Esse negócio de contar sonho dá mais ibope que a bíblia. Estou até pensando em mudar a linha do blog.
Vamos a ele: Estamos na Copa do Mundo de 1970. Só que não é no México, é no Brasil. Acho que eu e o Beto, meu irmão, éramos jogadores da seleção brasileira, porque fomos ambos fazer infiltração no joelho. Detalhe: A infiltração do sonho era feita com Red Bull, para aumentar a impulsão e a velocidade. Ou seja, era dopping.
Pois bem, estávamos ambos na sala de espera da clínica quando apareceu um pó branco no chão e começou a borbulhar, feito sal de frutas. Apareceu é a expressão exata, não tinha nada lá e de repente todo o chão da clínica estava coberto de pó branco efervescente, assim como a rua. As pessoas que pisavam no pó sofriam queimaduras.
Saímos para a rua e começamos a seguir a trilha do pó. Mas na esquina o Beto já falou “Ah, isso aí não é nada” e voltou para a clínica. Antes eu tivesse ido com ele: No que dobrei a esquina dei de cara com um bando armado falando espanhol. Eram argentinos e tinham começado a invasão do Brasil, aproveitando o clima de festa da Copa. Um deles me apontou o fuzil e eu saí correndo, com o cara gritando “Olha pra cá, desgraçado, pra eu poder te matar”. Sei lá o que o impedia de me matar se eu não olhasse, mas foi nessa hora que eu vi que estava correndo rápido demais. Respirar os vapores que saíam do pó branco tinha me dado superpoderes. Porra, que legal! Voltei pra onde o cara estava, ele atirou várias vezes e nada. A munição acabou e ele sai correndo, apavorado, no que foi seguido pelos outros.
U-hu!
Corta para o interior de uma igreja (sempre tem, sempre tem…). Estava nessa igreja e tinha que subir até onde estava o sino, porque a biblioteca ficava lá. Comecei a subir a porra da escada (essa era em caracol, Loira) mas era muito cansativo. Então resolvi ir voando mesmo, aproveitando os superpoderes. Lá em cima, peguei vários livros do Borges e comecei a consultar. E tudo o que tinha acabado de acontecer estava previsto nos livros do Borges.
Hum… Acho que tomei uns goles a mais ontem.

Estava Jacó um dia em sua tenda pensando no que fazer. A fome assolava a terra e a família começava a passar apertos. Olhou para fora, viu os filhos de papo pro ar e emputeceu-se.
— Que que cês tão aí de braços cruzados, bando de vagabundos? Ouvi dizer que no Egito tem comida a dar com o pau. Por que vocês não vão até lá para comprar mantimentos em vez de ficarem aí feito uns songo-mongos?
— Mas pai…
— Mas pai meu ovo! Vão logo, os dez. Só Benjamim fica aqui comigo, José morreu porque deixei vocês cuidarem dele, não vou fazer a mesma cagada com outro filho.
Benjamim, lembremo-nos, era o outro filho que Jacó tivera com Raquel, a esposa que amava, e ela morrera no parto. Como o velho dava José por morto, Benjamim passara a ser o filho predileto. Os outros? Ah, um bando de songo-mongos.
Ora, como já estamos carecas de saber (vocês não estão? Droga!), José era o responsável pela administração da venda de mantimentos no Egito. Imaginem agora a cena: Os dez filhos de Jacó vêm até José e se ajoelham perante ele, sem reconhecê-lo. Na hora José se lembrou do sonho. Estão lembrados do sonho? Não? Cazzo, eu tenho que relembrar tudo a vocês? Refresquem a memória aqui.
Pronto? Então vamos tocar em frente.
José, claro, reconheceu os irmãos, mas fingiu que não e falou com eles cheio daquela arrogância que só as bichas muito bichas sabem ter:
— Posso saber de onde é que estão vindo os donzelos?
— Viemos de Canaã, senhor para comprar mantimentos.
— Meu cu. Vocês são espiões, vieram para xeretar nossa vidinha aqui no Egito.
— Não, senhor! Nós, teus servos, somos irmãos e viemos comprar comida.
José a-do-rou o tratamento, mas continuou firme em cima do salto Luís XV:
— Mentira deslavada! Olha, um com mais cara de espião que o outro!
— Seu Safnat-Paneah, nada disso, por favor! Somos doze irmãos filhos de um homem de Canaã. O mais novo ficou com nosso pai e o outro já não existe mais.
— Ai, me poupem! Não são espiões? Então vão ter que provar. Um de vocês vai voltar a Canaã e trazer esse irmão mais novo de que falaram. Os outros vão ficar presos aqui até que o caçula venha. E se não vier, morrem todos.
Dito isso, mandou prender os irmãos até que decidisse qual dos dez voltaria para pegar Benjamim. Quê? Maldade? Maldade nada! Pior foi o que eles fizeram ao nosso pobre viadinho, vendendo-o como escravo. José tinha mais é que deixá-los um bom tempo na masmorra. Mas tinha um coração mole, tadinho, e depois de três dias foi falar com eles.
— Olha, vamos fazer o contrário: Um de vocês fica preso aqui e os outros nove vão buscar o irmão que falta, levando os mantimentos que comprarem. Tudo bem?
Esse “tudo bem?” foi, obviamente, uma pergunta retórica. Quem eram eles para questionarem uma decisão do governador do Egito?
— Tá vendo? — Disse um dos irmãos — Isso é castigo pelo que fizemos com José há vinte anos.
— Eu avisei — Respondeu Rúben —. Falei para vocês não fazerem mal ao menino. Mas vocês me ouviram? Nãaaaao. E agora temos que pagar. Ô, merda.
Começaram a discutir e jogar uns sobre os outros a culpa pelo que tinham feito ao irmão. Nem se importavam com a presençade José, pensavam que não estava entendendo lhufas, mesmo porque ele só falava com eles através de um intérprete. José saiu disfarçadamente da presença deles e chorou. Chorou muito, pobrezinho.
— Ai deus, ai deus! Que ironia cruel do destino! Ai, essa minha vida daria uma novela! Quem eu vou deixar preso agora? O melhor seria deixar o mais velho, mas Rúben foi o único que pelo menos tentou me ajudar. Ah, então vai ser o segundo filho. Ai, tadinho de papai, vai ficar tão sentido com isso tudo!
Depois de muito chorar, retocou a maquiagem e voltou ao cárcere para anunciar sua decisão. Mandou amarrar Simeão na frente dos outros, e ordenou aos servos que botassem o dinheiro dos irmãos de volta em suas sacolas de mantimentos, sem que eles (os irmãos, não os mantimentos) percebessem. Feito isso, os nove irmãos carregaram os jumentos e partiram de volta para Canaã. Nâo, não sairam carregando os jumentos. O que eu quis dizer é que eles pegaram as sacolas e… Bah! Vocês entenderam.

É, eu ando aprendendo com o titio Bill Gates. Mas fico fazendo coisas assim durante a aula:

Mas nem é disso que eu quero falar. Na hora do coffe-break (que antigamente era apenas intervalo, mas quem liga pra isso?) só eu e uma menina ficamos na sala. Começamos a jogar conversa fora, falar mal dos colegas de curso essas coisas. Comentei sobre uma garota que tinha dito, em tom irônico, que se não conseguisse resolver um determinado problema na empresa, ia acabar vendendo coco na praia.
— Caralho (sim, eu falo palavrão com pessoas que não conheço), o pessoal fala de vender coco na praia como se fosse um negócio horrível, o máximo da degradação. Tenho um projeto que se aproxima bem disso.
— É, nada a ver essa mina aí. Você já ouviu falar de um lugar chamado Jericoacora?
— !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
— Que foi?
— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FALOU ISSO!
E é japonesa, a danada.
Estou apaixonado.