Há muito tempo eu alimento esse sentimento de amor e ódio por Caetano Veloso. Nisso não sou nada original: o sentimento causado pela beleza de suas canções em contraste com falas desastrosas aqui e ali acaba causando esse sentimento em muita gente. Já cheguei mesmo a dizer que ele era uma sombra sobre a música brasileira, e que todo artista surgido depois dele se sentia na obrigação de pedir-lhe a bênção. Fiquei incomodado com as incursões de Caetano no universo do Los Hermanos. E então veio o e o Som Brasil da última sexta-feira, na Globo.
Caetano está parecendo o Clodovil, é verdade. Fora isso, exibe vitalidade e energia incomuns para um senhor de 65 anos. Então percebo que não é culpa dele: ele dá um tempo para alguém surgir com algo novo. Como não surge, vem ele mesmo à frente da cena para refrescar o cenário musical de Pindorama. Com o fim do Los Hermanos, esse senhor de cabelos brancos passa a ser o maior expoente do rock nacional.
Todo mundo imita Caetano Veloso, só ele é diferente de si mesmo a cada instante.

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Acabo de ver Erasmo Carlos na TV. “Como está velho!”, dizem as pessoas. Não é que ele esteja velho. Gasto parece ser o termo mais exato, e não falo isso com intenção pejorativa. Vendo suas olheiras, seus ralos cabelos de algodão, suas rugas, a impressão que tenho é que Erasmo viveu demais. Todo mundo fala em viver intensamente, mas ninguém quer ficar com aquela cara. O arauto das palavras simples e certeiras é um ancião precoce.
Olhem para Roberto Carlos. O Rei está velho, sim. Mas é uma velhice serena, apolínea. Roberto é triste, mas tranqüilo. Erasmo parece possuído pela tristeza, parece um escravo da tristeza. Roberto pode cantar louvores a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, ou celebrar a eternidade do amor. Só Erasmo pode dizer “Minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente”. É como se ambos fossem uma só pessoa. Cabe à metade que é Erasmo Carlos carregar o fardo, sofrer, ter insônia, para purgar a gigantesca fama de seu Outro. Erasmo é a tristeza dos olhos do Rei.
Roberto Carlos é Dorian Gray; Erasmo é o retrato que envelhece na solidão.

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Leva eu, sodade!


Eu deveria estar dormindo, ou pelo menos escrevendo um capítulo novo (em breve, juro!). Em vez disso, estou aqui ouvindo belas canções de Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano, grupo vocal brasileiro dos anos 60 inspirado no gospel (o de verdade, não aquela xaropada neopentecostal). Alguns de vocês devem conhecer mais do que eu, outros podem lembrar-se do maior sucesso do grupo, Leva Eu, Sodade. A voz de baixo profundo nessa música é de Noriel Vilela, que mais tarde veio a gravar Dezesseis Toneladas, canção que se tornou hit durante o recente revival do samba-rock. Agora alguém vai dizer que a música é do Funk Como Le Gusta. Não acreditem: trata-se de uma regravação de segunda categoria. Vão atrás do artigo original, e entenderão o que estou dizendo. O timbre grave da voz do negão é inimitável.
Dezesseis Toneladas foi a razão de minha busca no Soulseek por mais canções de Noriel Vilela. Encontrei o disco Eis o Ôme, que traz várias músicas de macumba, entre elas a impagável Só o Ôme, receita de despacho apresentada a mim pelo Polzonoff há alguns anos.
Empolgado, saí em busca de gravações dos Cantores de Ébano. Encontrei dois discos maravilhosos, com canções de temáticas diversas — duas delas em inglês canhestro — mas todas com arranjos vocais de cair o queixo. Destaco Vai Lá Moisés, versão em português de um velho spiritual americano. É de arrepiar qualquer um que não seja indiferente aos mistérios da religião. Além disso, a abrasileirada da letra (Quando os judeus eram escravos / Sofreram mais que condenados / Então Deus disse: / Vai lá / Moisés / Lá dentro do Egito / Vá dizer ao faraó / Deixe meu povo ir) me fez lembrar com carinho dos tempos áureos deste blog.
Procurem os CDs por aí, ou baixem as músicas. Vale o esforço da garimpagem.

E leiam mais aqui, onde eu roubei a capa do disco.

O Jubilado comentou que o Carioca traz um Chico Buarque “… mais maduro, mais musical”. Como se ele tivesse gravado Construção em 1971, aos 27 anos de idade, e só reaparecesse agora, aos 63. Esquece-se o leitor que Chico Buarque gravou o bom Cambaio em 2001 e o excelente As Cidades em 1998. Era ele menos maduro então? Era nada!
Nego agora vai dizer que estou seguindo a modinha de falar mal de Chico Buarque. Num outro blog em que escrevo um sujeito falou em hype e sei lá o quê. Típico pensamento de gente besta: se tantos falam mal de Carioca, isso é uma modinha. Não pensam que pode haver uma outra razão, mais clara e simples: tantos falam mal porque o disco é ruinzinho mesmo.
Eu tenho todos os discos de Chico Buarque (não me canso de dizer isso), e esse último é, sem dúvida, o pior. Chico era um tecelão da canção popular. Em suas composições, a letra era a trama, a música era a urdidura. O resultado era — quase sempre — maior do que a soma das partes. Letra e música de Pedro Pedreiro, Construção ou Moto-Contínuo tomadas em separado não têm o mesmo valor que as canções completas. Em algumas ocasiões essas composições atingem a perfeição ao encontrarem o intérprete ideal — foi o que aconteceu com A Bela e a Fera gravada por Tim Maia (todo o disco O Grande Circo Místico é feliz nesse quesito, exceçaõ feita à sempre dispensável Simone).
Acabou-se o tecelão. Letra e música podem ser separadas, embaralhadas, jogadas no lixo. Parcerias com gente sem talento, como Carlinhos Vergueiro e Ivan Lins, apenas reforçam a impressão. Repetições fazem lembrar O Rappa. A letra de Ela Faz Cinema parece originada de um pagode dos mais safados.
Talvez fosse o caso de Chico Buarque tomar a decisão que adia há anos, de dedicar-se exclusivamente à literatura. A excelência de Budapeste lhe dá créditos para tanto. Um livro mais, ou dois. Depois, quem sabe, longe da obrigação de compor, ele possa reencontrar o velho tear.