Estava tomando café na Fnac quando o telefone tocou. Número desconhecido. Atendi.
— Alô?
— Alô, Moacir?
Muito bem. A maior parte das pessoas diria que, a não ser que você se chame Moacir, a resposta correta deve ser:
— Não, acho que você se enganou.
Então a outra pessoa diz “Ah, desculpe”, ou “Que cabeça, a minha!”. Você responde “Não foi nada”, ambos desligam e pronto.
Pessoas que pensam assim não sabem se divertir. Eu, por exemplo, a despeito de me chamar Marco Aurélio, respondi sem hesitar:
— É ele.
— Ô, rapaz! Você vem pra cá?
— Peraí. Quem tá falando?
— O Eduardo, Moacir.
— Ô, Edu! Que bom que você ligou, já ia ligar pra você.
— Pois então, você vem pro clube?
— Ah, Edu, não sei. Essa chuva…
— Deixa disso, rapaz! A moça tá aqui, já tá tudo acertado.
— Hum. Tudo acertado?
— Tudo, tudo!
— Tem certeza, Edu? Cê cuidou do negócio todo e tal?
— Opa, claro!
— Tá bom. Então tô indo, me espera aí.
— Ok. Tô aqui na frente da Blockbuster. Você demora?
— Acho que levo uns quarenta minutos, tá um trânsito danado.
— Ah, tudo bem. Tô te esperando.
— Mas tá com a moça, né?
— Tô sim.
— Vê lá, hein Edu?
— Ô, Moacir, eu alguma vez já te deixei na mão?
— Hehehe. Espera aí, tô saindo agora mesmo.
— Tá legal. Até mais.
— Até. Abraço, Edu.
Imagino que deixei um Edu e uma moça esperando debaixo de chuva, enquanto um Moacir em algum lugar da cidade esperava por uma ligação a respeito da moça.
A vida pode ser divertida, às vezes.
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Quase uma semana sem post novo
Foi uma semana do cão no trabalho. Compreendam.
O hino da vitória de Davi
(II Samuel 22)
Próximo ao seu final, o segundo livro de Samuel começa a ficar bastante nostálgico. Exemplo disso é este capítulo, que transcreve o hino que Davi compôs quando Deus o livrou da perseguição de Saul. Já velho, Davi gravou essa bela canção em disco. A qualidade não é das melhores: um tecladinho de churrascaria, a voz do rei bastante vacilante e matratada pela idade. Mesmo assim, foi um grande sucesso em Israel na época. Quer ouvir?
[audio:http://www.jesusmechicoteia.com.br/imagens/aquareladejave.mp3]
Cante junto com o rei:
Aquarela de Javé
Javé, és minha fortaleza
Um deus que é uma beleza
Vou cantar-te nos meus versos
O Javé, deus que nos dá
Inimigos pra trucidar
O Javé, deus de terror
Ele é nosso senhor
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Ô, esse Javé que tá no céu
É o grande deus de Israel
Terra do leite e do mel
Javé! Javé!
Deixa cantar de novo o Davi
Que andou fugindo aqui e ali
Antes de ser o rei daqui
Quero ver esse Javé me abençoando
E aos inimigos matando
Com seus olhos injetados
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Javé, faz a terra tremer
A montanha ceder
E fica indiferente.
O Javé, deus que nos dá
Inimigos pra trucidar
O Javé, deus de terror
Ele é nosso senhor.
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Ô, esse raio que cai do céu
Que mata mais de um milhão
Nas noites claras de luar
Javé! Javé!
Ah, essa voz tonitruante
À qual não ouso dizer não
Só resta mesmo concordar
Oi, esse deus do mundo inteiro
É nosso deus carniceiro
Raivoso e justiceiro
Javé! Javé!
Pois é… Pois é…
Merecidas férias
Eu nunca entendi esse negócio de correr. As pessoas dizem “Vou correr no fim-de-semana” e eu me espanto: correr de quê? Atrás do quê? Vão correr por correr? Mas que coisa mais estúpida! Não entendo, não aceito. No entanto, sempre me garantiram que era bom para a saúde, que o sedentarismo da vida moderna nos leva à cova (ou à urna no aparador da lareira, para os mais afortunados) antes do esperado. Sempre me calava ante esse argumento, mesmo porque as pessoas o diziam com um olhar de desdém dirigido à minha barriga cuidadosamente cultivada.
Calava-me, sim, mas agora creio ter encontrado um contra-argumento imbatível. Para começar, vejam a figura (cliquem para ampliar, por favor):
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Pois muito bem, vamos começar pelo simpático Australopithecus anamensis nosso primeiro tataravô a descer das árvores. Chamemo-lo Aristeu. Aristeu desceu da árvore enquanto seus irmãos gritavam “Não! Não! Volta, maluco” lá do alto. Ele era um explorador, porém, e desceu. Botou os dois pés e as duas mãos no chão. Depois, tentando obter uma postura mais ereta, espreguiçou-se e respirou fundo o ar da pradaria. Foi nesse momento que veio o tigre-de-dentes-de-sabre e o mandou pra dentro da pança, que é essa a lei da selva.
Somos teimosos desde o início, porém: Adão, irmão mais novo de Aristeu, queria fazer o mesmo apesar do fiasco do primogênito. Esperou um tempo e, quando se sentiu pronto, desceu da árvore e nem olhou em volta: saiu logo correndo para a árvore mais próxima. Os outros o seguiram, e assim começou nossa história de correria.
Porque, vejam, em quase cinco mihões de anos a situação mudou pouco. A árvore genealógica da espécie foi lançando seus ramos, e o habitante de cada um deles continuava correndo dos predadores. A criação de utensílios, instrumentos e armas foi um passo importante, porque pudemos começar a caçar outros animais, mas será que isso foi bom? Além de correr dos predadores, agora nos impúnhamos a tarefa de correr atrás da caça. E tome correria para lá e para cá.
As armas foram se sofisticando e nossa habilidade para a caça se aprimorando conforme o cérebro crescia, até chegar ao ponto em que não precisávamos mais nos preocupar tanto com os predadores. Começamos a morar em palafitas, abandonando o nomadismo que vinha desde as cavernas, e desenvolvemos a agricultura. Mais esforço: sair para caçar, depois ajudar o vizinho a construir sua palafita, depois arar a terra, semear, colher. Só trabalho, trabalho, trabalho.
Essa rotina de esforço físico nos perseguiu desde o começo. O Homo habilis não lhe escapou, nosso malfadado irmão de Neanderthal também não, e mesmo nós, orgulhosos Homo sapiens, vivemos boa parte de nossa curta história (o pedacinho vermelho do topo da árvore) nesse corre-corre de caçar, pescar, plantar e construir.
Entretanto, o desenvolvimento da tecnologia não parou quando descobrimos que polir pedras era melhor do que lascá-las, muito pelo contrário, de maneira que hoje boa parte dos humanos pode viver sem qualquer esforço físico. Essa situação é recentíssima mesmo se considerarmos apenas a Era Contemporânea: o sedentarismo, que no século XIX seria privilégio da nobreza, do clero e de um ou outro comerciante, hoje está ao alcance de qualquer mané que se disponha a botar uma gravata ao redor do pescoço e sorrir abobalhadamente para todos. E quando isso começou? Eu diria que há uns cinqüenta anos. Se considerarmos que cinco milhões de anos se passaram desde que Adão desceu da árvore, podemos dizer que trabalhamos 8.300 anos para ter, enfim, um mês de férias.
Não venham, portanto, criticar meu sedentarismo: meus antepassados trabalharam muito para que me fosse possível passar o dia inteiro sem fazer qualquer esforço físico. Sair por aí correndo, levantando peso, praticando esportes, seria como cuspir na linha evolutiva de minha espécie.
Ray
Epifania
Hoje eu tive uma epifania. Durante uma conversa com meus irmãos, fiz um rápido retrospecto de minha vida e concluí: sou um derrotado. Até aí, nenhuma novidade. Só que até hoje eu não havia experimentado a percepção das dimensões do meu fracasso. Hoje sim: percebi de forma clara e inconfundível que sou um derrotado sem remédio, um perdedor, um zero; que sempre o fui em todos os momentos de todos os aspectos de minha vida.
Por um instante, um sorriso assomou-me à face frente à perfeita simplicidade dessa descoberta súbita.
Mas em seguida percebi o que ela significava.
(Não, não vou gastar mais 150 reais, obrigado).
Toninho

Era uma manhã muito bonita de segunda-feira na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Na sala de coleta eu assistia ao meu sangue escorrendo por dentro de uma mangueirinha. Mais um exame dissera que meu pobre sangue estava contaminado por um retrovírus chamado HTLV-1, primo-irmão do HIV, o qual iria me matar de leucemia em alguns anos, após deixar-me cego e paralítico. Meses depois eu viria a saber que fora um erro de diagnóstico, mas então eu já ia para o terceiro exame, e pensava no que fazer da pouca vida que me restava. Enquanto esperava, ouvi lá fora aplausos, gritos de crianças e um acorde de violão-tenor. Não precisei ouvir mais nada; apenas um homem tocava violão-tenor no Brasil: era o Sr. Antônio Gomes Neto, mais conhecido como Toninho, dos Demônios da Garoa. Eles estavam lá fora fazendo um show para as crianças internadas na Santa Casa. Eu, que nunca vira uma apresentação dos Demônios, não podia sair dali para ir vê-los. Tocaram só umas três músicas, e quando eu saí não havia nem vestígio de crianças ou Demônios.
Corta para um fim de tarde de algum dia de 1999. Andava pela Rua do Arouche de volta do trabalho quando vi do outro lado da rua aquele senhor. Vinha de cabeça baixa, concentrado nos próprios passos, e mantinha os braços meio abertos, como se isso o ajudasse a manter o equilíbrio. Atravessei a rua para cumprimentá-lo:
— Com licença… Desculpe incomodar, mas o senhor não é o Toninho, dos Demônios da Garoa?
Ele fez uma pausa antes de levantar a cabeça. Quando olhou para mim, foi com uma expressão de tamanha surpresa que chegava a ser cômica.
— Sou sim, filho.
— Ah, eu sabia! O maior violonista-tenor do Brasil!
— Claro, sou o único!
— Sou fã de vocês, seu Toninho.
— Obrigado, muito obrigado. Estou indo agora ali na Santa Casa, preciso ver esse braço aqui, sinto uma dorzinha chata, aguda…
Andamos lado a lado por algum tempo, ele falando dos problemas de saúde que a velhice lhe trouxera de presente, e eu extasiado por estar ao lado de um ídolo.
Depois desse dia nos encontramos ainda algumas vezes ali no centro de São Paulo. Cumprimentávamo-nos discretamente como velhos conhecidos. Uns anos depois o encontrei novamente, dessa vez numa apresentação dos Demônios da Garoa no Bar Brahma. Ele estava sentado próximo ao lugar onde eu estava, e eu não resisti: mais uma vez cometi o crime da tietagem e pedi a ele que tirasse uma foto comigo.
Sexta-feira à noite minha mãe me esperava com a notícia: Toninho havia morrido. Senti uma dorzinha chata e aguda aqui dentro: ele nunca soube, mas esteve comigo num dos momentos mais tristes e solitários da minha vida besta.

O Raul perguntou
Estava agora há pouco vendo no Raul Gil uma seleção dos melhores momentos daquele quadro em que as crianças cantam e levantam a audiência (1). Num dos trechos, o Raul enchia os braços de uma garota com maços de dinheiro, e propunha:
— CEM MIL REAIS para você desistir!
— Não. Eu preciso muito, mas não quero.
— Mas são CEM MIL REAIS!!!
— Não, obrigada. Eu lutei muito para chegar até aqui, e dinheiro nenhum vai me fazer desistir.
Senti um desespero cá dentro. Atenção, Raul Gil: se o senhor quiser mesmo que essas crianças não apareçam mais no seu programa, basta depositar cem mil reais na minha conta. Por esse dinheiro eu garanto que dou um jeito delas não aparecerem.
(Credo, tô parecendo paraense…)
Nova regra para o Banco Imobiliário
A idéia me ocorreu enquanto jogava Banco Imobiliário no Palm: a regra do sem-terra/sem-teto. Funciona assim: sempre que um jogador parar numa propriedade alheia após uma dobradinha nos dados, ele terá a opção de invadir a propriedade. Caso decida fazê-lo, será proprietário por cinco rodadas, com direito a cobrar aluguel dos outros jogadores, a não ser que o proprietário original pare na propriedade antes. Se acontecer, o invasor paga o valor do aluguel ao proprietário e vai para a prisão com pena e fiança dobradas (seis rodadas ou $100).
Versão paraense: funciona do mesmo jeito, mas o proprietário pode combinar um preço com outro jogador para eliminar o invasor. Nesse caso, o invasor sai do jogo e suas propriedades são hipotecadas e o valor dividido entre o proprietário e o assassino de aluguel. Este até vai para a cadeia, mas sai na segunda rodada, com ou sem dobradinha nos dados, e sem pagar fiança.
Vocês, que não fazem mesmo nada da vida, tentem jogar com essa regra e me digam se funciona.
Livro do futuro
Está nas bancas (finalmente!) O Livro do Futuro, edição especial da Superinteressante. A proposta é interessante: as matérias fazem predições para o futuro de diversas áreas com base nas tendências atuais. Para fazer o contraponto a essas previsões alicerçadas em fatos, o pessoal da revista resolveu convidar algumas pessoas para escreverem crônicas que façam futurologia sem qualquer compromisso com a realidade. Entre essas pessoas, este que vos fala. Comprem a revista, pois, e leiam a crônica pessimista (e bem ruinzinha) que foi minha humilde contribuição.

