Nosso plano ontem era visitar o Museu da Guerra e mais alguma coisa. Não deu tempo: mesmo com as exposições das duas Grandes Guerras fechadas, a visita levou 4 horas. Há uma exposição sobre a vida de uma família em Londres durante os bombardeios alemães da II Guerra. E depois disso, a exposição sobre o Holocausto. Lembram que eu falei da capacidade humana de produzir arte depois de ver Billy Elliot (o musical)? Então: a gente tem essa outra capacidade também. Eu resisti bravamente até quase o final da exposição. Só que aí veio o modelo em escala de Auschwitz. Ao lado da maquete, uma pilha imensa de sapatos atrás de uma vitrine. Antes de entrar nas câmaras de gás, os prisioneiros tinham que tirar os sapatos. Eram muitos, muitos pares de sapato. Cada par pertenceu a uma pessoa cujas cinzas foram usadas para fertilizar o solo alemão. Quando a gente chega a um lugar em que tem que tirar os sapatos — um restaurante japonês, a casa de uma pessoa com TOC — a gente sabe que na volta vai se calçar de novo e voltar pra casa. Em Auschwitz, não.
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Piscinas
Fiquei sócio do clube aqui perto de casa. Assim, bem perto. Vou a pé. É na minha porta. É ali na cozinha.
Mentira.
É aqui na sala.
Mentira. É a Associação Atlética São Paulo. Tem quadras de tênis, aparelhos de ginástica, campos de futebol society. Eu não pretendo usar nada disso. Tem uma piscina olímpica também, e essa eu uso. Uso pra dar um tchibum e depois boiar um pouco. O ruim disso: eu, uma grande massa marrom, pulo na água e fico lá boiandão. Quando você for ao banheiro, pode anunciar: “Licença, galera, vou levar o Marco Aurélio no clube”.
Esqueça isso, por favor.
O negócio é que eu aprendi a nadar numa piscina de 2,5 por 4 metros. Dois metros e meio de circunferência, quatro de profundidade. Mentira, ok? 2,5 x 4,0 x 1,2. Essa foi a piscina GRANDE que meu pai fez quando éramos crianças. Antes dela, meu pai e Seu Édson, o pedreiro faz-tudo da família, bolaram uma coisa bem menor. Era um buraco retangular cimentado tão pequeno que meu pai não chamava de piscina, mas de POÇO RECREATIVO. E eu acho que ele e Seu Édson se esqueceram de alguns detalhes, como colocar um ralo, por exemplo. A gente enchia aquela piscina com a mangueira (e nem enchia muito, meu irmão era muito pequeno, podia se afogar e blablablá), brincava ali um dia ou dois. Depois disso a água começava a ficar turva, depois suja, depois podre. Aí era hora das crianças entraram na água com baldes na mão para esvaziar a piscina. Às vezes chamávamos os vizinhos para brincar só pra depois ter mais braços no trabalho de esvaziamento. A gente ficava naquilo a manhã inteira, como náufragos num bote salva-vidas furado. Quando faltava bem pouquinha água, já não dava pra apanhar com o balde, aí vinha a pior parte: a gente ia pegando água com uma pazinha de lixo e jogando num balde. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, joga água pela borda da piscina. Enche a pá, enche o balde, enche o saco, morre. Acho que o POÇO RECREATIVO não era para a gente se divertir nadando: era para nossos pais se divertirem vendo a gente esvaziando aquela desgraça. Acho até que minha mãe fazia pipoca nessas ocasiões, mas pode ser uma memória falsa.
Mas eu dizia que meu pai me ensinou a nadar. Seu Lindauro era do sertão da Bahia, de uma região mais seca que a Dilma Rousseff. Água era coisa muito rara por lá, mas existiam açudes sazonais. Quando o açude estava cheio, meu avô aproveitava para ensinar os filhos a nadar. Na vez do meu pai, foi assim: Seu Júlio, meu avô, colocou meu pai na cacunda e atravessou o açude nadando. Aí voltou, tornou a atravessar. Na quarta travessia, chegou no meio, jogou meu pai lá longe e gritou: “agora sai nadando!”. Meu pai aprendeu que foi uma beleza. Nadava em qualquer lugar, sem medo. Íamos à praia, ele já corria pro mar, ia nadando, nadando, até a gente ver só aquela cabecinha lá longe — longe a ponto de eu poder me referir à cabeça de alguém da família no diminutivo.
Quando meu pai me ensinou a nadar, não foi nada tão dramático. Ficávamos lá na piscina (a piscina GRANDE), ele estendia o braço. Aí era só apoiar o abdome na mão dele e bater as mãos e os pés. Pronto, já sabe nadar. Próximo!
Então é assim: eu entro na água, consigo me deslocar, mas não sei nadar. Eu atravessei a piscina olímpica no sábado e saí direto pro INSS pra pedir aposentadoria por invalidez. Estou pensando em contratar um instrutor de natação particular, porque o clube não tem essas coisas. Gosto de ficar na água, me sinto bem. E um dia quero ensinar meus filhos a nadar do jeito certo, porque o jeito da minha família é zoado.
Center Norte, alegria. ¬¬
Existe um shopping center em São Paulo chamado Center Norte. Eu odeio shoppings, mas odeio muito mais o Center Norte. Está sempre cheio, estacionar é quase impossível. As lojas ficam todas num piso só, é tudo muito confuso, sempre me perco. Odeio.
Então eu estava precisando comprar bermudas e para onde eu fui? Pois é. Numa sexta-feira à noite. Perto do Natal. Black Friday. Eu não sou muito inteligente.
Cheguei e fiquei dando voltas no estacionamento. Muitas voltas. Sabe aquele disco Gita, do Raul Seixas? Tocou mais da metade e ainda chegou na segunda música do disco seguinte, o Novo Aeon (a segunda música, muito adequada à ocasião, é o Rock do Diabo). Raul Seixas lá pedindo um porco vivo pra encher a pança (mais dois quilos de alcatra com moqueca de esperança), quando me aparece a vaga perfeita. Perto da porta, com marquise em frente para proteger da chuva que estava naquele vai-não-vai. Uma senhora entrou no Corolla que ocupava a vaga, ligou o carro. Eu mantive uma distância respeitosa e dei seta. Outro carro embicou. Eu avancei um pouco, o cara abriu o vidro para explicar: não queria a vaga, só queria passar pra deixar as filhas no shopping. Muita gentileza dele me avisar, dei passagem. Ele passou, continuei lá. A senhora não tinha muita noção de espaço, como eu também não tenho, então fui um pouco mais pra trás. Ela saiu da vaga, eu dando seta. Ela ajeitou o carro, eu dando seta. Ela partiu, eu dando seta, o Raul Seixas dizendo que foi o Diabo mesmo quem lhe deu o toque, e um corno filho de uma puta remelenta que estava atrás de mim (o corno, não a puta da mãe dele) acelerou para pegar a vaga.
Eu achava que isso só acontecesse em seriado americano. Uma pessoa está sinalizando para entrar numa vaga esperando que o ocupante anterior saia, aí vem um folgado e entra na frente. Esse cara tinha um jipão branco. Um Farmer XL Gold 2013. Sei lá, entendo nada de carro. Era um desses carros de luxo. Nêgo agora tá com essa mania de comprar carrão com cor de táxi, vai entender. O cara acelerou o jipe dele. Quanto custa uma porra dessas? Uns 200 mil, por aí? Eu dirijo um Civic 2001, na última vez que eu tive curiosidade de olhar o valor de tabela era 17 mil. Se meu carro amassa, eu deixo amassado, foda-se. Um sujeito com aquele carro tão chique, tão grande, não vai querer sair por aí com o carro amassado. O carrão compensa o pinto pequeno, seria como se um de nós andasse por aí com o pinto amassado na lateral da chapeleta.
Acelerei também. O rapaz do pinto pequeno ficou brabo, uma mão enfiada na buzina e a outra no rabo, rasgando de raiva. Nem liguei. Entrei na MINHA vaga. O moço saiu cantando pneu. Raul Seixas já estava cantando Eu Sou Egoísta. Muito adequado, Raul. Desliguei o carro e saí assoviando.
Frutas
Você passa a vida inteira sem falar o que você pensa, o que você sente, o que você deseja. Nada te impede de falar, mas você não fala mesmo assim. Pode magoar alguém. Pode dar problema. Pode foder toda a sua vida.
Então você vai guardando, guardando, e essas coisas toda que você não fala vão se acumulando lá dentro. Vão se empilhando, crescendo, e viram lindas frutas.
“É do tamanho de uma cereja.” “É do tamanho de uma laranja.” “É uma ameixa seca e está num lugar onde não conseguimos chegar. É inoperável. Sinto muito.”
Deve ser horrível receber um diagnóstico de câncer quando você está com fome.
Um dia você descobre que virou a Carmen Miranda do avesso, com todas as frutas dentro de você. Uma manga no estômago, uvas no intestino grosso, nêsperas no cérebro. E aí você percebe que se fodeu, se fodeu grandão, um pepinão no seu rabo.
Guarde não. Melhor falar.
CPAP
Olá! Sim, o blog ainda existe.
Seguinte: muita gente chega aqui procurando informações sobre apnéia do sono, polissonografia, CPAP. Isso por causa desse post, e desse, e desse. Alguma dessas pessoas deve estar procurando um CPAP usado para comprar. Se você é uma dessas pessoas, chegou o seu dia de sorte: estou vendendo meu CPAP ResMed S7 Lightweight por um precinho camarada. Está anunciado por 600 reais, mas para quem achar pelo blog eu vendo por 500.
Tolerância
Conversa entre um segurança e uma funcionária genérica do Pão de Açúcar:
— Sabe qual é um grande erro da humanidade? — ele pergunta — Falar mal de viado e travesti.
— Eu não tô nem aí, cada um faz o que quer.
— É tudo filho de Deus. E quando você fala, isso volta. Um amigo meu mesmo: falava mal de viado, e o que aconteceu? O filho dele nasceu viado. Virou viado aos doze anos de idade.
— Isso aí a pessoa nasce assim, não tem jeito.
— Viado, travesti, tudo filho de Deus. É homem, só que queria ter nascido mulher. Queria ser mulher, mas Deus não permitiu. Aí vira viado. Tem que respeitar.
A bicha
A ansiedade é uma bicha histérica que mora dentro de mim e tenta o tempo inteiro tomar o poder dentro da minha cabeça. Qualquer coisinha que aconteça desperta a bicha. Bastou um comentário que não entendi, um olhar meio torto, um rumor sem comprovação e pronto: lá vai a bicha dar piti. “VAI PERDER O EMPREGO, BOFE! O QUE VOCÊ VAI FAZER SEM EMPREGO?” “GENTE, E ESSAS MANCHA NAS SUAS CANELA? É CÂNCER, ISSO AÍ! VAI MORRER DE CÂNCER NA CANELA!” “TÁ TODO MUNDO MORRENDO E VOCÊ É O PRÓXIMO, BI!” “TRINTA E SETE ANOS! TRINTA E SETE! CREDO!” E por aí vai.
Quando a bicha começa a dar piripaque é um inferno. Ela grita, ela sapateia, rodopia, e eu não consigo pensar, não consigo trabalhar, não consigo dormir. Ano passado a tresloucada conseguiu me paralisar de vez: tive uma crise de pânico, fui atrás de especialistas, me deram remédio pra tomar. No começo desse ano, percebi que o remédio me deixava estranho. A solução do médico foi dobrar a dose, o que me deixou duplamente estranho.
Porque, vejam, o remédio não exorciza a bicha. Na verdade a merda do remédio nem cala a boca da bicha. O que ele faz é envolver a bicha em algodão, plástico bolha e plumas (o último item só para agradar a feladaputa) e abafar a voz dela. Ela continua tendo suas crises, só que eu estou como que longe dela, alheio a ela, não consigo ouvi-la direito. Mas ela está lá e passa sua mensagem de alguma forma. Quando algo que seria perturbador me acontece, eu penso: “putz, se não fosse o remédio eu ia estar arrancando os cab… as unhas agora”. Só que eu passo o dia desconfortável (sem nem estar menstruado) e durmo mal. É a bicha lá, toda embrulhada, dando um jeito de mandar sua mensagem com mímica, código Morse, sei lá.
Eu até nem acharia tão ruim se fosse só a bicha. O problema é que o remédio não faz isso só com a ansiedade. É meio que a mesma coisa com qualquer sentimento, emoção, sensação ou veadagem. “Olha, uma pizza.” “Olha, uma frase de um livro.” “Puxa, uma música.” “Uia, Scarlett Johansson pelada em cima da mesa dançando Cara-Caramba-Cara-Cara-Ô.” Tudo parece alheio a mim, tudo está longe, e eu também não me importo. Estou feliz. Olha como sorrio, estou feliz. Muito feliz. Nossa, que alegria. Jeová me segure, que assim eu não agüento tanta alegria. Vou rir. Tô avisando que eu vou rir, hein? Tô sentindo a risada vindo. Prepara aí. Prepaaaaaaaaaaaraaaaaaaaaa…
Rá.
É muita alegria. Uau.
Então por minha própria conta (porque o médico é só um emissor de receitas cor-de-rosa mesmo) voltei à dose original do remédio. Comecei ontem, deve levar um tempo ainda pra fazer alguma diferença. E espero que faça diferença, porque nem eu me agüento mais. Tem horas que dá até saudade da bicha histérica.
Minha luta contra o câncer
Este blog já vai para dez anos de existência e só agora percebo que nunca contei aqui um aspecto importante da minha vida. Finalmente criei coragem. Preparados? Pois lá vai: há anos eu venho fazendo aquilo que a imprensa chama de “travar uma luta contra o câncer”. Estou ganhando de lavada, porque até agora não tive nenhum diagnóstico oficial de câncer. Mas eu não me engano: sei que ele está lá, pronto para atacar.
Já tive câncer várias vezes na vida. Tempos atrás, tive um caso sério de câncer na língua. Mostrei para a Ana Cartola e ela me recomendou passar Gingilone. Eu passei, o câncer sumiu. Ela diz que era afta; eu digo que a ciência precisa estudar melhor a ação do Gingilone contra o câncer.
Durante a maior parte da minha vida eu não me preocupei com o câncer. Inocente, pensava que ninguém na minha família tinha morrido d'”aquela doença”. Falei isso para a minha mãe, ela riu e me contou que o pai e a avó materna dela tiveram câncer. Meu avô morreu disso. A bisavó se curou, mas depois teve varíola — que é outro medo que eu tenho (“erradicado” meu ovo), mas isso fica para outro dia.
Toda vez que tenho dor de cabeça, sei que é um tumor no cérebro. Um tumor que anda, porque a dor é sempre numa região diferente da minha vasta sobreloja. Já tive tumores nos dedos do pé (disseram que era frieira), no saco (“pêlo encravado”), no peito (“espinha”), na pálpebra direita (“verruga”). Fui tomar banho numa manhã de julho e levei um susto ao ver um tumor logo acima das minhas bolas. Era preto, todo enrugado, parecia uma uva passa. Até eu perceber que era meu pinto, foi um deus-nos-acuda. Frio é foda. Teve uma outra vez que me apareceu uma pinta no braço. Marrom, bordas irregulares. Achei que era câncer (claro), mas sumiu depois que eu tomei banho. Era café. Tinha outras manchas parecidas na minha camiseta.
E assim venho travando essa luta inglória. Levo a vida normalmente, mas sempre esperto com o câncer, sempre com a pulga atrás da orelha. Aliás, acabo de perceber um carocinho atrás da minha orelha esquerda. É câncer, tenho certeza.
Incômodo
Lendo esse poema que Pablo Neruda escreveu em homenagem a Stálin, fico incomodado. Nem é tanto pelo cara escrever uma ode ao maior assassino em massa do século XX, quiçá da história. Não: o que me incomoda é que eu imagino o Neruda bem à vontade numa casa de praia da Ilha Negra, escrevendo cada verso enquanto olha um retrato de Stálin e mantém pelo menos um dedo enfiado bem fundo no cu.
Bela procura um dono
Apresento a vocês a Bela:

Bela, a cadela que escapou por pouco
Bela deve ter uns dez meses de idade. Já está vacinada, castrada, a coisa toda. Quando encontramos Bela pela primeira vez, ela estava na merda, com duas patas na cova e as outras duas no skate. Conto.
Foi numa manhã de sábado. Saí para passear com o Rondeli e vi uma cachorra deitada na calçada, com duas moças paparicando ela. Eu achei que elas fossem um casal de lésbicas e que a cachorra fosse delas. Continuei meu caminho, então. Um pouco mais adiante, Rondeli parou para farejar um pedaço de salsicha no chão. Puxei ele de volta e seguimos andando.
Quando voltamos do passeio, minha cunhada veterinária havia se juntado às moças. Não eram um casal: uma tinha parado para acudir a cachorra, a outra passou depois e também parou. A cachorra estava mal, perguntaram se havia um veterinário por perto e, para sorte de Bela, minha cunhada estava a duas casas de distância. Com a ajuda das duas moças, a cunhada conseguiu levar a cachorrinha até a casa dela. O bicho estava zoado: diarréia, vômito, tremedeira. Pior: estava cega. Minha cunhada deduziu que era um caso de envenenamento, o que logo me fez pensar no pedaço de salsicha que eu não deixei o Rondeli comer. Então a cachorra foi medicada e dias depois estava bem, andando, enxergando e controlando as funções corporais normalmente.
Agora a Bela está em um pet shop de Santana esperando alguém disposto a adotá-la. Já saí para passear com ela, e é uma cachorra obediente, calma e muito inteligente. Não é lá essas belezas, é verdade, mas pelo menos não é tão feia como o Rondeli.
Se alguém se interessar (ou conhecer quem se interesse), pode falar comigo nos comentários deste post ou pelo formulário de contato do blog. Mais fotos da Bela para amolecer seu coração de pedra:

