O Sofá

Aconteceu há coisa de três ou quatro anos. Depois de muito tempo, finalmente meu pai botou a mão no bolso para comprar um sofá novo. Não era para menos: o antigo estava há séculos na sala, e já conhecia mais bundas que o J.R. Duran. Enfim, o sofá novo foi comprado e o antigo ficou atravancando o corredor.
Aqui cabe uma explicação sobre meus pais. Minha idéia de casal ideal foi sempre a de HOMEM SONHADOR + MULHER PRÁTICA. Isso, obviamente, porque é como são Seu Lindauro e Dona Ana. Meu pai é o cara que comprou um violão para aprender a tocar UMA música, tocá-la para a namorada e nunca mais voltar a encostar no instrumento (refiro-me ao violão, claro, não à namorada). Minha mãe é a mulher que decidiu que era necessário comprar cortinas. Pois então.
Sofá novo na sala, sofá velho no corredor. Dona Ana, cansada daquela situação, resolveu intimar o velho:
— Lindauro, a gente precisa dar um fim nesse sofá.
— Hum? Sofá?
— É, LINDAURO! Esse sofá velho está atrapalhando!
— Tá nada, tá nada…
— Claro que tá! Precisa dar um fim nesse trambolho.
— Calma, calma. Depois a gente vê isso.
— Depois, quando? Eu te conheço, isso vai ficar um ano aí.
— Deus proverá!
— Que “Deus proverá” o quê! Deixa Deus fora disso, que ele tem mais o que fazer.
— Calma, calma… Deus proverá!
— Lindauro, eu já disse que…
Nesse momento minha mãe foi interrompida pelo toque da campainha. BLIM BLOM! Foi atender. Eram dois bêbados. Com eles, uma carroça puxada por um cavalo dos tempos bíblicos.
— Pois não?
— Ô, dona. Será que a senhora não teria aí cinco reais?
— Cinco reais? Pra quê?
— É pra gente consertar a roda da carroça. Tá quebrada, o pobre do cavalo tá que não se agüenta…
— Não tenho não.
— Tudo bem. Obrigado, dona.
Minha mãe fechou a janela e voltou para a cozinha, disposta a retomar a discussão:
— Então, Lindauro, eu ia dizendo…
— Quem era?
— Hã?
— Quem tocou a campainha?
— Ah! Dois bêbados querendo dinheiro pra consertar uma carroça.
— Carroça?
— É, Lindauro! Carroça! Por quê?
— Rê-rêê…
Depois de dar sua risada clássica (quem já ouviu não esquece), seu Lindauro foi até o portão e chamou os pudins-de-pinga.
— Ô, rapaz!
— Sim sinhô…
— Vocês disseram que querem cinco reais para consertar o veículo? — esse é meu velho, com seu português castiço.
— Sim sinhô…
— Pois eu te dou DEZ reais para você levar embora um sofá que está atravancando a passagem aqui em casa.
— Opa!
Então meu pai — um homem que não acredita em assaltos nem nada disso — abriu o portão e convidou os dois cachaceiros a entrar. “Com licença, com licença”, e foram entrando. Quando viram o sofá, ficaram animados:
— Ô, dotô! Esse sofá aí tá novinho!
— Verdade! Nem vamo vender pro ferro-velho, esse aí vai lá pra casa. Ê, beleza! Quanto o senhor quer nele mesmo?
— Não quero nada não. Dou dez reais para vocês levarem ele embora.
— Ê, que beleza! Isso é coisa de Deus, dotô!
— É, eu sei…
Os dois carregaram o sofá para fora (cambaleando que só o capeta) e o ajustaram em cima da carroça, com ajuda de seu Lindauro. Amarraram o estofado do jeito que deu e lá foram, felizes com o móvel novo. Do portão, minha mãe espiava apreensiva o sofá que ia embora em transporte tão precário.
— Lindauro, eles vão deixar o sofá cair.
— Ué! E eu com isso?
Dia seguinte, seis da manhã, vou até a esquina para esperar meu ônibus e o que vejo? Sim, sim: o velho sofá do outro lado da rua, encostado ao muro de um terreno baldio. Cheguei ao trabalho e liguei pra casa:
— Mãe, viu o sofá?
— Que sofá???
— O sofá velho. Tá lá na frente do terreno baldio.
— AIMEUDEUS!
À noite, quando cheguei em casa, fiquei sabendo da conversa do casal:
— LINDAURO DO CÉU!
— Hum?
— O sofá!
— Que sofá?
— O sofá! Tá jogado na calçada, lá na esquina!
— Que sofá, Ana?
— “Que sofá”… O NOSSO sofá! QUE VERGONHA!
— Eu, hein… O NOSSO sofá está aqui, estou sentado nele. Aquele lá é dos bêbados, eles que passem vergonha. Rê-rêêê…
 
Rê-rêêê, seu Lindauro. Feliz aniversário, meu velho. Quem tem um pai assim precisa mais de nada.

28 comments

  1. Marco… eu tinha certeza absoluta q iria encontrar uma comunidade enorme qdo procurasse por “JMC” no orkut, mas não têm nada, nadinha, lhufas, chongas, niente, nothing.. nem sei se vc tá afim dessa onda de orkut, mas se vc for promover alguma coisa lá, com certeza, vai ser o mesmo sucesso. Demorou, né? Beijinho.

  2. Cara…
    Um livro de contos!
    Deus revelou pra mim que sua primeira incurssão no mundo editorial será com um livro extremamente divertido de contos reais!
    Vá guardando idéias!

  3. o texto é muito melhor (infinitamente) do que a história do sofá. Voce deve escrever bem sobre qualquer acontecimento. Fazer humor com uma história besta assim, voce devia escrever um livro como Myname recomendou. parabéns. Seu Lindauro só é interessante porque é seu pai. Batuta mesmo (ainda se fala essa palavra?)é a dona Ana que deveria ser a heroina da historia e da vida sua e do Lindauro. Prática, objetiva deve ter carregado o preguiçoso do Lindauro por uma vida inteira e agora ele aposentado tem que ter muito amor mesmo para aturá-lo. Desculpea crueldade.

  4. a culpa é sua que está tornando publicas, pequenas coisinhas de uma vida vazia e chata… continuo achando que voce escreve bem…

  5. Meu, nem q ele não fosse (pq tenho certeza q ele é..) um cara incrível.. já valeria ter tido e criado um filho como vc.. afinal, sabemos bem q tem o lado genetico da coisa, mas a criação tb é super importante..
    Por isso, se admiro vc, admiro mil vezes mais teus pais, pq fazer vc ter a mente a vc tem, não é pra qq um..
    Todo e qq elogio q for feito a vc aqui, na verdade é mérito deles.. Afinal, qdo um imbecil faz uma cagada a pergunta corre:
    -Cadê os pais do Joãozinho*??
    Então, se vc é digno de tantos admiradores (incluindo a mim), é mesmo justo a gente reportar a eles os créditos.
    Beijinhos.
    *: foi o primeiro nome q me veio na cabeça, mas fica valendo a analogia ao nosso amigo aí.. hehehe..

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