconfiados, e Josué questionou os viajantes:
— Hum, sei… E como a gente vai saber que essa ladainha toda é verdade, hein, ô feinho? E se na verdade vocês forem um desses caras que moram por aqui? A gente não tá aqui pra fazer acordo com os povos daqui não. Nosso negócio é matar todo mundo, destruir as cidades e saquear tudo. E quem garante que vocês não são uns cananeus metidos a espertinhos?
Falava grosso esse Josué, não? Quando Javé não estava por perto, é claro. Mas o porta-voz dos viajantes respondeu:
— De jeito nenhum, que é isso??? Somos de longe, já disse. E estamos dispostos até a trabalhar pra vocês, veja só. Façam acordo com a gente, vai ser bom pros dois lados…
— Hum… E quem são vocês exatamente? De onde vêem?
— Já disse, já disse: somos de um país muito longe daqui, vocês não conhecem. Viemos até aqui porque ouvimos falar do deus de vocês, das coisas espantosas que ele fez no Egito. Impressionante aquilo, uau! E também chegaram a nossos ouvidos a história das batalhas que vocês travaram contra os reis Seom e Ogue. Então nossos líderes nos mandaram pra cá, a fim de propor a vocês um acordo de paz, e até mesmo oferecer nossos serviços para o que vocês quiserem. Acreditem, somos de muito longe mesmo. Olha esse pão seco e bolorento aqui, quando saímos de casa estava quentinho. Nossos odres, nossas roupas e sandálias, era tudo novo, e agora vejam só o estado.
— É, cês tão numa pindaíba danada mesmo…
— Tô te falando… Mas tudo bem, valeu a viagem só para conhecermos este povo tão pujante. Agora só nos falta conhecer seu grande líder Josué.
— Er… Sou eu mesmo.
— O senhor é Josué??? Mas que honra! QUE HONRA! Senhor Josué, devo dizer que sua fama de general e grande líder alcançou os cantos mais distantes da Terra.
— Ah, que é isso…
— É verdade! Lá no nosso país quando as crianças vão brincar de guerra sai até briga pra saber quem vai ser o Josué. O senhor é um herói!
— Bondade sua…
— Bondade nada! No caminho pra cá ficamos sabendo da tomada de Jericó. O que foi aquilo???
— Ah, mas não fui eu não. Coisas do Javé…
— De quem?
— Javé, o nosso deus.
— Ah, sim. E a conquista de Ai, então? Que estratégia!
— É, ali eu mandei bem mesmo. Modéstia à parte.
— Pois então! Como é que a gente podia ignorar um mito desse porte? Não senhor! Fizemos questão de vir até aqui para fazermos um acordo de paz com o senhor e todo seu povo.
— Ah, é. O acordo. Oras, que diabo! Então façamos o tal acordo. Toca aqui, rapaz!
— Assim é que se fala, seu Josué! Então estamos seguros?
— Têm a minha palavra. E mais: juro por Javé.
Que beleza, não? Josué caiu direitinho na bajulação dos caras e firmou um acordo de paz com eles. Inocente, esse Josué. Três dias depois, os israelitas chegaram à região em que habitavam os gibeonitas (a capital, Gibeão, e as cidades de Cefira, Beerote e Quiriate-Jearim). É claro que Josué ficou emputecido quando descobriu que os viajantes maltrapilhos com os quais havia feito o tal acordo eram na verdade habitantes de Canaã, e portanto futuros alvos dos ataques de Israel.
— SEUS PUTOS! VOCÊS NÃO FALARAM QUE VINHAM DE MUITO LONGE???
— Ué, três dias de viagem! O senhor acha pouco???
— Puta que pariu… Agora o povo tá reclamando comigo e com os outros líderes, dizendo que somos molengas e burros por termos feito um acordo com vocês. Que que eu faço?
— Vê lá, hein, Josué! Lembre-se que você jurou pelo seu deus…
— Eu sei, eu sei! Mas que CAGADA! INFERNO! Olha, eu jurei por Javé então vou ter que manter meu juramento. Mas vocês vão me pagar por essa malandragem.
— …?
— Todos vocês gibeonitas vão ser nossos escravos. Carregadores de água, rachadores de lenha, essas coisas.
— Pô, Josué… Será que não dava pra gente…
— E SAIAM DA MINHA FRENTE ANTES QUE EU RESOLVA QUEBRAR O JURAMENTO!
Os gibeonitas acharam prudente não discutirem com Josué, mesmo porque para quem ia sumir do mapa qualquer acordo era lucro. Assim, em troca da própria vida, os gibeonitas passaram a ser escravos em Israel. Triste fim para um povo tão cheio de mumunhas. Fim muito mais triste, no entanto, tiveram os outros povos que ficaram no caminho de Josué…

(Josué 8)
Eu não entendo essa gente que diz que é difícil agradar a Deus. Consideremos o caso de Acã, por exemplo, que vimos no capítulo anterior. Só foi preciso que o povo levasse Acã para fora do acampamento e o apedrejasse, queimasse sua família e seus animais juntamente com suas posses e depois soterrasse tudo sob um montão de pedras e pronto: Javé estava feliz de novo. Isso é que é um Deus bom e cheio de misericórdia, eu não me canso de dizer…
Já de coração leve, Javé desceu do céu assoviando para falar com Josué:
— E aí, meu chapa? Pronto pra juntar uma galera da pesada e sair detonando e aprontando todas pelas ruas de Ai?
— Er… Hein?
— Bah, tá vendo? A gente é duro e todo mundo acha ruim, a gente é bonachão e informal feito uma chamada de filme da Sessão da Tarde e ninguém entende. É uma merda. Negócio seguinte: cês vão invadir Ai, e dessa vez vão ganhar a batalha. E com um detalhezinho que você vai gostar: ao contrário do que aconteceu em Jericó, dessa vez vocês vão poder ficar com o espólio da cidade.
— Hum.
— Ué, não ficou feliz???
— Porra, Javé. Agora cê resolve liberar o espólio? Tivesse feito o mesmo em Jericó, oras! Não teríamos passado aquele vexame em Ai e nem precisaríamos executar Acã e sua família.
— Bah, você é muito sensível a essas coisas… Deixa isso pra lá, ok. Vamos botar uma PEDRA sobre esse assunto… PESCOU? PESCOU? PEDRA!
— …
— Humpf. Olha, estão aqui os planos para a conquista de Ai.
— Ok.
Conquista, claro está, era eufemismo. Termos mais exatos seriam massacre, genocídio, limpeza étnica: as instruções incluiam, como da outra vez, a exigência de que toda a população fosse exterminada.
Na madrugada seguinte, os guardas de Ai foram surpreendidos pela presença de um acampamento israelita ao norte do portão principal da cidade. O rei ficou indignado ao saber da notícia:
— Mas como é que pode! Nós já não demos uma surra nesses calhordas? Como é que eles ousam vir aqui de novo, ainda mais com um exército tão pequeno? São suicidas ou o quê?
— E tem outra coisa! O líder deles, o tal de Josué, está no comando naquele acampamento.
— O quê??? Os caras mandam um destacamentozinho sem-vergonha desse, e ainda liderado pelo maior general que eles têm? São burros mesmo. Vamos lá, vamos botar esses imbecis para correr.
Então o rei saiu da cidade com todos os seus soldados. Conforme avançavam na direção do acampamento israelita, iam cantando o mundialmente famoso hino de Ai:
AI!
AI AI AI!
AI AI AI AI AI AI AI!
EM CIMA, EMBAIXO, PUXA E VAI!

Quando ouviram o hino e viram o exército imenso que se aproximavam, Josué e seus comandados levantaram acampamento e saíram correndo como da primeira vez. Os soldados de Ai riam e zombavam da covardia dos israelitas:
— Volta aqui, circuncidado, que eu vou acabar de cortar seu pau!
— Não foge não, ô do gorrinho!
— Você aí de trancinha, me espera!
— ESPERAÍ, FILHO DA PUTA, QUE EU VOU FAZER VOCÊ COMER MANÁ PELO… Er…
Majestade?
— VOLTA AQUI, QUE EU VOU FAZER COM A TUA BUNDA O QUE MOISÉS FEZ COM O MAR VERM… Que foi?
— Olha ali atrás…
O rei olhou e não acreditou no que via. Notando o olhar embasbacado de seu líder, os soldados foram parando para olhar para trás. E lá da cidade que eles haviam deixado fazia pouco tempo viam subir a fumaça. Ai estava sendo destruída. Enquanto todos ainda estavam congelados pela incompreensão do que acontecia, Josué ordenou a seus homens que dessem meia volta e começassem o ataque.
Mas como foi que isso aconteceu?, alguém pode perguntar. Oras, é simples: a estratégia que Javé passara a Josué era manjada porém eficiente. Sabem aquele golpe do Didi, de ficar balançando o pezinho para distrair o oponente, e então dar-lhe uma traulitada na cachola? Pois foi mais ou menos isso que Josué fez: acampou com um exército pequeno bem à vista dos guardas de Ai, mas antes havia enviado mais de trinta mil homens para se esconderem a oeste da cidade. Quando o rei saiu com seus homens para atacarem o pé do Didi Mocó que era o destacamento-isca de Josué, os outros aproveitaram para darem um catiripapo na caçoleta de Ai, entrando na cidade para matar todos os seus habitantes, saquear o que houvesse de bom e incendiar o resto.
O rei percebeu o quanto fôra imprudente ao sair da sua cidade com todo seu exército. Ainda pensou em voltar mas era tarde: Josué e seus soldados já caíam sobre eles, e os outros israelitas, tendo concluído boa parte da destruição da cidade, vieram dar apoio. O exército de Ai foi totalmente cercado e todos foram mortos, com exceção do rei, que foi tomado como prisioneiro. Tendo terminado de matar os soldados, os israelitas voltaram para a cidade e concluíram o massacre. Saldo: doze mil civis mortos. A cidade foi saqueada e reduzida a ruínas. Por fim, Josué enforcou o rei de Ai numa árvore e ali o deixou até o pôr-do-sol, quando ordenou que o cadáver fosse jogado na frente do portão principal da cidade e sepultado sob um monte de pedras.
Depois de duas conquistas importantes como foram as de Jericó e Ai, era hora de Israel cumprir as instruções Moisés deixara para quando o povo atravesasse o Jordão. Josué, então, construiu no alto do monte Ebal um altar de pedras brutas e sobre ele o povo ofereceu sacrifícios. Depois disso, metade do povo se posicionou em frente ao monte Ebal, enquanto outra metade ficava em frente ao monte Gerizim, para ouvirem a leitura da Lei feita por Josué. Pronto, o povo de Israel estava oficialmente em Canaã. Agora era só conquistar o resto do território.

(Josué 7)
Quando viram a baba que foi destruir Jericó, os israelitas se encheram de segurança para novas empreitadas. Por isso, quando Josué enviou espiões à cidade de Ai…
AI???
Não torra. Eu ia dizendo: quando Josué enviou espiões a Ai, eles voltaram com prognósticos otimistas:
— Aê, seu Josué, Ai vai ser moleza. Precisa movimentar o povo todo não: manda pra lá só uns dois ou três mil homens, porque há pouca gente lá, e todo mundo se cagando de medo da gente.
Investido de coragem e motivado a não mais poder, Josué convocou então cerca de três mil soldados e os enviou à cidade. Aconteceu, porém, que os homens de Ai fizeram os israelitas recuarem, matando logo de cara 36 soldados. Depois botaram os hebreus para correr, e os perseguiram desde o portão da cidade até uma pedreira que havia por lá, matando israelita à vontade na descida. Quando o batalhão desfalcado voltou ao acampamento não marchando, mas correndo em desordem, com a notícia do que acontecera, o povo perdeu toda a empáfia recém-adquirida.
Josué, desnorteado pela derrota quando esperava uma vitória sem percalços, rasgou suas roupas — a bicha — e se atirou de rosto no chão na frente da Arca. Os líderes do povo, no exercício da antiquíssima e lucrativa atividade chamada puxa-saquismo, fizeram o mesmo. Ali ficaram Josué e os líderes, todos de cara no chão como sinal de tristeza. Então Josué começou sua arenga:
— Ô, Javé! Por que foi que você fez este povo atravessar o Jordão? Para nos entregar de bandeja nas mãos dos amorreus? Pô, sacanagem braba isso aí! Na boa, com todo respeito, isso não se faz! Grande papelão fizeram os soldados israelitas correndo dos habitantes de Ai feito umas frangas tresloucadas. E agora? Agora os cananeus e o resto dessa raça toda aí vão ficar sabendo do acontecido, e aí a fama que conquistamos ao atravessarmos o Jordão e destruirmos Jericó vai pras cucuias. Percebe? Percebe? OS CARAS VÃO CERCAR A GENTE E VARRER ISRAEL DO MAPA! É isso que você quer? E sua reputação, como fica? Hein? Hein? Responde, porra! Resp…
— Tá, tá, Josué! Já escutei, agora chega. Pra começar que porra cê tá fazendo aí de cueca com a cara no chão? Por favor, que cena mais ridícula! Oras, Israel passou esse vexame aí porque o povo me desobedeceu.
— Desobedeceu? Quando???
— Já te digo: eu não falei pra vocês destruírem Jericó totalmente, matando todos os seus habitantes e todos os animais e queimando a cidade? A única coisa que eu permiti foi que trouxessem os objetos de ouro, prata, bronze e ferro para o Tabernáculo, que de bobo eu não tenho nada. Enfim, minha ordem foi clara. E sabe o que aconteceu? Teve nego aí que resolveu trazer uns souvenirs de Jericó para o acampamento, pensando que eu sou idiota.
— Tá falando sério, Javé?
— Não, é pegadinha! Olha ali a câmera escondida! É CLARO QUE EU TÔ FALANDO SÉRIO, CARALHO! E digo mais: enquanto vocês não descobrirem quem foi que teve o topete de desafiar minha autoridade, o povo de Israel continuará sendo motivo de chacota aqui na região. Vai pegar mal pra mim e pra vocês também.
— Mas como é que a gente vai descobrir?
— Usando o Urim e o Tumim, oras.
— Usando QUEM???
— Puta merda, Josué… Cê até que se sai bem militarmente, mas não se preocupou nenhum pouco em aprender os aspectos religiosos e essa coisa toda, né? O Urim e o Tumim, aquelas pedrinhas que o Sumo Sacerdote usa para fazer sorteios.
— Porra, virou bingo isso aqui?
— MANÉ BINGO! O resultado do Urim e do Tumim na verdade é uma manifestação da minha vontade. Então o sorteio será feito até vocês descobrirem quem é o cara. Aí você vai passar uma descompostura nele e queimar tudo o que ele trouxe de Jericó.
— Só isso?
— Só. Ah, mas com um detalhe: na mesma fogueira em que você queimar as tais lembrancinhas, aproveita pra queimar o cara, a família dele, suas posses e sua tenda.
— PORRA, JAVÉ! Precisa tanto???
— Ai meu saco, a mesma discussão de sempre… Sei lá se precisa ou não, o que importa é que eu QUERO e assim será feito. Entendeu, songomongo?
— Entendi…
— Então vai lá.
De acordo com a ordem de Javé, Josué acordou na madrugada seguinte e convocou todo o povo (aliás, já repararam que muita coisa no livro de Josué acontece de madrugada? O filho-da-puta do milico tinha esse costume de toque de alvorada, e pelo jeito impôs esse comportamento ao povo. Sacanagem). O primeiro sorteio foi feito, indicando que o responsável pela vergonha de Israel vinha da tribo de Judá. Outro sorteio foi feito, e a sorte recaiu sobre o grupo familiar de Zera. Com outro sorteio, determinou-se que o procurado era da família de um tal Zabdi. Nenhum pio se ouvia no acampamento quando o último sorteio foi feito e Acã foi acusado do crime de desobediência. Josué, não muito crédulo nesse negócio de pedrinhas da sorte, quis confirmar com ele:
— Acã, meu filho. Conta aqui pro Josué, conta: o que foi que você fez? Não esconda nada, pode ficar tranqüilo.
— Posso, é? Então tá. Seguinte, seu Josué: a gente tava lá em Jericó matando adoidado, tocando fogo em tudo, aquela beleza. Aí vi no meio dos escombros uma capa linda, coisa fina, made in Babilônia. Pensei: “Oras, é só uma capa, não faz diferença nenhuma”, e peguei a danada.
— Sei, sei… E foi só isso?
— Hum… Teve um pouquinho mais. Quase nada: uns dois quilos de prata e uma barra de ouro que deve pesar por volta de meio quilo.
— Você pegou OURO e PRATA pra você, Acã???
— Er… Peguei, né? Tá tudo enterrado na minha barraca.
— Putz, aí fodeu. Fosse só a capa eu tentava dar um jeito, mas pegando ouro e prata você roubou o Javé, cara. Ele foi bem claro com isso: os metais preciosos deveriam ser levados para o Tabernáculo. Olha, eu não quero ser agourento não, mas acho que de hoje você não passa…
— PELAMORDEDEUS, SEU JOSUÉ!
— Bah, posso fazer nada. Mas antes vamos confirmar essa história direitinho. Ô! Vocês aí! Vão até a tenda do Acã e vejam se as coisas estão mesmo enterradas lá.
Os homens designados por Josué correram para a tenda do réu, e de fato encontraram a capa, o ouro e a prata enterrados lá. Então Josué e todo o povo de Israel — sempre doido por um linchamento — levaram Acã, sua família, seus animais e tudo o que ele possuía para um vale. Lá o povo apedrejou Acã e queimou sua família e seus bens, inclusive os objetos que ele pegara em Jericó. Feita a desgraceira, empilharam um monte de pedras sobre a família carbonizada. Uma maravilha, coisa linda de se ver! O lugar passou a se chamar Vale de Acor, que significa desgraça.
Olha, não sei quanto a vocês, mas eu se fosse israelita naquela época, com essa lei do cão imposta por Javé, trataria logo de pedir asilo político no primeiro país pelo qual passasse. De besta eu só tenho a cara.

(Josué 6)

Na chón!

Na chón!


Com os depauperados israelitas já recuperados da circuncisão, Javé não via motivos para adiar mais a invasão de Jericó. Deu instruções detalhadas a Josué, e foi assim que na manhã seguinte os homens que estavam de guarda nas muralhas da imponente cidade presenciaram uma cena insólita: soldados israelitas marchando seguidos por sete homens com roupas engraçadas — sacerdotes, pela solenidade que exibiam — tocando cornetas de chifre de carneiro. Atrás desses sacerdotes vinham outros carregando um baú sobre os ombros — que os guardas não tinham como saber que era a Arca da Aliança — e atrás destes mais soldados. De longe, do acampamento, o povo de Israel assistia à cena. O que mais impressionava era o silêncio: nem os soldados que marchavam, nem os sacerdotes que carregavam a arca, nem o povo no acampamento emitiam som algum. Os homens nas guaritas, estupefatos e sem saber direito o que estava acontecendo, guardavam silêncio sem se dar conta disso, só murmurando de quando em vez: “Que porra é essa?”. Apenas as cornetas soavam enquanto os sacerdotes e soldados rodeavam as muralhas. Depois de completarem seu percurso, todos voltaram para o acampamento.
A história se espalhou pela cidade, cujos habitantes já viviam em estado de sítio antes mesmo de qualquer ameaça israelita: desde o dia em que o povo atravessara o Jordão os portões da cidade viviam muito bem trancados, e ninguém tinha autorização para entrar ou sair. Naquela manhã, quando os guardas viram os soldados se aproximarem, pensaram tratar-se enfim da invasão. Depois que eles apenas rodearam as muralhas e voltaram para o acampamento, porém, um certo alívio foi sentido: talvez os israelitas tivessem desistido da invasão ao verem o tamanho da cidade e a espessura de seus muros.
No entanto, a tensão voltou a reinar no dia seguinte, quando os mesmos soldados e sacerdotes voltaram carregando o baú e tocando cornetas enquanto davam mais uma volta ao redor da muralha. A notícia se espalhara, e dessa vez vários habitantes de Jericó assistiam à cena de cima do muro. Houve vaias, gritos de guerra, ovos e tomates atirados, faixas de “Galvão, filma eu!”. Os israelitas, impassíveis, apenas completaram sua volta e retornaram ao acampamento.
A mesma cena se repetiu por mais quatro dias. A tensão então era insuportável, com aqueles malucos vindo todo dia à mesma hora para tocarem cornetas e circundarem a cidade. Seis dias consecutivos da mesma palhaçada; e o povo de Jericó com os nervos estraçalhados.
No sétimo dia foi a mesma coisa: vieram os soldados, atrás deles os corneteiros e a Arca, e depois mais soldados. Só que não voltaram para o acampamento quando terminaram de dar a volta na cidade. Em vez disso, deram outra volta.
E outra.
E mais outra.
Sete voltas no total. Depois disso, os sacerdotes tocaram as cornetas produzindo um som prolongado, e os israelitas vieram correndo do acampamento, enquanto gritavam em uníssono:
VAMO INVADI!
VAMO INVADI!
VAMO INVADI!

Imediatamente as muralhas da cidade caíram.

Ah, não fode!
Porra, o que cês querem que eu faça??? É assim que tá lá na Bíblia, então tenho que contar assim: com o grito do povo, as muralhas de Jericó — tão espessas que havia pessoas morando nelas, lembrem-se — ruíram. Os israelitas então invadiram a cidade, tratando de cumprir com alegria as instruções de Javé: matar todos os habitantes, inclusive velhos e crianças, e todos os animais.
Peraí — há de perguntar algum leitor mais atento — e a Raabe?
Sim, sim, é verdade. Raabe, se vocês não se lembram (é CLARO que não se lembram…) era aquela puta que morava na muralha da cidade, e que protegeu os espiões israelitas. Antes de partirem, eles garantiram que ela e sua família seriam poupados no dia da destruição de Jericó. Pois vejam só: toda a muralha caiu, com exceção do pedaço em que Raabe morava. Os dois espiões — que já a conheciam muito bem — foram encarregados de irem até lá e resgatarem a puta, os filhos da puta, os pais da puta, enfim, a putaiada toda. Ela foi incorporada ao povo e tratada como israelita desde então. Se bem que era MULHER e PROSTITUTA. Numa sociedade machista e moralista como aquela, seria mais negócio ser cachorro.
Resgatada Raabe com sua família, os soldados israelitas puderam concluir seu trabalho: atearam fogo à cidade, salvando apenas os objetos de ouro, prata, bronze e ferro, que foram levados para o tesouro do Tabernáculo. Depois de concluída a destruição, Josué amaldiçoou a cidade e qualquer um que tentasse reconstruí-la. Sei não, mas acho que a maldição não foi levada muito a sério. Podem procurar num mapa de Israel: ali do lado do Jordão está a moderna cidade de Jericó. O que importa para nós agora, porém, é que com a destruição de Jericó, Josué finalmente começou a ser respeitado e temido. Os israelitas celebravam o sucesso de sua empreitada sob o comando do novo líder, enquanto os cananeus tremiam apavorados ao ouvirem a história do general que, juntamente com seu povo, derrubara as muralhas de uma cidade na base do grito.

(Josué 5)
Quando o povo de Israel terminou de assentar acampamento em Gilgal, deus foi mais uma vez falar com Josué:
— Ô, seu bunda mole!
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve o caralho, que eu sou é deus. Seguinte, tem uma parada aí pra gente fazer. A gente porra nenhuma, pra VOCÊ fazer, que eu não vou sujar minhas mãos. Pra começar, cê vai fazer umas facas de pedra.
— Facas de pedra? Pô, não fode! O neolítico ficou pra trás faz tempo, eu posso muito bem fazer facas de metal.
— Eu sei que você pode, Josué. Mas acontece que EU não quero. Facas de pedra dão mais trabalho e eu me divirto vendo vocês se lascando. Sem trocadilho.
— HUMPF. E pra que as tais facas?
— Então. Aquela geração que saiu do Egito há quarenta anos morreu no deserto; só você e o Calebe foram poupados por mim. Aliás, é bom que você nunca se esqueça disso…
— …
— O negócio é que morreram todos, e os que nasceram no deserto não foram circuncidados. Aí…
— Ah, não!
— Ah, sim! Você vai botar todo mundo em fila e circuncidar um por um.
— COMO É QUE É???
— Não grita comigo, puto.
— Er… Como é que é? Cê quer que eu corte a pele do pau de mais de 600 mil homens???
— Ah, cê pode escolher uns ajudantes.
— O problema não é esse, porra! E eu lá vou ficar pegando em rôla, Javé???
— Vai sim, oras. E sabe por quê? PORQUE EU TÔ MANDANDO, CARALHO!
Diante da força retórica de tal argumento, Josué não teve escolha: arrumou uns negos para ajudá-lo e começou esse servicinho do caralho — literalmente —, assim como Abraão havia feito quando da instituição da circuncisão. O povo ficou acampado até que todos os homens sarassem. Imaginem só: alguns amigos meus operaram fimose já na adolescência ou na vida adulta — não vou citar nomes, portanto o Tonon e o Loxinha podem ficar tranqüilos — e passaram alguns dias em casa de molho, com o júnior cheio de pontos. Não gosto nem de pensar como deve ter sido lá em Gilgal, sem anestesia antes nem sutura depois. Credo.
Bom, depois da Operação Corta-Pica, Javé voltou a falar com Josué:
— Muito bem, muito bem! Que maravilha ver esse monte de marmanjo falando fino e gemendo de dor. Parabéns, Josué. Belo trabalho. Hoje finalmente a vergonha de ter sido escravizado no Egito foi tirada de Israel.
E foi por causa dessa frase que aquele lugar passou a se chamar Gilgal, que em hebraico significa “tirar”. E ali na planície de Gilgal, pertinho de Jericó, os israelitas comemoraram a Páscoa na noite do dia catorze. No dia seguinte começaram a comer o que aquela terra produzia. Finalmente, depois de quarenta anos comendo maná, o povo voltou a comer coisas normais e saudáveis; e o maná parou de cair do céu.
Por aqueles dias, Josué estava caminhando pelas cercanias de Jericó. Olhava para as muralhas espessas, os guardas em suas guaritas, as seteiras, e pensava: “Puta que pariu, vai dar um trabalho do cão entrar aí”. Distraído com seus pensamentos, esbarrou num transeunte.
— Opa. Desculpa aí, meu camaradinha, estava pensando na morte da bezerra e… — Josué interrompeu-se ao notar que o homem, muito alto e forte, estava todo paramentado para a guerra, de armadura, capacete, escudo e espada na mão — Ei, peraí. Você é do nosso exército ou é de Jericó?
— Nenhum dos dois, songomongo: sou o comandante do exército de Javé.
— O comandante? Quer dizer que você é o…
— Eu mesmo.
Josué então, como bom puxa-saco, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em louvor ao homem. Este, nada impressionado com a bajulação do líder israelita, ordenou:
— Pára de viadagem. E vê se pelo menos tira as sandálias, porque o solo em que você pisa é santo.
— Ok, claro, sim, pois não, é pra já.
— VAI LOGO, PORRA!
— Opa, pronto, aí, já foi, descalço, olha só.
— Humpf.
Com esse muxoxo, o homem se retirou. E se vocês fossem mais espertinhos, já teriam sacado que se tratava do arcanjo Miguel. É possível que estivesse voltando da disputa com o diabo pelo corpo de Moisés, vejam só. É como se fosse um DVD: a cena do encontro de Josué com Miguel parece descontextualizada. Só que assistindo aos extras a gente vê em uma das cenas cortadas Miguel e o Canho disputando Moisés numa partida de truco, e tudo passa a fazer sentido.

(Josué 4)
Quando o povo terminou de atravessar o Jordão, e enquanto a água do rio ainda estava represada por sua força sobrenatural, deus foi falar com Josué:
— Ô, Josué. Foi boa essa, hein?
— Hum. Mais ou menos.
— COMO ASSIM, “MAIS OU MENOS”???
— Bah. Coisinha mais mixuruca fazer a gente atravessar um rio sem-vergonha feito o Jordão.
Mixuruca, Josué? MIXURUCA??? QUERO VER VOCÊ FAZER IGUAL! QUERO VER!
— Calma, Javé… Só um comentário.
— Pois guarde seus comentários pra você. E pára de frescura. Esse povo aí é resmungão mesmo e não se impressiona com nada. Atravessaram o Mar Vermelho a seco como se estivessem atravessando a Avenida Paulista. Povinho bunda… Mas essa travessia do Jordão aí já serviu pra eles verem que eu tô do seu lado.
— Será?
— Vai por mim, Josué. Vai dar tudo certo. Deixa de ser bunda mole, porra!
— …
— Seguinte: você vai construir um monumento para relembrar o milagre espantoso que foi a travessia do rio.
— Monumento, é? Posso chamar o Niemeyer?
— Mané Niemeyer! O cara ainda tá prestando vestibular pra arquitetura, ô! Além do mais, não temos tempo nem verba pra isso. Você vai falar para os doze líderes da tribo irem até ali onde os sacerdotes estão, no meio do rio. Cada um vai tirar uma pedra grande de lá e carregar até o acampamento, onde você construirá o monumento com as doze pedras.
— Tá bom então.
— Muito bem. Até mais.
Josué então repassou as ordens. Para mostrar serviço, ainda empilhou outras doze pedras no meio do Jordão, onde os sacerdotes esperavam pacientemente a ordem para marcharem, agüentando sobre os ombros uma arca de madeira-de-lei maciça contendo, entre outras coisas, as duas placas de pedra dos Dez Mandamentos. Tendo terminado seu gesto de puxa-saquismo explícito, Josué permitiu aos sacerdotes que concluíssem a travessia do rio. Assim que eles pisaram na margem ocidental, as águas do Jordão voltaram a correr normalmente.
Concluída — enfim! — a travessia, o povo começou sua marcha, finalmente dentro de Canaã, a Terra Prometida. Eram quarenta mil homens preparados para a guerra. O povo acampou em Gilgal, onde Josué ergueu o monumento com as doze pedras trazidas pelos líderes tribais.
A travessia aconteceu no dia dez do primeiro mês, quatro dias antes da Páscoa. Os reis amorreus e cananeus das terras a oeste do Jordão até o litoral do Mediterrâneo souberam da travessia milagrosa do rio, e ficaram com muito medo do avanço dos israelitas. Estes, por sua vez, estavam preparados para sua primeira grande conquista em Canaã, a tomada de Jericó. Mas antes precisavam cumprir um ritual um tanto constrangedor. No próximo capítulo eu conto.