Como eu disse, eu tinha uma camisa de Sidney Magal quando criança. Ei-la:

A melhor irmã do mundo e eu

Essa foto é de 1979 ou 80, não lembro bem. Lembro que eu queria usar essa camisa todo dia, se pudesse. Porque era “do Sidney Magal”, claro. Mas acho que a gola das camisetas não passava pela minha moringa, também.

Dizem que as lembranças mais antigas que a gente tem não são de verdade: são memórias falsas, criadas a partir de histórias que os pais contam sobre nossa infância e que a gente acaba incorporando. Acho que é isso mesmo; até porque tenho uma tendência besta a incorporar histórias alheias. Alguém me conta um negócio que lhe aconteceu; tempos depois eu lembro com detalhes da história acontecendo comigo. Doença. Mas eu acredito que uma das minhas lembranças mais antigas seja de verdade. E por um motivo simples: não tinha ninguém da família presente para me contar o que aconteceu.
Foi há 32 anos. Vocês nem eram nascidos, provavelmente. Eu tinha três anos de idade e fui internado por causa de uma crise de gastrite e…
Merda. Escrevi um puta texto enorme aqui, só pra descobrir que já tinha contado essa história:

Não perguntem, não sei como eu fui ter gastrite aos três anos. Mas me lembro perfeitamente dos quatro dias que passei no hospital. Lembro de um médico que me impressionou por ser preto e por ter um cabelão black power (era 1978, a lama do Dilúvio ainda não havia secado). Lembro de ficar importunando as enfermeiras para me levarem pra casa, de argumentar com uma enfermeira que veio botar fraldas em mim na primeira noite (“Fralda? Eu não uso fralda. Quem usa fralda é criança”), e do constrangimento que foi me ver de fraldas minutos depois.
E lembro da hora do banho.
Ah, o banho! Eu ficava em pé na banheira e começava a dançar e cantar músicas do Sidney Magal, meu ídolo máximo então. Engrossava a voz e mandava:
Tenho
um mundo que é cor-de-rosa
de coisas maravilhosas
que tanto sonhavas ter.

As enfermeiras se acotovelavam na porta do banheiro, todas com cara de óun! Eu tinha meu charme.

Bom.
Anos depois, aporrinhei minha mãe para fazer uma camisa igual às do Sidney Magal. Era impossível, claro: a bicha usava umas mangas bufantes na época, umas coisas meio de cetim, abertas no peito. Minha mãe fez uma camisa social de seda e me falou que era igual a uma camisa do Magal. Eu acreditei, fiquei feliz da vida.
Hoje fui ver o Sidney Magal na Virada Cultural como presente de aniversário parar mim mesmo. Nada de mais: foi só sair do prédio; o show foi no fim da rua. Eu não costumo dançar nem nada em shows, fico quieto, parado. Mas arrisquei uns passos no show do Magal. Ele estava com um paletó todo brilhoso, coisa de Cauby Peixoto. Vou pedir pra minha mãe fazer um igual.

E aí que no sábado eu e Ana Cartola passamos na casa dos meus pais e fomos todos ao Ca’d’Oro para ver os lotes do leilão. “Eu não acredito que isso está acontecendo”, disse Seu Lindauro ao ver todos aqueles objetos que fizeram parte da vida dele amontoados por todo canto, com pedaços de papel informando o número de cada lote. “Parece um sonho.” Dona Ana, minha mãe, chorou ao ver os quadros. Dona Antonieta, esposa de Seu Fabrizio Guzzoni, era quem cuidava dos quadros. Minha mãe gostava de Dona Antonieta. Gostava da família toda, na verdade. “Deus dá dinheiro pro Seu Fabrizio”, ela me explicou uma vez, “e Seu Fabrizio dá dinheiro para o seu pai”. Eu imaginava o Seu Fabrizio saindo do escritório de Deus com aqueles sacos de dinheiro de desenho animado, dividindo tudo em pacotinhos e distribuindo aos funcionários.
Bom. Chegamos ao hotel, tinha fila. Pessoas esperavam sentadas em poltronas de couro dispostas de quatro em quatro em volta de mesas de madeira. Poltronas e mesas estavam à venda também. A espera era longa, então fomos olhar o lugar onde estavam expostos alguns dos quadros. Meu pai parou na frente de um deles e comentou:
— Esse quadro aqui tem uma história. Uma vez que o Figueiredo se hospedou aqui…
— Seu Lindauro, tá se escondendo da gente?

O quadro que não tinha uma história


Era um funcionário do hotel que chegou para interromper a históra. Os Guzzoni pediram a alguns funcionários que continuassem por lá até o fim do leilão. Meu pai o cumprimentou, nos apresentou, sumiu. Quando fui ver, ele já estava atrás do balcão da recepção. Dava informações aos visitantes e tudo, estava no ambiente dele. Outros funcionários chegaram para cumprimentá-lo. Anotei o lote do quadro que tinha a história do Figueiredo para dar um lance mais tarde. Só depois descobri que o quadro a que meu pai se referia não era aquele. A história foi assim: o presidente estava no hotel, faltou luz. Meu pai foi consertar o disjuntor, mas a imprensa estava ali por perto. Ele teve o cuidado de ficar de costas para as câmeras, mas mesmo assim apareceu na edição do Jornal Nacional daquela noite.
— Mas e o quadro, pai? O quadro apareceu também, você estava do lado do quadro, é isso?
— Não. Eu estava em frente ao quadro, vendo o disjuntor que caiu.
Levei um tempo para entender que ele estava falando do quadro de luz. Voltei para o lugar onde ele tinha começado a história e lá estava o quadro de luz na parede, logo acima da pintura de praia com coqueiros. Só meu pai é capaz de falar em quadro numa sala cheia de quadros e esperar que a gente entenda que ele está falando do quadro de luz. Eu já estava cansado dos quadros, ainda bem que chegou nossa vez de fazer o tour pelo hotel. “Vocês deram sorte, vão ser acompanhados pelo Fabrizio”, disse a recepcionista, referindo-se ao neto de Seu Guzzoni. “Ele é da família e tem esse sorriso lindo.” Ou ela estava muito a fim do cara ou achou que eu tinha cara de bicha.
Fabrizio nos acompanhou pelo restaurante, por alguns andares de apartamentos, passamos pela biblioteca. A biblioteca, meu pai me contou mais tarde, tinha importância estratégica para o hotel: quando um hóspede morria, levavam o corpo por dentro da biblioteca, que tinha uma saída para a rua Caio Prado. Assim se evitava o escândalo de um cadáver saindo pela entrada principal, na Rua Augusta — o que provavelmente não seria muito bom para os negócios. Uma vez uma mulher se jogou de uma janela. A camareira chamou meu pai quando a mulher ameaçava se jogar; quando ele chegou, era tarde. Um outro sujeito estava numa reunião. Foi ao banheiro e por lá ficou. Seu Lindauro ajudou a carregar o corpo.
“Se meu avô pudesse escolher um lugar pra assombrar, não ia escolher a casa dele”, comentou Fabrizio Neto enquanto passávamos pelo restaurante. “Ia escolher o hotel, tenho certeza”. Olhei em volta para ver se notava alguma manifestação sobrenatural. Se o fantasma estava por lá, achou melhor se fazer de besta. O pai do Fabrizio, Eugênio Guzzoni, morreu também. Era um bom sujeito. Minha mãe contou ao Fabrizio que meu pai estava trabalhando no dia em que minha irmã nasceu. Quando o Eugênio soube, botou ele pra correr. “A família primeiro, Lindauro.”
Andamos mais um pouco, anotei os números de lote dos produtos que me interessavam. Dei alguns lances, todos já foram superados. Vamos ver se até o final do leilão eu consigo arrematar alguma coisa.

*   *   *

Na volta para casa, meu pai me explicou a cronologia da família no Ca’d’Oro. O primeiro cidadão de Monte Santo a trabalhar para Fabrizio Guzzoni foi um amigo de meu avô chamado Ático Alves de Souza. O Ático começou como ajudante de garçom no primeiro restaurante Ca’d’Oro em 1953. Deve ter feito uma propaganda danada lá na Bahia, porque em 1956 meu avô, dois irmãos dele e um amigo da família vieram para São Paulo. Meu avô trabalhou um ano e meio no hotel. Valia a pena, mas ele tinha nove filhos para sustentar e não tinha como trazer todos para cá. Então voltou para a Bahia e a história acabaria por aí. Mas o filho mais velho resolveu vir para São Paulo no começo da década de 60, e foi logo trabalhar no Ca’d’Oro. Meu pai veio em 1963 e foi trabalhar numa padaria na Rego Freitas. Ficou só um mês no emprego. Meu tio comentou no hotel que havia outro membro da família morando em São Paulo. “Seu irmão tá morando aqui?”, comentou alguém. “Traz ele pra cá logo!”
Meu pai trabalhou um ano no Ca’d’Oro, até o irmão mais velho decidir voltar para Monte Santo. Ele foi junto, mas ficou pouco tempo: achou a cidade pequena demais, sem perspectivas e voltou para São Paulo. Tinha emprego garantido. Nos anos seguintes, os irmãos foram saindo de Monte Santo direto para a folha de pagamento do Ca’d’Oro. O Ático foi promovido a garçom, depois a maître. Hoje, aos 83 anos, ele é maître do Fasano.

Foi Dona Nilda quem cantou a bola no Twitter: o Grand Hotel Ca’d’Oro, que fechou em dezembro, está leiloando de tudo: móveis, utensílios, objetos de decoração, máquinas — tudo. Isso é meio triste para todo mundo em São Paulo, eu acho. O hotel tinha lá sua importância pra cidade.

Até o chafariz está no leilão.


Fabrizio Guzzoni, o fundador, vinha de uma família de Bergamo, norte da Itália, que estava no negócio de hotelaria desde o século XIX. O hotel teve sua primeira encarnação como restaurante em 1953 e virou hotel em 1956. Tanto o hotel quanto o restaurante viraram símbolos de tudo o que havia de sofisticado em São Paulo.  O Ca’d’Oro, parece, foi o primeiro cinco estrelas da cidade. Todo mundo se hospedava lá: o rei da Espanha, o presidente Figueiredo, o Raul Seixas.  Dez anos depois da inauguração do primeiro restaurante, um baiano de 19 anos chamado Lindauro entrou para a folha de pagamento de Fabrizio Guzzoni como faxineiro. Lindauro, vocês sabem, é meu pai.
Meu pai foi faxineiro, almoxarife, apontador de obras e não sei mais o quê. Foi por muitos anos gerente de manutenção, seu trabalho preferido até hoje. Foi também gerente de compras por algum tempo. Ganhava mais, mas não gostava do cargo. Pediu demissão, abriu uma floricultura, não deu muito certo. Voltou uns anos depois, a pedido de Fabrizio Guzzoni, para ser novamente gerente de manutenção. Trabalhou no hotel por quase 40 anos, com alguns intervalos. Quando eu e meus irmãos éramos crianças, meu pai levava a família para Itanhaém. Ficávamos hospedados na casa do Seu Guzzoni (ou Seu Fabrizio, como minha mãe preferia) na Praia do Sonho — na época em que a Praia do Sonho era chique.
Só aos catorze ou quinze anos de idade eu só fui conhecer Seu Guzzoni. Foi estranho ver de perto aquele homem de que meu pai tanto falava; aquele homem que tinha para mim uma imagem de rico honesto, trabalhador e que tinha confiança absoluta no meu pai e em quem ele recomendasse.  Acho que pelo menos seis dos oito irmãos do meu pai trabalharam no Ca’d’Oro. Dois irmãos da minha mãe também trabalharam lá, e até meu avô paterno teve seu período de funcionário dos Guzzoni. Um tio que mora em Itanhaém era o caseiro na Praia do Sonho.

*   *   *

Em 2005, Seu Guzzoni chamou meu tio Zé (José Augusto, mas só meu pai o chama assim) à sua mansão no Morumbi. Esse meu tio carrega os genes artísticos da família da minha mãe: entalha coisas em madeira, pinta, canta, monta geringonças eletrônicas, o diabo. Pois Seu Guzzoni o chamou lá para encomendar um serviço. Entregou a ele uma tábua de madeira de lei. A madeira, ele explicou, era usada como tábua de carne ou para cortar limão para as caipirinhas nos churrascos que servia aos amigos — no tempo em que tinha amigos. Pediu ao meu tio que envernizasse a tábua e entalhasse nela a inscrição La Rialta em letras góticas.
O Zé voltou dias depois com a tábua pronta e Seu Guzzoni o convidou para entrar. Ele nunca tinha entrado no escritório do velho. Ficou impressionado com os móveis, as pinturas, os tapetes e que-sei-eu. Seu Guzzoni falou da vida, da recente viuvez. Meu tio conta que ficou triste ao vê-lo daquele jeito: riquíssimo, mas sozinho no mundo. Depois de um tempo conversando, o velho pagou o combinado e pediu um último favor: que ele dependurasse a tábua na entrada da mansão. Meu tio pegou uma corda, uma escada, e ajustou a tábua acima da porta de acordo com as instruções do dono da casa (“Mais pra lá… Mais pra cá… Tá bom aí”). Desceu da escada e reparou que o velho olhava fixamente para a tábua, emocionado.
— Seu Guzzoni… O que é “La Rialta”?
— Era o nome da casa onde eu nasci, lá na Itália.
Fabrizio Guzzoni morreu duas semanas depois.

*   *   *

Os cinzeiros do Ca'd'Oro: Raul Seixas mijou num desses


Mesmo ano passado, aposentado já há alguns anos, meu pai ainda pensava em voltar ao Ca’d’Oro. “Bom mesmo seria se o hotel me chamasse”, ele falava às vezes. Então, como eu dizia, esse leilão das coisas do hotel deve ser triste para todo mundo em São Paulo, mas é bem triste para mim. Parece que pegaram uma foto minha pelado aos dois anos de idade e botaram na internet: não chega a ser um escândalo, mas incomoda um pouco. Todo mundo sabe da importância do Ca’d’Oro, mas só lá em casa sabemos da vez que o Raul Seixas (“umas perninha fiiiina…”) passou uma manhã inteira encolhido na beira da piscina, para se levantar à tarde, ir até o hall de entrada e mijar num daqueles cinzeiros de saguão de hotel. Outra exclusiva: meu pai era gerente de compras quando o Luciano Pavarotti veio para o Brasil e se hospedou no hotel. O Pavarotti inventou que queria cozinhar no quarto, e Seu Lindauro que teve de correr atrás de comprar o que ele precisava — fogão, panelas de ferro, dúzias de tomates.
Teve uma vez que uns africanos entraram no elevador e o sujeito que estava com meu pai comentou:
— Ó o tamanho desses negão. Um feladaputa desse pega leão na unha, Lindauro.
Quando eles desceram, meu pai explicou ao cara que eram angolanos, falavam português e tinham entendido tudo.
Em outra ocasião, Seu Guzzoni apareceu na manutenção com o zíper da calça aberto.
— Ô, Seu Guzzoni — avisou um funcionário mais gaiato. — O passarinho vai voar.
— Fica tranqüilo, meu filho, que esse passarinho aqui não voa faz tempo.
Tem também a história de um funcionário do hotel que enfiava um dente de alho no cu para ter febre e ir pra casa mais cedo.

*   *   *

Contei para minha mãe o negócio do leilão, para minha irmã, para o Zé. Todo mundo ficou triste. Meu pai ficou mais ainda, é claro. Sábado nós vamos até o hotel olhar as peças que estão no leilão e ver se tem alguma coisa que valha a pena. Quero pelo menos comprar uma lembrança pro meu pai, algo que lembre o lugar onde ele passou a maior parte do tempo, durante a maior parte da vida, para que eu e meus irmãos pudéssemos ser alguma coisa.

Igor Augusto está prestes a se tornar o melhor aluno da escola. Ele tem doze anos e é meu primo (sim, nomes compostos são a especialidade da família). O Igor vai bem em tudo, especialmente em matemática; minha tia está orgulhosa. E aí começam as comparações, porque eu era assim também na idade dele. Não estudava, não fazia lição de casa, mas sempre tirava notas boas. Minha mãe voltava orgulhosa das reuniões, o que me constrangia um pouco — só um pouco. Sei como o Igor se sente. Em todo o primeiro grau (não sei o nome disso hoje, acho que é ensino básico) eu nunca fui parar na diretoria e só tirei uma nota vermelha. Eu não era bem um nerd: só gostava de ficar na minha, tinha lá meus amigos, raramente me metia em brigas. Me dava bem com todo mundo, não puxava saco de professor e não dedurava ninguém. Minha passagem pela escola foi tranqüila: nunca peguei uma recuperação e nunca fui odiado por isso.
Até hoje sou um cara pacato. E até hoje eu me espanto com as pessoas intensas, selvagens. Esse espanto quase sempre tem um sentido negativo, aquela sensação de ver um bêbado feliz mijando nas calças. Eu penso: “uau, como pode?”, mas não invejo o cara. Faz um tempo uma mulher me disse que conviveu muito tempo com o Jorge Mautner e que ele era muito “visceral”. Peguei nojo do Jorge Mautner. Admirar maluco é coisa muito rara pra mim.
Um maluco que eu admirava muito aos 10 anos era o Marquinhos. Gente boa, amigo de todo mundo, sentava cada dia num lugar diferente da sala de aula. Um dia a professora chamou ele de palhaço. Ele agradeceu. “Palhaço é uma profissão muito digna, professora.” O tipo da coisa que eu gostaria de ter coragem de dizer. Um dia ele se encheu. A professora disse que ele não ia ser ninguém da vida. Ele disse “ah, é?”, jogou a mochila pela janela e pulou atrás. Nós todos corremos para a janela. Ele pegou a mochila, olhou para cima, acenou para nós e nunca mais voltou à escola.
livro_danilo_pioralunoLendo o manual Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, do Danilo Gentili, lembrei do Marquinhos. O Danilo também pulou da janela da sala de aula. Só que a sala dele não devia ser no primeiro andar como a nossa, porque o jacu quebrou as duas pernas na queda. O livro é um manual que ensina a ser tudo o que eu não fui na escola. O grande mérito dele é falar com a molecada de igual para igual. Quando Danilo ensina o leitor a fazer uma arma de três canos a partir de um tubo de PVC não é um adulto contando suas peraltices: é um moleque terrorista compartilhando informações com outros moleques terroristas. Conheci o Danilo depois de adulto; é um sujeito legal. Deve ter sido um moleque legal também.
No dia do lançamento, pensei bem e comprei dois exemplares: um para mim, outro para o Igor. Ele não precisa ser tão bonzinho assim.

Passou a Vanusa, passou o Sete de Setembro, inevitável ficar com o Hino Nacional na cabeça. Aí lembrei de quando cantava o hino na escola.
As crianças ainda cantam o Hino Nacional na escola? Quando eu era moleque, tinha que cantar. E todo ano a professora explicava que era “braço forte” e não “braços fortes”, que era “sonho intenso” na primeira parte e “amor eterno” na segunda (porque, dizia ela, primeiro a gente sonha e depois a gente ama). Era uma chateação, todo mundo cantava desanimado e as explicações adiantavam nada: saía “braços fortes” mesmo, “amonho interno”, um horror.
Isso começou a mudar acho que em 1986, 87, por aí. Era uma escola municipal e lembro que o projeto veio na gestão do Jânio Quadros, que se elegeu prefeito de São Paulo em 85. Era assim: todos os alunos da escola iam se reunir no pátio uma vez por semana para cantar o Hino Nacional. Bom, talvez não fossem toooooodos os alunos. Acho que eram todos os alunos de cada período, ou de cada série, sei lá. Bom, um monte de aluno no pátio pra cantar o Hino Nacional e — aí vem o truque para tornar o ritual mais atraente — uma música popular escolhida pelos próprios alunos.
Não sei de quem partiu essa idéia, mas funcionou. Passamos umas duas semanas para escolher qual seria a nossa música. Uma briga danada entre as salas, não chegávamos a um acordo. Até que uma alma iluminada sugeriu uma música que foi aprovada por aclamação quase unânime (eu preferia que fosse alguma coisa do Raul Seixas, mas nem falei nada).
E foi assim que, durante alguns meses de 1987 (86?), os alunos da Escola Municipal de Primeiro Grau Amadeu Amaral pegaram gosto pelo Hino Nacional. Toda quarta-feira íamos para o pátio e cantávamos o hino com fervor patriótico. Entã0 chegava o “Pátria amada, Brasil”, os acordes finais, e emendávamos: “Fui num pagode na casa do gago…”

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Bk7bhlsciPk&hl=pt-br&fs=1&&w=425&h=344]

A música não é do Bezerra da Silva. É de um sujeito chamado Gracia do Salgueiro

Metrô, passa de meia-noite. O sujeito entrou no vagão empunhando um violão folk e com uma gaita presa ao pescoço. Apresentou-se aos ilustres passageiros e começou a tocar um blues. Ninguém deu muita atenção. Um preto que viajava em pé o chamou para fazer um pedido. “Pronto”, pensei eu, o mulato racista, “lá vem pagode”. Qual nada! O cara tinha pedido Legião Urbana, que é o que as pessoas pedem quando há um violão por perto. Foi bonito de se ver: o cara começou a tocar Será. Uma moça começou a cantar junto, dois bêbados se juntaram a ela, eu somei minha voz ao coro, e logo o vagão todo estava cantando. Ao final, todos aplaudiram. O músico mambembe, espantado com a reação, esqueceu-se de passar o chapéu e saiu do trem agradecendo.
No mesmo instante, me lembrei de quando Renato Russo morreu. No domingo seguinte, os amigos vieram aqui em casa (foi numa época distante, quando os amigos me visitavam, quando conversávamos sobre o futuro. Agora o futuro chegou, e é uma bela porcaria). Estávamos conversando na sala, falando as bobagens de sempre e assistindo TV. De repente a TV e a luz da sala se apagam: queda de energia. Fomos procurar velas, acendemos algumas e continuamos a conversa. Peguei o violão e comecei a tocar alguma coisa da Legião Urbana. Terminei a música, e um deles pediu outra. E depois outra. Só Legião Urbana. Cantamos até a Eletropaulo resolver o problema, à luz de velas, como num ritual em memória de Renato Russo, cujas letras haviam embalado nossa adolescência recém-terminada.
Hoje há uma tendência a se subestimar as músicas da Legião Urbana, tidas como infantis, bobas, cheias de lugares-comuns. Isso pode até ser verdade, sei lá. Eu sei que o adolescente ingênuo que eu era então ouvia aquelas letras e só conseguia pensar, “Puxa, eu não estou sozinho”. O que era ingenuidade demais até para mim: é claro que estou sozinho, todos estamos.