Tem uma maritaca me olhando. Ela está pousada na árvore aqui em frente à janela. Passou um bando de maritacas voando e fazendo algazarra; essa resolveu ficar. Ela esfrega o bico nos galhos da árvore, às vezes corta um raminho, gira ele no bico e depois deixa cair. Talvez seja algum tipo de cuidado higiênico de maritaca, talvez seja uma maritaca com TOC, sei lá.
Meu pai ia gostar de ver isso. Seu Lindauro tinha prazer genuíno em ficar olhando as coisas da natureza, as “obras de Deus”, como ele chamava. Herdei isso dele. Lembro de um dia em que eu, Daniela, Risadinha e Tonon cruzávamos o Espírito Santo (a unidade da federação, que fique claro) de carro e. Depois de uma curva, me aparece o pôr-do-sol mais foda do mundo. Daniela dormia ao meu lado no banco de trás, acordei ela pra mostrar o pôr-do-sol. “Olha! Olha!”. Ela ficou bem brava. “É um pôr-do-sol, Marco, e daí?”, e voltou a dormir. Daniela é dessas pessoas de espírito prático. Admiro quem é assim, queria ser assim, mas não adianta: sou igual ao meu pai.
Olhando para a maritaca (que agora trocou de galho), fico desejando que meu pai estivesse aqui. Não faz sentido: mesmo que estivesse vivo, ele não estaria aqui-aqui, na produtora. Mas domingo eu ia poder contar pra ele que uma maritaca pousou na árvore em frente à minha janela no trabalho. Ele ia ficar muito feliz.
Mês: outubro 2010
Insônia
Eu precisava dormir, mas não consigo. Fico esperando o telefone tocar com mais alguma má notícia.
É uma merda viver assim, eu lhes digo.
Ana Júlia explica
Ana Júlia, vocês já deviam saber, é minha sobrinha de 6 anos. Ontem eu fui à casa dela e estávamos conversando sobre os recentes acontecimentos. E ela:
— Tem uma coisa que Deus me contou. É meu último segredo.
— Quando Deus te contou?
— Quando eu tava dormindo.
— Ah, foi sonho.
— Não! Ele me conta as coisas quando eu tô dormindo.
— Tá bom. Qual é o seu último segredo?
— É assim: quando alguém tá no médico, no hospital, e a gente fala “vai viver”, a pessoa morre. Se a gente fala “vai morrer”, a pessoa vive.
— Ué. Mas por que é assim, ao contrário?
— Porque sim, ué. Todo mundo falou que o vovô ia viver, ele morreu. Todo mundo falou que o Vilazo ia viver, ele morreu.
— Mas quando a Ana Carlota foi internada, eu falei que ela ia viver e ela viveu mesmo.
— É que não funciona sempre. Às vezes a máquina quebra.
— Ah, tem máquina disso também? Achei que era só a máquina de fazer cabelo. Aliás, meu cabelo continua a mesma coisa.
— É que a máquina não tá funcionando ainda.
— Como é a máquina de fazer cabelo de Deus?
— Quando você morrer… — aqui ela corrigiu às pressas — quando qualquer pessoa morrer, aí vai ver. Só que eu já vi no meu sonho. Ela é preta, azul, verde, vermelha, amarela e branca. Aí a pessoa põe uma touca de homem que tem um cano que liga na máquina. Aí vai fazendo o cabelo.
— Ah… E só tem essas máquinas no céu?
— Nãaao… Tem máquina de fazer bicho, de esquentar o sol, de tudo.
Deve ser legal, o céu.
Evilázio
Evilázio era o nome do meu tio. É o tipo do nome que ninguém mais dá aos filhos. Eu o chamava de Vilau quando era pequeno. Meus irmãos e os primos chamavam de Lalau. Depois de grande, passamos a chamá-lo como todo mundo: Vilazo.
O Vilazo usava sabonete Phebo, tomava água de moringa em caneca de alumínio, teve um jipe Willys, gostava de pescar — tudo coisa que eu imitei (o jipe eu ainda vou ter). Vendeu galinha a vida toda, dirigiu muito caminhão de galinha Brasil afora. Lembro de umas duas ocasiões em que ele trouxe tatu de uma viagem. A gente passava o sábado brincando com o tatu, se afeiçoava ao bicho, e no domingo ele ia pra panela. A gente comia, que jeito? O Vilazo andava pelo mato, via um riacho, via o mar e dizia: “Dá pena a gente morrer e deixar tanta coisa bonita pra trás”.
Talvez tenham sido as galinhas o vetor do fungo que matou meu tio. Meningite fúngica é coisa muito rara, e quando acontece é com pacientes de HIV. Ele não tinha HIV, nem câncer, nem nada. Mas teve a meningite, ficou quase três meses no hospital. Melhorou, piorou, fez uma cirurgia de altíssimo risco, sobreviveu a ela, vinha melhorando. Morreu ontem de madrugada, nove dias depois do meu pai.
Dói. Eu não entendo.
Nova coisa
Depois de tudo, resolvi que era hora de abandonar meu antigo blog. Não é que meu pai se importasse com minha sátira da Bíblia: ele até recomendava a leitura aos irmãos da igreja. Mas eu passei a vida inteira vendo meu pai lendo a Bíblia — não foi por outra razão que me tornei, a meu modo, um estudioso das Escrituras — e não quero ser lembrado agora como o cara-que-tira-sarro-da-bíblia.
Comecei outro blog, então. Aos poucos, vou importando coisas do blog antigo. A sátira da Bíblia ficou no passado.
Conversa com minha sobrinha
— Juju, por que seu cabelo tá ficando liso?
— Porque eu pedi.
— Pediu pra quem?
— [cochichando] Pro Deus…
— Ah, entendi…
— Por que você não pede pra ele te dar cabelo?
— Por que você não pede?
— Tá. [olhando pra cima] O Marco, que é esse aqui, ó, quer um cabelo bem grande. Tá bom? Quê? Quebrou a maquininha? [falando comigo] Marco, quebrou a maquininha dele de fazer cabelo.
— Tudo bem, Juju.
— Não, mas eu posso pedir um cabelo pequeno. [olhando pra cima de novo] Pode ser um cabelo pequeno, então? Oi? Não, igual o do Beto. O Beto é aquele que tá com camisa de pessoas*… Tá bom. [falando comigo] Eles vão fazer um cabelo pequeno pra você.
— “Eles”, quem?
— O Deus.
— E quem mais?
— E os anjinhos. E o vovô.
*O Beto é meu irmão mais novo. Hoje ele veio com uma camiseta cheia de carinhas estampadas. Camisa de pessoas, portanto.
Meu pai
(Seu Lindauro)
Uma das lembranças mais antigas que eu tenho é de brincar de aviãozinho com meu pai. Ele se deitava no chão, eu apoiava o peito na planta dos pés dele e ele me erguia no ar com as pernas: primeiro me segurando pelas mãos, depois me deixando solto lá em cima. Eu devia ser bem pequeno, porque a impressão que eu tinha era de estar muito alto, equilibrado sobre as pernas esticadas do meu pai. Eu morria de medo de altura, deveria ter medo dessa brincadeira também. Mas ele dizia que não tinha perigo e eu confiava nele. Meu pai não mentia.
Um infarto levou meu pai embora no sábado de manhã. Não consigo acreditar até agora. Estou aqui na casa da minha mãe. Viemos almoçar, fazer companhia a ela e uns aos outros. Esta é a hora em que ele entraria aqui me trazendo uma xícara de café. Meu pai fazia um café muito bom e sabia a quantidade de açúcar exata que eu gostava.
Muita gente apareceu para o velório e o enterro. Muita gente mesmo. Todo mundo gostava muito do meu pai. Ele não xingava, não reclamava, não sentia ódio. Estava sempre sorrindo, trabalhava assoviando. Quando alguém se queixava de problemas, ele estava sempre pronto a aconselhar, confortar. “Deus proverá” era o bordão constante dele, que ele proferia com uma convicção que fazia qualquer um acreditar. Todo mundo se lembrou disso no fim de semana. “Deus proverá.”
Paciência e fé eram duas virtudes que meu pai tinha de sobra (e que me faltam). As pessoas pediam para ele falar com Deus sobre elas; era como se ele tivesse privilégios de atendimento no céu. E devia ter mesmo. A relação dele com Deus era constante e muito próxima. Lembro dele pegando um filé de peixe empanado e colocando no meio do pão. “Quando eu como pão com peixe, lembro de Cristo quando multiplicou os pães e os peixes.” Ele falava assim mesmo, “lembro”, como se tivesse estado lá. Ele via aquela multidão toda comendo sanduíche de peixe, e se sentia perto deles ao fazer o mesmo. Quando via um arco-íris, ele se lembrava de Noé desembarcando da arca.
Meu pai era da Congregação Cristã do Brasil, que tem costumes diferentes das outras igrejas protestantes. Homens e mulheres sentam-se separados durante o culto. As mulheres usam véu na cabeça. Meu pai foi batista a vida inteira, mas foi para a Congregação há coisa de quinze anos. Acho que foi bom: ele se tornou mais tolerante (tolerava até um filho ateu), mais confiante em Deus (se é que era possível). O pessoal da Congregação alugou um ônibus para ir ao velório. Fizeram um culto muito bonito lá. Cantaram hinos, oraram pedindo conforto para nós, os familiares e leram o Salmo 15:
Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem poderá morar no teu santo monte?
Aquele que é íntegro em sua conduta e pratica o que é justo, que de coração fala a verdade
e não usa a língua para difamar, que nenhum mal faz ao seu semelhante e não lança calúnia contra o seu próximo,
que rejeita quem merece desprezo, mas honra os que temem ao Senhor, que mantém a sua palavra, mesmo quando sai prejudicado,
que não empresta o seu dinheiro visando lucro nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim procede nunca será abalado!
Parece que Davi escreveu isso pensando no meu pai. O ancião da igreja disse que Cristo vai crescendo dentro do cristão, até que ocupa todo o espaço e o cristão não tem mais nada a fazer por aqui. Ouvir isso me fez querer ter fé novamente. Foi isso que aconteceu com meu pai: ele ficou tão parecido com Jesus Cristo que já não cabia aqui na Terra.
Eu precisava escrever sobre meu pai, sobre a morte dele; escrever sempre me trouxe conforto. Mas estou aqui escrevendo e a dor só aumenta. Ele foi embora muito de repente, muito jovem. Fico lembrando de quando ele chegava do trabalho trazendo broas de milho embrulhadas em papel amarrado com barbante — como eu gostava daquelas broas! Eu abraçava ele apertado e respirava fundo para sentir o cheiro dele; um cheiro bom que só ele tinha, um cheiro de meu-pai-chegando-em-casa. “Que o pai trouxe?”, nós perguntávamos quando ele chegava, e ele sempre trazia alguma coisa: as broas, um pão doce, um brinquedinho besta. Lembro dele aos domingos saindo no quintal para nos ver chegar, recebendo todo mundo com alegria, ajudando minha mãe a por a mesa para o almoço. Como estava feliz! Os filhos todos encaminhados, a neta de 6 anos crescendo saudável, linda e inteligente, os netinhos gêmeos cada vez maiores e com os olhos mais azuis. Agora eu fico aqui esperando ele chegar, esperando ouvir a voz dele, sentir o cheiro dele. Só que eu sei que isso não vai acontecer, e me sinto vazio. Meu pai era minha referência na vida. Sem ele, não sou nada.
Um post todo torto para declarar meu voto
Antes que o presidente Lula venha acusar este blog de omissão (sei lá, até dia desses a Abin acompanhava o JMC) ou que os blogueiros progressistas (aquele pessoal que vive caçando uma teta estatal) me enfiem no saco da tal mídia golpista, declaro logo meu voto: no segundo turno, vou de José Serra.
Blé.
Saudade de 2002, quando eu sabia bem o que queria. Foi a última vez que votei de verdade. Os leitores que estavam por aqui já naquela época vão se lembrar de minha campanha ativa pela eleição do Luiz Inácio. Eu fui à posse do Luiz Inácio. Eu sou uma besta.
Veio o mensalão, que muita gente tratou como só mais um escândalo de corrupção. Eu vi o mensalão como coisa mais séria: quem tramou aquilo não dá a mínima para democracia, instituições, divisão entre poderes. Quem tramou aquilo quer mais é foder com tudo e comer a gente na rua.
Eu, hein.
Em 2006, anulei tudo. Entre Lula e Alckmin, eu queria mais é que se lascassem os dois. Este ano, não deu. Dilma ameaçava ganhar no primeiro turno. Dilma, uma mulher sem passado nenhum, sem experiência nenhuma e, vamos falar a verdade, burrinha que dói. Lula é ignorante e grosseiro, mas nunca foi burro. Botar gente burra no poder é um perigo. Gente burra é muito manipulável (eu sei do que estou falando, já fui muito mais burro do que sou hoje). Gente burra acha que está decidindo quando a decisão foi tomada na véspera e sem consulta. Pior de tudo: gente burra é chata pra caralho.
Então fiz minha parte para levar a eleição para o segundo turno: votei em Levy Fidélix. E agora, como eu dizia, vou de José Serra. Tenho orgulho disso? Não. Não gosto do PSDB, acho um partido besta. O vampirão é teimoso, autoritário (já falei da lei antifumo aqui) e feio que dói. Mas a alternativa me assusta muito mais. Dilma é mais teimosa e mais autoritária — só não digo que é mais feia porque aí a briga é acirrada. Dilma não responde perguntas. Dilma é um boneco de ventríloquo. Dilma é autoritária daquele jeito meio atravessado da esquerda, que finge que não é autoritário enquanto te pisa na garganta — Lula e Zé Dirceu (epa) já deram o tom do que vai ser a liberdade de imprensa no que depender deles.
Em 2002, eu sabia exatamente o que era melhor para o país. Hoje eu não sei nada de nada. Lá vou eu, pois, apertar o tal do 45 dia 31 de outubro. Vai ser um voto sem graça pra danar. Zé Serra não me diz muita coisa. Não é um cara que eu convidaria para entrar na minha casa, se é que vocês me entendem. Se eleito, vai passar quatro anos ali sem feder nem cheirar — talvez ainda pegue mais quatro anos, vai saber. Ainda prefiro isso à Dilma.
O que eu queria mesmo era o Levy Fidélix.
Não.
O que eu queria mesmo era que essa história do Laerte fosse verdade:

