Muito bem, todo mundo já falou até demais da filha da Elis Regina; minha vez. A cantora recém-surgida do meio de um turbilhão de marketing raramente visto despertou todo tipo de reação: há quem a ame incondicionalmente, há quem tenha raiva dela até pela superexposição (da qual é mais vítima do que beneficiária), há quem, como eu, seja indiferente a ela.
Compreensível. O que eu não entendo é essa gente que acha que o fato de Maria Rita ter a voz idêntica à da mãe seja um fator a ser criticado. Oras, a voz do meu irmão é igualzinha à do meu pai, nem por isso a família o critica. Genética é um troço muito forte. Além do mais, melhor uma cantora com a voz da Elis Regina do que várias que cantam como a Leila Pinheiro ou a Simone.
Então por que eu permaneço indiferente aos encantos de Maria Rita? Eis a heresia: nunca fui muito fã da Elis. Gosto dela, é claro, grande cantora. Mas não me fala à alma, então sou muito mais a Maria Bethânia, por exemplo. Além disso, o tal marketing me incomoda um pouco. Fico preocupado com essa moça tão exposta o tempo todo, penso nas conseqüências que isso pode ter. E são muitas: desde um ostracismo precoce — e lamentável, tratando-se de um indiscutível talento — até repetir o fim trágico da mãe. Quem vende a alma precisa entregar a mercadoria mais cedo ou mais tarde.
Seja como for, para mim a maior cantora brasileira ainda é o Ney Matogrosso.
Categoria: Música
Numa sala de reboco
Todo tempo quanto houver
Pra mim é pouco
Pra dançar com meu benzinho
Numa sala de reboco
Enquanto o fole
Tá fungando, tá gemendo
Vou dançando e vou dizendo
Meu sofrer pra ela só
E ninguém nota
Que eu tô lhe conversando
Nosso amor vai aumentando
E pra que coisa mais melhor?
Só fico triste quando o dia amanhece
Ai, meu Deus se eu pudesse
Acabar a separação
Pra nós viver
Igualado a sanguessuga
E nosso amor pede mais fuga
Do que essa que nos dão.
(Luiz Gonzaga / José Marcolino)
Já dizia Raul Seixas, comparando Luiz Gonzaga com Elvis Presley: “É a mesma coisa! É a mesma voz, a mesma malícia!”. E pra que coisa mais melhor?
Dicazinha
REM cantando One, sucesso do U2. Todo mundo conhece essa gravação, eu sei. Mas vai que alguém tá por aí fazendo nada e nem conhecia? No juízo final Deus (uia!) vai me perguntar o que eu fiz de bom, e eu terei pelo menos esta boa ação para contar antes de ser despachado para o inferno pela cordinha da descarga divina.
Acauã
Sempre que o tempo fecha em São Paulo, naquela ameaça prolongada de chuva, lembro-me de minha avó paterna, Dona Silvana, que nasceu e viveu quase toda a vida em Monte Santo, sertão baiano. Quando estava por aqui e via as nuvens crescerem, pintando todo o céu de chumbo, olhava fixo para cima e murmurava:
— Que tempo bonito…
A chuva era uma bênção, um milagre esperado com ansiedade por todos, e um pouco forçado pelas novenas e procissões dos católicos — meus avós, batistas, apenas lamentavam a ignorância do povo que se deixava explorar pelos padres.
Quando meu avô ligava lá para casa — Seu Júlio tinha que andar seis quilômetros até a cidade para usar o único telefone da região — o diálogo com meu pai seguia sempre a mesma fórmula, inevitável entre dois homens de poucas palavras. Então cresci ouvindo meu pai ao telefone:
— Bença, papai… Amém… E mamãe, como está?… Graças a Deus… E a chuva?
A chuva em Monte Santo era tema corrente em casa, e torcíamos e esperávamos por ela como se lá estivéssemos, mesmo que São Paulo estivesse sofrendo com os alagamentos de sempre.
Estava pensando em coisas assim quando vi que Ruy Goiaba botou Luiz Gonzaga em seu seleto panteão. Quando eu era criança, Gonzagão me impressionava menos pela música do que pelo fato de ainda fazer shows e gravar discos com a idade que tinha, fato sempre reforçado pelo meu pai:
— Esse aí tem a idade do meu pai, como é que ainda agüenta o acordeão? — Seu Lindauro falar algo mundano como "sanfona"? Nem pensar!
Com o tempo fui pegando gosto pelas canções do Lua, e hoje sou um conhecedor razoável de sua obra. Uma música, no entanto, me emociona acima das outras: Acauã, composta por ele e Zé Dantas. Tem nada a ver comigo: sou um jovem paulistano, e da Bahia onde estão minhas origens só conheço (mal) a aprazível região do sul. Ainda assim, a canção faz ressoar algo aqui dentro, algum atavismo insuspeitado, sei lá. Talvez seja porque a aridez, os espinhos e a insalubridade do sertão combinem tão bem com minha personalidade. Não há litoral em meu espírito.
Acauã
Acauã, acauã vive cantando,
durante o tempo do verão,
no silêncio da estrada aboiando,
chamando a seca pro sertão,
chamando a seca pro sertão.
Ai cauã, ai cauã
teu canto é penoso e faz medo
te cala acauã,
que é pra chuva voltar cedo.
Toda noite no sertão,
cantam joão-corta-pau,
a coruja, mãe da lua,
apeitique e o bacurau,
na alegria do inverno
canta sapo, jia e rã,
mas na tristeza da seca,
só se ouve acauã,
só se ouve acauã.
Samba no Bixiga
Domingo nóis fumo num samba no Bixiga
Na Rua Major, na casa do Nicola
Á mezza notte o’clock saiu uma baita duma briga
Era só pizza que avoava junto com as brajola
Nóis era estranho no lugar
E não quisemo se meter
Não fumo lá pra brigar
Nóis fumo lá pra comer
Na hora H se enfiemo debaixo da mesa
Fiquemo ali de beleza, vendo o Nicola brigar
Dali a pouco escuitemo a patrulha chegar
E o sargento Oliveira falar:
“Num tem importância, vou chamar duas ambulância!”
Calma pessoar! A situação aqui tá muito cínica!
Os mais pior vai pras Clínica
(Adoniran Barbosa)
Para um vacilão
Tá bom
Senta aqui que hoje eu quero te falar
Não tem mistério, não, é só teu coração
Que não te deixa amar
Você precisa reagir. Não se entregar assim…
– Como quem nada quer?
Não há mulher, irmão, que goste dessa vida
Ela não quer viver as coisas por você
Me diz, cadê você aí?
E aí não há sequer um par pra dividir.
Senta aqui, espera que eu não terminei
Pra onde é que você foi que eu não te vejo mais?
Não há ninguém capaz de ser isso que você quer
– Vencer a luta vã e ser o campeão!
Pois se é no não que se descobre de verdade
o que te sobra além das coisas casuais
Me diz se assim está em paz
achando que sofrer é amar demais.
(Marcelo Camelo)
A infiltração
Fui ontem à Funhouse para a comemoração do aniversário da Bárbara. Não conhecia ainda o lugar, apesar das constantes intimações da Clarah, e gostei muito. Mas um fato me deixou meio assustado. A banda de Diego Medina subiu ao palco e eu imediatamente reconheci dois de seus componentes: o baixista e o pseudo-tecladista. O baixista eu demorei a identificar como sendo Pedro Sá, que toca com Caetano Veloso. E o pseudo-tecladista, que ficava de braços cruzados numa pose pretensiosa quando seus serviços não eram requeridos, e vez por outra enfiava o dedo numa tecla aleatória era ninguém menos que Moreno Veloso, o Filho do Homem.
Quando escrevi sobre o VMB deste ano, comentei sobre a sombra de Caetano Veloso pairando há quase 40 anos sobre a música brasileira, e sobre a mania do baiano de dar sua bênção a quem não a pede. Sei não, sei não… Aparecer ele mesmo na Funhouse seria dar muita bandeira, então acho que ele infiltrou dois agentes. Já o vimos saudando o Los Hermanos, em breve teremos declarações do mais ilustre filho de Dona Canô louvando o cenário alternativo. Aguardem.
A canção de Moisés
(Deuteronômio 32:1-44)
Depois de ter ensaiado a música que deus dera a ele, Moisés chamou Josué e subiram ambos ao trio elétrico para apresentarem seu número.
— P-povo de I-Israel! Eu e o c-compadre Jo-Josué v-vamos c-cantar a-agora uma c-canção que f-fala do f-futuro que os e-espera c-caso de-desobedeçam a l-lei de d-deus. O-ouçam com a-atenção e m-meditem! P-pronto, Jo-Josué?
— Mas eu nem conheço a música, seu Moisés!
— P-precisa c-conhecer n-não. F-fala umas b-bobagens no m-meio e tá b-beleza. V-vamos lá.
Moisés chamou ao palco duas vagabundas moabitas e um negão etíope sarado para fazerem a coreografia da música e começou a cantar. Ouçam e cantem junto:
Moisés & Josué – A Dança de Israel
Ô Israel
Preste atenção
Eu vou falar um montão
E vocês vão ter que escutar.
Porque Javé
Pega no pé
Cês sabem como é
Então vamos a deus adorar.
ADORA, ADORA!
Adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora
Já adorei!
Adora, adora, adora,
adora, adora, adora, adora,
adora, adora,
Vê se adora de uma vez.
Já adorou o Javezinho?
Já adorei.
Já adorou o Baalzinho?
Já adorei.
Já adorou o Moloquinho?
Já adorei.
Já adorou o Dagonzinho?
Já adorei.
Agora pare! [SACANAAAAAAGEM!]
Israel tomou no cu.
Agora chora!
Israel já foi pro saco.
Israel pecou
Pecou todo dia
Agora já se acabou
Acabou sua alegria.
Empolgados com o ritmo da música, os israelitas nem atentaram para a mensagem tenebrosa que a letra continha. E mesmo que prestassem mais atenção, duvido que se importassem muito: estavam empolgados por estarem tão próximos da conclusão de sua jornada de quarenta anos.
Bomba
Sen-sual
o movimento é sensual
Sen-sual
o movimento é bem sexy
Se-xy
o movimento é bem sexy
Se-xy
já tá chegando o Bragaboys com essa dança que é uma…
Booooom-ba
para dançar isso aqui é
Booooom-ba
Pra balançar isso aqui é
Booooom-ba
Para mexer isso aqui é
Booooom-ba
E a mulherada se joga assim
Assim, assim, assim todo mundo
Uma mão vai na cabeça
Uma mão vai na cabeça,
o movimento é sexy
o movimento é sexy
Bota a mão nessa cintura
Bota a mão nessa cintura
O movimento é sexy
O movimento é sexy
E agora vamos começar
Devagarinho até embaixo,
embaixo, embaixo
Devagarinho até em cima,
em cima, em cima
Devagarinho até embaixo,
embaixo, embaixo
Devagarinho até em cima,
em cima, em cima
Sen-sual
o movimento é sensual
Sen-sual
o movimento é bem sexy
Se-xy
o movimento é bem sexy
Sexy,
já tá chegando o Bragaboys com essa dança que é uma…
Booooom-ba
para dançar isso aqui é
Booooom-ba
Pra balançar isso aqui é
Booooom-ba
E a mulherada se joga
Booooom-ba
E os marmanjos dançando é
Booooom-ba
Tudo que a rádio já toca é
Booooom-ba
E na boite já rola
Booooom-ba
Toda galera já dança
Booooom-ba
Por isso pega na cintura e acaba
acaba acaba acaba acaba logo
E acaba, acaba, acaba acaba, acaba logo
E acaba acaba acaba acaba acaba logo
(Bragaboys)

Para Fer
Futuros amantes
Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
(Chico Buarque)
