Sabe aquela sensação de ver um livro muito bom chegando ao final? Aquela tristezinha de saber que em breve vai ter que se despedir dos personagens que você tem acompanhado com tanta atenção, da cabana à beira do lago, do barco, do beco sujo? Então. É assim que eu me sinto, agora que percebo que o sentimento que alimentei por você todo esse tempo começa a evanescer-se. Foi uma excelente leitura — uma espécie de Magnolia dos sentimentos — mas estou nas últimas páginas. Tento reduzir o ritmo, ler uma página hoje, tomar um café, contar os azulejos, olhar para o pé, cortar as unhas, ficar jogando minha bolinha de borracha na parede, ler outra página amanhã, ir ao banco, experimentar um chapéu, cantar no karaokê… Mas eu sei muito bem que esta leitura está terminando. Muito breve fecharei o livro, soltarei um suspiro, olharei para o vazio por um tempo pensando no que acabo de ler, e então botarei o livro de volta na estante.
Seria diferente se você tivesse vindo para ler comigo. Então leríamos até o final com alegria, faríamos comentários engraçadinhos ou melancólicos, como é de nossa natureza. Ao final, começaríamos a adicionar ao livro novas frases, novos parágrafos, páginas, capítulos. Tenho aqui em algum lugar um calhamaço que surgiu assim, escrito por mim e por outra garota. E é muito engraçado, bem escrito, denso. Eu só não sei onde está porque minha biblioteca é uma bagunça. Seria bom escrever um novo com você, mas esse tipo de pensamento não é muito saudável. O futuro do pretérito a Deus pertenceria, você sabe.
Então guardo o livro. Ele ficará lá na estante, emitindo seu brilho de uma cor muito linda — a sua cor predileta, aquela — e será difícil não olhar para ele por algum tempo. Talvez um dia você entre aqui na minha biblioteca do seu jeito leve e tímido, e com a voz vacilante me peça o livro emprestado. Se acontecer, será a melhor releitura de minha vida. Se não acontecer, paciência: há muitos livros nessas estantes de madeira escura que vão até o teto. E eu sou mais voraz que os cupins.

Sempre que o tempo fecha em São Paulo, naquela ameaça prolongada de chuva, lembro-me de minha avó paterna, Dona Silvana, que nasceu e viveu quase toda a vida em Monte Santo, sertão baiano. Quando estava por aqui e via as nuvens crescerem, pintando todo o céu de chumbo, olhava fixo para cima e murmurava:
— Que tempo bonito…
A chuva era uma bênção, um milagre esperado com ansiedade por todos, e um pouco forçado pelas novenas e procissões dos católicos — meus avós, batistas, apenas lamentavam a ignorância do povo que se deixava explorar pelos padres.
Quando meu avô ligava lá para casa — Seu Júlio tinha que andar seis quilômetros até a cidade para usar o único telefone da região — o diálogo com meu pai seguia sempre a mesma fórmula, inevitável entre dois homens de poucas palavras. Então cresci ouvindo meu pai ao telefone:
— Bença, papai… Amém… E mamãe, como está?… Graças a Deus… E a chuva?
A chuva em Monte Santo era tema corrente em casa, e torcíamos e esperávamos por ela como se lá estivéssemos, mesmo que São Paulo estivesse sofrendo com os alagamentos de sempre.
Estava pensando em coisas assim quando vi que Ruy Goiaba botou Luiz Gonzaga em seu seleto panteão. Quando eu era criança, Gonzagão me impressionava menos pela música do que pelo fato de ainda fazer shows e gravar discos com a idade que tinha, fato sempre reforçado pelo meu pai:
— Esse aí tem a idade do meu pai, como é que ainda agüenta o acordeão? — Seu Lindauro falar algo mundano como "sanfona"? Nem pensar!
Com o tempo fui pegando gosto pelas canções do Lua, e hoje sou um conhecedor razoável de sua obra. Uma música, no entanto, me emociona acima das outras: Acauã, composta por ele e Zé Dantas. Tem nada a ver comigo: sou um jovem paulistano, e da Bahia onde estão minhas origens só conheço (mal) a aprazível região do sul. Ainda assim, a canção faz ressoar algo aqui dentro, algum atavismo insuspeitado, sei lá. Talvez seja porque a aridez, os espinhos e a insalubridade do sertão combinem tão bem com minha personalidade. Não há litoral em meu espírito.
Acauã
Acauã, acauã vive cantando,
durante o tempo do verão,
no silêncio da estrada aboiando,
chamando a seca pro sertão,
chamando a seca pro sertão.
Ai cauã, ai cauã
teu canto é penoso e faz medo
te cala acauã,
que é pra chuva voltar cedo.
Toda noite no sertão,
cantam joão-corta-pau,
a coruja, mãe da lua,
apeitique e o bacurau,
na alegria do inverno
canta sapo, jia e rã,
mas na tristeza da seca,
só se ouve acauã,
só se ouve acauã.

Como eu disse, estou lendo Viver Para Contar, livro autobiográfico de Gabriel Garcia Márquez, por influência de dois luminares das letras nacionais (Polzonoff, me deve um chope por essa puxada de saco. Adailton Sem-Vergonha, de você eu nem cobro mais nada). Estou lendo o livro do jeito como o próprio Gabo descreve sua leitura de A Ilha do Tesouro: devorando “… letra por letra com a ansiedade de saber o que acontecia na linha seguinte e ao mesmo tempo com a ansiedade de não saber para não perder o encanto”. Pois bem: hoje, na hora do almoço (eu vou almoçar sozinho para poder ler sossegado, e leio enquanto como. Fodam-se as boas maneiras) li um trecho que me fez rir muito, e depois me fez chorar um pouquinho escondido por me lembrar MUITO as histórias de minha avó. Ele conta que uma de suas irmãs recebeu o nome de Rita devido à devoção da família por Santa Rita de Cássia, baseada principalmente na paciência da santa com um marido sangue ruim:

Minha mãe nos contava que esse marido da futura santa chegou certa noite em casa enlouquecido pelo álcool um minuto depois de uma galinha ter plantado sua cagadela na mesa da sala de jantar. Sem tempo para limpar a toalha imaculada, a esposa conseguiu tapar a caca com um prato para evitar que o marido a visse, e apressou-se em distraí-lo com a pergunta habitual:
— O que você quer comer?
O homem soltou um rugido:
— Merda.
A esposa então levantou o prato e disse com santa doçura:
— Está servida.
A história conta que o próprio marido se convenceu na hora da santidade da esposa, e converteu-se à fé de Cristo.

Ah, Dona Donata! Queria que a senhora estivesse aqui para eu te contar essa. Seria uma boa para contar para o bisneto que vem aí.

Semana passada, quando minha irmã e meu cunhado me telefonaram para dar a notícia, ela foi enfática:
— Só não vai falar nada no blog, tá?
Aquiesci sem problema nenhum. Afinal este blog, ao contrário do que possa parecer, não é minha vida.
Bom, entáo vocês podem imaginar minha surpresa quando fui ler os comentários do último post e me deparei com minha irmã me cobrando a divulgação da notícia. Como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres. Enfim, é com alegria imensa que eu digo a vocês:

EU VOU SER TIO!!!

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
(Álvaro de Campos)

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
(Chico Buarque)

Aniversário é dia de se fazer balanço, então resolvi fazer o meu. Aí lembrei que não levo jeito pra essas coisas. Acho que vou pedir pro meu tio serralheiro fazer um pra mim.
Serralheiro!
Balanço!
Rá!
Ok, vamos tentar de novo.
Geralmente penso na morte no meu aniversário. Este ano foi estranho: Só agora me dei conta que não pensei nela. Não tive tempo. Família, velhos amigos, novos amigos, todo mundo falando tantas coisas lindas para mim, então acabou que só consegui pensar mesmo na vida e no quanto ela às vezes vale a pena.
É o terceiro aniversário seguido em que não tenho um deus ao qual agradecer por mais um ano de vida. Isso faz falta, demais até. O vazio aqui dentro é imenso. Mas meus amigos quase o preenchem. E, houvesse deus em minha vida, muito teria a agradecer a ele. Como não há, vou me dirigir a este moleque de braço quebrado aí.
Ô moleque. Temos convivido esses anos todos. Essa foto aí foi tirada há mais de 26 anos, mas me orgulho de dizer que não deixei que você mudasse muito. Você cresceu, é verdade. Engordou feito um porco, depois emagreceu até virar um esqueleto, aí engordou de novo até ficar parecendo uma porca prenha obesa. Não tinha cabelos nessa época, depois os cabelos cresceram, mas não duraram muito. Mas esse brilho inocente nos olhos e esse sorriso abobalhado continuam quase intactos, as pernas tortas são as mesmas, o jeitinho meio aviadado é idêntico. Eu não o traí, eu não o abandonei, eu sempre ouvi sua voz aqui dentro de mim. Nunca falei com você em tom condescendente, mas sim do jeito que se deve falar com toda criança: Sério, olhando no olho, sem mentiras. E você sempre foi absolutamente sincero e direto comigo, como bom menino que é. Tenho cuidado bem de você esses anos todos, e você de mim.
Houve momentos em que estivemos sozinhos, podendo contar apenas um com o outro, e sobrevivemos. Somos uma dupla e tanto.
Sei que o decepcionei algumas vezes, que o entristeci, que o fiz chorar. Peço desculpas. A convivência com gente grande é prejudicial demais, por isso tento evitá-la ao máximo. Mas há momentos em que é inevitável, e acabo influenciado pelo comportamento sujo dos adultos. Perdão, meu menino.
Vamos prosseguir nosso caminho juntos. Continuarei falando com você da mesma forma que você falava com o Buduque, seu amigo imaginário. Espero que você também continue falando comigo.
Feliz aniversário atrasado, moleque.

A toda hora rola uma história
e é preciso estar atento
a todo instante rola um movimento
que muda o rumo dos ventos
quem sabe remar não estranha
vem chegando a luz de um novo dia
o jeito é criar um outro samba
sem rasgar a velha fantasia.
Mulher, é isso aí
só existe a gente mesmo
levando um barco pesado
apesar do agitado mar
sem a lua e seu encanto
ao sabor da ventania
mesmo no gelo da noite
meu coração não esfria.
E quando o vendaval passar
acharemos uma ilha
e até quando Deus deixar, mulher
iremos tocando a vida.
(Paulinho da Viola)

Sim, meus caros, é verdade. Como vocês devem ter deduzido ao notarem que o fale com deus está redirecionado para uma página contendo a letra de uma canção de amor, nosso deus está apaixonado. Ele conheceu uma pessoa de olhos verdes aqui em São Paulo e agora está todo bobo, coitado. Veio até passar a Semana Santa com seu novo amor no sítio do Risadinha.
(Aliás, ele vomitou no banheiro do Risadinha; a inveja me corrói até agora).
Bom, mas isso é assunto particular dele. Aguardem, em breve ele deve falar melhor sobre este novo amor.

Risadinha
Passei um tempão adiando a inauguração desta série. Meus amigos são todos uns ciumentos, e eu ia ter que agüentar nego reclamando: “Por que começou com ele(a)?”. Mas hoje, depois de várias conversas agradáveis, percebi que começar com o Risadinha seria mais do que justo. Não, ele não é meu melhor amigo. Eu não tenho UM melhor amigo: Sâo todos igualmente bons. Amizade para mim é coisa séria. Eu começaria, portanto, pelos meus irmãos, que são as pessoas que eu mais amo no mundo. Mas já puxei demais o saco desses dois, então hoje é dia de Risadinha. Ou Leandro, como a mãe dele o apelida.
Em 1991 nos conhecemos, e foi ódio à primeira vista. Tanto eu quanto ele pensávamos que éramos muito diferentes, e que a única ligação entre nós seria uma aversão recíproca.
Quão enganados estávamos! Na verdade tudo o que tínhamos de semelhante era o que nos assustava, e não demorou muito para percebermos isso: No final daquele ano (cursávamos o primeiro ano do segundo grau), ouvi o Risadinha contar uma história engraçadíssima. Ele tinha deixado um Dadinho (aquele doce de amendoim em forma de cubo) na geladeira, e a avó, pensando que se tratava de caldo de carne, havia botado o dadinho no feijão. “Puta feijão horrível com gosto de paçoca!”, ele concluiu. Naquele momento percebi que estava diante de um irmão. E, como bons irmãos, fingíamos ódio porque admitir o quanto gostávamos um do outro era muito complicado.
A partir de então, todo aquele ódio transformou-se numa amizade sólida e duradoura. Hoje em dia, se eu chego sozinho a algum lugar, as pessoas logo estranham: “Ué, cadê o Risadinha?”. Porque eu sempre quero estar ao lado dele. Questão de status, sabe? É sempre bom andar com pessoas mais inteligentes que você, para parecer que você é inteligente também.
Nesses doze anos brigamos incontáveis vezes. Mas sempre voltamos à velha amizade de sempre. Porque somos irmãos, oras.
Ao contrário do que possam pensar, nunca nos entregamos a arrebatamentos de amizade. Primeiro porque somos ambos machos pra caralho, e esse negócio de sentimentalismo não pega bem. E depois porque não precisamos disso. Eu sei tudo o que ele pensa e sente, e vice-versa. Não há necessidade de explicação nem de reafirmação de amizade nem de qualquer outra coisa. Porque somos irmãos, caralho.