Eu só queria que os crentes que chegam aqui no blog babando o fogo do inferno e brandindo a Bíblia me vissem agora. Estou em casa, de bobeira, ouvindo música de igreja: o disco Se eu fosse contar…, gravado em 1968 por um conjunto chamado Vencedores Por Cristo.

Se eu fosse contar

Clique na foto para baixar

Não estranhem: eu cresci na Igreja Batista. Aos 18 anos, eu tocava baixo na igreja e ouvia esse disco o tempo todo, sonhando em um dia tocar como o baixista do Vencedores. O tempo passou, eu saí da igreja, depois virei ateu. Mas música de igreja pode ser um negócio muito bonito, e esse disco, de 1968, é o ápice dessa beleza. Além do mais, me faz lembrar uma época bem legal (e muito magra — eu pesava 61 quilos) de minha vida. Cliquem na fotinha para baixar.

O inferno começou na noite da última sexta-feira.
Eu moro no terceiro andar de um prédio da Vieira de Carvalho, reduto gay no centro de São Paulo. Não me importo com os veados — são tranqüilos, engraçados e não mexem com minha mulé. Mas na sexta-feira eu bem queria matar o pederasta desgraçado que parou o carro sob minha janela com o som num volume absurdo. A música que ele (e todo mundo) ouvia:
Solteira, sim
Sozinha, nunca
Sou Garota Melancia
E rebolo a minha bun-da!

Desde então a desgraça da música não sai da minha cabeça. Para piorar, fico pensando no pai de Andressa Soares, a Mulher Melancia. Procurei a música no YouTube; encontrei um trecho do programa da Luciana Gimenez. A Melancia dançava e esfregava a bunda na lente da câmera. Imaginem o desgosto do velho ao ver a filha na TV, cantando isso e rebolando a bunda nas quarenta e duas polegadas da tela de LCD (que ele só tem porque a filha rebola a bunda na TV).
Só matando.

A tal de Ticketmaster se vende como prestadora de um serviço que facilita a vida das pessoas. À primeira vista, até parece verdade: antigamente, você precisava ir até o local do espetáculo ou evento que queria assistir, enfrentando trânsito e filas para conseguir seus ingressos. Agora basta entrar em um site, ou telefonar, e rapidamente você compra os ingressos, que serão entregues no conforto de seu lar. Lindo, não? Pois é.
Meu ódio pela empresa começou há alguns anos. Queria assistir a um show com venda exclusiva pelo site. Geek convicto que sou, achei o máximo: resolver problemas online é a grande alegria de minha vida. Comecei a me irritar quando vi o termo “taxa de conveniência”. Não se tratava de frete, taxa de entrega, nada: além do valor extorsivo do ingresso e do dinheiro extra pago para que ele fosse entregue em minha casa, ainda precisava pagar mais essa taxa inexplicável, conveniente apenas para os atravessadores da Ticketmaster. Tudo bem, não havia outro jeito, concordei com o pagamento. Depois, lendo as regras do serviço prestado, outra surpresa: o ingresso só seria entregue a mim ou a uma pessoa especificada no momento do cadastro, mediante apresentação de documento de identidade e fatura do cartão de crédito. Para quê, meu Deus? Concordei, passei raiva, recebi meu ingresso e, se bem me lembro, o show não valeu o sacrifício.
Desde então, tenho me recusado a utilizar os serviços dessa empresinha safada. Compro meus ingressos na bilheteria ou nos postos autorizados, desprezando internet e telefone, por mais que isso vá contra minha natureza. Mas eis que anunciam show de João Gilberto. Bom, vocês sabem (ou deveriam saber) de minha idolatria por João Gilberto. João é Deus, João é tudo. A venda dos ingressos ia começar hoje pela manhã, então preparei uma seqüência de planos:

  1. Entrar no site logo cedo para comprar os ingressos
  2. Se não desse certo, comprar por telefone
  3. Se não funcionasse, pegar o carro, estacionar na Fnac (que fica do lado do trabalho) e comprar os ingressos por lá
  4. Se não conseguisse, passar a manhã tentando comprar pelo site e por telefone
  5. Se desse errado, ir até o local do show (Ibirapuera) na hora do almoço e comprar os ingressos na bilheteria
  6. Se isso também falhasse, voltar ao item 4
  7. Se nem isso desse certo, sentar e chorar

Eu lhes digo que deveria ter ido logo ao item 7, pelo menos pouparia energia. De manhã, tentei fazer a compra pelo site, que travava por excesso de tráfego. O número de telefone estava constantemente ocupado. Na Fnac, me informaram que desta vez a bilheteria deles não era posto autorizado. No trabalho, fiquei tentando no site e pelo telefone. Quando consegui entrar na página de compra dos ingressos, fui recompensado pela mensagem “Consulte disponibilidade em outros canais”. O plural alimentou um pouco minhas esperanças, mas durou pouco: liguei para a bilheteria do Auditório Ibirapuera e me informaram que não venderiam os ingressos por lá. Ou seja, os tais “outros canais” resumiam-se a:

  1. Telefone
  2. Sentar e chorar

Então fiquei ligando, ligando, ligando. Depois de muito tempo, consegui ser atendido. Uma gravação. Tecle isso, tecle aquilo. Outra gravação. “Todo mundo tá ocupado, güentaí”. Musiquinha. “Digite o número de seu cartão de crédito”. Oba, agora vai. “Güenta mais um pouco, trouxa”. Musiquinha. Musiquinha. Musiquinha. Depois de uns vinte minutos, uma puta qualquer me atendeu só para dizer que os ingressos (de 30 e 360 reais) para os dois dias estavam esgotados.
Vejam que maravilha: os caras monopolizam a venda de ingressos mas não têm infra-estrutura para atender todo mundo. É claro que eu podia ter começado a tentar de madrugada, ou ficado dependurado no telefone, ignorando o trabalho. Mas o negócio é que eu nunca tive que sacrificar meu sono nem arriscar meu emprego para ver um show. Vi João ao vivo diversas vezes, queria ver de novo, não deu. Que se fodam os atravessadores. Em breve eles serão desnecessários. Todo mundo tem telefone celular, é mera questão de tempo para os organizadores de espetáculos perceberem que não precisam de uma empresa sem-vergonha como essa para fazer seu negócio: o nego paga com o celular, recebe o ingresso no celular, entra na casa de espetáculos usando o celular. Ou um cartão com chip. Ou biometria: impressão digital, íris, pregas do cu. A Ticketmaster é como o fax, já nasceu obsoleta. Vai falir logo e eu vou rir bastante.
E você, João?

Bléeeeeeeeeee

Bléeeeeeeeeee


É isso aí.

Todo mundo se lembra do primeiro dia de escola. Eu, esquisito que sou, lembro melhor meu primeiro dia de aula na segunda série. Naquele chuvoso fevereiro de 1983 (não riam!), lembro-me de olhar para o lado, para a fila da primeira série, e pensar: “Que pequenos!”. Eu acabara de sair da primeira série, era difícil acreditar que tão pouco tempo me separava daqueles anões. Quando se tem oito anos, o mundo se divide em três tipos de pessoa: as que apanhariam de você, as que lhe bateriam e seus amigos. Eu olhava — com um olhar superior e condescendente — para aqueles garotos mofinos e calculava que poderia bater em até dois deles, se a oportunidade e o motivo surgissem.
Hoje percebo que a vida do homem é um constante desprezar da geração anterior. Com o tempo, vamos nos acostumando a conviver com quem é um ou dois anos mais jovem, mas sempre há uma geração que consideramos ridícula. Na adolescência, nos envergonhamos do que fazíamos na infância. Aos vinte, olhamos com horror os bandos de adolescentes. Já estamos na faculdade, sabemos de tudo, temos namorada e emprego. Agora, aos trinta anos, certas passagens da casa dos vinte me parecem embaraçosas. E, claro, agora eu sou homem feito: vou me casar, aluguei um apartamento, tenho uma carreira. Lá no fundo, porém, a verdade é que invejo aquele Marco Aurélio de vinte e poucos anos, e me apavoro com a constatação de que ele está morto.
Mais uma diferença entre homens e mulheres: elas amadurecem com o tempo, nós apenas fingimos amadurecer. Imbuídos desse papel, achamos que ser homem é olhar para os mais jovens como um menino de segunda série olha para seus colegas da primeira. Penso em Daniela, que é minha amiga há doze anos. Ela amadureceu muito de lá para cá: aprendeu, aperfeiçoou-se, tornou-se uma pessoa melhor. Então olho para mim e vejo que continuo o mesmo. Comum a nós dois só a queda dos cabelos, só que os dela voltaram a crescer.
Pensando bem, é triste. Assim vamos vivendo, sempre a olhar com desdém para a geração anterior e sendo tratados como crianças pelos homens mais velhos. Até que chega a hora em que nos damos conta da presepada toda, concluímos que homem nenhum amadurece mesmo, e finalmente somos livres para ser crianças novamente, sem máscaras.
Mas aí é tarde demais.
_________________
Eu pensei nesse negócio todo ao ver esse vídeo:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Ey64bKA2mKA&hl=en&w=425&h=355]

Notem como Paul McCartney é cruel ao arremedar sua versão de apenas cinco anos atrás. Agora ele tem barba, é um homem de quase trinta anos, está rico e famoso. Tem barba, pelamordedeus! Ele ri, mas o riso não é autêntico: é o desespero de saber que o tempo não volta, que os amigos que gravaram Help! com ele já não são mais tão amigos, que o grupo está se desfazendo. Se John Lennon não estivesse tão chapado de heroína, era capaz de dar-lhe um safanão.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=9ibX3TejlZE&hl=en&w=425&h=355]

Lembro-me de ter visto um especial dos Beatles em 1984, e de ter ficado besta ao saber que Paul McCartney fizera parte da banda. Eu era um fã recente de McCartney por conta do vídeo de Say, Say, Say, em que ele contracenava com Michael Jackson.

veja_johnlennon.gifAté então, eu pensava que bandas de rock tinham obrigatoriamente o formato de um líder mais um bando de músicos, e para mim o líder dos Beatles tinha sido John Lennon. Lennon era uma imagem na capa de uma Veja de 1980 que meu tio guardava com carinho. Eu já havia lido a matéria sobre a morte dele, e ficava chocado sempre que pensava no absurdo da coisa toda, assassinado por um fã. Só anos mais tarde, ao saber que Marvin Gaye fora morto pelo próprio pai, eu voltaria a experimentar uma sensação parecida.
Pois bem, John Lennon causara em mim uma forte impressão, e eu era um fã incondicional de Michael Jackson (e quem não era, naquele começo dos anos 80?). Sendo assim, Paul McCartney ganhava imensa importância por ter sido parceiro de ambos. Além disso, eu aprendia que uma banda podia ter mais de um protagonista.
Essa constatação, porém, não bastou para que a febre da beatlemania me afligisse. Na época eu me dedicava a ouvir o que tocava no rádio — Michael Jackson, Ritchie (meu segundo maior ídolo de então), Blitz, Ultraje a Rigor, Paralamas — ou o que meu tio ouvia em seu toca-discos, principalmente Pink Floyd e Raul Seixas.
Anos depois, acho que já na segunda metade da década, começou uma onda de nostalgia dos anos 60. Teve novela sobre a época, programas temáticos, músicas em tom saudosista. Para coroar tudo, Twist and Shout ficou semanas no primeiro lugar de todas as paradas de sucessos, mais de vinte anos após sua gravação. Nem isso me incutiu a curiosidade de ouvir Beatles, mesmo porque eu não tinha toca-discos em casa, nem toca-fitas, nem dinheiro para comprar discos ou fitas. Twist and Shout viria a ser desbancada por Can’t Take my Eyes Off You, e isso encerraria a onda nostálgica.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=faVTixv81IQ&rel=1&w=425&h=355]

No começo dos anos 90 eu odiava Pearl Jam e considerava Nirvana apenas mais uma bandinha. Continuava fiel a Raul Seixas e Legião Urbana. Eu era um adolescente cristão e admirava tudo quanto era messias que me aparecia pela frente. Graças aos céus, descobri João Gilberto na época (principalmente por conta de um especial da Globo com ele e Tom Jobim), e meus conceitos mudaram. Comecei a ouvir música de outra forma e aprendi a tocar violão.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=guMek3_D6ls&rel=1&w=425&h=355]

Nas rodas de violão eu não fazia grande sucesso, já que não sabia tocar Evenflow nem Plush. Compensava tocando a horrenda More Than Words ou coisas como Nothing Else Matters. Beatles? Nem de longe. O pai de uma amiga minha era fã, e desfiava as virtudes vocais do quarteto. Eu ignorava. Para mim, a banda era — como foi até há pouco tempo — música incidental, trilha sonora de elevadores e restaurantes.
Passei a década de 90 inteira ouvindo MPB e quase mais nada. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Ney Matogrosso, esse povo todo me enchia a cabeça. Ouvia algum deles até cansar, e então voltava a João Gilberto. E assim foi até o ano 2000, quando resolvi prestar atenção no que estava acontecendo e percebi que, afinal, nem tudo que era novo era ruim. Oasis, Blur, Chico Science e Nação Zumbi, Planet Hemp, Raimundos, Radiohead, Coldplay, Belle & Sebastian, Strokes. Depois que comecei o blog, em 2002, intensificou-se minha busca pelo que era novo, por influência das novas amizades, tudo gente dez ou doze anos mais nova do que eu. Eu começava um caminho que, inevitavelmente, me levaria aos Beatles.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=t_at7lEGpjg&rel=1&w=425&h=355]

De 2002 para cá, tive fases de ficar dias ouvindo uma música no repeat. Eleanor Rigby e I am The Walrus foram dois mp3 que quase se gastaram. E então, há algum tempo, uma matéria muito mal escrita sobre Sgt. Pepper’s… na Rolling Stone me despertou a curiosidade de ouvir o disco. O que me fez desencavar um velho CD de mp3 e ouvir Magical Mistery Tour e Revolver. O CD foi morar no carro e eu comecei a ouvir tudo, tudo.
De tanto ouvir Beatles, e com uma força da Fer, que pirateou quilos e quilos de material, viciei. Quero ouvir cada nuance, cada som de prato de bateria invertido, cada acorde. Li um texto dia desses que dizia que os Beatles pegaram o rock’n’roll do ponto onde Elvis Presley o havia deixado e o levou até o imponderável. Eu acho que é mais do que isso. Eu acho que, a partir de Rubber Soul, cada disco é uma dica do que se pode fazer com o som inventado pelos crioulos americanos. Toda banda que veio depois dos Beatles acaba seguindo uma dessas dicas.
Fiquei um tempão pensando em termos de probabilidade: qual a chance de dois gênios como John Lennon e Paul McCartney nascerem na mesma cidade, na mesma época, compartilharem os mesmos gostos, tornarem-se amigos e fundarem uma banda? Isso me deu nó nos miolos até que eu pensei numa alternativa mais simples: nenhum dos dois nasceu gênio, nem era gênio quando começou. A parceria entre eles, tão louvada no mundo todo, era sensacional, mas não foi o que os tornou semideuses. Lennon e McCartney só começaram a caminhar na direção da genialidade quando começaram a concorrer entre si. Foi como uma pressão evolutiva, com cada um querendo superar a última composição do outro. Fico imaginando a cara de Lennon ao ouvir Eleanor Rigby e a cara de McCartney ao ouvir I am The Walrus. “Feladaputa…”, devem ter pensado. A Day In The Life, composição de Lennon, acabou sofrendo enxerto de um trecho composto por McCartney. É como se Paul tivesse chegado ao seu limite: a música era perfeita demais, não havia como superá-la, o jeito era inventar um complemento e torná-la melhor ainda. A morte de John Lennon foi triste para muita gente, mas duvido que alguém tenha sofrido mais do que Paul McCartney. Sem seu concorrente, sem seu outro, ele ficou capenga. Compôs coisas lindas depois, mas nada que sobrepujasse suas criações dos tempos dos Beatles.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=riOnVUJAo3k&rel=1&w=425&h=355]

Aliás, nenhum deles foi o mesmo depois do fim da banda, nem mesmo Lennon. Os quatro juntos eram muito maiores do que a soma dos talentos individuais. Muito se especula sobre a separação. Fala-se na intromissão de Yoko Ono, no inconformismo de George Harrison, na ganância de Paul McCartney, no tédio de Ringo Starr. Eu também pensava assim, até descobrir que o último disco gravado foi Abbey Road, e não Let It Be, como acreditei até então. Após essa descoberta, percebi que a banda acabou por desgaste natural. E, arrisco dizer, acabou na hora certa, no auge. Seria triste e patético ver os Beatles hoje (com algum filho de John Lennon substituindo o pai, talvez Eric Clapton no lugar de George Harrison) fazendo uma turnê caça-níqueis mundo afora. Pararam na hora certa, cada um ganhou dinheiro para o resto da vida, e as dicas que deixaram inspiram muita gente até hoje. Que descansem em paz, os mortos e os vivos.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=rLxTpsIVzzo&rel=1&w=425&h=355]